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Blog do Paulo Ruch

  • “Lázaro Ramos e Taís Araújo celebram o amor e a igualdade entre os homens, por meio de um episódio na vida de um dos maiores líderes mundiais em defesa dos direitos civis dos negros, Martin Luther King Jr., em ‘O Topo da Montanha’, de Katori Hall, um espetáculo comovente, intenso e lindamente poético, sem preterir a leveza do humor”.

    maio 2nd, 2018

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    Foto: Juliana Hilal

    A montagem de um texto necessário e extremamente atual 

    Há cinquenta anos, no dia 4 de abril de 1968, um dos maiores e mais importantes líderes do movimento em defesa dos direitos civis dos negros, o americano nascido em Atlanta Martin Luther King Jr., era assassinado na sacada do hotel Lorraine, em Memphis, estado do Tennessee. Em 9 de outubro de 2015, um dos casais de artistas mais populares do país, admirados não só pelo seu inquestionável talento, mas pelas ideias que preconizam, seus posicionamentos sociais e artísticos, seu engajamento em causas coletivas, sua representatividade nas Artes e na sociedade como um todo, Lázaro Ramos e Taís Araújo, estreavam em São Paulo o espetáculo “O Topo da Montanha”, da jovem dramaturga Katori Hall, também americana. A encenação que se passa no quarto do hotel citado na noite anterior à morte criminosa do líder ganhador do Nobel da Paz (1964) carrega em si mesma uma fonte inesgotável de símbolos e significados que a fazem ser associada a um ato público cênico da mais alta relevância. Sua montagem se revela como uma pujante resposta aos tempos de intolerância generalizada em que vivemos, potencializados pela globalização virtual, em que vozes de ódio contra as diferenças, muitas vezes acobertadas pelo anonimato covarde, ocupam seus lugares. Essas vozes são ouvidas e replicadas, transformando-se em uma devastadora onda falso moralista, discriminatória e intransigente, com consequências preocupantes. Cabe a nós, sociedade cônscia da preservação do direito inalienável de igualdade entre os homens, resistir, sem violência, através da união pelo poder da palavra, do diálogo, da representação política isenta e justa, e das manifestações culturais e artísticas legitimadas, a esses ataques que passam ao largo da razão.

    Um encontro ficcional que mudou o líder pacifista Martin Luther King Jr.

    A trama se desenrola, como dito, em um quarto de hotel numa noite chuvosa de Memphis, em que se vê um Martin Luther King (Lázaro Ramos) solitário, sedento por tragadas de cigarro, fazendo rápidas anotações em um pequeno bloco, transmitindo-nos um pouco de angústia e ansiedade, a todo o momento se perguntando onde estaria o seu amigo Ralph, após o seu derradeiro discurso (“I’ve Been to the Mountaintop – “O Topo da Montanha”) na Igreja de Mason, na mesma cidade. Todo o desenho da situação começa a mudar a partir da entrada em cena da camareira do hotel, Camae, uma jovem espontânea, simples e contestadora, em seu primeiro dia de trabalho, interpretada por Taís Araújo. A construção da relação do Reverendo protestante Martin e da camareira Macae se dá de forma paulatina, em meio a conversas corriqueiras e fugazes, provocações e questionamentos de ambas as partes até se chegar a um intenso embate ideológico que leva o líder religioso a um processo profundo de revisão de seus métodos de propagação de ideias junto às massas oprimidas de sua nação. Casado, com filhos, carinhoso com sua família, o homem que pregava o amor (jamais a violência, adotada por outro grande líder defensor dos direitos dos negros, Malcom X), como forma eficaz de debelar as desigualdades e injustiças de seu povo, utilizando-se do mecanismo das marchas, como a célebre “Marcha sobre Washington”, de 1963, (onde proferiu o antológico discurso “I Have a Dream”), é confrontado sistematicamente pela bela Camae, que além de o seduzir, lembra-lhe de que os dois, a despeito de pertencerem à mesma raça, e de lutarem pelos mesmos direitos, representam classes sociais diferentes, sendo ele, em suas palavras, um “negro burguês”. Essas contendas entre o casal no espaço exíguo do hotel, entre idas e vindas de um discreto banheiro (há um certo ar claustrofóbico no quarto 306 do hotel Lorraine, como se ambos fossem obrigados a ficar ali, proibidos de sair, devido às fortes chuvas, e por conseguinte forçados a se defrontar), interrompidas pelas tosses recorrentes de Martin causadas pelo fumo, não são exclusivas no encontro da dupla, havendo manifestações de afetuosidade e companheirismo, pois afinal, efetivamente, são vítimas do mesmo regime segregacionista dos Estados Unidos que começou a se avolumar na década de 50. Com o passar das horas, Camae, com sua habilidade retórica, consegue, aos poucos, fazer com que Luther King inicie uma autoavaliação pessoal, possibilitando-lhe enxergar que, por trás do homem firme e incisivo na oratória e no enfrentamento corajoso das mazelas sociais, existe um ser humano comum, frágil, sensível, com dúvidas referentes a Deus e à sua própria fé. Um homem com medo da morte. Um homem que teme o seu fim sem dar continuidade à sua luta. Esta jornada de Macae em busca do autoconhecimento do reverendo e de sua humanização é sem dúvida uma das propostas da peça. À certa altura do espetáculo, ocorre uma reviravolta de identidades que irá modificar amiúde os contexto e sentido da narrativa, com o uso criterioso e convincente de licenças poéticas. A obra caminha para o seu final com passagens inflamadas e emocionantes, fazendo jus à trajetória marcante e indispensável do líder pacifista que mudou a História dos Estados Unidos da América e sua relação com os seus filhos negros.

    Dramaturgia fluente, instigante, poética e divertida

    Quando a dramaturgia de Katori Hall foi levada aos palcos ingleses em 2009, os espectadores e a crítica londrinos logo foram conquistados, resultando no Prêmio Lawrence Olivier de Melhor Peça Estreante. O sucesso atravessou o Atlântico quando, em 2011, foi a vez da Broadway apresentar a sua versão, com Samuel L. Jackson e Angela Bassett. Aqui no Brasil a tradução ficou a cargo de Silvio Albuquerque (com consultoria dramatúrgica de Angelo Flávio), que realizou um primoroso trabalho, mantendo toda a atmosfera envolvente, intimista e poética, leve e dramática (o humor sempre presente no espetáculo é um elemento que oferece à encenação uma ponte de comunicação indiscutivelmente bem-sucedida com a plateia, graças ao carisma de seus protagonistas, favorecendo o nascimento de uma empatia salutar com os personagens), com uma dinâmica crescente e progressiva imprescindível para que acompanhemos com evolutivo interesse o desenvolvimento narrativo. O texto não faz um retrato biográfico estrito do reverendo considerado por muitos um mártir. Fatos históricos e passagens da sua vida são citados, mas inseridos na contextualização dramatúrgica adotada. A concepção de se colocar uma personagem externa (Camae) com o intuito de se fazer um contraponto com Martin, a fim de que as ideias e pensamentos dos dois lados fossem colocados frente a frente impulsiona a peça, conferindo-lhe notável fluidez e agilidade cênica.

    Uma direção focada na legitimidade da interpretação dos atores

    A direção ficou sob o encargo do próprio Lázaro Ramos, que teve como codiretor Fernando Philbert. Conciliar direção e atuação é uma tarefa arriscada e audaciosa, no entanto o diretor, que já conduziu montagens elogiadas como “Namíbia, Não!”, sai-se brilhantemente bem nesta função. Lázaro e Fernando miraram o seu olhar com generosidade para o campo interpretativo. Apostando na força emotiva dos atores protagonistas, atingir-se-ia com mais facilidade a verdade genuína dos personagens, absolutamente necessária para o sucesso da peça. O empenho da direção foi alcançado ao se perceber um elevado grau de credibilidade na performance do elenco. O foco centrado no permanente jogo cênico travado entre Luther King e Macae demandou da dupla de diretores uma imensurável capacidade de armar movimentações cênicas, assim como as pausas e os silêncios, aproveitando da melhor maneira o espaço do palco, garantindo à obra um espectro completo e eminentemente convincente. Sob o ponto de vista estético, há uma exuberante profusão de imagens projetadas no fundo da ribalta (de arquivo, exibindo fatos simbólicos da luta dos negros pelos seus direitos civis, e de insignes personalidades negras). Este recurso quando bem utilizado (como ocorre na peça) serve como instrumento infalível de embelezamento da produção assim como meio de informação complementar do texto (preciosa, com valoroso trabalho de pesquisa, colaboração de Rico Vilarouca e Renato Vilarouca).

    Um grande encontro entre Lázaro Ramos e Taís Araújo

    Lázaro Ramos, como o Reverendo Martin Luther King Jr., um ator com um carisma indescritível, constrói este emblemático personagem percorrendo uma série de caminhos de interpretação que se ramificam em diversas camadas emocionais, sendo todas elas correspondidas com garbo pelo talentoso artista. Lázaro desfila com desenvoltura por variados aspectos do perfil de seu complexo papel. Primeiramente, ostenta um Martin naturalista e sóbrio, em seus pioneiros colóquios com Macae. O tom irônico, objetivo e rápido de suas reações às investidas inquisidoras da camareira define um outro segmento de sua atuação. Na TV e no cinema, o público se acostumou, ao assistir a alguns de seus populares tipos, em testemunhar um intérprete com nítido pendor para a comédia. Em alguns instantes da peça, presenciamos este resvalo humorístico de Lázaro, para o delírio do público. Em determinadas ocasiões, podemos conferir a canalização de suas emoções para um nível de potência elevado. Lázaro Ramos, pode-se afirmar com toda a certeza, personificou este mito histórico com distintas galhardia, elegância, inteligência e dignidade. Taís Araújo (indicada ao Prêmio Shell), reconhecidamente uma de nossas estrelas da televisão, possuidora de um “star quality” inquestionável (com vasta experiência nos outros dois setores, as Artes Cênicas e o cinema), resolveu mergulhar fundo na alma misteriosa de sua personagem Macae. Macae surge de repente na história, manipulando com destreza os desdobramentos dos episódios daquela noite, envolvendo Martin numa rede de revelações próprias que o faz ser levado ao seu autoconhecimento. Esta difícil missão exige de Taís um notável “tour de force” interpretativo, no qual ela mesma se impõe o desafio de manter a ambiguidade da origem de sua personagem. A atriz, do mesmo modo que Lázaro, foi conduzida por uma linha de interpretação que lhe exigiu a apresentação de diferenciadas manifestações comportamentais, em consonância com as emoções esperadas. A artista compõe com admirável compreensão de seu papel uma Macae simplória, popular, espontânea, natural e divertida. Mas Macae a obriga a expressar ainda mais a sua habilidade como intérprete, ao fazer com que identifiquemos na camareira do hotel uma mulher persuasiva, dotada de impressionante personalidade, com a capacidade de, apoiada na sua inteligência ideológica, induzir o seu companheiro de quarto, o líder Martin, a rever toda a sua vida e posição política. Enfim, Lázaro Ramos e Taís Araújo, juntos em cena, comprovam-nos o potente entrosamento artístico que existe entre eles, como se cada um conhecesse do outro as suas diversas e intrínsecas intenções no palco, correspondendo, a partir dessas impressões intuitivas, com a excelência das suas reações.

    Cenografia, projeções visuais, iluminação, figurinos e trilha sonora prestam reverência à época histórica

    A cenografia de André Cortez, baseada nos tons crus e neutros, como o cinza e o branco, sobressai-se pela sua notória funcionalidade somada à fidelização ao universo de um quarto simples de hotel americano do final da década de 60. André se vale de todos os elementos caracterizadores da ambiência do aposento, utilizando-se de duas camas de solteiro, com diminutas mesas de cabeceira (uma delas ao pé da cama) com seus respectivos abajures, uma mesa circular com duas cadeiras, uma espécie de pufe, e um cabideiro. O cenógrafo teve a feliz e criativa ideia de montar uma armação vazada, com possibilidades de ser deslocada, que delimita as dimensões do quarto. Em seu fundo, existe uma porta que leva ao banheiro, sempre à vista (como arremate, algo que se assemelha a um papel de parede figurativo típico desses cômodos). André Cortez possui dois grandes aliados, Rico e Renato Vilarouca (como supracitado, as instigantes projeções se conectam eficazmente com o cenário, com deslumbrantes efeitos). Foi deixado um estreito espaço à frente da armação como representação da sacada do hotel, não poucas vezes frequentada pelos atores. A bonita iluminação de Walmyr Ferreira optou por matizes distintos, mantendo-se coerente ao investir em um tom suave, sóbrio e natural na maioria das cenas cotidianas. Dependendo da intensidade do trecho da narrativa, Walmyr elevava o grau de luminosidade. Em momentos mais reflexivos, adotou um forte foco lateral, provocando belos efeitos de luz e sombras. Possivelmente numa alusão ao assassinato de Luther King, faltando pouco tempo para o fato, iluminou a área do tablado de vermelho. Na parede do banheiro, nota-se uma branda iluminação esverdeada. Blecautes e espocar de luzes, como referência aos relâmpagos, surpreende-nos. Tereza Nabuco teve a incumbência de escolher os figurinos do espetáculo. E o fez com notada competência, novamente, como o resto da equipe, respeitando os registros históricos e factuais da montagem. Lázaro trajou um conjunto preto de terno, gravata, calça e sapatos sociais, em contraste com uma camisa branca, complementado por um chapéu de época de feltro marrom (o personagem possui uma pequena mala ou bolsa escura). E Taís vestiu um uniforme de camareira amarelo mostarda com avental, mangas e golas brancas, além de calçar sapatos também de cor preta, e usar um casaco bordeaux. A trilha sonora e o desenho de som couberam, respectivamente, a Wladimir Pinheiro e Laércio Salles. A dupla teve a sensibilidade exigível para pontuar com precisão as passagens que solicitavam uma intervenção musical. Logo no início da obra, ouvimos uma melodia com acordes que nos reportam ao jazz, e em outras ocasiões há inserções de canções que nos lembram hinos religiosos de igreja, além do incremento de uma trilha incidental insinuante.

