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Blog do Paulo Ruch

  • ” ‘Homem-Aranha: No Aranhaverso’, candidato ao Oscar de Melhor Animação, é um ótimo entretenimento, divertido e, acima de tudo, subversivo, por colocar como representante principal dos vários super-heróis aracnídeos que surgem no filme um garoto negro do Brooklyn, grafiteiro, filho de um policial afro-americano com uma latina. “

    fevereiro 4th, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    “Homem-Aranha: No Aranhaverso” é uma obra subversiva, por colocar como o seu principal Homem-Aranha, dentre os muitos que aparecem no filme, um garoto negro do Brooklyn, grafiteiro, filho de um policial também negro e de uma mãe de origem latina 

    Finalista ao Oscar 2019 de Melhor Animação, vencedor do Globo de Ouro, “Homem-Aranha: No Aranhaverso” (“Spider-Man: Into the Spider-Verse”, 2018), de Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman, um dos filmes do gênero mais comentados dos últimos anos, é, pode-se dizer, uma obra subversiva. Subversiva no sentido de colocar em sua trama um garoto negro do Brooklyn, Nova York, Miles Morales, grafiteiro, que não se adapta, segundo o próprio, a uma escola elitista, filho de um policial negro com uma latina, como o principal Homem-Aranha, dentre os muitos que aparecem no longa. Miles, como o super-herói aracnídeo, tem que enfrentar o Rei do Crime, aliado a outros vilões, a fim de impedi-lo de destruir o mundo (a dimensão em que vivem), acionando um colisor que criaria um buraco negro sob o distrito nova-iorquino.

    O filme possui muitos méritos, como montagem alucinante, computação gráfica excepcional e trilha sonora com ritmos empolgantes, no entanto seu intrincado roteiro não é indicado aos pequenos, que deverão se deslumbrar com a sua estética 

    Com montagem alucinante e frenética de tirar o fôlego, computação gráfica excepcional, trilha sonora melódica e empolgante (notadamente marcada por ritmos americanos, como o rap), cores vibrantes e psicodelismo em suas imagens, permeado de tiradas sarcásticas (há uma alusão ao artista britânico Banksy), “Homem-Aranha…” possui um roteiro intrincado, com menções a universos paralelos, outras dimensões e física quântica, não sendo um filme direcionado aos pequenos, a não ser pela sua estética deslumbrante e atraente.

    Contando com um time de peso de dubladores, que inclui Nicolas Cage e Mahershala Ali, “Homem-Aranha: No Aranhaverso” merece a sua ida aos cinemas

    Atores como Nicolas Cage, Lily Tomlin e Mahershala Ali são os dubladores dos personagens, inclusive Stan Lee, o célebre criador do Homem-Aranha. “Homem-Aranha: No Aranhaverso” é uma animação de altíssima qualidade, forte candidata ao Oscar, que deve ser assistida não somente por aqueles que adoram super-heróis, mas por todos que se interessam por um entretenimento deste gênero com uma história bem elaborada e crítica.

    Assista ao trailer:

  • “O cineasta mexicano Alfonso Cuarón, após produções hollywoodianas, mergulha fundo em suas raízes com ‘Roma’, um drama humanista e contundente, que levou a sua protagonista, Yalitza Aparicio, a ser a primeira indígena a ser indicada ao Oscar em toda a sua história. “

    janeiro 30th, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    Lançado originalmente na Netflix, “Roma” é um dos filmes mais aclamados do momento, tendo recebido 10 indicações ao Oscar, incluindo “Melhor Filme”, “Melhor Diretor” e “Melhor Filme Estrangeiro”

    Houve no último dia 24, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, uma sessão exclusiva em película de um dos mais aclamados filmes do momento, “Roma”, de Alfonso Cuarón, vencedor do Leão de Ouro em Veneza, dois Globos de Ouro (filme e diretor), sendo indicado ainda a 10 Oscars, incluindo Melhor Filme, Diretor, Atriz (Yalitza Aparicio), Melhor Atriz Coadjuvante (Marina de Tavira), Melhor Roteiro Original e Melhor Fotografia (ambos de Alfonso Cuarón), e Melhor Filme Estrangeiro. A obra, originalmente lançada e disponível na Netflix, possui grandes chances de levar estatuetas para casa, inclusive Filme e Diretor.

    Alfonso Cuarón, que já recebeu um Oscar pela superprodução espacial “Gravidade”, faz um drama humanista e realista, com impactante fotografia em p & b que nos remete ao neorrealismo de Vittorio de Sica 

    O respeitado cineasta mexicano Cuarón, que já recebeu um Oscar por sua direção da superprodução espacial “Gravidade” (2013), resolveu, dessa vez, mergulhar fundo em suas raízes, sendo o responsável absoluto pela criação de um drama humanista, realista e contundente sobre a relação de afeto (sem preterir as regras de hierarquia social) entre a empregada doméstica Cleo (Yalitza Aparicio) e a família de classe média branca para quem trabalha (como a patroa Sofia, Marina de Tavira) e seus quatro filhos pequenos), no bairro Roma, na Cidade do México, no início da década de 70. Alfonso não deixa de retratar, escorado em sua belíssima e impactante fotografia em p & b, que nos remete ao neorrealismo de Vittorio De Sica, a miserabilidade e o caos urbano de um México remexido por questões políticas e manifestações estudantis violentas.

    Yalitza Aparicio, a primeira indígena indicada ao Oscar, é um dos destaques de “Roma”, cujo roteiro coloca uma lente de aumento na vida de pessoas diferentes, que se veem unidas, através do afeto, pelos sofrimento, solidão e abandono que lhe são comuns

    O roteiro nos mostra uma narrativa própria, com ritmo desacelerado, preocupado em colocar uma lente de aumento na vida cotidiana daquelas pessoas tão diferentes e próximas entre si, unidas pelo sofrimento, solidão e abandono. Yalitza Aparicio (em sua estreia nas telas), a primeira indígena indicada ao Oscar, comove com a sua doçura, seu olhar triste e seu sorriso desencorajado. Roma integra um seleto grupo de filmes que busca a investigação da alma humana, elevando o afeto como emoção máxima de união entre os seres.

    Assista ao trailer:

  • “O cinema dinamarquês ganha força com o lançamento de ‘Culpa’, de Gustav Möller, um dos melhores thrillers psicológicos jamais feitos, em que os limites da ética são debatidos com irretocável propriedade.”

    janeiro 26th, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    Desde 1995, com o movimento cinematográfico Dogma 95, o cinema dinamarquês vem mostrando a sua força, e a mais recente prova disso é o filme “Culpa”

    Desde 1995, quando foi lançado o movimento cinematográfico Dogma 95, criado pelos diretores Lars Von Trier (“Os Idiotas”) e Thomas Vinterberg (“Festa de Família”), a indústria do cinema dinamarquês tem despertado o interesse do público e da crítica em níveis mundiais, principalmente com relação a Von Trier. Quase 24 anos se passaram, e os filmes feitos neste país da Escandinávia ainda estão se sobressaindo no cenário internacional (claro que as regras rígidas do Dogma 95 foram abandonadas). O mais recente sucesso da Dinamarca, que estava incluído na lista dos nove pré-selecionados para a disputa do Oscar 2019 de Melhor Filme Estrangeiro, “Culpa” (“Den Skyldige”), dirigido pelo sueco Gustav Möller, tem ganhado prêmios e elogios pelos festivais onde foi exibido (esteve em Sundance e Roterdã).

