Foto: Paulo Ruch
Categoria: Teatro
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Foto: Valério Trabanco/Divulgação da coleção de joias Gio Antonelli para RommanelEm “Salve Jorge”, novela de Gloria Perez, dirigida por Marcos Schechtman, a bonita Giovanna Antonelli interpreta Helô, uma delegada atípica no sentido de ostentar uma indiscutível elegância nas roupas e acessórios que usa, o que só valoriza a sua beleza. Tudo isso associado ao carisma da atriz que impingiu à personalidade da personagem um modo firme e duro ao lidar com as questões delituosas que lhe chegam à mesa de ofício. Afora, Helô também possui seus reveses, apesar de ter uma vida confortável e independente, sofre compulsão em comprar de forma indiscriminada, toda vez que sente algum tipo de frustração ou está muito estressada. Só que ela procura ignorar o problema, para a preocupação de seu ex-marido Stenio (Alexandre Nero) e a divertida empregada doméstica Creusa (Luci Pereira). Há ainda a dificuldade de se encontrar um parceiro no campo afetivo pelo fato da ocupação profissional que exerce, causando-lhe uma enorme carência. Mas todos sabemos que a delegada não suprimiu a paixão pelo ex, e vice-versa. E não podemos nos esquecer que é mãe, e tem que lidar com Drika (Mariana Rios), uma filha alienada casada com Pepeu (Ivan Mendes), um rapaz alienado. No momento, Helô tenta destrinchar casos espinhosos, como o roubo da filha de Delzuite (Solange Badim), que tudo leva a crer que seja Wanda (Totia Meirelles) a autora do crime, e a vítima seja Aisha (a revelação Dani Moreno). A delegada parece estar cada vez mais perto de desvendar o drama que aflige Morena (Nanda Costa) e Jéssica (Carolina Dieckman), e desmantelar toda uma quadrilha. Grupo chefiado por Lívia (Claudia Raia), que já lhe gera suspeitas devido à câmera instalada no escritório de Haroldo (Otaviano Costa). Lívia não está nada satisfeita com a suspeição lançada sobre ela, e já planeja algo escabroso contra Helô. Falemos a partir de agora sobre a prolífica carreira de Giovanna Antonelli. O começo foi peculiar, como assistente de palco da apresentadora Angélica na extinta TV Manchete. Nesta mesma emissora, atuou nas novelas “Tocaia Grande” e “Xica da Silva”, a despeito de ter estreado neste tipo de produção na Rede Globo, em “Tropicaliente”. Seu segundo folhetim na emissora foi “Corpo Dourado”, de Antonio Calmon. Após, participou de “Força de um Desejo” e “Malhação”. O público inicia uma observação com mais acuidade da atriz quando Giovanna personificou Capitu, em “Laços de Família”, de Manoel Carlos, com quem voltaria a trabalhar em “Viver a Vida”. Caiu no gosto definitivo dos telespectadores, e ganhou até prêmio, dentre tantos que viria a receber pelo “O Clone”, como Atriz Revelação. Porém, o grande sucesso e reconhecimento da crítica e daqueles que assistem às novelas veio com a já citada “O Clone”, como Jade, escrita por Gloria Perez, onde pôde mostrar toda as suas sensualidade e talento. Está na reprise de “Da Cor do Pecado”, no “Vale a Pena Ver de Novo”, como Bárbara, sua primeira vilã. Integrou o elenco de “Sete Pecados”, “Três Irmãs” e “Aquele Beijo”. Em minisséries, citemos “A Casa das Sete Mulheres”, na qual foi Anita Garibaldi; e “Amazônia – De Galvez a Chico Mendes”. Foi uma das brasileiras da série homônima. No cinema, há “Avassaladoras” (laureada em Miami), “Maria, Mãe do Filho de Deus”, “A Cartomante”, “Caixa Dois”, “The Heartbreaker”, “Budapeste” e “Chico Xavier”. E, para finalizar, nos palcos “Dois na Gangorra”, e as prestigiosas participações em “O Auto da Paixão de Cristo” e “Paixão de Cristo”. E, voltando a Helô, acho que somente Stenio poderá amenizar o seu estilo “linha dura”, com algumas briguinhas de vez em quando, é claro.
