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Blog do Paulo Ruch

  • “Clara Nunes, a guerreira da paz que tem como espada a sua voz é revivida com louvor e transcendental musicalidade em ‘Deixa Clarear’, numa interpretação encantadoramente mágica e sensível de Clara Santhana.”

    março 22nd, 2015
    Clara Santhana incorpora brilhantemente a cantora e compositora mineira no musical de Marcia Zanelatto dirigido por Isaac Bernat/Foto: João Lima

     

    Na década de 70 e início da de 80, o Brasil se encantava com uma bonita mulher morena que ostentava lindamente seus cabelos volumosos (não negando a sua ancestralidade) presos a tiaras floridas e coloridas, com um gingado envolvente, um sorriso cativante, pés descalços no chão, vestidos brancos que remetiam às baianas de Salvador, e uma voz com inacreditáveis potência, afinação e maviosidade. Seu nome era Clara Francisca Gonçalves Pinheiro ou simplesmente Clara Nunes. Numa época em que significativos representantes da Música Popular Brasileira e suas vertentes são retratados nos palcos e cinema, seria no mínimo injusto que não fosse prestada uma homenagem contextualizada em narrativa teatral a uma de nossas melhores e mais talentosas e originais intérpretes. O espetáculo musical “Deixa Clarear”, pensado poética e idilicamente por Marcia Zanelatto não faz tão somente um desenho biográfico esquemático da trajetória pessoal e profissional da sublime artista. Com extrema sensibilidade, absoluta compreensão da alma de Clara, com a intenção irremovível de perscrutar a sua genuína essência, Marcia construiu com olhos sinceros e emocionados de uma admiradora convicta do valor lapidado de sua personagem real algo como uma epifania musical dramatúrgica. O fio da história não se resume ao caminho supostamente fácil de desfiar os não poucos sucessos da cantora, mas em emoldurar um painel no qual se exponham o limiar da descoberta de um talento, a relação afetuosa com os seus familiares (pai, mãe, irmãos…) e o incentivo destes a soltar a sua “voz de sabiá” na terra das Minas Gerais numa deliciosa ambiência ingênua (as reuniões com os seus parentes lhe serviram como um “palco improvisado”), e o seu seguimento rumo à valorização artística, aquisição de popularidade e estrelato. Conhecemos a Clara de um pequeno Brasil que no futuro desbravaria outros tantos Brasis. A peça assume o deliberado propósito de interagir de modo salutar com os espectadores, seja na comunicação direta por intermédio de pensamentos particulares de Clara Nunes acerca do mundo que a cinge, seja na arrepiante participação do público que acompanha as músicas clássicas de seu cancioneiro, refugiadas na afetividade de nossas memórias coletivas. As palmas da plateia num ritmo compassado também se fazem presentes na sua eloquência, como se fosse uma necessidade indissociável daquela de se integrar, ao menos em parte, da consagração ritualística de uma existência diferenciada de uma artista. O texto, como dito, enleva-nos por sua poesia pura, empatia, palavras coordenadas pela emoção e sonoridade, fraseados cantantes, organizando toda essa gama de elementos num conjunto cênico muito bem alinhavado. Nossas raízes africanas e sua potente e fascinante religiosidade fundada nos orixás são clarificadas na postura devota da protagonista. Umbandista, Clara nos conta histórias ou lendas cujos personagens possuem nomes característicos de sua origem. O espetáculo se mostra imparcial ao abordar o proselitismo religioso de Clara Nunes e o misticismo advindo do mesmo. Com a preciosa contribuição de três excelentes músicos, que se utilizam, em sua maioria, de instrumentos percussivos, assim como os de cordas (violão e cavaquinho), além do chocalho, os grandes sucessos de Clara Nunes que se eternizaram, como “A Deusa dos Orixás”, “O Canto das Três Raças”, “Portela na Avenida”, “Morena de Angola”, “Ê Baiana”, “O Mar Serenou”, “Conto de Areia”, dentre outros, são entoados no contexto da costura narrativa de maneira equilibrada e agradável. Canções mais efusivas e dançantes se alternam com aquelas de melodias suaves e romantizadas. A menção à perda precoce da cantora se dá de forma sutil, reverente e delicada. Não foram preteridas de nosso entendimento as referências culturais regionais arraigadas em nossa rica tradição popular, tais como o maxixe, o congado, o frevo e o jongo. Há o exato instante em que abraçou o samba como o norte de sua carreira, gênero que a tornou célebre em todo o país. A encenação teatral não descarta uma passagem cômica, na qual assume visível despojamento: a apresentação da artista no programa do saudoso comunicador Abelardo Barbosa, o Chacrinha, com seus impagáveis calouros. A proposta edificante do diretor Isaac Bernat, parece-nos, é a de tocar o público, fazê-lo lembrar do quão relevante Clara Nunes era e é para a nossa cultura, e nos provar, por meio de suas belíssimas canções, que o nosso repertório já tivera tempos mais áureos. Não à toa são composições que, mais de trinta anos após a sua morte (“Deixa Clarear” foi montada justamente como celebração e homenagem à data), penetram suavemente em nossos ouvidos, revolvendo as mais íntimas e recônditas emoções. Isaac intencionou ocupar todo o espaço cênico com a vasta expressividade corporal da intérprete, mantendo sempre os três músicos no fundo direito da ribalta (à