Era para ser Isaac e Ismael, os filhos de Abraão. A religiosidade da mãe cuja sombra da esterilidade a conturbou assim impusera. Quem dera. Os ateísmo e comunismo do pai Otto fizeram com que preferisse atribuir homenagem aos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, amamentados por loba mãe, consoante à etimologia do sobrenome do clã, ao nomear seus filhos gêmeos. Rômulo (Eriberto Leão) e Remo (Otto Jr.) cresceram juntos em desacordo. O mesmo desacordo que fez Isaac “lançar pedra” na cabeça de Ismael. Aos dezoito anos, com o coração aberto para “grandes novidades” e fechada para “pequenas antiguidades” sob determinante influência de velho hippie que enfrentou a lama de Woodstock e viu o dedilhar vivo e feroz de guitarra de Hendrix, sem ter deixado de devorar o legado dos “beatniks” Jack Kerouac e Allen Ginsberg, além do poeta William Blake. Rômulo foi apresentado solenemente a um mundo novo supostamente admirável. Abandonou o tédio, a família, o “nada”. Roubou o vil metal que nos é essencial do suor daqueles que compartilhavam o mesmo teto. Descobriu-se escritor. Suas ideias pululavam, e fincaram raízes em 23 “brochuras” que jamais poderiam ser lidas pelos “lobos que o amamentaram”. Língua estranha em páginas numeradas. Fosse em Londres ou no alto da cabeça de um anjo de Berlim, como se em filme de Wim Wenders estivesse, “Asas do Desejo”, o desbravador de letras abriu suas veredas por entre as capas e sobrecapas dos livros que passou a escrever. Sua mente o traiu. A ideia sumiu. O escritor sentiu dor. E a chave grudada na carteira de identidade dilacerada era a ponte para a “volta ao lar de Pinter”. Entrementes, a vida foi inclemente com Rosália (Betina Viany) lhe dando a demência que só as borboletas compreendiam. O pai Otto feneceu, e no jardim regado sempre fora cuidado. Liza (Renata Brida), veterinária, primeiro amor de Rômulo, talvez tenha optado tratar os animais bichos, pois os animais homens não têm tratamento cabível. Casada há anos com Remo, entristece-se por não ver o seu ventre crescer. Um casamento em desalinhamento. Remo é mecânico, ofício herdado do pai, conhecedor emérito da “mecânica das lambretas”. Há uma linda “lambreta” Harley-Davidson que para atingir a sua majestade lhe falta a peça “borboleta”. Rômulo com cigarro na boca, existência em bancarrota, retorna para o seu “rebanho sem pastor”. O jardim onde o pó do pai dorme virou refém e testemunha de traições, perdões e não perdões, cobranças pelas fuga e andanças, incesto involuntário, e a sopa que se bebe vagarosamente. Com isso, o dramaturgo Walter Daguerre imbuiu-se de sua vasta sabedoria cultural amparado por referências várias, sua indiscutível e arrebatadora habilidade em transformar uma situação viável num panorama logicamente contextualizado numa narrativa teatral, a que se deu o nome de ” A Mecânica das Borboletas”. E para pôr no tablado todo esse ideário acerca do ininteligível comportamento humano, o aclamado diretor Paulo de Moraes recebeu honrosa “convocação”. Com o seu mais do que costumeiro senso de percepção espacial e visão de planejamento coerente do conjunto cênico, Paulo estudou cada detalhe de ocupação do palco, embate temporário ou definitivo, “puxando e repuxando” com a proeza de exímio encenador a recôndita emoção da matéria física dos intérpretes. Eriberto Leão constrói Rômulo com milimétrica e exata doses de amargura, culpa, desejo suplicante de redenção, dualidade no proceder, indignação ideológica, defesa irrefreável de suas verdades e compaixão seguidas por postura incisiva nos instantes rogadores de sensações e posicionamentos do escritor não mais inspirado que a tudo o que observa anota em bloco de notas, que se refestela em chão, lânguido, e cantarola música dos The Doors. Betina Viany, com agudeza cognitiva necessária obtém amplo sucesso na constituição de sua Rosália, em que mostra ao público o quanto pode ser dolorido quando o nosso entendimento do mundo é corroído pela demência. A patologia psíquica a faz viver em condição existencial paralela, que mesmo desta forma não a exime da cruenta realidade envolvente. Renata Guida, convicta e provida das qualidades sedutoras de boa atriz, busca um atalho próprio para Liza, fazendo desta uma mulher por vezes estoica, sofrida, carente, infeliz no campo afetivo, sem no entanto deixar de demonstrar lampejos de esperança, solidariedade e candura. Otto Jr., como Remo, é um ator que absorve de modo pleno todas as características atinentes ao mecânico que se prendeu ao comodismo e rotina de sua vivência, à “prisão” de união instável com sua esposa, à preocupação em preservar o mínimo de estrutura do núcleo familiar, mas que no fundo mantém um avassalador desejo libertário de si mesmo. Um elenco de alta qualidade que defende com bravura o conjunto das intenções dramáticas, porém com certo viés otimista, da dramaturgia de Daguerre. O cenário de Carla Berri e Paulo de Moraes é de uma beleza seca, real, enternecedora, que se alterna de maneira criativa nos planos superior e inferior, respectivamente o “ideal”, o “sonho” e a concretude sem solicitude do convívio social. Um carro sendo aos poucos montado, carcomido pelas “rugas de ferro”, semelhante à jipe “guevariano” com seus faróis ofuscantes que possuem a força de um discurso político sem sofismas. Um jardim dianteiro que nos lembra ter “brotado” de um livro romântico de contos de cabeceira, no qual descansa o “gigante adormecido patriarcal” Otto. As duas borboletas que o sobrevoavam querem dizer: – Não se esqueçam da sincronicidade… 16 de junho! A data em que o ciclo começou e se fechou para que outro fosse reiniciado. A rústica mesa de madeira “cansada de guerra” e suas companheiras cadeiras (ou banquetas), onde se degusta a sopa quente que “aquece a mente”. A pia da cozinha na qual nasce o que se come e o que se bebe. A caixa de ferramentas cuja única “ferramenta” inexistente é aquela de que mais precisamos, ou seja, a que consertaria os nossos erros. Por uma curta escada, chega-se ao segundo andar, e deparamo-nos com a “star” Harley. Imponente, esbelta, brilhante, com seu manto sagrado vermelho metálico. Por detrás do palco, uma enorme janela semicircular subdividida em esquadrias revestidas por material translúcido que causa significativo impacto cenográfico. A iluminação de Maneco Quinderé não se inibe nem um pouco em reafirmar sua precípua função num espetáculo teatral. Ela “afaga” o verde. “Abre os braços” para “fade in” e “fade out”. “Perde-se em paixão” por um plano aberto, cuja “abertura” não nos machuca os olhos, muito pelo contrário, acarinha-os, transitando entre o onírico e o realismo. Luzes transversas como flechas. Sombras retóricas que servem para exclamar que “onde há luz há sombras”. Os já citados faróis do carro que se recusam a serem coadjuvantes. Tudo valorizado por um “fog” nada esnobe. Um “fog” não londrino como se fosse hino da anunciação do mistério teimoso que monitora os nossos passos. Os figurinos de Rita Murtinho escolhem apropriado e racional caminho que naturalmente se coaduna com toda a essência do enredo proposto pelo autor. A rebeldia enraizada de Rômulo na sua permanente tentativa de reconciliação com o seu passado é desenhada por casaco de couro, calça, tênis e gravata com respeito ao desleixo de um… rebelde; a dona de casa Rosália, simplória com a altivez das “rainhas do lar”, cuja inteligência sofreu abalos irreversíveis diante da implacabilidade do destino ou algo similar, traja prosaica saia, calça por baixo, blusa e um xale para ocasiões especiais (uma simplicidade pertinente e por isso mesmo adequadíssima ao papel de Betina); já a Liza de Renata Guida nos remete ao atual, moderno, contemporâneo e casual, sem ser extravagante, utilizando-se de saia longa, blusa com gola larga que se aproxima dos ombros, e botas de cano alto; e Remo, como mecânico, não poderia deixar de usar o indefectível macacão sobre t-shirt, contudo em sua fase libertadora nada como um signo que é uma jaqueta para indicar o seu estado recente. Rita é cumpridora de reinante premissa outrora dita para nos deixar ambientados com a sinopse que a nós se apresenta. A trilha sonora original de Ricco Viana é em sua maioria incidental, não menos ligada à racionalidade ou à emoção, sublinhando cenas em que se clamam o tenso, a placidez, o suspense, o cotidiano, um romantismo utópico no dramático painel de nossas missões terrenas, cujas utopias nos cospem nos rostos sem pedir licenças. Culmina com a célebre canção “Al Otro Lado del Río” (de Jorge Drexler). Por que será que nunca há um barqueiro que não seja devoto da usura e nos leve sem perguntas para conhecer “o outro lado do rio”? Como nos é normal pensarmos que este “outro lado do rio” seja bem melhor. Todavia, Remo “encontrou o seu barqueiro”. Provável que aquelas duas borboletas o ajudaram (e mais uma terceira, a peça que faltava para a Harley), para enfim dar o seu grito de liberdade, o seu “freedom”, ouvir os conselhos de Kerouac, e seguir “on the road”!.