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Na sexta-feira passada, o “Programa do Jô” foi todo dedicado à atriz Regina Duarte. Três motivos foram precípuos para que se desse esta celebração: a comemoração pelos 50 anos de carreira da intérprete; a exposição sobre as suas vida e trajetória artística, “Espelho da Arte – A Atriz e Seu Tempo”, em cartaz no Centro Cultural Correios, no Rio de Janeiro; e a estreia na direção, além de atuar, do espetáculo “Raimunda, Raimunda”, adaptação de “Ramanda e Rudá” e “Raimunda Pinto”, de Francisco Pereira da Silva. Regina, que trajava um vestido preto com transparências e brocados coloridos sob um mantô “bordeaux”, é lembrada por Jô sobre o quanto ficara encantado com ela nas suas participações nas peças “A Megera Domada”, de William Shakespeare, e “Blackout”, de Frederick Knott, ambas dirigidas por Antunes Filho. Regina rememora que fora dirigida pelo apresentador em “Romeu e Julieta”, de Shakespeare, no final dos anos 60. O assunto agora é a sua primeira direção com “Raimunda, Raimunda”. Regina disse que foi acumulando o aprendizado que teve ao ser dirigida por nomes como Flávio Rangel, Paulo José, Antunes Filho, Gabriel Villela e o próprio Jô Soares. E se viu obrigada a ela mesma dirigir o texto porque nenhum diretor que solicitava demonstrava a empolgação que tinha em montá-lo. A peça possui 8 atores que se revezam em 24 personagens. Um cenário assinado por José Dias que se transforma em 22 outros. Os figurinos são de Regina Carvalho, com a colaboração de Beth Filipecki e Renaldo Machado. A trilha sonora é de Charles Kahn. A iluminação é de Djalma Amaral e Wilson Reiz. A direção de movimento é de Suely Guerra. A sua assistente de direção, Amanda Mendes, Regina conheceu nas leituras do filme de Rafael Primot, “Gata Velha Ainda Mia”. A atriz interpreta uma escritora que é entrevistada por uma jornalista (Bárbara Paz). Falemos da exposição “Espelho da Arte: A Atriz e Seu Tempo”, com a curadoria de Ivan Rizzo. Fotos da exposição são exibidas. Uma reprodução do figurino de “A Vida é Sonho”, de Calderón de la Barca; a seção “Anos 80”; a mesa de Malu e monitores com cenas do seriado “Malu Mulher”; “Anos 60”, no qual foi reproduzido um cenário todo em papelão por J. C. Serroni; e a seção “Anos 2000”, representados por Clô Hayalla e Chiquinha Gonzaga. Regina Duarte é surpresa em seguida por um link de Londres, no qual o jornalista Renato Machado (que já fora ator, e interpretou o Romeu que fazia par com a Julieta de Regina) pergunta-lhe sobre o que acha da possibilidade de se montar clássicos atualmente. Regina assevera que temos tudo para isso. Há um momento comovente em que a artista lê um trecho de “Romeu e Julieta”, em que o bardo inglês, nas palavras de Julieta, faz uma ode à noite, em detrimento do dia, pois na noite o casal apaixonado poderia se encontrar. Um outro link é colocado no ar. Dessa vez, com o ator e diretor Daniel Filho. Daniel então pergunta como é possível se manter como uma estrela tendo feito tantas personagens diferentes durante largo tempo. A resposta de Regina é a de que deve-se concentrar na personagem que se está fazendo naquele instante, com paixão e entusiasmo. Seu discurso denota enorme lição de humildade. Revela que um dos argumentos de Daniel Filho que a convenceram a fazer a Viúva Porcina foi de que ela era “operística”. Tapes de passagens de Regina na TV são veiculados: na novela “Irmãos Coragem”, de Janete Clair; um “Caso Especial” com Paulo Gracindo; “Selva de Pedra”, de Janete Clair; e “Carinhoso”, de Lauro César Muniz, com Cláudio Marzo. Segundo a intérprete, Cláudio foi o ator com quem mais contracenou. Ao ser indagada como e quando se descobriu atriz, afirmou que seus pais perceberam antes. Participava de todos os festejos da escola. Estudou balé clássico, declamação e violão. Mas o que de fato desencadeou nela o desejo de ser atriz foi a leitura da peça baseada em “O Diário de Anne Frank”. Fez o teste. Seria a irmã de Anne, Margot. A peça não chegou a estrear. Porém, o diretor Ademar Guerra a viu no teste, e avisou a Antunes Filho (Ademar era o seu assistente de direção) que uma moça de Campinas que estava começando a fazer televisão em São Paulo seria adequada para integrar o elenco de “A Megera Domada”, que seria montada por