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Blog do Paulo Ruch

  • “A banda Aymoréco, formada por Chay Suede e Diogo Strausz, traz para o cenário musical brasileiro um sopro alternativo de vitalidade como há muito não se via, com o uso irresistível de uma multiplicidade de sons pulsantes e letras inventivas, seguindo fielmente a proposta primeira da talentosa dupla, a busca por uma musicalidade latina e sensual.”

    setembro 2nd, 2016

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    O produtor, multi-instrumentista e arranjador Diogo Strausz e o cantor, ator, compositor e músico Chay Suede, após o show da banda Aymoréco, no Teatro Rival, no Rio de Janeiro.
    Foto: Paulo Ruch

    O Brasil sempre foi um berço de movimentos musicais artísticos que, por sua riqueza de sonoridades e criatividade rítmica, obteve, em distintas épocas, a merecida respeitabilidade e admiração de seu povo (alguns desses ao redor do mundo). Assim foi com o samba, cujo nascimento como hoje é conhecido, deu-se no início do século XX no Rio de Janeiro. O samba tornou-se com o tempo um de nossos principais signos de identificação no exterior. No final dos anos 50, surgiria aquele que, até os dias atuais, é considerado o mais importante movimento musical do Brasil: a bossa nova. A bossa nova, representada por Tom Jobim, João Gilberto e Nara Leão, ganhou os palcos internacionais e a reverência de ídolos do cenário externo, como Frank Sinatra. Nos anos 60, artistas como Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléa, dentre outros, lançaram um pop rock melódico e ingênuo que conquistaria fãs por toda a nação, a Jovem Guarda. Na segunda metade dos anos 60, os Festivais da Canção marcaram toda uma geração, e com eles passamos a conhecer Chico Buarque, que veio a se tornar um de nossos principais compositores brasileiros, com muitas de suas letras carregadas de forte teor político. No final da década de 60, sob o regime implacável de uma ditadura militar, a transgressão musical e estética se materializou na Tropicália ou Tropicalismo, que teve a influência de vanguarda das Artes Plásticas, como o Concretismo, além de inspirações estrangeiras, que influenciaram o cinema e o teatro. Daí, vieram nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Gosta, Os Mutantes e Tom Zé. Nos anos 80, o Brasil foi surpreso e sacudido pelo surgimento coletivo de grupos de rock de altíssima qualidade, como Legião Urbana, Barão Vermelho e Titãs, somados a tantos outros, originando assim o movimento que até hoje reverbera na formação de novas bandas e no imaginário das pessoas, o BRock. Desde então, excetuando-se o aparecimento do Mangue Beat, movimento contracultura liderado por Chico Science e sua Nação Zumbi, e conjuntos como O Rappa, não tivemos nenhuma outra manifestação cultural e artística reconhecidamente valorosa em nosso país. Claro que houve correntes musicais que açambarcaram por seus méritos bastantes fãs Brasil afora, como o pagode, a axé music, as duplas sertanejas, bons grupos de rock como o Skank, e atualmente o sertanejo universitário e o rap e o funk. Mas eis que surge em setembro de 2015, com o lançamento de um EP com apenas quatro faixas, intitulado “aymoréco” (um trocadilho com as palavras Aimorés e “amoreco”), uma dupla que se caracterizaria pela sua ousadia deliberada em mesclar os mais diferentes ritmos e influências musicais, e por conseguinte criar as suas próprias identidade visual e sonora, o cantor, ator, compositor e músico Chay Suede, e o multi-instrumentista, produtor e arranjador Diogo Strausz. Chay é de Vila Velha, Espírito Santo. Depois de ter participado do reality “Ídolos”, foi escalado para ser um dos protagonistas da novela “Rebelde”. O sucesso do folhetim fez com que o ator e cantor se juntasse a outros cinco integrantes da produção em um grupo musical homônimo. A banda Rebelde arrebatou o público adolescente, que ia em massa aos vários shows promovidos pelo país. Já o carioca Diogo Strausz, que já foi DJ, produtor de festas e guitarrista do grupo R.Sigma, lançou o EP “Garota Nacional” e o disco “Spectrum Vol. 1”, que contou com as participações de Alice e Danilo Caymmi, Kassin, e de seu pai Leno, da dupla da Jovem Guarda Leno & Lilian. Recentemente, a banda “Aymoréco”, sem muito alarde na mídia, apresentou-se seguidamente em shows pelo Rio de Janeiro: no Boulevard Olímpico, no Teatro Rival e na casa noturna Buraco da Lacraia, todos localizados no Centro do Rio de Janeiro. Assisti a dois desses shows (Teatro Rival e Buraco da Lacraia), e o que posso lhes dizer à princípio é que me tornei um grande admirador do trabalho desta dupla talentosíssima, que veio com a nobre missão de transformar, modificar e balançar os pilares da estagnação criativa de nossa música. Irei analisar em particular o show realizado no conhecido club da Lapa, o Buraco da Lacraia. No pequeno palco do espaço, sito junto à área da plateia, permitindo aos espectadores se colocarem bem próximos dos músicos, o que é muito bom e positivo, vê-se um cenário com viés futurista, em que papéis laminados prateados retorcidos forram significativa parte da ribalta, seja em sua frente ou na região posterior. Parece-nos à primeira vista uma robusta pedreira que vai absorvendo belamente as cores provindas da variada paleta de tons da iluminação. Chay e Diogo adentram o palco, e são recebidos com efusividade pelo público que lota a casa noturna. Tanto Chay Suede quanto Diogo Strausz, acompanhados de mais dois músicos (teclados eletrônicos e percussão), estão vestindo macacões brancos de mangas curtas, com a barra de suas calças levemente levantadas, o que nos faz perceber que estão descalços. A iluminação do show é absolutamente feérica e alegre, com predominância do vermelho, do verde, do rosa e do dourado. O recurso contribui bastante para o embelezamento de todo o conjunto da apresentação. O repertório de canções compostas por Chay possui títulos demasiado criativos e divertidos. Nota-se que as músicas do Aymoréco sofreram múltiplas e bem-vindas influências de demais gêneros, resultando, porém, em algo único, com sobeja personalidade. Avaliemos algumas das canções exibidas nos shows. Antes de mais nada é preciso que se diga que todas, ao seu modo, são inapelavelmente dançantes. A empolgante “Chuva de Like” refere-se, como o nome indica, aos relacionamentos afetivos em meio às redes sociais. Ou melhor, fala-se de uma espécie de amor platônico nestes tempos digitais. Usam-se termos próprios desta era moderna, como Instagram, Skype, “stalkear”, “printar”, “cutucar”, “seguir”, “nude” etc. Há uma pegada de surf music, e lembranças do som dos Titãs. Ao som de onomatopeias e versos como “Agora é assim/ Início do fim/ Quando o Carnaval chegar/ Com seus likes vou dançar…”, “Chuva de Like” (composição também de João Vitor Silva) é excelente. “Cilada” nos mostra novamente a inserção de acordes de surf music muito bem pontuados imiscuídos a uma variedade ampla de sons percussivos (lembra-nos às vezes a sonoridade de um ritual indígena e ruídos das florestas). Chay canta com uma voz com entoação diferenciada e em espanhol (são poucos versos, como “…Que Rico Mi Amor, Que Rico…”. “Cilada” nos oferta uma qualidade e uma exuberância sonora inacreditáveis. “Cilada” é, pode-se dizer, uma experiência musical sensorial e “lisérgica”. A linda, ultrarromântica e até certo ponto melancólica “Vem Que Tem” revela um Chay Suede com uma emissão vocal deliciosamente maviosa e suave. Quem não se comoverá com versos como “Sinto sua falta/E te quero bem/Pode ter certeza vem que tem…”? “Vem Que Tem” poderia ser classificada como pertencente ao estilo “tecnobrega”. Com romantismo, e começo marcado por percussão, a sensual “Água de Amor” também se define como vertente do tecnobrega, exigindo de Chay maiores extensões vocais, cumpridas com irrefutável êxito. Um de seus trechos diz: “Em teus olhos teu calor/Em teu cheiro água de amor/E a gente segue assim/Dez pra você e dez pra mim”. A suingada e psicodélica “Índia Jenifer” conta a história de uma bonita indígena que veio do Belém do Pará, que apesar dos traços de seu povo, não traz consigo a sua genuína identidade, devido às influências externas, estrangeirismos e modernidades. A denunciativa “Índia Jenifer” possui refrãos pujantes, como “Na guerra, na selva, floresta…”. Com riffs elaborados, a música se firma no repertório com sua riqueza melódica. “Hipopótamo” (pedida em bis) é uma música altamente festiva e jovial, sendo uma das que mais se identificam com a latinidade. Jogando com as palavras e suas rimas, com a preponderância de sopros, “Hipopótamo”, misturando os idiomas português e espanhol, é uma ode à felicidade e às cores, realçada em frases como “Pinta de amarelo, tira o azul daí, calça o seu chinelo, venha ser feliz.” Com um fugaz início que lembra a batucada dos terreiros de umbanda, seguido logo pelos acordes do violão de Chay, na bem-humorada e confessional “Rapadura”, que novamente aborda a admiração de um rapaz por uma moça, lança mão de repetições de palavras e vogais, rimas, e até mesmo falsetes. A canção, que contém trechos como “Rapadura é doce mas não é mole não/Cheio de Dalila pra ‘encarecar’ Sansão”, possui um dos melhores acompanhamentos instrumentais de todo o set list. Impossível ficar parado diante do suingue de “Rapadura”. Mais um acerto do Aymoréco. E o que dizer da animada, terna e doce canção “Dona Lucinha”, uma aberta, honesta e emocionante declaração de amor, admiração e carinho à mãe do cantor, poeta e compositor Cazuza? Chay, na verdade, de modo confessional, pessoal, conta-nos uma bonita história de seu encontro com a admirável e forte mulher engajada em importantes causas sociais. A veneração de Chay por ela se deve potencialmente tanto por esta razão quanto por ser a mãe de um de seus prováveis ídolos. “Dona Lucinha” é daquelas músicas que não cansamos de ouvir de tão encantadora que é. “Dona Lucinha” merece a reprodução de sua letra na íntegra: “Dona Lucinha é gente boa/Dona Lucinha é gente fina/Dona Lucinha/Dona Lucinha, mãe de Cazuza/Dona Lucinha vem e me usa/Me alucina/A primeira vez que te vi foi na festa de Paula Lavigne/Fiquei feliz demais/Fiquei correndo atrás/É só você me olhar e um sorriso se abre em meu rosto/Sinto vergonha e tal/Sei que escondo mal/Dona Lucinha sensacional/Dona Lucinha etc e tal/Me alucina/Dona Lucinha gente boa/Dona Lucinha gente fina/Me alucina…”. Confesso que poucas vezes em minha vida testemunhei uma homenagem tão sincera, verdadeira e tocante de um compositor a uma pessoa como a que Chay Suede fez a Lucinha Araújo. Ouvir “Dona Lucinha” com seus acordes instrumentais “alto astral”, “pra cima”, com uma “vibe” ótima, arrepia-nos. “Assassinos” é um single (com versos do poema de Gonçalves Dias, “I – Juca Pirama”) que tange a denúncia, com um viés mais politizado, privilegiando a letra falada em detrimento da cantada (“Nossas avenidas homenageiam assassinos/Até as bonitinhas/Pode crer…”), chegando próximo a um rap. Esta música ostenta um inegável domínio no uso amplo de palavras rimadas, todas dentro de um contexto narrativo forte que remete a guerras, tribos indígenas, peregrinações por terras devastadas de um pai e seu filho. Trata-se de fato da história penosa e guerreira de um índio da tribo Tupi que nos descreve as agruras por que passa em suas andanças por meio das quais tudo testemunha, numa mistura equilibrada dos ciclos de vida e morte. O que se pode concluir com estas duas apresentações da banda Aymoréco é que nada disso seria possível e viável se não houvesse um explícito entendimento e uma autêntica sintonia entre Chay Suede e Diogo Strausz. A impressão que temos é de que são dois amigos de longa data que estão realizando profissionalmente um antigo sonho de cantarem e tocarem juntos aquilo que possuem em comum: o amor que sentem pela música e seus infinitos sons. Tanto Chay quanto Diogo têm ambos uma incrível presença de palco. A cada ritmo eles correspondem com os seus corpos de um modo distinto, particular e carismático. Há uma cúmplice troca de olhares como se um estivesse dizendo ao outro: – Cara, está tudo dando certo! Ou: – Parceiro, agora vem aquela música que nos amarramos em tocar! E mais ainda, vindo de Chay: – Diogo, agora é a hora daquele som em que a galera vai vibrar! A isto chamamos de parceria, a isto chamamos de dupla, a isto chamamos de banda, grupo ou conjunto musical, enfim, quando cada um torce e deseja pelo progresso do outro, quando, no caso os dois, estão realmente juntos em nome do sucesso do Aymoréco. Aymoréco é, não há como negar, uma banda diferente. Uma banda que se inspira e se baseia numa profusão de ritmos e gêneros diversos. Mas a grande e visível diferença que os torna tão fascinantes é a sua personalidade. Tanto no Teatro Rival quanto no club Buraco da Lacraia, onde neste último o show foi em comemoração ao primeiro disco, “Aymoréco” (Universal Music), com produção de Mario Caldato Jr. e Diogo Strauzs, lançado no dia seguinte à apresentação, no dia 26 de agosto. Assistimos a um show com a marca, com o selo do Aymoréco. E isto é muito em termos artísticos. Quando entramos em qualquer show desta dupla, entramos com amor, e durante e após o mesmo já sentimos aquele “amoreco” por Chay e Diogo. Chay Suede, Diogo Strausz e sua banda Aymoréco merecem de nós todos não somente os aplausos merecidos, mas uma “chuva de likes”, com todos os amores que podemos lhes oferecer.