    O legado de Martin Luther King Jr., e a contribuição de “O Topo da Montanha”

    “O Topo da Montanha” é, antes de tudo, um manifesto pelo qual se prega o respeito pela igualdade de direitos dos homens, tendo como arma a mais implacável de todas aquelas que estão ao nosso alcance: o amor. Trata-se de um espetáculo cênico que serve como ferramenta de humanização de um líder que, independente de suas ideias e convicções ideológicas, era antes de qualquer coisa um cidadão como os demais, com suas fraquezas, medos, incertezas e vulnerabilidades, temente à morte, mas que, mesmo resistindo, deixou um bastão para ser passado adiante para os que ficaram, ou seja, que seus ideais de lutas pelos direitos civis dos negros permanecessem, jamais fossem negligenciados ou esquecidos. Após 50 anos, este bastão empunhado com tanta nobreza, perseverança e bravura por Martin Luther King Jr. continua a passar de mão em mão, pois a intolerância, o racismo, a discriminação e a segregação racial estão aí, cada vez mais presentes. Não é fácil atingirmos, todos nós, negros e brancos, a “Terra Prometida” onde se encontram a paz e a igualdade humanas defendidas por Martin. Não é fácil subir até “O Topo da Montanha”. Acalma-nos saber que por ora o bastão esteve nas mãos de dois artistas respeitáveis, corajosos e lutadores. Lázaro Ramos e Taís Araújo chegaram ao “O Topo da Montanha” com este espetáculo.

  • “José Luiz Villamarim, George Moura e Sergio Goldenberg se unem em ‘Onde Nascem Os Fortes’, a nova supersérie da Rede Globo, para nos contar uma história intensa e passional, com amores e ódios em sua mais alta potência, tendo como porta-vozes atores com a força de Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção e Debora Bloch.”

    abril 24th, 2018

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    Foto: Estevam Avellar/Gshow

    Estreia a aguardada supersérie de George Moura e Sergio Goldenberg 

    Ao se ter a notícia de que haveria uma supersérie escrita pela dupla de autores George Moura e Sergio Goldenberg, que escreveram tanto a minissérie “Amores Roubados” (que será regravada em espanhol com outros intérpretes) e o remake da novela “O Rebu”, tendo como o seu diretor artístico José Luiz Villamarim (diretor de ambas as produções citadas), o público assíduo destes dois gêneros teledramatúrgicos imediatamente cria auspiciosas expectativas. Ademais, este trio competentíssimo de profissionais costuma reunir em seu elenco atores do mais alto calibre com quem já trabalhou, além de apostar em nomes já estabelecidos no mercado, mas com os quais não teve ainda uma parceria. Na noite de ontem, finalmente estreou na Rede Globo “Onde Nascem Os Fortes”, protagonizada por um time de artistas de distintas gerações, todos com reconhecimento pelos seus talento e trajetória, como Patricia Pillar, Alexandre Nero, Fabio Assunção, Debora Bloch, Marco Pigossi, Gabriel Leone, Alice Wegmann, Jesuíta Barbosa e Maeve Jinkings. A história, com ares de western contemporâneo, é passada na cidade fictícia de Sertão (as impressionantes locações, que mostram o semiárido brasileiro, situam-se nos estados do Piauí, no Parque Nacional Serra da Capivara, e Paraíba – na cidade de Cabaceiras, no Cariri paraibano), no interior nordestino.

    Uma história com amores intensos e ódios acirrados

    O primeiro capítulo, logo em sua cena inicial, já nos revela o jeito particular de Villamarim dirigir. Com uma câmera acoplada a uma bicicleta de trilhas, fazemos o mesmo percurso inóspito realizado pela jovem destemida Maria (Alice Wegmann com os cabelos curtos e desconstruídos), nos confins desérticos de Sertão. Enquanto isso, outro jovem, tão aventureiro quanto, o paleontólogo Hermano (Gabriel Leone com um visual bem oposto ao mostrado em “Os Dias Eram Assim”), acompanhado da motorista de seu pai, Gil (Clarissa Pinheiro), numa caminhonete, regozija-se de suas recentes descobertas científicas locais. Após ter a sua bicicleta quebrada, Maria é abordada por rapazes mal-intencionados, sendo salva por Hermano. A partir deste casual encontro começará um romance com tintas shakespearianas, com bastantes conflitos entre as famílias do casal, impedindo a consumação de seu amor. Hermano é filho de Pedro Gouveia, um empresário poderoso e temido, dono de uma fábrica de bentonita, vivido por Alexandre Nero, e Rosinete, Debora Bloch, uma sofrida e abnegada mulher que se dedica a cuidar de sua filha enferma, Aurora, Lara Tremouroux. Maria é irmã gêmea do irresponsável e mulherengo Nonato, Marco Pigossi. O paleontólogo dá uma carona à bonita moça de Recife até o famoso Bar do Chico. Lá chegando, vê que seu irmão está envolvido em um jogo perigoso com armas e bebidas, e o repreende. Fica-nos clara a relação forte e simbiótica que há entre os irmãos, tão unidos quanto distantes no comportamento. Hermano e Maria combinam de se encontrar no show de Shakira do Sertão (Jesuíta Barbosa) na boate Bodão. A mãe dos gêmeos, Cássia (Patricia Pillar), uma empenhada engenheira química, não consegue qualquer contato com os seus filhos. Cássia esconde um segredo de seu passado que envolve a sua passagem por Sertão. Voltando à personagem de Debora Bloch. Rosinete, traída pelo seu marido com Joana (Maeve Jinkings), funcionária da empresa, como já dito, devota a sua vida à filha (há uma cena com grande sensibilidade e beleza em que Rosinete banha cada parte do corpo de Aurora com delicadeza). Católica fervorosa, a mãe zelosa, descrente dos médicos, agarrada ao seu terço, exercita-se correndo na escuridão da noite do deserto, sob a luz só de uma lanterna e o som companheiro de seu fone (a direção captou inspiradas e belas imagens noturnas de Debora correndo, com angulações de câmera inventivas). Enquanto corre, faz as suas preces. Apesar de não ser tão presente, Pedro demonstra carinho pelos filhos. Na boate Bodão, em uma das melhores cenas do capítulo, Shakira do Sertão se apresenta cantando o clássico de Rosana, “O Amor e o Poder” (incrivelmente produzido, exalando sensualidade e sedução, Jesuíta nos conquista com a sua performance estudada; seu personagem, na verdade Ramirinho, filho do juiz Ramiro, Fabio Assunção, que desconhece a sua vida dupla, promete ótimos momentos). A dança luxuriosa de Shakira encanta os irmãos. Contudo, Nonato decide ir para outras paragens, enquanto Maria espera por Hermano. Não muito longe, pessoas do local se reúnem, bebem, e se exibem com suas motos barulhentas. Pedro Gouveia, fugindo da solidão de casa, chega ao lugar, sendo bajulado por todos. Neste instante, Nonato já havia conhecido Joana em um bar. Pedro se aproxima, e espanta o rapaz galanteador. Embriagado, o filho de Cássia deixa um recado para a sua irmã no celular, sem sucesso. Desnorteado, retorna ao bar, e provoca o empresário, sendo enxotado pelos seus capangas. Nesse mesmo tempo, Maria e Hermano visitam as deslumbrantes cavernas com pinturas rupestres de Sertão (as gravações foram feitas no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, com suas pinturas reais). Após Hermano lhe ensinar sobre a história das pinturas, em meio ao cenário fascinante de pedras, os jovens trocam carícias e beijos. Em um descampado, com ventos de poeira iluminados pelos faróis do carro parado, Nonato é brutalmente espancado pelos capangas de Gouveia. Em outro lugar sinistro, Gouveia ameaça o rapaz ensanguentado, mas decide lhe dar uma chance. O moço “louco”, quase desfalecido, enfrenta seu oponente, que, furioso, encosta a arma em seu rosto, ameaçando atirar. Não sabemos o que de fato ocorreu com Nonato, o mote da sinopse da supersérie. Em seguida, surge a figura imponente do juiz Ramiro treinando caça, ao lado de seu guarda-costas Damião, Pedro Wagner. O tiro de seu rifle faz a ponte com a cena de Nonato que ficou em aberto. O capítulo de estreia de “Onde Nascem Os Fortes”, que tem a colaboração de Flavio Araújo, Mariana Mesquita e Claudia Jouvin, termina com Damião colocando em Ramiro o seu impecável terno branco, que ao final diz: – Todos os dias são do caçador”.

    Texto bem estruturado e envolvente e direção habilidosa e inventiva 

    O texto de George Moura e Sergio Goldenberg é bem estruturado, envolvente, com bons personagens construídos, em que se veem elementos com capacidade para segurar o interesse dos telespectadores pelos seus próximos episódios. Em seu entrecho, há fartas doses de amor (seja ele romântico ou familiar), ódio, sede de justiça, espalhadas sobre um terreno árido e sem lei (ou com leis próprias), no qual se impõem o coronelismo e toda a sua implacabilidade, algo recorrente até nos dias atuais. A direção de José Luiz Villamarim, neste primeiro capítulo, ostentou a sua qualidade genuína com influências nitidamente cinematográficas. José Luiz valoriza os movimentos, a ação, os closes, as panorâmicas, as distâncias e os olhares inusitados vistos pela lente de sua câmera (a supersérie tem ainda como diretores Walter Carvalho e Isabella Teixeira, com direção geral de Luisa Lima).

    Um elenco primoroso formado por atores de gerações distintas

    O elenco é um dos pontos altos da atração, transmitindo com enorme credibilidade as nuances do perfil de seus personagens. Patricia Pillar, como Cássia, segura e cativante, esbanjou o apego que sente pelos filhos, enquanto Debora Bloch nos convenceu com o seu brilho nato como a mãe infeliz e incrédula com a doença de sua filha e o casamento falido. Alexandre Nero compôs com notável precisão os traços que definem Pedro Gouveia, seja ao nos passar a sua aura de poder, mando e desmando, seja ao revelar o seu lado amoroso como pai. Fabio Assunção, em uma única cena, prometeu-nos uma sublime interpretação, num papel totalmente diferente daqueles que já fez em sua prodigiosa carreira. Marco Pigossi, em participação especial, construiu Nonato com acertadas camadas de rebeldia, carência, insolência e irracionalidade. Gabriel Leone e Alice Wegmann, excelentes escalações, possuem potente química como casal, provando-nos o porquê de serem considerados uns dos melhores atores jovens surgidos em sua geração, assim como Jesuíta Barbosa, um intérprete de cinema que se supera a cada trabalho em televisão (Jesuíta tem um carisma, uma docilidade pessoal que o distingue sobremaneira). Maeve Jinkings, respeitável atriz, uniu com equilíbrio a sensualidade e o carinho de Joana com relação ao seu amante, sem abrir mão da firmeza de seu papel nas sequências de tensão. Lara Tremouroux imprimiu com emoção à sua personagem Aurora as cargas exigíveis de fragilidade, vulnerabilidade e ternura. Clarissa Pinheiro, como Gil, em suas rápidas aparições, indica-nos uma boa participação.

    A direção de fotografia de Walter Carvalho, a produção musical irresistível e a abertura com Zeca Veloso 

    A irretocável, como de costume, direção de fotografia de Walter Carvalho aposta na luminosidade pujante, clara e ensolarada do universo desértico do sertão do Nordeste, na crueza realista sem tons fortes das cenas cotidianas, nas cores das luzes que alumiam a festiva noite da cidade, e na exploração de contrastes noturnos nos locais abertos e vazios (como na cena de Rosinete correndo). A fotografia usada nas cenas do casal de jovens no interior da caverna também merecem destaque. A produção musical de Eduardo Queiroz se sobressaiu pela coerência e adequação das músicas selecionadas, como a belíssima “Vapor Barato”, na voz de Gal Costa. A música original de Marcell Klemm também cumpriu com congruência sua missão de emoldurar melodicamente os quadros cênicos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Christiano Calvet, composta por recortes de imagens de cenas da supersérie em variados matizes, é embalada pela voz aguda e afinadíssima de Zeca Veloso, com Caetano Veloso, Moreno Veloso e Tom Veloso, na encantadora “Todo Homem” (há um refrão que se encaixa na busca infatigável de Cássia pelo filho desaparecido: “Todo homem precisa de uma mãe”).