exceção da cena em que participam, como atores, do programa do Chacrinha). Confere-se uma constante interação entre Clara Santhana e os músicos, seja por olhares seja pelo direcionamento de suas falas. A peça ostenta uma fluência naturalmente prazerosa. A atuação de Clara Santhana merece uma apurada análise. O que se depreende ao testemunharmos esta atriz e cantora no alto de um palco é o florescer fulgurante de sua ímpar capacidade interpretativa. Não se trata tão somente de um trabalho de composição, mas de uma absorção sensorial, emotiva, transcendente das características e atributos que definiriam Clara Nunes como a conhecemos. Clara Santhana se conecta com a sua natural beleza a também bela Clara Nunes, por meio de uma força acima do real para nos encantar, e até mesmo, no melhor dos sentidos, enfeitiçar o público. Sua voz é tão potente quanto suave, atingindo uma extensa gama de tons. Límpida, afinada, sublime: essa é a voz de Clara Santhana. A direção de movimento de Marcelle Sampaio é digna de louvores e loas, haja vista que impingiu à personificação da popular e adorada cantora uma exuberante imagem, equilibradamente sensualizada em seus molejos, requebros e meneios, numa perfeita manifestação corporal. Foram meticulosamente pensados e calculados cada gesto, movimentação de braços, danças com ritmos com maior ou menor intensidade e posicionamentos estagnados de contemplação e ascetismo. O fato de Clara segurar a barra de sua frondosa saia do vestido que a imortalizou, e sacolejá-la de lado a outro é de um charme irrepreensível. Um dos trechos mais impactantes do musical, devido às suas verossimilhança, fidelidade e pungência, decorre quando a atriz executa movimentos atinentes à incorporação do orixá Iansã (a cantora, segundo os preceitos religiosos afro-brasileiros do credo que seguia, era filha de Ogum e Iansã). A direção musical de Alfredo Del Penho é vigorosa, pulsante e coerente, no sentido de criar cenicamente o amplo universo artístico da intérprete. As músicas lindas e emocionantes, sem exceção, são estrategicamente inseridas no desenho dramatúrgico de “Deixa Clarear”, sem rupturas ou desvios ilógicos. Os músicos, como já afirmara, são virtuoses e sensíveis no manuseio de seus instrumentos. Os figurinos de Desirée Bastos nos deslumbram com o seu regionalismo e especificidades. Evidentemente, procura-se mais supremacia no branco. Todavia, a multiplicidade de cores pode ser vislumbrada nas tiaras floridas na “morena de Angola que mexe o chocalho amarrado na canela”. Acessórios como pulseiras, inclusive uma ornada de búzios, e braceletes são percebidos. Clara, num primeiro instante, é vista trajando um sóbrio e elegante macacão fluido de cor branca com finas alças. O ápice do capricho da criação de Desirée ocorre quando a artista entra em cena com o memorável vestido em que os seus ombros ficam à mostra, com os respectivos babados e camadas num tom degradé que imiscui o amarelo e o laranja. A iluminação de Aurélio de Simoni nos enternece pela sua acurada sensibilidade para descobrir o caminho preciso para se atingir o propósito inicial da obra. Aurélio sabiamente se apropria do branco e do azul em tonalidades tênues que, como sabem, são as cores da escola de samba escolhida pela artista, a Portela. Os focos são conduzidos com soberba brandura, tanto sobre a cantora em si, quanto sobre os músicos. Há refletores duplos anteriores em ambos os lados (com luzes azuladas no começo) e outros dois sobre o chão nos flancos direito e esquerdo do teatro. As cores, em sua variada paleta, são usadas pertinentemente nos trechos que as solicitam. O cenário de Doris Rollemberg é pautado em uma elegante e adorável simplicidade. No piso do tablado, há algo como um tapete. Ao fundo, há dependuradas e enfileiradas cordas brancas (com diferentes tons mais escuros em algumas) que nos dão a impressão de que estamos diante de uma “cortina mística e ancestral”. Pequenos caixotes de madeira clara também são utilizados, servindo outrossim como diminutos palcos para as pioneiras performances da cantora quando petiza. Um dos pontos mais fascinantes da cenografia é um enorme pandeiro sustentado por um fio, colocado à direita do palco (o mesmo em determinada ocasião é abaixado, Clara o pega, e o remexe languidamente, causando um ruído semelhante ao som das águas). Em “Deixa Clarear”, uma produção da Diga Sim! Produções e Sandro Rabello (coordenação de produção de Clara Santhana e produção executiva de Igor Veloso), pergunta-se em certo período de sua encenação “Quantas cores há no branco?”. Permitindo que nossos pensamentos transcendam, creiamos que muitas. Assim como são muitas as cores de Clara Nunes. Assim como são muitas as cores de Clara Santhana. Muitas são as cores de nosso imenso Brasil. “Deixa Clarear” é um espetáculo musical instigante, delicado, que exerce um poder de sedução indescritível em nossos sentidos. Clara Santhana é como a “sereia que samba na beira do mar”. Clara Santhana cheia de cores conta o seu “conto de areia”. “Deixa Clarear” alumia com seu pandeiro irmão da lua a história de uma guerreira. Clara Nunes, uma bonita mulher morena que usou a sua “voz de sabiá” como espada na sua dura batalha pela paz e pelo amor. E assim deixemos Clara Santhana nos clarear com a sua luz e as suas cores. Uma estrela que nasce renascendo outra.

