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Blog do Paulo Ruch

  • “Estreando brilhantemente na direção teatral, Dani Barros transpôs com força, beleza e lirismo para os palcos um dos filmes mais emblemáticos do início dos anos 2000, ‘Dançando no Escuro’, de Lars Von Trier, escorada por um elenco de alto e reconhecido nível, encabeçado por Juliane Bodini, como Selma, uma mãe abnegada por amor incondicional ao filho, e músicos com exponencial qualidade artística”.

    dezembro 11th, 2017

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    Foto: Elisa Mendes

    No ano 2000, os amantes de cinema de todo o mundo ficaram impressionados com o mais novo filme do cineasta dinamarquês seguidor do Movimento Dogma 95, Lars Von Trier, estrelado pela cantora e compositora islandesa Björk, “Dançando no Escuro”. O longa-metragem fazia parte de uma trilogia chamada “Coração de Ouro” (as demais obras eram “Ondas do Destino” e “Os Idiotas”). Vencedor da Palma de Ouro em Cannes como Melhor Filme e Melhor Atriz, também foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. O drama musical narrava a história da imigrante tcheca Selma Jesková, nos Estados Unidos de 1964, em plena Guerra Fria, vítima de uma doença degenerativa cujo principal sintoma era a cegueira completa, que se desdobrava diuturnamente no trabalho em uma fábrica local com o único propósito de juntar o dinheiro necessário para pagar a cirurgia de seu filho adolescente Gene, que possivelmente desenvolveria a enfermidade genética. Traduzir esta trama espinhosa, doída, porém cheia de poesias e lirismo, para o teatro, incluindo-se as canções de melodia diferenciada e única de Björk, parecia, à primeira vista, uma tarefa impossível de se realizar. Não para o nova-iorquino Patrick Ellsworth. A atual montagem no Brasil teve a sua semente nos tempos de escola de teatro da ainda estudante Juliane Bodini. Há exatos dez anos, na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), no Rio de Janeiro, Juliane, sob a supervisão de seu professor, o dramaturgo e diretor Paulo Afonso de Lima, foi apresentada ao impactante filme de Trier. Junto com seus colegas, fez uma montagem baseada na criação do cineasta, e prometeu a si mesma que no futuro, já como profissional, encenaria o musical “Dançando no Escuro”. Com os direitos comprados em 2015, associada ao também ator e produtor Luis Antonio Fortes, dá início à longa empreitada que resultaria em um dos melhores musicais jamais vistos nos últimos anos no país. Com precisa e cuidadosa tradução de Elidia Novaes, foi convidada para a direção do espetáculo a ótima atriz Dani Barros, estreante nesta função. Dani se celebrou ao protagonizar o incensado monólogo “Estamira”. Seria este um dos maiores desafios da trajetória bem-sucedida da artista. Desafio aceito, “Dançando no Escuro”, findo todo o seu processo de construção, tornou-se um dos espetáculos mais elogiados da temporada, com excelente receptividade de público e crítica. Sua estreia no Sesc Ginástico, no Rio de Janeiro, ocorreu em outubro passado, e se estendeu até novembro. Durante os quatro primeiros dias de dezembro fez uma curta e elogiada passagem pelo Teatro da UFF, em Niterói, município fluminense. A montagem hoje já conta com duas indicações para o Prêmio Cesgranrio de Teatro: Melhor Atriz em Musical para Juliane Bodini e Melhor Direção Musical para Marcelo Alonso Neves. A dramaturgia bem estruturada de Patrick Ellsworth, centrada na linearidade, sem que esta comprometesse o dinamismo e timing da ação narrativa, foi respeitada com esmero pela tradutora. A peça conta a história desta imigrante de um país comunista, Selma Jesková, vivida por Juliane Bodini, que se adapta ao ritmo frenético de um trabalho fabril em terras com ideologias políticas e econômicas distintas, tendo como objetivo principal a salvação de seu doce filho Gene (Fábio Cardoso) da doença que já a acomete. Confessa admiradora dos musicais hollywoodianos (segundo ela, estes mesmos filmes não deveriam ter o “grand finale”, a fim de que pudéssemos imaginar a continuação de seus ingênuos entrechos). Nos intervalos em que não está trabalhando (empacotando grampos, aproveita as folgas para aumentar o seu orçamento), Selma ensaia com os seus companheiros de fábrica um musical. Quem os dirige é o exigente Samuel (Andrêas Gatto). Selma aluga um trailer simples, pertencente ao cordial policial Bill Houston (Lucas Gouvêa), casado com a deslumbrada e fútil Linda Houston (Julia Gorman). No ambiente de trabalho, Selma ouve as declarações afetuosas de Jeff (Luis Antonio Fortes), e recebe os conselhos e orientações de sua melhor amiga, a ponderada Carmen Baker (Cyria Coentro). Cada vez mais perseverante em seus intentos, decide labutar à noite, também. Neste turno, conhece a espontânea e masculinizada supervisora Dolores (Suzana Nascimento). Os funcionários dos períodos antecedentes são fiscalizados com mãos de ferro pelo supervisor Norman (Marino Rocha). Em meio às perigosas e arriscadas prensas e chapas da fábrica, a mãe de Gene vai perdendo a sua visão progressivamente. Este drama pessoal não a afasta de seus sonhos musicais, e por enquanto não a tira dos ensaios da peça. A moça amante dos passos compassados e ritmados do sapateado é invariavelmente visitada pelo seu filho. Todos se perguntam por que Selma trabalha tanto. Para ela, a verdade não seria adequada, preferindo a versão de que manda todas as suas economias para o seu pai, um ex-bailarino tcheco. Já praticamente sem visão, o que lhe acarreta não só prejuízos físicos e profissionais, Selma é surpresa ao ser abordada pelo inicialmente cordato Bill. O policial, capaz de agrados como presentear Gene com uma bicicleta nova, está atolado em dívidas, não tendo como saldá-las. Com a pretensão de manter o seu padrão econômico confortável, e não desagradar a Linda, pede-lhe um empréstimo. A negativa incisiva de Selma provoca consequências inesperadas para a sua vida, de seu filho, e de seus amigos, fazendo com que tenha que tomar as mais difíceis decisões, resistindo de maneira férrea às circunstâncias que poderão fazê-la abrir mão de seus sonhos tão caros. Os episódios que demarcam a narrativa de Patrick Ellsworth são alinhavados de forma que acompanhemos com bastante interesse a trajetória cronológica desta rica e complexa personagem, com seus reveses e fugazes alegrias. O autor não deixou que faltassem os ingredientes indispensáveis para o nascimento de um bom espetáculo musical. Em “Dançando no Escuro”, nos núcleos em que se desenrolam as ações, há suspense, tensão crescente, conflitos, amores, amizade, preconceitos, traição, injustiça, inclemência… Entretanto, há um generoso espaço para a instigante e etérea musicalidade de Björk, entrevendo-se outrossim um sutil humor em alguns diálogos. Os comentários políticos discriminatórios com doses de ufanismo exercem o seu papel reflexivo no público. A direção de Dani Barros, pode-se dizer, é espetacular. Incrível como a encenadora logrou manter toda a ambiência sugerida no texto de Patrick baseado no filme. A sensibilidade da diretora permitiu com que atravessasse o seu olhar através da sensibilidade da personagem central da história. A sua dinâmica, movimentada e ágil montagem, com reverências oportunas aos instantes de pausa e silêncio, sabendo com argúcia inserir e distribuir os quadros musicais sem que houvesse uma ruptura da fluidez narrativa, proporcionou a realização de um espetáculo com duração de duas horas, com direito à intervalo, sem que percamos as expectativas sobre o que irá acontecer nos minutos seguintes, como se estivéssemos assistindo a uma obra cinematográfica, onde, afinal, tudo começou. Dani pôs os seus atores-cantores, nove ao todo, em constante movimentação, aproveitando sobremaneira o largo perímetro cênico de que dispunha, inclusive o proscênio, os flancos próximos às coxias e a plateia. Todavia, nem tudo é só movimento na peça em questão. Enquanto alguns intérpretes contracenam, outros se mantêm sentados nas laterais cumprindo missões de vital importância sonora para o universo dramatúrgico. Valendo-se de sua inquestionável e notória experiência como atriz, Dani Barros acolheu calorosamente o seu elenco, extraindo com delicadeza as emoções implícitas de cada artista, buscando a fundo as principais intenções de seus papéis, alcançando, assim, a verdade cênica pretendida. A sua capacidade de fazer com que o espetáculo não resvalasse para o melodrama, pois armadilhas existem, e de não permitir que os sofrimentos de Selma fossem um “trunfo” para tocar o espectador, pode ser considerada como outro de seus méritos. Dani Barros, em sua estreia como diretora teatral, ostentou visíveis qualidades de quem já exerce este ofício por largo tempo, ainda mais se atentarmos para o fato de que se trata de um gênero musical, conhecido por apresentar dificuldades técnicas que lhe são natas. Paralelo à sua profissão de atriz, Dani Barros pode, sem quaisquer hesitações, aventurar-se em projetos teatrais futuros. O resultado será, como o de agora, certamente elogiável. A direção musical e os arranjos ficaram sob o encargo de Marcelo Alonso Neves, respeitado profissional da área (a ÁUDIO CÊNICO ficou responsável pelo desenho de som – Andrea Zeni e Joyce Santiago). Tendo em mãos as canções originais de Björk (com boas versões de Marcelo Frankel e Juliane Bodini), e um quarteto de músicos admiravelmente talentosos, constituído pelos multi-instrumentistas Vanderson Pereira e Dilson Nascimento, pelo baterista Johnny Capler e pelo baixista Allan Bass, Marcelo nos ofertou um panorama melódico irresistível na sua alternância de potência, intimismo, graça e ritmo. Nada escapa à imaginação do diretor musical. Os atores se utilizam quando sentados nas laterais do tablado de objetos improváveis, e deles tiram as mais variadas sonoridades, lembrando-nos do mestre Hermeto Paschoal. Batidas com as mãos em seus próprios corpos, e sons de suas bocas, como assovios, contribuem para a complementação da cena vigente. Vale dizer que dois dos músicos são deficientes visuais, uma iniciativa de robusto valor, provando a necessidade de se praticar a inclusão social, independente da área de atuação. Juliane Bodini, atriz e cantora de musicais de sucesso, arrebata-nos irreversivelmente com a veracidade tocante e a sensibilidade aguçada da sua visão particular sobre a mãe imigrante obcecada em salvar o filho da possível cegueira hereditária. A personagem Selma Jesková lhe oferece infinitas possibilidades de evidenciar suas emoções pessoais, podendo atingir níveis de intensidade bastante diferenciados, e Juliane se sai bem em todas as ocasiões em que aquelas lhe são pedidas. Sua linda e afinadíssima voz possui um timbre capaz de alcançar todo e qualquer tipo de nota, assemelhando-se de forma inacreditável ao timbre da cantora Björk, com seus agudos inconfundíveis. Cyria Coentro, uma intérprete de grande presença cênica (não nos custa lembrar de suas mais recentes atuações na TV, como na novela “Velho Chico” e na supersérie “Os Dias Eram Assim”, na Rede Globo), constrói com linhas e contornos demasiado nítidos, e desta forma amplamente convincentes, a forte, sensata, justa e sensível Carmen Baker, a melhor amiga da protagonista, presente nos bons e nos mais difíceis momentos. Com sua bonita e segura entonação vocal, Cyria brilha a cada vez que nos demonstra a amizade imensurável que sente por Selma, não se deixando abater face a algumas resistências de sua amiga. Luis Antonio Fortes (idealizador da montagem juntamente com Juliane Bodini) imprime à sua personificação de Jeff, o jovem colega de trabalho de Selma que não esconde a paixão nutrida por ela, a legitimidade essencial para crermos na pureza e ternura de seu amor. Luis empresta ainda ao seu papel uma certa docilidade encantadora. Andrêas Gatto assume o papel de Samuel, o funcionário da fábrica que dirige a montagem musical de seus colegas. Andrêas se impõe notadamente nas cenas em que tem que nos transmitir a autoridade implícita em um encenador perante o seu elenco. Com passagens da peça nas quais dirige os atores sentado em uma das cadeiras do teatro percebemos a qualidade extensiva de sua voz. Assim como consegue se mostrar exigente, da mesma maneira se evidencia sutil e cauteloso ao abordar Selma em uma situação delicada. A Fábio Cardoso coube a não fácil tarefa de dar vida a um adolescente de 12 anos prestes a completar 13 (somente com esta idade faria a cirurgia intentada por sua mãe). E Fábio se sai muitíssimo bem. O jovem intérprete realiza um trabalho de composição em que se acredita piamente na ingenuidade, na fragilidade e na pureza de um menino nesta faixa etária (considerando o contexto da peça, inclusive o período em que se passa). Fabio também ostenta com convicção a enorme afetuosidade e sintonia que possui com a sua progenitora. Julia Gorman expõe suas potencialidades artísticas, extremamente visíveis, nos dois papéis em que tem que se desdobrar. Julia Gorman ao interpretar Linda Houston, elabora com tintas certas a bonita mulher que se deixa corromper pelos vícios de futilidade alimentados pelo seu marido Bill. Notamos em suas atitudes um ar de arrogância e sentimento de superioridade. Com o desenrolar dos acontecimentos, passamos a conhecer uma outra Linda, agressiva e impiedosa. Julia outrossim se encarrega de criar um perfil para uma funcionária da fábrica participante do musical em montagem. A funcionária/atriz em pauta deixa escapar sinais de deslumbramento ao se dar conta da possibilidade de ascender no espetáculo. Como se vê, Julia Gorman precisou desfilar em cena camadas de personalidades com distâncias entre si. E o fez com o requinte exigido. Lucas Gouvêa se incumbiu de dar forma ao seu papel, o policial Bill Houston. Lucas se esmerou com inegável êxito ao fazer a transição do Bill cortês, bom policial, generoso e solidário, para o Bill acuado, descompensado, criminoso e chantagista. Depois, sem tons acima, projetou nos palcos a imagem de um homem vulnerável, sem saída, refém das circunstâncias que ele mesmo criou. Defende a seguir um magistrado com a solenidade e dureza que lhe convêm. Marino Rocha se engaja com as posturas firmes críveis e indispensáveis a um supervisor de turno de uma fábrica, traçando com linhas coerentes os elementos que privilegiam o comportamento de seu Norman. Desta maneira, Marino se harmoniza com o universo da montagem, dando-lhe valorosa contribuição. Suzana Nascimento, atriz que despertou aplausos em seu monólogo “Calango Deu! Os Causos da Dona Zaninha” (a peça dirigida por Isaac Bernat, e escrita pela própria atriz, está completando cinco anos de temporada), destacou-se ao incorporar Dolores, a supervisora do turno da noite, quando Selma decide trabalhar neste período. Nota-se claramente que a intenção de Suzana foi a de compor um tipo, e esta bem-sucedida intenção transformou Dolores, com seus gestos e postura masculinizados e até mesmo grosseiros, em uma figura leve e divertida. Além de pontuar a sua composição no corpo, Suzana imaginou uma voz não convencional para a sua personagem. Coube, também, a Suzana, encarnar uma policial/guarda em um momento crucial da encenação. Este papel lhe exigiu uma complexa dualidade, pois, a princípio, não se espera de alguém que ocupe este posto a manifestação patente de seus sentimentos e de sua misericórdia com relação ao próximo, e testemunhamos justamente o contrário, resultando em uma passagem comovente do musical. O cenário de Mina Quental faz uma reprodução inteligente, criativa e pessoal do ambiente de uma fábrica. Mina, sabidamente, “inventou” uma fábrica norte-americana dos anos 60. Somos surpresos por um enorme painel ao fundo do palco (com direito à escada de ferro, e lógico, a um pequeno segundo plano – lugar que exerce papel decisivo na história). Todo este painel, com textura terrosa, crua, é preenchido por múltiplos objetos (não obrigatoriamente relacionados a uma fábrica), como calotas, mangueiras enroladas, e até mesmo um violão. O efeito é espantoso e belo. A cenógrafa se utilizou também de cerca de uma dezena de cadeiras metálicas, que são deslocadas conforme as exigências da ação. Há ainda duas mesas corrediças bastante funcionais. Os figurinos são de Carol Lobato. Carol apostou na fidelização do período e local específicos em que se desenrola a narrativa. Com indiscutível coerência e praticidade, a figurinista vestiu as atrizes com vestidos em tons crus e terrosos, em conformidade com o cenário, acinturados e com botões. Seus sapatos são pretos. A fim de diferenciá-la dos demais, a responsável pelos figurinos emprestou a Selma de Juliane Bodini o indefectível par de óculos de grau, um lenço estampado e meias de cor escura, além de uma bolsa. Já os atores foram trajados com macacões, seguindo a mesma linha lógica de tonalidade assumida. E como acessórios, quepes, boots e vestimentas de magistrado. A inebriante iluminação de Felicio Mafra, incontestavelmente, colaborou de maneira sublime não só para o embelezamento estético/visual do espetáculo, mas também no sentido de contextualizar com absoluta ciência as cenas decorridas com os seus respectivos graus de emoção e ação atingidos. Felicio priorizou o tom suavemente amarelado de sua luz na maior parte da montagem, conferindo-lhe ao mesmo tempo naturalidade e distanciamento ficcional. O iluminador lançou mão de focos pontuais, feixes atravessados e entrecruzados, e luzes azuis. Potentes spots serviram como faróis de carro. Em determinadas situações, escolheu um plano mais aberto, com o propósito voluntário de diferenciação do clima dramatúrgico. Veem-se as sombras dos músicos que se encontram por detrás de uma tela translúcida componente do painel cenográfico. A direção de movimento e as coreografias tiveram a assinatura de Denise Stutz. Já as aulas de coreografia e sapateado foram dadas por Clara Equi. E, por fim, Camila Caputti, que se responsabilizou pela preparação corporal e, também, pelas coreografias. As três profissionais demonstraram excelência conjunta na criação dos movimentos coreográficos do musical, peças indissociáveis para a concretização deste gênero com sucesso. Todas as passagens, sem exceção, em que os atores tiveram que exibir os seus dotes de dança, foram invariavelmente sedutoras. Sem extravagâncias acrobáticas, realçando o charme e o encantamento que os movimentos ao som da música podem nos proporcionar, os números de coreografia de “Dançando no Escuro” ocupam um lugar de destaque na encenação. Mirna Rubim se incumbiu da preparação vocal do elenco. Os atores revelaram, em momentos solo ou em coro, suas potencialidades e aptidões como cantores de um musical, associando com equilíbrio as exigências técnicas e a sensibilidade e a emoção demandadas nas interpretações das composições da montagem. Marcio Mello é o visagista do espetáculo. De maneira acertada e congruente, optou por colocar as atrizes com o rosto ao natural (no máximo se percebe uma maquiagem bem discreta) e os cabelos presos em coque. Bruno Dante fez a confecção do Boneco. Não se pode falar muito a respeito deste assunto, pois contaríamos a surpresa de um dos grandes momentos da peça. O que posso lhes dizer é que Bruno fez algo impactante, inacreditável aos nossos olhos, misturando com maestria beleza, fantasia e realidade. “Dançando no Escuro”, com direção de produção de Jéssica Santiago, é um musical essencialmente humanista. Em seu cerne, fala-se sobretudo sobre o ser humano. Seus desejos, sentimentos, qualidades e a ausência delas. Mostra o quanto as pessoas podem ser norteadas pelo amor e pela amizade, pela devoção e persistência. Revela-nos também a face sombria do indivíduo, com as suas práticas intolerantes, preconceituosas, injustas e traiçoeiras. Nada mais atual. “Dançando no Escuro” lança uma nova luz no gênero musical brasileiro. “Dançando no Escuro” nos abre as portas para um novo olhar acerca da complexidade das emoções do homem. Com a história de Selma Jesková, tudo se clarifica no que concerne às infinitas dimensões do amor materno. Apesar das dores por que passa, a lição que Selma nos deixa não tem nada de escura. Seu amor é imensamente claro. Seu amor literalmente… cura.