Categoria: Teatro
-

Foto: Joana Mendonça e Bernardo MendonçaNo princípio era o Som… circense. Um tão belo quanto desolador camarim de um solitário palhaço. O mesmo vazio que encontramos no espaço sagrado do bufão é aquele encontrado no nosso “picadeiro” chamado vida. Somos todos “palhaços artistas” que riem, sorriem, choram, deploram, pulam, caem e se esvaem. Quantas cambalhotas damos enquanto vivemos? Aplausos e vaias que sofremos? Porém, sobrevivemos. O lindo texto do dramaturgo brasileiro Timochenko Wehbi “Palhaços”, dirigido com precisas emoção e sensibilidade cênicas por Alexandre Bordallo (direção de palco de Helder Bezerra), é protagonizado brilhantemente por Claudio Tovar e Thiago Detofol, e destrincha e esquadrinha a não fácil experiência humana, a nossa jornada insana, a nossa gana vã nos estertores do limite do suportável, na pele maquiada ou lavada do palhaço Careta (Claudio Tovar), o homem José. Seu Careta nos representa, não inventa. A maquiagem que usa em sofrido rosto é semelhante a que usamos em nossos próprios, atrapalhando a respiração dos nossos poros. A tinta inclemente escorre entre os sulcos nossos sinuosos ou retos de cada dia que circundam olhos que veem as vadias vias que somos obrigados a trilhar. Sulcos “cultos”. Abrem-se as cortinas do “palco” de José, e adentra Benvindo (Thiago Detofol). Seja bem-vindo Thiago! Adentra o admirador e fã do indivíduo que calça sapatos com guizos prateados que deixam rastros de música quando pisam. Benvindo é moço ingênuo, sonhador, “feliz”, alguém que parece ter saído de um filme de Capra. Não acredito que “de ilusão também se vive”. Benvindo “compra a sua felicidade” mexendo em pés suados, pouco arejados, e nestes colocando pisantes nem sempre brilhantes. O vendedor de sapatos galga degraus para atingir o que considera o “topo”. Quer a “gerência de sua vivência”. Configura-se um pugilato num ringue abstrato. Um jogo ácido, tortuoso e torturante, cáustico, fascinante em diálogos e embates cortantes, compostos por perguntas e respostas dilacerantes, entremeadas por silêncios gritantes, e vez por outra ouvimos vozes mutantes acompanhadas de olhares eloquentemente penetrantes travados no sacro “tabuleiro” colorido no qual se refugia o doído palhaço. Filosofa-se sobre o que é ser artista. Sua validade e pouca validade. A sua suposta marca da maldade. A saudade do que parte. O coração em disparate. Tudo é compreendido e “traduzido” com ampla visão sabedora do que Timochenko almejava nos dizer, por meio de direção “sensitiva”, sagaz e capaz de Alexandre Bordallo. Alexandre se aprofunda nos substratos da difícil arte de viver. Conduz com delicadeza a grandeza dos intérpretes que a ele se apresentaram. Se existe a excelência na carreira de um ator, Claudio Tovar atingiu a sua. A sua “gerência”. Seu Careta é duro, frágil, chora por dentro e por fora, direto, objetivo e sábio. Só um Claudio sábio o saberia fazer. Thiago Detofol é límpida nascente de talento. Um talento que como rio corre solto, e desemboca em foz de brilho jovem. Os cenários (execução de Andre Salles) e figurinos (execução de Schirley Nascimento) de Claudio Tovar são magníficos na generosidade com a beleza e a pureza dos detalhes. Tanto os primeiros quanto os segundos remetem a um glorioso rococó. Se a história se passa num circo, há que se ter magia. Há magia na penteadeira cujas lâmpadas nos iluminam às escâncaras. O mágico está no baú que guarda os segredos encobertos, no idílico tapete como se mãos de Arthur Bispo do Rosário o tivessem bordado. No cabide, e na ode aos eméritos fazedores da prazerosa gargalhada, como Chico Anysio, Dercy, Chaplin, Chacrinha, Carequinha, Zezé Macedo, Oscarito, Grande Otelo, Arrelia, Torresmo, Pimentinha, Golias. Todos gigantes em terra de gigantes. O que Claudio e Thiago vestem é encantador aos olhos pedintes do encanto. Ultrapassam a qualidade do primor com o seu frescor. Chapéus, cartola que voa de mão a outra, botões, lantejoulas, brilhos e retalhos em concórdia. A paz do bom gosto. A luz do iluminado Aurelio Di Simoni é impositiva no mais alto grau da percepção do poder absoluto do claro, do romantismo da sombra e da meia-luz que seduz, da significância dos pequenos focos luminares como se estivessem dispostos em tropa vencedora no “front”. O trabalho de corpo de Thiago Detofol é um honroso e meticuloso orquestrar de movimentos dizedores, provocadores, oradores, delgados e tênues da matéria física no plano aberto do parlatório da arena que nos acena. A direção musical de Claudio Lins tem por fins o endeusamento à melodia do circo, “a casa de lona”, que remete ao “Grande Circo Chapliniano”, e as trilhas incidentais instigantes, tensas, dignas de “thriller” sob os “acrobatas voadores”. A produção de Thaty Taranto cumpre papel de liderança na esperança de colocar o teatro em “oratório” merecedor. “Palhaços” é peça que nos comove, e remove os nossos “calos”. “Palhaços” nos “calça” com sapatos folgados. Caminhamos com pés livres, felizes, mais aprendizes do que nunca. E voltamos enfim para o nosso “picadeiro”.
