“A priori”, demanda-se ressaltar a significante iniciativa de se levar aos palcos um dos maiores legados dramatúrgicos do Teatro Moderno, “Quem tem medo de Virginia Woolf”, do americano Edward Albee. A importância desta obra fez-se tão clamorosa à época de seu lançamento (1962), que em 1966 o cineasta Mike Nichols a transpôs para a linguagem fílmica, com Richard Burton e Elizabeth Taylor. Após três montagens brasileiras, o prestigiado e producente diretor Victor Garcia Peralta, que já nos deu extensas provas da inconteste habilidade de conduzir narrativas cênicas, oferece-nos impiedosa e implacavelmente um espetáculo feroz, denso, inebriante e com alta carga de rica dramaticidade, sem expurgar o corrosivo humor de Albee. Sentimo-nos atônitos defronte à encenação que transcorre em meio acadêmico, cujos quatro personagens, complexos e grandes na configuração dos perfis, envolvem-se, desempenhando posicionamentos ora algozes ora vitimizados, fato este que provoca dinâmica textual e interpretativa patente sob diversos aspectos em situações que implicam em enfrentamentos interpessoais. O enredo é desenvolvido no elevado ambiente universitário, como disse, e seus consequentes intelectos privilegiados. Marta (Zezé Polessa), bela e exuberante mulher, filha do reitor alcunhado de “ratão dos olhos vermelhos”, apoia-se em constantes copos com teores etílicos vários, deixando-se acompanhar pela vaporosa fumaça de cigarro que não lhe deixa os dedos finos, inicia processo em evolução destrutiva da imagem, colocação e personalidade do marido Jorge (Daniel Dantas), professor de História, ao qual refere-se com a marca da maldade escondida ou clarificada nos indivíduos como “do Departamento” e não “O Departamento”. Jorge é homem inteligentíssimo, sagaz, possuidor de potencial calma pronta para transfigurar-se em exacerbado enfurecimento que desaba qualquer sujeito objeto de suas devastadoras reflexões amparadas por ditos espirituosos desconcertantes. Em noite de lua que já se pôs, o casal recebe as visitas do jovem professor de Biologia Nick (Erom Cordeiro) e sua esposa Mel (Ana Kutner). Forma-se o quarteto seguidor da máxima “quem não mistura, não se aventura” (uma alusão às bebidas). Não somos poupados a partir daí de um painel cruento de conflitos e embates nos quais as idiossincrasias dos pares são as armas de defesa de uma guerra muito particular. O biólogo sedutor e ambicioso, “concreto” na massa muscular, casou-se por interesse com a estouvada companheira, que “estufou” ventre por breve período, dada a vômitos reais e não metafóricos como os dos demais, e que refestela-se no ladrilho frio do banheiro. Ofensas, jogos vorazes e por que não “mortais”, desmascaramentos sequenciais, niilismo progressivo e dissecação da alma alheia são perfilados sem pausa num conjunto de diálogos expressivos na contundência em que não há espaço para parcimônia de vilipêndios. Victor Garcia Peralta, com a assistência de direção de João Polessa Dantas, executa com propriedade abastada o encadeamento teatral cabível, impingindo honorífica sinceridade nos propósitos, valorizando igualmente o soberbo texto, o magnífico elenco e a ocupação lógica e funcional da ribalta. A tradução de João Polessa Dantas é ótima, com a manutenção do cerne das ideias originais de Edward Albee. Os intérpretes, ratifico, exigem adjetivo elogioso que bem resuma sua realização artística. Daniel Dantas compõe Jorge com precisos e objetivos traços causadores de deslumbre e inquietação, transmitindo-nos as indignação aparente, submissão inicial, espirituosidade e estoicismo enganoso que se condensa numa ira irrefreável sem chances de contra-ataques. Zezé Polessa se incumbe de atribuir a Marta, com vasto entendimento do peso psicológico da personagem, uma grandiloquência comportamental, sustentada por acidez e tons caústicos de suas falas, irresistível luxúria, capacidade ilimitada e inexorável de subestimar o esposo, a quem chama de “poça”, “laminha”, lembrando-o sempre de seu suposto fracasso. Lembrando-o do livro cujo único leitor foram os seus pensamentos. Marta é ser feminino frágil emocionalmente, histérico, e que se delicia em mordiscar pedras de gelo com fins de prazer e/ou distração em meio às altercações. Erom Cordeiro, um ator que se sobressai em escolher textos de excelente qualidade para encená-los, absorve-nos inapelavelmente com um Nick que no introito aparenta ser o mais “normal” dos quatro, porém aos poucos deixa-nos escapar os defeitos que maculam a índole própria, o que não diferencia “o especialista em cromossomos” do resto da sociedade. Além disso, Erom busca com o seu papel, e obtém êxito, mostrar-nos constrangimento, destreza em adaptar-se ao universo insano no qual se inserira, protegendo-se com oportunidade das injúrias que lhe são lançadas. E a Ana Kutner coube a difícil tarefa de personificar Mel. Ana sabiamente a construiu com as medidas exatas de vulnerabilidade e nescidade em momentos distintos, somados à fraqueza, perplexidade, tristeza e dependência emotiva de seu cônjuge. O cenário e a direção de arte de Gringo Cardia aposta as suas fichas em esplendoroso local munido de estacas (com ramificações que remetem a galhos encimadas por diminutas casas com luzinhas frouxas no seu interior) usadas como símbolos de árvores. Há que se dizer que Gringo criou uma majestática “soberania” da madeira, podendo ser observada também na decoração típica da década de 60, com sofás, cadeiras, bar, vaso, livros, copos coloridos e garrafas idem. Um dos destaques indubitavelmente é o palco giratório (a sua rotação desperta-nos sentimento inefável e o natural ruído tangencia o sinistro). A divisão do ambiente em planos inferior e superior, com utilização válida das escadas, por instantes, lembra-nos a herança deixada por Santa Rosa. Os figurinos de Marcelo Pies sobressaem-se pelas elegância, congruência, sofisticação e bom gosto, fiéis ao que se trajava nos anos retratados. Veem-se a formalidade de um sobretudo, camisas sociais e gravatas, o despojamento de um casaco leve e calça folgada, o luxo de longos e estola e a ingenuidade de um vestido floral. A iluminação do competentíssimo Maneco Quinderé tem por meta cometer o que já nos é notório em seus trabalhos anteriores, ou seja, a provocação em nossas percepções, com inevitável enternecimento ao nos depararmos com fases oscilantes no que concerne à intensidade. Vislumbramos refletores em profusão (alguns com direcionamento oblíquo) que “abrem” a cena, emergindo claridade profunda que nos ambienta com a meada. O visagismo de Fernando Torquatto merece realce tanto nos “makes” suaves delineadores das faces bonitas das atrizes quanto nos penteados (incluem-se os masculinos) pertinentes à etapa histórica. A trilha sonora de Marcelo Alonso Neves é adequadamente enxuta, concisa, abarcando gêneros como o rock e o jazz. “Quem tem medo de Virginia Woolf?” no seu epílogo, depois de merecidas e demoradas ovações, perpetua-se em nosso imaginário como fonte de autoconhecimento e conhecimento do semelhante. Sem aderir a psicologismos superficiais, e apegando-se à pujante e convicta noção acerca das forças e tibiezas individuais, com possíveis chances de sobrevivência para os homens, a peça que nos fora apresentada teve a responsabilidade que se cumpriu de movimentar concepções dos espectadores, e fazer valer de que não se deve ter medos tampouco receios em optar por obra clássica e incrivelmente atemporal. O espetáculo se junta à seleto time de produções vigentes nacionais que de modo absoluto dão vida ao panorama cultural estabelecido.
