Numa clara referência ao clássico da ficção científica de Stanley Kubrick, “2001 – Uma Odisséia no Espaço”, de 1968, dois símios (Mateus Solano e Miguel Thiré) se contorcem, grunhem e se movimentam de modo frenético sobre o espaço do palco, sendo que um deles tenta remover infrutiferamente a barreira quase intransponível da incomunicabilidade, um flagelo real que vemos em nossa sociedade contemporânea, o que indica que, a despeito de toda a tecnologia que facilita a comunicação, carregamos dentro de nós mesmos a dificuldade ancestral de nos relacionarmos de fato. De repente, um dos primatas ergue um luminoso celular, como se fosse uma ponte direta com a modernidade, e ao registrar a sua imagem, exclama: “Selfie!”. A partir daí, inicia-se a bem elaborada, divertidíssima e atual peça de Daniela Ocampo (uma realização com a idealização de Carlos Grun, Mateus Solano e Miguel Thiré), ao nos apresentar o especialista em Informática (professor, inclusive) Cláudio Couto (Mateus Solano), que resolve de uma hora para a outra se desligar de todas as redes sociais às quais pertence, apagando de uma só vez suas fotos, dados pessoais, contatos e tudo mais que lhe diga respeito. O seu objetivo era criar um sistema próprio e específico no qual só ele mesmo pudesse ter acesso e controle sobre suas informações. Todavia, um incidente faz com que o seu celular delete o recente sistema criado. Nos estertores do desespero, Cláudio solicita o auxílio de um amigo hacker, um sujeito vagaroso e impassível com sotaque carregado que atende pela alcunha de Paulista (Miguel Thiré), entregando a sua origem. Ao invés de orientar o colega em pânico, assusta-o ainda mais com a seguinte pérola: “Tecnicamente, você não existe”. Antes disso, numa cena bastante representativa do quadro comportamental alucinado presente do qual fazemos parte, Cláudio se desdobra herculeamente ao executar inúmeras atividades ao mesmo tempo, como teclar com dedos lépidos o seu “keyboard”, atender às chamadas insistentes e inoportunas de sua namorada Amanda (Miguel Thiré), com o toque enlouquecedor do hit da cantora Corona “The Rhythm Of The Night”, que o irrita sobremaneira, as aulas de iniciação à Informática oferecidas a S. Inocêncio (Miguel Thiré) por telefone, um senhor com preocupantes dificuldades de entendimento, habituado a fazer tudo o que ouve ao “pé da letra”. É importante que se frise que os ruídos, sons (gerais e digitais) e assovios são feitos com incrível veracidade por Miguel, que acompanha a atuação de Mateus neste momento, impávido, no outro lado da ribalta. Ao procurar a sua namorada, na esperança de reaver um pouco de sua existência, uma nova decepção: a sua vaidosíssima companheira, uma irrecuperável adicta da prática da selfie, que baseia a sua vida em hashtags esdrúxulas e postagens intermitentes de cada passo que dá, insatisfeita com o namoro, já se relaciona com outro, um “@” qualquer, e tudo o que havia de comum entre ambos fora por ela apagado. Amanda simboliza o desvario coletivo em que se encontra o indivíduo na sociedade em sua busca insana por publicidade, exposição, popularidade e “fama”. Na verdade, o que se encontram por detrás dessas pessoas são fortes indicativos de carência, baixa autoestima (o que explica a necessidade urgente de aceitação e aprovação do outro) e um vazio existencial que as leva a uma superficialidade jamais vista. A namorada de Cláudio ao trocá-lo por outro por razões injustificadas sinaliza a banalização das relações afetivas. O rapaz “desconectado do mundo” decide então recorrer à sua mãe (Miguel Thiré), mais uma vítima da onda tecnológica avassaladora (e desagregadora) que tomou de assalto a vida comum cotidiana do homem. Trata-se de uma amalucada mulher que registra os pormenores do preparo de uma inusitada omelete que leva bastantes ovos. Sua vida, como a de muitos outros, depende de likes, comments, shares e outros anglicismos afins. Seu humor e alegria são subservientes à “generosidade” alheia. Não admite a “falha” do filho, repreendendo-o. Ademais, relaciona-se com um pretendente numa rede social famosa de encontros. Relacionamo-nos não mais com o ser humano, mas com os vídeos e fotos desse mesmo ser humano. O seu pensamento não é por nós ouvido, e sim lido. A língua mãe foi traiçoeiramente golpeada nas costas, sendo substituída por abreviações e carinhas representativas de sentimentos. Há o encontro com o seu amigo Cabeça (Miguel Thiré), um jovem dependente químico cuja memória está demasiado comprometida, parecendo não se importar em viver só em seu microcosmo particular, em ser “feliz” e desmemoriado em seu “paraíso artificial”. Na terra das máquinas modernas, que são poderosas justamente por sua infinita memória, não há lugar possível para Cabeça. Diante do fato inquietante de não mais “existir” para os seus pares, Cláudio tem uma suposta brilhante ideia. Transforma-se no revolucionário “The Connect Man”, ou seja, implantou um chip em seu cérebro, servindo como local de armazenamento