    “Culpa” é um dos melhores thrillers psicológicos jamais feitos

    O longa de estreia de Gustav Möller é, sem dúvida, um dos melhores thrillers psicológicos jamais feitos. O eletrizante suspense, tendo como únicas locações as salas assépticas e azuladas de um distrito policial, sustenta-se na história de Asger Holm (Jakob Cedergren), um agente com pendências em seu passado, incumbido de atender às chamadas de emergência, e encaminhar as notificações aos departamentos responsáveis. Ao receber um chamado lhe avisando sobre um sequestro de uma mulher, Asger começa a burlar os códigos de conduta policial, envolvendo-se intimamente com o caso, rompendo os limites da ética.

    Uma obra sensorial, com roteiro elaborado e atuação excepcional de Jakob Cedergren

    O roteiro elaboradíssimo de Gustav Möller e Emil Nygaard é pautado em diálogos curtos e cortantes, privilegiando a riqueza dos sons, vozes e ruídos. Uma obra sensorial e potente. A atuação excepcional de Jakob Cedergren é contida, fria e sóbria, precisa nas nuances. “Culpa” mereceria estar entre os finalistas do Oscar pelos predicados relatados, sendo uma pérola do suspense europeu contemporâneo que reserva aos espectadores um final surpreendente, resguardando sua inabalável qualidade.

    Assista ao trailer:

  • ” ‘Infiltrado na Klan’, que deu a Spike Lee, um dos mais engajados e importantes diretores dos Estados Unidos, a sua primeira indicação ao Oscar nesta categoria, é um magnífico filme que esconde por trás de seu humor irresistível uma grave denúncia ao racismo de todas as formas que se perpetua nas mais diversas camadas sociais de seu país. “

    janeiro 22nd, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    Spike Lee, autor de obras emblemáticas, sendo um dos principais e mais engajados diretores norte-americanos, em “Infiltrado na Klan” não foge aos seus sólidos ideais anti-racistas 

    Conferi, no dia 14 de janeiro, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, em uma sessão superlotada, a um dos filmes mais comentados da atual safra cinematográfica, “Infiltrado na Klan” (“BlacKkKansman”, 2018), dirigido por Spike Lee, um dos mais importantes e engajados diretores americanos. Spike Lee, autor de emblemáticas produções, como “Faça a Coisa Certa” (longa que o mostrou ao mundo), “Febre da Selva” e “Malcolm X”, cujos enredos são retratos genuínos da situação do negro norte-americano, dentro de contextos sociais, comportamentais e históricos, não fugiu com “Infiltrado…” aos seus conhecidos e elogiáveis ideais defensores de uma América justa e igualitária, denunciando corajosamente os ranços racistas de caráter ancestral, que infelizmente permanecem fortes até hoje.

    Baseado em uma história real, com ótimo e bem-humorado roteiro coassinado por Spike Lee, o filme traz uma dupla de policiais, interpretados por John David Washington e Adam Driver, que, usando a mesma identidade, numa missão arriscada, infiltra-se em uma seção da Ku Klux Klan 

    Baseado em uma história real de Ron Stallworth, publicada em livro (“Black Klansman”, 1966), com ágil e bem-humorado roteiro de Spike Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel e Kevin Willmott, a trama gira em torno de um jovem negro, Ron Stallworth (o ótimo John David Washington), inteligente e divertido que, ao ingressar, em 1978, em um Departamento de Polícia de Colorado Springs, Colorado, Estados Unidos, acaba se envolvendo em uma arriscada missão, dividindo a identidade com outro policial, o judeu Flip Zimermann (Adam Driver, impecável), cujo objetivo é a infiltração de ambos, de formas diferentes, em uma seção da organização racista Ku Klux Klan.

    A despeito do humor presente em quase todo o filme, “Infiltrado na Klan” é uma obra seríssima, atual, relevante em suas denúncias contra o preconceito racial, incluindo-se o antissemitismo

    O elenco, que conta ainda com Laura Harrier, Ryan Eggold, Topher Grace e Jasper Paakkonen é magnífico. A despeito de sua leveza trazida pelo humor, “Infiltrado na Klan” é um filme seríssimo, de uma importância incontestável, atual, que por debaixo de sua capa de entretenimento, é uma denúncia feroz e poderosa contra o preconceito racial, incluindo-se o antissemitismo, presentes nas mais diversas camadas da sociedade norte-americana.

    Hoje, 22 de janeiro, saiu a tão aguardada lista dos indicados ao Oscar 2019, contemplando “Infiltrado na Klan” em seis categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Trilha Sonora Original (Terence Blanchard), Melhor Ator Coadjuvante (Adam Driver), Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Edição (Barry Alexander Brown).

    Assista ao trailer:

  • “Lars Von Trier volta a causar polêmica e desconforto com o excelente e hiperviolento ‘A Casa Que Jack Construiu”, filme que reúne Matt Dillon e Bruno Ganz.”

    janeiro 21st, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    “A Casa Que Jack Construiu” já é considerado um dos melhores filmes de 2018 

    No dia 5 de janeiro, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, a um dos filmes mais chocantes do polêmico, e um dos mais importantes cineastas da atualidade, o dinamarquês Lars Von Trier, já considerado um dos melhores filmes de 2018, “A Casa Que Jack Construiu” (“The House That Jack Built”).

    Com cenas hiperviolentas, o mais novo longa de Trier traz Matt Dillon como um serial killer com TOC, e Bruno Ganz como o poeta romano Virgílio 

    Antes de discorrer sobre esta obra com roteiro inteligentíssimo, recheado de referências literárias e artísticas que demonstram a vasta cultura de seu diretor/autor, aviso-lhes que há inúmeras cenas de hiperviolência, demasiado fortes e aterrorizantes, mas que se encaixam na proposta de Trier, reverberando sua afamada ousadia estética. O filme, com Vivaldi e Wagner em sua trilha sonora, tem como protagonista o galã dos anos 80 (em ótima forma física) Matt Dillon, como o serial killer com TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo), o que já é uma ironia em si mesma, Jack, naquele que é possivelmente o melhor papel de sua carreira. Narrando para o poeta romano Virgílio (o célebre ator suíço Bruno Ganz), numa sacada genial do longa, sua trajetória de 12 horripilantes anos de crimes, com direito a interpretações filosóficas do segundo, divididos em “incidentes”, o engenheiro Jack, que sonha construir uma casa imaginada por ele, traça, na verdade, o seu inevitável rumo a um Inferno idealizado.

    Com Uma Thurman interpretando uma das vítimas do serial killer, a polêmica obra do cineasta dinamarquês faz um incômodo paralelo entre Arte e horror, não sendo indicado a pessoas sensíveis 

    Com a participação bem-vinda de Uma Thurman, como uma de suas vítimas, “A Casa Que Jack Construiu” se firma também como uma lancinante denúncia contra o fato da arte ser associada, em alguns episódios históricos, ao terror perpetrado pelos líderes mundiais. Um excelente filme, mas não indicado a pessoas sensíveis.

     

    Assista ao trailer (contém cenas de violência explícita):

  • “Premiado no Brasil e no exterior, ‘Tinta Bruta’ é um retrato doloroso e verdadeiro da falta de perspectivas do jovem em nosso país, cercado por largas correntes de preconceito e intolerância de todos os tipos.”

    janeiro 18th, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    “Tinta Bruta”, um dos mais relevantes filmes independentes gaúchos dos últimos anos, estreia no Cine Arte UFF, com direito à debate com a presença de seus diretores e dos atores principais 

    Em 8 de dezembro do ano passado, assisti, no Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de janeiro, a um filme bem interessante, e relevante para os tempos atuais, pertencente à atual cena cinematográfica independente gaúcha, “Tinta Bruta”, dirigido e roteirizado por Filipe Matzembacher e Marcio Reolon. No dia 7, após a exibição de estreia do longa-metragem, houve um debate, no mesmo local, com a participação de Filipe e Marcio, e dos atores Shico Menegat e Bruno Fernandes.