-
Se um dia o consagrado romancista e poeta irlandês James Joyce escreveu “Retrato de Um Artista Quando Jovem”, a dramaturga Carla Vilardi, antes promessa agora estabelecida como uma das representantes de nova geração que expõe seus pensamentos, criatividade e emoções numa narrativa teatral, escreveu “Brainstorming Anônimos”, que retrata artistas quando jovens. Um retrato de artistas quando jovens enfrentando altivamente seus dilemas e problemas de um difícil “poema”, cujos “versos” ditam sobre o “ser ator”. Sim, o “Ser Ator” de Laurence Olivier. No entanto, Carla em sua peça discorre não somente acerca das vicissitudes e solitudes em sua plenitude de um “operário das Artes”. Fala-se, com certeza, sobre este, contudo fala-se também de modo magistral do enorme e complexo panorama juvenil com toda a sua “tempestade” de sonhos, sentimentos emotivos, fraquezas, miudezas importantes, grandezas irrelevantes, dores cortantes, prazeres desconcertantes, amores possíveis e impossíveis, e o beijo que não foi dado. De forma arguta e inteligente, 7 atores que se desdobram em 49 personagens no alto florescer de suas juventudes “servem” como símbolos indispensáveis que trilham caminho inóspito e pedregoso, onde há cacto espinhoso e lírio formoso, em busca da palavra que resume toda uma existência: o sonho. Carla Vilardi, Luca Pougy, Ricardo Vianna, Pedro Aquino, Lu Rocha, Mari Pizzo e Victor Paes Leme, signos da força moça do palco, exploradores e desbravadores dos seus interiores, dos seus íntimos ínfimos e infinitos, desejosos de colocar pés bem esculpidos pelo Criador no tablado sagrado, venerado a que chamamos teatro. Aquilo que atormenta e alimenta cabeças iniciantes no ciclo vital “sofrem” estudo rigoroso e completo, e acreditem, divertido e leve, no espetáculo assistido. Usando sagazmente a figura da metalinguagem, intérpretes que respondem ao chamado do outro por números (Ator 1, Ator 2…) rabiscam não um esboço, desenham com ponta de lápis na sua mais fina constituição acontecimentos inolvidáveis, memoráveis, esquecíveis e desprezíveis das fases infantil, adolescente e adulta. A amarga dor que se carrega causada pelo desprezo de um beijo numa “ingênua” brincadeira de “salada de fruta”. A traição semelhante à punhal nas costas vindo de “amiga” que rouba de outra o amado em dia mundano e leviano de Carnaval. A eterna incompatibilidade das preferências masculinas e femininas. O perfilar dos arquétipos dos homens que fogem de modo inapelável da condição de “príncipe encantado”. As mulheres não querem um fanfarrão, tampouco um narcisista. As mulheres até admiram um gay, mas este não lhes pode oferecer o prazer físico, “apenas” o amor de uma sincera amizade. O “nerd” mesmo que o percebam, não as complementa. Malditos “games”, maldito futebol que atrapalham as relações. Não há livro de autoajuda que dê solução. E onde está o “ser ator” nesta “caleidoscópica caldeira”? Dizem que “querer é poder”. Nem sempre podemos. No entanto, quem arrebatará o consistente desejo de sonhar? O desejo de se viver de Arte? Não há repreensão e opressão dos pais, não há preconceito com a profissão, não há prepotência e arbitrariedade de alguns poucos “profissionais” dirigentes que demovam dos sonhadores aquilo que tanto almejam. Se empurrarmos com mãos espalmadas as portas que insistem em se manter fechadas, elas se entreabrirão. Entrem pela fresta. É o que resta. E o que dizer da fama? Fama insana, bacana, que dá grana, desejável, benfeitora e malfeitora. Fama que nos traz amigos não amigos e inimigos declarados. Não briguem com os jornalistas, pois eles podem dar pistas das coisas que não devem ser vistas. Ame. Ame o outro. Ame o próximo. Ame o igual e o desigual. Luca, Carla, Victor, Mari, Pedro, Lu e Ricardo esplendorosamente aceitam a hábil, sabedora e longe de admoestações direção de Bia Oliveira (Linda Gomes é a assistente de direção). Bia reverencia o drama, a introspecção, o intimismo, não se esquecendo da “explosão”, da boa “tempestade”, da leveza, do lúdico e da comédia. É a Bia que cria. A atuação de Carla Vilardi é doce, bonita, inquisidora, pensadora, filósofa e meiga. Luca Pougy é forte, sensível, seus olhos brilham, os caracóis dos seus cabelos são Sol que dá luz à cena. Grande ou pequena. Quando Luca sorri, corações nossos sorriem. Quando fica sério, continuam a sorrir. Luca nasceu para sorrirmos. Victor Paes Leme, moço com brancura e esbelteza, versátil, não esconde (para que esconder?) a sua nata expressividade. Pedro Aquino é uma “máquina” de interpretação sem botão de “stop”. Não existe botão que desligue o seu extravasamento de humor e carga emotiva. Seu corpo fala em vários tons. Todo o elenco fala em vários canoros tons. Ricardo Vianna, beleza pictórica que exclama, que clama, que grita o seu valor inegável de ator. A verdade de seus olhos azuis não me deixam mentir. A atriz Lu Rocha possui olhar que com simples e tênue movimento nos diz tudo. Todo o roteiro num olhar. Menina mulher tenra, densa, brava e delicada como rosa regada. Mari é uma graça em estado de graça, silhueta lindamente delgada, exponencialmente idolatrada, branda, franca, que tem benquerença pelo público. Eles cantam. Eles cantam Gonzaguinha em jogral. Cantam as “estações de Cássia”. Movimentam-se “total”. Mérito de Igor Pontes (preparador de elenco e diretor de movimento). Igor executou com classe e requinte a sua função. Nossos ouvidos vulneráveis a qualquer ímpeto foram surpresos pela bela e inefável voz de Bárbara Dias que entoa admirável canção original. Os figurinos e cenários de criação coletiva são enxutos, práticos, pertinentes e elegantes. Os corpos de cada um são assaz valorizados por um “blackout” básico nas cores, ou seja, a predominância do preto nas calças “fuseau”, saruel, e de malha, além de t-shirts e regatas. Entretanto, irrompe o colorido em “trench coat” vermelho e acessórios. Deparamo-nos com a sisudez dos ternos e um sobretudo digno de Oscar. O cenário é negro, um negro vivo, com araras, tamboretes, cestos, cabide, e cadeiras tão vivos quanto. A iluminação é generosa, faz-nos contemplativos. Uma eloquente luz aberta que “escancara” a cena. Um foco educado que faz carinho no rosto do artista. Sombras oblíquas que embelezam, um arco-íris mesmo que não tenha chovido em manhã ensolarada. A trilha sonora é envolvente, remete-nos ao plangente. “Pais e Filhos” da Legião. “O Que é, o Que é?” de Gonzaguinha, Phil Collins… Uma música própria de “thriller” em momento magnífico de diminutas lanternas a iluminar faces quietas, plácidas e gritantes. Os adereços não têm preço. Almofadas, bichinho de pelúcia, bengala e copos que faíscam cores. A peça pode ter acabado. Acabado é passado. Agora é que começa. Começa à beça. Começa à beça para Bia. Para Carla, Luca, Mari, Ricardo, Lu, Pedro e Victor. Meninos e meninas a quem os holofotes jamais lhes negarão um beijo. Ouçam este humilde e sincero conselheiro: “Vivam e não tenham a vergonha de serem felizes e atores. Pública ou anonimamente, pública e anonimamente. Não abram o guarda-chuva quando surgir a “tempestade”, não se protejam da chuva que abate. Deixem que suas mentes sejam molhadas e encharcadas pela Arte. Tornem público o seu ‘Brainstorming’!”.