  • ” Em ‘Babilônia’, nova novela das 21h, escrita por Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga, as amigas servem para irem juntas para o fundo do poço de mãozinhas dadas. “

    março 17th, 2015
    Gloria Pires e Adriana Esteves vivem as antagonistas Beatriz e Inês de “Babilônia”/Foto: Gshow

    Ao som ensurdecedor de um funk vindo da comunidade, lugar para o qual se tem a vista ao descerrar a cortina de seu modesto apartamento, a destemperada, antiética, ambiciosa e revoltada com suas condições sociais Inês (Adriana Esteves) se confronta com o honesto e passivo marido, o engenheiro da construtora Souza Muniz Homero (Tuca Andrada), na frente da pequena filha Alice (que será defendida por Sophie Charlotte na segunda fase da trama, dez anos depois). O dono da construtora onde Homero exerce o seu ofício é o corrupto e “defensor de hierarquias” Evandro Rangel (Cassio Gabus Mendes), que está na iminência de perder a sua esposa, com quem tem um filho, Guto (papel de Bruno Gissoni no futuro), que se encontra na fase terminal de uma enfermidade. Já Beatriz (Gloria Pires) é uma arquiteta falida, cujo escritório que comandava em Portugal possuía engenheiros que punham materiais de construção ordinários no lugar dos adequados, com a sua anuência. Seu nome está sujo no país luso, onde foi residir casada com um cidadão rico que servia à diplomacia. Também ambiciosa, dissimulada, fria e manipuladora, mas com uma assustadora docilidade quando lhe convém, a filha ninfomaníaca de Estela (Nathalia Timberg), uma senhora distinta que mantém um relacionamento homoafetivo há mais de trinta anos com a advogada de prestígio Teresa (Fernanda Montenegro), retorna ao Brasil do “Vale Tudo”, viúva, e passa a residir em um apartamento deixado por herança. O primeiro sinal de seu apetite sexual desmesurado se vislumbra quando assedia o operário musculoso e suado que faz a obra de seu novo lar (no passado, não deixava “escapar” os surfistas da praia que frequentava tampouco os vendedores de mate). Beatriz precisa, a todo custo, retomar o status social perdido, e o potencial caminho para recuperá-lo seria uma aproximação com Evandro Rangel. Em outra parte da história, que se passa em 2005, conhecemos Regina (Camila Pitanga), uma moça humilde, resoluta, sonhadora e determinada, que trabalha num clube de bacanas para pagar o seu cursinho pré-vestibular. Filha de Cristóvão (Val Perré), o mulherengo motorista de Evandro, preocupa-se com o estado de saúde de sua mãe Dora (Virginia Rosa), que sofre de problemas cardíacos. Antes de pegar um ônibus rumo ao seu curso, conhece o galanteador Luís Fernando (Gabriel Braga Nunes), que se utiliza de todos os meios para conquistá-la, até o infalível convite para tomar um chopinho. A esta altura, Inês se deparou com a foto da amiga de infância Beatriz na capa de uma revista, a “Start”. A elegante Beatriz seria uma viável possibilidade para sua cobiçada ascensão social. Enquanto isso, a enteada de Teresa logra êxito em seus propósitos: inventa ser amiga da cônjuge de Evandro, mostra-se solidária, cativando o empresário e seu descendente. Para facilitar um envolvimento mais íntimo, engendra mais uma mentira, ao afirmar que sua esposa já falecida lhe fez um último pedido: que as suas cinzas fossem jogadas no Rio Sena. Paris é uma cidade perfeita para fisgar homens recém viúvos, carentes e fragilizados. Chega o réveillon. Na praia, Inês, contrariada, brinda a chegada do novo ano com sidra. Beatriz com o melhor champanhe no alto de um hotel de luxo junto com a burguesia francesa, e Regina oferece um barco a Iemanjá, suplicando-lhe que seus “caminhos sejam abertos”. O certo é que os mesmos não serão ao lado do cafajeste Luís Fernando, que é casado com Karen (Maria Clara Gueiros), sendo pai de dois filhos. Luís engravida Regina e lhe sugere um aborto. O casal Beatriz e Evandro volta à pátria que num tempo longínquo será a “pátria educadora”, e decide promover um ostentador e opulento rega-bofe no Morro da Urca, cartão-postal indiferente às mazelas da cidade que ainda insistem em chamar de “maravilhosa”, mesmo com suas violência, balas perdidas e “achadas”. Inês necessita ir a esta festa, e a maneira encontrada para conseguir o desejado convite foi provocar o atropelamento de uma conhecida que fora convidada em plena ciclovia da orla, pagando propina a um entregador de compras para cometê-lo. No evento em que se percebeu a confirmação dos estereótipos brasileiros para o exterior, com direito à samba e passistas, finalmente Inês se encontra com Beatriz, e esta a humilha deliberadamente. Com sede de vingança, a mulher de Homero sente que há uma troca de olhares suspeita entre a sua oponente e o motorista da família. Uma simples câmera fotográfica serve para registrar o flagrante dos dois amantes se acariciando, tendo como fundo a bela e poluída Baía de Guanabara. Inês resolve chantagear Beatriz, exigindo pelo seu silêncio R$400.000,00. Para Gilberto Braga, Ricardo Linhares e João Ximenes Braga (colaboradores em “Paraíso Tropical”, de 2007), uma chantagem só não basta. A esposa de Cristóvão precisa de um transplante urgente, e tem que entrar na malograda fila do nosso sucateado sistema de saúde. Um dinheiro “por fora” solucionaria o problema, o que não nos espanta. O motorista chantageia a sua ex amante, ao lhe pedir a quantia necessária para a antecipação da cirurgia, ameaçando revelar ao patrão o affair que mantiveram. Beatriz se vê acuada, e ao surpreender Cristóvão com Inês num bar do Leme, julga que são cúmplices nas extorsões. Sabendo que o homem com quem se envolvera guarda uma arma no porta-luvas do carro, combina com ele um encontro num local discreto para acertarem as contas. Lá chegando, propõe que uma pulseira valiosa que lhe seria dada de presente pelo futuro marido poderia se somar ao montante exigido. Enquanto se beijam, a mão delicada de Beatriz pega a pistola e um tiro certeiro é desferido no chantagista. Beatriz também é uma assassina. A cena termina com o seu vestido vermelho em chamas para não deixar pistas. Um encontro agora é marcado com Inês. Num golpe de mestre, convence a antiga amiga de que deve contar o dinheiro que está no interior de uma maleta. Inês se defronta com a arma do crime. Provocada, acaba a empunhando, deixando as suas impressões digitais, invertendo o jogo de dominação. “Babilônia” (uma alusão não só à comunidade carioca do Leme, mas à cidade da Mesopotâmia, capital do Império Babilônico, em que se misturavam povos, com seus respectivos e diferentes costumes) é uma novela que evidencia o fortalecimento de personagens femininas e suas potencialidades, sejam elas boas ou más. Pelo que se depreendeu de seu primeiro capítulo, será um folhetim ágil, com reviravoltas, suspense, choques sociais e abordagem de variados tabus, como prostituição, rufianismo e homossexualismo. A ambição, como pudemos notar, será o mote do enredo, com todas as sua complexas e diversificadas camadas. E será questionado qual o seu limite. O elenco é poderoso, experiente e estelar, e parece ter se entregado abissalmente aos seus papéis. Gloria Pires, Adriana Esteves, Camila Pitanga, Fernanda Montenegro, Nathalia Timberg, Cassio Gabus Mendes, Gabriel Braga Nunes, Maria Clara Gueiros, Tuca Andrada, Val Perré e Rosi Campos. Cristina Galvão outrossim merece a nossa respeitosa consideração. Teremos ainda pela frente Andre Bankoff, Marcos Palmeira, Bruno Gagliasso, Sophie Charlotte, Thiago Fragoso, Marcos Pasquim, Chay Suede (sua “rentrée” após o Comendador jovem de “Império”) e Daisy Lucidi (e tantos outros que prometem brilhar). A direção geral cabe a Dennis Carvalho (diretor de núcleo) e Maria de Médicis. Ambos impingiram um coerente dinamismo aos takes, que foram valorizados pelos ótimos diálogos. Dennis e Maria exploraram closes, planos e contraplanos, tomadas de câmera levemente trepidantes e circulares (com relação aos atores), o que causou uma intimidade maior com o entrecho. A fotografia assumiu tons diferenciados, sempre em busca de um contexto realista. Não há poesia nas texturas, e sim uma aliança com o acontecimento concreto. A nova produção das 21h da Rede Globo deixa transparecer a marca registrada de qualidade de seus autores, e se desafia a esmiuçar a face obscura do ser humano, sem no entanto preterir os valores da honestidade. “Babilônia” lança a viabilidade de que uma amizade pode vir a sofrer mutações com a passagem do tempo, nem sempre edificantes. Evidencia que a vingança e a chantagem são ferramentas de nossa realidade. E nos oferece a conclusão de que “duas amigas de infância podem ir juntas ‘pro’ fundo do poço, de mãozinhas dadas…”. Nós, o público, assistiremos a esse duelo titânico, incólumes, de preferência do alto deste mesmo poço.

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    março 7th, 2015
    Foto: Paulo Ruch

     

    O ator e produtor Klebber Toledo no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.

    Klebber é paulista da cidade de Bom Jesus dos Perdões.

    Ainda adolescente, o futuro intérprete se dedicou a várias atividades, inclusive esportistas (por um determinado tempo, empenhou-se no ofício de modelo).

    Neste interregno, resolve fazer um curso de artes cênicas.

    A sorte grande decide então bater à sua porta ao entrar na disputada Oficina de Atores da Rede Globo.

    No ano seguinte (2006), o artista veste roupas de época e participa do remake de “Sinhá Moça”, de Benedito Ruy Barbosa (adaptação de Edmara e Edilene Barbosa).

    Bonito e jovem, não poderia deixar de se enturmar com a galera de “Malhação”, como Mateus Molina.