    “Tinta Bruta”, corajosamente e sem ser panfletário, toca em temas importantíssimos e atuais, como o bullying e a homofobia, tornando-se um pujante instrumento artístico denunciatório contra a prática de uma série de preconceitos e intolerâncias

    A produção, que se passa em um centro da cidade nada glamouroso de Porto Alegre, toca, com notável propriedade, em temas contemporâneos delicados, como voyeurismo virtual, bullying, homoafetividade e homofobia, firmando-se assim como uma obra fílmica denunciatória das práticas da intolerância e do preconceito. Sem ser, o que é um grande mérito, panfletário, “Tinta Bruta” conta a história do solitário Pedro (Shico Menegat), um jovem homossexual que ganha a vida fazendo performances sensuais na internet, cujo maior atrativo é o fato de pintar o próprio corpo com tintas coloridas que, sob uma luz especial, ganham aspectos fluorescentes, como o neón (seu nick é Garoto Neon). Pedro, durante a sua via-crúcis numa terra onde a lei é a não aceitação, envolve-se com o bailarino Leo (Bruno Fernandes), enquanto aguarda a sentença de um processo de agressão da qual é acusado.

    Premiado e elogiado no Brasil e mundo afora, “Tinta Bruta” serve como arma legítima contrária ao retrocesso cultural e comportamental que estamos vivendo

    O filme levou importantes prêmios: Melhor Filme Teddy Award Berlim 2018, Grande Prêmio do Festival do Rio 2018, Melhor Filme CICAE Art Cinema Award Berlim 2018, dentre outros, além de ter recebido efusivos elogios do “Exberliner”, “Hollywood Reporter” e “Variety”. Com elenco afinado (e premiado), bela fotografia de Glauco Firpo e desenho de som dançante de Tiago Bello e Marcos Lopes, “Tinta Bruta” é essencial como arma legítima contra o retrocesso cultural/comportamental do país.

     

    Assista ao trailer:

  • “Murilo Benício surpreende o público em sua estreia como cineasta com a sua visão bastante particular e inspirada de um dos maiores clássicos do teatro nacional, ‘O Beijo no Asfalto’, de Nelson Rodrigues.”

    janeiro 16th, 2019

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    Foto: Divulgação do filme

    “O Beijo no Asfalto” tem sessão especial no Cine Arte UFF 

    No dia 29 de novembro de 2018, o Cine Arte UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, teve o privilégio de sediar a pré-estreia especial do primeiro filme dirigido pelo ator Murilo Benício, “O Beijo no Asfalto”, sua versão para um dos maiores clássicos do dramaturgo Nelson Rodrigues (a peça foi publicada em 1960).

    O diretor Murilo Benício esteve presente, e participou de um debate com o público 

    Após a exibição do longa-metragem houve um esclarecedor debate com o próprio Murilo Benício e uma interessada plateia, bastante motivada e feliz com o que acabara de assistir. Fiz duas perguntas ao diretor. Disse-lhe que havia percebido influências e/ou referências em sua narrativa cinematográfica, como uma estética cinemanovista urbana (como as obras de Nelson Pereira dos Santos), além dos recursos de metalinguagem e melodrama. Perguntei-lhe se as mesmas foram intencionais. Murilo, generoso e franco todo o tempo, afirmou que o resultado foi fruto de muitos filmes aos quais assistiu na vida, e que suas imagens ficaram em seu inconsciente. Indaguei-lhe como exerceu a sua função de diretor, sendo que esta demanda uma certa autoridade, e como fora a sua relação com os atores mais experientes, como Fernanda Montenegro, Stênio Garcia e Otávio Müller. O cineasta asseverou que sempre esteve aberto às melhores ideias.

    Fotografia de Walter Carvalho, roteiro do próprio Benício, e elenco com Lázaro Ramos como protagonista 

    O “O Beijo no Asfalto” é uma preciosidade do cinema nacional, fotografada com a elegância em “p & b” do esteta Walter Carvalho (como não nos lembrarmos do cinema noir?), com roteiro brilhantemente estruturado por Benício, tendo em seu excelente elenco nomes, além dos já citados, como Amir Haddad, Lázaro Ramos, Débora Falabella, Augusto Madeira, Marcelo Flores, Luiza Tiso e Arlindo Lopes. A trilha sonora calcada em um suspense crescente, composta com refinamento é de Berna Ceppas. O filme, que estreou oficialmente nos cinemas em 6 de dezembro do ano passado, não só lança Murilo Benício como diretor , como corrobora mais um de seus inegáveis talentos.

    Assista ao trailer:

  • ” ‘Dogville’, espetáculo baseado no ousado filme homônimo de Lars Von Trier, tendo em seu magnífico elenco atores como Fábio Assunção, Mel Lisboa e Selma Egrei, é uma obra com dramaturgia pulsante e estética arrebatadora, levando o espectador à bem-vinda reflexão sobre a inescrutável alma humana”.

    dezembro 3rd, 2018

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    Foto: Ale Catan

    “Dogville”, um dos melhores filmes de Lars Von Trier, cofundador do Movimento Dogma 95, em sua versão para os palcos 

    Em 2003, oito anos depois de ter criado o manifesto conhecido como “Dogma 95”, junto com Thomas Vinterberg (um movimento cinematográfico que pregava, dentre outras coisas, formas mais simples e realistas de se fazer filmes, que atingiam tanto as técnicas industriais e comerciais utilizadas, quanto as temáticas abordadas), o dinamarquês Lars Von Trier lança um de seus mais emblemáticos, originais e contundentes longas-metragens, “Dogville”, protagonizado por Nicole Kidman. Um dos grandes diferenciais desta obra era a adoção de um ambiente absolutamente teatral que servisse para o desenvolvimento de seu entrecho. Em um enorme espaço que simbolizava a cidade que intitula a produção, Lars demarcou em seu chão linhas representativas dos limites de todas as áreas importantes da localidade interiorana dos Estados Unidos. Como era esperado, o filme conquistou público e crítica. Impossível seria não sair impressionado do cinema após a projeção de uma criação tão catártica de Trier. E um desses espectadores foi Felipe Lima, o idealizador da montagem brasileira de “Dogville”, em cartaz no Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, e que depois cumprirá temporada em São Paulo. Felipe se juntou ao diretor Zé Henrique de Paula, e ambos se aventuraram nesta empreitada arriscadíssima de transpor para os palcos um filme potencialmente difícil, complexo, intrincado, mas carregado de uma inteligência estética e textual arrebatadora. Se a versão para a ribalta lograsse êxito, o impacto cênico, e consequente sucesso como realização teatral, estariam garantidos.

    A sábia decisão de se inverter as linguagens na adaptação teatral de “Dogville”

    A questão crucial que torna “Dogville” uma montagem inovadora foi exatamente a decisão sábia de inverter as linguagens, ou seja, se a obra de Lars Von Trier possui um viés teatralizado, o caminho a ser seguido pela peça seria a de se assumir como uma encenação com uma marca, um selo cinematográfico. E ao trilhar esta vereda com recursos fílmicos, o espetáculo estrelado por Fábio Assunção, Mel Lisboa, Selma Egrei, Bianca Byington, Chris Couto, Thalles Cabral e mais dez atores de inegável talento se firma como uma das principais atrações do cenário teatral do eixo Rio-São Paulo. No entanto, “Dogville” não é tão somente uma peça que nos desestabiliza pelo seu encantamento estético/visual, mas sim pela força brutal, cortante e incisiva de sua impecável dramaturgia, brilhantemente traduzida por Davi Tápias. O texto de Von Trier é universal, com pesquisas que passeiam pelas searas filosóficas, sociológicas e antropológicas. Esta mesma universalidade, evidente, aproxima-nos daquele microcosmo tão fictício quanto real que Dogville, a pequena cidade do interior dos Estados Unidos, perto das Montanhas Rochosas, epicentro da trama, representa. Não à toa o espetáculo se inicia com a citação de um pensamento do dramaturgo Harold Pinter feita pela figura do Narrador (Eric Lenate), que discorre acerca do que é verdadeiro ou falso, o que é real e o que é ficção.