    Por que “Onde Nascem Os Fortes” merece ser vista

    “Onde Nascem Os Fortes” corrobora o investimento da emissora em produzir com cada vez mais qualidade, excelência e apuro estético as superséries, valorizadas por dramaturgias elaboradas, elenco exponencialmente capacitado e diversificado, e direção não raro primorosa. Não à toa muitos intérpretes demonstram a sua vontade de atuar nessas obras. Não faltam motivos para se acompanhar esta história com personagens tão ricos e ao mesmo tempo brasileiros, em terras não menos brasileiras. Os sentimentos e conflitos são universais, mas o olhar do espectador de nosso país se identificará com uma de suas raízes nas plagas do interior esquecido do Nordeste, com todas as suas contradições, disputas de poder, e ausência de leis, com a exceção da “Lei do Mais Forte”. Nos torrões onde nasceram os fortes Pedro Gouveia e Ramiro, nos quais “Todos os dias são do caçador”, “caças” como os “Nonatos da vida” poderão ganhar a sua voz na força de mulheres como Cássia e Maria. E tudo poderá se transformar em “Onde Nascem As Mulheres Fortes”.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    abril 7th, 2018

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    Foto: Paulo Ruch

    O cantor Gian, da dupla sertaneja Gian & Giovani, ao lado da blogueira de moda Tati Moreto, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
    À época, Gian ainda era casado com Tati Moreto.
    Aparecido dos Reis Morais, ou Gian, nasceu em Claraval, Minas Gerais.
    A história musical de Gian começou já em sua infância, em Franca, interior de São Paulo, quando, ao lado de seus irmãos Arnaldo e Marcelo, o Giovani, passou a demonstrar grande familiaridade com o violão.
    O pai dos três, S. Francisco, ao perceber o talento dos filhos para a música resolveu criar um grupo, o Trio Sereno, Sereninho e Gaúchinho.
    Surgiram as primeiras apresentações ao vivo em bares e restaurantes.
    Arnaldo, devido a problemas com a sua voz, teve que deixar o trio.
    A dupla restante chamou a atenção de um comerciante local que decidiu apadrinhá-la, sugerindo-lhe um novo nome: Gian & Giovani.
    Com muitas dificuldades conseguiram gravar o primeiro tape.
    Apresentaram-no ao diretor da extinta gravadora Continental, Paulo Rocco, que aprovou o resultado, lançando assim o primeiro disco de Gian & Giovani, em 1988.
    Seu primeiro sucesso nas paradas se chamava “Amante Anônimo”, e em seguida vieram outros, como “Espuma da Cerveja” e “Você Em Minha Vida”.
    Lançaram o seu segundo CD em 1990, atingindo a marca de 400.000 cópias vendidas, garantindo-lhes um “Disco de Ouro” (uma de suas canções, “Nem Dormindo Consigo Te Esquecer” foi bastante premiada).
    Contratados pela gravadora BMG, seu sexto CD (o segundo pela gravadora) é lançado no mercado em 1996, e uma de suas faixas, “1, 2, 3” faz enorme sucesso (Gian & Giovani se tornam uma das principais duplas sertanejas do país).
    Participaram do especial “Amigos”, na Rede Globo.
    Em 1998, o oitavo CD, “Meu Brasil”, é lançado, alcançando novamente expressiva repercussão (a música “O Grande Amor da Minha Vida” teve ótima aceitação popular; no mesmo ano, gravam um CD ao vivo, além dos registros do mesmo show que o originara em VHS e DVD, posteriormente).
    Em 2003, contratados pela Sony Music, foram indicados ao Grammy Latino de Melhor Álbum de Música Sertaneja.
    Em 2007, produzem o seu segundo DVD, “Uma História de Sucesso”.
    No ano seguinte, completam 20 anos de carreira.
    Foram convidados em 2010 para participarem do DVD especial em comemoração aos 50 anos de carreira do cantor e compositor Roberto Carlos, “Emoções Sertanejas” (a dupla interpretou “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”).
    Em outubro de 2014, Gian e Giovani anunciam o fim da dupla.
    Em março deste ano, foi comunicada a volta da dupla para meados de agosto.
    Com discos de ouro, platina, platina duplo, diamante, Gian & Giovani, com uma imensa lista de sucessos musicais nas paradas, figuraram no final dos anos 90 dentre as cinco duplas sertanejas mais importantes do Brasil.
    Tati Moreto é blogueira de moda e beleza.
    Fisioterapeuta de formação, foi modelo e dançarina dos programas “Fantasia” e “Domingo Legal”, no SBT.

    Agradecimento: TNG

     

  • “Tonico Pereira, um dos mais representativos artistas do país, em soberba atuação, comemora seus 50 anos de carreira em seu primeiro monólogo, ‘O Julgamento de Sócrates’, um espetáculo que serve como alerta para os tempos obscuros em que vivemos, lançando uma luz nos palcos teatrais ao defender com pujança e inteligência uma de nossas liberdades mais nobres, a liberdade de pensamento”.

    março 18th, 2018

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    Foto: Igor Mota

    A impressionante atualidade de “O Julgamento de Sócrates”

    Em pleno século XXI, já passadas quase duas décadas, vivemos no mundo, especificamente no Brasil, tempos obscurantistas, nebulosos, marcados por movimentos impulsionados pela intolerância, em todos os seus aspectos, que grassam irrefreavelmente pela sociedade civil. Sinais de intolerância à sexualidade do indivíduo, às suas crenças religiosas, e às suas convicções políticas são cada vez mais constantes, assumindo um caráter de “normalidade”. Intolerância à ideia do outro. Com a proliferação das redes sociais, que vieram tanto para o bem quanto para o mal, esta cultura do ódio se tornou mais evidente. As pessoas, pertencentes a quaisquer segmentos sociais, tornaram-se detentoras da verdade absoluta, observada em opiniões sobre assuntos diversos. Pensar e se expressar individualmente hoje em dia é um ato de coragem. Assumir posições que não agradam à maioria requer a ciência das consequências nem sempre favoráveis. A liberdade geral está em xeque. O perigo real ao cerceamento da liberdade de expressão se revela inclusive nas manifestações artísticas. Artistas vivenciam involuntariamente experiências “kafkianas”. São acusados por crimes “inventados”. Faz-se necessário aos cidadãos de bem acenderem o sinal de alerta diante das políticas predatórias, discriminatórias e intolerantes alimentadas em cima da ignorância dos facilmente manipuláveis. Face a esta conjuntura, a montagem comemorativa dos 50 anos de carreira de Tonico Pereira, em seu primeiro monólogo, “O Julgamento de Sócrates”, de Ivan Fernandes, baseado na obra “Apologia de Sócrates”, de Platão (aproximadamente 399 a.C), impõe-se por suas incontestes atualidade e oportunidade, gerando, de modo imediato, sensação de empatia e identificação do público. A peça, dirigida por Tonico Pereira e Ivan Fernandes, contextualiza-se no fato histórico do julgamento do filósofo grego Sócrates (nascido, presume-se, em 470 a.C), acusado pelos crimes de incitar os jovens com ideias potencialmente subversivas, contrárias por conseguinte ao Estado, e por não respeitar e venerar os deuses da Grécia Antiga, e sua condenação à morte por envenenamento.

    Um fato histórico para ser lembrado e relembrado

    A encenação começa com o depoimento do próprio Tonico acerca dos “Sócrates” que conheceu em sua cidade natal, Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Pessoas comuns que o influenciaram como cidadão, e artistas, diretores como Luiz Mendonça e Amir Haddad, que foram fundamentais em sua formação e evolução como ator. A partir daí, o intérprete, já incorporado como Sócrates, no ambiente de um tribunal, em que os espectadores fazem as vezes de jurados, desfia a sua afiada oratória, como instrumento de defesa, entremeada por perguntas a si mesmo, questionamentos, elucubrações, ilações e aforismos. Sócrates, para os seus acusadores, é considerado o mais sábio dos sábios, pois assim asseverara o oráculo do Deus Apolo. Como pode um Deus conceder esta honraria a um homem sem fé? O filósofo, segundo ele, é vítima de reiteradas calúnias. Seus detratores não possuem qualquer espécie de provas que corroborem os crimes que lhe foram imputados, como as suas potenciais violações às regras e leis do Estado. Sócrates alega que uma das razões para que se tenha tanto ódio e inveja de sua condição de pensador se deve ao fato de conseguir por meio de sua habilidosa retórica desmascarar os pretensos sábios, fazendo-os enxergar a sua legítima ignorância. O acusado não se escusa ao defender as suas ideias até o fim, não temendo sequer a morte, que lhe parece tão próxima. Para o homem dotado de insigne sabedoria não há dúvida no que concerne à chance de escolha entre a morte, que lhe é desconhecida, e a manutenção ferrenha de suas convicções ideológicas, porquanto estas lhe são conhecidas e certas, garantindo-lhe a sua integridade moral, sobretudo ao não se submeter a condições, ajustes, tratos ou conluios propostos a fim de abjurar os pensamentos que o norteiam, e que servem de referência para os jovens sedentos de saber. Contraditoriamente, Sócrates solta, vez ou outra, a sua célebre sentença “Só sei que nada sei”, atestando a sua própria ignorância defronte aos grandes mistérios e conhecimentos sobre a vida, em oposição aos seus pares que se assoberbam ao ostentarem a sua duvidosa sabedoria.

    A adaptação engenhosa de Ivan Fernandes de “Apologia de Sócrates”, de Platão

    O texto de Ivan Fernandes nos chama a atenção pela sua notória comunicabilidade, inteligibilidade e fluidez narrativa. Um espetáculo teatral cuja figura central é o filósofo Sócrates poderia provocar nos incautos a falsa sensação de hermetismo dramatúrgico, o que, felizmente, não acontece. Ivan foi engenhoso e cuidadoso o suficiente ao fazer uma adaptação de “Apologia de Sócrates” que nos fosse bastante acessível. Há, por parte do autor, uma preocupação com a valorização das palavras e frases ditas pelo pensador. O dramaturgo buscou ao máximo uma linha direta entre o protagonista e a plateia, obedecida com êxito pela direção. Procurou-se outrossim, com resposta rápida e interação imediata dos espectadores, uma aproximação com a realidade atual, com os acontecimentos vigentes do país, sobretudo políticos. As associações de nomes conhecidos com pronúncias gregas causam a espontaneidade dos risos coletivos. A dramaturgia de Ivan Fernandes é redonda, fechada, enxuta, sem prolixidades, objetiva e certeira, mantendo o interesse do público em todas as suas fases.

    Uma direção que aposta na força da palavra e no dinamismo cênico

    A direção de Ivan Fernandes e Tonico Pereira se propõe, e logra com distinta propriedade, harmonizar-se com a estrutura do texto cênico. Tonico, como Sócrates, segue a orientação de traçar um desenho dinâmico de movimentação do personagem, com pausas pontuais e calculadas. O perímetro da ribalta, principalmente em seu centro, na lateral direita e na faixa do proscênio, é explorado com coerência, sem extrapolações de medidas. A adoção desta diretriz faz com que o espetáculo se desenvolva num tempo razoável, sem que a sua organicidade seja prejudicada. As vezes em que Tonico se dirige à plateia são demasiado bem-sucedidas, funcionando com perfeição. Propositalmente, há “saídas” do personagem, garantindo frescor e leveza à encenação.

    Tonico Pereira, um artista que reafirma o seu imensurável talento

    Tonico Pereira, um intérprete com enorme apelo junto às plateias, dotado de personalidade, popularidade e carisma únicos, dono de uma vasta coleção de papéis inesquecíveis e marcantes na TV, tendo trabalhado com alguns dos principais cineastas brasileiros, além de ser um artista genuinamente de teatro, pois foi nele que começou há cinco décadas, celebra com magnificência a sua merecida efeméride. Tonico, com a responsabilidade e o desafio de dar vida ao grande filósofo de Atenas, tão somente reafirma o seu imensurável talento ao criar e compor personagens, passeando com espantosa naturalidade e credibilidade por não poucos atalhos e caminhos de interpretação, margeados com níveis de emoção e dramaticidade oscilantes em seu nível de potência. Associado não raras vezes à sua infinita capacidade de construir tipos cômicos, o protagonista, sem preterir o seu irresistível humor nato, revelado nesta peça com apropriada discrição, esbanja admirável intimidade com o drama puro, realçado pela indignação, assombro e dúvidas que acompanham Sócrates acerca dos motivos que o levaram ao julgamento público. Sua postura incisiva e perscrutadora, confrontando as acusações sem alicerces sólidos com a sua balizada defesa se apresenta como ponto alto da montagem. Com gesticulações críveis e tom vocal próximo ao de um diálogo ou conversa (em outras ocasiões, indicando-nos um desabafo), Tonico Pereira, sempre com a resposta acolhedora e fiel de seus espectadores, realiza um primoroso e dignificante trabalho de atuação em seu primeiro monólogo, sempre um processo arriscado para qualquer artista, independente de sua experiência.