    Os telespectadores se surpreendem com a crível composição do ator de um homossexual efeminado, Sid, em sua primeira colaboração com o autor Walcyr Carrasco, nos capítulos derradeiros de “Caras & Bocas” (Klebber a partir daí começa a ter o seu talento notado com mais atenção).

    Walcyr apreciou tanto o seu trabalho como Sid que lhe deu um importante papel em seu próximo folhetim, “Morde & Assopra”, novamente no horário das 19h (Guilherme foi o seu pioneiro vilão; interpretava o filho de Dulce, Cassia Kiss Magro, uma humilde mulher que vendia cocadas nas ruas; com esta oportunidade, consolida ainda mais a sua trajetória na profissão).

    Após uma participação em “A Vida da Gente”, de Lícia Manzo, Klebber desta vez dá vida ao playboy Umberto, que aprecia o envolvimento afetivo com mulheres maduras, na trama escrita por João Ximenes Braga e Cláudia Lage, “Lado a Lado”, vencedora do 41º Emmy Internacional, na categoria Melhor Novela.

    O público de teatro pôde vê-lo nos espetáculos musicais “Isaurinha – Samba, Jazz & Bossa Nova” (com Rosamaria Murtinho; idealizado e produzido por Rick Garcia, neto da cantora Isaurinha Garcia, retratada na peça), e o sucesso mundial “Fama”, dirigido na versão nacional pelo americano Billy Johnstone.

    Emprestou sua voz a um dos personagens do longa de Roland Emmerich “2012”.

    O ator integra um projeto inovador do site Gshow: a websérie “Ato Falho”, que parodia cenas famosas do cinema, teatro etc, tendo como colegas de cena Paulo Vilhena, Maria Eduarda de Carvalho, Monique Alfradique e Suzana Pires.

    Klebber Toledo, no momento, interpreta Leonardo, um aspirante a ator assumidamente homossexual, na novela de Aguinaldo Silva, “Império”, que está na sua penúltima semana (na trama, um irrefutável acerto do teledramaturgo, Léo passou por diferentes etapas: manteve um romance às escondidas com o cerimonialista Cláudio Bolgari, José Mayer, e por ele era sustentado; desiludido com a posição de Cláudio, que rompe o namoro em prol de sua família, e com os reveses para se conquistar um espaço como ator, deprime-se, vai para as ruas e se torna um morador das mesmas; adoece, e acaba sendo socorrido por Amanda, Adriana Birolli, que mesmo que não admita, sente atração pelo moço; briga ferozmente com o até então homofóbico Enrico, Joaquim Lopes; entra como sócio com Amanda e Etevaldo, André Gonçalves, numa sociedade de “food trucks”; personifica o Comendador jovem, Alexandre Nero, no desfile da Unidos de Santa Teresa no Sambódromo, no Rio de Janeiro; tem uma espécie de amizade colorida com Etevaldo, “o homem do surdo”; no final da história, com o divórcio de Cláudio e Beatriz, Suzy Rêgo, as possiblidades de o namoro ser reatado são significativas; “Império”, além de servir para mostrar o notório amadurecimento do ator Klebber Toledo, exibiu para a sociedade brasileira distintas facetas da homoafetividade masculina, como o blogueiro Téo Pereira, Paulo Betti, e outros gêneros, como o travesti bissexual Xana Summer/Adalberto, defendido por Ailton Graça, sem preterir a clarificação dos fortes preconceitos decorrentes desta orientação sexual).

    Além disso, o ator retornará aos palcos, junto com Wagner Santisteban, na peça de Regiana Antonini, “Aonde Está Você Agora?”, com a direção de Otávio Müller e a produção de Léo Fuchs, já com apresentações agendadas para Luanda, em Angola, Fortaleza, Campos e Campinas (SP).

    Agradecimento: TNG e R. Groove 

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    março 5th, 2015
    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Matheus Strapasson no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória (nesta época, era agenciado pela Next Models New York).

    Matheus nasceu em Santa Bárbara D’Oeste, em São Paulo.

    Começou a sua carreira com 17 anos (em seguida, já estava desfilando na São Paulo Fashion Week e viajando para Milão, cidade na qual surgiram os primeiros trabalhos no exterior).

    Fundou a marca de roupas Mercy One, inicialmente voltada para t-shirts (em pouco tempo, já havia pontos de venda tanto em Nova York quanto em São Paulo).

    Participou de inúmeras campanhas, dentre elas um editorial para o importante site Models.com “Women in the Morning”, com fotos de Casey Brooks; o ensaio “True Love”, para a magazine “Follow Issue I”, fotografado por André Schiliró; fotos para a grife de jeanswear Damyller, com registros de Nicole Heineger; para a marca de acessórios (joias e relógios) Liberty Art Brothers (fotos de Alvin Kean Wong); para a Vodka 42 Below; e “Scotch & Soda” (marca de roupas holandesa). 

    Integrou o cast de um desfile da grife italiana Diesel.  

    Na edição Primavera Verão 2012/2013 do Fashion Rio, foi visto nas passarelas da Ausländer e R. Groove.

    Em outras semanas de moda, mostrou as coleções de Alexandre Herchcovitch, Cavalera e Addict.

    Estampou capas de revistas internacionais.

    Na temporada Verão 2014/2015, o modelo desfilou para a R. Groove e Ausländer (na SPFW, para a Triton). 

    Vários fotógrafos o clicaram, como Patrick Xiong, Jill Wachter e Ricardo Horatio Nelson. 

    Hoje morando no Brooklin, Nova York, Matheus Strapasson, além de se dedicar à carreira de modelo, define-se como alguém com interesses em Gastronomia, Mixologia, carpintaria, esportes, natureza e animais. 

    Agradecimento: TNG e R. Groove 

    Post atualizado em 26/09/21.

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    fevereiro 26th, 2015
    Foto: Paulo Ruch

    O modelo e ator Weder Wilham no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.

    Weder foi descoberto pelo booker e manager da agência carioca 40º Models, Sergio Mattos, que após ver as suas fotos, contratou-o (logo, o mais novo modelo já estava desfilando para algumas marcas no Fashion Rio). 

    Como ator, estudou “Cursando TV e Cinema” na Nu Espaço, no Rio de Janeiro. 

    Passou uma longa temporada em Milão e fez ensaios para muitas revistas internacionais. 

    Estrelou um ensaio para a Norman Hilton Men’s Clothes, em Princeton, New Jersey, Estados Unidos. 

    Estampou a capa do livro da série “Gone Series”, de Michael Grant, em Nova York. 

    Mario Testino, badalado fotógrafo peruano, uma das principais referências da área no mundo da moda, fotografou-o em uma edição especial da “Vanity Fair” para o Brasil, que contou com a participação de Gisele Bündchen na capa.

    Também esteve em um editorial para a “V Magazine”, que teve como locação a Praia de Ipanema, no Rio de Janeiro.