Categoria: Teatro
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Não foram raros os momentos teledramatúrgicos em que a vingança como recurso de identificação e desenvolvimento de uma personagem foi ricamente explorada por um autor de novelas. Exemplos não nos faltam: a Márcia de Malu Mader em “O Dono do Mundo”, a Flora de Patrícia Pillar em “A Favorita” e a Norma de Gloria Pires em “Insensato Coração”. A vingativa da vez é interpretada com primor pela fluminense Vanessa Giácomo, naquela que pode ser considerada como uma de suas melhores atuações. Vanessa, uma atriz “rodriguiana” (sim, fez o monólogo “Valsa N° 6”, de Nelson Rodrigues no teatro) que começou a trabalhar cedo, não preterindo o balé dos seus estudos, “comprou” a espinhosa missão de dar credibilidade a uma jovem de passado obscuro que possui como meta destruir de modo pleno a família Khoury da trama das 21h da Rede Globo, escrita por Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”. E o alvo principal é o médico César (Antonio Fagundes). O que se sabe até então é que Aline Noronha é sobrinha de Mariah (Lúcia Veríssimo), suposta mãe de Paloma (Paolla Oliveira), que sofreu grave revés cometido pelo outrora presidente do Hospital San Magno. Giácomo, que coleciona muitos “remakes” na carreira, como “Sinhá Moça”, “Paraíso” e “Gabriela”, tendo estreado na TV já como protagonista na segunda versão de “Cabocla”, como Zuca, disputando o papel com várias candidatas, e que lhe rendeu importantes prêmios, decidiu se utilizar das natas e inquestionáveis beleza e sedução para pôr em prática o plano maquiavélico de sua Aline atual. Com jeito dulcíssimo, a artista que integrou o elenco de outras obras de Walcyr, como “Caras & Bocas” e “Morde & Assopra”, “anestesia” o público com os ardis e artimanhas engendrados. Verdade que a ex-secretária (uma figura onipresente nas produções televisivas brasileiras abordada sob diferentes prismas) não enganou de imediato a todos. Félix (Mateus Solano), Pilar (Susana Vieira) e Lutero (Ary Fontoura) sempre desconfiaram dos decotes mal-intencionados à mostra. Bernarda (Nathalia Timberg) fora conquistada à base de cupcakes. A moça que não “perdoa nem corretores de imóveis” (acredita-se que alicia Bruno, Malvino Salvador, com deliberado intuito de atingir Paloma), é hoje mãe de Júnior, suposto filho de Cesar (provável que em breve seja desmascarada quanto à questão do rebento não ser descendente do marido). Aline, “uma secretária de futuro” incerto que nos ensinou a “como eliminar seu chefe” despertou-nos para a sua desmedida ausência de escrúpulos e desrespeito com os semelhantes, lançando contra estes “petardos” como “bicha” ou algo similar, “velho ou velha” e “acabada”. É notório que também foi aviltada, ao ser chamada de “vadia” e “piranha”. Os objetivos de desforra da meiga e maliciosa mulher que gosta de comprar imóveis e colocá-los no próprio nome a fim de garantir a segurança de seu bebê dará a Vanessa posteriormente bastante possibilidades para demonstrar o talento que lhe é sobejo. A mesma Vanessa que recebeu de Gloria Perez a chance de vivenciar a esposa do seringueiro Chico Mendes na minissérie “Amazônia, De Galvez a Chico Mendes”, Ilzamar Mendes. A intérprete ademais “embrenhou-se” na temática espírita de Elizabeth Jhin em “Escrito nas Estrelas”, e na seara popular e carnavalesca de Aguinaldo Silva, em “Duas Caras”. Nos cinemas, “peregrinou” por universos inspirados em fatos reais (“Jean Charles”), rurais (“O Menino da Porteira”), fictícios (“Novela das 8”), e neste ano frequentara os “sets” de “Solidões”. Vanessa Giácomo, que acumula a função de ativista dos Direitos Humanos, deixa marca indelével no folhetim de Walcyr Carrasco como a bela e fatal Aline. Temos por lição o convencimento de que é correto quando se diz que “a vingança é um prato que se come frio”. E talvez seja até pior quando o prato em questão é um cupcake, e ainda por cima preparado por Aline Noronha.
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Há alguns personagens em “Amor à Vida”, novela das 21h da Rede Globo, de Walcyr Carrasco, cujos perfis são contextualizados no drama e na comédia, como são os casos de Márcia (Elizabeth Savalla) e Valdirene (Tatá Werneck). Carlito, o personagem do campineiro formado em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes, Anderson Di Rizzi, não foge a esta sedutora regra. Não foram poucas as vezes em que nos deixamos comover pela sensibilidade à flor da pele do “DJ’s”, evidenciada nas profusas lágrimas que brotaram de seus vívidos olhos sem vergonha da condenação machista alheia, e nos divertimos também com o seu peculiar jeito de ser. Chamado de “Palhaço” por “Valdirene’s”, o que a princípio poderia soar como pejorativo, tornou-se um epíteto carinhoso quando o ouvimos vindo da jovem não tão mais “piradinha” assim. O rapaz romântico que em noite bonita no terraço com a sua amada usa meio queijo para representar a lua, veste-se de modo estiloso e brilhante, ostentando seus bíceps “inflados” sempre que pode para a vizinhança e para os frequentadores dançantes de suas festas. Carlos José dos Santos Araújo “abraça” convictamente o gerúndio no linguajar, e vibra de maneira alucinada com autênticas coreografias defronte as “pick-ups”. Vê-se objeto de pilhérias, chistes e gracejos impiedosos, sejam eles proferidos pela avó de sua rebenta, Mary Jane, a “palhacinha”, sejam eles ditos pelo próprio pai, o “empresário”, o “dono do estabelecimento” Denizard (Fulvio Stefanini), que não se inibe em defini-lo como “corno” e “burro”. O filho de Ordália (Eliane Giardini) é uma “montanha de músculos” frágil como flor de caule fino, e ingênuo como uma criação dos Irmãos Grimm. Porém, ingenuidade que desperta ao notar direito legítimo ser ameaçado, quando lépido registrou a sua filha, antevendo uma infração à lei. Afinal, como ele mesmo diz: “Eu quero ‘estar vendo’ a minha ‘palhacinha’.” O intérprete passou a conquistar os afeto e simpatia do público justo pelas mãos de Walcyr Carrasco, autor que lhe deu a primeira grande oportunidade na teledramaturgia, oferecendo-lhe o engraçado Sargento Xavier de “Morde & Assopra”. A seguir, emendou com o “remake” de “Gabriela”, na faixa das 23h, personificando o professor Josué. Consolida-se em definitivo a bem-sucedida parceria com Walcyr. No tocante a “Amor à Vida”, Anderson buscou consciente ou inconscientemente inspiração em tipos clássicos como o “chapliniano” Carlitos (o que explica a escolha do nome do seu personagem), e quem sabe talvez no adorável arquétipo imortalizado por Renato Aragão nas superproduções cinematográficas que arrastavam multidões de variadas gerações para as salas escuras nas décadas de 70 e 80, em sua maioria dirigidas por J.B.Tanko. Carlito, sem sombra de dúvida, provoca a nossa torcida empedernida, pois se diferencia na trama em meio a tantas “personas” movidas a ódio, ambição, vingança, ciúme, imoralidade e amoralidade, perfídia e dilacerantes preconceitos. Anderson, desde já, deve se orgulhar do legado deixado no folhetim. O ator, que participou da microssérie “Dercy de Verdade”, açambarca em seu currículo nos palcos dramaturgos de respeitabilidade universal como Sófocles (“Antígona”), Frank Wedekind (“O Despertar da Primavera”) e Shakespeare (“Júlio César”), além de exibir sua face com sorriso cativante na comédia “O Concurso”, longa-metragem de Pedro Vasconcelos. Anderson Di Rizzi, que antes do sucesso obtido na emissora carioca, atuou em campanhas publicitárias e produções latinas, merece carreira longa. Provara-nos de que é capaz de transitar com excelência por gêneros distintos, colocando-se num patamar de versatilidade desejada. Carlito é um adorável “clown”. Um formidável “bufão” no “picadeiro” da ficção. Valdirene, para ele, é uma “delícia”. E para os telespectadores a atuação de Anderson Di Rizzi é “deliciosa”.