    A valorização do ator por meio da economicidade certeira do cenário e figurinos

    Os cenário e figurinos são de Palloma Morimoto. Palloma, tanto em um quanto em outro, optou pelo conceito da economicidade, entretanto, este mesmo conceito deveria cumprir os critérios de eficiência, congruência e praticidade, correspondentes às linhas e entrelinhas do contexto narrativo, o que foi indiscutivelmente promovido pela profissional. Há em seus objetivos um acerto inquestionável, que se vislumbra ao conferir mais valorização e destaque à figura solitária de Sócrates no universo de um tribunal, acompanhado somente de seus pensamentos e reflexões de defesa, com o intento de se livrar das acusações arbitrárias que lhe foram impostas. Com relação à cenografia, a visão que temos é a de uma cadeira de madeira toda trabalhada em suas formas, com respaldo comprido, posicionada bem no centro da ribalta, tendo em seu lado direito uma base (provavelmente de madeira), em formato cilíndrico, pintada com tintas pretas manchadas, servindo como suporte para um imponente cálice dourado no qual se encontra o veneno que seria sorvido pelo filósofo em caso de sua condenação. No fundo do espaço, uma extensa cortina negra. Quanto aos figurinos, Palloma vestiu Tonico Pereira com uma camisa folgada de cortes retos e uma calça de bainhas altas e largas em tons assumidamente crus e claros, calçando apenas um par de sandálias em consonância com o período histórico grego retratado.

    Iluminação precisa e trilha sonora exuberante

    A iluminação e a trilha sonora original ficaram sob o encargo de Frederico Eça. A iluminação de Frederico é elogiável, não se deixando levar por recursos que não complementassem a estruturação do quadro cênico. Bonita e precisa, a luz do espetáculo se caracteriza primordialmente por um plano aberto, deixando todos os detalhes da encenação à vista do público. Este plano aberto talvez traduza uma aproximação com a aridez da situação vivida por Sócrates, com a sua realidade nada fantasiosa tampouco onírica, e sim trágica. Utilizando-se de quatro refletores traseiros, Frederico se apropria também do azul forte para realçar algumas passagens. Usam-se focos bem pontuais sobre Tonico, além de uma iluminação com intensidade acima da média em um determinado episódio. A trilha sonora original é bastante convincente, desenhando com proficiência e impacto cenas relevantes da peça. Adotando acordes instrumentais com caráter majestoso, Frederico demarca etapas da narrativa com a tensão, o suspense e o clímax solicitados, atingindo com êxito o resultado esperado.

    “Sócrates, presente!”

    “O Julgamento de Sócrates” é uma encenação teatral com vastos méritos, essencialmente por colocar em pauta, tendo por base uma obra tão relevante quanto antiga, e nem por isso menos atemporal e universal, um tema presente com força em nossa atualidade, a intolerância à liberdade de expressão, de ideias e pensamentos. Num período em que vivemos sob a égide do que é supostamente certo ou errado de se dizer, esta proposta se torna eminentemente indispensável. Um momento no qual raro se escuta o outro. Em que o diálogo é aniquilado com a expressão órfã de argumentos “Não concordo, eu acho que…”. Além disso, temos em cena um de nossos mais representativos atores, em estado de graça nos palcos, soltando a sua voz em defesa de nossas liberdades. Que “O Julgamento de Sócrates” sirva de lição para que as nossas vozes não sejam silenciadas. Que os seus ecos se façam ouvir além-fronteiras. Que se respeite a democracia nascida nas terras socráticas. Calar uma voz, seja de que forma for, apenas faz com que surjam milhares de outras, tão indignadas como a de Sócrates. Mais atual, impossível. Sócrates, presente!.

  • São Paulo Fashion Week – Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    março 14th, 2018

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Bruno Corteletti na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari, em São Paulo.
    Bruno é capixaba, sendo agenciado pela Way Model Management (São Paulo), Major (Nova York) e CDU Model Management (Japão).
    Dentre os lugares mundo afora onde realizou trabalhos incluem-se Nova York, Hamburgo, Milão, Istambul, Malásia, Cingapura e Hong Kong.
    Em Milão, representou marcas como Versace, Valentino, Dolce & Gabbana e Costume National.
    Para a publicação japonesa “Leon Magazine”, o modelo pôde ser visto em várias páginas usando marcas como Moncler Lunettes, Botega Venetta, 999.9, Ptolemy48 e Ahlem.
    Bruno já fez inúmeros ensaios para diferentes fotógrafos, como Kentaro Kamata & Tomoo Syoju (“Safari Magazine”), Mehmet Erzincan (“All Magazine”), Jerry Choi (editorial “Watches” na revista “Esquire Hong Kong”), Felipe Gachido (sites “Gusman” e “Made in Brazil”), Pedro Pedreira (site da Way Model), Didio (ensaio em dupla com o modelo Danilo Borgato; também foi destaque da sessão “Go See” do site “TheOnes2Watch”), Eber Figueira, Hudson Rennan, João Araújo (ensaio “Sunshine Guys” para a “Ohlala Mag”) e Gabeh Araujo.
    No Minas Trend, desfilou para Ricardo Almeida.
    Na São Paulo Fashion Week Outono Inverno 2015, circulou pelas passarelas de Lino Villaventura, e na edição comemorativa dos 20 anos da SPFW, desfilou pelas grifes Cavalera e Lino Villaventura.

    Agradecimento: TNG

  • “Com coragem e precisão textual, Walcyr Carrasco mostra as feridas abertas da pedofilia nas cenas de julgamento do delegado Vinícius, em ‘O Outro Lado do Paraíso’, tendo ao seu favor as atuações impactantes de Flávio Tolezani, Sandra Corveloni, Bella Piero e Igor Angelkorte”.

    fevereiro 21st, 2018

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    Foto: TV Globo

    Um dos capítulos mais marcantes de “O Outro Lado do Paraíso” 

    As cenas de ontem à noite de “O Outro Lado do Paraíso”, novela das 21h da Rede Globo escrita por Walcyr Carrasco, que envolveram o julgamento do delegado Vinícius (Flávio Tolezani), acusado de ter molestado diversas vezes a sua enteada Laura (Bella Piero) quando esta tinha apenas oito anos de idade definitivamente abalaram os telespectadores brasileiros por seu alto grau de impacto, emoção, choque e verossimilhança. Há muito tempo não se via em nossa teledramaturgia uma sequência dramática desta magnitude nas dependências de um tribunal, com a participação de tantos personagens importantes para o desenvolvimento de sua história, com um texto de extrema relevância para a sociedade (o crime de pedofilia), dirigida de forma absolutamente irretocável e magistral por Mauro Mendonça Filho (diretor artístico) e André Felipe Binder (diretor geral). Não só a maneira corajosa e cautelosa com a qual o seu autor tratou o tema desde o início de sua trama contribuiu para o sucesso e o interesse por este núcleo específico, mas as atuações arrebatadoras, comoventes, coerentes e sensíveis de seus atores foram essenciais para o ápice de seu enredo no capítulo passado.

    O caminho percorrido até o julgamento de Vinícius 

    Fazendo parte do mirabolante plano de vingança de Clara (Bianca Bin), auxiliada pelos seus pretendentes Patrick (Thiago Fragoso) e Renato (Rafael Cardoso), o desmascaramento do delegado corrupto e cínico vivido por Flávio Tolezani, que já trabalhou com Walcyr Carrasco em “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!”, deu-se de modo paulatino, com vieses investigativos regados a doses fartas de suspense. A vítima dos abusos, a doce Laura (Bella Piero), sempre foi associada a uma jovem com comportamento estranho e antissocial. Sua relação com o padrasto era invariavelmente tensa, e sua mãe, a fútil e zelosa esposa Lorena (Sandra Corveloni), não lhe dava a atenção merecida. Laura não se relacionava com rapazes, até que conheceu o médico Rafael, interpretado por Igor Angelkorte. O carinho e as sinceras intenções demonstradas por ele logo conquistaram a arredia moça. À medida que o namoro assumido avançava, com a contrariedade patente de Vinícius e a anuência da mãe, as complicações de relacionamento do casal apareciam. Laura tinha evidentes dificuldades de ser tocada, acariciada. A afetuosidade lhe parecia algo repulsivo. E o sexo lhe soava agressivo e aterrorizante. Este comportamento pouco comum da filha de Lorena deixou seu namorado confuso e desorientado. Ao contar para o seu colega Renato o que estava se passando, Rafael acabou dando as ferramentas que faltavam para Clara iniciar a sua vingança contra o delegado. Com o casamento dos jovens, o problema de Laura se acentuou, e as desconfianças sobre o seu passado com o padrasto recrudesceram. Em sua lua de mel, um bicho de brinquedo em forma de tartaruga lhe foi clandestinamente entregue (na verdade, pelo delegado), causando-lhe um surto emocional. Com a ajuda da advogada Adriana (Julia Dalavia), que domina as técnicas de “coach”, na qual se inclui a hipnose, a namorada de Rafael faz uma regressão, e se lembra de todos os abusos sexuais sofridos em uma antiga casa onde moravam. Somente com a empregada Sebastiana (Ilva Niño) na residência, a pequena Laura brincava no quintal, próxima a um tanque de tartarugas. Aproveitando-se que sua mulher trabalhava fora, Vinícius molestava a indefesa menina repetidas vezes, deixando-a quase sempre machucada, com manchas aparentes pelo corpo. Clara, Patrick e Renato, com o auxílio do delegado Bruno (Caio Paduan), empenharam-se na busca de provas materiais e testemunhais que pudessem levar à condenação do suspeito. Alzira (Bela Carrijo), mãe de mais uma vítima, esta com doze anos, foi encontrada. O laptop do delegado foi apreendido, mas nada parecia suficiente para incriminá-lo (havia em seus arquivos uma galeria de fotos de moças, mas sem conotação sexual). O julgamento ocorreu em mais de uma sessão, o que rendeu a Patrick, assistente de acusação (o papel de promotor coube a Charles Fricks), a possibilidade de achar Sebastiana, muito doente, em um asilo. Os depoimentos a favor de Laura até então foram infrutíferos, combatidos com veemência pelo advogado de defesa personificado por Ernani Moraes. Durante todo o embate jurídico, sob os olhares atônitos da audiência, Vinícius se manteve impassível, certo de sua absolvição. Até que a empregada idosa depõe, causando espanto e assombro com suas revelações escabrosas sobre as violências sofridas pela menina. O seu silêncio, motivado por medo e necessidade de sobrevivência, fora perdoado pela vítima. Nesse tempo, as reações de Lorena provavam a sua impotência e desespero diante da verdade dos fatos que se desvelava. Arrolada como testemunha de defesa de seu marido, Lorena, em depoimento comovente, sofrido e tocante, assume que nunca enxergara o que realmente estava diante de seus olhos, afirmando que o inimigo pode estar bem ao seu lado (nesta hora, numa cena bastante indicativa, Clara olha de soslaio para Renato, que está ao seu lado). O jogo vira contra Vinícius. O delegado, acuado, não deixando o seu peculiar cinismo, confessa os seus abjetos crimes. Ridiculariza a sua esposa. Diz que se casou tão somente para ter próximo de si quem de fato desejava, a sua filha Laura, uma criança. Vinícius debocha das leis e da integridade humana, nesse caso, de uma menina. Com os assistentes aturdidos com os desdobramentos surpreendentes e chocantes do caso, o juiz Gustavo (Luis Melo) sentencia o réu à condenação. Vinícius caminha indiferente no tribunal com um sorriso de escárnio no rosto, ouvindo gritos de indignação dos presentes.

    O texto afiado, a direção impecável e as atuações arrebatadoras 

    Este foi, sem dúvida, um dos melhores capítulos de toda a novela de Walcyr Carrasco. Com boa orientação jurídica, Walcyr conduziu esta precípua passagem do folhetim com inegáveis propriedade e excelência. A direção sensível e inteligente de Mauro Mendonça Filho e equipe não deixou escapar uma reação sequer dos personagens. Cada olhar, cada gesto, cada movimentação em cena, cada fala mereceu o seu destaque. Os atores foram brilhantes em suas atuações, com suas emoções e sensibilidades à flor da pele. Se para nós telespectadores assistir ao desfecho desta história foi difícil e penoso, o mesmo deve ter ocorrido com o elenco. Flávio Tolezani impressionou com sua postura fria e gélida. Seu olhar parado, fixo, insensível, típico dos criminosos, chocou . O seu descarado cinismo perante os seus pares nos provocou incômodo. Flávio Tolezani é um excelente ator, e esta foi uma das melhores, senão a melhor, interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira. Sandra Corveloni, também ótima atriz, passou-nos com pungência a grandeza da dor da traição e da humilhação sofridas. Seu pranto, seus olhos perdidos, e sua fraqueza como mulher e como pessoa diante do peso da verdade cruel nos comoveram profundamente. Bella Piero, tão jovem, teve que enfrentar em seus primeiros anos de profissão um desafio assustador, e se revelou uma intérprete com enorme maturidade, defendendo com dignidade, verdade e emoção, do começo ao fim, o percurso doloroso de Laura, sem perder a ternura que a caracteriza. Igor Angelkorte, um artista possuidor de trabalhos elogiados no teatro, e que vem construindo uma bela carreira na televisão, provou-nos a sua enorme capacidade emotiva e sua fonte legítima de sensibilidade ao dar vida ao médico que acompanha o sofrimento de sua namorada desde o início, não a abandonando em nenhum momento. Igor sai fortalecido profissionamente desta novela. Thiago Fragoso dominou completamente o seu personagem Patrick, ostentando toda a firmeza, segurança, determinação e empenho que se espera de um habilidoso advogado. Thiago Fragoso defendeu com altivez e brio o seu assistente de acusação. Luis Melo, um intérprete com inúmeras e incontestes qualidades, impôs-se como o austero juiz Gustavo. Luis se vale de olhares discretos e eloquentes para nos dizer o que pretende. Somente atores de sua relevância e talento o conseguem. Ernani Moraes, com sua destreza interpretativa, criou um advogado de defesa perspicaz, agressivo e manipulador. E, por último, a presença de uma notável atriz, Ilva Niño, querida e talentosíssima, que já nos sensibilizou em novelas como “Água Viva” e nos divertiu em “Roque Santeiro”. Que escalação perfeita trazer de volta à tela esta artista que merece toda a nossa reverência. Sua atuação como Sebastiana foi contundente e inesquecível.

