Há tipos de atores: os que são adeptos do “laboratório” para construírem seus personagens a fim de que se aproximem o máximo possível da melhor apresentação dos mesmos, e os dispensam este recurso, apostando apenas na intuição própria. Tanto uns quanto outros podem lograr bons resultados. Na verdade, o que de fato importa são as potencialidades dramáticas do intérprete. Isto se dá no mundo inteiro. Há aqueles que se apoiam no “O Método”, de Lee Strasberg, como assim o fizeram grandes nomes da Arte, como Marlon Brando, James Dean e Paul Newman (foto). Esta “técnica” se baseia essencialmente na procura dos artistas por emoções afetivas vivenciadas, recônditas. Porém, nem todos agem assim, optando por outras vias para a composição de seus papéis.
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Silvio de Abreu, o autor de “Passione”.
Foto: Jorge Figueiredo Jorge/CZNPor “passione” ao ciclismo, e ao irmão Danilo (Cauã Reymond), Sinval (Kayky Brito) vence a corrida. Por entenderem a “passione” de Stela (Maitê Proença) e Agnello (Daniel de Oliveira), a filha Lorena (Tammy Di Calafiori), Danilo, e Fátima (Bianca Bin) convenceram o personagem de Kayky a aceitar e compreender o romance da mãe. Por “passione” pela vida, Danilo superou seu drama. Por “passione”, Jéssica (Gabriela Duarte) e Agostina (Leandra Leal) acordaram “dividir” Berilo (Bruno Gagliasso). Por “passione” a Olavo (Francisco Cuoco), Clô (Irene Ravache) colocou a fama em segundo plano. Por “passione”, Lurdinha “sequestrou” Mimi (Marcelo Médici) na hora do casamento dele. Por “passione”, Candê (Vera Holtz) chorou a condenação de Fred (Reynaldo Gianecchini). Este, por “passione” pelo pai, engendrou vingança em vão. Clara (Mariana Ximenes), por honra ferida na infância, vingou-se de Saulo (Werner Schünemann), que guardava “passione” por maldades. Assim como Valentina (Daisy Lúcidi). Talarico (Luis Serra), por “passione”, ignorou o passado de Olga (Debora Duboc). Arthurzinho (Júlio Andrade) encontrou sua “passione” (quem sabe?). De modo espirituoso, há “passione” envolvendo Brígida (Cleyde Yáconis), Diógenes (Elias Gleizer) e Benedetto (Emiliano Queiroz). Mauro (Rodrigo Lombardi) poderá sentir “passione” real por Melina (Mayana Moura) um dia. Antero (Leonardo Villar), por “passione”, logrou com que Gemma (Aracy Balabanian) perdesse o medo, e assumisse “passione” de tempos idos. A “passione” de Felícia (Larissa Maciel) por Gerson (Marcello Antony) que a fez ajudá-lo em seu problema. Adamo (Germano Pereira) conseguiu enxergar a verdade da “passione” de Francesca (Marcella Valente). Há a pureza da “passione” de Alfredo (Miguel Roncato) e Kelly (Carol Macedo). A “passione” de Lorena por Chulepa (Gabriel Wainer). A “passione” de Thiaguinho (Fernando Roncato) por Cris (Gabriela Carneiro da Cunha). A “passione” inserida no pedido de Bete Gouvea (Fernanda Montenegro) para que todos ficassem juntos. E a “passione” para quem não deveria possuir mais esperanças de se apaixonar: Totó (Tony Ramos) ganha a “passione” de Juliana (Patrícia Pillar). E, por fim, a “passione” de Silvio de Abreu em ter escrito… “Passione”.