    Foi clicado por inúmeros profissionais das mais variadas procedências: o francês Xavier Samré, Didio, Cliff Watts (editorial “Soul Surf” para a “GQ Brasil”; contou com as presenças de Romulo Arantes Neto e Caio Vaz), Rick Day, Paolo Nizzi (editorial “City Escapism”), Soren Mork, Pascoal Rodriguez, André Nicolau (junto com Vinícius Piccoli para a marca DHOM), Alexandre Adds, Florian Renner, Prema Surya (editorial “Under the Skin”), Rodrigo Bueno (campanha de verão da Opção Jeans), Ítalo Gaspar, André Passos (campanha de verão da Zoomp), Alex Santana (“Simple and Elegant”) e Marcio Farias.

    Participou, ao lado de David Chaloub, dentre outros, do clipe musical da cantora Preta Gil, “Sou Como Sou”, com a direção de Fernando Torquatto.

    Já desfilou para a Limits no “Rio-à-Porter”.

    Fez lookbooks para Anonimato e Maha Man.

    Nesta edição do Fashion Rio, dedicada à temporada Verão 2014/2015, Weder Wilham desfilou para a TNG e Osklen Praia. 

    Dentre outros trabalhos que constam de sua trajetória como modelo estão fotos de Thiago Martini, Paola Guzman e Fael Gregório, campanha para a marca Maór, evento da Track & Field, campanha para a marca de calçados West Coast (fotos de Ton Gomes), campanha para a Polo Wear (fotos de Marcelo Salvador), foto de Marcelo Auge para a revista MENSCH, campanhas para a Privalia (fotos de José Silvério e Jon Leão), comercial de O Boticário com Gisele Bündchen, campanha para a marca de roupas Oficial for Boys For Girls (fotos de Allan G. Nascimento), campanha para a Volkswagen (lançamento do carro Virtus GTS), campanha para a TNG Inverno 2020 (fotos de Lili Reis), campanha para a marca Stalker (fotos de Markos Montenegro), campanha para a Ontop (com a modelo Heloiza Rathke Calheiro), campanha para a ‘2Essential/Shop2gether (fotos de Vanessa Diskin com a modelo Helena Balbino), campanha para a Netshoes, campanha para a Speedo (Speedo Eyewear) e campanha para a Tommy Hilfiger (com a modelo Shirley Pitta). 

    No momento, Weder Wilham é agenciado pela 40º Models e pela Mega Model Brasil (São Paulo).

    Como ator, tem o agenciamento artístico da 7 MGT.  

    Agradecimento: TNG, R. Groove e http://www.40grausmodels.com 

    Post atualizado em 03/09/2021 

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    fevereiro 20th, 2015
    Foto: Paulo Ruch

     

    O modelo Raphael Lacchine no Fashion Rio Verão 2014/2015, semana de moda realizada na Marina da Glória.

    Raphael é capixaba de Cachoeiro de Itapemirim.

    Foi descoberto em Santo Antônio de Pádua, no Rio de Janeiro, por um scouter que o indicou para Sergio Mattos, booker e manager da agência 40º Models (RJ), que o convida para integrar o seu cast.

    Ao se mudar para a cidade carioca, logo é contratado para participar de uma campanha da grife Armadillo.

    Não demorou muito para que o modelo fosse para a Europa a trabalho, mais especificamente Milão, e lá fizesse sucesso com ensaios e editoriais para revistas internacionais (foi modelo exclusivo da coleção de underwear da marca italiana Diesel).

    Passa a ser agenciado pela Mega Model Brasil (SP), que o considera um dos profissionais mais rentáveis da empresa (sua imagem foi vista em campanhas da Rocksterr e do JK Iguatemi).

    Desfilou para Dolce & Gabbana em uma de suas mais marcantes apresentações, na temporada Outono Inverno 2014, em Milão.

    Fez editoriais para a “Collezioni Uomo Italia”, “Wallpaper”, “Attitude”, GQ Brasil (editorial “Cosmopolita”, com fotos de Greg Swales) e Playboy. 

    Foi fotografado por um dos profissionais da moda mais badalados do mundo, o peruano Mario Testino. 

    Também foi clicado por Jeff Segenreich.  

    Desfilou para Victor Dzenk no Minas Trend, mostrando a sua coleção moda praia.

    Na edição Verão 2014/2015 do Fashion Rio, Raphael Lacchine foi visto nas passarelas da TNG e da Ausländer.

    Na São Paulo Fashion Week, em sua temporada comemorativa de seus 20 anos, promovida em abril de 2015, o modelo foi um dos selecionados para desfilar pela Colcci, que não exibiu apenas as suas apostas para o Verão 2016, mas se utilizou do desfile como palco para a despedida da top Gisele Bündchen das passarelas. 

    Hoje, Raphael continua sendo agenciado tanto pela 40º Models quanto pela Mega Model Brasil. 

    Internacionalmente, é representado pela Independent Model Management (Milão), Bananas Models (Paris) e Muse Model Management (Nova York). 

    Dentre outros trabalhos de Raphael Lacchine estão campanhas para as marcas Trial Chile (foto de Paola Guzman), Vila Romana (foto de Jaime Pilnik) , Barezi (foto de Chrystian H), Ferracini 24h, Eculture (foto de Bruno Sóta), AD Lifestyle, Engov After (vídeo publicitário), além do portfólio online de moda Shop2gether.  

    Agradecimento: TNG e R. Groove

    Post atualizado em 12/08/2021 

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    fevereiro 14th, 2015
    Foto: Paulo Ruch

     

    O modelo Douglas Hickmann, no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória (à época, era agenciado pela Mega Model Brasil).

    Nascido em São Borja, Rio Grande do Sul, Douglas foi descoberto pelo “Projeto Passarela”, passando a ser agenciado pela 40º Models, do Rio de Janeiro. 

    Seu primeiro desfile foi para a marca R. Groove, no Fashion Rio.

    Quanto à semana de moda carioca, já desfilou para as marcas TNG e 2nd Floor.

    O modelo participou de um ensaio chamado “Black for Deep Emotions”, com fotos de Gustavo Chams.

    Foi fotografado também por Sergio Santoian, Fernando Schubach, Alexandre Adds, dentre outros.

    Na edição da São Paulo Fashion Week, em sua temporada Outono Inverno 2015, Douglas Hickmann foi visto nas passarelas da Ellus e João Pimenta.

    Agradecimento: TNG e R. Groove 

    Post atualizado em 03/08/2021

  • Fashion Rio Verão 2014/2015 – Marina da Glória

    fevereiro 14th, 2015
    Foto sobre a foto de Murillo Meirelles: Paulo Ruch

    Nos amplos corredores da Marina da Glória em sua temporada Verão 2014/2015, com uma bela vista da Baía de Guanabara, havia uma exposição de grandes fotos, em formato de painéis, intitulada “Na Floresta”, do fotógrafo Murillo Meirelles, com direção de arte de Alex Wink.
    Na imagem, podemos ver apenas o perfil do rosto de um modelo maquiado com fortes tintas num contexto ritualístico (há uma referência sutil à obra clássica do escultor francês Auguste Rodin, “O Pensador”).