de incontáveis dados, com a capacidade ilimitada de funções de um supercomputador. Seu extraordinário projeto é levado a um empresário mercenário do ramo (Miguel Thiré), um cidadão soberbo e arrogante, que não se envergonha ao asseverar que não deixará de ganhar milhões com os seus aplicativos. O cidadão corresponde potencialmente ao capitalista arcaico, conservador, obtuso, intolerante, que visa ao lucro máximo, cuja pretensão primeira é conquistar o maior número possível de consumidores com suas engenhocas eletrônicas. “The Connect Man” não lhe interessa, pois não está aberto a ideias e inovações, e sim ao lucro fácil e garantido. Com os seus inacreditáveis poderes de memorização e conectividade, “The Connect Man” se torna uma celebridade instantânea. Passa a tirar selfies com fãs (incluindo um garçom criado por Miguel Thiré), e uma espevitada apresentadora de programa que sofre de “língua presa” (Miguel Thiré) o convida para uma entrevista. A fama lhe trouxe o assédio de mulheres voluptuosas, como a indescritivelmente desinibida Bianca (Miguel Thiré). “The Connect Man” demonstra, num dado instante, o mesmo conflito que nos perturba com os milhares de informações que recebemos diariamente. Não sendo os homens capazes de organizar tantos dados, e se perdendo cada vez mais nos labirínticos e misteriosos caminhos de suas memórias, afastando-se do mundo real, que é o que de fato os move, o processo de sua fragilização e infelicidade pessoal nos parece ser inevitável. O encontro de Cláudio com um ingênuo menino (Miguel Thiré) que gosta de soltar pipas muda todo o contexto da história. O menino “pipeiro” faz com que o rapaz reavalie a sua situação, até onde a mesma lhe oferece vantagens em contraponto às desvantagens. A pipa e o menino resgataram em Cláudio o seu “menino pipeiro” adormecido. Resgataram a simplicidade perdida. Uma simplicidade que nada vale num mundo cheio de modernidades e globalizações. O texto de Daniela Ocampo, num tom essencialmente leve e bastante divertido, alterna-se com precisão entre o dinamismo e a reflexão, escorando-se num gênero pouco explorado na cena teatral, e por isso mesmo arriscado, que é a ficção científica. A dramaturgia de Daniela não se exime de abordar com grau de seriedade substancial um assunto tão presente em nosso dia a dia: a convivência dificultosa do homem com a tecnologia. Um duelo constante do ser com a máquina. A contingência de dominação e dependência entre ambos. Até que ponto as nossas vidas são afetadas por estas interferência e invasão digitais. A autora nos mostra com ampla propriedade o quanto somos “reféns” destes pequenos dispositivos luminosos e ruidosos, e seus incontáveis e desnecessários, em não poucos casos, aplicativos. A nossa felicidade atualmente é ditada por distintas variáveis. A dramaturga nos convence de que seremos mais “técnicos” do que humanos se continuarmos nesta espiral de “progressos”. O futuro já chegou. Não o apocalíptico inerente a algumas profecias. Mas um futuro que muito se afasta do “humano”. Um futuro frio e antissocial. A nossa conexão é com a ilusão e com o irreal. A verdade está “desplugada”. A verdade absoluta dispensa redes “wi-fi”. Não precisamos de aplicativos intermediários para nos comunicarmos um com o outro. Não há mais neste universo o “o olho no olho”. O que nos falta é a conexão com nós mesmos. Estamos todos “offline”, e não sabemos. O diretor Marcos Caruso, um ator, dramaturgo e encenador com ciência sobranceira da prática teatral, acolheu com perfeição a contemporaneidade da proposta cênica de Daniela Ocampo, legitimando o espetáculo de forma a conduzir a dupla de atores para um nível de despojamento e libertação interpretativa impressionantes, aderindo a um humor espontâneo, não padronizado, de alta qualidade textual. Marcos criou um jogo de cena no qual Mateus Solano e Miguel Thiré aproveitam largamente o espaço do palco, interagindo um com o outro em maior ou menor grau. Marcos Caruso direciona a peça a um patamar relevante de discussões e debates do tema posto em pauta. Há em sua direção notada inteligência na imposição de elementos (como a maneira leve, bem-humorada e cativante com que o assunto central é tratado), que caracterizam a produção como uma narrativa cativante, e que seduz o público de imediato. Mateus Solano, cujas raízes artísticas se fundam no teatro (assim como Miguel Thiré), demonstra em cena uma pujante integração à alma de seu personagem, trilhando em iguais níveis de excelência todas as veredas emocionais/interpretativas, tendo em vista que o seu papel principal (pois também incorpora o símio) detém uma complexidade nata, desvelada e evidenciada pelos reveses por que passa no entrecho. Mateus, que desde sempre nos conquistou com seus sobejos talento e carisma, aliados a um sorriso franco, ostenta com preciosidade a distinção de cada sentimento de um indivíduo que se vê em situação limite, seja o contentamento, a angústia, a dúvida e a decepção. O ator outrossim