  • “Acompanhada de excelentes músicos, como Davi Moraes, também diretor de seu mais recente show, Lucy Alves, uma das melhores cantoras de sua geração, domina o público com sua qualidade vocal, sua beleza genuinamente brasileira, sua brejeirice nordestina e seu repertório baseado em diversas influências musicais, dando-nos mais uma prova da riqueza abundante do nosso cancioneiro popular. ”

    novembro 19th, 2017

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    Foto: Divulgação

    Em sua primeira apresentação em Niterói, no Rio de Janeiro, em seu suntuoso Teatro Municipal, a linda paraibana Lucy Alves conquistou irremediavelmente o público da cidade, que lotou o espaço em suas duas únicas sessões. Revelada no Brasil pela sua bem-sucedida participação na segunda temporada do reality musical da Rede Globo, “The Voice Brasil”, em 2013, a também atriz fez sucesso na novela de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi, “Velho Chico”, interpretando Luzia, na mesma emissora (sua atuação lhe rendeu prêmios de Atriz Revelação). Vestindo uma saia platinada fluida e um top dourado, a compositora e multi-instrumentista que está no ar em “Tempo de Amar”, folhetim de Alcides Nogueira e Bia Corrêa do Lago, como Eunice, mostrou no espetacular show dirigido por Davi Moraes (também guitarrista) todo o seu virtuosismo no manuseio de instrumentos que remetem às tradições culturais nordestinas, como o acordeão, a escaleta e a guitarra baiana, além de nos impressionar com a sua intimidade com o violino e o violão. A intérprete, graduada em Música pela UFPB (Universidade Federal da Paraíba), esteve acompanhada por músicos extremamente talentosos, em evidente sintonia com o seu espírito musical, como o próprio Davi, Cesinha na bateria, Leonardo Reis na percussão e eletrônicos, e Pedro Dantas no baixo. Lucy Alves, que começou a se interessar pelo universo dos sons ainda na infância, integrando orquestras e cameratas, desfilou em seu show um repertório marcado por canções de forte apelo melódico, com letras poéticas e de caráter romântico, como o irresistível e dançante hit “Caçadora”, composto por César Lemos e Bruno Caliman, lançado no início deste ano. Ao anunciar a sua interpretação, a plateia demonstrou entusiasmo, sendo um dos pontos altos da noite. Aliás, não faltaram momentos inesquecíveis durante a apresentação da artista que faz parte do grupo nordestino Clã Brasil. Lucy evocou, com os acordes de seu violino, uma emocionante e bela versão de “Chorando Se Foi”, sucesso celebrado pelo conjunto Kaoma, como introdução, emendando com a romântica e arrepiante “Verdadeiro Amor”. Impossível não se deixar tocar face à beleza desta canção. Como convidada especial, Julia Braga, cantora e percussionista nascida em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. As duas tiveram nítido entrosamento, deixando à mostra a admiração mútua, ao cantarem “Mar e Maria”, uma composição inédita de Lucy e Carlinhos Brown. A cantora, com CDs lançados tanto em sua carreira solo quanto com o Clã Brasil, fez algumas homenagens em sua apresentação em Niterói. Em conversa direta e espontânea com os espectadores de várias faixas etárias, provando que os seus talento e carisma ultrapassam quaisquer espécies de nichos, lembrou de sua passagem pela novela “Velho Chico”, referindo-se inclusive a Domingos Montagner. Em seguida, entoa “Meu Cantar”, escrita em parceria com Luiz Fernando Carvalho, o diretor artístico da produção televisiva na qual se destacou. Houve também uma referência à artista cearense Eliane, a “Rainha do Forró”, com “Amor ou Paixão” (o coautor da música é Natinho da Ginga). Trouxe para nós uma criação de Pretinho da Serrinha e Rogê, “Beija-Flor”. Lucy ofereceu ainda ao público a sua colaboração com Yuri Queiroga em “Xaxado Chiado”, e a inédita “Fora do Eixo”. Com pujante presença cênica e estonteantes ritmo e sensualidade ao dançar ao som de suas músicas, além dos instantes bossanovistas em que cantarolou sentada em um banco dedilhando o seu violão, Lucy Alves, indicada ao Grammy Latino na categoria “Melhor Álbum de Música Regional ou de Raízes Brasileiras” (“Lucy Alves & Clã Brasil no Forró do Seu Rosil”), possuidora de uma lindíssima voz, não esconde as suas ricas influências musicais, como a tradição regional de nomes como Luiz Gonzaga e Zé Ramalho, passando pelo forró, maxixe, xaxado, coco, pop, jazz, bossa nova, samba carioca, blues, choro e o eletrônico. A excelente banda que a acompanhou teve direito a um momento solo, aproveitado com perfeição. A limpidez sonora de seus instrumentos ressoou com magnificência. A performance de Lucy ostenta, para a nossa felicidade, o seu forte lado de atriz, com gestuais notadamente interpretativos e expressivos. Uma das bem-vindas características de seu show foi a saborosa interatividade com as pessoas, descendo do palco algumas vezes, passeando pela plateia com carinho e calor, pedindo a todos que a acompanhassem nas músicas em coro e com palmas. Não poderiam faltar, claro, em seu setlist, canções de seus mestres. De Luiz Gonzaga, encantou-nos com a emblemática “Que Nem Jiló”, e de Zé Ramalho, embalou-nos com a icônica “Frevo Mulher”. Lucy Alves, que na última edição do Rock in Rio se apresentou ao lado de João Donato, Tiê, Emanuelle Araújo e Mariana Aydar, definiu em entrevistas que o seu show é “dançante e contemplativo”. Com certeza, sua vibrante, intensa, sensível e personalíssima apresentação nos oferta estes dois importantes aspectos, mas sua performance vai muito além. O show de Lucy Alves, valorizado por uma deslumbrante iluminação, com jogos caprichados de desenhos de luz, em que se vê uma paleta de cores vivas distribuídas em escalas distintas de tons, é um precioso recorte musical de nossas múltiplas sonoridades, um rico e potente panorama de nossas raízes, tradições e contemporaneidades melódicas e rítmicas. Lucy Alves, que em dezembro entrará em estúdio com um novo projeto para a gravadora Warner, é uma estrela nata que ultrapassa os limites das suas próprias influências e formações. Por isso se diferencia. Lucy Alves não é mais uma aposta ou uma promessa, e sim uma das melhores cantoras surgidas nos últimos tempos. Sua grandeza e brilho nos palcos não me deixam mentir. Lucy Alves, “a caçadora da beleza da nossa música”.

     

  • ‘ ‘Gisberta’ é um instrumento artístico vivo e intenso, com atuação dilacerante de Luis Lobianco, em que se retrata a materialização da intolerância e do ódio contra a diferença, defendida com dignidade até o fim pelo transexual homônimo, cujo único lugar seguro de sobrevivência era o palco.”

    novembro 7th, 2017

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    Foto: Elisa Mendes

    O Brasil vive tempos contraditórios. Se por um lado se debate em diversas esferas temas até então considerados tabus, ou mesmo desconhecidos por parcelas da população, como diversidade sexual, transgêneros, transfobia etc, por outro somos aterrados por uma onda crescente de segmentos políticos e sociais que defendem, aberta e escancaradamente, a intolerância, o retrocesso, a discriminação e o desrespeito aos direitos humanos, o que só nos faz trilhar um caminho de atraso, irracionalidade e irresponsabilidade. A Arte, desde as suas priscas eras, representa uma ferramenta poderosa de esclarecimento, transformação e reflexão. Há pouco, o país se familiarizou com o drama da personagem trans Ivana, personificada pela atriz Carol Duarte, da novela “A Força do Querer”, de Gloria Perez, na Rede Globo. Muitos passaram a conhecer esta realidade que não ganhava o seu devido destaque nas mídias de massa. Sabíamos de casos pontuais, mas sem que houvesse explicações de suas naturezas. No teatro, somente este ano, tivemos bastantes espetáculos, com ótima aceitação, que abordaram de maneira lúcida as questões relacionadas acima. “Gisberta”, de Rafael Souza-Ribeiro, com idealização de Luis Lobianco, seu protagonista, assume um papel fundamental na atual conjuntura no que se refere a denunciar, por meio de sua dramaturgia e encenação, a tragédia que se procura ocultar da barbárie sofrida por homossexuais, travestis, transgêneros e afins, que são assassinados diariamente apenas por serem diferentes em suas orientações sexuais por seus algozes pelos quatro cantos do país, recordista mundial na prática destes crimes. A montagem ganhou o Prêmio LGBT da Parada Gay de São Paulo, na categoria Artes Cênicas, além de receber indicações aos prêmios de Melhor Ator e Direção Musical pelo Botequim Cultural. “Gisberta”, que teve a pesquisa dramatúrgica de Luis Lobianco, Renato Carrera, seu diretor, e Rafael Souza-Ribeiro (investigação de Luis Lobianco e Rafael Souza-Ribeiro), conta-nos a história verídica de um transexual brasileiro que, após enfrentar resistências de alguns membros de sua família, e dificuldades de se estabelecer em sua terra, resolve tentar a vida como artista transformista na Europa, primeiro na França, e depois no Porto, em Portugal. O que começou como uma trajetória de ascensão, reconhecimento, sucesso, glamour e dinheiro neste mundo marginalizado da sociedade, terminou com a sua morte brutal, não conhecida no próprio Brasil, cometida pelo espancamento homofóbico e transfóbico de quatorze adolescentes portugueses dos 12 aos 16 anos que, depois de perceberem o seu potencial falecimento, jogaram-no no fundo de um poço com água suficiente para afogá-lo, caso estivesse vivo (e estava). Esta aberração poderia ter acontecido aqui mesmo, em nosso país, daí a necessidade e a urgência de se levar aos palcos a história trágica deste artista. Desde a sua mais tenra infância, Gisberta (ou Gisberto, seu nome de batismo), já nos indicava a sua feminilidade, que se apresentava por gestuais delicados e preferências “inadequadas” para um menino. A família de Casa Verde, em São Paulo, dividiu-se quanto ao comportamento “não convencional” do caçula de oito irmãos. Suas três irmãs procuraram acolher o jovem que não se identificava com o seu corpo masculino, ao contrário de seus irmãos homens, chegando a ser violentamente agredido por um deles por estar vestido e maquiado como uma mulher. Gis, como era chamado intimamente, sempre gostou de se trajar como tal, e cantar. Ainda criança, foi levado ao médico para ser tratado (isso nos lembra os projetos assombrosos nascidos nas Casas Legislativas brasileiras com promessas de “cura gay”). Assustou-se ao ver que os seus amigos mais próximos estavam sendo mortos, e a sua intuição lhe dizia que poderia ser o seguinte. Este foi o motivo crucial para que atravessasse as águas do Atlântico na busca por uma vida mais segura e digna. Gisberta conquista os portugueses e colegas de classe com as suas elogiadas performances artísticas, prestigiando alguns de seus intérpretes conterrâneos. Sua vida agitada e sem controle fez com que se perdesse em vícios, ficasse doente de SIDA, rumando para um fim que parecia iminente, mas que fora antecipado pelo ódio injustificado daqueles que estavam somente começando as suas existências (os jovens rapazes eram internos de uma instituição católica, a Oficina São José, hoje extinta, onde eram abusados sexualmente por um de seus funcionários). Jovens rapazes que destilaram todo o seu ódio em uma vítima inocente que nada tinha a ver com o que sofreram. Gisberta padeceu de contínuas sessões de tortura, dia após dia, em um prédio abandonado no qual se abrigava sob trapos, aos gritos de “Porrada, porrada!”, sem qualquer chance de defesa, já bastante debilitado e fraco pela enfermidade não tratada. O caso foi levado à Justiça, com sentença decepcionante. O juiz chegou à conclusão de que o óbito de Gisberta se deveu ao afogamento, agravado pelo estágio avançado de sua doença. Segundo os seus argumentos, as múltiplas lesões (em variadas e vitais partes do corpo de Gisberta), não contribuíram para o seu falecimento. Os rapazes foram condenados a pouco mais de um ano de detenção. As notícias publicadas em jornais não foram favoráveis à vítima. Gisberta foi levada ao Brasil a fim de receber as últimas homenagens de seus familiares, não mais com aquele sorriso que cativava a todos, tampouco o cabelo volumoso que chamava a atenção. A dramaturgia de Rafael Souza-Ribeiro, além de ser extremamente corajosa ao abordar um assunto tão árido em suas circunstâncias, é passível de admiração por sua notável habilidade em inserir a leveza do humor em muitas de suas passagens com o intento de não se pesar demais a ambiência do espetáculo (ainda mais tendo como autor de suas ações um intérprete associado à comédia, como Luis Lobianco). A peça é comovente por mostrar, sem apelar para emoções fáceis, o que não seria difícil levando-se em conta o seu contexto, o lado humano do personagem, principalmente em seu seio familiar. Sem panfletagens premeditadas, “Gisberta” possui um viés denunciativo de grande relevância o qual não podemos ignorar. Rafael, mais uma vez demonstrando a sua destreza com a forma narrativa, distribuiu com equilíbrio em seu bem acabado texto manifestações musicais e poéticas, em meio à dura realidade dos fatos (faz-se menção, inclusive, a aspectos políticos da época, como a era pós-ditadura salazarista). O dramaturgo imprimiu ao seu texto um tom de conversa direta de alguns personagens vividos por Lobianco com a plateia, num clima de narração de histórias, como se fosse um bate-papo espontâneo e natural com os seus interlocutores, às vezes até com respostas dos espectadores. A ideia de se dar contornos mais brandos à montagem, aproximando-a do coloquial e familiar, comprovou-se com a presença da irmã de Gisberta, enquanto contava uma história, preparando um fricassé, saindo do palco inúmeras vezes para ver o seu ponto. A direção de Renato Carrera, que foi responsável por um dos quatro solos (“Como Deixar de Ser”, com Kelzy Ecard) de um dos espetáculos de maior repercussão sobre o tema diversidade, “Ocupação Rio Diversidade”, conduziu “Gisberta” com elevada sensibilidade, procurando destacar a beleza em seu conjunto, extraindo ao máximo as potencialidades interpretativas do excelente ator protagonista. Renato conseguiu com inegável êxito um delicado equilíbrio entre o drama (na verdade, uma tragédia), a comédia respeitosa (afinal de contas, fala-se de uma história real com desdobramentos cruéis), a introdução alternada e meticulosa da musicalidade ao vivo, causando-nos um alumbramento inefável, além de desmistificar a figura do travesti/transformista/transexual como alguém desgarrado do mundo, sem apego aos valores mais intocados do círculo familiar. O diretor aproveitou todo o perímetro cênico de que dispunha (o cenário possui diferentes níveis, portas, degraus…), permitindo total liberdade a Lobianco de usar o espaço em seu entorno, promovendo consequente dinamismo à peça. Há momentos em que se privilegiam a pausa, a ausência de som, o instante reflexivo. Tudo isto corrobora uma inequívoca sintonia entre autor e diretor. Luis Lobianco, que passamos a conhecer no canal de humor “Porta dos Fundos”, surpreende-nos com a sua devastadora atuação, e impressionante aptidão de se transmutar em diferentes tipos, sem usar quaisquer recursos externos como apoios (apenas alguns adereços em certas ocasiões), somente com a sua potente voz, que pode atingir entonação suave e doce, e os agonizantes brados de dor e agonia de seu personagem ao sofrer as violências narradas. Luis, maquiado com elegância (sombras azuladas avivam seus olhos, e uma discreta camada de batom cobre os seus lábios), e os cabelos negros cuidadosamente penteados para trás, é capaz de fazer com a mesma qualidade uma mulher simples, como a irmã de Gisberta, contando-nos a sua história, o médico da família que se vê perdido ao diagnosticar o “problema” da criança, o seu irmão violento, um travesti mais velho e consagrado, um admirador português do artista, mantendo sempre um grau elevado de comunicação com o público, que fica à mercê de seu talento. Luis Lobianco, que se revelou um extraordinário ator dramático também, mostrou-nos ainda outra faceta até então desconhecida, a de cantor. Suas interpretações de canções como “Coração do Agreste”, de Fafá de Belém, “Swing da Cor”, de Daniela Mercury (numa versão mais lenta, romântica e envolvente), “Sonhos de um Palhaço”, de Vanusa, ostentam seus notórios recursos como artista da música. Ousa com brilho ao reviver Amália Rodrigues. Apoteoticamente, reinventa “Diamonds Are A Girl’s Best Friend”, eternizada na voz de Marilyn Monroe. Luis Lobianco tem o privilégio e a primazia de estar acompanhado em cena por músicos talentosíssimos, como Lúcio Zandonadi (piano e voz), Danielly Souza (flauta e voz) e Rafael Bezerra (clarineta e voz). Suas contribuições são riquíssimas e indispensáveis para a peça, deixando-nos invariavelmente embevecidos. O responsável pela poderosa trilha sonora e inspiradas e caprichadas músicas compostas foi Lúcio Zandonadi (Lúcio não poderia deixar de colocar, claro, em momento estratégico da montagem, “Balada de Gisberta”, de Maria Bethânia). A iluminação de Renato Machado exerce papel primordial na complementação estética do espetáculo. Renato elaborou com bastante sensibilidade e entendimento a ampla variação de texturas luminosas ambientais. Luis Lobianco e os músicos são bastante valorizados pela certeira luz de Renato, que não economiza em suas ideias de embelezamento. Há pequenos refletores superiores com luz branca pujante, que por vezes adotam uma coloração mais fraca, acompanhando o contexto do desenvolvimento narrativo. O iluminador usa focos circulares sobre Lobianco como aqueles que se fazem com um showman. Passeia-se por uma paleta diversificada de tonalidades, que vão do azul ao rosa, além do verde e vermelho (as cores de Portugal). Os músicos, que ficam separados, cada um em seu espaço específico, são iluminados de modo tênue, provocando um efeito etéreo (suas sombras assumem amplo poder imagético). Os focos diretos vindo de uma das laterais sobre o ator fortalecem a cena. Há ainda a bonita projeção de uma figura feminina com chapéu em uma das telas de tecido. O cenário em tons cinzas (ou gelo) de Mina Quental se constitui de grandes painéis/módulos retangulares, unidos, com duas entradas (uma central, com porta corrediça, e outra lateral). Dividido em três compartimentos forrados por um tecido transparente, diáfano, que permite que se vejam os três músicos presentes todo o tempo no palco, Mina também colocou à frente desta espécie de “pequeno templo de um artista” um tablado de dimensões médias. Com visível funcionalidade, pôs à disposição do protagonista um cubo (que serve de mesa e púlpito) e uma cadeira, ambos fáceis de serem deslocados. O cenário de Mina se presta com demasiada eficiência à encenação, casando-se com perfeição com a luz de Renato Machado. Os figurinos são de Gilda Midani, que buscou uma trilha de neutralidade, como se esta oferecesse com isenção ao intérprete as possibilidades de incorporar os vários tipos de pessoas que atravessaram a vida de Gisberta. Apostando no off-white, Gilda vestiu Lobianco, que passa quase a totalidade da encenação descalço, com um mantô sobre um macacão com botões e sem mangas, atingindo um harmonioso resultado, visto que o ator se vale da fluidez do tecido para realçar os seus expressivos movimentos. O artista ainda se utiliza de acessórios, como um vistoso leque, um lenço estampado e um escarpim com brilhos. A preparação vocal coube à atriz e cantora Simone Mazzer. Simone explorou com larga sabedoria as vastas capacidades de Luis de brincar com a sua voz. O ator encontra com facilidade o modo típico, em tom de conversa, da irmã de Gisberta, para se comunicar, como traduz com familiaridade o sotaque lusitano do frequentador dos shows de cabaré e do travesti sexagenário consagrado. Como já dissemos, as performances do intérprete como cantor, em todas as músicas, são surpreendentes, causando, cada uma, uma ótima impressão em nós. Marcia Rubin, encarregada pela direção de movimento, teve um papel essencial para que houvesse, por parte do ator, a personificação impecável de um homem com a completude de sua feminilidade, como pessoa e artista. Lobianco revela uma leveza inconteste ao transitar pela ribalta com os seus gestos estudados com denodo. A coreografia de “Diamonds Are A Girl’s Best Friend” exigiu maior complexidade de movimentações, cumpridas com brilho e espontaneidade pelo protagonista. “Gisberta” é uma montagem que carrega em si enormes responsabilidades, tendo em vista a nossa atualidade obscurantista, e as assume com nobreza e magnitude. A peça estrelada por um bravo Luis Lobianco, atuando como porta-voz de uma realidade alimentada por ódios injustificados, serve tanto à Arte por suas indiscutíveis qualidades como expressão cênica teatral, quanto a todos aqueles que lhe forem assistir, ao provocar em suas consciências um inescapável processo de reflexão quanto à aceitação do que é ser diferente, alertando-os no que concerne aos conceitos fundamentais da tolerância, indispensável para a concórdia social. Em “Gisberta”, a despeito da tragédia pessoal na qual culmina a trajetória de um artista, veem-se poesia, esperança, amor, afeto, música, choros e risos. Que o seu fim trágico represente duramente uma denúncia sobre a qual não se pode calar. Que o seu começo e o seu “durante” como artista dos palcos fiquem na lembrança daqueles que a viram brilhar. Luis Lobianco fez a sua parte. Agora é com a sociedade.