    A trama narra a trajetória de uma jovem, Grace, que chega a uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos, é acolhida pelos seus moradores, e que de repente se vê subjugada e explorada pelos próprios, com consequências imprevisíveis  

    A história começa com a chegada de uma suposta fugitiva, Grace (Mel Lisboa), à cidadezinha de Dogville, habitada por pessoas trabalhadoras que vivem da mineração. São cidadãos comuns, de bem, simples, sendo que cada um deles exerce uma atividade em prol do coletivo. Nesta região próxima a outra cidade, Georgetown, o conceito de coletividade é obedecido com absoluta fidelidade. Nesses tempos miseráveis e sombrios pós-Depressão de 29, a jovem, que se supõe, é perseguida por bandidos/gângsteres, em um primeiro momento, é recebida e acolhida por seus moradores, tipos marcantes, distintos entre si. Tom (Rodrigo Caetano), um escritor romântico e sonhador, é quem primeiro a recebe. Tom é filho de um sisudo médico, Thomas (Blota Filho). Chuck, interpretado por Fábio Assunção, é um homem desconfiado, com um caráter inquisidor, quase inflexível. Chuck é casado com uma mulher insegura, Vera (Bianca Byington), mãe de seus filhos, dentre eles um bebê, e o garoto Jason (Dudu Ejchel). Há uma senhora que gosta de cuidar de pés de groselha, Ma Ginger (Selma Egrei). Um rapaz, Jack MacKay (Munir Pedrosa), que sofre de cegueira. Um moço bem jovem, Bill Henson (Thalles Cabral), com personalidade ansiosa. Marcelo Villas Boas vive o embriagado Ben. Chris Couto personifica a severa Sra. Henson. Já Fernanda Thurann encarna uma moça que vive sendo assediada pelos rapazes. Compõem o grupo de moradores que parecem carregar todos em seu íntimo doses latentes de amargura as atrizes Anna Toledo (Martha) e Fernanda Couto (Glória) e o ator Gustavo Trestini (Sr. Henson). A permanência e guarida de Grace dependem de seus serviços prestados à comunidade. Serviços comuns, tarefas domésticas do dia a dia. Aos poucos, com as notícias (verdadeiras ou falsas?) vindas de fora acerca da identidade de Grace e de seus atos, o comportamento dos pacatos e até então inofensivos cidadãos se transforma em níveis ascendentes reveladores de suas faces mais obscuras. Se antes a relação dessas pessoas com a moça forasteira se baseava em uma certa justiça e adequação, agora os elos de ligação entre aquelas e a jovem são regidos pela bestialidade, pela intolerância, pelo pré-julgamento, pelo preconceito e pela desumanidade. A tensão dessas mesmas relações dentro de um microcosmo social como Dogville desencadeia um processo assustador de deterioração dos valores éticos e morais dos indivíduos, levando as suas histórias pessoais a um desfecho pautado pela imprevisibilidade.

    A associação vitoriosa do texto pujante de Lars Von Trier com a direção inteligente e sensível de Zé Henrique de Paula 

    O texto de Lars Von Trier é estruturado em cima de um arco narrativo que privilegia os diálogos dos personagens, mostrando, com a passagem dos períodos temporais, as alterações de tons e intenções daqueles quando direcionados à interlocutora principal (Grace). Trier costura sem azáfama uma linha de desenvolvimento de ações que respeita o momento certo em que as causalidades que provocam as mudanças comportamentais de seus tipos surgem, oferecendo ao público camadas de drama, suspense e horror (associado a violências físicas e morais). A capacidade que o autor/cineasta possui em construir figuras humanas que se encaixam em uma normalidade linear, cuja estabilidade pode ser despedaçada com um “simples apertar de gatilho” é no mínimo perturbadora. A direção de Zé Henrique de Paula consegue com o seu sensível olhar e inteligência cênica resgatar bravamente a noção dos grandes espetáculos, na melhor das acepções, ou seja, aqueles que reúnem um numeroso elenco, associado a uma estética deslumbrante e a um sólido e consistente conteúdo. Zé Henrique, com proeza, tendo ao seu dispor 16 atores, atinge um patamar de mestria ao fazê-los ocupar com sentido a maior parte do perímetro teatral, além de lhes pedir que, na maioria das vezes, não deixem de executar movimentos que sejam coerentes com os perfis de seus papéis. Todo este aparato disponível é organizado de modo harmônico, por mais árduo que isto possa parecer. O conjunto cênico/textual/interpretativo de “Dogville” é irrepreensível. Utilizando-se de inebriantes projeções visuais em dois planos, algumas com interações muito bem pensadas, o diretor monta com engenhosidade, tendo à mão sedutores recursos, esta peça que laça a atenção de sua plateia em suas quase duas horas de duração, o tempo necessário e justo para a realização da arquitetura da encenação. Outro instrumento usado por Zé Henrique, e que serve eficientemente ao espetáculo, dando-lhe maior compreensão, é a sua divisão em capítulos com títulos, que demarca com precisão as passagens relevantes do texto.

    Um elenco irrepreensível que confere credibilidade indispensável aos tipos humanos complexos retratados   

    O elenco, a despeito de seu número elevado (o que poderia ser um problema no momento das avaliações), é extraordinariamente talentoso. Todos sem exceção estão imbuídos da essência da alma de seus personagens. Cabe lembrar que a preparação dos atores ficou a cargo de Inês Aranha. Mel Lisboa, como Grace, segura com firmeza a sua ambiguidade. Eric Lenate constrói um Narrador persuasivo. Fábio Assunção imprime com clareza a inflexibilidade desgostosa de Chuck. Selma Egrei, como Ma Ginger, transita com enorme distinção entre a doçura e a aspereza. Bianca Byington representa com convicção a fragilidade emocional de Vera. Rodrigo Caetano desenha com expansividade o espectro romântico/sonhador do escritor Tom. Marcelo Villas Boas manifesta com confiança a exaltação embriagada do transportador de cargas Ben. Fernanda Thurann exibe os trejeitos melindrados de Liz. Thalles Cabral, com voz composta, ostenta a exasperação do jovem Bill. Chris Couto, como a Sra. Henson, mostra as filigranas da severidade da Sra. Henson. Blota Filho, como o médico Thomas, encontra o direcionamento certeiro da rudeza de seu papel. Munir Pedrosa, como Jack MacKay, revela o sofrimento incontido do rapaz vítima de cegueira. Dudu Ejchel nos convence com a dissimulação de Jason. Anna Toledo, como Martha, Gustavo Trestini, como o Sr. Henson, e Fernanda Couto, como Glória, exprimem desenvoltura na apresentação de seus tipos dentro do contexto em que estão inseridos.