transmite credibilidade quando Cláudio se percebe num momento de descoberta e inventividade, ou quando é acometido por imprevista nostalgia, ou ainda quando reconhece e identifica os valores significantes da existência humana. Uma atuação vívida, sensível, e claro, com a notória comicidade elegante do artista. Miguel Thiré, um intérprete com imensurável valor, sabedor da presença inequívoca de sua vocação artística, desdobra-se em dez diferentes personagens, tipos reconhecíveis em nosso meio social, importantes interlocutores nas provações vividas por Cláudio. Para quem conhece apenas o trabalho de atuação de Miguel na TV, ficará literalmente arrebatado com sua rara aptidão para a composição de characters, dispensando os artifícios fáceis de caracterização. O ator possui a especificidade de brincar e descobrir todas as possibilidades de sua voz, além de explorar magnificamente o seu corpo, não temendo o pudor. Reitero que não testemunhamos arquétipos, e sim visões pessoais de Miguel, com tintas hilariantes, acerca das figuras retratadas. Um ator que se deixa completar por seus recursos próprios, um ótimo texto e um sensacional colega de cena, Mateus Solano. O que se verifica em “Selfie” é uma bem-sucedida adoção do Teatro Físico, no qual o corpo, matéria do ator, recebe atenção especial e reverente. Mateus e Miguel são irretocáveis na expressividade de suas matérias físicas. Os figurinos de Sol Azulay são totalmente objetivos e diretos. A praticidade dos mesmos (os dois atores trajam macacões azuis com bainha um pouco elevada, e calçam tênis) funciona plenamente, servindo como um complemento ideal para a intenção dramatúrgica. A concepção cenográfica de Marcos Caruso, da mesma maneira, procura a objetividade, com toques assumidamente minimalistas, com a proposta viva de se valorizar tanto o texto quanto os intérpretes. Na ribalta, são vistos dois bancos em formato cilíndrico que são utilizados para diferenciadas missões. São trocados de lugar de acordo com a conveniência temporal e de situação. O desenho de luz de Felipe Lourenço é caprichado, bonito e coerente, oferecendo-nos atrativos em sequência. Felipe soube com habilidade e sensibilidade realçar toda e qualquer passagem da encenação. Notamos o uso de uma criteriosa paleta de cores que, dentre outras, açambarca o azul e o alaranjado. O LED é aproveitado oportunamente, destacando com vigor a cena para a qual foi utilizado. No painel da iluminação, inserem-se feixes pontuais (focos), sombreados e luzes transpassadas. Não há um plano integralmente aberto, geral, o que colabora para o ambiente ficcional da trama. A direção musical e trilha sonora original couberam a Lincoln Vargas. Lincoln criou um panorama diversificado, sensato, agradável e empolgante, com direito a “Assim Falou Zaratustra” (um poema sinfônico do compositor alemão Richard Strauss, e que faz parte do soundtrack do filme de Kubrick citado), valsas e ritmos latinos com “pegada” pop (os músicos são Lucas Vasconcelos, Lincoln Vargas e Mateus Solano). A preparação corporal de Arlindo Teixeira é fenomenal, como pode ser observada explicitamente na linguagem corporal dos atores, desde a representação fiel e engraçada dos símios, passando pela velocidade dos dedos dos personagens enquanto digitam e/ou teclam, a transformação com seus movimentos articulados de Cláudio no “The Connect Man”, e todas as gesticulações, entoações vocais e posturas da dezena de personagens interpretados por Miguel Thiré. “Selfie”, de Daniela Ocampo, direção de Marcos Caruso, com Mateus Solano e Miguel Thiré no elenco, é um espetáculo de entretenimento e de reflexão, que objetiva alcançar, e o faz com enorme êxito, uma plena sintonia entre o que é retratado no palco e percebido consuetudinariamente nas ruas: o caos digital e a desvirtuação da personalidade e comportamento do indivíduo defronte a essas transformações do tempo. Adotando um tom crítico e irreverente, a peça cumpre o seu papel de pôr em discussão a desintegração dos relacionamentos pessoais, a ausência de comunicação no coletivo social, e dentre tantos outros tópicos, a triste troca da palavra oral pelo frio toque digital. O espetáculo nos serve como um aviso, um alerta de nosso distanciamento do outro, que está ali bem ao nosso lado. Estamos cientes de que o futuro fora exterminado metaforicamente pela tecnologia. O que assistimos fora uma junção gloriosa de atores inspiradíssimos, um texto certeiro, atualizado com as nossas realidades, eivado do mais puro humor, e uma direção exultante e infinitamente eficaz em seus resultados. “Selfie” é uma ode, um louvor à simplicidade. Aquela presente em cada um de nós. Não há um libelo contra os avanços tecnológicos, mas uma defesa da parcimônia da utilização destes, a fim de que não nos tornemos tão frios quanto máquinas com luz e som. “Selfie” é uma saudação à conectividade com a vida, com o ser humano e com a nossa essência. “Selfie” é uma conexão inesquecível com Mateus Solano e Miguel Thiré.