    A mensagem do autor, e a lição que fica 

    Enfim, um capítulo que vai ficar em nossas memórias, em todos os sentidos. Nunca se falou tão abertamente e com enorme mérito sobre pedofilia na ficção, em pleno horário nobre, e na TV aberta. Walcyr Carrasco e toda a sua equipe de colaboradores, diretores e elenco merecem os nossos parabéns. Um passo importante contra este crime foi dado. Usou-se um meio de comunicação poderoso como a televisão como forma de esclarecimento, informação e denúncia. Um relevante serviço social. A pedofilia não vai acabar, mas haverá muito mais pessoas conscientes, prontas e dispostas a denunciá-la. Em 20 de fevereiro de 2018 vimos em “O Outro Lado do Paraíso” a confirmação do trecho da música de abertura da novela “Boomerang Blues”, de Renato Russo: “Tudo o que você faz Um dia volta pra você E se você fizer o mal Com o mal mais tarde você vai ter de viver…”. Alguns ainda saberão disso. Na novela… e na vida.

  • “Mergulhando novamente no universo transgressor, iconoclasta e fascinante de Nelson Rodrigues, Gabriel Villela, com ‘Boca de Ouro’, trazendo de volta aos palcos Malvino Salvador, recorre às influências estéticas que o consagraram no país, montando um espetáculo tragicômico arrebatador e deslumbrante, escorado pela nostalgia de suas músicas, pela estrutura sólida de seu texto, e pelas atuações condizentes com a dialética rodriguiana.”

    janeiro 31st, 2018

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    Foto: João Caldas Fº

    Encenar Nelson Rodrigues é um ato que se justifica por si mesmo. Trazer à baila a sua dramaturgia tão particular e relevante desperta inapelavelmente o interesse do público teatral em testemunhar um novo olhar sobre a sua obra. A ideia de se remontar “Boca de Ouro”, um dos maiores clássicos de Nelson, peça escrita em 1959, considerada uma de suas “tragédias cariocas”, possui méritos incontestes. Enriquece e valoriza os nossos palcos, resgatando a figura deste autor que retratou como poucos a complexidade psicológica do indivíduo, traduzida nos seus costumes e comportamentos, e nas relações sociais com os seus pares, sejam eles familiares ou não. O consagrado diretor mineiro Gabriel Villela, revelado nos anos 90 junto com outros encenadores, pisou anteriormente no provocativo terreno rodriguiano, ao montar “A Falecida” e “Vestido de Noiva”. A história de “Boca de Ouro” brinca magistralmente com os conceitos de verdade e não verdade. Boca de Ouro (Malvino Salvador), que atende pelos epítetos de “O Drácula de Madureira” e “O Assassino de Mulheres”, é um poderoso e temido contraventor do jogo do bicho do subúrbio carioca, obsessivo por ouro, ao ponto de ter extraído todos os seus dentes, e ter colocado uma arcada feita com o metal precioso. Diz-se também que o homem torcedor do Fluminense (como o dramaturgo) que nasceu na pia do banheiro de uma gafieira (fato que não pode ser dito em sua frente, sob pena de vê-lo encolerizado) furtava as alianças das mulheres casadas com quem se relacionava, com o propósito de derretê-las para a feitura de seu caixão de ouro, um sonho recorrente. Quando se inicia a trama, já sabemos da morte por assassinato do bicheiro. Este crime é o ponto de partida para que o jornalista investigativo Caveirinha (Chico Carvalho), do impresso “O Sol”, saia em busca de esclarecimentos para a sua alentada matéria (como se sabe, o elemento “imprensa” ocupa lugar de destaque em outra de suas peças, “Beijo no Asfalto”; Nelson dominava profundamente o tema, devido à sua profissão de jornalista; o ambiente das redações de jornais lhe era, portanto, bastante íntimo, fazendo-nos compreender a sua inserção em seus textos). A linha dramatúrgica de “Boca de Ouro” se divide em três versões sobre a morte de Leleco (Claudio Fontana), um cidadão em apuros com suas dívidas, sem que nenhuma delas corresponda necessariamente com a verdade absoluta dos fatos, comprovando a intenção do autor em realizar um jogo cênico em que se questiona o que é verídico ou não, deixando fluir a imaginação do espectador, ao mexer com as diferentes camadas emotivas e comportamentais dos personagens envolvidos no enredo. As três possibilidades de ação/reação destes proporcionaram a Nelson Rodrigues a exploração de inúmeras situações contrastantes que contribuíram para a costura inteligente de seu corpo narrativo. Este recurso de dramaturgia se configura nos encontros entre Caveirinha e uma das muitas amantes de Boca, Guigui (Lavínia Pannunzio). Guigui narra ao ávido repórter as circunstâncias de um suposto crime de assassinato cometido por Boca contra Leleco, ligando diretamente a esposa do rapaz, a lasciva Celeste (Mel Lisboa). A partir das três versões dos fatos do crime, tem-se, outrossim, três versões da personalidade do bicheiro de Madureira. O conhecimento ou desconhecimento de sua morte faz com que a empertigada madame monte um perfil do homem que queria ser rei asteca de acordo com as suas emoções e memórias oscilantes. Dependendo das versões apresentadas por Guigui, seu marido Agenor (Leonardo Ventura) revela distintas reações, com ausência ou não de ciúme. As narrações da amante ora desenhavam um Boca de Ouro cruel, sanguinolento (fazendo jus ao seu apelido) e impiedoso, ora o mostravam como um homem irresistivelmente conquistador, com aspirações megalômanas e extravagantes, como os desejos de ser coroado como um imperador de civilização antiga ou ser enterrado em um esquife de ouro. Nestas versões, o mesmo Boca de Ouro capaz de assassinar é o Boca de Ouro religioso, com fé, que se aconselha com uma Entidade (Cacá Toledo) e mantém um pequeno altar, ou o Boca de Ouro generoso que se dispõe a fazer uma doação para uma associação filantrópica formada por três alvoroçadas grã-finas, amparadas pelos seus guarda-chuvas (Leonardo Ventura, Cacá Toledo e Guilherme Bueno). Desta forma, constrói-se, aos poucos, o arquétipo mítico, adorado e falado, para o bem ou para o mal, acima dos meros mortais. Gabriel Villela, em sua direção, provou-nos mais uma vez o quanto é brilhante ao conjugar a exuberância visual/estética de suas peças (Gabriel na maioria das vezes assina os cenários, figurinos e adereços de suas montagens, como neste caso, nas quais percebemos diversas referências e inspirações), com a solidez estrutural dos textos que resolve encenar, resultando em perfeita e admirável sintonia cênica. Aliás, não nos custa lembrar da importância que o crítico e acadêmico Sábato Magaldi, um dos maiores especialistas em Nelson Rodrigues no país, teve para o diretor, o que provavelmente o fez compreender de forma mais ampla o pródigo universo ficcional do “Anjo Pornográfico”. Gabriel se utilizou, sempre com o primor que caracteriza o seu trabalho, das referências estilísticas que o distinguiram como grande encenador. Em “Boca de Ouro” adota-se a estética do circo-teatro (uma de suas principais marcas), do Teatro Mambembe e da Commedia Dell’Arte (visível sobremaneira nos trajes dos personagens, nos adereços e no conjunto cenográfico). Na condução dos dez atores do espetáculo, valorizou-se a essência do melodrama, buscando-se o máximo de suas expressividades, tanto em suas gesticulações corporais ou imobilidades (influências da Mímica e do Expressionismo Alemão), quanto no fraseado meticulosamente saboreado sílaba por sílaba, num acento próprio, particularíssimo, alguns tons acima, de modo proposital, como se a intenção fosse a de realçar, destacar, elevar a palavra de Nelson, e toda a carga de ironia, malícia, dramaticidade e duplo sentido que a definem. Seus famosos bordões e interjeições, como “Batata!”, ganham a distinção merecida. A peça contém um espectro carnavalesco, tipicamente carioca, com confetes e serpentinas sendo lançados ao alto, a fim de demarcar certas cenas. A tragicidade inerente ao texto está presente de maneira alegórica, simbolista e até mesmo, pode-se dizer, poética. O fio narrativo é entremeado de modo coerente por canções intrinsecamente nacionais (com exceção de dois clássicos estrangeiros), com forte apelo emotivo e nostálgico junto à plateia, entoadas pela afinadíssima Crooner, personificada por Mariana Elisabetsky, com o acompanhamento ao piano do craque Jonatan Harold. Gabriel Villela, com “Boca de Ouro”, confessa publicamente toda a sua reverência e respeito ao dramaturgo pernambucano de alma carioca. Quanto ao seu elenco, todos os seus atores estão profundamente imersos não só na linguagem e no mundo rodriguianos, como no discurso teatral específico de Gabriel Villela. Para um intérprete participar da montagem de uma peça de Nelson se faz necessário um estudo de interpretação mais intenso, pois diferentes são seus meios de comunicação, e o que se testemunhou em “Boca de Ouro” foi a adesão irrestrita desses insignes e talentosos artistas, que além de defenderem seus papéis com fulgor e garra, cantam suas músicas com amor e verdade, dançam com o entusiasmo e a sensualidade exigidos, e tocam com extrema competência (no caso, Jonatan Harold, com o seu piano). Malvino Salvador é um ator que, para se conhecer por inteiro a sua capacidade interpretativa, tem-se que obrigatoriamente lhe assistir em cima de um palco. Um sucesso reconhecido e incontestável com a sua galeria de papéis na TV, Malvino nos arrebata e nos comove em cena com a sua potência e pujança dramáticas, o seu humor desenhado na entonação que imprime às suas falas e às suas expressões faciais, e ao seu excelente trabalho de corpo com o intento de garantir ao seu personagem a maior credibilidade possível. O Boca de Ouro construído pelo ator nascido em Manaus é no mínimo memorável. Composto com minúcias e riqueza de detalhes, Malvino Salvador passeia com grande desenvoltura pela controversa personalidade e difícil psicologia deste contraventor que incita amores, paixões, curiosidade e ódio daqueles com os quais conviveu, causando no público uma irrefreável empatia com a sua performance. Espanta-nos sua aptidão em se metamorfosear de um papel para o outro (quem conferiu “Chuva Constante”, de Keith Huff, sabe o que digo). Destemido ao aceitar desafios como esse, nunca aceitando em se acomodar na “zona de conforto”, Malvino Salvador atinge um momento de glória em sua já tão bem-sucedida carreira. Lavínia Pannunzio fez de sua Guigui uma mulher sofisticada, autoconfiante, com certo ar pernóstico e soberbo. A atriz, com uma postura encantadoramente elegante, em todos os seus sentidos, evoca uma série de sentimentos em sua crucial personagem, atendendo às versões diferenciadas sobre o fato que diz respeito àquele que lhe foi importante na vida como amante. Suas reações variam, e a intérprete as cumpre com garbo. Em sua atuação, as emoções vão do amor incontido pelo contraventor até a descrição, com frieza, de sua face menos nobre. Mel Lisboa comprova indubitavelmente, ao defender Celeste, a esposa de Leleco, nas três ocasiões díspares da história contada por Guigui, a sua retumbante maturidade artística. É fato que nos acostumamos com a figura doce e angelical da atriz, mas este olhar se transforma ao nos defrontarmos com a sua visão interpretativa exponencialmente forte da mulher que, para resolver um problema que envolve diretamente seu marido no que tange a questões financeiras, assume posições antagônicas que exigem da bela artista uma exposição de diversas camadas emocionais, todas resolvidas com elogiável plenitude. Seja adotando uma atitude sensualizada, seja personificando um outro lado de Celeste, mais prático, frio e objetivo, a atriz cresce enormemente em cena. Claudio Fontana tem a missão de defender dois personagens, o Dentista que coloca a arcada de ouro em Boca, e Leleco. Esta mesma missão lhe abriu um leque de amplas viabilidades de interpretação, que o fez enveredar pelos caminhos mais certeiros e apropriados. Se para o Dentista o ator apostou em um tipo com toques de caricatura, no que concerne a Leleco, os caminhos se tornaram mais desafiadores, haja vista que os acontecimentos das três situações da peça o obrigam a ostentar características extremas de um homem acuado e pressionado por fatores adversos, como o adultério (um dos temas favoritos de Nelson), a traição em sentido amplo e irrestrito, e a sensação de se estar “sem saída” diante de um episódio. Claudio se sobressai com louvável dignidade ao acatar as exigências formadoras dos perfis de seus papéis. Já Chico Carvalho se encarrega de dar vida a dois personagens do texto de Nelson: o repórter Caveirinha e Maria Luísa, uma senhora afetadíssima possuidora de segredos irreveláveis. Dotado de imensa vocação para criar tipos, brincando de forma divertida com a sua voz, Chico delineia os traços de duas pessoas totalmente opostas. Caveirinha é um repórter que não mede esforços para realizar a sua tão almejada matéria jornalística, e Maria Luísa, com uma feminilidade excêntrica, traz consigo uma névoa de mistérios, cabendo-lhe primordial função na elucidação e esclarecimento das circunstâncias que marcaram a morte do até então “imortal” bicheiro. Leonardo Ventura encarna com brio o marido de Guigui, Agenor (além de uma das três grã-finas da associação filantrópica). Leonardo, ao compor Agenor, em certas passagens lhe empresta tons de passividade de acordo com o teor das narrações de sua esposa, e em outras se mostra firme e decidido, motivado por ciúme, ao ponto de abandonar a sua mulher. Cacá Toledo se incumbe de personificar quatro figuras na dramaturgia de Nelson: o Secretário, a Segunda grã-fina, a Entidade e o Locutor. Cacá usa sua versatilidade para oferecer verossimilhança, dentro do contexto rodriguiano, a esses personagens. A Entidade, chamada por Boca de Ouro de Preto, faz-nos ouvir aquela voz familiar dos Pretos Velhos, entidades da Umbanda e Candomblé. O Locutor reverbera a sua voz impostada e sensacionalista típica dos programas de rádio da época, e sua grã-fina se revela nada puritana em seus supostos bem-intencionados objetivos. Guilherme Bueno interpreta tanto o fotógrafo quanto a Terceira grã-fina. Guilherme usa a sua habilidade corporal a fim de se colocar em consonância com o profissional que se desdobra, a todo e qualquer custo, na procura por um flagrante. Quanto à sua grã-fina, segue com a mesma acertada frequência com que os outros dois intérpretes impingiram às mulheres em busca de doações: espevitada, indócil, despudorada e com alguma dose de histeria. Guilherme cumpre muito bem o que lhe foi demandado pela direção. Mariana Elisabetsky nos dá o prazer de ouvir a sua límpida voz cantarolando com magnificência músicas que calam fundo em nossos corações e sensibilidades. Mariana serve como porta-voz de canções que remetem ao universo carioca, abrindo, por exemplo, o espetáculo com o hino “Cidade Maravilhosa”, de André Filho. Com um tempo próprio, a atriz/cantora ainda nos embevece com “Ave Maria no Morro”, “A Noite do Meu Bem” e “Vingança”, respectivamente de Herivelto Martins, Dolores Duran e Lupicínio Rodrigues. Mariana também interpreta “Bang Bang (My Baby Shot Me Down)”, de Sonny Bono. Vale ressaltar que a atriz Lavínia Pannunzio, num instante emocionado, canta “Ne me quitte pas”, de Jacques Brel. Jonatan Harold, que vive Maestro, defronte ao seu piano do lado direito da ribalta, acompanha com segurança e destreza, pontuando cena a cena, o desenvolvimento do entrecho, realçando o clima de gafieira dos anos 50, com toda a carioquice a que se tem direito. Jonatan ficou responsável pelos ótimos arranjos musicais e colaboração musical (o pianista ainda nos celebra com uma versão de “Brasileirinho”, de Waldir Azevedo). Na montagem que em muitos de seus momentos se aproxima bastante de um musical, ainda temos “Na Cadência do Samba”, de Ataulfo Alves e Paulo Gesta, “Não Deixe o Samba Morrer”, de Edson e Aluisio, e “De Frente Pro Crime”, de João Bosco e Aldir Blanc. A eclética e competentíssima direção musical e a notável preparação vocal ficaram sob os cuidados de Babaya Morais. Os cenários, figurinos e adereços, como dito antes, são de autoria de seu diretor. Quanto à parte cenográfica, retratando com charme e fidelidade o universo instigante e luxurioso de um cabaré/gafieira, Gabriel distribuiu em pontos estratégicos do palco (na frente à esquerda, e numa linha semicircular ao fundo) mesas e cadeiras de madeira (de cor preta) com respaldos vazados, sobre as quais se encontram pequenos abajures, que são mantidos acesos, quando necessários. Essas mesmas mesas servem como bases para que os atores, que usam dedais metálicos, batuquem simulando o ato de se datilografar (objetiva-se a referência a uma redação de jornal). À esquerda da ribalta, há uma escada vermelha de madeira que é usada para inúmeras cenas importantes, com os intérpretes se equilibrando sobre os seus degraus (nota-se uma passagem em particular que nos lembra a famosa “cena do balcão” de “Romeu e Julieta”, de Shakespeare). E bem no centro do tablado, o móvel mais simbólico de toda a história: um sofá/cadeira forrado com um tecido de cor mostarda invariavelmente utilizado por Boca de Ouro – um amarelo obviamente intencional. Este sofá/cadeira se encontra sobre um minipalco circular, sujeito à movimentação por força dos atores (o minipalco pode servir como um pedestal, também). Como arremate deste suntuoso cenário, taças e candelabro. Os figurinos, outra especialidade do encenador, são luxuosamente coloridos e criativos, abraçando uma infinidade de peças de vestuário que ajudam sem sombra de dúvidas no processo não só de embelezamento do espetáculo, mas como fator de melhor compreensão da história e do perfil de seus participantes, além de fazer com que a plateia mergulhe de cabeça no mundo de Nelson Rodrigues. Gabriel Villela se valeu, no caso de Boca de Ouro, de um casaco preto de mangas compridas com capuz, meias de mesma tonalidade cobrindo as pernas, bermuda escura florida, além de outras indumentárias, como gorro, chapéu e capa. O figurinista não só abusou, felizmente, das cores, mas dos brilhos. Estes dois elementos são vistos em profusão em longos transparentes com bordados, estolas, turbantes, faixas douradas, saias, golas que lembram a de um arlequim, ternos, gravatas, plumas etc. Isso nos mostra as múltiplas influências de variadas épocas de que se utiliza para dar corpo e vida aos personagens de sua peça. Rosely Fiorelli se encarregou da eminente direção de movimento. Graças ao seu “know-how” e ao seu entendimento do que pretendia o diretor, Rosely colocou os atores em um sem número de posições, algumas posadas com expressividades significativas, e outras, incluindo as danças, que demonstram o quanto de simbolismo pode haver em um simples gesto com os braços ou em um posicionamento ajoelhado, respeitando evidentemente o contexto cênico. A iluminação de Wagner Freire nos inebria e fascina pelos seus tons bruxuleantes, e por adotar assumidamente uma atmosfera que reportasse sem desvios ao ambiente peculiar a um cabaré/gafieira dos anos 50. Os pontos de luz advindos dos delicados abajures nos oferecem o clima perfeito do local de encontros, dança e música. Wagner teve como propósito diversificar o máximo que pôde as possibilidades de texturas luminosas. Em algumas ocasiões, vê-se um plano semiaberto (jamais estourado), com tonalidades próximas à sépia. Cores primárias, como o azul, também colaboram. As sombras e os focos pontuais nos atores são demasiado utilizados. Blecautes com picos de estroboscópios simulam espertamente os flashes do Fotógrafo. A interseção entre fog e luz nos transmite uma sensação etérea do mundo onde se desenrola a ação. A maquiagem de Claudinei Hidalgo é notadamente expressiva, realçando as faces do elenco com bases mais claras ou esmaecidas, valorizando as mulheres com batons de vermelho intenso, e destacando, em ambos os gêneros, as linhas de suas sobrancelhas (o sangue cenográfico merece menção pelo seu realismo e impacto). “Boca de Ouro” nos leva a crer que o teatro está mais vivo do que nunca. O resgate da obra de nosso maior dramaturgo, Nelson Rodrigues, feito por um de nossos diretores mais imaginativos e consagrados, Gabriel Villela, dois artistas genuína e essencialmente nacionais, numa era em que a autoestima do brasileiro precisa ser realimentada, resulta em uma equação infalível de sucesso. Malvino Salvador de volta aos palcos encarnando de forma absolutamente nova, refrescando óticas passadas sobre o ser mítico contraventor, outrossim se configura como mais uma razão para a realização desta montagem inesquecível. Os atores que o acompanham, sem quaisquer receios de se entregarem às almas conflituosas pensadas na mente de Nelson, também já valem a ida ao teatro. Os aplausos finais se justificam. Há uma luz dourada no fim do túnel para a cultura geral de nosso país. Tão dourada quanto o sorriso aberto e cheio de significados de Boca de Ouro.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    janeiro 24th, 2018