    Cenário que se alimenta da crueza e do arrojo, e iluminação que nos transporta para o universo estranho e sombrio da pequena cidade 

    Bruno Anselmo executou um ótimo trabalho cenográfico. Se por um lado, Bruno adotou a economicidade de mais de uma dezena de cadeiras distribuídas pelo palco vazio, e que atendem aos mais diversos apelos da narrativa, por outro assumiu com sublime eficiência a espetacularização das eloquentes, belas e informativas projeções visuais, com direito a ousadas interatividades (aí se encontra o elemento cinematográfico da montagem), elaboradas com notável criatividade, tendo como diretor audiovisual Laerte Késsimos e como criador do vídeo mapping o VJ Alexandre Gonzalez. O cenógrafo se utilizou, além de vários objetos de lida enfileirados no fundo do palco, como baldes e regadores, de uma sacada metálica bastante funcional, cujo acesso dos atores é feito por uma escada à vista. Este recurso faz com que a peça tenha, claro, dois planos de ação, igualmente importantes. As projeções são feitas em dois grandes painéis minimamente vazados que se movimentam à mercê das solicitações dramatúrgicas. Fran Barros apostou em uma iluminação delicada, tênue, elegante, sem extravagâncias ou efeitos mirabolantes dispensáveis. A impressão que nos é passada pela luz de Fran é a de houve o propósito de, com seus focos indiretos e laterais (sem preterir os frontais), valorizar o universo ficcional e misterioso daquela cidade, realçando de certo modo a estranheza de seus habitantes. Para isso, o iluminador não se eximiu em explorar as sombras, as meias-luzes e as tonalidades levemente amareladas e azuladas. O fundo da ribalta e a sacada são vez ou outra objetos de sua inspirada iluminação.

    Figurinos estudados com primor e trilha sonora original envolvente 

    Os figurinos de João Pimenta são exponencialmente caprichados em seus detalhes e congruentes com o período, o local e a situação sócio/econômica vigente. João, conceituado estilista, esmerou-se ao máximo em agregar aos personagens por meio de suas vestimentas as características natas daqueles moradores e da forasteira Grace. A visualização cênica dos figurinos soa potente, vistosa e harmônica. Os intérpretes são trajados com uma rica gama de capas, sobretudos, casacos, macacões, aventais, lenços e boots. Procurou-se uma aproximação, e o resultado é gratificante, com o mundo particular dos mineradores de Dogville, em que a miserabilidade está sempre à espreita. Os tecidos em tons crus e sóbrios, como o cinza (e tonalidades em azul e lilás) são lavados, desbotados e manchados. Já Grace se diferencia por sua natureza, usando calça e blusa em cores mostarda e bordeaux, respectivamente. A trilha sonora original, composta por Fernanda Maia, evidencia com absoluta e inquestionável proficiência o entrosamento, a sintonia fina entre o som melódico e o desenho narrativo/dramatúrgico da peça. A trilha funciona com elevado padrão como instrumento de caráter colaborativo no entendimento facilitado da engrenagem do enredo.

    Por que “Dogville” merece o olhar do público

    “Dogville” é um espetáculo que naturalmente se insere em um quadro honorífico de montagens teatrais que merecem o seu atento e terno olhar, por toda a coragem e responsabilidade cênicas imbuídas em sua realização. Os temas abordados possuem conexão direta com a contemporaneidade e os aspectos deteriorados de sociedades em processo de falência ética, não importando a sua dimensão. Há, infelizmente, uma Dogville, e seu cão Moisés com latido não menos sofrido, no íntimo de quase todos nós. O mundo deveria aprender muito mais com os cães. Seus latidos são mais honestos e humanos.

  • “Retomando um dos gêneros que o consagrou, reunindo pela primeira vez dois grandes atores como Lilia Cabral e Tony Ramos em papéis de vilões, ao lado de um elenco de altíssima qualidade, Aguinaldo Silva, com ‘O Sétimo Guardião’, faz uma estreia irretocável de sua nova novela das 21h, tendo como par romântico principal Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa.”

    novembro 15th, 2018

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    Foto: João Cota/TV Globo

    O bem-vindo retorno de Aguinaldo Silva ao realismo fantástico, gênero que o consagrou 

    Depois de uma trama com elementos realistas no horário nobre da Rede Globo (“Segundo Sol”, de João Emanuel Carneiro), Aguinaldo Silva, um dos mais respeitados e consagrados teledramaturgos do país, resolveu retomar um gênero que lhe é bastante caro, o realismo fantástico (visto nas obras literárias de Gabriel García Marquez e cinematográficas de Luis Buñuel), em sua nova história para a faixa das 21h, “O Sétimo Guardião”. Aguinaldo não se celebrizou somente com este gênero, associado a novelas como “Pedra sobre Pedra”, “Fera Ferida” e “A Indomada” (no ar no canal Viva), haja vista que grandes e indiscutíveis sucessos da televisão, que fugiam deste viés, tiveram a sua assinatura ou coassinatura, como “Império” (reconhecida com o Emmy Internacional) e “Vale Tudo” (também reprisado no Viva, este marco da TV foi coescrito por Gilberto Braga e Leonor Bassères), respectivamente.

    Um casamento desfeito em cima da hora, a guerra declarada dos vilões, um gato misterioso e onipresente, e guardiões que mantêm um segredo sobre a maior riqueza da Humanidade 