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Foto: Paulo Ruch A jornalista de moda Paula Mello no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória (à época trabalhava para a revista “Glamour”).
Paula se pós-graduou em Moda no conceituado IED (Istituto Europeo di Design), em Milão, na Itália.
Fez Mestrado em Publishing na London College of Communication.
Estagiou na “Teen Vogue”, em Nova York.
Possuiu uma coluna on-line, a “Pauli Position”, na qual dava conselhos de relacionamento às suas leitoras por meio de e-mails.
Passou uma temporada em Londres, onde atuou como produtora e correspondente da “Vogue”, escrevendo sobre moda e beleza (produzia as fotos de beleza da prestigiada publicação).
Ainda na capital inglesa exerceu a função de editora da magazine dedicada ao luxo em geral, “Luxure”, além de ter sido responsável pelo “rebranding” da marca de cosméticos Eyeko.
Depois de ter sido editora-chefe da revista “Vogue Brasil” Paula Mello ocupa atualmente o cargo de editora de conteúdo da mesma publicação.
Agradecimento: R. Groove e TNG
Post atualizado em 26/03/2022.
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Foto: Paulo Ruch A atriz, modelo e apresentadora Patrícia Dejesus no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória.
A paulistana Patrícia, ou Pathy Dejesus, como também é conhecida, começou a carreira de modelo aos 17 anos, quando foi descoberta por um agente enquanto praticava futevôlei (Pathy teve que passar por um teste; após ser aprovada, assinou contrato com a Ford Models Brasil).
Seu sucesso nas passarelas e estúdios fotográficos a levou a conhecer e morar em países como França (Paris), Estados Unidos (Nova York e Miami), Itália (Milão), África do Sul (Cidade do Cabo), Chile (Santiago) e Argentina (Buenos Aires).
Circulou pelas passarelas vestindo coleções de Saint Laurent, Versace, Valentino e H&M.
Desfilou também para importantes marcas nacionais, tanto no Fashion Rio quanto na São Paulo Fashion Week, onde fez cerca de vinte temporadas (participou da primeira edição da semana de moda paulistana em 1995).
Participou de editoriais para várias revistas, dentre as quais podemos citar “Vogue”, “Elle”, “Marie Claire”, “Cosmopolitan”, “Nova”, “Raça” e “Corpo a Corpo”.
A publicação “GQ South Africa” a elegeu como uma das dez modelos mais sexy do Brasil.
Dez anos depois de ter se lançado como modelo, em 2004, Pathy decide abandonar a profissão e estudar Artes Cênicas.
A estreia na TV aconteceu com uma participação no ano seguinte como uma modelo na novela de Silvio de Abreu, “Belíssima”, na Rede Globo.
Muda-se para a RecordTV, emissora na qual se destaca em produções como “Caminhos do Coração”, “Os Mutantes – Caminhos do Coração” e “Mutantes: Promessas de Amor”, todas as três obras escritas por Tiago Santiago (personificou a mutante Perpétua, a Mulher-Elétrica).
Já no SBT, defende personagens como a empresária sul-africana Alabá no remake de “Uma Rosa Com Amor” (a versão original de Vicente Sesso é de 1972) e a atriz Nina, que acaba entrando para a luta armada contra a ditadura militar de 1964 em “Amor e Revolução” (ambos os folhetins foram criados por Tiago Santiago).