-
Conhecemos a favela pelas páginas dos jornais, pelos noticiários e reportagens de televisão, porém nada é comparável a se entender melhor o mundo das comunidades ao vê-lo retratado nos palcos de um teatro. O espetáculo “Favela”, cujo texto é de Rômulo Rodrigues, e direção e idealização de Márcio Vieira traça um amplo e genérico painel do cotidiano, dos comportamentos, conceitos e preconceitos daqueles que constroem suas vidas nos locais fundados nos morros cariocas pelos soldados que lutaram na Guerra de Canudos (ao término do embate no arraial de Canudos, Bahia, rumaram para o Rio de Janeiro, e por não receberem mais o soldo que lhes garantia a sobrevivência, alojaram-se no atual Morro da Providência, que antes era chamado de Morro da Favela, existente na citada Canudos; o termo “favela” refere-se à planta típica daquela região, e consolidou-se como indicativo dos novos padrões habitacionais a partir da década de 20). O celebrado livro de Zuenir Ventura, “Cidade Partida”, teceu em páginas de que a “Cidade Maravilhosa” era “dividida”, sendo como precípua motivação a desigualdade socioeconomica. Entretanto se formos além dos arquétipos e estigmas infiltrados por pensamentos dominantes, chegamos à razoável conclusão de que as duas “partes” da cidade não são tão diferentes assim em demais prismas. Se no alto dos mencionados morros ouvem-se tiros que espoucam aleatoriamente, nas nossas casas salvaguardadas ouvimos também tiros disparados por alguém acima de qualquer suspeita. Se na elevada esfera política, debateu-se de modo inacreditável a “cura gay”, contrariando postulados científicos, e nos levando a “viagens” por séculos passados, no altiplano de casas apertadas com lâmpadas dependuradas por fio solitário somos “alvejados” na sensibilidade por jovem homossexual e viciado (Felipe Frazão) que “acredita” que fora “curado” de seus “pecados” graças à aceitação de sermões “religiosos”. Se no asfalto batem com força e impiedade as portas nos nossos rostos quando suplicamos emprego para colocarmos comida no prato, ainda que com canudo limpo debaixo do braço, o que diremos dos que, com ou sem canudo, marcados de maneira inglória por dormirem e acordarem entre vielas escuras ou pouco iluminadas, subidas e descidas acesas ou apagadas suplicam o mesmo? O fato de morarmos ao lado de calçadas bem asfaltadas, ou com pedras portuguesas soltas que provocam tombo feio em atriz famosa nos dá o direito de julgamento sobre jovem perdido no próprio rumo, a quem se apresentam apenas dois míseros caminhos: um com a tocha branda, mas segura, e a outra flamejante, todavia perigosíssima? O jovem perdido é interpretado com intensidade, credibilidade e brilho por Gabriel Chadan (Murilo). Gabriel na ribalta é moço branco de olhos verdes símbolo de “força da natureza” interpretativa. Seu primo Jeomar é defendido por Michel Gomes, um ator convicto de suas pujantes potencialidades dramáticas, representando o que “a priori” lhes falei, ou seja, um “filho da Engenharia” sonhador que a “engenharia da existência” lhe exclama: “NÂO!”. Há uma espectadora além de nós, Dona Jurema (Dja Marthins). Jurema, com seus braços e cotovelos apoiados em parapeito de janela pequena, serve como interferência adequada nos acontecimentos costumeiros dos moradores da favela, sendo bastante vezes mal compreendida, embora haja sabedoria na sua voz. Dja Marthins compõe a “vizinha faladeira” (no melhor sentido) com carisma, candura, humor, dando lufadas de leveza a instantes por vezes temerários. A bem-vinda presença do intérprete Lincoln Tornado (Juvenal), no papel de um talentoso compositor que representa a condição do “homem bom”, galanteador, que estremece o coração das meninas desavisadas. Lincoln canta e atua bem. Configura Juvenal com ilimitadas emoção, qualidade de ser sensível, graça e sedução. O MC Jota João Augusto é o rapper, exímio e adorável dançarino das ruas, honroso capoeirista com seus fascinantes “dreads”. A conectividade globalizada nas redes sociais “subiu a ladeira”, e um moço brigado com as leis, personificado por Walace Fortunato com naturalidade, verdade cênica e fortaleza pessoal, assim como o faz com similar talento seu colega de transgressão (Rafael Zolly). Se há espaço para a umbanda, há espaço para a igreja evangélica. Portanto, há espaço para a intolerância religiosa. Na birosca de Seu Eusébio (uma personificação delineada com altivez, refinamento e garbo por Cridemar Aquino), há moças desinibidas, nada desenxabidas, atrevidas, dentre elas a Jane de Gisele Castro (em atuação firme, segura e que nos mostra o seu total domínio de conhecimento da personagem). Se minoria que reside na “planície” fica estupefata no dobrar de alguma esquina com atitudes de discriminação racial, nas esquinas da favela esta “sombra” existe também. A hierarquização da sociedade e o “status” não são flagelos monopolizados pelas classes A e B, e sim por todo o “alfabeto”. O “sonho americano” deixou de ser sonho até para os americanos. Não existe mais “american way of life”. Nem Hollywood escapou. Ana Bertinnes em louvável constituição da mãe esperançosa do sucesso do filho no “estrangeiro” que o diga. O morro é democrático na música (tem samba, pagode, rap, funk, funk melody – direção musical de Marcio Eduardo). O elenco se esbalda com primor no canto (preparação vocal de Pedro Lima) e na dança (supervisão coreográfica de Sueli Guerra). A esposa Meire (Carla Cristina, ótima, divertida) apanha, perdoou o agressor Osmar (Leandro Santanna esbanjando criatividade, fulgor e composição detalhista na expressão corporal), entrementes a sentença da “cidade dos homens” não perdoa. Há amor de Romeu e Julieta. Shakespeare na favela. O elenco formado por Kawane Weza, Dilene Prado, Nilson Mello, Helena Siffoni, Renata Tavares, Cláudia Leopoldo, enfim, todos (21 atores), sem exceção, cada um ao seu modo, contribui com excelência para que a história ganhe a sua justa importância. O diretor Márcio Vieira explora com competência ímpar a plenitude do conjunto dramatúrgico alinhavado com inteligência por Rômulo Rodrigues, e desenvolve com brio cênico os elementos que formatam a envolvente trama. A iluminação de Djalma Amaral baseia-se com acerto e bom gosto no naturalismo dos planos abertos, e no lirismo e poesia dos sombreados, meias-luzes, e outras ora fortes ora suaves na birosca supracitada, não deixando de citar os sempre bonitos focos que valorizam cenas significativas, sejam elas no proscênio, sejam elas na miríade de janelas soltas no espaço de pedras. O cenário de Derô Martin exerce deslumbre por seu cortante viés real onde é possível encontrar beleza onde muitos creem não haver. Simulações de casebres assimétricos com tijolos e cimento expostos, paredes pichadas, o boteco e seus indispensáveis componentes, os tubos de PVC à mostra, as antenas caladas, as fiações que “roubaram” tênis e supostos restos de pipas, uma faixa com anúncio de baile funk, um cortinado branco que remete aos cultos evangélicos, um nicho com linda luz vermelha a enaltecer São Jorge/Ogum, e um banco de madeira frágil. Os artistas movimentam-se amiúde, utilizando inclusive a plateia, contudo há momentos pausados, “tête-à-tête”. Os figurinos de Caio Braga açambarcam um globo multicolorido de tons, tecidos e estilos. O discreto, o sensual, o engraçado, o provocativo, o sisudo e o recatado. A peça recebe de braços abertos variada gama de vestuário condizente com a ambiência destrinchada. A trilha sonora (Marcio Eduardo) com direito a músicas da banda de Gabriel Chadan “Fulanos e Ciclanos”, MC Jota João Augusto (diz a letra do rap com proficiência) e Arlindo Cruz (“Meu Nome é Favela”) imprime colaboração lógica usando temas incidentais que servem tanto para situações tensas quando rotineiras. Destacam-se sobretudo as canções lindamente entoadas pela coletividade ou por único ator ou em duo. “Favela” cumpre relevante papel social ao esmiuçar e elaborar maior entendimento sobre visão distorcida de que se tem sobre a realidade dos morros. Sem preterir o cômico, exibe com profundeza retrato fiel pungente e dilacerante de um mundo não longínquo ao nosso. Muito pelo contrário. E se estamos próximos, podemos ser iguais. E já que a vida é feita de escolhas, escolhamos a igualdade. Com as bênçãos de São Jorge.