  • “Ao som da linda canção de Leonard Cohen, ‘Hallelujah’, na voz de Rufus Wainwright, a nova minissérie da Rede Globo, ‘Justiça’, escrita por Manuela Dias e dirigida por José Luiz Villamarim, discute com o seu público de forma corajosa e crua até que ponto vão os limites do comportamento humano, questionando-se apropriadamente o conceito de justiça num país onde sua aplicação é no mínimo dúbia e questionável.”

    agosto 24th, 2016

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    Foto: Ellen Soares/Gshow

    A primeira imagem à qual assistimos na estreia da nova minissérie da Rede Globo, “Justiça”, de Manuela Dias, com a direção artística de José Luiz Villamarim, foi a do decadente prédio modernista Holiday, com suas linhas geométricas semicirculares, localizado em uma das principais capitais nordestinas, Recife. Há dezenas de janelas, mas somente uma delas chamará a nossa atenção. Ouvem-se seis tiros (outros tantos já foram disparados). Num ângulo de câmera inusitado, a partir do buraco causado pelo projétil, vimos a autora daqueles. Quem faz um treinamento de tiro ao alvo é a sofisticada e charmosa professora da Faculdade de Direito Elisa (Debora Bloch). Após uma tórrida cena de amor entre a professora e seu namorado Heitor (Cassio Gabus Mendes), reitor da instituição acadêmica onde Elisa trabalha, a mulher que durante sete anos aprimorou suas habilidades no tiro pega uma carta, e decide lhe entregar, com a condição de que fosse aberta no dia seguinte. Por pressão de Heitor, logo ficamos sabendo de seu conteúdo. Elisa quer pôr um fim ao seu relacionamento, pois tem em mente a execução de um plano de vingança, estando disposta até mesmo a amargar os anos que lhe restam em uma cadeia. A história, que se passa nos dias atuais, retrocede ao ano de 2009. Deparamo-nos com uma linda e alegre jovem na proa de uma lancha com os seus amigos. Esta moça se chama Isabela (Marina Ruy Barbosa), filha de Elisa. Namora Vicente, rapaz rico, inconsequente e possessivo (Jesuíta Barbosa – o ator pernambucano está em sua terceira parceria com Villamarim, depois de “Amores Roubados” e “O Rebu”, e em sua segunda com Manuela Dias, após “Ligações Perigosas”). No meio da relação dos dois existe um obstáculo, Otto (Pedro Lamin), namorado de adolescência de Isabela, que inflama o ciúme doentio de Vicente, filho de um abastado empresário do ramo de transportes, Euclydes (Luiz Carlos Vasconcelos). Elisa está prestes a iniciar um caso amoroso com um rapaz bem mais novo do que ela, Téo (Pedro Nercessian). Téo é filho de Antenor (Antonio Calloni), sócio de Euclydes na empresa, que acaba lhe dando um grande golpe financeiro, levando o pai de Vicente à bancarrota. Vicente, que havia pedido Isabela em noivado, o que deixou a sua mãe um pouco contrariada, desespera-se com a possibilidade concreta de perder o seu status social, e com isso a sua namorada. Depois de ouvir conselhos de um dono de quiosque, Celso (Wladimir Brichta), resolve ir à casa da noiva, presenteá-la, e lhe dizer que está disposto a assumir o seu compromisso mesmo diante das dificuldades. Isabela, após conversas com sua mãe, indecisa quanto à continuidade de seu namoro com Vicente, não está só em sua casa. Ao seu lado, intimamente, Otto. Vicente chega, e flagra o casal nu embaixo de uma ducha de banheiro trocando ardentes carícias. Saca a arma que costumava portar, e sem hesitação, movido por paixão, dispara à queima-roupa cinco certeiros tiros na mulher que amava. Elisa testemunha o crime, e se junta ao corpo desfalecido e ensanguentado de sua filha. Uma Pietà com sangue e lágrimas. Vicente, enquadrado no artigo 121 do Código Penal, é condenado a 7 anos de reclusão. O plano de vingança de Elisa sobre o qual falamos no começo é justamente assassinar quem tirou a vida de sua filha quanto tinha apenas 18 anos. Para esta mãe não foi feita a justiça. Para ela, 7 anos de reclusão não se equivalem a 18 anos ceifados de uma jovem, e mais tantos outros que estariam por vir. À espera de Vicente na porta da penitenciária onde cumpriu a sua pena, na data de sua soltura, Elisa, pronta para pôr em prática a sua justiça, é obrigada a revê-la. Antes de apertar o gatilho “justiceiro” contra Vicente, uma cena a faz reavaliar seus intentos. Vicente agora possui uma filha pequena que o ama, que fica feliz ao reencontrá-lo, e uma esposa, Regina (Camila Márdila). Desta forma foi apresentado o primeiro episódio da minissérie “Justiça”. A nova produção da Rede Globo nos oferta um formato diferente daqueles aos quais estamos acostumados. A cada dia da semana (segunda, terça, quinta e sexta) será dedicada uma história, sendo que todos os personagens se entrecruzam de alguma maneira. Enquanto acontece um fato, um outro envolvendo um outro participante da obra decorre (neste episódio, Elisa e Téo testemunham o atropelamento da bailarina Beatriz vivida por Marjorie Estiano, estopim para o desenrolar de outro enredo). No que concerne à questão de haver tramas paralelas com personagens que se conectam, já vimos este recurso sendo usado com bastante propriedade pelo cineasta mexicano Alejandro González Iñárritu nos filmes “Amores Brutos” (2000) e “Babel” (2007). Porém, José Luiz Villamarim, um diretor sempre inventivo e habilidoso na condução das cenas e no cuidado com que trabalha a interpretação de seus atores imprimiu a sua própria marca. Fica-nos evidente ao apreciarmos os seus takes que Villamarim é um apaixonado pelas lentes de sua câmera. Ele gosta de “brincar” com ela, explorar todas as suas possibilidades, não ficando estagnado em uma só proposta cênica. Uma das movimentações de câmera mais destacada é aquela que “persegue” o intérprete em seu percurso, sendo filmado pelas costas. O diretor se caracteriza também pela sua objetividade fílmica. Não percebemos perdas de tempo em cenas desnecessárias. Tudo aquilo que ocorre em uma trama dirigida por José Luiz possui um sentido, uma função, provocando como corolário uma redobrada atenção do telespectador. A boa fotografia de Walter Carvalho se aproxima do naturalismo, buscando alguns tipos diferenciados de filtro. Walter usou em determinados momentos com inegável beleza a luz natural (como o dia de sol no mar), além de ter feito uma bela fotografia quando Elisa e Téo passeiam à noite à beira-mar pela Praia da Boa Viagem. A produção musical de Eduardo Queiroz e a gerência musical de Marcel Klemm se fazem notar pela adoção inspirada de canções e ritmos que remetem ao pop e muitas de suas vertentes, como o rock, o rock eletrônico, o regional e o romântico. A trilha incidental desenha com êxito o clima de tensão que paira por quase toda a narrativa. No entanto, a canção que mais nos emociona e nos toca é a primorosa versão do novaiorquino Rufus Wainwright para o clássico de Leonard Cohen, “Hallelujah” (a cena final que exibe Elisa em seu carro rumo à penitenciária a fim de matar Vicente é desde já antológica por sua potência imagética). O elenco do primeiro episódio se destacou de modo sublime. Houve a preocupação em inserir na vocalidade dos intérpretes um acento nordestino que fosse o mais próximo do genuíno, fugindo deliberadamente do sotaque carregado já visto em bastantes produções do gênero. Debora Bloch, como Elisa, ostentou a plenitude da dor de uma mãe que perde a sua filha de forma bárbara, e após a frieza impressionante de uma mulher que busca vingança em nome da sua justiça. Cassio Gabus Mendes é um intérprete que invariavelmente contribui para a nossa teledramaturgia com a sua atuação irretocável. Marina Ruy Barbosa surpreendeu-nos com a sua cada vez mais evolutiva maturidade artística, ao dar vida à jovem leviana Isabela. Marina fez cenas de absoluta sensualidade com Jesuíta Barbosa. A atriz de melenas ruivas, com sua beleza de face e corporal, ofusca as telas de televisão espalhadas pelo país. Jesuíta Barbosa é um ator que possui o costume de estar presente em produções de alta qualidade, e não raras vezes, para não dizer sempre, honra-as com os seus inesgotáveis talento e carisma. Jesuíta traz em sua persona algo que nos atrai, não se chegando à conclusão do que nos causa esta atração. Pode ser o seu adorável sorriso, a sua voz com modulação diferenciada ou a força que emana de seu corpo físico não forte, entretanto esbelto. Luiz Carlos Vasconcelos, respeitadíssimo artista de teatro, TV e cinema, emprestou a sua elegância interpretativa ao sociável empresário Euclydes. Pedro Nercessian quando apareceu em suas primeiras cenas quase não o reconhecemos. Pedro está com feições mais adultas e bonitas. Estas características, somadas ao poder de sedução e charme solicitados pelo perfil de seu papel foram atendidos com brilho pelo ator. Conhecemos o mineiro Pedro Lamin, que ganhou um personagem de realce neste primeiro episódio ao ser o pivô de toda a tragédia envolvendo Isabela, Vicente e Elisa. Pedro soube aproveitar cada detalhe de suas cenas, mostrando-nos segurança e convicção. Coube a ele uma realista cena de sexo no chuveiro com Marina Ruy Barbosa. “Justiça” é uma minissérie excelente pelo que nos foi apresentado em seu início. Viram-se apuro e inteligência dramatúrgicos, direção em perfeita sintonia com o texto e time de atores reconhecidamente valoroso. Manuela Dias, em sua segunda oportunidade como autora principal de uma obra (a primeira fora, como dito acima, “Ligações Perigosas”), firma-se como uma de nossas mais inventivas, hábeis e notáveis representantes de novos teledramaturgos. Sua capacidade em criar ou adaptar histórias merece todas as loas possíveis. Com esta minissérie, Manuela Dias nos oferece a chance de debatermos aquilo que nos é caro, precioso e inalienável: o sentimento de justiça. Um sentimento que em poucos casos se alia às leis ultrapassadas de um Código Penal imaginado no início da década de 40. Um Código ultrapassado e indulgente. Um Código que o nosso Congresso Nacional não quer tampouco pretende mudar. Um conjunto de leis que em inúmeras ocasiões pune as vítimas e inocenta os criminosos. O nosso Brasil legal, imoral em sua leniência em progredir, atende com gosto à criminalidade, e faz chorar de Norte a Sul famílias inteiras que levam em seus rostos fortes bofetadas de uma senhora a qual conhecemos bem. Seu nome é impunidade. Para ela só queremos algo. Nem que seja apenas na minissérie de Manuela Dias. E seu nome é muito mais bonito: JUSTIÇA.