Surge a oportunidade de atuar na Rede Globo, justamente no grande sucesso de João Emanuel Carneiro “Avenida Brasil” (na trama, interpretou Jéssica, atendente da loja “A Elegância”, de Diógenes, Otávio Augusto).
Como apresentadora, no ano de 2013, na função de VJ, comandou na MTV Brasil o “Top 10 MTV”, o “Acesso MTV”, o “Yo! MTV” e o “My MTV”.
Faz o caminho de volta para a Rede Globo, desta vez para exercer o ofício de repórter do “Vídeo Show”.
Seu retorno à teledramaturgia se dá em uma novela de Alcides Nogueira e Mário Teixeira, veiculada neste mesmo canal em 2015, no horário das sete, “I Love Paraisópolis”, em que encarna a antagonista Alceste.
Depois de ter sido repórter do programa “Superbonita”, aparece em episódios de várias séries distribuídas em diversas emissoras: “Lili, a Ex” (GNT), “Prata da Casa” (Fox Brasil), “Desnude” (GNT) e “(Des)encontros” (Sony Channel).
Em 2018, recebe um ótimo convite: ser uma das protagonistas da série da TNT “Rua Augusta” (na história, Pathy vive Nicole, uma moça que se entrega à prostituição e engana o noivo quanto à sua ocupação a fim de preservar o relacionamento).
Seu trabalho seguinte foi em “Rotas do Ódio”, um drama policial criado e dirigido por Susanna Lira, levado ao ar na Universal TV (em seu enredo, a atriz representa Jaqueline, uma jovem cujo assassinato serve como mola propulsora para o desenvolvimento da narrativa).
Na tela grande, foi dirigida por Tiago Santiago no filme de horror “Possessões”.
No momento, Pathy Dejesus pode ser vista como uma das atrizes principais da série de época da Netflix, “Coisa Mais Linda”, uma criação de Giuliano Cedroni e Heather Roth, tendo como diretores Caíto Ortiz, Hugo Prata e Julia Rezende (Adélia, sua personagem, tem que enfrentar habitualmente comportamentos racistas na comunidade onde mora, passando a vislumbrar uma mudança em sua vida quando se torna uma das donas do bar “Coisa Mais Linda”).
Agradecimento: R. Groove e TNG
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Foto: Paulo Ruch A editora de moda Larissa Lucchese no Fashion Rio Verão 2014/2015, na Marina da Glória (na época, assumia a função de editora de moda da Marie Claire Brasil).
Também trabalhou para a Editora Abril e o canal GNT.
Atualmente, Larissa Lucchese é editora de moda da revista Ela do jornal O Globo.
Agradecimento: R. Groove e TNG
Post atualizado em 03/03/2020.
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Foto: Paulo Ruch A mestra artesã da tribo Huni Kuin Ayani Kaxinawá no Fashion Rio em sua temporada Verão 2014/2015, na Marina da Glória.
Ayani confeccionou guarda-chuvas para a marca Cantão se utilizando de pinturas sagradas.
A marca doou centenas desses guarda-chuvas para a citada tribo (os índios, que se localizam no Estado do Acre, costumavam usar estes acessórios de origem paraguaia para se protegerem do sol e da chuva inclementes que se abatiam sobre eles durante as travessias de uma aldeia para outra).
Obs: os índios da tribo Huni Kuin também habitam o Peru (segundo dados da FUNASA de 2010, somavam ao todo pouco mais de 7.500 integrantes no estado brasileiro, e de acordo com o INEI, Instituto Nacional de Estadística e Informática, havia no Peru em 2007 cerca de 2.400 membros; a família linguística da tribo é o pano).
Agradecimento: R. Groove e TNG
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Foto: Paulo Ruch Entre um desfile e outro do Fashion Rio, em sua temporada Verão 2014/2015, os convidados podiam se distrair assistindo a várias imagens que eram veiculadas pelos monitores espalhados na Marina da Glória.
Na foto de uma dessas imagens, vemos a apresentadora e modelo Fernanda Lima num ensaio sensual, em que veste apenas um trench coat cortado em linhas retas sobre hot pants, ambos com tonalidade off-white, num ambiente desolador.Agradecimento: R. Groove e TNG
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Foto: Paulo Ruch Uma das imagens que despertaram interesse em quem circulava pelas áreas comuns do Fashion Rio, em sua temporada Verão 2014/2015, na Marina da Glória, foi a deste “homem bala”, atração típica circense, dentro do “canhão”, com expressão facial peculiar antes de seu “lançamento”.