    O autor, nascido em Carpina, Pernambuco, reeditando a parceria exitosa com Rogério Gomes, diretor artístico (“Império”), transferiu os acontecimentos do seu enredo para a fictícia cidade, situada em meio a um vale, sem qualquer sinal de internet, de Serro Azul. Esta localidade é vizinha de outras regiões conhecidas pelo público de alguns folhetins de Aguinaldo, como Tubiacanga (“Fera Ferida”) e Greenville (“A Indomada”). Mas, em seu primeiro capítulo, a sinopse se inicia em São Paulo, na sofisticada e moderna mansão de Valentina Marsalla (Lilia Cabral, atriz que esteve presente em muitas telenovelas do escritor), nos momentos que antecedem o casamento de seu filho Gabriel (Bruno Gagliasso) e Laura (Yanna Lavigne), filha do poderoso empresário Olavo (Tony Ramos). O enlace, a despeito dos jovens se gostarem, faz parte de um vultoso acordo financeiro firmado entre os pais dos nubentes. Deste acordo depende a sobrevivência dos negócios de Valentina. Ansiosa, trajando um belo vestido vermelho, destratando a sua secretária Louise (Fernanda de Freitas), a prepotente mulher se comunica com o seu filho, que já está a caminho. No trânsito caótico da metrópole paulistana, Gabriel se depara com o enigmático gato León. Horas antes, acompanhamos Padre Ramiro (Ailton Graça) indo de bicicleta a Serro Azul. Em sua trilha, encontra o onipresente felino. Já na cidade, conhecemos um rapaz rebelde e folgazão, Júnior (José Loreto). Júnior e León, o gato, estranham-se. León, visto também pelo índio mendigo Feliciano (Leopoldo Pacheco; Feliciano se disfarça de morador de rua), pertence a Egídio, Antonio Calloni. O gato, na verdade, segundo Judith (Isabela Garcia), sua empregada, sumiu. Ficamos sabendo pelo próprio Egídio que León não lhe pertence, não é um gato, e que não pode desaparecer. O sumiço do animal significa que fora atrás de alguém para substituí-lo em uma importante função. O personagem de Calloni, um guardião-mor, percorre um salão, o “Salão dos Retratos”, onde estão as pinturas dos homens que o antecederam no cargo (são rostos de nomes notórios da televisão, como Carlos Manga, Gonzaga Blota, Herval Rossano, Roberto Talma e Roberto Farias, numa bonita homenagem). Aparece em cena o severo Prefeito de Serro Azul, Eurico, papel de Dan Stulbach (um dos guardiões, junto com Feliciano). O prefeito insinua que se o gato sumiu isso indica que Egídio está para morrer. Mais duas guardiãs se encontram: a esotérica Milu, Zezé Polessa, e a dona de uma pousada/cabaré Ondina, Ana Beatriz Nogueira. Um homem estranho, Robério (Heitor Martinez), observa a dupla e outros guardiões, como o delegado Joubert (Milhem Cortaz; a autoridade policial possui uma suspeita relação com peças íntimas femininas) e o médico José Aranha (Paulo Rocha), caminhando em direção a uma reunião. Após opiniões de lado a lado, Milu avisa aos seus companheiros de irmandade que, segundo a sua coruja empalhada Minerva, o sétimo guardião não será nenhum deles, e sim um forasteiro. Voltando à mansão dos Marsalla, Gabriel, depois de falar com a sua mãe, sempre em um tom tenso, dirige-se ao seu banheiro para tomar banho. Do box, avista León mais uma vez (impressionante a troca de olhares entre ambos). Em seguida, descobre-o no fundo de uma de suas fotos com Laura. Múltiplas imagens desconexas se misturam à sua frente em uma perturbadora visão, fazendo com que se decida a não se casar, e cumprir o seu destino. Mesmo diante do desespero e ira de sua mãe, vai embora. Ela ordena a Sampaio, Marcello Novaes (bom rever esta dupla, no ar em “Vale Tudo”), uma espécie de capanga, a trazê-lo de qualquer jeito, ainda que “morto”. Olavo chega, e interpela Sampaio sobre a ausência de Gabriel. Em uma das melhores cenas da noite, Lilia Cabral e Tony Ramos travam um embate memorável. Ali, naquele instante, ficou selada a guerra declarada do casal (num lance bem sacado da direção, após as ameaças coléricas de Olavo, recebidas com silêncio devastador de Valentina, Tony caminha em “slow motion” em direção à câmera, enquanto a imagem de Lilia fica desfocada). Ao saber de toda a verdade, Laura resolve viajar. Em Serro Azul, surgem outros personagens, como o comerciante Nicolau (Marcelo Serrado), um sujeito grosseirão e divertido que tenta a todo o custo ter mais um filho (para ser um jogador de futebol) com a sua esposa Afrodite (Carolina Dieckmann); Bebeto, Eduardo Speroni, único homem de seus quatro filhos, que adora dançar, para o desgosto de seu pai; e Marilda (Letícia Spiller, com um sotaque particular), a primeira-dama da cidade que guarda um segredo quanto à sua juventude (Marilda é irmã de Marlene/Valentina, que a despreza, e mãe de Júnior). Marina Ruy Barbosa é a professora Luz, moça com poderes sobrenaturais, por quem Júnior é apaixonado. Tem como melhor amiga Elisa (Giullia Buscacio). Bruna Linzmeyer interpreta Lourdes Maria, uma jovem ambiciosa que será a principal rival de Luz (Lourdes se interessa pelo personagem de José Loreto, que não lhe dá a mínima). Larissa Ayres encarna Diana, uma das filhas de Nicolau (mais uma decepção para esse pai que sempre quis um menino para ser um craque dos gramados). Adriana Lessa defende a dona de um salão de beleza, Clotilde, amiga de Marilda. Uma revelação desconcertante é feita: Egídio abandonou Marlene/Valentina anos atrás no altar, em Serro Azul, sendo talvez este o motivo que a tenha deixado tão amarga e infeliz (em cenas de flashback, a atriz Giulia Figueiredo personifica a noiva abandonada aos prantos). O que houve de fato é que Egídio recebeu um chamado do gato León (um enorme mistério o envolve) para ser o guardião-mor do segredo da fonte da gruta da cidade, tendo que abrir mão de toda a sua vida. Lucci Ferreira representa o radialista Patrício Nasser. Houve passagens de “gore movie”, subgênero dos filmes de terror, no primeiro capítulo: após uma conversa com o seu avô zeloso, Sóstenes, Marcos Caruso, a bela Luz vê a sua xícara tremer, e sair de seu interior uma mão assustadora. Caio Blat vive Geandro, o filho mais velho do prefeito e de Marilda, que está num processo de reabilitação de sua dependência das drogas. No casarão em que deve ficar o guardião-mor, Egídio abre uma porta, e chega ao esconderijo que vigiou por tanto tempo, a fonte em cujo fundo de suas águas se encontra a maior riqueza da Humanidade. Lá, encontra o gato León, e a impressão que temos é a de que as suas palavras para o felino foram derradeiras (vale ressaltar a excelente cena com Antonio Calloni, e a beleza deslumbrante do lugar com suas águas azuis hipnotizantes, com um trabalho primoroso de fotografia e cenografia). Enquanto isso, ocorre uma perseguição implacável de carros envolvendo Gabriel e Sampaio, até que o carro do primeiro, em uma sequência de takes cinematográficos, despenca de uma ribanceira. Luz, em seu quarto, passa a ter visões aterrorizantes, como a do rapaz ensanguentado escorado na guarda de sua cama lhe pedindo para que o salve. Sabendo da existência da maior riqueza do mundo em Serro Azul, e certo que Gabriel está morto, Sampaio revela sua imensa crueldade e ganância ao enterrar o jovem em uma cova rasa (uma cena digna dos mais sombrios filmes de horror). O que Sampaio não sabe é que Luz fora avisada por León sobre algo errado que está acontecendo, e que a moça se encaminha para o local, sem saber verdadeiramente o que houve (a aparição de Luz trajada de branco nos remeteu às lendárias e fantasmagóricas mulheres que andam sós pelas estradas, e assustam os motoristas). Sempre em dúvida se está sonhando ou acordada, Luz vê a mão de Gabriel emergir da terra, sob as vistas do gato. Ao vê-la se mexer, socorre o rapaz, que ao acordar, pergunta-lhe: – Você é um anjo? E finaliza: – Eu tô no céu.

    O equilíbrio alcançado por Aguinaldo Silva com os múltiplos elementos de um folhetim, e a direção arrojada que traduz com excelência as intenções do autor  

    Aguinaldo Silva, com a colaboração de Joana Jorge, Mauricio Gyboski e Zé Dassilva (a sinopse foi desenvolvida pelo autor com os seus alunos do curso Master Class) engendrou uma história com elevado potencial de entreter e prender a atenção dos telespectadores. O equilíbrio minuciosamente calculado em suas tramas e subtramas entre os elementos de fantasia e misticismo, doses de horror, suspense, romance, humor e ação confere à novela atual qualidades incontestes, confirmando a relevância deste produto teledramatúrgico. A retomada, por parte de Aguinaldo, de um dos gêneros que o consagrou (o realismo fantástico), e que estava em falta na TV, não só refresca a linguagem televisiva deste horário, como serve de estímulo àqueles que se cansaram de assistir a entrechos exclusivamente urbanos com tintas demasiado reais.  A direção artística de Rogério Gomes e geral de Allan Fiterman, e a direção de Luciana de Oliveira, Fabio Strazzer, Davi Lacerda, Guto Arruda Botelho, Pedro Brenelli e Caio Campos expuseram ampla excelência neste primeiro episódio, no qual se perceberam fluidez das cenas, tomadas ousadas que aproveitaram as locações internas (como as mansões de Valentina e Olavo), e externas, como o casarão dos guardiões, belas panorâmicas, takes áereos, cortes rápidos e sobreposição dinâmica e veloz das imagens. Não podemos deixar de mencionar as ótimas cenas das quais fez parte o gato León (são na verdade três “gatos”, um real da raça americana bombaim, que se assemelha a uma minipantera, outro “animatronic”, um gato mecanizado, e outro criado por computação gráfica).