    Agradecimento: TNG e R. Groove 

  • “Tudo o que você sempre quis saber sobre sexo e tinha medo de perguntar, você encontra na saborosa e anárquica comédia ‘Cachorro Quente’, com Sacha Bali, Rosanna Viegas, Laila Zaid, Renato Góes, Olivia Torres e Pedro Henrique Monteiro.”

    fevereiro 1st, 2015

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    Foto: Paula Kossatz

    A iniciativa de se falar abertamente sobre sexo em um contexto narrativo já é, por si só, valorosa. E o deslinde das camadas mais obscuras e veladas da ancestral e íntima prática humana, perpetrado com ousadia e intrepidez por João Fonseca e Sacha Bali na configuração do texto da peça “Cachorro Quente”, livremente inspirado na obra do autor americano Chuck Palahniuk (um de seus maiores sucessos fora “Clube da Luta”, adaptado com êxito para os cinemas por David Fincher) elevou o tema a um patamar sobranceiro que lhe é justo. A parceria bem-sucedida de João e Sacha teve início há sete anos com o espetáculo “Pão Com Mortadela”, baseado em contos e poemas de outro americano com pensamentos transgressores, Charles Bukowski (a encenação, indicada ao Prêmio Shell de Melhor Direção, que também teve como alicerce o livro “Misto-Quente” – “Ham on Rye”, narrava momentos da infância, adolescência e juventude do poeta tão maldito quanto idolatrado). Neste entremeio, o romance de Palahniuk, “No Sufoco”, serviu como manancial de elementos inspiradores e catárticos para que os dramaturgos, escorados em uma autêntica liberdade expressiva e solidez estrutural de conteúdo, abordassem acerca de um tema ao mesmo tempo delicado e instigante no formato de encenação cênica. Em “Cachorro Quente”, quadros são montados com o propósito de se desenhar uma história representativa das questões suscitadas. Sacha Bali interpreta Luca Mastroianni, cuja existência é visualizada desde a infância, a fim de que nos familiarizemos com os seus conflitos quanto à sexualidade e identificação pessoal. Luca é filho de Nina (Rosanna Viegas), uma mãe opressora e autocrática ligada à máfia italiana. O menino choroso e ingênuo é educado de modo intervalar e traumático em espaços temporais atípicos durante as fugas de sua progenitora delinquente, e quando por ela era sequestrado. Não se sabe ao certo qual a sua origem paterna. O conhecimento que possui sobre si mesmo é permeado por uma ficção delirante. Seus estudos de Medicina são abruptamente interrompidos devido à premência de cuidar de sua mãe que está padecendo de insanidade mental. A saída esdrúxula do rapaz que come todas as noites cachorros quentes no jantar para subsistir é a simulação de engasgos contínuos em restaurantes com o intuito de provocar a solidariedade perene dos comensais. Um castelo de mentiras sequenciais é premeditadamente edificado para a manutenção do golpe. Seu amigo Denilson (Renato Góes) é testemunha de seus ludíbrios. Denilson é um signo genuíno de nossas vulnerabilidades face aos pedidos do corpo físico. Torna-se refém de compulsivas masturbações. Um escravo do nada misericordioso onanismo. Metaforicamente, há que se catar pedras a fim de que se substituam os atos de prazer sexuais que escancaram o nosso desejo solitário. O jeito estouvado ou apalermado de Denilson é um útil instrumento provocador de nossa comoção. Ele e Luca frequentam um grupo de autoajuda para viciados em sexo, liderados pela indicadora/especialista em sexolatria Bia (Pedro Henrique Monteiro). Neste encontro coletivo em busca da reabilitação ou redenção, a dor e o sofrimento são democraticamente compartilhados. O sexo com suas vertentes “pervertidas” é visto como um problema real e concreto. Ao lado de Carina (Olivia Torres), para quem a casualidade e banalização intermitentes da prática sexual se tornaram agentes incômodos, estão o jovem Jorge (Rosanna Viegas), um sujeito com “ares de periferia”, e Samanta (Laila Zaid), vítimas de seus excessos, fantasias, desvios e até mesmo tragédias imprevistas. Segundo a doutrina do grupo, doze passos são necessários para se atingir o objetivo final de libertação. Agora, no que tange à instituição psiquiátrica onde Nina é internada, deparamo-nos com seres andarilhos perdidos aplacados por completa deterioração de suas faculdades mentais. Neste mesmo local em que aromas florais servem como atenuantes de odores indesejados, os médicos são tão insanos quanto os seus pacientes, a quem chamam de “coelhos”. Lá trabalha Dra. Patrícia (há uma surpresa quanto à sua identidade), uma médica geneticista defendida por Laila Zaid, que faz previsões apocalípticas sobre o fim do mundo e da Humanidade, com direito a pragas dizimadoras. E Luca se vê envolvido nesses vaticínios. Patrícia o convence de que suas raízes paternais estão em um líder religioso universal. O rapaz que volta e meia profere a proposição “Amor é besteira. Emoção é besteira. Eu sou um babaca, e eu tenho orgulho disso” se convence de que é possuidor de dons extraordinários, inclusive de cura. Num tom de humor e escracho, vislumbramos as faces negras da demência, da esquizofrenia, da psicose e de outros transtornos psíquicos. Tabus como sodomia, felação, brinquedos eróticos e vídeos pornográficos bizarros são discutidos sem ranços de moralismo. “Cachorro Quente” é uma peça que, obviamente, distingue-se por sua inquebrantável e benéfica audácia, ao exibir, sem pudicícia, um volumoso painel de informações e questões sobre sexo que foram muito bem coordenadas e costuradas em um fio narrativo consistente. O diretor João Fonseca, com a ciência de sua dramaturgia e de Sacha Bali, impinge à encenação uma linguagem libertadora, subversiva, anárquica, com vieses cênicos que lembram bastante o legado de José Celso Martinez Corrêa e seu Teatro Oficina, orgiástico e antropofágico. O espaço de semi arena é utilizado com proveito máximo (entradas e saídas dos atores, um recurso próprio do “vaudeville”, e posicionamentos variados daqueles são percebidos). O norte escolhido pelo diretor, parece-nos claro, foi a opção pela dinamização das cenas. Todavia, notamos outrossim situações reflexivas em que uma fala ou outra é cortada pelo silêncio. João Fonseca logrou avolumado êxito com seu talentosíssimo elenco, tirando