  • “Ordinary Days – Um Musical Off-Broadway” reafirma a nossa vocação natural para este fascinante gênero teatral, e nos oferta, por meio de um elenco impressionantemente talentoso, um espetáculo adorável, sedutor, divertido e sensível.”

    agosto 15th, 2016

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    Foto: Divulgação do espetáculo

    “Ordinary Days – Um Musical Off-Broadway” já nasceu vitorioso. Primeiro porque se trata de uma reafirmação da vocação do teatro nacional para a realização de musicais, e segundo por se tratar da conquista de uma determinada e talentosa equipe, que inclui produtores, atores, diretor e demais profissionais da área técnica que se empenharam para levar a cabo, mesmo sem qualquer patrocínio, a montagem desta peça originada da dramaturgia de um dos mais promissores e incensados compositores norte-americanos da atualidade, Adam Gwon. O espetáculo em questão nos prova de que é possível se fazer um teatro de qualidade e excelência, desde que haja a vontade inequívoca dos envolvidos, e o interesse do público em ver concretizada a encenação sugerida (utilizou-se o conhecido meio de financiamento Catarse, no qual toda e qualquer pessoa contribui para a sua produção, obtendo em troca, por exemplo, a aquisição de ingressos antecipados, e outras vantagens). “Ordinary Days” – Um Musical Off-Broadway” não foge aos padrões convencionais dos musicais americanos que ganharam o mundo, mas há nele um sabor, um aroma, um “sotaque” genuinamente brasileiros que o diferencia obviamente daqueles. O diretor da encenação Reiner Tenente, creio, intentou imiscuir esta bem-vinda brasilidade à história de dois casais novaiorquinos, cada um deles passando por situações representativas das relações humanas, que se deparam com os obstáculos comuns à vida de qualquer indivíduo que resida em uma grande metrópole. Os casais são formados por Jason (Hugo Bonemer – o ator reveza com Mau Alves) e Claire (Fernanda Gabriela – alterna o papel em diferentes sessões com Gabi Porto), e Warren (Victor Maia – divide o personagem com Caio Loki) e Deb (Julia Morganti – em outras apresentações, substituída por Tecca Ferreira). Jason acaba de se mudar para o apartamento de sua namorada Claire, e em meio às arrumações não controláveis de inúmeras caixas de papelão e consequentes descobertas daquilo que nelas está contido, discutem-se o grau de entendimento do par, o seu real sentimento, a sua verificada reciprocidade ou não, os seus reveses, prazeres, a dúvida do amor compartilhado, o arrependimento mútuo ou solitário e outros tantos aspectos que definem uma relação afetiva. Já Warren é um espevitado artista de rua que escreve em recortes de papel colorido mensagens ou frases de cunho positivo, motivacional ou edificante. O rapaz lépido encontra por acaso um livro em cuja capa há um coração desenhado. A brochura pertence à divertida acadêmica formada em Literatura Deb, e na mesma estão as anotações imprescindíveis para a formulação de sua tese. Deb é insegura com relação às suas potencialidades profissionais, e não poucas vezes se vê mudando de opinião ou decisão em outros campos. Tendo pinturas de Monet ou Manet como testemunhas em um museu, conhece o portador de seu estimado livro. Jason, Claire, Warren e Deb são signos eloquentes de uma sociedade contemporânea, individualista, competitiva e excludente, sem que estas características impeçam o fascínio exercido sobre os seus membros. E nenhuma cidade do planeta representaria tão fidedignamente este padrão social do que a cosmopolita e babélica Nova York. Somando ao todo 21 canções (inspiradas e criativas versões em Português das músicas compostas por Adam Gwon feitas por Caio Loki, elenco, Equipe Contribuições de Clara Equi e Tauã Delmiro), o musical que estreou no Teatro Serrador, no Centro do Rio de Janeiro, ganhou de seu encenador, Reiner Tenente, um direcionamento exponencialmente ágil, dinâmico, o qual atende com privilégios e prioridades às forças e potências exuberantes das aptidões vocais e expressividades corporais de seu talentoso grupo de intérpretes. Reiner soube distribuir e alocar com critérios definidos e acertados os números musicais dentro da narrativa teatral. O “entra e sai” dos atores, lógico, reporta-nos ao clássico vaudeville, assemelhando-se aos modelos adotados por algumas obras do gênero. Tal movimentação quase permanente, pois existem pausas e silêncios importantes na peça, exige de seu elenco sobejo preparo físico e percepção aguçada do tempo de cada ator que o compõe. Hugo Bonemer, um jovem e belo ator paranaense com notáveis experiências em sucessos musicais, como “Hair” e “Rock in Rio – O Musical”, apresenta-se como um artista completamente seguro de si, maduro, sabedor pleno de sua linda entoação vocal. Hugo, ao cantar, ostenta o seu conhecimento técnico da farta gama de notas que lhe são exigidas, cumprindo com garbo a sua função de dar vida ao apaixonado Jason. O mesmo se pode dizer de Victor Maia (“The Full Monty – Ou Tudo Ou Nada”), um intérprete pronto, com brilho lapidado e carisma inquestionável. O carioca, que também é bailarino e coreógrafo, flana pelo palco com suas movimentações precisas e pujantes, acompanhadas por sua poderosa e límpida voz, fazendo-nos conhecer com amplitude o perfil do artista sonhador Warren. Julia Morganti (a atriz e produtora lançou um programa virtual chamado “Gaiola das Roucas”) transborda graça, doçura, fino humor e impressionante domínio vocal. Julia, com seus volumosos e bonitos cabelos loiros, seduz e conquista a plateia em diversas ocasiões, arrancando risos e sorrisos espontâneos, com a composição elaborada da sensível e engraçada Deb. Fernanda Gabriela, que estrelou o monólogo “Efeitos de Borboleta”, defende com rica e profunda emotividade a personagem Claire, exibindo todas as camadas passionais desta mulher obrigada a encarar as possibilidades de êxito ou fracasso de seu relacionamento amoroso. Sua postura cênica e docilidade (assim como Julia) nos tocam. Fernanda, com sua irretocável interpretação das canções, completa o notável time de atores/cantores. “Ordinary Days…” inova de certa forma com o revezamento de seus quatro protagonistas. Em outras sessões, como fora dito, os atores principais são Caio Loki, Gabi Porto, Mau Alves e Tecca Ferreira. Na apresentação analisada, estes mesmos atores participaram com funções diferentes no entrecho dramatúrgico, colaborando todos eles inquestionavelmente para a realização bem-sucedida da montagem. A direção musical de Marcelo Farias é distintamente exemplar. Marcelo, como um bom maestro, conduziu com exímia eficiência, habilidade e sensibilidade a vasta combinação de vozes do elenco e sons e acordes do piano tocado por uma quinta protagonista, a virtuose pianista Arianna Pijoan, que também integra o ensemble. Arianna interage com os atores, por meio de suas expressões faciais e gestuais, gerando uma ótima resposta dos espectadores. A iluminação de Rubia Vieira é em alguns momentos feérica (vê-se uma deslumbrante e múltipla utilização de cores; refletores de LED cumprem com prodigalidade esta função) e em outros se aproxima mais do intimismo, com a adoção deliberada de focos e sombras, provocando um excelente resultado estético e visual. A cenografia de Caio Loki e Equipe se vale da modernidade de estruturas metálicas (juntas formam uma espécie de andaime e seus respectivos andares) e a simplicidade (nem por isso menos eficaz e funcional) simbolizada por caixas de papelão, bancos com a mesma textura, além de uma estante com livros para Deb. Atrás do andaime, que assume vital relevância na obra, vislumbra-se um extenso e enternecedor painel sobre o qual estão imagens de arranha-céus de Nova York (os mesmos arranha-céus citados em uma parte do texto: “Não deixe que arranha-céus escondam de vista os seus sonhos.”). O figurino coube a Renan Mattos, que nos ofereceu com a mais absoluta fidelidade e elegância os costumes e trajes urbanos usados na metrópole americana retratada. Há um desfile de jeans, jaqueta, colete, cachecóis, trench coats, vestidos, boots, dentre outras peças, comprovando que Renan não poupou esforços e pesquisas a fim de que houvesse uma reprodução remetente ao imaginado local da ação. “Ordinary Days – Um Musical Off-Broadway” é um espetáculo que cumpre muitas das suas missões primeiras. Reafirma, como disse, a nossa vocação natural e nata (desde o Teatro de Revista) para a realização de musicais de qualidade, não devendo em nada aos congêneres norte-americanos e londrinos. Comprovando-nos de que é possível sim a produção de uma peça sem o auxílio, mesmo que seja de extrema significância, de um patrocínio declarado. Enchendo-nos de orgulho ao conferirmos bem próxima de nós a existência de atores, artistas e cantores que fazem valer a máxima de que são completos em seus ofícios. “Ordinary Days”… nos diz, por intermédio de suas adoráveis canções, de que a vida mesmo sendo comum em seu dia a dia pode ter escondida atrás de seus “arranha-céus” aquela felicidade, aquele sonho pelo qual tanto lutamos, ou que podemos encontrar por um acaso, em meio a uma “tempestade de papéis coloridos picados”, a mensagem certa que esperamos… por toda uma vida.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    agosto 14th, 2016