Antunes. Regina passou no teste, e ganhou o papel da irmã da megera, Bianca. Já quanto a uma personagem teatral que gostaria de personificar, cita a Martha de “Quem Tem Medo de Virginia Woof?”, de Edward Albee. Dos filhos, apenas Gabriela Duarte se interessou pela profissão da mãe (tomava o texto de Regina em “Malu Mulher”, e assistiu várias vezes a “O Santo Inquérito”, de Dias Gomes). Novos tapes são mostrados: um especial chamado “Chanel Nº5”, com Marco Nanini; “Série Aplauso: O Santo Inquérito”; “Malu Mulher”, com Dennis Carvalho; “Sétimo Sentido”, com Francisco Cuoco; “Joana”, “Roque Santeiro”, com Lima Duarte; e “Vale Tudo”, com Daniel Filho. Chegou a fazer cinema, teatro e televisão ao mesmo tempo: o filme “Parada 88 – O Limite de Alerta”, de José de Anchieta, a peça “O Santo Inquérito”, e a novela “Nina”, de Walter George Durst. Falou sobre o sucesso de “Malu Mulher” na Inglaterra e na Suécia, por exemplo. Sofreu represália masculina devido à postura feminista de Malu. E os últimos tapes: “Retrato de Mulher”, com Gabriela Duarte; “Por Amor”, com Marcelo Serrado; e “Chiquinha Gonzaga”, com Fábio Junqueira. Será lançada ainda neste ano uma biografia sobre a atriz. E para fechar com chave de ouro, Regina Duarte lê um trecho de “Cartas a Um Jovem Poeta”, de Rilke. O escritor enaltece a humildade e a paciência na vida de um artista. Sem dúvida, as ideias de Rainer Maria Rilke ficaram mais belas na leitura de Regina Duarte. A nossa Regina da Arte.
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Certa vez, fui assistir a uma peça de um dos mais celebrados dramaturgos contemporâneos, o americano David Mamet. Chamava-se “Perversidade Sexual em Chicago”, e no elenco estavam José Mayer, Eliane Giardini, Paulo Betti e Vera Fajardo. Logo pensei como uma atriz como Eliane poderia ser desconhecida do grande público ao ostentar tamanho talento. Tempos depois, o diretor Luiz Fernando Carvalho, conhecido por apostar em novos rostos na TV, escalou a intérprete para viver a Dona Patroa, na segunda fase de “Renascer”, de Benedito Ruy Barbosa, em 1993, na Rede Globo. Porém, antes disso, Eliane já havia feito trabalhos na televisão. Eliane Giardini prosseguiu sua carreira, tornando-se assim uma das artistas mais respeitadas e requisitadas da atualidade. No momento, podemos nos deleitar com a sua presença cênica em “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro, como Muricy, a matriarca do núcleo central do folhetim. Trata-se de uma família abastada devido aos feitos como jogador de futebol de Tufão (Murilo Benício), seu filho. Eliane, como disse no título deste texto, lembra-me uma personagem “felliniana”. Bonita e voluptuosa como algumas atrizes escolhidas por Federico Fellini para protagonizarem seus filmes. Madura e sensual (basta olhar os vestidos justos e decotados que usa), longos cabelos provocativos, olhos verdes faiscantes, e um sorriso que nos cativa. Como as personagens de Fellini, fala alto ou baixo dependendo das circunstâncias. É engraçada ou séria de acordo com a ocasião, também. Nos capítulos passados, Muricy se viu em desconcertante situação e suas consequências envolvendo um espinheiro. Forma um ótimo par com Adauto (Juliano Cazarré), mas diverte da mesma forma quando está com Leleco (Marcos Caruso). É uma mãe agregadora, cuja intuição funcionou com Nina (Débora Falabella), ao achar que a moça tinha intenções diversas, contudo nunca funcionou com a nora Carminha (Adriana Esteves). Quanto à trajetória desta intérprete que nasceu em Sorocaba, SP, formou-se na Escola de Teatro da USP. Depois de algumas participações em “Ninho da Serpente” e “O Campeão”, na Rede Bandeirantes, além de outras produções, estreia na Rede Globo na minissérie de Gloria Perez, “Desejo”, como Lucinda. Seguiram-se as novelas “Felicidade”, de Manoel Carlos, e a já citada “Renascer”. Esteve em muitas histórias no formato de minissérie, como “Engraçadinha… Seus Amores e Seus Pecados”, de Leopoldo Serran baseado em folhetim de Nelson Rodrigues; “Hilda Furacão”, de Gloria Perez inspirada em romance de Roberto Drummond; “Os Maias”, de Maria Adelaide Amaral, baseada em livro de Eça de Queiroz; “Um Só Coração”, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, em que interpretou Tarsila do Amaral; “A Casa das Sete Mulheres”, de Maria Adelaide