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A feminilidade e suas condições, vantagens e supostas desvantagens, o casamento desmistificado como instituição (assegurado de modo errôneo como “termo de felicidade” definitivo para o casal), o surgimento do acaso e/ou destino nos caminhos nossos trilhados, a desconfortável ausência e respectivas cobranças da inclemente sociedade perante a falta de um “projeto de vida” (há que se ter um?), o “abismo existencial” que se abre defronte ao ser humano não poucas vezes no decorrer da jornada seguida, os incômodos tédios, rotina e subsequente tentativa de ruptura destes são abordados com inteligência por profissionais entendedores dos assuntos supracitados como Regiana Antonini, que de maneira exemplar e irretorquível adaptou o best-seller homônimo de Martha Medeiros, “Feliz por Nada”, Ernesto Piccolo (direção), Rogério Fabiano e Valéria Macedo (produção), e Cristiana Oliveira, Luísa Thiré e Gil Hernandez. Face ao que relatei podem naturalmente associar a peça a um drama. Não, trata-se de uma comédia romântica. E o enorme mérito deste espetáculo está justo nesta questão de gênero. Com acerto, duas bonitas, talentosas e carismáticas atrizes foram convidadas para protagonizarem a produção, além da participação essencial de Gil. Cristiana Oliveira é Laura, professora de Português, casada há 15 anos, mãe de duas filhas (duas meninas, uma criança e outra adolescente), 42 anos e completamente infeliz. Seu casamento com Joca (Gil Hernandez) está morno, em fogo brando, inexiste entendimento entre os cônjuges, só lhes restam bicotas, não mais “beijos em pé”. O desprezo sobrepuja o desrespeito, o que talvez seja até pior. Os famigerados “projetos de vida” estão engessados, estagnados por escassez plena de apoio, incentivo, que se escoram em insegurança, medo, inércia e receio de apostar no duvidoso. No tocante a Juliana (Luísa Thiré), fotógrafa, separada (já se casou mais de uma vez), uma filha, independente, bem resolvida e feliz. Feliz? Como assim, “feliz”? Feliz por nada (como ela mesma se define), feliz por estar viva, feliz por olhar para si mesma, por viver cada momento e valorizá-lo, seja ele grande ou pequeno. Duas mulheres opostas. Uma espécie de “yin-yang”. O comum perceptível entre as duas “vítimas” da Vida, não nos importando de que forma a encarem, são corridas cotidianas pela Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Todos os dias, a única comunicação que se nota é um banal e protocolar “Oi!”, com diferentes entonações, dependendo dos humores individuais. Num encontro proporcionado pelo acaso e/ou destino no Aeroporto de Tóquio, Japão, na volta ao Brasil, um incidente faz com que passem a se conhecer melhor. A força de uma inibe a fragilidade da outra, e a complementação irrompe, dando início à promitente amizade. Uma mão estranha enxuga lágrima ressentida que escorre em rosto alheio. O “Oi!” sem emoção ficou para trás. Os complexos, frustrações e o “sorriso 32” (aquele que costumamos dar para parecermos felizes) são compreendidos por Juliana, que tem por “projeto de vida” ajudar a recente amiga. No entanto, uma pergunta que nos rodeia perseverante: Juliana é de fato feliz? Ou se impõe a ser como muitas pessoas o fazem? Ser feliz é um estado de espírito atraente, sedutor ao semelhante. Ninguém quer saber de gente triste, macambúzia e sorumbática. Porém, o mundo com todas as suas belezas e efemérides é por si só triste, macambúzio e sorumbático. O que cometemos são esforços permanentes para arrancarmos daquele “migalhas” de alegria. Não teríamos excelsos filósofos e pensadores se não fossem as tristeza e pessimismo diante do que o planeta de nome Terra nos dá de presente, e nos surpreende a cada passo que damos. O companheirismo da professora e da fotógrafa se solidifica, todavia uma coincidência ou “rasteira do destino” abala o afeto de ambas. O que se vê após são situações, diálogos, enfrentamentos que nos levam à cognição inevitável, madura ao testemunharmos fatos constrangedores que sem cerimônia se apresentam. Regiana Antonini esmiúça com alma feminina estruturada e ciente dos dilemas próprios do nunca “sexo frágil” as ideias amplas, abertas, racionais, sensíveis, desprovidas de omissões, mentiras ou falsos pudores de Martha Medeiros. Ernesto Piccolo, excelente diretor com habilidade para encenar dramaturgias de origens diversas e abordagens várias, pôs na ribalta uma encenação sábia, aproveitadora do espaço cênico, reflexiva, intimista, e leve, sim, leve a despeito da sinopse, com toques de humor milimetricamente balanceados. Ernesto dirige “Feliz por Nada” realçando as qualidades do texto e atores. Tanto Cristiana Oliveira quanto Luísa Thiré, belas em cena, transmitem com prodígio e maravilha a vasta gama de sentimentos e oscilações adjacentes com posturas séria, equilibrada, por vezes divertida e noção concisa do que estão executando. Gil Hernandez se sai bem nos dois papéis: exibe naturalidade e perfil prático e objetivo como o corretor de imóveis Rodrigo, e a indiferença, o ar “blasé”, a impassibilidade do marido Joca; contudo escancara capacidade de paixão e desejo ao reencontrar amor do passado. O cenário de Clivia Cohen insiste no ambiente negro, cru e nu, ou seja, pretere elementos desnecessários, o que ao final das contas, convence-nos sobremaneira. Os adereços, como valises e cadeira, também são criações de Clivia. A história se preenche com este vazio proposital. Os figurinos de Helena Araújo são destaque na obra, com variedade de vestimentas de múltiplas cores e tendências que deixam até mesmo aqueles que não se apegam a este aspecto técnico impressionados. São “trench coats”, casacos, longos florais e estampados, acessórios, camisas sociais e esportivas, malhas, moletons, jeans, sapatilhas e anabelas. Tudo sob esfera de elegância e bom gosto. A trilha sonora de Rodrigo Penna (conhecedor de estilos musicais e suas vertentes) envereda por atalho no qual se sobressai a trilha incidental, demarcando as passagens, dando-lhes riqueza, o que nos fica clara a tangência com o coerente. Rodrigo nos acarinha sobretudo com a irresistível “Crazy”. A iluminação de Aurélio de Simoni deslumbra-nos. O encantamento e esplendor que nos são causados justificam-se por precisão e adequação. Os planos abertos são utilizados no cotidiano ou nos embates psicológicos dos envolvidos na trama. O foco é preponderante nas atuações confessionais dos intérpretes (aproveitando-se dos lados esquerdo e direito do proscênio; inclusive, podemos destacar um magnífico ato em que as atrizes se sentam à beira do palco, próximas ao público, o que desencadeia com que este se sinta inserido no enredo de algum jeito). “Feliz por Nada” é um sopro de vitalidade no panorama teatral carioca, com suas percepções sobre vida e relacionamentos, sexos masculino e feminino, e pujanças e vulnerabilidades humanas que se revezam escapando de nossas vontades. Uma peça que veio com o intuito de esclarecer, discutir, debater, sem pretensão de ser “dona da verdade”, sendo uma opinião a ser respeitada, seguida ou não, e por conseguinte nos tirando do marasmo intelectual. Martha, Regiana, Ernesto, Cristiana, Luísa e Gil cumprem missão social em formato de entretenimento. Estou feliz. Por tudo. O “nada” é “tudo” em “Feliz por Nada”. O “nada” pode ser revisto. Assistam a “Feliz por Nada”, e depois me digam se não tenho razão.