    Um elenco espetacular que marca o primeiro encontro real de Lilia Cabral e Tony Ramos em novelas 

    O elenco de “O Sétimo Guardião” prima pela diversificação de talentos. Lilia Cabral e Tony Ramos, contracenando incrivelmente pela primeira vez, arrebataram-nos com a sua promissora dupla de vilões (por sinal, também é a primeira vez que Tony faz uma novela de Aguinaldo com um personagem). Bruno Gagliasso e Marina Ruy Barbosa formarão um par romântico que, ao que parece, irá movimentar as torcidas nas redes sociais. Os intérpretes que defendem os guardiões são artistas dignos de merecidos elogios, como Antonio Calloni, Ana Beatriz Nogueira, Zezé Polessa, Dan Stulbach, Leopoldo Pacheco, Milhem Cortaz e Paulo Rocha. Há também os ótimos atores que voltaram a trabalhar com o autor, como Letícia Spiller, Marcello Novaes, Marcelo Serrado, Carolina Dieckmann, Caio Blat, Ailton Graça, Heitor Martinez, Adriana Lessa e Lucci Ferreira. Atores de outras gerações deram a sua valiosa contribuição, como José Loreto, Bruna Linzmeyer, Fernanda de Freitas, Yanna Lavigne, Giullia Buscacio, Eduardo Speroni e Larissa Ayres. E para completar, as presenças ilustres de atores como Marcos Caruso e Isabela Garcia.

    Elogiáveis abertura, direção de fotografia, figurinos, produção de arte e trilha sonora com Fleetwood Mac 

    A bonita e vertiginosa abertura coube a Alexandre Romano, Christiano Calvet, Daniel Tumati e Caramurú Baumgartner. Com efeitos de computação gráfica e animação, calcada em imagens caleidoscópicas, com o colorido que lhe é inerente, a abertura começa com o abrir estilizado dos olhos do gato/personagem. Em seguida, a câmera nervosa faz movimentos rápidos e acrobáticos pela cidade grande (São Paulo) e por Serro Azul. Lugares emblemáticos da região fictícia, como a gruta, a igreja e a pousada são retratados, sendo que em alguns deles objetos característicos são aumentados de modo irreal. O ritmo da abertura segue com fidelidade aos acordes da maravilhosa música “The Chain”, do grupo anglo-americano Fleetwood Mac. A caprichada direção de fotografia ficou a cargo de Sergio Tortori. A figurinista Natalia Duran Stepanenko cumpriu com esmero e coerência a sua missão. Mirica Vianna realizou uma impecável produção de arte. Com a gerência musical de Marcel Klemm e as músicas originais de Rodolpho Rebuzzi e Rafael Langoni, a produção ganhou em qualidade (a trilha original desenhou com perfeição as cenas). Canções como “Melatonin” (Phoria), “These Boots Are Made For Walkin’” (Lewonda), “Truth” (Alexander Bert), e “Pra Swingar” (Som Nosso de Cada Dia) nos embalaram, e nos fizeram “sentir” com muito mais prazer a história.

    A quem caberá o papel do oitavo guardião? 

    “O Sétimo Guardião” estreou com a força necessária para nos transportar para um mundo mágico, livrando-nos um pouco da dura realidade que nos cerca, sem no entanto abrir mão das peças que montam o quebra-cabeças de um verdadeiro folhetim. Uma trama instigante e bem urdida, personagens atraentes interpretados por um elenco de primeira, e uma direção competentíssima que sabe traduzir em fascinantes imagens a riqueza de uma boa ficção nos garantem a diversão de se assistir à nova obra de Aguinaldo Silva. Enquanto Léon sai em busca do “Sétimo Guardião”, nós, o público, já somos o oitavo. Afinal, sabemos guardar na memória o segredo de uma ótima novela.

  • “Com direção sofisticada de Amora Mautner, um dos episódios mais aterradores da história da medicina brasileira é contado em ‘Assédio’, de Maria Camargo, a nova série da Rede Globo exibida pela plataforma de streaming Globoplay, tendo em seu elenco Antonio Calloni como o famoso e até então respeitado médico que destruiu a vida de dezenas de mulheres. “

    setembro 25th, 2018

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    Foto: Ramón Vasconcelos/TV Globo

    O caso que aterrou o país, sua adaptação literária, e o retorno de Maria Camargo à dramaturgia da Rede Globo

    A nova série da Rede Globo, disponível na plataforma de streaming Globoplay, estreou na última sexta-feira, marcando a volta da autora Maria Camargo, após “Dois Irmãos”, em 2017, à dramaturgia da emissora. Com “Dois Irmãos”, de Milton Hatoum, ficou-nos bastante evidente a destreza com que Maria logra adaptar obras literárias para o segmento audiovisual. Desta vez, a escritora, ao lado de Bianca Ramoneda, Fernando Rebello e Pedro de Barros, valeu-se de um dos casos mais assombrosos da história da medicina brasileira, narrado no livro “A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih”, de Vicente Vilardaga, para contar aos espectadores, com os ingredientes de livre inspiração cabíveis, os fatos que culminaram na execração pública e condenação criminal de um dos profissionais da área de reprodução assistida mais respeitados no país. A partir de 2009, a imprensa iniciou um processo de revelação dos crimes seriados cometidos pelo médico paulista por meio da denúncia de dezenas de pacientes que deixaram para trás o medo e a vergonha, e resolveram trazer à baila as violências que sofreram. Roger Abdelmassih foi condenado a 278 anos de prisão por 52 estupros e 4 tentativas de estupro contra 52 mulheres.

    A história de um casal que quer apenas ter um filho, cuja mulher vê o seu mundo desmoronar de uma hora para a outra 

    No primeiro episódio “Stela”, protagonizado por Adriana Esteves, testemunhamos o angustiante périplo da professora e de seu marido, o piloto Homero (Leonardo Netto), no ano de 1994, ao consultório do simpático, educado e sedutor Dr. Roger Sadala (Antonio Calloni) que, muito habilmente, e se utilizando de frases de cunho religioso, como “Eu só sou um instrumento Dele (Deus)”, convence-os e lhes dá a esperança de ter um filho ou mais, depois de tantas tentativas frustradas, ou seja, promete-lhes o que realmente querem ouvir. Como recurso dramatúrgico, Maria dividiu a narrativa em dois tempos, o antes e o depois de o médico ser denunciado por suas práticas delituosas. Em 2007, vimos Dr. Sadala, ou Dr. Vida (como ficara conhecido por suas proezas médicas), discursando em uma festa comemorativa, a “Festa da Fertilidade”, pelos 30 anos de sucesso da reprodução assistida no mundo. Lá estava a sua família, como a esposa adoentada e melancólica Glória (Mariana Lima), sua mãe que o bajula sempre que possível Olímpia (Juliana Carneiro da Cunha, como atriz convidada), e seus filhos Clarice (Silvia Lourenço), Henrique (Gabriel Muglia), também médico, Tamires (Bianca Müller) e Leila (Sabrina Greve). Assim como conhecemos a jornalista Mira, Elisa Volpatto, dedicada ao desmascaramento do médico já alvo de denúncias, e Pedro Henrique (Pedro Nercessian), responsável ferrenho pela manutenção da boa imagem de Roger. Somos informados sobre as desconfianças de Glória quanto à fidelidade de seu marido (nada que um bonito anel de presente não resolva), enquanto Stela sonha com a sua tão aguardada gravidez. Nos exames em sua paciente, percebemos o quanto o médico é carinhoso e solícito. Um médico que ao se despedir não dispensa um beijo no rosto. As cenas em torno da reprodução dos óvulos de Stela são cercadas de imensa expectativa. Na confortável casa de Roger Sadala são vistos muitos objetos religiosos. A religiosidade exacerbada está clara na personalidade do médico, que não economiza a quantidade de vezes em que emite a palavra “fé”. Num jantar em família dos Sadala, a autoridade do patriarca é nítida, e sua agressividade ao ser contestado, mesmo que seja com um gracejo, também. Retornando à festa comemorativa, notamos as trocas de olhares insinuantes entre Roger e uma de suas pacientes, a linda advogada Carolina (Paolla Oliveira). Mira fica atenta a todos os passos do médico, da mesma forma observado pela secretária Daiane (Jéssica Ellen), a mando de Glória. Uma pessoa não esperada se aproxima da festa. Esta pessoa é Stela, uma mulher desnorteada, que ao se ver diante de seu algoz desfalece. De volta ao ano de 1994, Stela, já no hospital, é sedada para que sejam realizados os procedimentos clínicos da fertilização. No quarto vazio e desolador, completamente inerte, a professora que apenas queria realizar o sonho de ser mãe é vilipendiada pelas mãos grossas do médico a quem entregara a sua confiança. Numa cena dirigida com extremo cuidado e prudência, mas nem por isso menos impactante, Stela é estuprada pelo Dr. Roger Sadala. Não só o seu sonho de ser mãe acabou. Tudo acabou. Segundo ela mesma diz em depoimento gravado, estratégia adotada pela direção logo nos primeiros e últimos minutos do episódio: “Perdi tudo”.