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Foto: Daryan Dornelles/FolhapressNa cena em que Clara (Mariana Ximenes) é desmascarada, provável, ao meu ver, que Daniel Boaventura (que está em cartaz em São Paulo, ao lado de Marisa Orth, com o musical “A Família Addams”) tenha conquistado seu melhor momento na teledramaturgia. O rapaz possuía uma difícil tarefa: com longo texto, cabia-lhe contar a todos que o cercavam as verdadeiras intenções da moça dissimulada. E o fez dignamente. Convenceu-nos sobremaneira. O ator entrara no meio da trama, o que já não é fácil, e seu papel (Diogo) era imbuído de diversas nuances e mistérios. Não se sabia de fato quais eram os propósitos. A princípio, a incumbência era a de vigiar os passos da então garçonete Clara. Para isso, empregou-se como cantor. Havia uma cumplicidade entre ele e S. Talarico (Luis Serra) e Olga (Debora Duboc). De modo súbito e estranho, apaixonou-se pelo objeto da investigação. Ficamos imersos em dúvida. Aliás, houve uma ótima parceria com Mariana. Fora obrigado, a fim de que o plano traçado por muitos não fosse mal sucedido, a se incompatibilizar com a governanta dos Gouvea. Até que em excelente sequência na qual todos os atores demonstraram talento, o desmascaramento da vilã ocorre. Só para terminar, é oportuno nos lembrarmos que Daniel é um requisitado intérprete para musicais, já tendo feito diversos, como “Os Cafajestes”, “Company”, “A Bela e a Fera”, “My Fair Lady”, “Victor ou Vitória” e “Chicago”. O CD “Songs 4 You”, de sua autoria, tivera boa aceitação no mercado. E agora, com o sucesso da novela de Silvio de Abreu, seu mais novo CD “Daniel Boaventura – Italiano” tem agradado aos fãs de sua bonita voz.
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A história se inicia com uma forte discussão de casal (Vladimir Brichta e Camila Morgado). Tudo leva a crer que é um casamento falido. E realmente era. No local de trabalho, Ary, papel de Brichta, aconselha-se com um amigo (Bruce Gomlevski). Este o chama para sair para “afogar as mágoas”. E assim o homem desiludido decide fazer. Na rua, figuras de fato urbanas nele se esbarram. Uma delas é interpretada por Osmar Prado. Algo como um “flâneur”, um “bon vivant”, um “de bem com a vida”, possuidor de teorias. Ocorre então que Ary vislumbra uma linda mulher, Vera (Alinne Moraes). Pareceu-nos que surgiria ali uma bonita “love story”. A gargantilha que o rapaz havia comprado para a esposa fora dada para a outra. A outra da rua. Porém, antes disso, o desalentado moço peregrina pela noite paulistana. E encontra tipos a ela comuns. Por vezes, lembrei-me de um filme, só que noutro contexto, de Martin Scorsese, “Depois de Horas”, no qual o personagem de Griffin Dunne perambula madrugada adentro vivendo várias experiências. Ademais, percebi no desenho do “character” de Vladimir algo “godardiano”, por causa dos conflitos internos, existenciais que o perturbavam. Pode ter havido sim uma influência da “Nouvelle Vague”. Notou-se também um olhar cinematográfico de Bruno Barreto, o diretor, na composição das cenas. Houve duas bem bonitas: um guarda-chuva é levado pelo vento; e Vera escapa do esguicho de uma mangueira de água na calçada. Se gostei? Sim, gostei.
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Clara (Mariana Ximenes) está pensativa no pátio da penitenciária. É surpresa pela avó (Daisy Lúcidi, ótima) com uma proposta de fuga. Para isto, seria necessário dinheiro. E a senhora o possuía. Clara topa. Há um momento de grande tensão (direção competentíssima para as tomadas do gênero) quando o motim é anunciado. Muita ação, marcações várias, e atuação intensa de Mariana (firmou-se sem dúvida como das melhores da sua geração). Acredito que tenha sido a vez com que Mariana Ximenes mais tenha se entregado fisicamente na situação pedida típica em demais tramas das quais participara. Correrias e afins. E Valentina, enfrentando limitações, busca também a liberdade. Carros da lei não param. E nem poderiam. Clara fere uma cúmplice do plano. Clara não está para brincadeira. Tudo vale no sentido de se libertar. No meio do caminho havia um muro alto. Que fazer? Pulá-lo, ora. Uma das fugitivas logra se safar; a loira da mesma forma. Quando então a senhora lhe suplica ajuda para transpô-lo. No que a moça de pele alva diz, em citação próxima, para quem a explorou: – Você vai apodrecer aí, sua velha porca! A farsante continua a escapar. Encontra uma “blitz”. Evita se arriscar. Pisa no acelerador. Ribanceira à frente. O carro explode. Fim? Não sei.
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Paulo Gracindo como o prefeito Odorico Paraguaçu em “O Bem Amado”.