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Elizabeth Savalla é uma atriz de muitas personagens marcantes na TV, sem no entanto preterir o cinema tampouco o teatro. No ar, às 21h, pela Rede Globo, numa novela de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, a intérprete que estudou na Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, é a ex-chacrete Márcia do Espírito Santo, ou Tetê Parachoque ou Paralama, seu outrora nome artístico, uma mulher sofrida, trabalhadora, mãe solteira, porém assaz divertida. Não é a primeira vez que Elizabeth atua com brilho ao defender um tipo popular. A taxista Lili de “O Astro”, de Janete Clair, em 1977, com seus cabelos curtos encaracolados foi de certa forma uma transgressão aos ditames sexistas da época. A despeito da Revolução Feminista da década de 70 e dos sutiãs queimados em asfalto público sob os olhares atônitos dos conservadores, colocar uma moça simples, no auge da juventude, conduzindo um táxi (profissão dominada por homens até hoje) em pleno regime de exceção fora ousadia da teledramaturga, e uma prova de confiança da emissora em Janete. E se estamos falando em simplicidade nos é obrigatório mencionar o oposto: a recente Minerva de “Morde & Assopra” (também de Walcyr, o autor com quem mais trabalhou, sempre com êxito). Savalla, que esbanja beleza desde os tempos da rebelde Malvina de “Gabriela” (1975), de Walter George Durst, produção baseada no romance de Jorge Amado, “Gabriela, Cravo e Canela”, agora como a progenitora de Valdirene (Tatá Werneck), “inteligência pura”, faz-nos invariavelmente rir e nos comove com suas sequenciais agruras. A vendedora de “hot dogs” mais querida da 25 de Março não dispensa exuberantes flores de plástico coloridas presas às madeixas que combinam com as roupas que usa (em geral blusas largas com um ombro à mostra e calças “fuseau”), e de modo heroico logra tirar graça da própria tragédia particular. Se um dia foi famosa com seus rebolados e caras e bocas amparada pelo “Velho Guerreiro”, no presente o anonimato “cumprimenta” o desamparo. Falta-lhe comida no prato. Sobram-lhe salsichas. Uma “mortandela” dada por caridade é um ágape. Atílio/Gentil (Luis Melo), o “administrador financeiro sem-teto” seria ou será o bote salva-vidas de que necessita para não se “afogar”. Deposita na descendente (como várias mães o fazem) a realização de seus sonhos. Os telespectadores podem avaliar Márcia como ambiciosa, interesseira. Não, ela é apenas uma sobrevivente, agindo em “estado de necessidade”, buscando atalhos, caminhos alternativos, que dirimam a miséria pessoal que a assombra, sem quaisquer apegos a falsos moralismos. A vizinhança da “dona da van” a trata cruelmente e a humilha sem dó nem piedade, chamando-a de “periguetona”, e Valdirene de “periguete”, além de brega pela atual sogra de sua filha, Eudóxia, vivida por Ângela Rabello (breguice são “pecadores atacando pedras em pecadores”). Deve-se ter o mínimo de respeito à cidadã que cuidou sozinha de rebenta, praticou o “strip-tease” para alimentar menina faminta (talvez até tenha se prostituído, e daí?; o que mais se vê no Brasil são modos outros de “prostituição”), nunca furtou ou roubou (sim, não paga impostos, é verdade; os poderosos pagam?), é obrigada a fugir do “RAPA” em meio a potes de ketchup, mostarda e maionese e o que de mais edificante cometeu: foi parteira em banheiro fétido de boteco insalubre cheirando a cachaça, “dando à luz” Paulinha (Klara Castanho). A avó da “palhacinha” Mary Jane lembra-me uma Cabíria de Fellini nas “Noites de Márcia”, que somente procura dignidade e afeto perdidos. Uma Giuletta Masina no horário nobre. Elizabeth Savalla estreou na TV Cultura em episódio de teleteatro dirigido por Antunes Filho, “A Casa Fechada”, de Roberto Gomes. Sua permanência no veículo de massas se consolidou após a bem-sucedida Malvina já citada, e que lhe rendeu merecidos prêmios. Importantes folhetins sobrevieram: “O Grito”, “Estúpido Cupido” (irmã Angélica), “O Astro” (dito acima), “Pai Herói” (a lindíssima bailarina Carina), “Plumas e Paetês” (Marcela, que se vê obrigada a trocar de identidade em virtude das circunstâncias em trama de Cassiano Gabus Mendes), “O Homem Proibido” (a “rodriguiana” Sônia), “Pão, Pão, Beijo, Beijo” (uma irmã que disputa com outra irmã, Maria Cláudia, o amor de mesmo homem, Cláudio Marzo), “Quatro por Quatro” (uma das quatro mulheres que se voltam contra o sexo oposto em história de Carlos Lombardi), “Chocolate com Pimenta” (a excentricidade foi o norte da Jezebel que personificara), e demais folhetins, seriados e minisséries (“Meu Marido” e “Sex Appeal”). Nunca se afastou dos palcos, associando-se inclusive a Camilo Áttila na fundação de uma produtora, a ESCA (Elizabeth Savalla & Camilo Áttila), que originou espetáculos como “Ações Ordinárias”, de Jerry Sterner, “Mimi, Uma Adorável Doidivanas”, de Camilo Áttila, “É…”, de Millôr Fernandes e para comemorar os seus 30 anos de carreira o monólogo “Frizileia – Uma Esposa à Beira de um Ataque de Nervos”, também de Camilo Áttila, em 2004. Antes, encenou “Pigmaleoa”, de Millôr Fernandes e “Lua Nua”, de Leilah Assumpção. Exerceu um cargo social como Coordenadora de Eventos Teatrais para a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Sua relevância como artista fez com que o Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, Minas Gerais, desse o seu nome a um troféu. No cinema, junto a Reginaldo Faria, novamente no período da ditadura militar, colaborou com o diretor Roberto Farias na exploração de tema árido e doído munido de torturas e paus de arara, em “Pra Frente Brasil”. Tivemos e temos Elizabeth Savalla em nossas vidas enriquecendo a cultura nacional. Não foram horas, dias, e sim, anos. Como Márcia de “Amor à Vida”, já se passaram meses. Minutos multiplicados em meses. Antigamente era “um minuto de comercial”. Hoje é um pouco mais. É justo então que exijamos muitos minutos para Elizabeth Savalla.
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Um fotógrafo, Francisco (Pedro Nercessian/Igor Angelkorte), com mão machucada, busca a pureza das imagens. A verdade e não miragens. Recusa-se a tomar pílulas que prometem a “juventude mentirosa”. Uma desairosa confrontação com a Natureza. O Estado, tendo como representante o seu rígido pai César (Samuel Toledo) lhe incumbe a função de registrar o modo de vida dos habitantes da Ilha de Sêneca (uma referência ao escritor e filósofo nascido em Córdoba – à época uma província romana da Hispânia, que se destacou no Império Romano, cujas ideias preconizavam a vida simples, a ética e a predominância do destino; suas obras serviram de fonte para a dramaturgia renascentista) com vistas à campanha publicitária. A população estudada optou por assumir suas rugas sem rusgas consigo mesma. Cada sulco de seus rostos não soa como insulto, e sim como culto aos atos de transição das etapas da vida. Se para nós envelhecer é sofrer, perder e chegar aos estertores do fenecer, o que Francisco depreendeu da gente ilhéu é de que esta é crente de que deixar a juventude para trás, acompanhar transformação de pele lisa em franzida, significa aceitação do processo evolutivo vital, fato que não exclui de suas “envelhecidas existências” uma felicidade inteiramente nova. No retorno ao lar, encontro com esposa médica, a prática e objetiva Lúcia (Lívia Paiva), adepta da Ciência que se imiscui com a “ingerência química” obstrutiva da “Vontade do Universo”. Os pais são assaz defensores da alegria que se perfaz no exterior, na estética, ignorando possível dor interior consequente da transgressão da Dialética. A mãe Cleo (Chandelly Braz/Júlia Lund) também é um ser que em sua feminilidade não demonstra fragilidade. No entanto, permite que a sensibilidade não se esvaia ao cuidar do filho Francisco (Fernando Bohrer) com “desenho do tempo” já “rabiscado” em matéria física decorrido período de ausência. O corpo presente se ressente do peso que não desmente o “preço feroz a ser pago ao relógio biológico”. É lógico. É o momento do tempo. A hora de seu reinado. Não sejamos alienados. Ignorantes e pedantes se tentarmos desprezá-lo. A nudez de outrora nos é atraente, tentadora, provoca-nos desejos explícitos. Já a nudez madura embora dura, é