    Amora Mautner lidera a direção sofisticada e elegante, apesar da aridez e peso dramático do texto 

    A direção artística de Amora Mautner (com direção da própria com Joana Jabace e Guto Botelho, e geral de Joana) se coloca em um patamar de excelência, primor e bom acabamento indiscutível. A câmera explora takes que possam sair do lugar comum, com tomadas vistas de cima e de baixo, focos em objetos, e registros espertos de movimentações de personagens. Houve grande domínio no que se refere às passagens alternadas de tempo, obedecendo a não linearidade imposta pelo texto. A direção, a despeito de um assunto tão espinhoso, conseguiu imprimir elegância e sofisticação às cenas. Uma das sacadas da série que merece a nossa observação acurada são os depoimentos gravados em vídeo das vítimas, que ofertam à produção ares de documentário (Roger Sadala também fala para a câmera, mas em outro contexto).

    Num elenco com Antonio Calloni, Adriana Esteves e Mariana Lima, todos se destacam 

    O elenco está afiadíssimo, plenamente investido na atmosfera sufocante e tensa desta trama que carrega em si mesma um apelo dramático nato. Antonio Calloni, um ator com reconhecidas qualidades, desponta mais uma vez com este papel difícil para qualquer intérprete. Antonio compõe Roger com fineza, carisma e força, não deixando de lado uma faceta ameaçadora intrínseca ao seu caráter criminoso. Com toda a certeza, este deverá ser um dos melhores trabalhos deste artista tão admirado pelo seu talento e versatilidade. Adriana Esteves, uma atriz lembrada por suas notórias vilãs, sendo também ótima em comédias, mostra-nos com imensurável verdade a fragilidade e a insegurança de uma mulher que não pode ter filhos, a sua incontida vontade de realizar o seu sonho, e depois nos comove com a sua dor irreparável após tanta violência contra a sua dignidade. Mariana Lima, que vem de uma excelente performance na supersérie “Os Dias Eram Assim”, revela-nos um certo estoicismo, uma acomodação diante dos reveses sofridos, como a doença que a abate e o casamento infeliz com o seu adúltero e tirano marido. A Glória de Mariana se mantém empertigada, mesmo que o seu rosto nos transmita profunda tristeza. Leonardo Netto cumpre com louvor o papel do marido resignado, mas disposto a oferecer à sua esposa o desejo que ela mais cultiva. A sua desesperança depois de tantos infortúnios, como dívidas e interrupções de gravidez de Stela, é sugerida pelo seu olhar perdido e incrédulo. O capítulo, contou, enfim, com estrelas como Vera Fischer, Juliana Carneiro da Cunha e Paolla Oliveira, atrizes conceituadas do cinema, como Denise Weinberg e Sabrina Greve, e outros talentos de gerações diferentes, como Noemi Marinho, Elisa Volpatto, Pedro Nercessian, Jéssica Ellen, Silvia Lourenço, Bianca Müller e Gabriel Muglia.

    Direção de fotografia com texturas cinematográficas, direção e produção de arte, além dos cenários, reconhecidamente competentes, figurinos em consonância com os personagens, edição eficiente e abertura que valoriza a forma feminina como vítima 

    A direção de fotografia de Marcello Trotta nos remete a uma textura cinematográfica com tons levemente esverdeados que se aproximam de um cenário hospitalar. Mesmo fora deste universo, Marcello procurou filtros mais sóbrios, sem exageros, o que, certamente, conferiu uma crueza necessária à obra, além de sombras e luzes artificiais da cena. O resultado é coerente, realista e fiel à abordagem da produção. Os competentes trabalhos de direção de arte, cenografia e produção de arte couberam, respectivamente, a Valdy Lopes, Renata Rugai e Avelino Los Reis, e Camila Galhardo. Do mesmo modo que o figurinista Cassio Brasil vestiu com absoluta propriedade os personagens, independente de suas condições sociais. A edição de Vicente Kubrusly, Leo Domingues e Pablo Ribeiro é a consequência de uma parceria eficiente que soube lidar, usando-se uma dinâmica exigível, com uma narrativa segmentada em dois períodos, de maneira que o público não se confundisse com o desenrolar do entrecho. Marcel Klemm (gerência musical) e Eduardo Queiroz (música original) pontuaram com vultoso acerto os desenhos melódicos das cenas, acatando os climas das situações dramáticas. A abertura de Alexandre Romano e Valericka Rizzo nos introduz, com o requinte e a plasticidade de suas imagens em velocidade lenta, a um mundo feminino, através das formas, posições e situações angustiantes e solitárias materializadas em seus corpos, desrespeitados e usurpados pela violência física e moral irreparáveis perpetradas por um homem insuspeito, ao som da triste e bonita canção natalina “Silent Night”, na voz inacreditável de Loro Bardot (a música, traduzida para o português como “Noite Feliz”, foi composta por Franz Gruber e Joseph Mohr; provavelmente esta canção foi escolhida pelo contraponto pureza X violência).

    A relevância de “Assédio” ser exibida nos momentos sombrios em que vivemos 

    “Assédio”, em seu primeiro episódio, provou-nos e nos promete ser mais um produto dramatúrgico de irrestrita qualidade e apuro, seja em termos narrativos, seja na perspicaz direção, ou na escalação perfeita de seu elenco, que ainda trará nomes como Felipe Camargo, João Miguel, Hermila Guedes, Susana Ribeiro e Monica Iozzi. “Assédio” é uma história que tem a obrigação de ser contada e esmiuçada, para os que já a conhecem e os que não. A sua coincidente apresentação em uma época delicada e assustadora em que se incita o ódio contra as minorias, inclusive as mulheres, que mais uma vez se uniram nas redes sociais como sinal vital de defesa, é mais do que apropriada e urgente. Esta série não deveria se restringir tão somente a um canal de streaming, e sim veiculada abertamente para toda uma nação, a fim de que possamos esclarecer pelo menos algumas mentes obscurecidas por supostas verdades morais. Basta de assédio. Basta de assédio de todos os tipos. Que o único assédio que sobreviva seja aquele baseado única e exclusivamente no amor. Mas no mundo distópico em que vivemos isso não passa de uma quimera.

     

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