-
Se há um mal que acomete as pessoas sem piedade, esse mal é a solidão. A solidão é democrática. Não escolhe sexo, raça, religião, idade ou nível socioeconomico. Tentamos sem sucesso dela escapulir. Porém, não se escapa daquilo que não se pode escapar. Nascemos sozinhos, vivemos “sozinhos” (queiramos ou não) e morreremos sozinhos. A palavra “dança” que intitula a peça de Richard Alfieri, com direção de Ernesto Piccolo, e Suely Franco e Tuca Andrada no elenco é apenas um mote, um elemento catalisador para se falar da solitude humana. Uma senhora, Lily (Suely Franco), viúva, só, decide preencher o vazio da vida com aulas particulares de dança. O professor Michel/Michael (Tuca Andrada) é tão solitário quanto sua futura aluna. Um homem que busca ter percepção sarcástica, niilista, iconoclasta das instituições sociais e relacionamentos interpessoais, e que por meio da graça, do chiste, do dito espirituoso mascara dissabores, ressentimentos, mágoas e traumas que lhe foram causados pela inexorabilidade do mundo no que tange à sua orientação sexual e infortúnios profissionais de um bailarino que já brilhou na Broadway, e hoje se vê obrigado a ensinar o seu dom em lares “sozinhos” habitados por mulheres maduras sozinhas. Constituída a relação professor/aluna nota-se constante e inevitável embate de ideias, opiniões, conceitos e humores muitos dos quais advindos do fato de pertencerem a gerações distintas. Lily é o símbolo do que o passar dos anos pode oferecer ao indivíduo: uma sensação dolorosa de pressa em se aproveitar o tempo que resta; uma quase inviabilidade de sorrir quando não se tem parcela farta de motivos para sorrir; uma potencial prisão obrigatória dos desejos sexuais e afetivos; a defrontação com a miserável transformação física a que todos nós estamos submetidos pela vontade cruel da natureza, ou seja, uma briga perdida com o espelho; e o sumiço de ouvidos que lhe escutem, de bocas que lhe digam algo, de olhos que lhe vejam, e de mãos que lhe toquem. Vale ressaltar que Suely Franco transgride as “regras do jogo” apresentando-se jovem, bonita e com vigor invejável. Já o Michel de Tuca Andrada é representativo da vitimização inglória a que são colocados involuntariamente os homossexuais consoante com a iníqua, impiedosa, inclemente, má, intolerante, perversa, e hipócrita postura (ou impostura?) de uma sociedade que sobrevive do alimento de suas próprias hipocrisias. A mesma sociedade que condena e que profere discursos discriminatórios é aquela que “entre quatro paredes” ou “a huis clos” “rasga” os seus discursos, e depois os reescreve para disseminar a discórdia mundial. No entanto, o dramaturgo americano Richard Alfieri com esse árido conteúdo logrou construir com habilidade e destreza narrativa que dá espaço ao divertido, ao romantismo, à poesia, à beleza, ao amor e à amizade com ótima tradução de Ciça Correa. Ernesto Piccolo, um encenador que a cada passo imprime com mais força e sensibilidade a sua marca indelével nas produções que conduz, amarra toda a história com absolutas coerência, fluidez, e sedução, não permitindo que o enredo resvale para o pesado, sendo assaz permissivo com a comicidade. Ernesto pode se vangloriar de possuir em sua prolífica carreira outra obra que atingiu os bem-intencionados objetivos. Suely Franco é uma atriz experiente que aglutina todos os bons adjetivos que a qualificam como irretocável intérprete. Suely elabora Lily com seriedade, oscilação de temperamentos, visão crítica dos comportamentos individual e coletivo, honestidade e exato nível de comédia. E Tuca Andrada, que também guarda galeria de profícuas contribuições para as Artes, apesar da juventude, compõe Michel com suavidade, certas petulância, deboche, ousadia, lançando mão de gracejos e elegância. Enfim, Suely e Tuca formam par que a princípio soaria improvável, contudo na prática se mostra união perfeita de personalidades díspares que compartilham “substância” bastante preciosa: a emoção de cada um. As danças, sem dúvida, ocupam lugar privilegiado e meritório no espetáculo, sendo executadas com supremas precisão, brandura, e fortaleza de movimentos em conjunção com exuberância nas expressividades corporais feminina e masculina. As coreografias pensadas pelo consagrado Carlinhos de Jesus atendem com reverência ao “swing”, ao “foxtrot”, à valsa vienense e à música contemporânea. Deduz-se que o trabalho de Carlinhos se configurou como aspecto solidificador para o sucesso da trama. Suely e Tuca são exímios alunos, jamais aprendizes. Os figurinos do requisitado, e com razão, Cláudio Tovar, um dos maiores entendedores do assunto, são alegres, despojados, graciosos, finos, extravagantes, sensatos, obedientes ao texto, e por vezes de modo proposital engraçados. O público aguarda com ansiedade a próxima surpresa urdida por Cláudio nas várias sequências de trocas de roupas. A direção de arte de Vera Hamburguer se embrenha numa sofisticação e requinte “clean”. Somos levados para idílico terreno branco, seja no sofá de couro em estilo capitonê e almofadas, cadeiras estofadas com camurça e espaldar em vime, quadros, estantes, cristaleiras, utensílios domésticos, espelho oval, relógio “vintage”, aparador e console, mesas e cadeiras de cozinha, seja nas persianas e paredes de madeira ripadas. Um conjunto total que louva a branquidão. Um dos recursos que nos enleva irremediavelmente é o fundo do apartamento simulador de vista para o mar, em que se vislumbram belíssimas e arrebatadoras imagens de pôr-do-sol, alvorada e noites com suas diferentes fases lunares. A iluminação de Wagner Freire nos acarinha com gama generosa e liberal de cores, realçando o azul, o laranja e o rosa, além dos condizentes focos e a amplitude lógica e adequada de um plano frequente aberto de luz. “Seis Aulas de Dança em Seis Semanas” não se restringe à dança com intentos de provocação do riso fácil. Existe o riso, sim. Todavia aquele que se identifica com as dores e conflitos alheios. Um riso nervoso com lapsos de descontração. A peça de Alfieri é um signo probatório das nossas fragilidades, da nossa vulnerabilidade atroz. Um libelo contra a vergasta abominável do preconceito. Entretanto, o que se depreende como mais relevante na encenação protagonizada por Suely Franco e Tuca Andrada é o hastear de flâmula que ao sabor de severo ou misericordioso vento no seu íntimo brandir nos afirma de que há esperança na vida, e que esta pode estar simbolizada de maneira sublime por duas gerações que sem pundonor amam o amor e são amigas fidedignas da amizade.
-
John Lennon disse na canção “God”: “o sonho acabou…”. O líder da defesa dos direitos civis dos negros americanos Martin Luther King numa ocasião para plateia de milhares de pessoas discursou: “Eu tenho um sonho…”. Para Eriberto Leão “o sonho não acabou”. Apenas começou. Um sonho que se imiscuiu aos sonhos de tantos outros sonhadores. O sonho de colocar na ribalta sagrada os ensinamentos e aprendizados não menos sagrados do representante de toda uma geração, Jim Morrison, o vocalista e cofundador da mítica banda The Doors. Não deveria ser uma reprodução biográfica, impessoal da conturbada vivência de um dos autores de “Light My Fire”. Fizeram-se prementes mãos conduzidas por engenho, criatividade e alta inteligência a fim de que fosse distribuída em letras, sílabas, palavras, frases e diálogos história real/fictícia que com mérito honrasse a eternizada mensagem de bonito e jovem homem que vivia da música, transformando-a em “arma” que remexesse conscientes e inconscientes coletivos e individuais. O dramaturgo Walter Daguerre (com quem Eriberto já trabalhou em “A Mecânica das Borboletas”) ofereceu-nos generosamente com seus dedos lépidos e inquietos trama escrita sem temeridades na qual houvesse aliança do real com o imaginário, e que aquela tocasse corações selvagens e plácidos. E, sim, de modo implacável, fomos tocados. A ponto de olhos secos se umedecerem. Configurou-se texto em que ser humano imerso em dilacerantes conflitos, João Mota/Mojo (Eriberto Leão), via em seu ídolo (Jim Morrison) o culpado e redentor de erros e acertos próprios. No jardim secreto das moradas silenciosas transgrediu a ausência de som confabulando em tons de cobrança e confessionais com o poeta cantante que se deparou com a “Percepção” após 27 anos de sua “Criação”. E no meio de conversa elucidativa, tensa, emocional, surge bela mulher, Pamela/Anima (Renata Guida), que o orienta, inquire, perscruta e desorienta a já desorientada cabeça perdida na bifurcação cruel das escolhas da existência. Nos espinhosos atalhos terrenos que com pés cansados e descalços deixamos rastros em chão passivo, poucas e únicas vezes nos deparamos com interpretação que foge ao significado literal do termo, subvertendo-o , desobedecendo-o, indo além do além, e Eriberto Leão sem compaixão com a literalidade, exerce ritual mediúnico, incorporador, assustadoramente verdadeiro ao personificar ou encarnar James Douglas Morrison. Somos reportados de maneira inapelável à segunda metade da década de 60, e nas nossas peles pelos se eriçam, respiramos em outra cadência, escutamos as catárticas músicas dos The Doors entoadas por voz ensaiada, cuidada, “lustrada” pelo maior dos preparadores vocais: Deus. Eriberto não apenas canta. Eriberto “clama”, “declama”, “exclama”, “chama” canções em meticulosos e pungentes acordes na sua gravidade e comoventes na sua suavidade. Em país distante das terras onde Sartre nos bistrôs pensou “O Ser e o Nada”, existe ator com missão, dentre muitas, de compartilhar estado de êxtase