Amaral e Walther Negrão baseados na obra de Letícia Wierzchowski, e “JK”, de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira, em que personificou Tarsila do Amaral novamente (veio a montar um espetáculo sobre a pintora modernista), e “Capitu”, com roteiro de Euclydes Marinho e texto final de Luiz Fernando Carvalho inspirado no romance de Machado de Assis, “Dom Casmurro”. Esteve em um sem número de novelas, como “Explode Coração”, de Gloria Perez, “A Indomada”, de Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares, “Torre de Babel”, de Silvio de Abreu, “Andando nas Nuvens”, de Euclydes Marinho, “O Clone”, de Gloria Perez (ganhou o Prêmio de Melhor Atriz da Associação Paulista dos Críticos de Arte, pela Nazira), “América”, de Gloria Perez (fez enorme sucesso ao ter como par romântico o ator Murilo Rosa), “Cobras & Lagartos”, de João Emanuel Carneiro, “Eterna Magia”, de Elizabeth Jhin, “Caminho das Índias”, de Gloria Perez, “Tempos Modernos”, de Bosco Brasil, além de várias outras produções de diferentes gêneros. No cinema, podemos destacar “O Amor Está no Ar”, de Amylton de Almeida, com o qual recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival de Gramado, “Uma Vida em Segredo”, de Suzana Amaral, “Olga”, de Jayme Monjardim, dentre outros. No teatro, citemos “O Processo”, de Kafka, “A Vida é Sonho”, de Calderón de la Barca, “O Amigo da Onça”, de Chico Caruso, “Aurora da Minha Vida”, de Naum Alves de Souza, “Com a Pulga Atrás da Orelha”, de George Feydeau, “A Fera na Selva”, de Henry James, “Querida Mamãe”, de Maria Adelaide Amaral, “A Dama do Cerrado”, de Mauro Rasi e “Memória da Água”, de Felipe Hirsch. Recebeu os prêmios Qualidade Brasil por “A Casa das Sete Mulheres” e “América”, incluindo outras láureas. Voltando a Muricy, esperemos que se recupere logo do que os espinhos lhe causaram. Isso que dá trair Dadauto com história de procissão só para mulheres. Dadauto é esperto. Logo, logo descobrirá que no meio dos espinhos pode haver um Leleco.
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Há alguns dias, o ator Marco Pigossi foi ao “Programa do Jô”. Vestido despojadamente com uma elegante jaqueta marrom sobre t-shirt preta, calça jeans e tênis cinza, seus olhos foram logo comparados aos do cantor, compositor e escritor Chico Buarque pelo apresentador. Marco acabou de encerrar temporada no Teatro Fashion Mall, no Rio de Janeiro, com a peça “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, e está neste final de semana em Vitória, e no próximo, em Curitiba, com o mesmo espetáculo. Jô Soares faz um adendo: seu primeiro papel numa montagem teatral fora justo em “O Auto da Compadecida”, numa remontagem de Agildo Ribeiro, como o Bispo, no Teatro de Bolso. Já na produção da qual Marco participa há a presença de 12 atores no elenco. Inclusive, quem personifica João Grilo é uma atriz, Gláucia Rodrigues. É a primeira vez que isso acontece no teatro brasileiro. Marco Pigossi já estivera em outra obra de Ariano nos palcos: “O Santo e a Porca”. Ficara por 3 anos em cartaz no Rio, e fora prestigiada pelo próprio dramaturgo em sessão fechada. Chega o momento em que o humorista indaga a Marco quais foram os seus personagens mais importantes tanto na TV quanto no teatro. O artista responde que na televisão fora no folhetim de Walcyr Carrasco, “Caras & Bocas”, em que interpretava Cássio, famoso pelos bordões “rosa chiclete” e “Cheguei, perua!. O assunto ruma para uma curiosidade que ocorreu quando o intérprete fora buscar patrocínio para uma peça de Joe Orton que pretende montar. Na época, atuava como o Rafa de “Fina Estampa”, de Aguinaldo Silva, que aplicava o golpe do seguro (roubava motos, desmanchava-as, e requeria o pagamento). A empresa procurada para o apoio era de seguros, o que gerou o espanto dos seus representantes. Mas tudo acabou bem. Agora, Marco discorre sobre o personagem atual que defende no “remake” de “Gabriela”, adaptada por Walcyr Carrasco. Ele é um rapaz virgem de 22 anos chamado Juvenal, filho do Coronel Amâncio (Genésio de Barros). Quanto à naturalidade é paulista. E o engraçado é que sempre morou no mesmo apartamento, sendo que este pertenceu a Antonio Fagundes. O quarto de Marco ficava exatamente onde se localizava a biblioteca de Antonio, um conhecido leitor contumaz. Sua estreia na Rede Globo ocorreu na minissérie “Um Só Coração”, de Maria Adelaide Amaral. Era o revolucionário Dráusio. Tinha apenas 15 anos. No telão, a atriz Mika Lins lhe pergunta que personagem gostaria de fazer no teatro. Como resposta, não um personagem, mas uma peça, que seria “Seis Personagens à Procura de um Ator”, de Luigi Pirandello. Aliás, Marco Pigossi contou-nos o quanto fora difícil sua primeira cena na TV, e com a colega Mika Lins. E encerra-se a entrevista. Marco tem pressa, afinal o mundo de Ariano Suassuna e Jorge Amado o espera.