de cada um, sem exceção, infindos recursos interpretativos, que ora se fundam na naturalidade ora se amparam na composição (a emoção se imiscui com o humor; palavras proferidas pelos atores que, a princípio, poderiam soar ofensivas, são aceitas pelo público de maneira natural). Sacha Bali, como Luca Mastroianni (em todas as etapas do personagem), mostra que é um intérprete dotado de pujante carga emotiva e sensibilidade cômica. É visível e notável o seu destemido mergulho na essência de seu papel. Sacha indica que é um conhecedor pleno de cada linha e entrelinha do texto que com denodo escreveu (junto com João Fonseca). Um ator que domina o palco com carisma e verdade. O mesmo se pode dizer dos demais artistas em cena. Rosanna Viegas é uma atriz que nos impressiona por sua força natural de incorporação da alma de seus personagens. Com sua potente e versátil voz, imprime crédito e graça à mãe mafiosa Nina (com acento italiano, vemos uma mulher que vai do autoritarismo à dependência emocional, que a faz até certo ponto mais humilde, quando se vê acometida pela devastadora demência causada pelo Alzheimer). Não nos esqueçamos de Jorge, um trabalho escorreito de composição, além de uma sensual dançarina de “inferninho”. Olivia Torres ostenta a multiplicidade de seu talento ao construir com inteligência e entendimento cênicos cada papel que lhe coube. Olivia nos oferece um fantástico trabalho de composição ao personificar uma oriental, Miçairi, viciada em uma prática sexual pouco aceita e cercada de preconceitos (seus gestual e voz são arrasadoramente engraçados). Sensualiza na medida exata, e evidencia convicção ao defender tanto Carina quanto uma garota de programa. Laila Zaid (com um “physique” aristocrático) nos conquista irremediavelmente com seu humor sutil (algo que se aproxima da tradicional comicidade britânica; o absurdo é dito com espantosa fleuma por Samanta, um dos membros do grupo de autoajuda). Já como a manipuladora e delirante médica geneticista Dra. Patrícia exibe sua capacidade de sedução, oscilando sensivelmente pelos tons de comportamento exigíveis. Renato Góes esbanja surpreendente e ampla gama de elementos de composição que enriquecem sobremaneira os tipos diferenciados aos quais dá vida. Renato sabe explorar as possibilidades vastas de seus corpo e voz, no intento de lograr atingir uma completude interpretativa. Comprova-nos o que disse com o supostamente atoleimado Denilson, com o idoso vitimado pela desorganização de suas ideias (internado na clínica) e no policial grotesco e truculento (seu glossário é tosco e denota a sua estupidez). E Pedro Henrique Monteiro circula pelo palco com a desenvoltura de um ator que pactuou com o teatro uma intimidade indissociável. Oferta-nos o seu valor como artista, seja como a divertida, surreal e charmosa Bia, a indicadora/líder do grupo de reabilitação, especialista em sexolatria, seja como o policial fanfarrão, seja como o médico da instituição que profere as maiores barbaridades com desconcertante naturalidade, ou como o Tarzan oriundo das fantasias sexuais mais peculiares. A iluminação de Luiz Paulo Nenem se engaja na profusão de viabilidades cromáticas e de intensidade. Vislumbramos a alternância de feixes luminosos azuis, rosas, verdes e vermelhos, planos abertos e focos nos atores. Ou seja, jamais se cai na estagnação ou inércia de efeitos, o que resulta em um proficiente resultado. Tanto a cenografia quanto os figurinos são de responsabilidade de Nello Marrese. A cenografia se propõe prática, funcional e crua. De fato, nada mais seria necessário como peça complementar e enriquecedora da ambiência da trama além de uma pilha de diversas caixas de papelão colocadas ao fundo, como algumas vistas no centro da ribalta. A funcionalidade se faz presente com as sobejas maneiras com que o elenco se utiliza delas, demarcando cada cena. Os figurinos são destacados primeiro pela sua versatilidade e criatividade e segundo pela sua pertinência, adequando-se ao perfil dos “characters”. Os costumes se caracterizam também pelos despojamento, ludicidade, elegância e sensualidade. Rafaela Amado realizou primorosa direção de movimento. É fascinante e admirável testemunharmos os corpos dos atores terem sido explorados de forma tão prodigiosa. O elenco dança descontraída e sensualmente, adota posturas pensadas com meticulosidade, movimenta-se com continuidade e de jeito particular, e silenciosamente pausa nas horas em que se pede o tempo. Os atos e a prática do sexo são legítimos e vitais em sua intenção. Jamais são vulgares, agressivos ou gratuitos. A música é um aspecto diferenciador da encenação. Ela emoldura os momentos. Há distintos gêneros, como o rock e suas variações (como um Radiohead, e sua melancólica “Creep”) e baladas dançantes como “Happy”, de Pharrel Williams. “Cachorro Quente” (uma realização de João Fonseca, Sacha Bali e cena 27 Produções) é irrefutavelmente um espetáculo que movimenta, remexe nossas impressões primárias acerca do sexo. A peça é privilegiada no sentido de nos fazer pensar, avaliar, constatar conceitos, preconceitos e posições no que tange a algo tão presente em nossas vidas e na do outro. Por sinal, o outro, que nos parece tão “normal”, tem sim as suas fantasias, tem sim potenciais perversões, administra bem ou mal os seus desejos. Você pode estar sendo visto e desejado por quem sequer imagina. Você pode ser o obscuro ou claro objeto de desejo de alguém. Você pode alimentar o vício sexual de ente próximo, sem que saiba. Sua nudez pode ser imaginada por outrem. Sacha Bali, na introdução do programa da peça, assevera que “tentamos construir um mundo a partir de pedras e caos.” Não há como não concordar com Sacha. E João Fonseca se diz “viciado em teatro”, e que “o elenco é sexy e viciado na sua profissão”. Com certeza, essas condições foram fundamentais e determinantes para o sucesso desta obra. Em uma passagem de “Cachorro Quente”, o personagem Luca de Sacha Bali reflete: “A Arte não nasce da felicidade.” Decerto, nossas misérias são demasiado inspiradoras. Em oposição a esta assertiva, a felicidade pode nascer da Arte. Ou, sendo mais específico, a felicidade pode nascer de… “Cachorro Quente”.