sedutora por ser real na afirmação do racional. Sim, de alguma forma somos semelhantes aos elefantes, que se desgarram do rebanho por não mais deter o ritmo deste, e esperam a morte no silêncio, na tranquilidade, na paz do refúgio, prontos, obedientes e dispostos a iniciar diálogo com o Desconhecido. A aridez e secura desses temas são abordados com proficiência, clareza, foco numa compreensão reflexiva e filosófica, e por que não expansiva do inevitável, seja ele temido ou bem-vindo caminho que nos leva à reta final de nossa história em “Elefante”, de Walter Daguerre. Walter é um autor que a cada texto explora de modo surpreendente a coesão narrativa/dramatúrgica sem preterir da emoção e de fino humor, com evidente potencial para canalizar para o teatro o que poderia descambar para o abstrato em mãos hesitantes. A direção (e argumento) de Igor Angelkorte desenvolve com inteligência, precisão (há cenas em que se formam triângulos espaciais nos embates travados pelos personagens), e um sadio apego ao sentimento e a tênue graça. Igor, a despeito da mocidade, aplica nos palcos com maturidade de quem entende o processo teatral cabível, aceitável e digno de nota, e expedito foge das armadilhas natas ao enredo espinhoso. O elenco da Probástica Companhia de Teatro, sem exceção, executa primorosamente, com delicadeza, força interpretativa e assumindo um naturalismo apropriado, a missão de exibir de maneira convincente e meticulosa o perfil descritivo dos papéis da trama. O cenário de André Sanches irrompe com singularidade e beleza desconcertantes, valorizando a arena, amparado por quatro cadeiras de madeira brancas similares a costelas (o que nos causa relevante impacto visual). Sobre chão possuidor de textura crua, que ao ser pisado emite ruído “arenoso”, encontra-se altivo vaso com caule e galhos retorcidos ciosos de água, mesmo que haja dificuldade na identificação das estações do ano, assim como nos é dificultoso encontrarmos as nossas próprias e definitivas identidades. E como elemento central uma mesa com recorte autêntico e criativo que acolhe pratos, talheres, taças e uma câmera fotográfica solitária. A Renato Machado coube a iluminação, e dela absorvemos uma totalidade de elegância, congruência e equilíbrio de luzes adequadas às situações, trilhando por vezes veredas mais intimistas (com focos individuais que nos lembram trapézios alongados ao mirarem o piso, e imagens luminosas quase apagadas que nos transportam à poesia legítima). Sombras cordiais que se revezam com a pujança de um plano aberto. Os figurinos de Ronald Teixeira atendem com senso de oportunidade e capricho à proposta comportamental dos “characters”. O bonito vestido rendado e transparente laranja escuro de Cleo e “scarpins”, o terno e complementos austeros de César, o casual e moderno na primeira fase de Francisco e o enxuto simbolizado por colete, calça e sapatos que falam por si mesmos na segunda. Todavia, Lúcia é contemporânea, despojada com viés sóbrio, utilizando-se de sobretudo, lenço e blusas leves, realçando o “bordeaux”. Os intérpretes tiveram um trabalho de corpo excepcional, e dentre tantas passagens, merece citação as danças típicas e/ou regionais mostradas por Fernando Bohrer e Pedro Nercessian/Igor Angelkorte, nas quais se percebem movimentos fortes, decididos, bruscos, calculados e óbvio, belos. Felipe Storino nos apresenta uma trilha sonora original que desperta curiosidade, receio, conforto, placidez e apreensão. “Elefante” atinge o seu epílogo, e todo um mecanismo de organização mental dos espectadores é ativado no intuito de formular conclusão justa, reta do que se assistira até então. Nossos pensamentos não envelheceram. Muito pelo contrário. Regeneraram-se. Conceitos de vida e morte, felicidade e tristeza preestabelecidos demandaram reavaliações. Provável que agimos como elefantes. Agrupamo-nos na plateia à espera de surpresa, do não conhecido. Transgredimos o axioma de que aqueles animais se isolam pois são impedidos de seguirem o ritmo de seus pares. Ficamos lado a lado, emparelhados com “Elefante”. Unidos num só fôlego. Não houve perdedores. Saímos todos vitoriosos, e rasgamos finalmente a faixa da linha de chegada com o espírito do renascimento.
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É princípio básico na constituição teledramatúrgica de uma novela que se possua dois núcleos, o cômico e o dramático. O primeiro tem por intento “suavizar” o enredo em meio às situações que tangenciam o drama. Nas produções das 19h precipuamente o humor ocupa posição de destaque na maioria das vezes. O que já não decorre de modo costumeiro nas obras da faixa do horário nobre (há exceções como “Rainha da Sucata” e “Roque Santeiro”). No caso de “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, atual folhetim das 21h da Rede Globo, há sim os dois núcleos supracitados, por sinal muito bem inseridos, entretanto o que se vê é um amálgama forte entre ambos, ou seja, onde há comédia há tragédia. As nossas vidas são tragicômicas, e não seria diferente em uma história contada por Walcyr. Valdirene, personagem da carioca, a publicitária formada pela PUC/RJ, Tatá Werneck, é um exemplo ímpar disso. Nossa imediata impressão, haja vista o seu passado de inegável êxito como comediante, é a de que o seu papel trilharia somente o caminho do engraçado, do divertido, ou até mesmo de um suposto ridículo. Enganamo-nos. O autor foi esperto, capcioso ao “construir” Valdirene. E a escolha de Tatá não poderia ter sido mais adequada. A atriz sabe que lhe cabe a missão de provocar o riso, mas sua função também é nos causar sentimento de compaixão ao testemunharmos seus reveses. É fato que nos é jocoso, passível de gargalhadas o jeito desengonçado com que a filha de Márcia (Elizabeth Savalla) se movimenta, com suas pernas arqueadas sob a pressão de calças “fuseau” e sapatos que parecem ser de número inferior ao que necessita; a gula desmedida acima de qualquer razoável compreensão (a cena das ostras foi antológica); o Português particular, em que fora criada uma “coesão textual” que só é inteligível para ela, com uma saraivada de vocábulos frutos de raciocínio munido de múltiplas informações e opiniões inusitadas; suas tentativas sempre frustradas em “fisgar” um marido rico, “milho” (milionário): já foram suas “vítimas” os atletas Neymar, Gustavo Borges, Vitor Belfort, Alexandre Pato, e os cantores Gusttavo Lima e Xand Avião dos Aviões do Forró (!). A jovem passou então a preterir a condição de famoso e se ater “apenas” à condição financeira dos “eleitos”. Sofreu sequência de humilhações, sendo abandonada em motéis sozinha, sendo confundida como prostituta, “usada e abusada”. Não estou aqui querendo dizer que Valdirene seja um baluarte dos “bons costumes” de uma mulher (se assim falasse soaria até como machismo ou chauvinismo), mas ao meu ver a vendedora de “hot dogs” age em nome de seu “estado de necessidade”. Talvez, e bastante provável, que se espelhe na mãe, e não deseja repetir os feitos de sua progenitora, que em época de gravidez, desprovida de recursos, viu-se obrigada a ostentar posturas atentatórias à sua vontade, como a prática de “strip-tease”. A sua fragilidade não está somente no olhar e compleição física. Está em seu interior. Valdirene sofre por dentro. Sofre por ela e pela mãe. Sofre de forma intermitente “bullying” dos vizinhos. Tem aspecto suportável ser chamada de “periguete” o tempo inteiro, e ainda por cima de “burra” pela própria mãe ex-chacrete, a “mãezoca”? Os seus coração e austoestima estão covardemente dilacerados, e desta forma permanecem a cada instante que ouve os impropérios. Não, Valdirene não é “difícil, dificílima”. Somos “difíceis, dificílimos” ou fingimos que o somos? É fácil estender a mão à hipocrisia, e jogar os “pecadores” na fogueira. Talita Werneck com sua beleza adolescente, olhos amendoados, que indicam “pedir ajuda”, lábios delicados que esboçam sorriso ora doce ora malicioso (mordiscando inclusive o lábio inferior nos atos de sedução), cabelos de menina com “inteligência pura” que somente quem a ama de verdade, o “palhaço” Carlito (Anderson di Rizzi), legitimamente faz “Valdirenes” verter lágrimas em rosto delgado. O “DJs” é capaz de abrir os seus olhos para a felicidade