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Esta entrevista de Maria Fernanda Cândido (Maria Fernanda foi contratada pelo GNT para integrar o time de debatedores do “Saia Justa”) a Marília Gabriela em seu programa fora exibida há pouco mais de uma semana, mas por ter sido tão esclarecedora, é meritório que aqui se faça um registro. Maria Fernanda estava deslumbrantemente vestida com longo vaporoso estampado em tons de azul, verde e preto, ombros à mostra, alças curtas que eram extensão de transparência no colo, cinto e botas. A maquiagem era suave, brincos discretos arredondados, e cabelos voltados para trás, o que só reforçaram os perfeitos traços faciais da atriz. A “Mulher do Século” eleita pelo “Fantástico”, da Rede Globo, a despeito de ser oriunda de Londrina, Paraná, fixou-se em São Paulo. Gabi elogia sua boa forma, entretanto ela diz que lhe sobra pouco tempo para cuidar-se em decorrência da atenção dedicada aos filhos, o que lhe demanda grande esforço físico. É mencionada a estreia na teledramaturgia, no próprio SBT, em “Pérola Negra”. Cena difícil ao lado de Dalton Vigh e Patrícia de Sabrit. Deram-lhe de primeira dois “bifes” (textos longos) para falar. Desafio transposto. É formada em Terapia Ocupacional pela USP. O que a levou a escolher este segmento fora o fato de poder lidar de forma direta com as pessoas, apresentando-lhes novas possibilidades da realidade. Discorreu de maneira apropriada sobre os conceitos que embasam seu olhar sobre a profissão, que considera gratificante. Afirma que a formação acadêmica lhe é importante para o ofício de artista. Em certo momento, teve que interromper os estudos para ser aluna de curso de Fátima Toledo. Considera-se mais útil como atriz, pois não teria “casca” para ser terapeuta ocupacional. A experiência como modelo durou dos 14 aos 18 anos. Fora descoberta por vizinhos donos de agência em São Paulo. Nesta seara, confirmou não ter se adaptado, porquanto era vista como “normal” para os padrões exigidos. A então modelo sentira dificuldades no processo de adequação aos ditames rígidos da área em pauta. Contudo, menciona a relevância do aprendizado no trato de questões profissionais, como a negociação de contratos. Após ser inquirida se o glamour do mundo da moda é maquiagem, concorda. Na escola, era boa em atletismo e oratória. E para ela, qual a definição de beleza? “Um valor”. Um valor no sentido geral, como a beleza de uma obra de arte. Autodenomina-de muito disciplinada, e o curso de “clown” que faz no presente a ajuda a abrandar esta característica. Ao lado de casa, mantém escritório para os assuntos atinentes ao labor artístico, como estudar textos, por exemplo. Confessou adorar participar de novelas, o que na sua opinião é um grande exercício de improvisação, de memória. Já no teatro, é permitida uma “decantação” do personagem. Atualmente é a Marquesa de Merteuil, a primeira vilã que interpreta, em “Ligações Perigosas”, de Choderlos de Laclos, o que está lhe sendo libertador. A seguir, produzirá espetáculo sobre Hannah Arendt e Martin Heidegger, ao lado de José Wilker. A iniciação nos palcos se deu pelas mãos de Denise del Vecchio. Maria Fernanda também exerce o lado empresária, como dona de restaurante, junto ao marido. Exalta o poder de transformação do casamento. O senão seria a perda da individualidade. Por questões éticas (já que não poderia corresponder aos convites de novelas), optou por trabalhar na Rede Globo somente em obras fechadas. É uma das criadoras da Casa do Saber, voltada para a cultura, em específico, a Filosofia. A entrevista caminha para o final, e no “bate-bola, jogo rápido”, ao ter que se definir no “Maria Fernanda Cândido por Maria Fernanda Cândido”, responde com sabedoria: “Na busca.”