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo da Ford Models Brasil Augusto Burigo, na 20ª edição da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
    Augusto, que reside em São Paulo, fez em fevereiro deste ano um editorial chamado “Safári Urbano”, com fotos de Cecília Duarte, para a revista VIP.
    Junto a outros cinco modelos, e tendo como estrela a top Isabeli Fontana, participou de um ensaio fotográfico (com registros de Zee Nunes) da Morena Rosa, em sua campanha para o Inverno 2015, que simulou fiel e caprichadamente o universo western celebrizado pela indústria cinematográfica norte-americana (há também um belo filme de Marcos Mello, da Cavallaria Filmes, mostrando o ensaio).
    Coprotagonizou com a modelo Fabi Mayer o lookbook da Ellus Jeans DeLuxe Verão 2016 (Tavinho Costa foi o responsável pelas fotos).
    Foi visto no comercial de O Boticário que lançou as suas novas fragrâncias Intense.
    Fotografou no Peru para Jacques Ferrand, vestindo peças da Saga Falabella.
    Também foi fotografado por Cristiano Madureira.
    Trabalhou na Alemanha para o OUTLETCITY METZINGEN.
    Fez campanhas para a Pontal Calçados, Beagle (campanha de inverno 2016), Six One (fotos de Hebert Coelho), Tendenza (imagem de Marcelo Ringo) e Aramis Menswear.
    Em Milão, desfilou para a Cleofi Finati (by Archetipo).
    Na São Paulo Fashion Week Verão 2016, desfilou para a Cavalera, e na edição Inverno 2016, para a Ratier.
    Augusto Burigo, além de sua conta pessoal no Instagram, possui uma outra, ao lado de Aline Hasse, a “Entre Polos”, que tem por objetivo mostrar as várias partes do mundo que conheceu, com suas histórias, aventuras e curiosidades sobre os locais visitados.

    Agradecimento: TNG

  • “Utilizando-se de sua ampla inventividade na criação de tipos populares, Rodrigo Sant’Anna, em ‘Segundo Turno de Risadas’, por meio de sua reconhecida vocação para o humor, revela, de forma subliminar ou ostensiva, amparando-se em uma crítica social, o perfil de indivíduos ou símbolos facilmente identificáveis em nosso cotidiano.”