  • “Depois de três sucessos seguidos na teledramaturgia, Walcyr Carrasco retorna ao horário nobre com ‘O Outro Lado do Paraíso’, apostando em um triângulo amoroso renovado, formado por Bianca Bin, Sergio Guizé e Rafael Cardoso, ambientes deslumbrantes do Tocantins, e nas vilanias clássicas, representadas em seu primeiro capítulo por Marieta Severo e Juca de Oliveira.”

    outubro 24th, 2017

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    Foto: Raquel Cunha/Gshow

    Já se viu nas primeiras imagens de “O Outro Lado do Paraíso”, a nova novela das 21h da Rede Globo, com direção artística de Mauro Mendonça Filho e geral de André Felipe Binder, que o seu autor, Walcyr Carrasco, com a colaboração de Nelson Nadotti, Vinicius Vianna e Márcio Haiduck, optou por uma renovação, em alguns aspectos, pois seus elementos basilares não foram preteridos, da narrativa folhetinesca. O seu início, sem as tradicionais aberturas, foi semelhante a um filme, com os créditos (nomes dos atores, diretores etc…) surgindo com o desenrolar de uma cena cotidiana da jovem protagonista da história, Clara, interpretada por Bianca Bin, preparando um café na chaleira, somente com os sons ambientes (ao final, apreciamos o lindo resultado do trabalho de abertura dos craques Alexandre Romano, Alexandre Calvet, Roberto Stein e Cristiano Calvet, que será visto nos demais capítulos). Clara, seu pai Jonas (Eucir de Souza) e seu avô Josafá (Lima Duarte) moram juntos num simples casebre numa região imensa e inóspita de um lugar fictício chamado Pedra Santa, no Estado do Tocantins. Eles sobrevivem graças a uma pequena venda gerenciada pelo patriarca. Nesta mesma região quente e agreste, há dez anos, houve um garimpo no qual se procuravam esmeraldas. Segundo Josafá, eram apenas biritas, sem nenhum valor. Mas Jonas está decidido a retomar o garimpo, e com isso, enriquecer, contrariando a sua filha e o seu pai, já que usará explosivos. Um acidente com estes explosivos tira a vida do garimpeiro. A família tem que se reorganizar. Clara é convidada por Mercedes (Fernanda Montenegro), mesmo sem ter muitos estudos, para ser a professora de crianças de um quilombo próximo, o Quilombo da Formiga. Mercedes é uma senhora misteriosa, mística e solitária, capaz de ouvir vozes, canções, gritos e ecos soturnos. A também benzedeira acredita piamente que o mundo irá acabar, e que só Tocantins se salvará, guardando em sua casa provisões de subsistência, como sementes, água e roupas. E livros (a Humanidade precisará deles). Ela crê que os seus objetos em forma de animais ganharão vida, e que seres invisíveis, “eles”, mandam-lhe mensagens. Sensitiva, diz à moça que entrará em uma nova fase. Prevê o aparecimento de uma mulher, e o seu desconhecimento a aflige. No Quilombo da Formiga, Clara conhece Raquel (Érika Januza), que faz artesanato com capim dourado, e reencontra Dr. Renato (Rafael Cardoso), médico de Palmas, capital, que realiza um trabalho de voluntariado com a população carente do local (Renato costumava frequentar a venda de seu avô, e seus olhos azuis demonstraram interesse pelos olhos azuis da neta de Josafá). Enquanto Clara e Renato se entrosam, chega à localidade, vindo de Palmas, pilotando uma moto, o rebelde Gael (Sergio Guizé). Gael quer conhecer um ponto turístico interessante destas paragens. Com a voz doce de Elis Regina cantando “Morro Velho” ao fundo, o motoqueiro cioso por novidades chega ao Campo do Capim Dourado, onde se faz a colheita desta vegetação, e se encanta ao ver Clara brincando com as crianças. A moça que lê “Marcelo Marmelo Martelo” para os seus alunos percebe o olhar encantado do rapaz que usa dois brincos de argolas, sentindo também um certo encanto. Indo para um outro núcleo da trama, na cobertura palaciana no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, conhecemos Elizabeth (Glória Pires), e sua família. Casada com o diplomata Henrique (Emílio de Melo), ambos têm uma filha, Adriana (Lara Cariello). De origem pobre, nascida no Tocantins, Elizabeth é uma mulher extremamente carente e sozinha. Ressente-se de seu marido se dedicar mais à profissão do que ao lar. Seu sogro, o preconceituoso advogado Natanael (Juca de Oliveira), nunca se conformou com o casamento de seu filho com alguém de um nível social inferior. Após convidar Henrique para ir com ela e a filha para Angra dos Reis, decepciona-se, pois a intenção de seu esposo é ir para Londres a fim de disputar o posto de embaixador que está vago. Natanael se mostra amigo de Beth, mas na verdade está planejando a destruição de seu matrimônio, e para isso contará com uma aliada, a ex-namorada de Henrique, agora amiga, Jô (Bárbara Paz), que está falida financeiramente. Em uma festa típica da região do Jalapão, Clara deixa de conversar com Renato para dar um passeio de moto com Gael, despertando o ciúme do médico, que conhece o seu oponente de Palmas. Com o sol alaranjado e a linda versão de Fernanda Takai para “I Don’t Want To Talk About It” como testemunhas, em meio às dunas deslumbrantes do Jalapão, Clara e Gael parecem estar cada vez mais apaixonados. O amor do novo casal vai do fundo das águas límpidas de um rio até a Pedra Furada. No alto de um grande rochedo, Clara e Gael se encontram com Renato e Raquel. Gael observa com ódio os pequenos gestos de intimidade no reencontro do médico com a professora. O motoqueiro de Palmas ameaça Renato, revelando sua temível agressividade até então ignorada. O clímax da cena ocorre quando Gael ameaça deixar cair o rapaz em um penhasco, segurando-o somente por uma mão (nesta benfeita tomada, percebe-se que a direção tomou como referência clássicos do western, inclusive os de Sergio Leone, tanto no que diz respeito aos closes quanto no que se refere à trilha incidental de João Paulo Mendonça). O pedido de perdão pelo incidente, o pedido de perdão pela desconfiança da amada, o beijo da redenção e o pedido de casamento acontecem sucessivamente. No meio das suas faces um raio fulgurante do sol sempre presente, e a voz apaixonada de Paulo Miklos cantando a bela música composta por Nando Reis, “Vou Te Encontrar”. Gael volta para a sua casa em Palmas. Chega na hora do café da manhã em que estão sentados à mesa a sua mãe, a ambiciosa Sophia (Marieta Severo) e a sua irmã, a sarcástica Lívia (Grazi Massafera). Ao anunciar a Sophia que irá se casar, e que a sua noiva é professora de um quilombo, e filha de um dono de venda, ela se enfurece, e confessa aos filhos a péssima situação financeira em que se encontram. Gael é divorciado, e há um mistério nessa separação, causada por ele. Uma outra filha, Estela (Juliana Caldas), é mantida no exterior por ser uma pessoa com nanismo, e esta condição envergonha Sophia. Disposta a subornar o avô de Clara para que ela se afaste de seu filho, Sophia muda de ideia ao avistar uma pedra com um veio de esmeralda sobre um dos móveis da casa do senhor. Clara lhe dá de presente. Após consultar um especialista, e enxergar a possibilidade de explorar a possível mina de esmeraldas localizada nas terras de Clara, a gananciosa mãe de Gael passa a apoiar o casamento do filho. Numa confraternização de família, Sophia brinda ao amor, a Gael, e principalmente a Clara. Desta forma, iniciou-se o primeiro capítulo de “O Outro Lado do Paraíso”, uma história que nos exibiu, através de apenas alguns personagens, traços dos comportamentos do ser humano, como ambição, individualismo, frieza, manipulação, ciúme, preconceito e cobiça, mas também privilegiou o amor, o desejo, a paixão e a amizade. O elenco deste começo de trama provou o seu brilho, talento, solidez e sobeja consistência na composição de seus papéis, transmitindo-nos a sensação positiva de que aqueles foram estudados e elaborados com a dedicação necessária, respeitando-se as características do lugar específico, no caso o Estado do Tocantins, em que se desenvolve a narrativa, além do Rio de Janeiro. Bianca Bin trilhou a legitimidade de uma moça simples, ingênua e romântica, traumatizada pela morte trágica do pai, que se apaixona pelo rapaz sedutor da cidade grande que lhe diz palavras bonitas. Sergio Guizé, com bastante personalidade, construiu o seu papel na medida certa, passando-nos a noção de ambiguidade de Gael, que alterna doçura e agressividade. Rafael Cardoso esbanjou elogiável desempenho ao moldar o perfil de Renato, convencendo-nos de seu verdadeiro amor por Clara, e de sua dedicação incansável ao voluntariado como médico. Um triângulo amoroso, estreante no horário nobre e em teledramaturgia, cativante em suas atuações, que promete torcidas variadas e emoção de sobra. Há química tanto entre Bianca e Sergio quanto entre ela e Rafael. Um acerto indiscutível na escalação, sem contar o seu caráter inovador. O frescor deste trio foi acompanhado por talentos consagrados, como o de Fernanda Montenegro, Lima Duarte, Marieta Severo e Juca de Oliveira. Fernanda, como sempre, magistral na sua entrega às personagens que abraça, e no caso de Mercedes, toda a sua força natural e intensidade mística foram lapidadas com a maestria interpretativa que lhe é peculiar. Lima Duarte usa a sua notável experiência ao criar o tipo interiorano, simplório, que nos conquista de pronto com a sua potência cênica. Marieta Severo, como esperamos de uma atriz de sua grandeza, impressiona-nos com a sua ilimitada aptidão em transitar com liberdade pelos meandros mais íntimos de seu papel ao desenhar os contornos precisos de Sophia. Vemos o nascimento de uma vilã que não mede esforços para atingir os seus objetivos, garantindo-nos no futuro momentos que prometem ser marcantes, em que a sua vocação preconceituosa, gananciosa e manipuladora ganhará voz. O mesmo se pode dizer de outro ator maravilhoso como Juca de Oliveira. Sabedores de seu incrível domínio como artista, não nos espantaremos com as artimanhas que seu personagem, Dr. Natanael, será capaz de fazer, utilizando-se de toda a dissimulação e frieza que lhe são natas. Sua perseguição a Elizabeth também promete ótimos conflitos. Glória Pires, uma atriz com inteligência emocional rara, mestre em usar a entonação vocal, os olhares e gestual perfeitos, conquista invariavelmente um nível máximo de qualidade e excelência. Como Elizabeth, vê-se claramente uma mulher infeliz, só, carente e frágil que, no entanto, poderá nos surpreender com as reviravoltas que o autor lhe reserva. Grazi Massafera, a cada personagem que defende, galga degraus elevados em suas composições (não podemos nos esquecer que foi em uma novela de Walcyr Carrasco, “Verdades Secretas”, que Grazi mostrou ao país todo o seu potencial, chegando a ser reconhecida no exterior com a indicação ao Emmy Internacional). Grazi Massafera tem se destacado ao interpretar jovens que misturam malícia e humor. A novela terminou com um olhar insinuante de Lívia ao testemunhar o golpe de sua mãe. Érika Januza, revelada na série “Suburbia”, desfilou desenvoltura, espontaneidade e genuinidade ao personificar a amiga alegre e trabalhadora de Clara. Entretanto, esta alegria vai embora quando terá que enfrentar a ira racista de Nádia (Eliane Giardini), sua patroa, ao se envolver com o seu filho Bruno (Caio Paduan). Emílio de Melo, como o diplomata Henrique, indicou-nos com distinta propriedade a indiferença prevalente de seu papel com relação à sua família, colocando a profissão em primeiro lugar. Emílio, um ótimo ator, terá excelentes chances na novela ao se ver vítima das armações espúrias de seu pai. Eucir de Souza, como ator convidado, teve uma participação digna e comovente ao encarnar o homem ávido em enriquecer, e que acaba morrendo por esta desmedida ganância e irresponsabilidade. Bárbara Paz, como a sofisticada Jô, mostrou-se inteiramente à vontade como a futura aliada de Natanael. E pelo que conhecemos de sua capacidade, e também versatilidade como intérprete, esperamos cenas interessantíssimas em que esteja presente, formando uma parceria promissora com Juca de Oliveira. Vera Mancini, como a empregada de Sophia, distribuiu graça com os seus ditos picantes, demonstrando intimidade com a família. Terá Estela, a outra filha, enjeitada pela mãe, como confidente. Aguardemos diálogos emocionantes. A direção artística de Mauro Mendonça Filho (grande colaborador de Wacyr Carrasco) e geral de André Felipe Binder (também trabalhou com o autor), com a sua equipe constituída por André Barros, Henrique Sauer, Pedro Peregrino, Mariana Richard e Caio Campos, merecem incontáveis elogios por conduzirem com sensibilidade o enorme manancial de talentos que têm em mãos, e explorarem com competência única, adotando uma generosa linguagem cinematográfica, as belezas estonteantes das terras do Tocantins. A inspirada direção de fotografia de Mauro Pinheiro Jr., Pablo Baião e Fabrício Tadeu aproveitou com suprema felicidade a luz forte natural da região, além de usar com sabedoria visual, com filtros e lentes certeiros, as cores inebriantes dos espaços em que se passa a ação. A cenografia de Tiago Marques Teixeira, Mauricio Rohlfs e Danielly Ramos foi bastante coerente, retratando com fidelidade a pobreza da casa de Clara, o ambiente kitsch onde mora Sophia e a sofisticação de alguns detalhes da cobertura de Elizabeth. O mesmo, claro, pode-se dizer da produção de arte de Guga Feijó e Renata Otomura. Ellen Millet, conceituada figurinista, cumpriu a sua missão com garbo, seja nos vestidos bem modestos de Clara, nas roupas modernas com ar transgressor de Gael, e nas vestes com tintas mais carregadas de Sophia. A gerência musical de Marcel Klemm se esmerou na diversificação, utilizando-se, como já fora dito, das vozes de Elis Regina, Fernanda Takai e Paulo Miklos, além da clássica banda Lynyrd Skynyrd (“That Smell”), e dos grupos The Band (“The Weight”) e The XX (“Crystalised). “O Outro Lado do Paraíso” vem com uma função árdua, que é a de suceder o sucesso alcançado por Gloria Perez em “A Força do Querer”, mas em se tratando de Walcyr Carrasco, que coleciona um sem número de êxitos de audiência e público, como foram as suas três últimas novelas (“Amor à Vida”, “Verdades Secretas” e “Êta Mundo Bom!), isto não será obstáculo para o teledramaturgo. Walcyr, além de manter as bases de um bom folhetim, como romance, traição e vingança, irá abordar questões importantes, como a violência doméstica, o nanismo (e o preconceito envolvido), a discriminação racial, o homossexualismo não assumido, com direito à vida dupla, e a homofobia. Já conhecemos em seu primeiro capítulo o paraíso do Tocantins, e em parte o seu outro lado. Precisamos conhecer a saga de Clara, Gael, Renato, Josafá, Sophia e Mercedes para vermos até onde irá este outro lado. E se, segundo Mercedes, ele sobreviverá ao fim do mundo.