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Uma mulher de cabelos longos castanhos pinta freneticamente aquarela em tons de azul. A imagem formada remete à olhar enigmático. Música minimalista, percussiva acompanha as pinceladas da jovem Mariana Terra, cuja missão é interpretar a si mesma e a renomada psiquiatra brasileira Dra. Nise da Silveira, além de outros personagens. A proposta dramatúrgica de Daniel Lobo e da co-autora Mariana é arriscada e desafiadora: integralizar as vivências da intérprete com a da médica em questão. Proposta feita. Desafio aceito. E ambos realizam o que tanto desejam: um belíssimo espetáculo em que as histórias se amalgamam até atingir a um todo cênico. Fascina poder conhecer mais tão emblemática e singular figura feminina de nosso país, vítima de preconceitos, descrédito da classe médica, e perseguições políticas. Seus perfil e idiossincrasias nos levam a admirar com intensidade maior a bravura e destemor daquela que defendeu com ferocidade as convicções abraçadas. O conceito de imagem e simbolismo desta são deveras esmiuçados, e a influência que a Dra. Nise recebera de Carl Gustav Jung nos é relatada. O texto de Daniel Lobo é lírico, bem estruturado e comovente. A peça também serve de instrumento para que Mariana Terra preste tributo ao pai. Mariana atua sem medos, deixando claras efervescências de íntimas emoções. Emoções que pareciam estar guardadas esperando o momento certo de se desnudarem. Resulta-se em atuação brilhante de Mariana Terra. O trabalho é enriquecido pela contribuição de Ana Botafogo, que traça conjunto de movimentos corporais fluidos, precisos, leves porém fortes, e bonitos. A direção musical coube a João Carlos Assis Brasil, que mestre que é, soube sabiamente inserir composições dele, e de outros compositores, como Ernesto Nazareth. A percussão de Marco Lobo é relevante e nos instiga, coerente com o tema abordado. O cenário de Ronald Teixeira é prático, dotado de inteligência, com o uso de cavalete, caixotes, cadeira e pequena mesa na qual está o inseparável bule de chá da Dra. Nise. Há ainda pano retangular enorme em tom cru estendido ao fundo, que serve para a projeção de vídeos de pintura, cenas subaquáticas, depoimento de Ferreira Gullar, e participações de Gilray Coutinho e Ednaldo Lucena. Instantes de Mariana com o pai são por nós testemunhados. O figurino já elogiado pertence também a Ronald Teixeira. O vestido da atriz permite que se movimente com facilidade. A preparação vocal de Cláudia Herz logra com que aquela cante com graça. A iluminação de Djalma Amaral é magnífica, brindando-nos com singelos focos e deslumbrantes luzes gerais de matizes amarelados. Quatro “spots” contribuem com o azul. Carlos Vereza empresta a voz marcante para a “Voz do Inconsciente”. A direção de Daniel Lobo é impecável, explorando toda a capacidade dramática da artista, e optando por intercalar palavra, movimento, música, vídeo e dança. E termina “Nise da Silveira – Senhora das Imagens”. Não para nós, pois saímos do teatro com a sã consciência de que a loucura não deve ser tratada apenas como loucura, e sim com entendimento e compreensão. E aqueles que daquilo sofrem devem ser lidados com afeto, como preconizava Dra. Nise. E que não deixemos apagar de nossas mentes conscientes a inefável imagem do afeto.