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Andre Fellipe na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
    Andre é carioca, sendo agenciado por várias agências: AVE Management (Singapura), The Fashion Model Management (Milão, Itália), Mega Model Brasil (São Paulo), Divo MGMT Brazil, One Management (NYC), MGM Germany e Leni’s Model Management (Londres).
    Por um tempo, morou na Ásia, sendo capa da “L’Officiel” Singapura.
    Fez campanha para a Calvin Klein, Brooksfield JUNIOR e Neill Katter.
    Foi clicado por Ronald Luv para um ensaio em p&b, publicado no site “The Fashionisto”, e por outros profissionais, como Guille Vargas Pohl, Yeral Solis Martinez, Ítalo Gaspar (“Coitus Magazine), Jeff Segenreich, Xavier Samré, Eber Figueira, Hudson Rennan e Marcos Florentino.
    Estampou a capa da 34ª edição da “FFWMAG”.
    No Fashion Rio Outono Inverno 2014, circulou pelas passarelas de três grifes: Coca-Cola Jeans, R.Groove e TNG.
    Possui ensaios na “Desnudo Magazine” (fotografado por Patricio Roldan), para a marca Erreà Republic (Dinamarca) e “POSH Magazine” (foto de Fernando Machado).
    Fez um vídeo publicitário para a Fashion Park, no Chile.
    Na edição de inverno 2016 da São Paulo Fashion Week, o modelo desfilou para João Pimenta (na mesma semana de moda, só que em outras temporadas, desfilou para marcas distintas, como Osklen e Colcci).
    Atualmente, Andre Fellipe reside em Milão, Itália.

    Agradecimento: TNG

  • “ ‘Deus Salve o Rei’, a nova novela das 19h da Rede Globo, estreou com imagens arrebatadoramente belas, uma história de reis e príncipes que promete encantar o público, elenco de estrelas encabeçado por nomes de peso como Marco Nanini e Rosamaria Murtinho, valorizando, desta forma, o talento de seu autor, Daniel Adjafre, e de seu diretor, Fabrício Mamberti. “

    janeiro 10th, 2018

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    Foto: Sergio Zalis/Rede Globo