sem que haja conta bancária entre eles. Nem Ignácio (Carlos Machado) a amava, só queria alguém que aceitasse a sua esterilidade. A personagem, valorizada pela canção de Gabriel Valim, “Piradinha”, garante um dos melhores momentos da atração que nos promete “amor à vida”. Werneck, que graduou-se em Artes Cênicas na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) apaixonou-se pelo teatro desde cedo, e começou a mostrar o seu talento na série “Os Buchas” (Multishow). Após ter pisado no tablado de um palco com “Improvável”, despertou a atenção, e lhe sobreveio convite para integrar o grupo DEZImprovisa. O trampolim para que o Brasil tomasse ciência de seu nato potencial artístico finalmente apareceu: a MTV. Tudo se iniciou com “Quinta Categoria”. Ao lado de uma nova geração de atores atrelados à comicidade como Marcelo Adnet, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Rafael Queiroga e outros, esbaldou-se no “Comédia MTV” (que mais tarde veio a se tornar “ao vivo”). Pronto. Público e crítica se renderam a ela, e como prova do que lhes falo internautas do site UOL a consideraram “a humorista mais engraçada do Brasil”. Quem há de duvidar da voz do povo? Como talento puxa outro, firmou dupla com Fabio Porchat em dois longas “Teste de Elenco” e “Podia Ser Pior” (com Fernando Caruso e Gregório Duvivier). Ambos dirigidos por Ian SBF (responsável pelo fenômeno do YouTube “Porta dos Fundos”). Com Ingrid Guimarães, experimentou o “sabor” de um “blockbuster” “De Pernas Pro Ar 2”, de Roberto Santucci. Ainda na MTV, acumulou o ofício de apresentadora do “Trolalá”. No verão, “esquentou” os telespectadores com “Tá Quente”. Arriscou-se no já estabelecido mundo digital como importante mídia (em associação com uma cervejaria) na websérie “Imagina a Festa, Imagina o Carnaval”. Há um projeto engatilhado para estrear em outubro próximo e ser exibido no Multishow, chamado “Sem Análise”, no qual fará vários tipos. E na mesma emissora paga, contracenou com Mônica Martelli em “Dilemas de Irene”. Com relação a Valdirene, há curiosidade: a moça que gosta de “palhacinhos de enfeite” pôde ser assistida na websérie “Brigas de Família”, no episódio “Mãe Quer Ficar Rica”, na TV Rio. Recebeu três prêmios por sua participação em “Avacalhados” (grupo de humor de improvisação), e angaria um sem número de indicações por demais trabalhos. Se há um substantivo que possa definir este texto, Tatá Werneck, Valdirene e a carreira da intérprete é a pureza. Escrevi este texto com pureza. Tatá Werneck é “interpretação pura”. Valdirene não é “periguete” e sim alguém em busca de um amor puro. E a carreira de Tatá é pura no sentido de que não há inverdades nos sucesso e ascensão. Torçamos para que Walcyr Carrasco se apiede de Valdirene e lhe dê uma “felicidade pura”.
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Sempre que o nome Maria Maya surge em ocasional conversa, inevitavelmente associamos a atriz carioca de belos sorriso e cabelos às suas personagens românticas na televisão, por vezes até rebelde, ou outra com determinado desvio de conduta, porém nada se compara ao papel que lhe foi presenteado por Walcyr Carrasco para a trama das 21h da Rede Globo, “Amor à Vida”. A boliviana Alejandra ocupa lugar de destaque na vasta galeria de tipos condenáveis do folhetim que não têm amor à vida. De algum modo, estou sendo até injusto com a irmã de Valentin (Marcelo Schmidt), pois à sua maneira sente um “amor estranho amor” pelo aventureiro Ninho (Juliano Cazarré), e muito, mas muito amor pelo dinheiro fácil. A moça dotada de melenas da cor da graúna e que se acoberta com ponchos multicoloridos mostrou-nos no introito da história que pareceria apenas ser uma jovem apegada aos costumes milenares peruanos, e que detinha um misticismo, uma aptidão sensitiva ou mediúnica que a fez levar Paloma (Paolla Oliveira) a um xamã, que previu uma “sombra” no caminho da ainda não pediatra ao gerar criança, mas que venceria os obstáculos que lhe sobreviriam. O que desconhecíamos era que Alejandra seria um desses obstáculos antevistos. Seu perfil assim começou a ser claramente definido ao tomarmos ciência de seu envolvimento com o tráfico internacional de substâncias ilícitas. E este mesmo “negócio” levou o seu amado até então com “dreads” a ver o Sol da Bolívia sob diferente prisma. Houve um interregno estratégico nas aparições de Maria no enredo, uma intérprete que venceu o “peso” de pertencer à família de competentíssimos profissionais. O curioso, entretanto, é que nunca se cobrou dela de forma pública acerca do fato, haja vista que Maya sempre respondeu a possíveis elucubrações com o seu talento e acertadas escolhas de trabalho, chegando inclusive a se afastar do veículo televisivo, uma mídia que ultrapassa os limites racionais da exposição. Há pouco tempo, na novela de Walcyr, Alejandra assustou o Brasil com os altos graus de frieza e crueldade ao mancomunar-se com “o destruidor de skates que odeia ratinhas” Félix (Mateus Solano), com o espúrio intuito de sequestrar Paulinha (Klara Castanho), a menina com dois pais e uma mãe. Sem contar as infindáveis situações que tentou aliciar o rapaz de barba espessa que “promete as estrelas” a quem ama a transgredir a lei, a fim de que “se desse bem”. Alejandra Reys Moreno “rasgou” o Estatuto da Criança e do Adolescente e jogou o Código Penal no primeiro “bueiro” que avistou ao cometer sequência de delitos capazes de fazer qualquer criminalista experiente franzir a testa: sequestro, cárcere privado, maus tratos, formação de quadrilha, tortura, falsidade ideológica, homicídio doloso, tentativa de homicídio e denunciação caluniosa. Ela foi o “bicho papão” de Paloma, de Bruno (Malvino Salvador), da família de ambos, de Paulinha, de Ciça (Neusa Maria Faro) e de nós, o público. “O bicho papão do horário nobre”. Após o malogrado sequestro, engendrou vingança sórdida (há vingança que não o seja?) ao “plantar” drogas na bolsa andina da filha de César (Antonio Fagundes). Hoje a doutora é “paciente” das barbaridades cometidas numa cela de prisão brasileira. E uma “clínica” psiquiátrica com métodos “tradicionais” (uma vergonha a ser banida do país) a aguarda. Tudo planejado (exceto a internação) entre uma baforada e outra de cigarro. Maria Maya certificou-nos uma vez mais sobre suas inquestionáveis potencialidades dramáticas já mostradas em outros folhetins, peças e filmes. A estreia na TV ocorreu em obra de Antonio Calmon, “Cara e Coroa”, contudo passou a ser reconhecida nacionalmente quando personificou a sonhadora e ingênua Kelly Bola de “Salsa e Merengue”, escrita por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. Depois de incursões em minisséries como “Hilda Furacão” e “A Muralha” e o seriado “Brava Gente”, retorna às telenovelas numa produção de época das 18h, “Chocolate com Pimenta”. Exibiu sensualidade e molejo como a sambista Regininha de “Senhora do Destino”. Sua voz serviu de instrumento para os inspirados diálogos de João Emanuel Carneiro em “Cobras & Lagartos”. E com Gloria Perez, foi hábil a ponto de nos comover, como Inês, com a sua rebeldia associada à solidariedade e equilíbrio com relação ao irmão esquizofrênico Tarso (Bruno Gagliasso), quando os seus pais não sabiam lidar com a questão, em “Caminho das Índias”. “Esbarrou” novamente com Falabella em “Aquele Beijo”. Em meio a tudo isso, em nenhum momento, desligou-se do teatro, sempre buscando textos que escapassem do lugar comum e tangenciassem o polêmico, o tabu: “Play”, baseado no “cult” de Steven Soderbergh “Sexo, Mentiras e Videotape”; “A Loba de Ray-Ban”; “Não Existem Níveis Seguros Para Consumo Destas Substâncias”, de Daniela Pereira de Carvalho; e por último, “Obituário Ideal”, tendo sido dirigida por Ivan Sugahara em dois deles (“Play” e “Obituário Ideal”). O cinema não ficou de fora, ao ser vista na “sequel” de “Se Eu Fosse Você” e no longa adaptado do sucesso dos palcos de Bosco Brasil “Tempos de Paz”. Com a atual Alejandra, Maria Maya assinou termo de compromisso de qualidade artística com os telespectadores. Com a sua touca e seu inseparável poncho o fato é que provável os incas, Cusco, Machu Picchu, Bolívia, São Paulo e o Rio de Janeiro nunca esperavam a “visita” de uma “santa” como Alejandra. Tampouco nós.