Agradecimento: R. Groove e TNG
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Foto original: Murillo Meirelles/Foto da exposição de Murillo Meirelles: Paulo Ruch No Fashion Rio, em sua edição Verão 2014/2015, havia no extenso corredor que ficava à beira da Baía de Guanabara, na Marina da Glória, uma exposição de fotos de Murillo Meirelles, distribuída em enormes painéis, que chamou a atenção do público por seu tema, “Na Floresta”, e bonitos modelos, incluindo a atriz Camila Pitanga.
Na imagem, o close-up de um dos modelos da exposição.Agradecimento: R. Groove e TNG
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Alessandra Ambrosio e Rodrigo Lombardi em uma cena íntima de “Verdades Secretas”/Foto: Divulgação/TV Globo Uma tomada aérea de um conjunto habitacional de classe média de uma cidade do interior de São Paulo. Uma bela jovem na janela numa imagem romântica e idílica. A mesma jovem, Arlete (Camila Queiroz, um rosto novo na TV) sonha em ser uma modelo de sucesso, e no seu quarto simples abarrotado de fotos se comunica com um booker de uma importante agência da capital. Seu pai, Rogério (Tarcisio Filho), um representante de concessionária, leva uma vida dupla. Uma conta em seu nome com outro endereço revela a traição à sua esposa, Carolina (Drica Moraes em bem-vindo retorno após a sua Cora de “Império”). Apenas 2,5 km são necessários para desmascará-lo com sua segunda mulher, Viviane, Laryssa Dias, com quem tem uma filha. Casamento desfeito, e o sonho de Arlete está só começando. Mãe e filha vão para São Paulo, capital, morar com a simpática Hilda (Ana Lucia Torre), a avó da futura modelo. A senhora consegue para a neta uma bolsa de estudos em uma tradicional escola na qual lecionou por anos. Arlete não parece muito animada com a ideia. Só deseja o glamour das passarelas e estúdios fotográficos. Darlene, Bel Kutner, locatária de um quarto no apartamento de Hilda, conduz a estudante ao colégio Werther em seu primeiro dia de aula, onde também atua como docente. A doce e ingênua interiorana se depara com um ambiente hostil. Em meio aos grafites e às cores da instituição de ensino se vê uma juventude arrogante, agressiva, debochada, que roga por nossa comiseração, fruto da má educação regada à dinheiro fácil oferecida por pais ausentes que fecham os olhos para os desmandos de seus filhos. No ambiente escolar o “bullying” é a regra. Quem não nos deixa mentir é o aluno Eziel, interpretado por Felipe Hintze, um talentoso ator vindo do teatro (estivera na série “Dupla Identidade”, como um ás da computação). Eziel sofre discriminação de seus colegas não somente por estar acima do peso, mas por pertencer a uma classe social menos favorecida. Logo, o moço se aproxima de Arlete (acabará se apaixonando pela recém amiga). Um grupo de meninas, lideradas por Giovanna (Agatha Moreira, que já foi modelo inclusive), cerca a estudante novata, disparando de uma só vez uma sequência de ditos preconceituosos, referentes à sua maneira de se vestir, ao seu cabelo, à sua origem e ao seu sotaque característico. Porém, nem tudo parece estar perdido. A aluna entra por acaso no banheiro masculino, e conhece um rapaz sedutor e gentil, Guilherme (Gabriel Leone, um ator que promete arrancar suspiros das jovens). Lógico que se interessa por sua colega distraída. Ainda na metrópole, um homem bonito, poderoso e mulherengo está em seu suntuoso e sofisticado escritório, o empresário da indústria têxtil Alexandre Ticiano (Rodrigo Lombardi). Ele conversa com o seu funcionário mais fiel, Robério (Gláucio Gomes), e afirma com convicção de que não teme a concorrência chinesa. Num bar charmoso, Alexandre se encontra com a namorada do momento, a sensual Samia (a top Alessandra Ambrosio em sua estreia em novelas). O casal divide tórridas cenas de sexo, e a nudez de seus corpos bem delineados compete com a visão de uma grande São Paulo noturna ao fundo. Samia quer um compromisso mais sério. O homem de negócios desconversa. Enfim, Arlete e sua mãe Carolina chegam à agência de modelos da qual faz parte o booker que se comunicava virtualmente com a aspirante à modelo (o local é frenético, dinâmico, ruidoso, com pessoas andando de um lado para o outro numa constante ebulição). Quem defende o booker é Rainer Cadete, que se destacou no folhetim anterior de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, como o circunspecto e sensível advogado Rafael. Impressionou-nos a transformação não só física do intérprete brasiliense, mas a sua capacidade de compor um personagem diametralmente oposto ao que fizera. O booker