     

  • ” ‘Cidade Proibida’, a nova série da Rede Globo, estrelada por Wladimir Brichta, Regiane Alves, Ailton Graça e José Loreto, resgatou com notável capricho, em seu primeiro episódio, a época de ouro do Rio de Janeiro, utilizando-se de elementos clássicos das histórias de detetive, referências ao gangsterismo e ao clima noir, além da onipresença das mulheres fatais. “

    setembro 28th, 2017

    cidade-proibida
    Foto: Divulgação/Gshow

    As histórias de detetive sempre habitaram e instigaram o imaginário das pessoas, seja no cinema, na TV ou na literatura. O primeiro e a segunda se inspiraram ou se basearam amiúde nos livros. Grandes escritores, como Agatha Christie, Arthur Conan Doyle e Dashiell Hammett criaram detetives antológicos que prendiam o leitor da primeira à última página, como Hercule Poirot, Sherlock Holmes e Sam Spade, respectivamente. Nas telas de cinema, tivemos, por exemplo, “Assassinato no Orient Express” (1974), de Sidney Lumet, que se baseou no romance policial homônimo de Agatha Christie. Na esfera nacional cinematográfica, “Ed Mort” (1997), com direção de Alain Fresnot, e Paulo Betti como o próprio (trata-se de um personagem idealizado por Luis Fernando Verissimo). Na literatura brasileira, o escritor Tony Bellotto se dedicou à sua trilogia protagonizada pelo detetive Remo Bellini, com adaptações para o cinema. Quanto à TV, podemos buscar um personagem divertidíssimo construído por Luis Gustavo para uma novela escrita por Cassiano Gabus Mendes, e que foi ao ar pela Rede Globo em 1982, “Elas por Elas”. Mário Fofoca entrou para a galeria de tipos inesquecíveis da televisão com seu jeito atrapalhado para elucidar crimes. Em “Cidade Proibida”, uma série de Mauro Wilson e Mauricio Farias inspirada livremente no álbum de quadrinhos de Wander Antunes, “O Corno Que Sabia Demais e Outras Aventuras de Zózimo Barbosa” (a produção é escrita por Angela Chaves com a colaboração de Emanuel Jacobina, roteiro final de Mauro Wilson, e direção artística de Mauricio Farias), conhecemos logo em sua primeira cena o detetive Zózimo Barbosa (Wladimir Brichta) em seu característico escritório esclarecendo um caso de traição extraconjugal, sua especialidade, para a sua cliente Irene, rica e bela mulher frequentadora de um clube de grã-finos (Débora Nascimento). Para a desilusão e o espanto da moça, seu marido a trai não com uma amante, mas com um amante. Os pensamentos lascivos de Zózimo são ouvidos em off, o que confere à dramaturgia um viés notadamente rodriguiano. O desfecho de sua relação profissional com Irene, a primeira mulher fatal a surgir, foi malsucedido. O próximo caso do detetive a ser desvendado envolve o advogado Gouveia (Danilo Grangueia), que trabalha para uma importante empresa, cujo dono se chama Lourenço (João Vitti em participação especial). Ele é recebido pela voluptuosa secretária Gladys (Ariela Massotti). A princípio, Gouveia contatou Zózimo a pedido do empresário por desconfiar do comportamento de sua esposa. A questão é que a suposta mulher infiel é Lídia (Claudia Abreu com longos e ondulados cabelos louros). Ao ver a foto de Lídia, sua companheira no passado, a série lança mão de flashbacks a fim de que o telespectador entenda como se conheceram, e se familiarize com o histórico do detetive e com os demais personagens fixos, seus amigos, o policial Paranhos (Ailton Graça) e o sedutor rapaz que presta serviços amorosos a damas carentes, Bonitão (José Loreto). Zózimo também era policial, e fazia dupla com Paranhos. Lídia era a garota mais cobiçada do “dancing” que frequentavam. Um recurso bem sacado pela direção (Daniela Braga e Maria Clara Abreu, juntamente com Mauricio Farias) foi a ideia de que as cenas estavam sendo “fotografadas” em “p&b”, com o propósito de realçá-las. Com um apropriado e insinuante som incidental jazzístico, com sopros, cordas e teclados (afiada e sofisticada trilha sonora de Branco Mello e Emerson Villani), perpassando quase a totalidade da atração, os autores prosseguem em sua interessante, envolvente e detalhista narrativa. Lídia era a protegida de um poderoso argentino de nome Pablo (Pablo é um típico gângster). Com sua saída forçada, Zózimo se amasia com a ambiciosa Lídia, dando-lhe uma loja de roupas em uma galeria de Copacabana. Sem satisfações, Lídia some no mundo. Voltamos aos tempos atuais da série, onde Zózimo conversa com os seus amigos no bar no qual costumam se reunir. Com elegante fotografia de Uli Burtin que se multiplica em diversas texturas, dependendo da situação, podendo ser mais esmaecida, luminosa, sombria, esverdeada ou amarelada (a luz também se ampara nos feixes de faróis dos automóveis, abajures, luminárias e lustres dos cenários e locações), o personagem de Wladimir, que vez ou outra solta uma pérola de humor, decide aceitar o caso, talvez muito mais para saber o porquê de ter sido abandonado pela loura fatal de Claudia Abreu. Após perseguir Lídia em seu carro (os veículos são um charme extra da série, sendo extremamente fiéis aos anos 50), ocorre o esperado reencontro após sete anos de separação. A agora milionária Lídia conta ao ex-amante a versão de uma história rocambolesca como explicação de seu sumiço. Retornando ao bar, irrompe a personagem de Regiane Alves, a garota de programa Marli. Marli é apaixonada por Zózimo, sendo obsessiva e ciumenta, além de acreditar “ser a mulher de sua vida”. A ferramenta dramatúrgica dos pensamentos e reflexões do detetive em off, e que funcionaram a contento, são mantidos. Entre uma cena e outra, são mostradas imagens de arquivo do Rio de Janeiro da época retratada. Com reviravoltas em sua trama (Lourenço decide se separar de Lídia, e se casar com a secretária Gladys), a câmera da direção se revela ligeira, e acompanha o ritmo ditado pela emoção da ação. Um dos maiores méritos desta obra de ficção, que se equilibra entre o tom de farsa e o de realidade, é o seu perfeito timing. As cenas se sucedem com admirável fluidez, entremeadas por diálogos estruturalmente bem amarrados e espertos. A inspiração nos filmes noir americanos da década de 40 é evidente, com seus closes, olhares, modo de falar e algum silêncio. Mortes em meio a mentiras e cumplicidades espúrias decorrem, aumentando a complexidade e o caráter intricado do entrecho. Há beijos cinematográficos, bastantes tragadas de cigarro e bebidas alcoólicas ingeridas pelos personagens enquanto os fatos se desenrolam, e tiradas engraçadas de Bonitão. A desconfiança começa a rondar a mente do detetive que crê que as pessoas matam por três motivos: dinheiro, ódio e amor. Nada é o que parece ser. Este é o mote da série. Em questão de segundos, tudo muda. Algo acontece. Uma morte ocorre, e outra vida é ameaçada. O epílogo atende às reviravoltas de costume, às frases marcantes dos personagens, como “Essa é a minha natureza”, e à ironia sempre posta em seu devido e oportuno lugar. A cenografia de Luciane Nicolino e Claudio Duque e a produção de arte de Angela Melman são demasiadamente fidedignas ao tempo da ação, e se mostram frutos de uma intensa e profunda pesquisa. Os figurinos de Antônio Medeiros são irretocáveis, elegantes e coerentes. São ternos e coletes bem cortados, chapéus tanto femininos quanto masculinos, e longos justos “tomara-que-caia”, só para citar alguns modelos. A abertura de Alexandre Romano, Flavio Mac e Bruno Meira aposta na profusão de imagens coloridas e em preto e branco, como da “cidade proibida”, o Rio de Janeiro, e seus hábitos, mulheres fatais, o cotidiano de suas ruas, carros no trânsito, letreiros em néon etc. O elenco brilhou neste primeiro episódio, correspondendo plenamente à proposta e ao perfil da obra. Wladimir Brichta soube compor um irresistível detetive Zózimo Barbosa. Wladimir, um ator que transita com igual distinção tanto pelo drama quanto pela comédia imprimiu ao seu papel doses com sobriedade precisa. O cinismo, o sarcasmo e a ironia inerentes ao investigador particular estão visíveis na sua entonação de voz, no seu olhar e nos meios sorrisos. Uma escolha altamente acertada para um tipo nada fácil de se interpretar, pois os desvios para uma caricatura ou arquétipo são bastante próximos. Wladimir está muitíssimo bem acompanhado por Regiane Alves, Ailton Graça e José Loreto. Regiane, ostentando um bonito visual com suas madeixas curtas, desenhou os contornos da personalidade de Marli com sensualidade e as características de uma garota de programa da época, convencendo-nos de seu amor incontido pelo detetive, com todas as suas nuances de ciúme e uma certa frustração pessoal pela paixão não correspondida como desejaria. Regiane também aproveitou com sapiência os seus momentos de humor. Ailton Graça desfilou com absolutas segurança e desenvoltura como o policial Paranhos. O intérprete absorveu a aura do tira experiente, calejado, perspicaz, que sente de longe o “faro” quando algo lhe parece errado. Ailton possui a capacidade de ser durão e irreverente com a mesma dignidade, se assim exigir a ocasião. José Loreto defende o gigolô Bonitão com sobejas graça e leveza, alvejando com sucesso as medidas de malandragem associadas a um grau de sedução e charme que homens com a sua função entre as mulheres na sociedade deste período possuem. O jovem ator saboreia com prazer as falas de seu personagem, e nos diverte. Tivemos bem-vindas participações especiais neste primeiro episódio. Claudia Abreu, sempre uma excelente atriz, exerceu pleno domínio sobre a mulher fatal, manipuladora, calculista, gananciosa e surpreendentemente fria, sendo capaz de tudo para atingir os seus objetivos. Claudia pôde mostrar várias faces de Lídia, seja como potencial vítima enganada, seja como uma esposa furiosa, vingativa e mentirosa. Danilo Grangueia trilhou com inegável êxito o caminho para a composição do inescrupuloso advogado Gouveia. Com seu porte solene e tom de voz diferenciado, Danilo nos provocou com o seu causídico escroque, traiçoeiro e perigoso. Débora Nascimento, como Irene, encheu a tela com a sua voluptuosidade implícita, demonstrando com legitimidade a sua decepção ao saber da homossexualidade de seu esposo. João Vitti, mesmo que em rápida aparição, porém com um papel importante para a história, passou-nos a intensidade emotiva do marido insatisfeito com a sua esposa, decidido a se separar. Ariella Massotti cumpriu com eficiência a missão de dar vida à estonteante secretária que se transforma no pivô de um dos principais conflitos da sinopse. “Cidade Proibida” é uma série, gênero merecidamente cada vez mais prestigiado na TV brasileira, que nos desperta irrefutável interesse em acompanhar os seus próximos episódios, que contarão com muitas participações especiais. Dentre as razões, destacam-se o seu elenco talentoso e carismático, a diversidade de seus enredos repletos de suspense, ação, romance e humor, a impecável reconstituição histórica e a direção sensível e hábil de Mauricio Farias e equipe. Vale a pena fazer uma visita nesta cidade proibida que esconde por trás de suas belezas o que há de obscuro e condenável em sua sociedade. Zózimo Barbosa está à sua espera. E não é proibido acompanhá-lo em suas arriscadas mas deliciosas peripécias. Está desconfiada de alguma coisa? Se o seu namorado, seu noivo, seu marido está te traindo, ele descobre. Já pegou o seu cartão? Zózimo Barbosa, detetive particular.