Foto: ARQUIVO/TV GloboCom a adaptação do filme de Guel Arraes, “O Bem Amado”, com Marco Nanini, em minissérie na Rede Globo (que por sinal derivou do seriado e novela homônimos de Dias Gomes exibidos na citada emissora), não nos custa nada lembrar um pouco desta antológica obra da teledramaturgia brasileira. Dias Gomes estava inspiradíssimo ao construir personagens ricos em seus perfis, e criar um microcosmo com conotações políticas regado por um humor impecável. Odorico Paraguaçu, interpretado de modo brilhante por Paulo Gracindo, arrebatava-nos se comportando jocosamente, e preterindo de forma deliberada os princípios éticos. O fraseado dele era de uma originalidade sem par. “Vamos deixar de lado os entretantos e vamos direto pros finalmentes” (citação próxima) é só um dos exemplos. E o que dizer quando o prefeito de Sucupira vestia o terno, ajudado por Dirceu Borboleta (personificado por Emiliano Queiroz, que se utilizou de minúcias na caracterização), para falar ao telefone com certa autoridade? E o assanhamento das irmãs Cajazeiras (a princípio, defendidas por Ida Gomes, Dirce Migliaccio e Dorinha Duval; a seguir, Dorinha foi substituída por Kléber Macedo) quando se encontravam com o político? E quando o alcaide tinha segundas intenções com alguma delas, e soltava: – Aceita um licorzinho de jenipapo? E o Nezinho do Jegue (Wilson Aguiar)? Tudo era bom. Aliás, tudo era muito bom.
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Foto: Fernando Louza/InStyle estilo de vidaSão impressionantes as beleza e boa forma de Maitê Proença, a Stella do folhetim de Silvio de Abreu, “Passione”. Ela deve se considerar privilegiada. E por possuir essas qualidades, o papel que lhe coube na trama nos é crível, pois rapazes se interessariam sim por mulheres como Maitê. Lembro-me quando a vi tempos atrás, bem jovem, em “Jogo da Vida”, do mesmo autor de sua novela atual (já havia estreado em “As Três Marias”, de Wilson Rocha e Walther Negrão, ao lado de Glória Pires e Nádia Lippi, na Rede Globo). Na produção de Silvio de Abreu, a intérprete era filha de Ary Fontoura e Suely Franco. O bonito rosto me arrebatou, tornando-se a partir daí uma das atrizes que mais admirava, juntamente com Elizabeth Savalla, Vera Fischer, Sílvia Salgado, Natália do Valle e Elizângela, dentre outras. Quanto a mais algumas obras das quais participou, além das já citadas, apreciei também “O Salvador da Pátria”, de Lauro César Muniz, e “Torre de Babel”, novamente de Silvio de Abreu. Em “A Lua me Disse”, de Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa, teve uma aparição “relâmpago”, porém precípua. Como Stella, é objeto de uma história instigante. Com o término de “Passione”, Silvio de Abreu passou por cima de supostos princípios morais, e uniu de modo afetivo a personagem de Maitê com o de Daniel de Oliveira. Uma decisão difícil de ser tomada até em ficção.
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Foto: Estevam Avellar/Rede GloboBete Gouveia (Fernanda Montenegro) abre a suntuosa porta para Clara (Mariana Ximenes). A moça estava estranha. Pensava que iria tratar de um assunto relativo à venda da sua cota no sítio de Totó (Tony Ramos). O tema era outro: a derrocada dela mesma. Assistimos “de camarote” ao dia em que a bela loira que a todos seduz, sucumbiu. Tivemos a prova, neste momento, na novela de Silvio de Abreu, exibida pela Rede Globo, de que o mundo não é somente dos espertos. Clara se julgava como tal. Porém, deixou uma série de rastros. E rastros, quando errados, levam a um inevitável desmascaramento. De uma hora para outra, grande parte dos envolvidos nas artimanhas da irmã de Kelly (Carol Macedo) se aproxima, um a um. Gemma (Aracy Balabanian), Agnello (Daniel de Oliveira), Adamo (Germano Pereira), Alfredo (Miguel Roncato) e Agostina (Leandra Leal). O que se testemunhou fora um cerco. Um cerco à criminosa que não parece criminosa a quem a encontra pela primeira vez. Ela chora. Contudo, quem ainda acredita na falsidade das lágrimas vertidas? Diz que é vítima de cilada, de farsa. Nada adianta. Até que o clímax decorre. Ouve-se do alto da escada: “Solo vivo, Chiara”. Clara se espanta. Não crê no que está presenciando. Vislumbram-se as pernas do homem do campo descendo degrau por degrau. A jovem tenta se explicar. Tudo em vão. Uma diferente surpresa ainda a aguardava. A chegada de Diogo (Daniel Boaventura). Ele lhe diz que é um investigador. Nada mais a fazer. Clara é presa. Por enquanto.