que estremecesse os alicerces da solidária Arte. Eriberto Leão não somente cumpre o seu ofício, como “descumpre” os limites que nos foram impostos. Graças a Deus! Após “JIM”, tudo lhe será diferente. Como para mim está sendo. A atriz Renata Guida como Pamela/Anima ilustra com firmeza, segurança, disciplina, eloquência e credibilidade agradavelmente “incômodas”, colocando mais diamantes no “céu de Lucy”. O diretor (ou seria um maestro?) Paulo de Moraes, acostumado ao prestígio que o acompanha, repetiu parceria com Leão, e por meio de sua “batuta” fez pó dourado virar ouro mais do que dourado. Orquestrou espetáculo que nos vicia, que da realidade nos dissocia. Deu-nos bilhete único para bem-vindas viagens tormentosas e turbulentas, com escalas em vários e desconhecidos planos que nos separam da Inteligência, da Sabedoria, da Percepção e do Impalpável. Uma lua de mel com o Mistério. A bela direção musical de Ricco Vianna muniu-se dos talentos dos músicos José Luiz Zambianchi (teclados), Felipe Barão (guitarra) e Eduardo Rorato (bateria), que ao vivo nos tornaram mais vivos e capazes de “acendermos nós mesmos os nossos fogos”. As principais concepções melódicas do grupo californiano cujo vocalista se inspirou em Nietzsche, William Blake, Rimbaud e Aldous Huxley foram com cautela e logística emotiva “espalhadas” com jeito sábio e sedutor na encenação. O cenário de Paulo de Moraes provou que o conciso pode ser expansivo, de que o suposto “pouco” na verdade é “muito”. Exorbitantemente “muito”. Gloriosamente “muito”. Um piano inclinado maltratado pela chibata do tempo, com inscrição de curto ciclo de permanência de astro na Terra, encimado por microfone calado, chateado, triste. Além de tantos outros microfones marcando os seus territórios que lhes são de direito no palco. Um girassol indica a presença do Sol, da esperança, da luz cálida em meio a frias elucubrações. Os figurinos de Rita Murtinho reverenciam a fidelidade, dizem “sim” à verdade, e parecem ter buscado em armário qualquer de Jim sua calça justa de couro, sua blusa de botões semiaberta, seu cinturão e botas que auxiliam o artista a usar o corpo de forma elegante, com movimentos sinuosos, cambaleantes, dançantes, contorcidos, bonitos e doídos. O casaco de couro e a saia vistosa e longa de Pamela/Anima nos lembram de que longa pode ser a visão da vida. Vida vistosa e longa. A luz de Maneco Quinderé cumpre potente função de nos deixar reféns da maravilha, da odisseia das cores, do périplo da luminosidade rumo à efeméride, à contemplação, ao ritualístico, ao enlevo, à meditação e à perturbação. Uma explosão luminosa. Um “Big Bang” no tablado. Privilegiados foram os nossos sensores óticos e demais outros. Jim cantou “The End”. Sim, pode ser o fim. O fim que dá início a começo e recomeço. Fim de emoções vãs e obscuridade cognitiva. Nascimento da clarividência. Tudo agora está tão claro, mesmo que as luzes tenham se apagado. Encaminhamo-nos para a porta. Ela se abre. É “A Porta da Percepção”. Obrigado, Jim! Obrigado, Aldous! Esperem, tenho que agradecer ao Eriberto, ao Walter, ao Paulo e a Renata antes de voltar para a minha casa, o meu “Palácio da Sabedoria”. Deixem-me que pense assim. Um “palácio” meu, seu, nosso, cujas portas estarão sempre abertas para os desejosos do Saber.
-
Vivemos em mar de contradições. As contradições da comunicação. Cada vez mais nos deparamos com vastos recursos de comunicabilidade, porém não sabemos fazer uso deles. O incomunicável sobrepuja o comunicável. O social se digladia com o antissocial, e a vitória é do último. Falamos sem sermos ouvidos. Ouvimos pensando que escutamos. Palavras ditas e não ditas. Perdidas. Se “No princípio era o Verbo…”, agora os princípio, meio e fim são silêncio. Partindo desta conjuntura de comportamentos e caracteres existencialistas, o dramaturgo Felipe Barenco se inspirou nos contos do incensado escritor gaúcho Caio Fernando Abreu e constituiu texto cênico, “O que você mentir eu acredito” (frase tirada do conto “Terça-Feira Gorda”), que se trata de projeto cuja idealização coube a Armando Babaioff, Rodrigo Portella e Gustavo Vaz. Representado por quatro personagens, André (Armando Babaioff), Terezinha (Betina Viany), João Carlos (Joelson Medeiros) e Malu (Izabella Luz) o processo da incomunicabilidade humana em sua essência é esmiuçado com profundidade e elevada tensão dramática, todavia sem preterir de inserções pontuais espirituosas. André, João e Tereza formam núcleo familiar desestruturado. O vocábulo “núcleo” perdeu sentido. O filho André não se reconhece, procura a si mesmo, e ninguém o ajuda nesta busca pessoal. Muito pelo contrário. Seus pares contribuem para que sua identificação como indivíduo se afugente de modo superlativo. Filho, pai, avó, estranhos entre si. Não por acaso pausas e minutos silenciosos são constantes na encenação, e cumprem missão de relevância ao sublinhar o desentendimento coletivo. A personagem de Izabella Luz entra na história como “intrusa” que talvez seja mais próxima que os demais. Malu, moça “hipster”, desencadeia reação acelerada de sentimentos, conflitos, dúvidas, embates únicos ou em duplas ou geral, com um sem fim de consequências. A desorientação sexual de André, “devorador” de músicas e livros, recrudesce a falta de alinhamento pacífico da família. Malu se confunde nos próprios sentidos e certezas, ou ausência destes. João é vítima de suas ações e inações, vendo-se “mutilado” por remorsos, culpas, recalques e desesperança. Contudo, assim como os outros, persegue redenção. Terezinha é símbolo do matriarcado que deságua em passividade que por vezes é despertada por firmeza e convicção de posições permeadas por olhar subjetivo e lógico dos acontecimentos, passando ao largo dos sentimentalismos. Armando Babaioff, um dos atores mais prestigiados de sua geração, constrói o perfil de André juntando peças de mosaico simbólicas do absoluto aproveitamento do forte poder da expressividade corporal, fazendo bom uso da voz com entoações várias, utilizando-se de todos e quaisquer mecanismos que exerçam função de enriquecer o material interpretativo do jovem atormentado. Armando Babaioff não deixa escapar detalhes, transformando o “micro” em “macro”. Seus olhos se subdividem na contemplação, na fúria, indignação, contentamento e êxtase. Os dedos são nervosos, dançam “balé da ansiedade”. Reféns do carrasco gestual repetitivo. Betina Viany se vale do largo conhecimento do que se entende por atuação para evidenciar seja por meio da mobilidade ou imobilidade a lacuna ou preenchimento de suas respostas emotivas. Além disso, sai-se otimamente bem com os chistes. Joelson Medeiros alinhava João com tessitura que remete à alienação, confrontação com dilemas interpessoais e fantasmas psíquicos. Joelson perfaz aglutinação escorreita de gama de oscilação de humores lhe rendendo valoroso resultado. E Izabella Luz mergulha em vivacidade numa explosão de manifestações sensoriais. “Dança” vocal e corporalmente, e resgata sensualidade como complemento da faceta ambígua de Malu. A direção de Rodrigo Portella escolhe trilha coerente, racional, proveitosa, engajando-se na “formatação” de conjunto teatral que “grite” para o público os dissabores do “existir” e os amores de se “descobrir”. Não há em sua condução máculas de inutilização do palco. Esquadrinhou as marcações, e se posicionou em direção objetiva não superficial na clarificação do significado da personalidade dos membros do enredo. A cenografia de Edward Monteiro é realçada com ousadia e elementos precisos que a aproximam do “vintage” e do além do contemporâneo. Eloquente presença das luminárias, carpete verde musgo, cadeiras, sofá de couro avermelhado e desdobrável, aquário, e aquilo que se absorveu como sendo o mais arrojado: enorme círculo móvel partilhado em painéis com esquadrias fornidas com tecido translúcido possuidor de engenhosa, lúdica e utilitária movimentação, funcionando como se fosse quase um quinto personagem. A iluminação de Renato Machado assume complexa paleta de compreensões visuais que podem ser adjetivadas como reflexos de sofisticação, modernidade, sombreamento e bruxuleios. O LED moderno trava amistoso diálogo com pontos de luz clássicos advindos de abajures/luminárias. Observa-se luminosidade que lembra o “salmon”. Um diferencial em termos de criação atinente ao aspecto “luz”. Os figurinos de Claudio Tovar mesclam o atual com o íntimo, isto é, aquilo que usamos para nós mesmos. A jaqueta de couro ocre, a calça justa similar a saruel, a regata, e os tênis de André, a saia frufru e os coturnos “fashion” com cadarços “pink” contrastam com o vetusto robe vermelho, a afrouxada gravata e camisa e calça cotidianas de João Carlos e o casaco com ares setentistas, acessórios peculiares, sandálias e meias, e vestido rosa caseiro entretanto forte na mensagem de Terezinha. A concepção sonora de Armando Babaioff e Rodrigo Portella abraça com fidelidade a pujança de compatível sonoplastia que nos insinua sensações de sufoco e angústia, amparada por incursões musicais complementares e felizes na adequada penetração no desenvolvimento da meada. “O que você mentir eu acredito” é entretenimento mobilizador reflexivo que sacode inércias psicológica e cognitiva do homem, apegando-se às verdades e mentiras do ser social em sua intricada vivência. Ao apagar das luzes, o que depreendemos sem hesitação ou tomada de atitude fugidia é que nos defrontamos irremediavelmente com a verdades. As verdades de Armando, Betina, Joelson e Izabella. E verdades são soberanas no império restante.