     

  • “Voltando em grande estilo às comédias, gênero no qual coleciona indiscutíveis sucessos, Victor Garcia Peralta se une à dramaturga argentina, a premiada Victoria Hladilo, e a um elenco notavelmente talentoso, transformando ‘A Sala Laranja: no Jardim de Infância’ em um espetáculo leve, divertido, mas sem deixar de abordar com seriedade as dificuldades do homem contemporâneo em lidar com o convívio social, a competitividade e com o próprio ego. “

    setembro 6th, 2017

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    Foto: Junior Marins/Design Gráfico: Danielle V. Cardoso

    Na sexta-feira passada, dia 01 de setembro, estreou em sessão para convidados a comédia “A Sala Laranja: no Jardim de Infância” (no original, “La Sala Roja”), de Victoria Hladilo, no Teatro Cândido Mendes, em Ipanema, no Rio de Janeiro. A tradução fluida, cuidadosa e universal ficou a cargo de Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta. Victor Garcia também ficou responsável pela direção. Em seu elenco, Renata Castro Barbosa, Isabel Cavalcanti, Priscilla Baer, Daniela Porfírio, Rafael Sieg e Robson Torinni. Idealizada por Elisa Brites, Robson Torinni e Victor Garcia Peralta, a peça é uma realização da REG’s Produções Artísticas Ltda.. A história de “A Sala Laranja”: no Jardim de Infância” (o espetáculo, que ganha a sua primeira montagem brasileira, já foi visto por cerca de 100.000 pessoas desde a sua estreia em 2013) se concentra na reunião, como de costume, dos pais das crianças de um jardim de infância para a discussão de problemas atinentes à instituição escolar e escolha de projetos lúdicos e pedagógicos que melhor se adequem à educação de seus filhos. O que era para ser um simples encontro para o debate de ideias e encontro de soluções conjuntas, torna-se um campo de batalha com troca de farpas de todos os lados. Os problemas dos alunos e questões da escola servem tão somente como catalisadores das revelações das frustrações, complexos, desvios de comportamento e traços individualizados dos perfis tanto dos pais quanto dos profissionais do colégio (no caso, uma professora). Num tom de comédia assumida e saborosamente crítica e sarcástica, a premiada dramaturga Victoria Hladilo desenvolve uma narrativa ácida, inventiva, reconhecidamente interessante, com a habilidade de se passar em um único ambiente, pouco explorado, com seis personagens totalmente distintos, que passeiam pelas mais diferentes situações de conflito (com muitas das quais nos identificamos), sem que em nenhum momento se vislumbre um viés mais pesado na abordagem dos temas contextualizados. Pelo contrário, Victoria buscou sempre o humor inteligente e criativo para tratar das difíceis e complexas relações de convivência entre pessoas que aparentemente possuem um interesse comum. Este embate involuntário é realçado por uma certa claustrofobia e limitação ao tempo de que dispõem (ninguém pode sair da sala da escola até que a reunião se finde com a chegada dos pequenos alunos para as aulas). O que se vê é uma conflagração aberta, uma disputa acirrada de egos, uma procura de se atingir a superioridade sobre o outro. Uma das grandes sacadas de Victoria é nos mostrar o egoísmo do ser humano, pois na verdade o que se testemunha não é a defesa dos interesses de seus filhos, e sim um esforço na prevalência de suas vontades. A exiguidade do ambiente e seu respectivo confinamento propiciam a eclosão de suas qualidades mais reprováveis (competitividade, manipulação, inveja, ciúme, intolerância…). Outro dos méritos do texto é se utilizar de um local infantil, com situações infantis, como pintar, desenhar, montar brinquedos, para colocar em cena pessoas adultas discutindo e debatendo temas em sua essência adultos. No espaço de semiarena do Teatro Cândido Mendes, observamos a chegada paulatina dos pais dos alunos, recebidos pela educadora Inês (Isabel Cavalcanti). Aos poucos, percebemos os aspectos definidores do caráter de cada um desses pais. Temos a mãe que toma para si, sem que lhe seja dada esta função, um papel de liderança, com contornos autoritários e intolerantes, porta-voz de comentários invariavelmente maliciosos e provocativos. A personagem Sandra é defendida com bastante percepção pela atriz Renata Castro Barbosa. Renata, muito sabiamente, trilha pelo terreno fértil do humor, que por sinal domina como poucos, mas sem perder a noção de transmitir para os espectadores nos momentos oportunos os dramas e fragilidades por que passa o seu papel. Isabel Cavalcanti, que se incumbe de dar vida à educadora/professora/recreadora Inês, optou por um caminho da mesma forma irônico, tendo por missão o apaziguamento dos ânimos exaltados dos representantes dos alunos. Isabel adota uma postura de passividade e calma contrastante com a loucura que se estabelece no recinto. Destaca-se na intérprete a maneira didática engraçadíssima com que lida com os pais. Inês constantemente se comunica com uma mãe ausente, Renata, a fim de receber instruções. Priscilla Baer encarna com delicadeza e graça Gabriela, a mãe zen/hippie, adepta dos florais e mantras. Mesmo sendo seguidora deste estilo de vida supostamente mais equilibrado, a moça com sua bata florida e um celular com um toque de chamada demasiado peculiar, sucumbe na mesma frequência certeira aos desvarios de seus colegas/pares da reunião escolar. Daniela Porfírio, como Verônica, comparece ao compromisso dos pais de alunos acompanhada de seu marido, o executivo Diego, Rafael Sieg. Daniela incorpora com meticulosas doses emocionais a esposa e mãe destemperada, fora de si, sem controle sobre as suas ações e reações, refém de suas visíveis fraquezas. Seu tipo bem construído soma com felicidade o painel de personagens expostos. Seu esposo, o sisudo Diego, parece-nos absolutamente desconfortável naquele ambiente ocupado por indivíduos que lhe soam estranhos. Com belo posicionamento em cena e voz firme, mesclando com ideal balanço os elementos de indiferença e agressividade do yuppie contrariado com a circunstância, Rafael nos convence de suas intenções interpretativas. Robson Torinni, como Martin, encarrega-se de personificar o pai jovem, garotão, prático, objetivo e dinâmico, sempre disposto a solucionar os dilemas do modo mais eficiente e adequado aos demais. Robson compõe o seu Martin com absoluta consciência da missão de seu papel. Martin seria uma espécie de conciliador das altercações surgidas a todo instante. Com ótima presença cênica e inconteste desenvoltura, o ator não se restringe a este aspecto notadamente jovial, evidenciando-nos a sua dureza e até mesmo um descompasso emocional quando a situação lhe foge do domínio. O intérprete, um dos idealizadores, e também produtor da montagem, ostenta uma louvável entrega ao seu personagem, sem inibições ou pudores, respeitando não só a ideia da peça, mas os agentes que movem a conduta de Martin. A direção de Victor Garcia Peralta marca a sua volta às comédias, gênero no qual atingiu grandes e inegáveis êxitos, tanto de público quanto de crítica, como “Alucinadas” (com a própria Renata Castro Barbosa, junto com Luciana Fregolente), “Não Sou Feliz Mas Tenho Marido” e “Os Homens São de Marte… E É Pra lá que Eu Vou”. No entanto, o que define este competentíssimo e sensível encenador argentino, brasileiro por vocação e de coração, é a sua versatilidade em transpor para os palcos dramaturgias de variadas temáticas, como o drama clássico contemporâneo “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, o solo “Tudo Que Eu Queria Te Dizer” e “Decadência”. No que se refere a “Sala Laranja…” , Victor nos dá a impressão de que deixou se libertar, voltando às suas origens, dando vazão ao seu olhar crítico, anárquico e transgressor das normas do cotidiano e das instituições, utilizando-se deste gênero riquíssimo (muitas vezes pouco valorizado pelos especialistas) que é a comédia. Extremamente hábil no manejo do texto que tem em mãos, e do elenco de que dispõe, Victor Garcia esbanja espontaneidade, qualidade, inteligência cênica e propósitos bem definidos na montagem da peça de sua conterrânea. O diretor não teme o potencial obstáculo das dimensões diminutas da semiarena, tendo que dirigir todos os seis atores em cena, colocando-os em pontos estratégicos, ou os conduzindo em suas diversas movimentações, de maneira que haja uma harmonia, e um quadro cênico organizado. É digno de nota, realmente elogiável, o trabalho de direção que Victor imprimiu ao seu elenco. Todos, sem exceção, são atores com múltiplos e incontestáveis méritos. Sabedores dos legítimos intentos da dramaturga e de seu diretor, os intérpretes, uniformemente, cumpriram com brilho e dignidade os deveres de execução de um espetáculo que contém em seu cerne inúmeros atributos. O cenário ficou por conta de Dina Salem Levy. Sua atribuição foi a de reproduzir com o máximo possível de fidelidade o ambiente lúdico e mágico de uma sala de aula de jardim de infância (volto a dizer, adaptando-o ao espaço de semiarena), e o fez com extrema coerência e encantamento. Dina criou um mundo escolar pleno em nostalgias para nós, adultos, que assistimos à peça. São pequenas mesas e cadeiras coloridas espalhadas pelo espaço, tendo sobre aquelas papéis, lápis, objetos feitos à mão, tendo ao fundo uma parede coberta de letrinhas do alfabeto de diversas cores, uma estante com vários compartimentos, uma lousa, bastantes potes para lápis, hidrocor e similares nas prateleiras, além de bichinhos, baldes com rolos de cartolinas e guarda-chuvas, tapetinho sintético etc. Enfim, tudo o que se pode encontrar neste universo infantil escolar. Os figurinos de Luiza Fardin também correspondem com enorme coerência às figuras dos pais retratados e da recreadora. Luisa usa conjunto preto e escarpins para Renata Castro Barbosa, uniforme com avental para Isabel Cavalcanti, vestes hippie com modelagem floral para Priscilla Baer, blusa com estampas convencionais para Daniela Porfírio, terno e gravata para Rafael Sieg e moletom e camiseta cavada para Robson Torinni. A iluminação teve a assinatura de Daniel Gálvan. Ele, apropriadamente, valeu-se de uma luz forte, aberta e permanente, que, na verdade, corresponde à realidade do local em que se desenrola a ação. Não haveria sentido na utilização de efeitos. Daniel escolheu a alternativa mais pertinente, e acertou. A direção de movimento foi feita por Cristina Amadeo. Cristina se esmerou em estudar cada personagem da ação, analisando o seu perfil, a sua característica preponderante, acrescentando um modo de postura e deslocamento que se afinasse com a sua persona, e lhe desse maior credibilidade. Percebemos este trabalho nas atitudes de líder de Sandra, na submissão e fleuma de Inês, na intranquilidade de Verônica, na sisudez de Diego, na leveza zen de Gabriela, e na disposição jovial de Martin. A preparação vocal de Rose Gonçalves atinge níveis qualitativos elevados, pois todo o conjunto do elenco apresenta vozes bem articuladas, respeitando-se rigorosamente as variações emocionais que lhe são impostas (há um momento lírico coletivo comandado pela suave voz cantada de Isabel Cavalcanti bastante emocionante). Ao final da peça, na hora dos agradecimentos gerais, a atriz Renata Castro Barbosa faz uma menção especial ao seu colega de cena Robson Torinni, que se desdobrou bravamente para levantar este espetáculo. De fato, em tempos de sucateamento da cultura do Estado do Rio de Janeiro, em que não se vê o interesse em se apoiar a realização dos espetáculos teatrais, em que teatros são fechados por falta de público, testemunhar um jovem ator como Robson Torinni se aventurar como produtor, e levar adiante o seu sonho de se viver de arte, mesmo com todos os empecilhos, é admirável. Por fim, o que se pode concluir ao se assistir a “A Sala Laranja: no Jardim de Infância” é que se tem à disposição no circuito teatral uma opção de lazer, cultural e de reflexão que se distingue por relevantes atrativos: conhecer a dramaturgia inteligente de uma autora argentina, como Victoria Hladilo, conferir a sua transposição para os palcos por um de nossos diretores mais celebrados, Victor Garcia Peralta, e se deslumbrar com a reunião de um time de intérpretes talentosos engajados com a Arte, para se dizer o mínimo. Além disso, dentro do contexto da trama, passamos a conhecer melhor alguns lados escondidos do ser humano, com toda a sua complexidade, ao se defrontar com os fantasmas da convivência social e do confronto de ideias, dentre outros pontos de potenciais conflitos. Vale a pena voltar a ser “criança” e visitar a sala laranja do jardim de infância de Victoria Hladilo. Mas devemos ficar quietos, pois o papo ali é de gente grande.

     

  • “Como Bibi Perigosa, em ‘A Força do Querer’, Juliana Paes choca o público com a melhor interpretação de toda a sua bem-sucedida carreira, ao personificar uma mulher que abandona os seus sonhos, e entra para o mundo do crime, por causa de sua paixão obsessiva pelo marido, que não lhe oferece amor, e sim bastante adrenalina. “