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Combinemos num único cadinho vilania, homossexualismo, senso de humor afiado, ganância, frieza e carência afetiva. Agora faz-se necessário que se busque um ator ideal que abrace todos esses elementos “traiçoeiros” despudoradamente, transforme-os num personagem protagonista de uma novela das 21h da Rede Globo, e ainda assim consiga ser carismático. Não importa quem teve a ideia de escalar Mateus Solano. Se foi o autor Walcyr Carrasco. Se foi o diretor geral Mauro Mendonça Filho ou se foi o diretor de núcleo Wolf Maya. O que de fato nos interessa é que a escolha foi certeira. Difícil também é acreditar que o brasiliense com mais de 30 peças de teatro no currículo, que deu vida ao compositor Ronaldo Bôscoli em “Maysa – Quando Fala o Coração”, à vítima da ditadura militar Stuart Angel no programa “Linha Direta Justiça”, aos irmãos gêmeos Jorge e Miguel de “Viver a Vida” e ao Mundinho Falcão do “remake” de “Gabriela” não fizesse jus à incumbência que lhe foi oferecida. Mateus, um bonito intérprete e com porte fidalgo, logrou a proeza de fazer com que o público, dentro dos seus limites possíveis, simpatizasse com um dândi capaz de abandonar a sobrinha recém-nascida a quem alcunhou de “ratinha” numa caçamba de lixo. O ex-diretor administrativo do Hospital San Magno não é afeito a representações religiosas a ponto de usá-las como referências para criar os seus bordões em momentos de indignação: “Será que eu salguei a Santa Ceia?”; “Pelas contas do rosário…”; “Será que eu fiz confete dos pergaminhos do Mar Morto?”; e “Será que eu fiz um skate com as tábuas dos 10 Mandamentos?”. Ademais, não hesita em debochar do próximo com epítetos pejorativos ou deselegantes, como quando se referia à sua ex-secretária Simone (Vera Zimmermann) como “cadela”, ou a Valentin (Marcelo Schmidt) como “apache”, funcionário da lanchonete da casa de saúde, “velho gagá” no caso do Dr. Lutero (Ary Fontoura), ou sempre associar o advogado Dr. Rafael (Rainer Cadete) a uma criança ou adolescente. De outra forma, dirige-se com suposto carinho à mãe Pilar (Susana Vieira) chamando-a de “mamy poderosa” e ao pai César (Antonio Fagundes) de “papi soberano”, culminando com o “meu doce” dedicado a quem mais odeia, a irmã Paloma (Paolla Oliveira). Não podemos nos esquecer de Anjinho (Lucas Malvacini), o seu amante. Félix coleciona diversificada galeria de absurdos cometidos em “Amor à Vida”: trata o “filho” Jonathan (Thalles Cabral) com desprezo e violência (já trancou o rebento no armário e destruiu o seu skate, além de obrigá-lo a ser médico e não arquiteto); traiu Edith (Bárbara Paz) com outro homem; superfaturou os contratos dos fornecedores do hospital; deu um golpe financeiro em Amarilys (Danielle Winits); destruiu as carreiras de Lutero e Atílio (Luis Mello), e vida pessoal deste, levando-o à prisão, à base de chantagens; despediu uma técnica de enfermagem, Inaiá (Raquel Villar), logo depois readmitida, após ela ter se relacionado com o seu “objeto de desejo” Dr. Jacques (Julio Rocha); aliou-se à pérfida Dra. Glauce (Leona Cavalli) a fim de fraudar o exame de DNA que comprovaria a maternidade legítima de Paloma no tocante a Paulinha (Klara Castanho); e recentemente engendrou com Ninho (Juliano Cazarré) e Alejandra (Maria Maya) o sequestro da sobrinha e da enfermeira Ciça (Neusa Maria Faro). No decorrer dos capítulos, houve uma breve tentativa de humanização do personagem, que se dera quando a sua homossexualidade fora “revelada” perante a família inteira durante um jantar pela furiosa mulher traída. O alto rapaz que usa ternos, sapatos e gravatas de grife e adora sushis e sashimis, mantendo os cabelos negros sempre muito bem penteados pode até ter sensibilizado os telespectadores por alguns instantes, porém a sua insistência em prosseguir nas iniquidades para alcançar o que deseja “pulverizou” a “compaixão” daqueles. A opção de Mateus (autor e diretores) por um comportamento afetado (uma opção arriscadíssima) e divertido pode ter causado a princípio uma estranheza no público telespectador, no entanto com o desenrolar da história nos acostumamos com os gestos espalhafatosos, suas “mãos nervosas”, seu leve pentear da sobrancelha com o dedo mindinho, seu andar semelhante a um “pavão”, e voz bela e grave entoada com frequente ironia. Mateus Solano, sem quaisquer sombras de dúvida, compreendeu a árdua tarefa de vivenciar este papel, e de modo algum a sua atuação recrudesceu a discriminação, homofobia e preconceito brasileiros. O que já é um ganho para a novela e o ator. Mateus antes de brilhar como o compositor da bossa nova em “Maysa – Quando Fala o Coração”, já havia participado de outros folhetins, seriados e minisséries, como “Um Só Coração” e “JK”. Iniciou sua bem-sucedida parceria com Walcyr Carrasco em “Morde & Assopra”, como Ícaro (seguindo com “Gabriela”). Formado em Artes Cênicas pela Universidade São Judas Tadeu, estudado na escola “O Tablado”, o primo de Juliana Carneiro da Cunha, por intermédio desta, que é membro permanente, estagiou na consagrada companhia francesa de Ariane Mnouchkine “Théâtre du Soleil”. Há incursão na web com a série “Mateus, o Balconista”. Já nas salas escuras de projeção, pudemos conferir todo o seu potencial em longas-metragens como “Linha de Passe”, “Vida de Balconista” e “Novela das 8”. Em 2013, juntam-se à sua filmografia “Confia em Mim” e “O Menino do Espelho”. Como os gêmeos de “Viver a Vida”, de Manoel Carlos”, recebeu várias láureas, e indicações por outros trabalhos. Casado com a atriz, dramaturga e produtora Paula Braun (que fez grande sucesso no filme de Heitor Dhalia, “O Cheiro do Ralo” e está em “Amor à Vida” como a Dra. Rebeca), Mateus encerrou recentemente a temporada de “Do Tamanho do Mundo”, de autoria da própria Paula com direção de Jefferson Miranda no Rio de Janeiro. Ainda na ribalta, dividiu a cena com Wagner Moura em “Hamlet” e encenou “2 pra Viagem” e “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”. Chegamos à conclusão de que Mateus Solano consagra-se como o engenhoso, vil e engraçado Félix do horário nobre. Entretanto, quantos skates o filho de César ainda quebrará e quantas crianças recém-nascidas jogará em caçambas malcheirosas de lixo? Quem sabe no dia em que parar de “salgar a Santa Ceia”.