-
Corajosa é o adjetivo no gênero feminino que melhor se adequa à cineasta Sandra Werneck que chamou para si a iniciativa de abordar assunto temerário, delicado e complexo ao qual todo e qualquer indivíduo provido de emoções não logra escapar: o amor. Não somente este, mas infinda gama de envolventes ramificações que lhe são originárias foram objeto de estudo na adaptação do êxito de público e crítica da Retomada do Cinema Brasileiro, “Pequeno Dicionário Amoroso” (o roteiro é de Paulo Halm e José Roberto Torero), dirigido pela própria Sandra para os palcos. E aquelas resultam em inevitáveis consequências no comportamento humano afetivo. A narrativa cênica tem por meta orientar, decifrar, tirar conclusões, elucubrar por meio de seleto conjunto de vocábulos de modo que se mire em alvo analítico do intrincado “jogo do amor”, no qual impreterivelmente os “participantes” ora são ganhadores ora são vencedores. Para que o contexto optado alcance a plateia com limpidez e convencimento literais, utilizam-se as figuras representadas pelos personagens Gabriel (Eri Johnson), um biólogo/entomologista, e Luiza (Juliana Knust), uma fotógrafa, que em primeiro momento se esbarram de maneira casual em lugar cercado de anjos de mármore. E a partir deste primeiro encontro, sucedem-se espécies variadas de questionamentos distribuídos nas fases padrões das relações amorosas. Ainda na trama, coexistem Márcia (Camila Rodrigues), amiga de Luiza, “expert” em estatísticas que faria inveja a qualquer funcionário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e o biólogo Barata (Rafael Zulu), confidente e conselheiro do especialista em insetos no tocante aos seus conflitos existenciais. Sendo assim, Sandra Werneck, como autora, atinge precípua intenção: esmiuçar e debater com coerência, sabedoria, bom senso e veracidade a troca de afetos e intimidades entre um homem e uma mulher. Jorge Fernando, o diretor, conhecido por ricos atributos que se perfazem ao impor dinamismo, agilidade e vieses cômicos a quaisquer produções em que impõe sua marca, delineia o espetáculo com contornos vivazes, sedutores, atraentes, irresistíveis e compactos, priorizando como lhe é característico a configuração com elementares nuances de cada “character” inserido na história. Jorge busca a plena exploração do perímetro da ribalta que a ele se mostra, e se sai vitorioso. A peça obtém harmonia plástica. As atuações “dialogam” sem interferências pelo que se entende como pródigas, consistentes, maduras e profusas em propriedades qualitativas. Os intérpretes com acerto foram conduzidos para que transitassem com devida cautela por estreita ponte que separa o naturalismo da linguagem típica teatral. Veem-se drama, comédia e romance mergulhados em contemporaneidade que moldam quadro da obra. Eri Johnson se utiliza de potente manancial de recursos de comunicação dos quais é inequívoco detentor para fazer de Gabriel homem sensível, espirituoso e possuidor de convicções empedernidas. Sua interação com os espectadores é majestática. Juliana Knust “esculpe” com ornamentos milimétricos de docilidade e sutileza, sem abrir mão de desabafos individuais compreensíveis, evoluindo para personificação que conquista simpatia dos que lhe assistem. Camila Rodrigues se divide em duas personagens, o que se torna brado comprovante de sua versatilidade acompanhada de domínios absolutos de corpo e voz, e que se fazem perceber na enxuta constituição das “personas” que a ela lhe couberam. Rafael Zulu se apropria com mérito e elegância de suas pujantes entoações vocais, expressões de corpo e face que elaboram crível e carismático desempenho. A iluminação de Gabriel Lagoas envereda pela diversidade atendendo aos pedidos da eficiência, obedecendo portanto às súplicas do texto. Luzes de cores lilases, isoladas ou em coletividade com outras, direcionamento pela lateral, planos abertos e sombreados líricos culminando em paleta colorida que funciona como vivificação do painel dramatúrgico. Os figurinos arrebanham um sem número de tendências, incluindo roupas e acessórios, fato desencadeador de procedimento generoso estilístico. Moletons, jeans, saias longas e fluidas, blusas soltas e assimétricas, jalecos, tubinho franjado, brilhos, “écharpes”, colete, mocassim, tênis, “espadrille” e sandálias trançadas açambarcam o visual que auxilia amiúde na identificação pessoal de Gabriel, Luiza, Márcia e Barata. O cenário se limita com objetividade à espaço vazio contendo apenas no seu fundo grande anteparo em que se projetam imagens informativas e colaborantes da consolidação do enredo. Utensílios como escada, colchão, cadeiras e pequena mesa são servidores na diligência de se edificar unidade pertinente. A trilha sonora é bela, “viajando” nos sons das canções de Elis Regina, Ana Carolina, Zélia Duncan e Leila Pinheiro. Elis exerce função protagonista em instantes pedintes de suas clássicas músicas. Trilha que suaviza e afaga ouvidos desavisados. Não à toa mencionei no título que a estrela da MPB nos “recomendou” “Pequeno Dicionário Amoroso”. A magnífica Elis Regina transcendentalmente é cúmplice fidedigna do que se vê. Num trecho de cena é mencionada palavra composta bonita em sua natureza: “licença-felicidade”. A chave do sucesso de “Pequeno Dicionário Amoroso” é dar aos diletantes do teatro o direito de tirar licença mesmo que breve para serem felizes.