    agosto 22nd, 2017

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    Foto: Divulgação/Gshow

    No início deste ano, Juliana Paes, uma das maiores estrelas da televisão brasileira, detentora de uma popularidade impressionante, já havia nos impactado com a personagem Zana, na primeira fase da minissérie de Maria Camargo adaptada do livro de Milton Hatoum, “Dois Irmãos”, na Rede Globo (na fase seguinte, com o mesmo brilho, Zana foi interpretada por Eliane Giardini). Neste papel, Juliana, que é natural de Rio Bonito, interior do Estado do Rio de Janeiro, demonstrou uma potência dramática de elevadíssimo nível, como a mãe sofredora de dois filhos gêmeos homens que nutriam um pelo outro sentimentos intensos de ódio, ciúme e inveja (Omar e Yaqub foram defendidos por Cauã Reymond). Esta composição de Juliana, a despeito da produção ter sido gravada em 2015, já poderia ser eleita como uma das melhores do ano na TV. Entretanto, no começo de abril, estreava “A Força do Querer”, a nova novela de Gloria Perez após cinco anos, que viria a nos mostrar mais uma notável atuação de Juliana Paes. Alguns de seus grandes chamarizes seriam a reunião de atores (muitos deles comumente escalados como protagonistas de outras obras) em distintos núcleos, e a abordagem de temas com vieses polêmicos (como Gloria está habituada a fazer), sem preterir os elementos clássicos que definem uma atração deste gênero. Em um desses núcleos, está Juliana, que despontou para o Brasil ao viver Ritinha, a empregada doméstica que encantava o seu patrão Danilo, Alexandre Borges, em “Laços de Família”, de Manoel Carlos (2000). Um enorme desafio em sua bem-sucedida carreira lhe caberia nesta trama do horário nobre que tem atingido ótimos índices de audiência e repercussão como há muito não se via: personificar Bibi, uma mulher que acaba se envolvendo com o crime a fim de não abandonar o seu marido Rubinho (Emílio Dantas em atuação arrebatadora), acusado e preso por tráfico de entorpecentes. Baseada em fatos reais extraídos do livro “Perigosa”, de Fabiana Escobar, a história de Fabiana se desenvolveu aos poucos na telenovela, revelando-nos todas as etapas de sua vida comum até chegar à fase de seu envolvimento com a ilegalidade. A belíssima Bibi, filha de Aurora (a excelente Elizangela), nos primeiros capítulos de “A Força do Querer”, era noiva de Caio (Rodrigo Lombardi), um sério e dedicado rapaz com um futuro promissor como advogado, que havia conhecido nos tempos acadêmicos. Bibi é passional e ciumenta, e se ressente de não ter a atenção devida de seu parceiro, mais preocupado com suas aspirações profissionais (vale destacar o inspirado e convincente desempenho de Rodrigo Lombardi, repetindo o par com a atriz depois do sucesso de “Caminho das Índias”, da mesma Gloria Perez). O término do compromisso ocorre após o irmão de Heleninha (Totia Meireles) descobrir que está sendo traído por sua companheira, “a mulher que ama grande”, com o garçom Rubinho. Desiludido, Caio abandona seu importante cargo nas empresas Garcia, e viaja, decidido a refazer a sua vida. Neste ínterim, Bibi também segue outros rumos. Sem nunca ter terminado seus estudos de Direito, para desgosto de sua mãe, casa-se com Rubinho, tendo um filho, Dedé (o adorável João Bravo). Trabalhando como cabeleireira e manicure, enquanto seu marido, estudante de Química, faz “bicos”, leva uma vida modesta. A situação econômica dos dois piora, ao ponto de dividirem um colchão num depósito de bar. Até que Caio retorna ao Brasil, e muda todo o contexto da situação. Penalizado com o estado de necessidade em que se encontra a sua ex-noiva, ajuda-a, com a cumplicidade de Aurora, de diferentes maneiras. Oferece-lhe, sem que saiba, em nome de sua mãe, por um módico valor de aluguel, uma boa casa para morar com o seu marido e filho, e pede ao amigo Dantas (Edson Celulari), que empregue Rubinho em seu sofisticado restaurante. A vida do casal parecia finalmente ter entrado nos eixos. Bonito, educado e comunicativo, Rubinho, alçado ao posto de maître, indica-nos que se estabeleceu social e financeiramente, voltando, inclusive, a frequentar a faculdade. Todavia, telefonemas repetidos e fora de hora, além das entradas mal justificadas de dinheiro em casa, levantam as suspeitas de sua sogra. Alegando ser intermediário em transações de corretagem com os clientes do restaurante, Rubinho, na verdade, estava traficando drogas não só em seu local de trabalho, mas na rua onde morava. Bibi procura acreditar nas desculpas do marido, sempre acompanhadas de promessas de uma vida melhor, ao se ausentar de casa, do restaurante e da faculdade, apesar de intuir que possui uma amante. Presentes variados e caros dados à família, a aquisição de um carro moderno e a rápida mudança em seu padrão de vida aumentam as desconfianças não só de Aurora, mas dos vizinhos também (Yuri, representado por Drico Alves, um jovem ator bastante seguro em cena, flagra, com o seu celular, as visitas estranhas recebidas por Rubinho em sua residência). Em outro núcleo, a major Jeiza (Paolla Oliveira em significativo momento de sua trajetória artística) se prepara para comandar uma megaoperação de apreensão de drogas transportadas em caminhões. Na blitz policial, com direito a troca de tiros entre os representantes das leis e os criminosos, Jeiza “teve a impressão” de ter visto Rubinho no bando de delinquentes. Inicia-se aí a jornada implacável da major para provar a culpabilidade do maître como integrante de uma sólida facção criminosa, o que gera, inevitavelmente, a ira de Bibi (as cenas de confronto, que não foram poucas, entre Juliana Paes e Paolla Oliveira, foram invariavelmente marcadas por crescente tensão, exibindo o vultoso talento de ambas). Com o vazamento das fotos tiradas por Yuri, e consequente denúncia de Heleninha, a situação do genro de Aurora se complica. Preso, ameaçado pelos seus colegas de cela, passa a pedir favores à mulher para “levantar a sua moral” junto aos presos. O passo crucial que delimitou a entrada de Bibi no mundo do crime se deu quando incendiou o escritório do restaurante de Dantas com o propósito de destruir os dados comprometedores de Rubens no computador (sua culpa até hoje não foi provada, a despeito da ciência de Caio, promovido ao cargo de assessor da Secretaria de Segurança). Desobedecendo aos conselhos de sua progenitora, que sempre cita os “sinais” que ela recebe para sair a tempo da criminalidade, a personagem de Juliana Paes resolve subir o fictício Morro do Beco (a comunidade de Tavares Bastos, no Catete, no Rio de Janeiro, serve de locação) para falar diretamente com o chefe do tráfico, Sabiá (Jonathan Azevedo). Consegue a sua confiança e admiração pela coragem, garantindo a sobrevivência de seu esposo. Aos poucos, Fabiana vai cometendo uma série de pequenos delitos, como entrar às escondidas na penitenciária para encontros íntimos. E grandes, como servir de mensageira de informações entre os membros da facção (o que já configura o seu indiciamento no crime “associação ao tráfico”). Parece não haver freios para a ex-noiva de Caio, que volta e meia se convence de que tudo seria diferente em sua vida se não tivesse se separado dele, e se tivesse aceitado a sua proposta de uma nova tentativa de relacionamento amoroso. Bibi auxilia na primeira e frustrada fuga de Rubinho da cadeia. Em sua segunda tentativa, desta vez com êxito, o detento, auxiliado por comparsas, escapa por uma tubulação de esgoto. Com o rapaz de barba e cabelos curtos ruivos morando na favela, e ganhando cada vez mais prestígio entre os seus pares, devido às suas ideias e conhecimentos de Química, usados para alavancar e organizar o negócio ilícito, as visitas de Bibi ao morro são cada vez mais frequentes, enquanto o filho do casal sofre bullying na escola, na rua, sendo discriminado por seus coleguinhas até no dia de seu aniversário. Trilhando um caminho sem volta, como ela mesma diz (“Não tem volta”), a ex-estudante de Direito, aplicada e defensora dos preceitos legais, agora faz entrega de carregamento de armas pesadas no porta-malas de seu carro. Cada vez mais seduzida pelo universo do crime, com seus bailes grandiosos e camarotes vip, sua forma particular de hierarquia e poder, fartura de bebidas e cordões pesados de ouro, Bibi passa a dividir um quarto com o seu marido, que lhe promete saírem de lá, e recomeçarem uma nova vida. Leva consigo o seu filho, que fica decepcionado com o que vê. Nas festas da comunidade às quais vai, a amiga de Ritinha (Isis Valverde) nos deixa patente que o seu ciúme doentio permanece inalterado. Um dos ápices deste ciúme, e que lhe garantiu o epíteto de “Perigosa” pelos integrantes da quadrilha, decorreu quando uma mulher se aproximou de Rubens com outras intenções, e Bibi lhe arrancou, como se a tivesse escalpelado, uma espessa parte dos apliques de seu cabelo, suspendendo-a, com um dos braços, tal como um troféu, para o delírio dos presentes. Notamos no papel de Juliana uma confluência de duas personalidades que se colidem: a original, a Bibi alegre, amorosa, amiga, carinhosa com a mãe e capaz de ajudar o outro, como na ocasião em que salvou Silvana (Lilia Cabral) de uma enrascada num cassino clandestino de subúrbio, e a contingencial, que se expõe pela sua conquistada autoridade lograda por meio de seu comportamento ameaçador, agressivo e vingativo. Também salvou a vida de Caio, ao esbarrar propositadamente em um criminoso, quando o mesmo alvejava a autoridade. Houve uma passagem interessante em que vimos a Bibi de antes ao chamar a atenção de seu marido quanto à sua mudança de perfil (o jovem ostentou uma faceta cruel que lhe era desconhecida). A personagem também vivencia conflitos no que concerne aos seus sentimentos. Ao que parece, ainda sente amor ou afeto por Caio, e por Rubinho, o que sente é uma avassaladora paixão, o que naturalmente a cega, movida por doses excessivas de adrenalina. Uma mulher sem limites, capaz de tudo pelo homem pelo qual se apaixona. Assim poderíamos definir Fabiana. Merece destaque a inacreditável habilidade da moça em construir enredos inventivos com o intento de encobrir algum malfeito, seja quem for o seu interlocutor, que pode ser tanto Caio quanto um delegado de polícia. Se bem que, recentemente, a vizinha de Heleninha capitulou diante do assessor de Segurança Pública, quando este a interpelou acerca do incêndio no restaurante do pai de Cibele (Bruna Linzmeyer). No capítulo de ontem, houve cenas definitivas na novela de Gloria Perez. O traficante Sabiá (a atuação de Jonathan Azevedo é de um realismo incontestável) é atingido por um tiro durante uma batida policial no morro, tendo Bibi como testemunha. Imediatamente, Rubinho assume o seu posto de chefe da facção, dando ordens furiosas aos seus agora subordinados. Antes disso, já havia saído uma matéria nas páginas policiais se referindo ao rapaz como o “Barão do Pó”, e a Bibi, como a “Baronesa do Pó”. Percebe-se na expressão de Bibi uma preocupação e insegurança com este novo status. Juliana Paes, que criou personagens marcantes em novelas como “Celebridade”, “América”, “Gabriela” (como a própria) e “Meu Pedacinho de Chão” (seu penúltimo trabalho neste gênero de produção foi em “Totalmente Demais”, como a vilã Carolina) tem exibido o seu enorme amadurecimento artístico ao interpretar um tipo de personagem dificílimo, complexo, contraditório, e que poderia facilmente obter a rejeição do público. Mas isto, graças ao seu extenso talento, não aconteceu. Bibi é uma das personagens mais populares da trama, e tem sido responsável por algumas das melhores cenas da telenovela. Juliana usa com bastante expressividade os seus olhos para traduzir as suas emoções. Fixos, penetrantes, eles nos dizem o que querem. Impressiona-nos do mesmo modo a forma como a intérprete impôs à sua voz e ao texto da autora um tom espontâneo, natural e popular, recheado de gírias e linguajar típicos do ambiente novo ao qual se adapta. Suas beleza e sensualidade, com roupas justas e chamativas, que delineiam a sua forma física perfeita, são tão exuberantes que não sobra um único espaço para um mínimo de vulgaridade (levando-se em consideração o contexto da dramaturgia). O jeito como Juliana caminha, seja pelas ruas da vizinhança, seja pelas vielas da comunidade, impõem o respeito e a personalidade que o papel exige. Não podemos deixar de mencionar o impecável trabalho de direção de Rogério Gomes, Pedro Vasconcelos e equipe pelas cenas (a equipe de diretores da novela é complementada por Claudio Boeckel, Luciana Oliveira, Roberta Richard, Fábio Strazzer e Allan Fiterman), muitas delas de ação, com fortes inspirações cinematográficas. As tomadas aéreas da Favela do Beco (inclusive quando há o baile), de suas labirínticas ruas, com subidas e descidas, escadas estreitas e íngremes, e centenas de casas chocam pela grandiosidade visual. A trilha sonora incidental (música original de Rodolpho Rebuzzi e Mú Carvalho; gerência musical de Marcel Klemm) que acompanha as cenas de Fabiana nos causa uma indomável apreensão (há uma batida lenta de um tamborim, além de um som perturbador insistente que nos indica a gravidade da situação). Obra impecável. Cinema de altíssima qualidade na TV. Alguns alegam que Gloria Perez tem feito uma “glamourização” do crime ao relatar esta verídica história, com as devidas licenças. Mas o que posso dizer é que Gloria nos afirma mais uma vez ser uma escritora de ilimitada bravura, sempre conectada com os fatos do mundo contemporâneo. Coincidentemente ou não, o Rio de Janeiro, basta ler as manchetes dos jornais, há muito tempo não reportava índices de violência tão altos ligados a esta atividade criminosa. Nada do que se vê na novela é inventado, fantasiado, portanto a abordagem deste assunto é válida e importante. Bibi Perigosa é um divisor de águas na carreira de Juliana Paes. Provou-nos de que é uma excelente atriz. Com Elizangela e Emílio Dantas, igualmente fantásticos em suas atuações, “A Força do Querer” tem se firmado como uma das novelas mais atraentes dos últimos anos, e sem dúvida uma das melhores de Gloria Perez. Resta-nos saber quando Bibi Perigosa fará o caminho de volta. Se é que o fará. Para isso, terá que deixar para trás a adrenalina de que tanto gosta, e principalmente deixar de ser… “perigosa”.

     

  • “Violentamente belo em sua estética corporal, ‘Tom na Fazenda’, com Armando Babaioff, Kelzy Ecard, Gustavo Vaz e Camila Nhary, revela ao público as fartas complexidade e contradição que envolvem as emoções humanas, passando, com sua riqueza dramatúrgica, por temas como intolerância, preconceito, homoafetividade e choque cultural.”

    agosto 10th, 2017

    Gustavo-Vaz-Armando-Babaioff-e-Kelzy-Ecard_Tom-na-Fazenda_Crédito-José-Limongi
    Foto: José Limongi