Visky é assumidamente efeminado, com gestos afetados ao extremo, traja roupas escandalosas e seu penteado é exótico (um enorme desafio para Rainer Cadete, que em entrevistas disse ter emagrecido e se depilado para o papel, além de ter colocado megahair, aprendido a andar de salto alto, e a dançar stiletto – dança com salto alto). Visky recebe a sua aposta com entusiasmo. Ele acredita realmente que Arlete será uma top model. No entanto, sua mãe Carolina deixa bem claro de que não possui o valor suficiente para pagar o book necessário para que se dê o primeiro passo na profissão. Visky resolve então falar com a poderosíssima Fanny Richard (Marieta Severo voltando com força às telenovelas após mais de uma década de “A Grande Família”), proprietária da agência que leva o seu nome. Fanny, ao ser interrompida por seu afoito confidente, não está propriamente trabalhando, e sim trocando carícias com o ex-modelo Anthony Mariano (Reynaldo Gianecchini), que está falido e só mantém o romance por interesse (uma curiosidade: a estreia de Gianecchini na televisão fora ao lado de Marieta Severo em “Laços de Família”, de Manoel Carlos). Por trás da imagem ilibada da agência de modelos de Fanny se esconde um esquema perigoso de prostituição de luxo, do qual Arlete será vítima (o book rosa relaciona os nomes das modelos que se prestam a esse serviço). Fanny aprova os atributos de Arlete, que agora passa a se chamar Angel (uma possível alusão à personagem vivida por Luana Piovani em “Sex Appeal”, de Antonio Calmon, que abordava justamente o mundo das modelos). Seu book será pago, e o seu sonho (ou pesadelo) se iniciará. Desta forma instigante, tratando de um segmento que nos atrai por seu suposto glamour, sucesso espontâneo e dinheiro em profusão, a nova trama de Walcyr Carrasco, “Verdades Secretas” (pioneira história da faixa das 23h sem ser um remake, desde que o horário foi retomado para a teledramaturgia de novelas), escrita em parceria com Maria Elisa Berredo, com a colaboração de Bruno Lima Penido, foi exibida ao público em seu primeiro capítulo na Rede Globo. Com uma direção hábil e cautelosa de Allan Fiterman, André Barros e Mariana Richard, e direção geral de André Felipe Binder, Natalia Grimberg e Mauro Mendonça Filho (Direção de Núcleo de Mauro Mendonça Filho) centrada precipuamente nos texto e elenco (ótimo em seu conjunto), “Verdades Secretas” detém inúmeros elementos ao seu favor para garantir a audiência dos telespectadores assíduos por um enredo ousado, ainda mais em tempos sobejamente “corretos” e conservadores. Aguardemos até que o book rosa seja aberto. Vamos nos deixar levar pelas “ilusões” criativas de Walcyr Carrasco. Mas não se iludam. Na vida tudo tem seu preço.
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Os atores Aline Fanju, Erom Cordeiro, Ingrid Guimarães e Gustavo Machado formam o elenco da peça de Neil LaBute/Foto: Divulgação Nada mais representativo da questão protagonista do espetáculo “Razões Para Ser Bonita”, do americano Neil LaBute (a ditadura da beleza e o consequente excesso de vaidade que a acompanha), que teve a precisa tradução e adaptação de Susana Garcia, do que os quatro vidros quadrangulares simuladores de espelhos (sendo que em cada um deles são escritos termos que permearão a narrativa com congruência: “sexo”, “por que”, “comum” e “espelho”). O espelho é o signo maior que ocupa a precípua função de ligar o homem à sua imagem. A história, um sucesso da Broadway, vencedora do Tony Awards para melhor peça, ator e atriz em 2009, que faz parte de uma trilogia do autor, incluindo “A Forma das Coisas” e “Gorda”, inicia-se com a altercação típica de um casal em crise, Steph (Ingrid Guimarães) e Greg/Gregório (Gustavo Machado) causada pelo supostamente inofensivo fato do parceiro masculino ter afirmado num colóquio informal de que a sua companheira possuía um rosto “comum”. Este episódio é o gatilho para uma sucessão de debates e levantamento de argumentações condensados em diálogos que envolvem com predominância dois interlocutores. Steph é uma mulher insegura, com autoestima baixa, fragilizada, potencial vítima da escravização imposta aos indivíduos por conceitos e preconceitos de uma beleza perfeita, narcísica, mas com índole de contestação, que a faz se impor contra aqueles que a defrontam. Greg é um rapaz, agente de uma firma de segurança, com personalidade à primeira vista “blasé”, compassivo, devotado a contemporizar as situações de conflito (seu comportamento obedece a uma não linearidade, dependendo das circunstâncias) e romântico (Steph também