    agosto 2nd, 2016

    Rodrigo-Santanna
    Foto: Reprodução

    Faltando exatos dois meses para as eleições municipais, dentro de um cenário político chamuscado por fatos recentes, Rodrigo Sant’Anna, que se notabilizou por seus personagens populares em programas de humor na televisão, reedita um outro texto seu levado aos palcos em 2009, “Comício Gargalhada”. “Segundo Turno de Risadas”, com dramaturgia de Rodrigo, Mariana Rebelo e Conrado Helt, com a direção do intérprete, é uma montagem leve e divertida, na qual o seu ator principal aposta com acerto no poder de seu carisma junto ao público, e em seu elevado nível de comunicabilidade, facilitado por sua boa, articulada e natural emissão de voz, e postura discreta e espontânea quando se apresenta como ele mesmo em cena. Trajando uma blusa preta de mangas compridas bem justa (e calças e boots da mesma cor), evidenciando a sua ótima forma física, o artista se desdobra em vários papéis, sendo que cada um deles ostenta uma clara ou subliminar crítica social, ao proferir seu particular discurso. Aproximando-se vez ou outra do gênero “stand-up”, somado aos distintos esquetes ou quadros, Rodrigo se vale de sua ampla capacidade de criação de tipos populares, privilegiando aqueles que provieram da região do subúrbio, para traçar as linhas dramatúrgicas de sua obra. São ao todo nove personagens, começando pelo impagável e ferino transexual Valéria Vasquez (grande sucesso do outrora chamado “Zorra Total”, na Rede Globo), com suas vestimentas multicoloridas e inusitadas (Valéria é, sem dúvida, uma das composições mais inspiradas do ator/comediante). Temos também Jurandir, um homem simples que desfaz da aparência física de sua esposa; Pop, uma moça afetada sempre conectada ao mundo virtual; Adelaide, conhecida como a “mendiga pedinte”, uma senhora engraçada e sem “papas na língua” que, de alguma maneira, denuncia a falta de planejamento familiar no Brasil, e a influência da cultura norte-americana em nosso país, inclusive nas classes menos favorecidas; Zé…, a simbolização do órgão sexual masculino, que nos confessa, sem pudor, todas as angústias por que passa ao assumir as suas funções no contexto de uma relação íntima; Regina Célia, uma idosa irritadiça defensora da liberdade sexual dos pertencentes à terceira idade; Soninha Sapatão, uma homossexual que tenta nos provar sua inexistente feminilidade; Carol Paixão, uma jovem supostamente sensual escravizada pelo culto obsessivo ao corpo perfeito e adepta peculiar do estilo de vida de certos frequentadores de academias de ginástica; e Admilson, um indivíduo notadamente vulgar em seu trato com as mulheres, sendo este perfil superdimensionado pela forma e conteúdo pobres de suas “cantadas”. No que concerne aos elementos técnicos da encenação, o cenário se resume a um “palanque” situado no centro do palco, tendo à sua frente um espaço no qual são inseridas figuras representativas dos personagens em ação por meio das imagens de seus corpos físicos revelados da cintura para baixo (este mesmo “palanque” é utilizado como biombo para troca de roupas). A trilha sonora se condensa em uma repetida (propositadamente) música incidental de caráter infantil e formato monossilábico que demarca a transição dos personagens para Rodrigo, além do hit da cantora Sia, “Chandelier”. Os figurinos atendem com coerência, buscando amiúde o exagero e a extravagância de uma caracterização, às personalidades dos tipos perfilados (deve-se ressaltar o elegante costume todo preto, já dito, de Rodrigo Sant’Anna, nos momentos de comunicação com a plateia). A luz se baseia na predominância de refletores de cor azul (presentes nos intervalos dos quadros), e nos focos sobre o artista solo, vistos em não poucas situações (a iluminação é acompanhada por um suave fog). “Segundo Turno de Risadas” é uma peça que se sedimenta em um humor que bebe nas fontes populares, e não há nenhum demérito nisso, sendo enaltecida pelo protagonismo de um ator reconhecidamente talentoso na esfera da comicidade, possuidor de um brilho pessoal indelével.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    julho 24th, 2016

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    Foto: Paulo Ruch

    A modelo Waleska Gorczevski na 20ª edição da São Paulo Fashion Week, em sua temporada Verão 2016, no Parque Cândido Portinari.
    Waleska, que é natural de Santa Catarina, pertence ao cast da agência novaiorquina dna Model Management.
    Em 2012, com apenas 15 anos, vence um concurso de modelos, e passa a ser agenciada pela Ford Models.
    Em 2014, mudou-se para Nova York com a sua família, cidade na qual reside até hoje
    A jovem modelo nascida em Florianópolis bateu um recorde mundial recentemente, ao ter desfilado, durante a temporada de Inverno 2016, para 67 marcas importantes (há bastante tempo uma profissional brasileira não atinge este número).
    Atualmente com 18 anos, a mais nova top model tem se mantido como a modelo recordista de desfiles nacionais e internacionais (em 2014, participou de 170 desfiles).
    Esteve presente nas principais semanas de moda do mundo, como a de Nova York, a de Londres, a de Milão e a de Paris.
    Foi vista em campanhas de Marc Jacobs e Vera Wang, na capa da revista Elle, e em editoriais da Vogue brasileira, alemã, chinesa e japonesa, e de outras publicações, como “Interview”, “Love” e “Heroine” .
    Vestiu coleções de grandes marcas, como Chanel (inclusive no histórico desfile que simulou um supermercado), Dior, Hermès, Stella McCartney e Dolce & Gabbana.
    Ainda neste ano, foi a estrela da campanha “Collection” Verão 2016 da grife Versace.
    Waleska Gorczevski, considerada por muitos especialistas como a nova Gisele Bündchen, manteve, durante um período, um canal de vídeos no YouTube mostrando a sua rotina como modelo, a movimentação nos backstages e sua participação nos castings.

    Agradecimento: TNG

  • Entrevista que eu, Paulo Ruch, concedi ao jornalista Igor Martim, em seu Blog CjMartim.

    julho 1st, 2016
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    Amigos, leiam a entrevista reveladora que concedi ao jornalista Igor Martim. Nela, falo sobre os atores inexperientes que só buscam a fama, como e por que desisti da minha carreira de ator, o que fiz para que as minhas críticas teatrais se tornassem reconhecidas, digo quais são os prazeres e dissabores de se ter um blog, como eu conheci o trabalho do ator Renato Góes, como eu lidei com o meu ego ao ser admirado por parte da classe artística, se eu já feri alguém com uma crítica, como eu rebato os que consideram a moda como algo fútil, o que é tirar a foto de um ator ou modelo para mim, como eu recebo uma reação negativa a algo que escrevi, e na minha opinião, digo quando um ator “suicida” a sua arte. Espero que gostem. É uma entrevista por vezes forte e comovente. Acredito que não se arrependerão ao lê-la. Abraços. Paulo Ruch

  • “O círculo da crítica teatral é bastante seletivo”

    julho 1st, 2016

    Amigos, leiam a entrevista reveladora que concedi ao jornalista Igor Martim. Nela, falo sobre os atores inexperientes que só buscam a fama, como e por que desisti da minha carreira de ator, o que fiz para que as minhas críticas teatrais se tornassem reconhecidas, digo quais são os prazeres e dissabores de se ter um blog, como eu conheci o trabalho do ator Renato Góes, como eu lidei com o meu ego ao ser admirado por parte da classe artística, se eu já feri alguém com uma crítica, como eu rebato os que consideram a moda como algo fútil, o que é tirar a foto de um ator ou modelo para mim, como eu recebo uma reação negativa a algo que escrevi, e na minha opinião, digo quando um ator “suicida” a sua arte. Espero que gostem. É uma entrevista por vezes forte e comovente. Acredito que não se arrependerão ao lê-la. Abraços. Paulo Ruch

    Cjmartim

    Paulo Ruch é jornalista, fotógrafo e teve um passado como ator. Possui um blog que aborda vários assuntos ligados ao entretenimento e, claro, suas significativas críticas teatrais, que não economizam nas palavras e no respeito às equipes dos espetáculos. Nesta entrevista, o jornalista revela que não gosta do termo “blogueiro”, que existe péssimo ator a olhos vistos e, ainda, revela seu respeito à classe artística.

    Paulo, me desculpe, mas não vou colocar perfil em sua foto. Os mais sensíveis vão identificar que se trata de um homem apaixonado pela cultura, pelo conhecimento e que respeita o artista como se deve respeitar uma música clássica: em silêncio e sentindo a emoção tomar forma. Quanto aos mais insensíveis, não se preocupe! Depois dessa entrevista, vão olhar para sua foto e terem a percepção que existe algo mágico e transformador nos seus olhos.