    Enquanto o público entra no teatro, os atores Kelzy Ecard e Gustavo Vaz, já imbuídos em seus personagens, a mãe Agatha e o filho Francis, vão de um lado ao outro da ribalta organizando o cenário. Kelzy e Gustavo reposicionam baldes pretos e sacos de areia, e os enfileiram ao fundo. Há terra e poeira suspensa no ar. Suas roupas rústicas estão manchadas com a lama dos pastos. Um enorme plástico preto é estendido sobre o tablado. Há um paralelo entre este trabalho dos intérpretes à vista dos espectadores, iniciando uma familiarização destes com o universo da peça, com a lida diária dos moradores da fazenda onde se desenrolará a ação. O espetáculo “Tom na Fazenda” (“Tom à la Ferme”, no original), uma das montagens mais incensadas e elogiadas do momento no Rio de Janeiro, com indicações aos principais prêmios da temporada, tem a sua dramaturgia assinada pelo laureado autor canadense Michel Marc Bouchard, sendo esta a primeira montagem de sua obra em solo brasileiro (a peça fora traduzida e encenada em diversos países, e sua estreia ocorreu em Montreal, Canadá, em 2011). O ator e produtor Armando Babaioff, que interpreta o próprio Tom, além de ter feito uma primorosa tradução, tomou conhecimento da história de Michel Marc através da adaptação cinematográfica de Xavier Dolan, a produção homônima franco-canadense lançada em 2013, protagonizada por Xavier. O entrecho realmente se inicia com a chegada do jovem designer gráfico de uma agência de publicidade, Tom, à fazenda dos familiares de seu namorado morto em um trágico acidente de moto, para participar dos atos cerimoniosos de seu funeral. Tom é um rapaz extremamente sofisticado e vaidoso, adepto de perfumes e roupas de grifes, que terá de enfrentar o mundo exponencialmente avesso ao qual está acostumado a frequentar. Ao chegar à fazenda, o primeiro de muitos choques. Seu namorado havia omitido de sua família o relacionamento homoafetivo que mantinha com ele. Passa, a partir daí, a se apresentar como apenas um amigo que fora prestar as suas últimas homenagens. Agatha, a mãe, recebe-o a princípio com grande entusiasmo, nutrindo pelo visitante uma crescente admiração e encantamento pelo seu jeito de ser. Face às circunstâncias, Tom, imerso em desorientações particulares, envereda-se por um caminho regado a mentiras convenientes, como a existência de uma amiga em comum, Helen/Sarah (Camila Nhary), que ocuparia a posição da namorada do moço falecido. As tensões começam a surgir com a entrada em cena do irmão de seu namorado, Francis. Francis é um homem rude, tosco, bruto, ameaçador e violento. O rapaz alto, branco e robusto se aproxima de Tom, reafirmando as suas características que o tornam uma pessoa com caráter temível. Num caminho sem volta, Tom, passivo diante da alternância de opressão daquela família, por vezes velada, por vezes assumida, passa a executar as obrigações cotidianas do isolado clã, como se vestir para a lida no campo, ordenhar vacas e fazer o parto de um bezerro. Essas “conquistas” o enchem de orgulho, e no caso do parto, de êxtase. Existe no núcleo familiar uma infelicidade nata não revelada, causada não somente pela morte de um de seus membros. O relacionamento entre Francis e Agatha parece alicerçado em aparências impositivas. Não são percebidos amor tampouco afeto entre a matriarca e seu filho. Aos poucos, confuso, afastando-se cada vez mais de seu habitat, com a lama e a sujeira da terra lhe deixando marcas simbólicas em suas vestes, o publicitário vai se distanciando de sua identidade original, cedendo ao cerco de seus involuntários anfitriões. A inevitável aproximação entre Tom e Francis adquire proporções imprevisíveis e incontornáveis. A repulsa do segundo pelo primeiro é dimensionada pela selvageria e truculência que o definem. Por trás da ojeriza do camponês pelo rapaz da cidade se esconde uma incontrolável atração física, que vai se evidenciando das mais diferentes formas. Seu comportamento se enquadra com congruência à conceituação de homofobia. Francis não vê possibilidades de aceitação da diferença, a despeito de seus fortes desejos por esta mesma diferença. A descoberta de suas vontades íntimas o impelem a agredir de modo assustador, verbal e fisicamente, o alvo de seus desejos carnais. Francis e Tom se digladiam como os cães ferozes caçadores de coelhos da fazenda. O balé brutal de seus corpos másculos, enlameados, encardidos e sujos possui uma coreografia truculenta de braços que se socam e se esfregam, pernas que se debatem e se cruzam, urros de ódio, dor e estranho prazer, e rostos de ódio, dor e estranho prazer. As constantes brigas físicas de Francis e Tom são o que de mais próximo podem chegar de um “ato sexual e erógeno”. Porém, não só de cenas de pugilato explícito vivem os dois. Uma dança do casal ao som de uma canção latina com seus torsos juntos em movimentos compassados recrudesce a intimidade mútua. Essa relação conflituosa alimentada por desejos proibidos atinge limites perigosos, chegando a ultrapassá-los, o que se confirma pela barbárie da tortura perpetrada por Francis, com vieses sádicos e fetichistas, em Tom (em uma das cenas mais fortes e impactantes já vistas no teatro, o personagem de Armando Babaioff é suspenso de cabeça para baixo preso somente por cabos em suas pernas; surpreendem a coragem do intérprete, que ainda assim tem que dizer o seu texto, e a pujança física de Gustavo Vaz, responsável pela suspensão e manutenção de Armando, como a sua colocação gradativa no piso do palco). A chegada da suposta namorada do rapaz morto, Helen, na verdade Sarah, à fazenda proporciona uma série de desencontros de informações, solidificando sobremaneira a mentira defendida, provocando na até então crente Agatha amplas desconfianças. A esta altura, sabedor da condição de Tom com relação ao seu irmão, Francis, a fim de preservar a sua mãe da verdade incômoda, obriga o publicitário a sustentar a invenção com Helen, que se atrapalha com o seu inglês combinado. Estas passagens da peça possuem doses de comicidade pelo próprio contexto da situação. Os conflitos se acentuam progressivamente, sem que ninguém seja poupado. Segredos familiares e registros íntimos epistolares são desvendados, elevando a tensão a um patamar máximo. As vidas destes quatro personagens estão entrelaçadas a tal ponto que não há mais lugar para fugir. O fantasma da tragédia ronda aquele grupo em permanente ebulição, até que esta história que começou com uma mentira oportuna ruma para um desfecho verdadeiro e surpreendente. A dramaturgia de Michel Marc Bouchard consiste em um olhar aguçado sobre as relações humanas, levando-se em conta algumas especificidades que são em sua natureza universais. Michel não se ateve a um único conflito. Ao contrário, partiu de um desses, o principal (a presença do namorado no funeral de seu amado, sem que os seus familiares soubessem de sua existência e da orientação sexual do parente), para abordar, com a mesma propriedade, os demais, relativos a outros temas, como a homofobia (um assunto urgente e atual, com índices de sua prática cada vez mais crescentes e preocupantes), a intolerância, os relacionamentos familiares, os choques culturais (econômicos, sociais e de costumes), e até mesmo o consumismo elitista. Todos esses elementos foram alinhavados pelo dramaturgo com sobeja coerência e apelo ficcional, amparados em diálogos inteligentes, humor fino, emoção em distintos níveis e personagens consistentes. O diretor Rodrigo Portella (com quem Armando trabalhou em sua última peça, “O Que Você Mentir Eu Acredito”, em 2013) criou um espetáculo com arrebatador impacto visual, sob vários aspectos. Sua direção, pode-se afirmar, baseia-se em um importantíssimo trinômio: ator, palavra e corpo. Não há em sua montagem uma estética limpa, asséptica, e sim, o seu oposto. Seus atores chafurdam na lama, suas faces são cobertas por terra, suas roupas são manchadas, encardidas durante o processo de desenvolvimento da narrativa. Seus cabelos, em certo ponto, já estão esbranquiçados pela poeira presente e suspensa no ar daquela fazenda onde tudo acontece. Rodrigo, com inteligência cênica e elogiável noção do espaço de que dispunha, colocou os seus intérpretes em lutas/jogos corporais impressionantemente hiper-realistas. A lama, associada à violência dos homens que usam seus corpos como armas, transformou-se em um quadro cênico de extrema beleza. O encenador manteve sempre o seu elenco na ribalta. Mesmo que uma dupla estivesse em contracena, os outros se recolhiam, imóveis, nos cantos do palco. Extraiu de seus talentosos artistas o máximo de suas potencialidades dramáticas. Pincelou com irônico e fugaz humor alguns trechos da montagem. Alternou momentos de silêncio e absoluta tensão. A sexualidade e todos os seus desejos são sugeridos por meio de atalhos nada óbvios, podendo se mostrar, com a mesma força, na briga selvagem dos homens brutos, ou na paz sensual de uma dança ao acaso. Além de apostar no suspense e na imprevisibilidade dos fatos. O elenco se sobressai por sua notória coesão e absorção emocional das gamas infindas de conflitos pessoais e interpessoais por que passam. Armando Babaioff compôs com admiráveis delicadeza e sensibilidade o publicitário fragilizado pela morte de seu companheiro. Soube desenhar o perfil de seu papel com as características de sofisticação urbana que lhe são naturais. Com precisa capacidade, impinge a Tom as suas gradativas transformações emotivas. Passeia com desenvoltura pelo choque sofrido pelas diferenças e pelo imprevisto, e nos transmite com potência única suas reações de agressividade e passividade, além do desespero e da agonia. Gustavo Vaz nos impressiona de modo soberbo ao elaborar minuciosamente os traços definidores da personalidade de Francis, o homofóbico irmão do falecido. Com uma cuidadosa e suave modificação no acento de sua voz, com o intuito de nos direcionar ao ambiente rural, Gustavo não teme em construir com perturbadora veracidade a truculência, a estupidez, a rudeza e a ignorância preconceituosa daquele homem isolado do mundo moderno. Sua postura ora cruel e bárbara e a incerteza de seus passos seguintes nos atemorizam. Entretanto, em determinados instantes, oferta-nos uma graça bruta e uma linha tênue de sensibilidade de seu personagem que nos são inesperados. Kelzy Ecard tem a missão de percorrer, e o faz com a exuberância e a dignidade de sempre, as seguidas etapas de ações e reações emotivas de sua personagem, a matriarca Agatha. Kelzy, com o seu conhecido domínio interpretativo, ostenta-nos as variações de comportamento da mulher enlutada, da mulher efusiva com as chegadas dos supostos amigo e namorada do filho e da mulher magoada e ferida com os sentimentos de rejeição de seu outro descendente. Vimos desde uma Agatha hospitaleira e gentil até uma Agatha acometida pela indignação provocada pelos enredos inventados. Por sinal, tanto Gustavo quanto Kelzy encarnam com bastante verossimilhança e credibilidade os habitantes de uma localidade afastada, simples e com costumes peculiares, no caso, a fazenda. Camila Nhary, como Helen/Sarah, a potencial namorada do rapaz morto, desenvolveu o seu papel seguindo duas linhas de interpretação, que resultaram em grande acerto. Camila nos exibe distinta vocação para o tom cômico ao se fazer passar pela namorada que mistura o inglês e o português. Este momento do espetáculo garante ao público sensações de leveza face a um painel de ascendente tensão. A atriz, da mesma maneira, convence-nos com irretorquível veracidade o empenho, somado a um nível de assombro, de Helen/Sarah, perante a transformação comportamental de seu amigo Tom, e sua incapacidade de enxergar a realidade adversa que o cerca, de convencê-lo a voltar para a casa. A cenografia de Aurora dos Campos é crua, árida, seca e literalmente terrosa. Utilizando-se de baldes pretos (com mais de uma função), sacos de areia, tamboretes e um plástico preto sobre o piso do palco, Aurora evocou com êxito, logrando considerável impacto, a desolação daquele lugar inóspito o qual se torna o epicentro de toda a ação. A iluminação coube a Tomás Ribas. Tomás se vale com suprema percepção de vasta cartela de possibilidades com o propósito de realçar, atingindo-se tanto a beleza quanto a coerência, cada cena da montagem. A iluminação branda em tons de sépia ou levemente amarelada é prevalente. Uma luz quente tradicional dependurada no meio do tablado exerce relevante função cromática. Com pouco mais de uma dezena de refletores, vislumbramos um belo conjunto visual com focos individualizados, geometrias de luz, planos com maior intensidade luminosa e blecautes nos cantos da ribalta. O vermelho é usado em profusão em um específico momento da peça. Os figurinos de Bruno Perlatto transitaram com significativa fluência pela sofisticação e requinte dos trajes grifados de Tom ao chegar à fazenda, como calça justa e blazer com chemise, e sapatos refinados, todos pretos, à rusticidade, simplicidade e objetividade das vestimentas de Agatha, que usa uma sobreposição de casacos escuros, saia, meias grossas e sandálias (por vezes, galochas). Francis é visto com uma camisa clara listrada de botões, suspensórios, calças jeans e botas. E Helen/Sarah veste roupas de contexto fashion extremamente coloridas, como uma capa amarela sobre um vestido com aspecto de seda/cetim rosa, calçando botas de cano longo negras, além de acessórios extravagantes (as cores despertam a atenção de Agatha para o fato de que não está de luto). Durante a encenação, Tom passa a se trajar de acordo com os costumes locais, próprios para a lida. Marcello H. nos apresentou uma concepção sonora com elevada, rica e potente pesquisa de viabilidades de sons que nos remetem a universos estranhos, instigantes e em algumas ocasiões perturbadores e incômodos, como um ruído agudo intermitente que destaca o clima opressor e o suspense da peça. Porém, ao mesmo tempo, o conceituado músico nos embala com deliciosas canções ao ritmo da cumbia (estilo de música tradicional da Colômbia e Panamá), como a irresistível e dançante “Loca”, da banda chilena Chico Trojillo. A preparação corporal de Lu Brites é devastadoramente impactante e bela. Violenta, carnal, sexual e poética. As lutas de Tom e Francis, como caça e presa se alternando em suas posições, exalando seus humores e suores, misturados à lama e terra, com seus corpos escorregadios que se grudam e se soltam, são legítimos quadros cênicos de força erótica e sensual, sem resvalar em vulgaridades. E o modo como os personagens lidam com as atividades rotineiras de uma fazenda são de uma legitimidade elogiável. “Tom na Fazenda” nos traz a dramaturgia inédita de um autor, Michel Marc Bouchard, nascido em outro país, mas que fala para o mundo. Em nenhuma passagem da peça, há a referência onde a história se passa (em sua tradução), simplesmente porque ela é universal. Ao assistirmos a este espetáculo fazemos uma viagem pelos sentimentos que nos norteiam, o amor e os desejos, pelos fantasmas que nos assombram, como o preconceito, a intolerância e a resistência às diferenças. “Tom na Fazenda” é uma peça que fala sobretudo sobre a aceitação do amor. Não importa qual seja a sua origem. Não importa qual seja o seu rumo. “Tom na fazenda” fala sobre verdades e mentiras. Sobre as dores de uma e de outra. Todos nós somos um pouco Tom. Todos nós já visitamos a nossa fazenda.

  • “A nova série da Rede Globo, ‘Sob Pressão’, baseada no filme homônimo de Andrucha Waddington, com Julio Andrade e Marjorie Estiano, é um retrato visceral, realista e impactante da deplorável e desumana situação da saúde pública do Brasil.”

    julho 27th, 2017

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    Foto: Mauricio Fidalgo/Gshow

    Há duas produções de cunho médico/hospitalar, ambas da Rede Globo, que logo me vêm à mente ao escrever sobre o primeiro episódio da série de Jorge Furtado, responsável por sua redação final, “Sob Pressão”, que estreou na noite de anteontem na Rede Globo: “Obrigado, Doutor”, de 1981, escrita por Walther Negrão, Walter George Durst, Roberto Freire, Moacyr Scliar, Ferreira Gullar e Ivan Ângelo, protagonizada por Francisco Cuoco e Nicette Bruno (na trama, o médico Rodrigo Junqueira, Francisco Cuoco, assumia uma clínica do interior do país, sem quaisquer recursos técnicos e equipamentos, tendo que se desdobrar para que não ficassem desassistidos os moradores da pobre região); e “Mulher”, série de Álvaro Ramos, Euclydes Marinho e Doc Comparato, exibida nos anos de 1998 e 1999, em que as médicas Marta, Eva Wilma, e Cristina, Patrícia Pillar, profissionais de gerações diferentes, dentro da clínica especializada no atendimento às mulheres na qual trabalham, veem-se diante de diversos dilemas éticos e da urgência de se salvar as vidas das pacientes que chegam em suas mãos. Evidente que as circunstâncias que envolvem o sistema público, e muitas vezes particular, de saúde no Brasil, de décadas passadas para cá, mudaram substancialmente, e para pior. “Sob Pressão”, inicialmente em formato de longa-metragem (e exibido na semana passada na própria Rede Globo), foi levado às telas de cinema em novembro de 2016, sob a direção de Andrucha Waddington. O filme foi inspirado no livro de Márcio Maranhão (em depoimento a Karla Monteiro) “Sob Pressão – A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro”. A série atual surgiu a partir de uma ideia original da diretora Mini Kerti, que coassina a direção com o mesmo Andrucha Waddington, cuja criação ficou a cargo de Luiz Noronha, Claudio Torres e Renato Fagundes. Sendo uma coprodução da Rede Globo com a Conspiração Filmes, “Sob Pressão” terá os seus episódios engendrados (incluído o primeiro) por uma equipe constituída por Lucas Paraizo, Antonio Prata e Márcio Alemão, além de Jorge Furtado. O primeiro episódio nos apresenta o cirurgião Evandro (Julio Andrade), que está defronte ao maior desafio médico de sua vida: operar a sua mulher Madalena (Natália Lage), que acaba de sofrer um grave acidente automobilístico. Evandro, por ser seu marido, devido a razões éticas, não pode operá-la. O diretor do hospital Samuel (Stepan Nercessian) deixa isso bem claro. Não há aparelho de ultrassonografia. O clínico geral Décio (Bruno Garcia) não está presente. Evandro, contrariando todas as normas de conduta médica de um hospital, decide operá-la. Seus hercúleos esforços em salvá-la, que lhe pede desculpas, são impactantes. Suas mãos firmes, porém já exausto e nos estertores do desespero, uma sobre a outra, sobre o peito da amada, executando movimentos bruscos de ressuscitação, são em vão. A mão desfalecida de sua esposa com o anel de casamento sem brilho indica o seu fim. Um ano se passa. No meio do caos estabelecido no hospital de subúrbio, Evandro passeia pelos corredores abarrotados de enfermos e feridos jogados em seus cantos. Há todos os tipos de pacientes misturados, sem qualquer critério ou seleção de gravidade. Há o que se feriu na perna, e que, através de um suborno, sugere o atendimento prioritário (Rodrigo Ferrarini). Há a senhora, Dona Dercy, Ângela Rabello, hipocondríaca, que apenas vai ao hospital falar de suas potenciais dores. Há o que deveria estar em uma instituição psiquiátrica (Jack Berraquero). E o S. Rivaldo (Emiliano Queiroz), que mesmo tendo que caminhar, não o faz, pois poderá perder a sua maca. Evandro, que nunca consegue comer, encontra a vendedora de sanduíches em uma das alas do centro hospitalar, Dona Noêmia, Ângela Leal. Surge uma emergência. Uma grávida de sete meses atropelada. Motivo do atropelamento: atravessou a rua mexendo em seu celular, com os fones nos ouvidos. Mais uma vez, o dilema ético entra em questão. Deveria a gestante ser levada para uma maternidade, mas não há tempo nem oxigênio. Salva-se a mãe ou o filho? Evandro quer salvar os dois. Face a esta situação urgente e delicadíssima, o cirurgião apela ao consumo de opiáceos, que lhe garantirão a “segurança” e o “equilíbrio” necessários para a cirurgia. O pai da criança, Vinícius de Oliveira, seu ex-marido, desconhece a gravidez. A mãe da grávida, Dona Rita, é interpretada por Mary Sheila. Evandro se dá muito bem com a cirurgiã vascular, Dra. Carolina, vivida por Marjorie Estiano. O ateísmo do primeiro e a religiosidade da segunda são um contraponto interessante na relação dos dois, que possuem em comum tragédias pessoais. A convivência entre eles e as experiências compartilhadas possivelmente os levarão para um caso amoroso, que servirá como elemento de respiro para uma série onde a palavra-chave “tensão” norteia o conjunto de acontecimentos. A operação se inicia. Não há “ultrassom”. Não há drenos para adultos. Só infantis. Percebe-se uma animosidade entre Evandro e o seu colega, o neurocirurgião Rafael (Tatsu Carvalho), talvez por diferenças hierárquicas. Qual é a saída para o cirurgião? Um pedaço de mangueira de jardim. No meio do arriscado procedimento, uma troca de olhares inevitável entre Evandro e Carolina. Os autores da série não preteriram o humor, e isto é bem-vindo, haja vista a carga dramática intensa que o tema da série carrega. Para alguns, pode soar até “politicamente incorreto”, mas não devemos nos esquecer de que se trata de ficção, e de que nos círculos hospitalares a brincadeira entre os médicos e equipe é fato corriqueiro. Evandro novamente não consegue se alimentar. Ocorre a segunda emergência do dia. Um rapaz, Bredi Pite (Dhonata Augusto), leva o seu irmão de 7 ou 8 anos, que está engasgado com uma bala, para ser socorrido. Dra. Carolina se encarrega de seu caso. Existe entre o personagem de Julio Andrade e o de Stepan Nercessian divergências quanto à política de atendimento do hospital. Evandro é humanista, e Samuel, prático. Tanto um quanto o outro tem as suas razões. Assuntos como o valor de uma vida perante as demais são colocados em xeque no debate dos médicos. A grávida Elaine (Priscilla Patrocínio) corre risco de morte. Faltam luz, bateria no equipamento, sangue e noradrenalina. Não há incubadora, tampouco UTI neonatal. O cantor e compositor Monarco, célebre sambista, personifica o paciente Antenor do Cavaco. Em estado terminal, prefere cantar e tomar uma cachaça ao sofrimento do tratamento (o cantor, inclusive, interpreta uma de suas músicas, “Deus, Dai-me Força e Coragem”). Num papo entre o fumante Evandro e a médica que tem fé Carolina, o cético cirurgião afirma que acima de nós só há… nuvens. Na conversa, descobre-se que o menino salvo com a bala presa em sua garganta é irmão de um “vapor”, traficante de drogas. Engolira na verdade um pequeno pacote com entorpecentes. Carolina corre para socorrê-lo. Não há colonoscópio, não há transiluminação por fibra ótica. Recorre-se à lanterna do celular novo do anestesista Amir (Orã Figueiredo). O menino é salvo. Evandro é um personagem polêmico, adepto de práticas condenáveis, como dopar um paciente corruptor em nome de uma boa causa (comprar noradrenalinas), ou ser capaz de dar o último gole de cachaça para S. Antenor, sabendo que isso anteciparia a sua morte. Quem vai saber? A grávida Elaine é operada. A incubadora de seu bebê Evandro (em homenagem ao cirurgião; Evandro quer dizer “homem bom”) é uma caixa de papelão. S. Antenor morre. Sem o gole de cachaça que o faria feliz. Evandro, há quatorze anos no hospital, marca com um canivete em um portal de madeira do vestiário quantas pessoas já morreram. Nunca parou para contar. Depois de tanta adrenalina, o casal Evandro e Carolina se beija, mas ele é fiel à sua esposa morta. Evandro e Carolina vão para as suas casas. Carolina ao se despir, deixa à mostra cicatrizes na região de sua cintura, revelando algo obscuro em seu passado.  Evandro vasculha o armário de sua mulher, retira um de seus vestidos, e o coloca na cama, deitando-se ao seu lado. Os fantasmas do passado separam Evandro e Carolina. O elenco fixo da série é excelente, contando ainda com Pablo Sanábio, como o residente Charles, Heloisa Jorge, como a enfermeira Jaqueline, e Talita Castro como a técnica de enfermagem Kelly. Os atores do primeiro episódio, em participações mais do que especiais, também mostraram o seu reconhecido valor. Julio Andrade nos passa toda a angústia e ansiedade de um médico determinado a salvar vidas, custe o que custar. Marjorie Estiano construiu uma profissional com a mesma determinação, porém com uma dose maior de equilíbrio e bom humor. Bruno Garcia, Orã Figueiredo e Tatsu Carvalho conferem aos seus personagens um tom de sobriedade bastante convincente com a proposta de seus perfis. Orã nos oferece em alguns momentos sua já conhecida verve cômica. Stepan Nercessian, com grande mérito, dosa o seu diretor com a severidade que o cargo impõe, além de uma certa leveza involuntariamente irônica, própria do ator. A direção de Andrucha Waddington e Mini Kerti é claramente influenciada por uma linguagem cinematográfica, pois ambos, como sabem, iniciaram suas bem-sucedidas carreiras no cinema. Muitos ângulos, tomadas e posicionamentos de câmera são experimentados. A condução das cenas segue um ritmo avassaladoramente frenético e emocionante. As cenas de cirurgia, que necessitaram de orientações profissionais, como a de Márcio Maranhão, o autor do livro, são de um realismo inacreditável. Estes takes são bastante fortes, não são para qualquer telespectador, mas foram realizados com visíveis cuidado e apuro. Os diretores de fotografia Fernando Young e Luca Cerri lograram traduzir com fidelidade máxima a luz ambiente fria hospitalar, utilizando-se outrossim com propriedade da luz natural nas locações externas. A direção de arte de Rafael Targat e os figurinos de Marcelo Pies são extremamente realistas e coerentes. A montagem alucinada e inteligente, com notória qualidade de execução, creditada a Sergio Mekler, é digna de fartos elogios. E a instigante, meticulosa e calculada trilha sonora de Antônio Pinto demarca com emoção e precisão cada cena na qual se exige a sua presença. Num país como o Brasil, em que a Saúde sempre fora colocada em um degrau inferior na escala das prerrogativas governamentais, seja nas esferas federal, estadual ou municipal. Numa nação onde se adulteram remédios para doenças graves em esquemas criminosos. Num país em que recursos da pasta da Saúde são desviados para fins espúrios. Num país no qual as emergências são fechadas, pacientes morrem nas filas de espera dos hospitais, médicos se recusam a atender às pessoas, inclusive crianças, e planos de saúde cobram valores extorsivos de seus conveniados com o aval do Estado, tornando-se um serviço para as elites, a série “Sob Pressão”, que exibe um grupo de médicos abnegados e heróis em busca do cumprimento de suas promessas de salvar vidas é no mínimo necessária e obrigatória para o telespectador brasileiro. Uma obra para ser vista, analisada, pensada e refletida, sem pressão. Ao contrário de nosso país, no qual a maior parte da população dorme e acorda sob uma implacável e constante pressão… de sobrevivência.