    Ontem à noite, o público cativo das 19h certamente se embeveceu e se inebriou com o primeiro capítulo de “Deus Salve o Rei”, a nova novela do horário na Rede Globo, marcando a estreia de Daniel Adjafre como autor titular na emissora. Jamais vimos na teledramaturgia brasileira, com o auxílio bem-vindo das tecnologias da computação gráfica, cenas tão grandiloquentes e exuberantes, somente vistas nas telas de cinema, servindo a uma trama medieval com todos os requintes que ela merece, com disputas entre reinos, casamentos prometidos, lutas entre príncipe e salteadores, belas princesa e plebeia, e reis em conflito. Tanta grandiosidade visual, associada naturalmente à Sétima Arte, fez com que este primeiro capítulo fosse exibido em seis capitais do país. Com direção artística de Fabrício Mamberti, a história começa com expressivas imagens congeladas de soldados em brutais e sangrentas batalhas campais (algo como a técnica “tableau vivant”, conferida no filme de Martti Helde, “Na Ventania”). Somos apresentados aos primórdios do enredo pela voz de Rosamaria Murtinho, a Rainha Crisélia, do Reino de Montemor. Segundo ela, durante 300 anos, o Reino sempre primou pela proteção de suas fronteiras, vivendo de suas conquistas, tendo fartura e bonança graças à extração de minério de ferro, à lavoura e ao gado. No entanto, não houve a preocupação com bem tão precioso: a água. O rio que o abastecia secou. A saída fora entrar em acordo com o reino mais próximo, Artena. Em troca da água, o minério de ferro. Objetivando a sua independência, é construído em Montemor o grande aqueduto, que demandou anos, e hordas de operários. Chega o dia em que a Rainha Crisélia, ao lado de seu neto, o Príncipe Afonso (Romulo Estrela), entrega aos seus súditos a água esperada, em uma portentosa cerimônia. Para decepção geral, seu jorro minguou. O lago que servia como fonte do aqueduto também secou, anunciou um soldado. Conhecemos o outro herdeiro do trono de Montemor: o atoleimado e mulherengo Príncipe Rodolfo, personificado por Johnny Massaro. Rodolfo é notificado por sua avó sobre o fracasso de sua obra. Numa reunião familiar na Sala do Trono, fica decidido pela Rainha que a paz existente entre os Reinos de Montemor e Artena, que já dura 50 anos, será mantida, e com isso, o seu acordo. Afonso se prontifica a realizar uma expedição às colinas em busca de uma nova fonte de água. Viajamos para o Reino de Artena, e nos deparamos com a linda e doce Amália (Marina Ruy Barbosa), dona de uma barraca de caldos. Independente, Amália resiste às pressões de seu futuro marido, o comerciante de tecidos Virgílio (Ricardo Pereira), para abandonar o trabalho, e se dedicar exclusivamente a ele. Nas dependências externas do castelo do Rei Augusto (Marco Nanini), ouvimos a composição poética, ao som das cordas de um alaúde, de Istvan, o Marquês de Córdona (Vinícius Calderoni), apaixonado pela bela e soberba Princesa Catarina (Bruna Marquezine), que nos deixa clara a sua rejeição pelo inocente rapaz. Catarina é avisada por Lucíola (Carolina Ferman), sua camareira e confidente, de que o seu pai, Augusto, quer falar com ela. Em sua sala, o Rei Augusto diz a sua filha o quanto preza o seu pretendente, até que são interrompidos pelo conselheiro Demétrio (Tarcisio Filho). Leal ao Rei, informa-lhe sobre o destino malsucedido do aqueduto. Neste momento, testemunhamos a ganância e a falta de ética de Catarina, ao propor ao pai que aproveitem a situação de fragilidade do Reino de Montemor para alterarem o acordo em favor de Artena, sendo imediatamente repreendida pelo justo e honrado Augusto. A cena termina com o Rei comentando: “ É como diz o ditado, Demétrio. Se quiser fazer Deus rir, faça planos. E eu acrescentaria. E se quiser fazê-lo gargalhar, faça planos para seus filhos”. Enquanto isso, em Montemor, após o afetado e fútil Príncipe Rodolfo determinar aos seus criados o que desejaria para a sua festa, uma importante conversa entre os irmãos reais ocorre, na presença do médico Lupércio (Pascoal da Conceição), que cuida de sua avó. Lupércio lhes afirma que os lapsos de memória da Rainha Crisélia estão evoluindo, e que se trata de uma doença desconhecida, sem tratamento (o que no futuro, viria a ser conhecido como o Mal de Alzheimer). Rodolfo revela a sua face mais feia, ao demonstrar friamente o seu desinteresse pela saúde da Rainha. Num colóquio particular, ciente de seu estado clínico, Crisélia comunica a Afonso que o seu desejo é que, quando volte da expedição, assuma o trono. Amália chega à sua casa, e como de costume, seus pais Martinho (Giulio Lopes) e Constância (Debora Olivieri) estão discutindo (o casamento deles foi arranjado). Amália tem um irmão, Tiago (Vinícius Redd). Ambos discorrem sobre o amor e o casamento. Neste instante, a moça deixa transparecer a sua porção romântica e idealista. Em seus aposentos, o Rei Augusto confessa a Demétrio que está na hora de sua filha se casar, e que o Marquês de Córdona seria o seu marido ideal, por ser um homem virtuoso. Assim, Catarina poderia se tornar uma pessoa melhor, mais indulgente, segundo o próprio rei. O Príncipe Afonso se despede de sua avó, e inicia, acompanhado de Cássio (Caio Blat), o Comandante do Exército de Montemor, a expedição em busca de água para o reino. Quinze dias depois, Afonso, um pouco desiludido, diz a Cássio que se não encontrarem água no vale próximo, dará por encerrada a expedição. Constantino, o Duque de Vicenza (José Fidalgo) lhes conta que encontrou restos de comida não muito longe, o que indica a presença de ladrões. Durante a cavalgada, são surpreendidos pelo bando de salteadores. Decorre uma violenta batalha entre os dois lados, com direito a lutas bem coreografadas, e difíceis de serem executadas, vale dizer. Numa sucessão de cenas de violência estetizada, em que corpos são perfurados de forma inclemente por lanças e flechas, sobram mortos e feridos. O Príncipe se afasta de seus aliados, e acaba sendo gravemente ferido por uma flecha. Em Artena, Augusto comunica a Catarina que o Marquês pediu o seu consentimento para se casar com ela, recebendo a sua aprovação, para desgosto da princesa. Amália sai pelo campo com o seu irmão para colher laranjas, rabanetes e manjericão. Tiago vai para um lado, e sua irmã para o outro. De repente, Amália cai com o seu cesto. Próximo dela, o Príncipe desfalecido e pálido. Os olhos da Princesa o miram com paixão. Ele, mesmo desacordado, aperta com força a sua mão, não a largando mais. Em uma bonita cena final, a câmera voa alto sobre o casal, fechando com uma estonteante paisagem de montanhas ao fundo. O texto escrito por Daniel Adjafre e Cláudia Gomes, com a colaboração de Angélica Lopes, Péricles Barros e Sérgio Marques é um primor. Não é fácil engendrar uma trama passada na Idade Média, em locais fictícios, criar personagens condizentes com aquela época, e que sejam ao mesmo tempo críveis, causando empatia nos telespectadores, construir elos entre os núcleos, tornando a fantasia próxima de nós. Tudo isso foi logrado pela equipe de autores, que se esmeraram na construção dos diálogos, inteligentes, sendo alguns muito bem-humorados, e outros emocionantes. Há espaço tanto para o romance, quanto para o drama e a comédia. A direção artística de Fabrício Mamberti e geral de Luciano Sabino, tendo como colaboradores os diretores João Boltshauser, Oscar Francisco, Pedro Brenelli e Bernardo Sá merece quantos elogios forem possíveis. Imaginamos a dificuldade em conduzir e comandar certas cenas, principalmente as de batalhas, e aquelas que necessitam de um considerável número de figurantes e elenco de apoio. Não menos complexas são as cenas entre dois ou três atores, como as com Marco Nanini, Bruna Marquezine e Tarcisio Filho, ou entre Rosamaria Murtinho e Romulo Estrela, que demandaram um intimismo maior, uma delicadeza em seu tempo. O elenco é um acerto indiscutível. A escalação optou por nomes jovens, alguns bastante queridos e admirados pelo público, apostou corajosamente em Romulo Estrela para ser o protagonista masculino, convocou atores experientes, e grandes representantes da arte nacional, como Marco Nanini e Rosamaria Murtinho. Bruna Marquezine, no alto de sua esbelteza, destila a empáfia de Catarina. Marina Ruy Barbosa abusa, para o nosso agrado, de sua formosura para compor Amália. Johnny Massaro, antes de tudo, possui uma veia cômica como poucos de sua idade, mas sabe, da mesma maneira, imprimir a dramaticidade perfeita ao seu personagem, como o fez com Rodolfo. Romulo Estrela tem todos os méritos para se tornar uma das opções de sua geração para protagonizar histórias com as quais o seu perfil se encaixe. O bonito ator, que já brilhou em outras produções da emissora, como “Liberdade, Liberdade”, e mais recentemente na minissérie “Entre Irmãs”, preferiu o caminho da sobriedade e do comedimento, convencendo indubitavelmente na postura e na voz de seu Príncipe Afonso. Caio Blat, Ricardo Pereira, Tarcisio Filho, Pascoal da Conceição, Debora Olivieri, Giulio Lopes, Vinícius Redd e Carolina Ferman defenderam com garbo as exigências dramáticas de seus papéis, enriquecendo cada cena de que participaram. José Fidalgo e Vinicius Calderoni, em suas aparições, já provaram que são garantias de bons momentos no folhetim. Marco Nanini, um de nossos maiores intérpretes, colecionador de personagens inesquecíveis em telenovelas, como “Gabriela” e “Brega e Chique”, além, é claro, do seriado “A Grande Família”, sem trocadilhos, é uma presença nobre em cena, com todo o seu conhecimento interpretativo e inteligência emocional, valorizando cada palavra, cada frase emitida pelo seu Rei Augusto, que já nos conquistou. Marco emprestou ao seu papel a severidade esperada de um soberano, mas também uma sensibilidade irresistível. Rosamaria Murtinho, outra insigne atriz de nossas Artes, faz parte da História de nossa TV, com carreira prodigiosa, assim como Marco Nanini, no cenário teatral, e o convite que lhe foi feito para dar vida à honrada Rainha Crisélia não poderia ter sido mais oportuno. Rosamaria nos transmite uma beleza de interpretação que transcende as telas, não nos poupando de sua vasta emoção ao desenhar os traços delicados e necessariamente austeros de sua Rainha. A cenografia de Keller Veiga e Pedro Equi é deslumbrante em sua amplidão, no que corresponde aos espaços palacianos, e charmosa e coerente no que se refere aos ambientes mais simples, como a casa de Amália. A cidade cenográfica, com suas fachadas e logradouros, impressiona. A cenografia virtual, que nos provoca alumbramento, coube a Marcio Fontes e Glaucio Lazaro. Nininha Médicis ficou encarregada da produção de arte impecável. Cada detalhe, como taças de metal, os elementos que ornamentam a feira de Artena, os aspectos domésticos da morada plebeia, os pontos caracterizadores do banheiro de Catarina nos causam assombro pelo seu capricho e pesquisa. Mariana Sued se incumbiu da confecção dos figurinos riquíssimos. A riqueza dos costumes não se restringe ao sentido literal do termo, com todos os enfeites, ornamentos e filigranas estilísticas das vestes nobres, mas na elegância simplória das vestimentas dos plebeus, e na eloquência estética dos uniformes dos soldados reais (a equipe de figurinistas assistentes e apoio ao figurino é enorme). A direção de fotografia ficou sob a batuta de Alexandre Fructuoso. Alexandre explorou bastantes possibilidades de texturas, filtros e luminosidades. Seu trabalho é irretorquivelmente magistral. Alexandre impingiu um colorido vívido às cenas de multidão, como na inauguração do aqueduto. Escolheu as sombras e meias-luzes nas dependências do palácio, como na conversa definitiva entre o Rei Augusto e a Princesa Catarina, e tonalidades azuladas nas noites do Reino de Artena. Os efeitos especiais de Federico Farfan, e os efeitos visuais de Marcelo Nicacio e Rafael Ambrosio, em associação com a avançada tecnologia da computação gráfica, podem ser definidos, sem hesitação, como excelentes, servindo para o ótimo acabamento estético da produção. A lindíssima abertura foi imaginada por Alexandre Romano, Flavio Mac, Fabricio Duque e Felipe Lobo. Este criativo e inspirado quarteto se utilizou de tons amarelos/dourados fortes (há uma evolução para outras cores, algumas mais escuras), e uma câmera em movimentos contínuos e circundantes que testemunha fatos que aludem ao enredo, com as pessoas simbolizadas por bonecos meticulosamente artesanais (parecem feitos de cobre). Há um séquito de cidadãos plebeus carregando baldes de água em direção a um castelo no alto de uma colina, um casal apaixonado, uma moça fugitiva, rosas e seus galhos retorcidos, chuvas de flechas em uma batalha, uma ave com olhos faiscantes, uma princesa sendo coroada, terminando com um soldado de costas para uma mulher. Uma pequena obra-prima com a voz divina da jovem norueguesa de 21 anos Aurora interpretando a canção folclórica “Scarborough Fair”. As magníficas músicas originais receberam a assinatura de Alexandre de Faria e Rodrigo Marsillac, com gerência musical de Marcel Klemm. As músicas, de caráter essencialmente épico, foram gravadas na República Tcheca pela Orquestra Filarmônica de Praga, no Smecky Music Studio, durante quatro dias (a orquestra está acostumada a fazer trilhas para filmes relevantes, como a trilogia de “O Poderoso Chefão”). O resultado ficou esplêndido. “Deus Salve o Rei”, definitivamente, levando-se em conta o seu inesquecível primeiro capítulo, já entrou para a história da TV brasileira. Muitos são os motivos para prender o telespectador, e fazê-lo acompanhar esta encantadora e mágica história. Por algumas dezenas de minutos, de segunda a sábado, iremos nos sentir como nobres ou plebeus, em Montemor ou Artena, isso não importa. O importante é embarcar nesta fascinante obra teledramatúrgica, cheia de sonhos e fantasia. Se Deus salvou o Rei, também salvou a luz criativa, a ousadia e o talento de toda a equipe da nova novela das 19h, “Deus Salve o Rei”.