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  • São Paulo Fashion Week Verão 2016

    junho 18th, 2016

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Diego Fragoso, na São Paulo Fashion Week Verão 2016, em sua edição comemorativa pelos 20 anos de atividades prestadas à moda.
    Diego é alagoano, vive atualmente em Nova York, e pertence a duas agências internacionais importantes, a RE:Quest Model Management e a Elite Model Management Milano.
    Além de modelo, é empresário (dono da marca de roupas Maceyork e de uma gravadora de mesmo nome), rapper e DJ (em seu videoclipe “Black Everything”, gravado em Los Angeles, usou as roupas de sua própria grife).
    Foi visto nas publicações “Esquire” Rússia e Sérvia, e “Harper’s Bazaar” Brasil.
    Em 2012, Diego Fragoso, na Semana de Moda de Milão, desfilou para 12 grifes (dentre elas Dolce & Gabbana e Dirk Bikkembergs), e foi o único brasileiro escolhido para integrar o clipe “Taste.it”, dirigido por Luca Finotti para o site “Models.com” (o vídeo reuniu os rapazes que fizeram mais sucesso na temporada).
    Após ter desfilado de underwear para o estilista Philipp Plein em uma semana de moda masculina em Milão em 2013, foi considerado “o corpo da temporada” (Diego possui várias tatuagens por todo o corpo).
    Ainda na semana de moda de Milão, circulou pelas passarelas de Giorgio Armani, Emporio Armani, Vivienne Westwood, Carlo Pignatelli e Ermanno Scervino.
    Em junho de 2015, cada vez mais dedicado à carreira de músico, apresentou-se no Royal Club, em São Paulo, no qual mostrou as músicas de seu novo CD, “Fashion  Killa”, e seu clipe – gravado novamente em Los Angeles, “Five Star Hotel”.
    O modelo já desfilou com exclusividade para a marca francesa Givenchy, e participou de sua campanha Spring Summer 2016 .
    Na São Paulo Fashion Week Verão 2016, desfilou para Cavalera e Colcci.
    Na última edição da SPFW, Diego Fragoso atuou em outra função, repórter e vlogger, fazendo entrevistas para o VLOGdeCARAS, na TV UOL.

    Agradecimento: TNG

  • ” Em ‘Os Sonhadores’, com Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David, um espetáculo de Diogo Liberano baseado no romance de Gilbert Adair, três jovens extravasam as suas ideias e os seus mais intrínsecos anseios de liberdade e amor, em meio a um período político histórico, equilibrando-se numa fina e tênue corda tensionada pela poesia da palavra e pela pujante linguagem do corpo. “