  • ” ‘Fauna’, de Romina Paula, tendo em seu elenco nomes como Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard, serve, dentre tantos atributos, como prova do estabelecimento da vocação natural de Erika Mader como diretora de uma nova geração da cena teatral, mostrando-nos um espetáculo tenso, instigante e visualmente belo. “

    julho 19th, 2017

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    Foto: Bruno Mello

    A ideia de se levar aos palcos nacionais a dramaturgia de uma autora latino-americana, a também atriz e diretora teatral argentina Romina Paula, já é por si só valorosa, pois nos permite conhecer um novo olhar cênico, diferente dos quais estamos acostumados a ver. E um novo olhar cênico vizinho, bem próximo de nós (há uma outra peça escrita por um dramaturgo argentino em cartaz no Rio de Janeiro, “Entonces Bailemos”, de Martín Flores Cárdenas). Muito bem traduzida aqui no Brasil por Hugo Mader, “Fauna” exerce um fascínio imediato sobre o público por sua abordagem aprofundada das relações humanas, de nossas próprias crises de identidade, de nossas fraquezas e supostas forças, das falsas aparências do indivíduo, da homoafetividade descoberta mesmo que tardiamente, e da frágil, invisível e temerária fronteira existente entre o real e o fictício em nossas vidas. Além disso, a montagem tem ao seu favor um elenco sólido e poderoso, consciente de seus personagens, e da história que está nos contando. A trama se concentra na busca de dois profissionais do cinema, o cineasta José Luís (Eduardo Moscovis) e a atriz Julia (Erika Mader), em transformar em filme os episódios que marcaram a mitificação de Fauna, uma misteriosa amazona. Para isso, o diretor e a intérprete, que mantêm um romance conturbado às escondidas, rumam para a terra onde viveu a intrigante e encantadora mulher que lhes serve de inspiração. Os conflitos de Luís e Julia não se restringem ao campo afetivo, estendendo-se às sua visões pessoais sobre o trabalho que realizarão. O primeiro sinal que temos acerca do embate entre o que é realidade e ficção se percebe quanto ao gênero no qual irá se inserir o filme em questão. Para José Luís, uma ficção. Para Julia, um retrato fiel de sua personagem, aproximando-se do documentário. Ao chegarem ao local, encontram um dos filhos de Fauna, Maria Luísa, interpretada por Kelzy Ecard. Luísa ostenta um comportamento pouco receptivo ao casal, enfrentando-o repetidas vezes com ares de malícia e sarcasmo, escorada em sua cultura literária e teatral (declama, assim como Julia no começo da peça, o poema de Rilke “Experiência da Morte”; refere-se a “A Vida é Sonho”, de Calderón de La Barca, e a Shakespeare). Enfileira uma série de versões sobre a trajetória de sua mãe, como os dois amores de sua vida, sendo um deles o seu pai. O primeiro, um velho senhor, que a introduziu ao “Círculo dos Poetas”, e depois a desprezou (Fauna travestia-se de homem, transformando-se em Fauno, pois não se permitia a entrada de mulheres no recinto). Surge em cena o seu irmão Santos (Erom Cordeiro), um rapaz selvagem, tosco, bruto e enigmático. Seus silêncios são perturbadores. Suas versões sobre a mãe Fauna se confrontam em alguns momentos com as de Luísa (o moço defende o fato de que sua mãe escrevia contos, ao passo que Maria afirma que a mesma lhes deixou diários). Carrega uma enorme culpa por não ter salvado de um ataque feroz de abelhas duas éguas que serviam a ele e ao seu amigo Pato. Santos nos deixa óbvio que prefere os animais aos homens. As filmagens são iniciadas, com a sua colaboração fundamental. À medida que o tempo passa, e as cenas são ensaiadas, observa-se um clima de tensão crescente no universo ao qual estão presos. Todos estão irremediavelmente ligados um ao outro, sem escapatórias. Suas verdades mais íntimas eclodem. Sentimentos escondidos se descortinam. As histórias de cada um se confundem. As opiniões divergem. Os duelos interpessoais se tornam constantes. Razão e delírio dividem o mesmo espaço. Esses indivíduos reunidos por uma causa comum descobrem que não sabem tanto de si mesmos. Tudo é revolvido, e aquilo em que se acreditava já não lhes provoca tanta fé. A fantasia (ou suposta fantasia) se revela um agente desagregador, seja por meio da realização do filme, seja pelas histórias narradas pelos irmãos, absorvidos por suas lembranças obsessivas de Fauna. A idolatria de Julia e dos filhos por este ser mítico ou “real” potencializou as guerras e pequenas tragédias individuais do distinto grupo. A dramaturgia de Romina Paula nos interessa por traçar com grande mérito o paralelo que há entre o que é real e o que é ficcional, o que é verdade e o que é ilusão, utilizando-se com bastante propriedade de um mito clássico como Fauna, para criar a sua atmosfera narrativa. Sua destreza como autora se evidencia ainda mais ao lançar mão da metalinguagem (atores interpretando personagens que interpretam outros personagens em um filme) como ferramenta de desenvolvimento de seu entrecho. Romina também é bastante feliz ao tratar de temas universais, com demasiada delicadeza e coerência, como a homoafetividade, tanto entre homens quanto entre mulheres. A despeito da densidade de sua trama, fica-nos claro que houve a intenção de pincelar com doses sutis de humor certas passagens de sua obra. Em “Fauna”, Romina Paula se debruça em pesquisar as complexidades comportamentais inerentes às pessoas, com todas as suas incertezas e ambiguidades, além de expor o enfrentamento inevitável que há onde existem diferenças, diferenças de visão, de pensamento, de formas de se enxergar a realidade e de se lidar com a vida e com as próprias vulnerabilidades, além das culturais. A direção de Erika Mader, que está em sua terceira empreitada (as primeiras foram “Sóbrios”, de Adam Rapp, e “Os Insones” (espetáculo adaptado do romance homônimo de Tony Bellotto) e Marcelo Grabowsky (diretor assistente da peça “Amor em Dois Atos”, de Pascal Rambert) prima pela movimentação quase permanente dos atores pela ribalta, realizada com estrita meticulosidade. Os vários espaços do tablado são explorados pelos seus intérpretes (com direito a uma cena de plateia), o que confere à encenação uma bem-vinda carga dinâmica. Os embates entre os personagens, verdadeiros “pugilatos orais”, formam inúmeras espécies de marcação, inclusive triangulares. Erika e Marcelo procuraram envolver a peça com um clima de absoluto mistério, valorizado pela presença intermitente de um fog. Os próprios atores ficaram responsáveis pelo deslocamento dos objetos cenográficos. Em muitas ocasiões, alguns deles fazem as vezes de espectadores da cena do outro. Os encenadores souberam com maestria extrair de seu ótimo elenco suas amplas potencialidades artísticas, e a dicotomia realidade/ficção é representada e traduzida com enorme eficiência pela dupla (Marcelo, claro, encarregou-se da direção da atriz Erika Mader). Há uma cena em particular que nos chama a atenção pelo seu impacto visual e interpretativo: José Luís e Santos, enquanto debatem, seguram sacos de plástico pretos, e vão, aos poucos, jogando feno pelo palco, espalhando-o e o chutando a fim de que todo o perímetro seja preenchido. As cenas de ensaio do filme nos causam curiosidade e admiração, principalmente para aqueles que se interessam pelo ofício do ator, e seus bastidores. Acredito que essas mesmas cenas tenham tido um sabor especial para o elenco. Este se sobressai com a sua potência natural interpretativa, sendo que cada um de seus atores acolhe com generosidade as características precípuas de seus personagens. Eduardo Moscovis se destaca ao construir, com sua modulada voz e porte de fidalgo, um José Luís a princípio ponderado, centrado, que aos poucos vai deixando escapar as suas evidências de fragilidade e dúvidas. Se no começo o cineasta se encontra bastante convicto de seus propósitos e objetivos, ao final o vemos vítima das circunstâncias que o fizeram se redescobrir quanto à sua identidade e desejos naquele lugar inóspito. Eduardo Moscovis trilha com brilho e segurança por todos esses atalhos emocionais. Erika Mader, segura em suas intenções e pretensões, da mesma forma, tem que atravessar uma estrada de distintas emoções até alcançar a linha de chegada de sua atriz Julia, após ter se deparado com diversas situações modificadoras de suas posições, pensamentos e potenciais certezas. Julia se apresenta para nós no início da peça com caráter determinado e incisivo, e em sua reta derradeira já a observamos com a ciência de suas mudanças pessoais e íntimas, que se refletem consequentemente nas atitudes tomadas. Erom Cordeiro, com impressionante maturidade, realiza a composição de Santos com todas as minúcias que o tornam um sujeito arredio, indestrinçável, sensual em sua selvageria natural e brutalidade nata. Santos gradativamente nos prova que, por trás da carcaça de dureza que o protege, esconde-se um homem com sensibilidade e vontades não lapidadas, que vão se mostrando à medida em que as contingências o obrigam a fazê-lo. Bruto e cercado por aura de enigmas, o personagem de Erom garante momentos de riso nas passagens dos ensaios do longa-metragem. Kelzy Ecard, como Maria Luísa, extravasa toda a sua pujança como artista ao conferir à sua personagem as camadas emotivas necessárias, com as doses certas de malícia e sarcasmo, atinentes à personalidade da filha de Fauna. Kelzy se utiliza com soberana destreza de sua voz com variadas entonações, e de sua eminente expressividade corporal. A atriz, assim como todos os integrantes desta história, percorre um caminho pleno em vias e possibilidades interpretativas, a fim de certificar a modificação pessoal de seu papel, exibindo em etapas detalhes de seu perfil até então desconhecidos. Renato Machado, tarimbado diretor de iluminação, produziu um trabalho irretocável. Em grande parte da obra, o que se vê é um plano suave com tons de sépia. Com quatro refletores suspensos ao fundo, dois em cada lateral, e dois, separados, um à esquerda e o outro à direita, mais à frente, Renato teve em suas mãos um extenso leque de escolhas estéticas. Há feixes enviesados, entrecruzados e frontais. Como alguns dos elementos do cenário são seis refletores de tripé, típicos de set de filmagens, a iluminação ganha mais pontos favoráveis com a utilização esperta, na melhor das acepções, destes recursos. Mais uma vez são os atores que os manuseiam, direcionando-os para os seus colegas (valorizando os seus rostos), que podem estar atuando na peça em si, ou para o filme em sua fase de ensaios. O belo e rústico cenário de Fernando Mello da Costa cumpre exemplarmente a sua função de reproduzir o local onde se “isolam” do mundo os filhos de Fauna. Por mais simples que nos pareça, a ideia dos fenos espalhados por toda a geometria do palco nos causa relevante impacto visual (no começo do espetáculo, um pequeno espaço aberto ao centro é mantido, porém, com o desenvolvimento da ação, o mesmo é preenchido). A fim de contextualizar o cenário, Fernando aposta na madeira de tamboretes e banqueta, além de um balde (os refletores de set de filmagens já foram citados). Os coerentes e bonitos figurinos são de responsabilidade de Antônio Guedes. O texto de Romina Paula lhe oferece a chance de se embrenhar em um universo rico de interpretações e representações, no que diz respeito a estampas, tecidos e acessórios. Antônio traduziu com a mesma competência o viés urbano de José Luís e Julia, e o ambiente campestre dos irmãos Santos e Maria Luísa. Pelos trajes usados, sem que haja menção de seus personagens, supomos que se trata de um lugar com temperaturas frias. José Luís usa um pulôver cinza e uma calça levemente arroxeada, e botas (depois o vemos com capote e um casaco preto). Julia traja um colete e uma blusa sobre um legging (após, aparece com um casaco, além das vestes masculinas de Fauno – terno, chapéu etc.). Maria Luísa se apresenta com um poncho sobre uma blusa fluida (como os demais, calça botas, e sua calça se assemelha a um couro). Santos ostenta o torso nu, vestindo-se apenas com um colete de vaqueiro com peles (suas calças e botas também acompanham estas peculiaridades campesinas). Enfim, um trabalho enriquecido pela pesquisa e pelo bom gosto. A direção de movimento coube a Toni Rodrigues. Toni se sintonizou perfeitamente com a direção cênica de Erika Mader e Marcelo Grabowski, e o resultado almejado foi cumprido com reconhecido êxito. As posturas e deslocamentos executados por Eduardo, Erika, Erom e Kelzy na montagem se adequam com exatidão ao desenho de seus papéis e ao vários ritmos que foram impostos àquela. A direção musical é de Marcello H., profissional do ramo cada vez mais requisitado para imprimir a sua marca nas produções teatrais. Marcello, muito acertadamente, optou por sonoridades, ruídos e afins que nos causam estranheza, apreensão e uma sensação de desconforto ao assistirmos à evolução tensional dos envolvidos na trama. Marcello criou, pode-se dizer, uma trilha eminentemente sensorial. O visagismo de Neandro Ferreira se baseia na naturalidade dos tipos retratados. José Luís possui cabelos curtos e barba cerrada, e Julia se mostra com seus cabelos castanhos claros soltos, com um mínimo de maquiagem, representando aqueles que vêm de fora, da cidade. Já a Maria Luísa de Kelzy Ecard exibe suas melenas negras onduladas, também soltas, porém mais curtas, mas com maiores desprendimento e despojamento, com o seu rosto ao natural. E Santos se apresenta com seus cabelos escuros volumosos e com certo desalinho, além de uma espessa barba. Neandro demarca com congruência a distância entre estes dois mundos opostos obrigados a uma convivência forçada. “Fauna”, com Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard é um espetáculo que se destaca no panorama teatral por sua diferenciação. Uma peça que se distingue pela abordagem de vários temas, muitos deles universais, como as relações humanas e seus conflitos, as crises de identidade, a ideia de morte em nossas vidas e a homoafetividade, através de uma história que busca confrontar a realidade e a ficção se utilizando de um mito clássico. Considerando-se todos esses elementos, já podemos dizer que “Fauna” assegura, corrobora e nos prova a sua incontestável importância no campo artístico. E isso não é ficção. Isso é real. Bem real.

     

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