  • “ Com forte inspiração nos filmes-catástrofe norte-americanos que se tornaram um gênero cinematográfico a partir dos anos 70, a nova minissérie da Rede Globo, ‘Treze Dias Longe do Sol’, com Selton Mello, Carolina Dieckmann, Paulo Vilhena e Debora Bloch, impressiona pelos efeitos especiais espetaculares, somados a uma direção extremamente habilidosa de Luciano Moura, e a um time de atores com grande credibilidade junto ao público. “

    janeiro 9th, 2018

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    Foto: Ramón Vasconcelos/Gshow

    Desde a década de 70 nos acostumamos a assistir pela TV aos clássicos do cinema-catástrofe norte americano, como “O Destino do Poseidon”, de Ronald Neame (1972) e “Inferno na Torre”, de John Guilhermin (1974). Houve um interregno deste gênero, até que nos anos 90 se percebeu o surgimento de muitos longas que tinham os seus roteiros baseados em catástrofes, fossem elas naturais, como “Twister”, de Jan de Bont (1996), ou não, como “Independence Day”, de Roland Emmerich (1996) e “Titanic”, de James Cameron (1997). Com a proximidade dos anos 2000, e suas teorias sobre o fim do mundo, a indústria do cinema lançou obras pessimistas e sobrenaturais, como “Fim dos Dias”, de Peter Hyam (1999). Até hoje são distribuídos no circuito filmes de temática catastrófica, ainda mais com os avanços da computação gráfica. No Brasil, em se tratando de televisão, raros são os casos em que eventos com a magnitude de uma catástrofe foram retratados. Um dos melhores exemplos talvez seja a novela de Silvio de Abreu, “Torre de Babel” (1998), na qual a personagem de Adriana Esteves, Sandrinha, causou a explosão de um shopping. No entanto, não podemos deixar de destacar outras duas novelas exibidas no momento, “O Fim do Mundo”, de Dias Gomes (1996), reprisada no Canal Viva, e “Apocalipse”, de Vivian de Oliveira, na RecordTV. Uma das apostas da Rede Globo para este início de ano é a minissérie de Elena Soarez e Luciano Moura (com a colaboração de Sofia Maldonado), “Treze Dias Longe do Sol”, com a direção artística do próprio Luciano Moura. A minissérie, em resumo, discorre sobre os treze dias em que o engenheiro Saulo (Selton Mello), a médica Marion, filha do dono do prédio que abrigaria uma clínica, Dr. Rupp (Lima Duarte), interpretada por Carolina Dieckmann, Yasmin (Camila Márdila), a filha grávida de um dos operários, Jesuíno (Antonio Fábio), e mais alguns operários tentam sobreviver, após seu desabamento, nos escombros do edifício construído com materiais e quantidades adulterados pelo engenheiro e pela diretora financeira Gilda (Debora Bloch) da Baretti Construtora, de propriedade do inescrupuloso e corrupto Vitor Baretti (Paulo Vilhena), com o intuito de desviar recursos para a compra de parte da empresa. Impossível para nós, telespectadores, não nos lembrarmos de casos reais, como o desabamento de dezenas de apartamentos do edifício Palace II, ocorrido criminosamente em pleno domingo de Carnaval de 1998, matando 8 pessoas, e deixando 176 famílias desabrigadas, na Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Na cena inicial do episódio “Falha Estrutural”, vemos Saulo defronte ao mar com pensamentos suicidas. Partimos para o prédio em construção, localizado em São Paulo, com sua visão externa. Em seu interior, o engenheiro fita, angustiado, uma enorme rachadura que teima em aparecer em um dos pavimentos. Conversa rapidamente com Gilda ao telefone sobre problemas de pagamento a fornecedores. Fica-nos claro que há uma conta com fundos ilegais que não pode ser mexida. Sob uma chuva torrencial, Vitor chega ao edifício. A relação entre ele e Saulo não é das melhores. Falam acerca da pressão dos compradores do prédio com relação ao atraso de sua entrega, e das iminentes vistorias. Ocorre também um conflito sobre quem deverá ir ao encontro com o prefeito, demonstrando a colaboração deste com práticas ilícitas. Marion chega ao local para vistoriar o andamento das obras (ela representa o seu pai, que está adoentado, recuperando-se de um AVC), percebendo que há ainda muito o que se fazer, sendo sempre contrariada pelo engenheiro. O casal deixa à vista um clima de romance mal resolvido. A chuva continua a cair forte, e um alagamento suspeito irrompe do chão. Yasmin vai visitar o seu pai Jesuíno em seu local de trabalho. Desconhecendo seu estado de gravidez, Jesuíno reage mal. Existe uma relação estranha entre ambos. Na reunião em que se espera a presença do prefeito, Vitor se mostra bastante inquieto devido a negociações espúrias não fechadas. Luciano Chirolli, como Samuel Krieg, representa o prefeito, que já assentiu a negociata com o jovem empresário. Enquanto os operários Zica (Démick Lopes) e Dario (Glauber Amaral) brigam por dívidas, a água continua a brotar do chão. E não é cano estourado. Marion continua a encontrar uma série de irregularidades na obra, como cilindros de oxigênio armazenados. O que se esperava finalmente aconteceu. O prédio desabou. As cenas dirigidas por Luciano Moura e Isabel Valiante são incrivelmente realistas e impactantes, com efeitos especiais de altíssimo nível, similares aos vistos nas produções do gênero americanas. O construtor Vitor fica sabendo do sinistro pelo celular, ao mesmo tempo em que jornalistas, já cientes, fotografam-no impiedosamente. Num ambiente de total desolação, com uma montanha imensurável de concretos em pedaços, carro de Bombeiros e socorristas chegam aos montes. O diretor optou por fazer uma tomada aérea central, a fim de que tivéssemos a real noção da tragédia. A montagem e edição de imagens é rápida, tremida, nervosa, acompanhando a velocidade dos acontecimentos, não poupando o público das cenas de pessoas feridas, ensanguentadas, desacordadas. Uma reprodução fiel do que nos habituamos a assistir nos telejornais. Registros dignos de um atentado terrorista. Passamos para o Quartel de Bombeiros onde se encontra o Capitão Marco Antônio, personificado por Fabrício Boliveira. O Major, enfrentando a resistência do Capitão, que alega estar suspenso, e o Regimento não permite a sua saída, designa-o para ajudar nos resgates. Paira a dúvida sobre o que o Capitão deve ter feito ao ponto de ter sido punido. Lá chegando, toma a frente das operações de salvamento. No imenso escritório central da Baretti Construtora, Gilda, atônita, anda de um lado para o outro dando ordens, até que sabe por Vitor de que tanto Saulo quanto Marion estão soterrados. Dr. Rupp, aos prantos, debate-se em sua cama ao tomar conhecimento da situação de sua filha. Nos resgates, o Capitão Marco Antônio tem que tomar decisões difíceis, que contrariam as normas convencionais de procedimentos de salvação nestes casos. No local das buscas, Gilda, em estado de choque, procura ao máximo atrapalhar o trabalho dos assistentes sociais. Há a suspeita de que Saulo esteja entre os mortos encontrados. Entretanto, Ilana Krieg (Maria Manoella), sua ex-mulher, acompanhada de uma assistente social (Dani Nefussi), não reconhece o corpo, espantando-se ao saber que Marion está entre os soterrados. Num espaço de terror, em meio a poças d’água, jorros de água, escuridão e entulhos, o engenheiro parece catatônico. Ouvem-se gritos de toda parte. Dario, um dos operários, está gravemente ferido, e é socorrido pelo seu irmão Daréu (Rômulo Braga). Um fio desencapado próximo à água os ameaça com a eletrocussão. Entre os sobreviventes, está Bené (Arilson Lopes). Alguns gritam, entre eles Marion: – Saulo, nós temos que sair daqui!. Saulo se levanta e vai em direção aos irmãos, sendo agredido. O engenheiro pega uma pedra, golpeando Daréu na cabeça com brutalidade. A insanidade começa a imperar no universo onde a lei da sobrevivência ditará as regras. O texto de Elena Soarez e Luciano Moura obedece aos preceitos determinantes deste gênero narrativo, cumprindo a sua precípua função de imprimir à trama doses substanciais de ação, terror e suspense, em paralelo, nesta minissérie, a uma rede de intrigas que envolve corrupção, ganância e sede de poder, não abrindo mão, contudo, de conflitos de caráter afetivo. Os diálogos são fluidos, certeiros e afiados, adequando-se à objetividade deste tipo de história. Na categoria em que se insere esta espécie de roteiro não são permitidas cenas demoradas, tampouco conversações longas, atingindo-se desta forma o timing exigido em situações fictícias desta natureza. Luciano Moura e Isabel Valiante se empenharam em retratar em imagens convincentes e chocantes esta série de episódios marcados pelo horror do desabamento de um prédio com pessoas em seu interior. Como já foi dito anteriormente, amparados em efeitos especiais de potência visual inacreditável, procuraram extrair do elenco os principais aspectos definidores das personalidades de seus personagens. Há um elemento comum na quase totalidade das cenas levadas ao ar: a tensão. Uma tensão em diferentes nuances, apropriada ao contexto e à contingência dos fatos. O elenco, muito bem escalado, reúne intérpretes com carreira consolidada no cinema, como Selton Mello, e na TV, como Carolina Dieckmann. Por sinal, é o reencontro deste casal que tanto sucesso fez na novela de Walther Negrão, “Tropicaliente” (1994), como Vitor e Açucena, respectivamente. Selton construiu o engenheiro Saulo com certa frieza e distanciamento. O engenheiro, mesmo ciente de seus atos errados e condenáveis, imbui-se de uma força interna que o faz seguir em frente na prática de seus intentos criminosos. Nota-se, de modo quase imperceptível, um sentimento de culpa em sua consciência (com a exceção da cena inicial). Carolina Dieckmann, como Marion, transmitiu-nos toda a sensação de incredulidade que perpassa os seus sentimentos. Existe em sua relação com o engenheiro vestígios de ressentimento e mágoa. A atriz soube traduzir com distinta eficiência estas impressões de sua identidade. Paulo Vilhena encarna com notável pujança o arrogante herdeiro da Baretti Construtora. Paulo coloriu o jovem ambicioso e corrupto com tintas de cinismo e empáfia, transitando para outra esfera de reações emotivas quando o seu plano de enriquecimento ilícito começa a ruir. Debora Bloch abrilhantou o episódio ao criar uma mulher rude, insensível, gananciosa, que se vale de seu alto cargo para se locupletar. Gilda não se deixa atemorizar ao lançar mão de expedientes reprováveis com o propósito de burlar a lei. A atriz garantiu excelentes cenas à minissérie. Fabrício Boliveira defendeu com grande dignidade o personagem Marco Antônio, Capitão do Corpo de Bombeiros. Seu olhar fixo é sofrido por guardar na memória um fato na profissão que o traumatizou. Todavia, seu entusiasmo em salvar vidas no local do desmoronamento empolga e comove. Por sinal, a cena em que dá ordens aos demais bombeiros, contrariando os procedimentos de praxe, merece menção. Lima Duarte, como Dr. Rupp, dispensa comentários, pois sua simples aparição engrandece e enobrece qualquer produção teledramatúrgica. Luciano Chirolli, importante ator de teatro, valorizou sobremaneira o megaconstrutor Krieg, oferecendo-nos a real dimensão de sua condição como empresário avesso à ética, em conluio promíscuo com o poder político. Camila Márdila, intérprete brasiliense que se destacou no filme “Que Horas Ela Volta?”, de Anna Muylaert, personificou com sensibilidade a filha grávida rejeitada pelo pai. Maria Manoella, como Ilana, a ex-mulher de Saulo, expressou tanto o desespero com a possível morte do engenheiro, quanto a decepção ao saber da presença de Marion na obra, o que lhe causou evidente ciúme. Os demais atores do elenco se sobressaíram, como Dani Nefussi (atriz que se notabilizou no longa de Anna Muylaert “Mãe Só Há Uma”), Antonio Fábio, Arilson Lopes (Bené), Démick Lopes, Rômulo Braga e Glauber Amaral. A direção de fotografia de Ralph Strelow e Rodrigo Monte se mostra coerente com a temática, apostando nas tonalidades acinzentadas, frias, cruas. O cinza da obra, dos concretos, do dia chuvoso, além da impessoalidade das salas da grande construtora. A inteligente e difícil montagem coube à dupla Marcio Hashimoto e Lucas Gonzaga. Na instigante abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Renan de Moraes temos a ótima canção de PJ Harvey, “When Under Ether”, na versão de Beto Villares e Érico Theobaldo. Nela, a câmera passeia por objetos e locações diferenciadas, com suave fusão de imagens. O universo familiar, com móbiles infantis, óculos e aliança se mistura ao local da tragédia, com seus elevadores, suas lâmpadas piscando, a água invadindo o piso, capacetes, crachás e armários de operários. “Treze Dias Longe do Sol”, uma coprodução da Rede Globo com a O2 Filmes, é uma minissérie que traz uma renovação na teledramaturgia brasileira em termos de linguagem, haja vista que não estamos habituados, como dito, a este gênero narrativo. Com cada episódio possuindo um título específico, não seremos poupados de elementos que naturalmente atraem a nossa atenção e interesse, como suspense, ação, intrigas, terror e até um pouco de romance. Veremos a que ponto chega o comportamento humano diante das situações mais adversas, em que a vida e a morte estão intimamente ligadas. Valerá a pena ficarmos os próximos nove episódios em frente à TV. Bem longe do Sol.

     

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