-
Ao despertarmos, concomitante ao abrir dos olhos nos deparamos figurativamente com algo similar a slogan escrito em letras garrafais que enuncia: STRESS. Partindo desta premissa surge obrigatória pergunta: “Como lidar com esta condição emocional e comportamental contemporânea?” “Stress”, um vocábulo inglês cujo significado é: pressão, demanda, ficar tenso, nervoso… E aquele adentrou de tal maneira em nossa rotina que houve aportuguesamento espontâneo com direito a conjugação de verbo: Eu estresso, tu estressas, ele estressa… O divertido e inteligente texto de Ana Paula Botelho e Daniela Ocampo esmiúça tema vigente, e todo indivíduo inserido na sociedade urbana não logra dele escapar. Seleta compilação de tópicos com intuito de ajudar potenciais “vítimas” deste revés globalizado nos é visível por meio de personagem construída com requintes realísticos e alegóricos: a palestrante Angelina Pimenta (Alexandra Richter), ex-passeadora de cachorros, contratada por editora de livros provavelmente fã do quarteto sueco ABBA que atende pelo nome “The Winner Takes It All”. Cabe então a Angelina popularizar os ditames estabelecidos com viés discricionário resolutivos dos descaminhos humanos. Sem deixar escapulir o bom humor, assuntos como “aquecimento (não o global)”, “pele”, “academia”, “feng shui”, “consumismo”, “Butão”, “homem”, “trabalho”, “sustentabilidade”, “alimentação orgânica e hidratação”, seguidos por tantos outros inerentes ao cotidiano de cada um são perfilados em formato de palestra imbuída de comicidade dilacerante e prodigiosa interação com o público. A missão de tornar concreto esta abrangente teia de questionamentos é entregue a atriz reconhecida por imensurável aptidão para reunir em si mesma qualidades irretorquíveis que lhe permitem livre trânsito no drama e comédia. Alexandra Richter é intérprete dotada de avassalador carisma, beleza inconteste e domínio surpreendente das linguagens de corpo e voz (preparação de Márcio Cunha e Rose Gonçalves respectivamente) que se delicia e delicia a plateia com jogo interpretativo repleto de nuances, filigranas e entrelinhas. Uma atuação artesanal e por conseguinte inesquecível. Somos de modo inevitável sem exceção “laçados” por aquela, e como resultado nos tornamos cúmplices da artista “dona do palco”. A diretora Daniela Ocampo com argúcia e sabedoria cênicas explora o potente conteúdo que tem em mãos o materializando num dinâmico, ágil, espirituoso, crítico, niilista e devastador espetáculo cômico permeado por aspectos sedutores e representativos do alto poder de comunicação teatral. No que diz respeito aos elementos técnicos restantes se percebe inequívoca funcionalidade. O cenário de Clívia Cohen aposta na elegância “clean” e concisão visual, sendo constituído por dois painéis sanfonados brancos em ambas as laterais com biombos menores revestidos de película transparente que os antecede, um suporte utilitário à esquerda do proscênio e ao fundo gigante tela de projeções (vídeo de abertura de Eduardo Chamom e videografismo de Rico e Renato Vilarouca) e três bancadas retangulares móveis também transparentes. Aliás, a transparência é usada com lirismo e nos remete a “Teatro de Sombras”. As mencionadas projeções cumprem relevante papel de aliança com a história a transformando em produto mais palatável e jovial do que já é. Os atores Leandro Hassum e Marcius Melhem colaboram virtualmente em participações luxuosas. A iluminação de Orlando Schaider opta pela sofisticação precisa que se nota em harmoniosa alternância do branco e do vermelho. O azul e o colorido se fazem presentes em oportunos instantes. O belo rosto de Alexandra é valorizado por focos, e a luz aberta exerce protagonismo em muitas passagens da trama. O figurino de Patrícia Muniz denota inventividade e tendência criativa ao vestir Richter com “tailleur” de textura avermelhada e relevos florais, lenço com geometria de linhas, “scarpin”, bolsa “croco” e “top” cavado que compreende sensualidade e doçura estéticas. O visagismo a cargo de Fernanda Santoro é simbolizado por “make” vivo e atraente além de bem-feito coque em Angelina Pimenta. A trilha sonora de Paulo Mendes “nasce” no ABBA, “desenvolve-se” em Elza Soares, sinaliza amadurecimento na antológica cena regada a laser e famosa música incidental de Danny Elfman do filme estrelado por Tom Cruise “Missão Impossível”, e se “despede” com a icônica “Dancin’Days” de As Frenéticas. E ressaltemos que a interação de Alexandra com os espectadores é suprema em seu sentido mais literal. Saímos do teatro leves com sorriso permanente prontos para enxergar a vida sob alternativo ponto de vista, municiados com “minimanual” para termos melhor qualidade de vida. E jubilosos por testemunharmos de que existe generosa defensora das Artes brasileiras carinhosamente chamada Alexandra Richter, que nos dá sem pedir retribuição o “Minimanual para ser Boa Atriz”.
-
Ao assistir tardiamente à interpretação de Igor Cotrim como o travesti Madona no filme de Marcelo Laffitte, “Elvis & Madona”, ao lado de Simone Spoladore como Elvis, apercebi-me de que pouquíssimas vezes testemunhei atuação tão sutil e humanizada de homem que se traveste. Sem qualquer demérito a Cotrim, muito pelo contrário, algo similar às antológicas personificações de Dustin Hoffman em “Tootsie”, de Sydney Pollack, Terence Stamp em “Priscilla, A Rainha do Deserto”, de Stephan Elliot e Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita”, de Chris Columbus. O paulista Igor, que além de intérprete é dramaturgo e poeta (já lançou o livro “Ali como Lá!”; e junto com Pedro Poeta faz shows frequentes com a banda Beep-Polares, nos quais poesia e rock’n roll se dão as mãos), vivencia no longa de Laffitte Madona, como já foi dito um travesti com sensibilidade única que nutre como maior sonho montar grande espetáculo. Nas eventualidades da existência encontra a “motogirl” Elvis, a lésbica personagem defendida com brilho por Simone (assim como Igor). Na primeira entrega de pizza a Madona (a tal pizza de palmito gigante que serve de inspiração para o título deste texto), visível empatia mútua ocorre. A seguir, a direção segura de Marcelo aliada ao seu inventivo roteiro, o na minha opinião não improvável casal da trama se envolve em problemas e intempéries que não escapam ao cotidiano de um par “normal”. É imperativo que não se omita que o mercado exibidor brasileiro não rendeu o devido crédito à filme premiadíssimo em festivais de cinema mundo afora. No tocante à seleção de profissionais para o “cast” há peculiaridade: Igor Cotrim disputou a chance de ser Madona com travestis reais. O rapaz formado pela EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP) iniciou sua carreira na atração infanto-juvenil “Sandy & Junior”, na Rede Globo, em que fora o “bad boy” Boca no decorrer das quatro temporadas. O papel lhe serviu para que solidificasse seu poder de interpretação perante o cenário nacional. Vieram-lhe oportunidades como incursões em novela de Manoel Carlos, “Mulheres Apaixonadas” e “Chamas da Vida”, da Rede Record, cuja autoria coube a Cristianne Fridman. Curiosamente, “Sandy & Junior” não foi isolada experiência com o público em fase de adolescência. A Rede Bandeirantes o convidou para integrar o elenco de “Floribella”. Já no teatro, bastaram três relevantes peças para que o palco lhe devotasse respeito: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago; “O Casamento”, de Nelson Rodrigues; e “A Cozinha”, de Arnold Wesker. Possui ainda porção filantrópica ao ter criado ONG, a “Voluntários da Pátria”, destinada a inserir poesia nas escolas com o intento de causar benéfica provocação nos alunos a fim de que construam apreço pessoal por rico gênero da Literatura. No momento, Igor empresta seu valor a dadivosa missão: ser repórter da “Revista do Cinema Brasileiro” na TV Brasil, acompanhando Natália Lage (não sendo o primeiro passo neste campo, haja vista que exercera ofício semelhante no Discovery Channel, em que cobrira o Fórum Mundial de Cultura em Barcelona, Espanha). Costumo em pensamento lhe atribuir o carinhoso aposto “o rei dos trocadilhos”, motivado pelo que escreve em sua página oficial no Facebook, seja na forma de poemas seja em frases de lavra própria. Acredito que se a “Revista do Cinema Brasileiro” tomar por decisão abordagem sobre “Elvis & Madona” se fariam necessárias no mínimo três edições, dada a significância da obra. Teríamos que pedir várias pizzas de palmito gigante a Elvis.