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Era para ser Isaac e Ismael, os filhos de Abraão. A religiosidade da mãe cuja sombra da esterilidade a conturbou assim impusera. Quem dera. Os ateísmo e comunismo do pai Otto fizeram com que preferisse atribuir homenagem aos fundadores de Roma, Rômulo e Remo, amamentados por loba mãe, consoante à etimologia do sobrenome do clã, ao nomear seus filhos gêmeos. Rômulo (Eriberto Leão) e Remo (Otto Jr.) cresceram juntos em desacordo. O mesmo desacordo que fez Isaac “lançar pedra” na cabeça de Ismael. Aos dezoito anos, com o coração aberto para “grandes novidades” e fechada para “pequenas antiguidades” sob determinante influência de velho hippie que enfrentou a lama de Woodstock e viu o dedilhar vivo e feroz de guitarra de Hendrix, sem ter deixado de devorar o legado dos “beatniks” Jack Kerouac e Allen Ginsberg, além do poeta William Blake. Rômulo foi apresentado solenemente a um mundo novo supostamente admirável. Abandonou o tédio, a família, o “nada”. Roubou o vil metal que nos é essencial do suor daqueles que compartilhavam o mesmo teto. Descobriu-se escritor. Suas ideias pululavam, e fincaram raízes em 23 “brochuras” que jamais poderiam ser lidas pelos “lobos que o amamentaram”. Língua estranha em páginas numeradas. Fosse em Londres ou no alto da cabeça de um anjo de Berlim, como se em filme de Wim Wenders estivesse, “Asas do Desejo”, o desbravador de letras abriu suas veredas por entre as capas e sobrecapas dos livros que passou a escrever. Sua mente o traiu. A ideia sumiu. O escritor sentiu dor. E a chave grudada na carteira de identidade dilacerada era a ponte para a “volta ao lar de Pinter”. Entrementes, a vida foi inclemente com Rosália (Betina Viany) lhe dando a demência que só as borboletas compreendiam. O pai Otto feneceu, e no jardim regado sempre fora cuidado. Liza (Renata Brida), veterinária, primeiro amor de Rômulo, talvez tenha optado tratar os animais bichos, pois os animais homens não têm tratamento cabível. Casada há anos com Remo, entristece-se por não ver o seu ventre crescer. Um casamento em desalinhamento. Remo é mecânico, ofício herdado do pai, conhecedor emérito da “mecânica das lambretas”. Há uma linda “lambreta” Harley-Davidson que para atingir a sua majestade lhe falta a peça “borboleta”. Rômulo com cigarro na boca, existência em bancarrota, retorna para o seu “rebanho sem pastor”. O jardim onde o pó do pai dorme virou refém e testemunha de traições, perdões e não perdões, cobranças pelas fuga e andanças, incesto involuntário, e a sopa que se bebe vagarosamente. Com isso, o dramaturgo Walter Daguerre imbuiu-se de sua vasta sabedoria cultural amparado por referências várias, sua indiscutível e arrebatadora habilidade em transformar uma situação viável num panorama logicamente contextualizado numa narrativa teatral, a que se deu o nome de ” A Mecânica das Borboletas”. E para pôr no tablado todo esse ideário acerca do ininteligível comportamento humano, o aclamado diretor Paulo de Moraes recebeu honrosa “convocação”. Com o seu mais do que costumeiro senso de percepção espacial e visão de planejamento coerente do conjunto cênico, Paulo estudou cada detalhe de ocupação do palco, embate temporário ou definitivo, “puxando e repuxando” com a proeza de exímio encenador a recôndita emoção da matéria física dos intérpretes. Eriberto Leão constrói Rômulo com milimétrica e exata doses de amargura, culpa, desejo suplicante de redenção, dualidade no proceder, indignação ideológica, defesa irrefreável de suas verdades e compaixão seguidas por postura incisiva nos instantes rogadores de sensações e posicionamentos do escritor não mais inspirado que a tudo o que observa anota em bloco de notas, que se refestela em chão, lânguido, e cantarola música dos The Doors. Betina Viany, com agudeza cognitiva necessária obtém amplo sucesso na constituição de sua Rosália, em que mostra ao público o quanto pode ser dolorido quando o nosso entendimento do mundo é corroído pela demência. A patologia psíquica a faz viver em condição existencial paralela, que mesmo desta forma não a exime da cruenta realidade envolvente. Renata Guida, convicta e provida das qualidades sedutoras de boa atriz, busca um atalho próprio para Liza, fazendo desta uma mulher por vezes estoica, sofrida, carente, infeliz no campo afetivo, sem no entanto deixar de demonstrar lampejos de esperança, solidariedade e candura. Otto Jr., como Remo, é um ator que absorve de modo pleno todas as características atinentes ao mecânico que se prendeu ao comodismo e rotina de sua vivência, à “prisão” de união instável com sua esposa, à preocupação em preservar o mínimo de estrutura do núcleo familiar, mas que no fundo mantém um avassalador desejo libertário de si mesmo. Um elenco de alta qualidade que defende com bravura o conjunto das intenções dramáticas, porém com certo viés otimista, da dramaturgia de Daguerre. O cenário de Carla Berri e Paulo de Moraes é de uma beleza seca, real, enternecedora, que se alterna de maneira criativa nos planos superior e inferior, respectivamente o “ideal”, o “sonho” e a concretude sem solicitude do convívio social. Um carro sendo aos poucos montado, carcomido pelas “rugas de ferro”, semelhante à jipe “guevariano” com seus faróis ofuscantes que possuem a força de um discurso político sem sofismas. Um jardim dianteiro que nos lembra ter “brotado” de um livro romântico de contos de cabeceira, no qual descansa o “gigante adormecido patriarcal” Otto. As duas borboletas que o sobrevoavam querem dizer: – Não se esqueçam da sincronicidade… 16 de junho! A data em que o ciclo começou e se fechou para que outro fosse reiniciado. A rústica mesa de madeira “cansada de guerra” e suas companheiras cadeiras (ou banquetas), onde se degusta a sopa quente que “aquece a mente”. A pia da cozinha na qual nasce o que se come e o que se bebe. A caixa de ferramentas cuja única “ferramenta” inexistente é aquela de que mais precisamos, ou seja, a que consertaria os nossos erros. Por uma curta escada, chega-se ao segundo andar, e deparamo-nos com a “star” Harley. Imponente, esbelta, brilhante, com seu manto sagrado vermelho metálico. Por detrás do palco, uma enorme janela semicircular subdividida em esquadrias revestidas por material translúcido que causa significativo impacto cenográfico. A iluminação de Maneco Quinderé não se inibe nem um pouco em reafirmar sua precípua função num espetáculo teatral. Ela “afaga” o verde. “Abre os braços” para “fade in” e “fade out”. “Perde-se em paixão” por um plano aberto, cuja “abertura” não nos machuca os olhos, muito pelo contrário, acarinha-os, transitando entre o onírico e o realismo. Luzes transversas como flechas. Sombras retóricas que servem para exclamar que “onde há luz há sombras”. Os já citados faróis do carro que se recusam a serem coadjuvantes. Tudo valorizado por um “fog” nada esnobe. Um “fog” não londrino como se fosse hino da anunciação do mistério teimoso que monitora os nossos passos. Os figurinos de Rita Murtinho escolhem apropriado e racional caminho que naturalmente se coaduna com toda a essência do enredo proposto pelo autor. A rebeldia enraizada de Rômulo na sua permanente tentativa de reconciliação com o seu passado é desenhada por casaco de couro, calça, tênis e gravata com respeito ao desleixo de um… rebelde; a dona de casa Rosália, simplória com a altivez das “rainhas do lar”, cuja inteligência sofreu abalos irreversíveis diante da implacabilidade do destino ou algo similar, traja prosaica saia, calça por baixo, blusa e um xale para ocasiões especiais (uma simplicidade pertinente e por isso mesmo adequadíssima ao papel de Betina); já a Liza de Renata Guida nos remete ao atual, moderno, contemporâneo e casual, sem ser extravagante, utilizando-se de saia longa, blusa com gola larga que se aproxima dos ombros, e botas de cano alto; e Remo, como mecânico, não poderia deixar de usar o indefectível macacão sobre t-shirt, contudo em sua fase libertadora nada como um signo que é uma jaqueta para indicar o seu estado recente. Rita é cumpridora de reinante premissa outrora dita para nos deixar ambientados com a sinopse que a nós se apresenta. A trilha sonora original de Ricco Viana é em sua maioria incidental, não menos ligada à racionalidade ou à emoção, sublinhando cenas em que se clamam o tenso, a placidez, o suspense, o cotidiano, um romantismo utópico no dramático painel de nossas missões terrenas, cujas utopias nos cospem nos rostos sem pedir licenças. Culmina com a célebre canção “Al Otro Lado del Río” (de Jorge Drexler). Por que será que nunca há um barqueiro que não seja devoto da usura e nos leve sem perguntas para conhecer “o outro lado do rio”? Como nos é normal pensarmos que este “outro lado do rio” seja bem melhor. Todavia, Remo “encontrou o seu barqueiro”. Provável que aquelas duas borboletas o ajudaram (e mais uma terceira, a peça que faltava para a Harley), para enfim dar o seu grito de liberdade, o seu “freedom”, ouvir os conselhos de Kerouac, e seguir “on the road”!.