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Havia um vidro no meio de ambos. Um vidro limpo, transparente. Era para este mesmo vidro ser sujo. Sujo como as sujeiras que ouvimos de Valentina (Daisy Lúcidi, brilhante). Microfones inocentes eram obrigados a ouvir barbaridades proferidas pela senhora que jamais soube o que eram decência e escrúpulos. Gerson (Marcello Antony, excelente) tinha que enfrentar os medos que por anos a fio o atormentaram. E só há uma única maneira de enfrentar medos na vida. Encará-los. E Gerson assim o fez. Escutou deboches, escárnios, imoralidades que não imaginaríamos escutar de uma avó. Ela disse: – Meu brinquedinho gostoso, aquela mãozinha macia, novinha, “né”? Você ficava todo arrepiado com os meus beijos molhados, sabe? Você já tinha aquela carinha de safadinho, de sem-vergonha. Eu pedia, sabe, “pra” você me chamar de “gostosa”, e você repetia “gostosa”, “gostosa”… Neste instante, o rapaz não se conteve, e vociferou: – Para com isso! Você é um monstro! Você não tem ideia do que fez com a minha cabeça! No que a mulher retruca: – Só lhe ensinei a ter prazer, “te” despertei “pra” vida. E não para: – Você gostava de uma farrinha, seus olhinhos brilhavam, seu corpo tremia. O irmão de Melina (Mayana Moura) não suporta mais dar ouvidos ao que é podre. A face se contorce, os lábios se comprimem. É demais para ele. É demais para nós. É pouco para Valentina. Ri. Ri como se houvesse graça na miséria alheia. Regozija-se ao falar: – Que delícia, que delícia… Tivera o desplante de lhe afirmar que “lhe ensinara o caminho da vida”. Caminho? Gerson perdeu-se em descaminhos por falta de orientação psicológica. Fala ainda que não consegue se esquecer do que aconteceu. A agora presa responde: – Não esquece porque você gostou. Quando pensávamos que Valentina já houvesse nos mostrado todas as suas horrendas máscaras, deparamo-nos com a pior, talvez. Gerson atormentado encerra com uma forte cusparada. A senhora se importou? Não, ela não se enoja com nada. Gerson pôs tudo para fora. Tudo mesmo. Era o que tinha que ser feito.
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Antes de se formar jornalista pela Universidade Federal Fluminense, a carioca Ana Paula Araújo (que este ano brilhou na cobertura do Carnaval no Desfile das Escolas de Samba do Rio de Janeiro) já emprestava sua boa voz a uma rádio de Juiz de Fora (fora radialista também na CBN, no Rio de Janeiro), Minas Gerais. Após ter trabalhado algum tempo na Rede Record, migrara para a extinta Rede Manchete, na qual atuara nos jornalísticos “Rio em Manchete” e “Jornal da Manchete”. Firmara finalmente contrato com a Rede Globo de Televisão. No início, sua função era substituir “âncoras” da emissora. Mas o talento que lhe é próprio não poderia resumi-la a isso, e a convocaram para assumir o “Bom Dia Rio”. Daí, conduziram-na para o “RJTV”. O interessante no que concerne a Ana Paula Araújo é que a bonita moça não se restringe à bancada de um telejornal, fazendo reportagens de rua, o que óbvio lhe traz enorme bagagem e experiência como profissional da notícia. Todavia, as coisas não param, e o dever a chamou para realizar as já citadas reportagens de rua para o “Jornal Hoje”. Surge então uma nova oportunidade: capitanear o “Globo Comunidade”. Como ficar assim impassível a tantos esmero, dedicação, sobriedade, capacidade ímpar e denodo no ofício? O “Jornal Nacional” não ficou. Tampouco nós.
Obs: Esta matéria foi escrita no ano de 2011, sendo assim, a cobertura do desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro ao qual me refiro corresponde a esta época.