  • ” A falência do casamento dos personagens de Maria Fernanda Cândido e Enrique Diaz pode ser sanada pela prostituição de luxo ao custo de R$4.000,00 a hora, em ‘Felizes Para Sempre?’. Mas com direito à voluptuosidade de Paolla Oliveira. “

    janeiro 27th, 2015

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    Foto: Zé Paulo Cardeal/ Divulgação TV Globo

    Já em 1982, o teledramaturgo Euclydes Marinho abordava o desmoronamento das relações afetivas e removia implacavelmente as máscaras que escamoteavam as artificialidades das uniões, fossem elas mantidas por casamento ou não, num pujante contexto narrativo passional. As força, visceralidade e desmistificação do “casal perfeito” foram elementos catalisadores do desenvolvimento da história levada ao ar pela Rede Globo na moralizante época da ditadura militar. “Quem Ama Não Mata” (obra na qual “Felizes Para Sempre?” se baseou) marcou indelevelmente um período de nossa TV e das carreiras de Cláudio Marzo, Marília Pêra, Daniel Dantas, Denise Dumont, Tânia Scher e Paulo Villaça. De lá para cá, houve substanciais mudanças na nossa sociedade e no nosso comportamento, é claro. No entanto, os obstáculos que nos impedem de atingir a plenitude da felicidade nos matrimônios e demais relacionamentos se mantiveram intactos. Portanto, nada mais justificável que a minissérie fosse reeditada para os dias atuais, assumindo os avanços e retrocessos para alguns que surgiram neste intervalo de anos. Com texto renovado do mesmo Euclydes Marinho, agora sob a direção geral de Fernando Meirelles (os outros diretores são Paulo Morelli, Luciano Moura e Rodrigo Meirelles) e a produção da O2 Filmes, “Felizes Para Sempre?” narra a vida de cinco casais (quatro da mesma família), esmiuçando os bastidores de suas existências e consequentes conflitos, passados na capital do poder do Brasil. Alguns personagens passeiam pelos portentosos corredores superficialmente assépticos dos prédios públicos, onde se pode com facilidade sentir o cheiro da corrupção e do poder desmedido. São comemorados os 46 anos de casamento de Dionísio (Perfeito Fortuna), um delegado de polícia aposentado, e Norma (Selma Egrei), uma professora de Sociologia da UnB (Universidade de Brasília). Em sua confortável casa, os filhos e neto se confraternizam num clima de acachapante hipocrisia. Assistem com sorrisos a um patético vídeo familiar de depoimentos. Cláudio (Enrique Diaz), um dos descendentes, advogado e fundador de empreiteira corrupto e inescrupuloso, com negócios escusos com o governo atinente a licitações, é um sujeito arrogante, frio, cínico, adúltero, perigoso e repulsivo. Casado com a restauradora de obras de arte, a fina e sofisticada Marília (Maria Fernanda Cândido). Ambos passaram a ter dificuldades com o sexo desde a morte trágica de seu filho pequeno que se afogou na piscina. Ela teme pelo fim de seu enlace, e procura razões para tal, tentando achar soluções para a questão. Julga que está envelhecendo (mesmo que a sua beleza seja fulgurante). É uma mulher oprimida e desvalorizada por seu cônjuge. Na cama, é tachada cruelmente pelo marido como “travada”. O sexo entre eles é morno, protocolar e frustrante, embora Marília busque encontrar nos lençóis tristes de seu leito um romantismo perdido que para nós parece nunca ter existido. Decide solicitar o auxílio de uma terapeuta de casais (defendida por Bel Kowarick). Expõe suas fraquezas, dúvidas e inseguranças. Enquanto isso, o dinheiro sujo de Cláudio serve para silenciar a inconveniência de sua amante. E seu sogro se constrange com a impotência sexual natural da vida, apoiado por uma tolerante Norma, que sofre o assédio de seu colega de universidade apreciador de mulheres maduras, o professor Guilherme (Antonio Saboia). Otávio se confronta com seu irmão Hugo (João Miguel), engenheiro, casado com uma cirurgiã plástica de sucesso, Tânia (Adriana Esteves), pai do adolescente Junior (Matheus Fagundes), que ingenuamente crê que manifestações coletivas nas ruas podem mudar as conjunturas política, social e econômica da nação. Hugo é um fio de esperança de moralização em meio à chafurdice geral. Deseja ter mais filhos, ao contrário de sua esposa. O outro irmão, Joel (João Baldasserini), filho adotivo de Norma e Dionísio, é mais próximo de Cláudio no que concerne à prática de delitos penais. No mesmo momento em que é corruptor ativo (oferece propina a um agente público para vencer uma licitação), é passivelmente traído por sua companheira Susana (Caroline Abras), uma professora de pilates com quem possui uma relação aberta (até que ponto?). Susana o trai com o seu aluno Buza (Rodrigo dos Santos) por meio de um tablet. Sim, os adultérios se modernizaram. Ainda no que diz respeito a Marília, convence Cláudio a comparecer à terapia de casal. Na sessão, mostra-se indiferente. Com a ajuda da terapeuta, possíveis saídas para salvar o casamento ou pelo menos apimentá-lo são suscitadas. Swing? Ménage à trois? O casal recorre a um site de garotas de programa de luxo, e se interessa pelos olhos de Danny Bond/Denise (Paolla Oliveira), uma universitária pouco modesta, poliglota e que cobra R$4.000,00 a hora pelos seus serviços sexuais. O episódio termina com uma lasciva Paolla Oliveira, encoberta por um visom bordeaux batendo à porta. O diretor Fernando Meirelles impingiu à série seu selo inequívoco de qualidade e excelência. A dinamização das cenas é entremeada por pausas pertinentes para diálogos pessoais e intimistas. A câmera de Meirelles prima pelas concisão e sensibilidade. Cada movimento ou tomada é valorizado com inteligência, e até mesmo os que a princípio não teriam importância, ganham o seu valor, como aquele em que todas as etapas para o preparo de uma vitamina por Joel são registradas. A ideia de se colocar mensagens de texto no vídeo se coadunam com a contemporaneidade das tecnologias e efemeridade e banalização das comunicações interpessoais. A dramaturgia de Euclydes Marinho é afiada, corajosa, despudorada sem excessos e muitíssimo bem estruturada. O ótimo elenco encontrou ampla sintonia com a ambiência proposta pelo entrecho. Não podemos deixar de considerar que a escalação do cast fugiu, que bom, aos padrões convencionais da emissora. Apostaram em um nome prestigiadíssimo do teatro, Enrique Diaz, para ser um dos protagonistas. Assim como o fizeram com atores como Perfeito Fortuna, Caroline Abras e João Baldasserini (todos brilhantes). Esta iniciativa impõe um frescor à trama e provoca uma útil renovação de talentos. Porém, faz-se obrigatório, outrossim, que haja nomes relevantes como Maria Fernanda Cândido, Adriana Esteves, João Miguel, Paolla Oliveira e Selma Egrei. Teremos pela frente Cassia Kis Magro. O time de intérpretes desde já é um acerto total. As direções de arte e musical são caprichadas, os figurinos, elegantes e coerentes com o perfil dos papéis, a abertura fora realizada com esmero e a fotografia é soberana, com filtros suaves e neutros (além de um belíssimo branco utilizado em alguns takes). “Felizes Para Sempre?” não é uma obra que nasceu para não ser percebida ou assumir contornos anódinos. E, sim, o oposto disso. Seu incômodo é tão perturbador quanto redentor. Seremos defrontados com uma realidade crua e desfigurada que está livre dos sonhos. “Felizes Para Sempre?” apimentará a nossa teledramaturgia e nossas convicções. Como público, seremos felizes por dez episódios. E o que é melhor: sem termos que pagar R$4.000,00 a hora.

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