    junho 3rd, 2016

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    Foto: Dalton Valério

    Em tempos de inconstâncias políticas nacionais que reverberaram de forma negativa na área cultural e artística, o espetáculo “Os Sonhadores”, de Diogo Liberano, baseado na obra do jornalista, crítico de cinema e poeta escocês Gilbert Adair, soa infinitamente atual e oportuno no panorama teatral brasileiro (o romance rendeu o longa-metragem homônimo do cineasta italiano Bernardo Bertolucci, levado às telas em 2003, tendo em seu elenco Eva Green, Michael Pitt e Louis Garrel). Na peça dirigida por Viniciús Arneiro, protagonizada por Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David, também idealizadora do projeto, três jovens, Theo (Igor), Isabelle (Juliana) e Matthew (Bernardo), os dois primeiros irmãos franceses, e o terceiro um “imigrante” americano. O trio, na Paris de 1968, em plena efervescência do Movimento Estudantil que entrou para a História, e que até hoje serve de referência para manifestações populares espalhadas pelo mundo, decidem ir à Cinemateca da cidade francesa, e lá se deparam com a indesejada notícia de que o seu curador fora exonerado, o que impossibilitaria a exibição dos filmes programados. Ocasionalmente, o casal de irmãos conhece o rapaz vindo das Américas, e a partir deste encontro surge uma relação simbiótica progressiva que os absorve irreversivelmente, levando-os aos extremos comportamentais. Já que os jovens não mais podem se perder nos sonhos e fantasias cinematográficos, resolvem por eles mesmos criar os seus próprios filmes, expandindo as suas imaginações, e testando os limites de suas sensações. Precisam, de modo premente, inventar o seu filme. Invadem velozes e destemidos um importante museu de obras clássicas, e assinam as suas pinturas com tintas transgressoras nas grandes paredes dos longos corredores povoados de turistas curiosos não necessariamente interessados em Arte pura. Theo e Isabelle são filhos de um poeta ultraconservador para quem “a poesia é uma petição”, e de uma mãe que não se expressa verbalmente, representantes legítimos da alta classe burguesa. Estes mesmos irmãos possuem um relacionamento incestuoso, o que não lhes causa quaisquer vestígios de culpa, corroborando a sua face demolidora dos códigos de moral estabelecidos na sociedade. Em vista disso, Matthew, a princípio, vê-se um tanto confuso, aturdido e retraído com tantas novidades que lhe são apresentadas pelos seus parceiros. O americano, mesmo com o seu jeito mais recolhido, mas nem por isso menos rebelde nas ideias, seduz implacavelmente Theo e Isabelle. Os três formam um ser uno e inseparável no tocante ao sexo aberto, um sexo libertador, extasiante, sem regras, manuais ou convenções a serem seguidos. Um poliamor assumidamente subversivo, vertiginosamente sensorial e inegavelmente prazeroso. Um voyeurismo consentido do desejo masculino saciado solitariamente. A visão catártica do prazer do outro que lhe está tão próximo. Jogos caseiros de adivinhações de filmes servem como pretextos para que um jogue com o outro na busca teimosa de um autoconhecimento e conhecimento coletivos. Suas fragilidades são expostas como carne viva. O ser dominante e o ser dominado se justificam no ato sexual e na vida como condição indissociável da existência humana. Em meio a uma realidade dura e truculenta, com o Estado e seu sistema munidos de cassetetes como forma de linguagem possível para enfrentar seus oponentes à sua falta de ideias, os sonhos se tornam mais uma vez a única vereda de salvação genuína. A nudez dos gêneros, frontal, liberal, cotidiana e habitual, sublime em sua naturalidade, impõe-se como forma de expressão e afirmação válida. Enquanto vivem ou sobrevivem num universo onírico de emoções confinados no quarto de hóspedes de Matthew, entregando-se aos vícios da bebida e do fumo com a sua fumaça sempre a afrontá-los, “degustando” rações de gato, a realidade engendrada pelo poder estatal absoluto escorado no modelo irracional se materializa nas ruas amotinadas. A voz virgem do jovem clama pelos seus direitos e liberdades usurpadas. A cultura de uma geração profanada. Uma pedra vale como um livro. Ou o livro tem o peso de uma pedra arremessada na janela não discreta. Theo, Isabelle e Matthew travam diálogos eivados de ideologias individuais ou universais. Seus corpos nus e alvos se juntam num amálgama de peles e formas, num desejo compartilhado. Uma escultura viva e inebriante de linhas delgadas sequer pensadas pela mente mais fértil. A morte quando breve se assemelha a uma imagem de um filme criada pelo olho do amante em pranto. Vivencia-se o sonho, e se acorda com o real. Ouvem-se os sons de tiros, bombas e da turba, vislumbra-se o sangue do inocente escorrendo após o golpe sem misericórdia dos homens fardados e blindados. As paredes têm ouvidos, e os ouvidos têm paredes. A chuva e suas gotas testemunham o fim trágico/poético. O casal sentado passivamente assiste à destruição em fragmentos das forças de manipulação, e à revoada libertadora dos livros de educação. A dramaturgia de Diogo Liberano (codramaturgia de Dominique Arantes) sobressai-se pelo olhar cuidadoso e reverente com o qual se relaciona com as palavras, suas frases e proposições constituídas. Percebe-se, entre um silêncio e outro, que as falas dos personagens, sublinhadas pelos seus conflitos individualizados e com os seus pares, carregam uma riqueza desvelada em sua estruturação, no sentido de tornar o conceito de ideia e opinião emitidos por aqueles nas distintas situações valorizado em sua significância. Há quase uma permanente e constante troca de pensamentos, respeitando-se diferentes sintonias e frequências, entre os partícipes da história, que não raras vezes se embatem por defenderem posicionamentos opostos. Diogo e Dominique preservaram em seu texto cênico o frescor do ideário juvenil, com toda a sua inata contestação, e respectivas reflexão e visão particulares acerca do microcosmo que os cerca, e do grande mundo que está bem próximo, simplesmente do lado de fora. O texto flui com potente regularidade, sustentando a solidez de sua proposta primeira. A direção de Viniciús Arneiro privilegia com proeminência a associação harmoniosa e equilibrada entre o corpo, o seu movimento e a palavra, obtendo admiráveis resultados cênicos. Ficou-nos evidente a sua intenção de trabalhar com acuidade a infinita gama de possibilidades das movimentações corporais de seus atores, acompanhadas de diferenciadas gradações de velocidade e ritmo, exigindo por parte daqueles avolumado e complexo domínio sobre a sua matéria física. Já no prólogo da peça e em outras passagens, vemos Igor, Juliana e Bernardo adentrando o palco com movimentos em “slow motion” exemplarmente compassados, marcados e sintonizados. Num tempo próprio e específico, os personagens vão se estabelecendo como protagonistas de suas histórias. Viniciús teve a brilhante ideia de colocar uma tela cobrindo toda a extensão frontal da ribalta, próxima à invisibilidade, sobre a qual se projetam as mais diversas imagens em variados ângulos e contextos, como as de seus intérpretes, com destaque para o foco em áreas de suas anatomias, como os efeitos deslumbrantes de figuras com forte impacto visual, como os versos inspirados da poetisa polonesa Wislawa Szymborska. A tecnologia foi usada com indiscutível criatividade, à serviço do enriquecimento e embelezamento da montagem (vê-se a imagem etérea holográfica do ator Bernardo Marinho de costas observando a ação). O encenador buscou o humor e logrou êxito em uma das melhores cenas do espetáculo, na qual, em fila, o elenco, supostamente ao som de uma música que se repete impiedosamente, executa uma engraçadíssima coreografia marcada principalmente por estalos de dedos e pulos para a frente com movimentos pélvicos. O elenco formado por Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David se destaca uniformemente por compreender com agudeza e sabedoria interpretativas os sentimentos múltiplos com toda a sua notória complexidade e contraditoriedade que são característicos aos muito jovens. Igor, como Theo, transita com elegante desenvoltura por todas as fases emocionais por que passa o rapaz cheio de sonhos e ideologias. Em iguais níveis de qualidade nos demonstra os sentidos do desejo, do ciúme e do caráter contestatório. Bernardo Marinho compõe o seu personagem, o americano Matthew, amparado por sua boa voz grave, com finas nuances que demarcam com acentuada nitidez a personalidade retraída, conflituosa, por vezes insegura e incerta, mas provida de intensos anseios íntimos que conforme se desenrolam os fatos do entrecho vão se aflorando progressiva e abertamente. E Juliana David, como Isabelle, explora a sua sensibilidade com distinta convicção, respeitando as variações emotivas inerentes ao perfil da moça liberal, idealista, sonhadora, sem que em nenhum instante permita que a sua ternura se deixe sublimar pelos acontecimentos sucessivos. Todos os intérpretes dão a sua contribuição valorosa para o engrandecimento da montagem. Ademais, torna-se necessário reafirmar o primoroso trabalho corporal que o trio executa. A direção musical ficou ao encargo de Tato Taborda, que se esmerou em criar uma trilha que, além de bela, notabilizou-se pela inquestionável coerência ao se adequar à época histórica em que se desenvolve a sinopse. Lindas canções francesas são inseridas no cerne dos acontecimentos, inclusive um dos maiores clássicos do cancioneiro do país dos jovens Theo e Isabelle, “La Vie En Rose”, interpretado pela voz do ícone do trompete, o americano Louis Armstrong. Tato também se preocupou em demarcar certas passagens com sons instigantes e ruidosos. Todos os fatos buliçosos que ocorrem nas ruas parisienses são traduzidos por ele, com as sonoridades do falatório de uma multidão protestante e outras características, além de explosões e tiros concernentes a uma manifestação revoltosa. Aurora dos Campos, responsável pela cenografia, aposta na junção da neutralidade crua cinzenta com os muito bem aproveitados recursos tecnológicos visuais disponíveis, gerando um painel conjunto que de alguma maneira posiciona o ator em um patamar privilegiado no espetáculo. Observa-se uma espécie de caixa cênica com uma tela transparente vazada em sua frontalidade, como fora dito, tendo ao fundo uma abertura quadrada por onde entram e saem os personagens, dependendo das situações originadas. Há uma outra abertura com forma retangular (uma porta) no flanco esquerdo da ribalta. Usa-se em determinado momento algo semelhante a uma bancada. Os figurinos de Graziela Bastos abraçam o despojamento juvenil do final da década de 60 por meio de casacos, camisa e calça jeans, boots, camisa num tom azul forte, calça ocre, casaco chumbo, saia, blusa, xale, regata e underwear brancos. Há uma intencionada liberdade ao se misturar peças de distintos contextos com cores de larga paleta. Um detalhe neste setor que se destaca são os acessórios, na verdade, os óculos escuros utilizados por Igor e Juliana, em isoladas ocasiões. A iluminação de Rodrigo Belay/In Foco percorre com bastante meticulosidade caminhos que possam ocasionar uma ambiência peculiar, coerente, adequada e sedutora para cada cena. O fundo do palco, em não raras vezes, ganha a sua luz própria. Intentou-se com sucesso um plano aberto intermediário, possivelmente com o objetivo de se deslocar a ação para um período não atual. Uma cena delicadíssima envolvendo a nudez de Igor Angelkorte é iluminada com sábia discrição. E em outras em que a nudez do elenco se impõe necessária, a luz de Rodrigo pretende tão somente embelezar e suavizar as cores de suas peles e linhas de seus corpos, invariavelmente com bom gosto. A espetacular direção de imagens foi conduzida por Allan Ribeiro. Allan executou um trabalho visual riquíssimo, provando a sua inteira aptidão e sensibilidade em captar e inserir belas, insinuantes, autorais, psicodélicas e poéticas imagens sobre a tela em questão. O resultado é inegavelmente arrebatador. O visagismo de Nina Dutra soube com delicadeza realçar os atributos de cada ator, conferindo aos seus papéis um alcance maior em sua credibilidade junto ao público. “Os Sonhadores” é uma peça feita por jovens com a preciosa gana de fazer valer o seu nobre ofício da atuação, que fala de sonhos, de amor e sexo, de comportamentos e ideologias, com poesia, romance e humor. Feita por jovens, mas direcionada para o mundo. Não importa que sua trama se passe em um determinado período histórico, o turbulento ano de 1968. Não importa que tenha acontecido em Paris. Não importa que sejam dois franceses e um americano. “Os Sonhadores” é um espetáculo universal, humano e atemporal. O mesmo grito daqueles jovens do final da década de 60 pode ser ouvido hoje em outras ruas, algumas não tão glamorosas como as parisienses. Os conflitos e anseios afetivos e sexuais juvenis tiveram uma modificação ou outra, mais ainda são conflitos e anseios. A eterna busca pela liberdade, esta se mantém inalterada, independente dos tempos. Se no romance de Gilbert Adair a Cultura foi maculada com a exoneração de seu curador, o que impediu a exibição dos filmes na Cinemateca de Paris, não é necessário ir tão longe para se encontrar algo parecido. Igor Angelkorte, Bernardo Marinho e Juliana David são atores sonhadores, sonhadores atores. Sempre atores. Com eles sonhamos, sem jamais perdermos de vista a realidade sonhada.

     

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