demonstra uma inclinação para a idealização do amor). Seu mais visível defeito talvez seja a impulsividade, que se caracteriza em dizer aquilo que lhe vem à mente sem medir os resultados adversos. Na briga que se avoluma entre ambos, percebe-se que o ciúme é um ponto destacado, exercendo seu papel desagregador. Um dos responsáveis diretos pelo desencadeamento deste processo de cobranças e desconfianças é o amigo próximo de Greg, o fanfarrão, machista e charmoso Leo (Erom Cordeiro), seu colega de firma e de time de futebol, que diz que a nova funcionária da empresa, com quem passaria a sair, é “gostosa” e bonita. Leo seria o símbolo do homem vaidoso, seguro, convicto de sua virilidade inabalável. Um adúltero sem culpas. Sua parceira, Clara (Aline Fanju), empregada da empresa de segurança citada, é da mesma forma vaidosa, e se vale de sua condição para se colocar num lugar virtualmente privilegiado na sociedade. Ao contrário de Steph, a sua autoestima acima de níveis razoáveis embota a visão realística de sua existência. Seus problemas são fabulosos. A força que nos passa por meio de seus dotes de sedução na verdade camufla um indivíduo com vulnerabilidades. O texto de LaBute se desenrola num ritmo fluido e ágil, em que se veem sequências coordenadas de passagens que não fogem ao contexto da dramaturgia proposta, como as conversas francas e sinceras de Greg e Leo no local de trabalho (há claro uma competitividade clarificada entre os homens, num sentindo mais vulgar, entre os machos propriamente ditos; e o espaço no qual labutam denota uma certa mediocrização que lhes sobrou, e neste exíguo universo e sua dilacerante monotonia, um microcosmo em que só eles mesmos possuem relevância, a ocupação de seus tempos intermináveis se perfaz com a vigilância da vida alheia e com a troca de opiniões acerca do que lhes é comum ). Existem nesses jovens atitudes infantilizadas como injustificados e caricatos enfrentamentos físicos que nos soam bastante reconhecíveis. O dramaturgo usa assim estes quatro personagens, cada um com a sua significação, e as interligações que neste restrito grupo decorrem, para falar com a acidez e o sarcasmo que lhe são natos, num tom denunciante, bem-humorado e inteligente, sobre aquilo que nos parece torto, deslocado, desvirtuado da normalidade, injusto, objeto de uma supervalorização das superficialidades e futilidades, que descamba para o detrimento do conteúdo e do intelecto em benefício da imagem estetizada, da beleza como atributo único de vantagem e liderança no coletivo. Prova-nos que a sustentação e subsistência de uma relação afetiva, social ou amistosa no mundo moderno pode depender, em não poucos casos, deste elemento suscetível a interpretações relativizadas. Neil, na verdade, corrobora uma verdade insofismável: o poder da palavra dita. O caráter com potencial destrutivo da palavra à qual nenhuma harmonia preexistente sobrevive. Os relacionamentos amorosos são exibidos (na pele de seu quarteto de tipos inventados) como estados de união não permanentemente estáveis, sujeitos às influências externas que, em sua maioria, realçam as ações e atitudes comportamentais e sentimentos característicos dos membros formadores de um casal que levam à dissolução daqueles (e tudo é feito de maneira a não escapar de sua meta dramatúrgica). A solidão repentina que nos obriga a revermos a nossa colocação, e até mesmo a nossa estética, em um meio social que nos parece estranho, existente até então sem a nossa presença, merece uma atenção pontual. Por outro lado, a obra alimenta as nossas esperanças de que, a despeito dos reveses, uma reconciliação entre as partes sempre é viável. Vemos outrossim uma apropriadíssima crítica à exploração compulsiva de nossas próprias imagens e a dos outros, lançando-se mão da tecnologia dominante um dia impensada em nossas rotinas. A referência as “selfies” recebeu um tratamento hilariante por parte da personagem Steph (ela diz num momento, para a gargalhada geral do público que evidentemente se identifica, que se desdobra em soluções criativas para “sair bem na foto”, como ser quase sempre a “maluquinha” do grupo com gestos que a identifiquem como tal, e estratagemas como cobrir o rosto com os cabelos usando as “tags” adequadas, como “art” etc (as “tags” neste tresloucado ambiente virtual assumiram uma função sem precedentes no êxito ou não aos olhos alheios de um “flagrante” pessoal). Esta compulsividade da qual lhes falei resume uma urgência coletiva e individual de se criar uma espetacularidade de todo e qualquer acontecimento, por mais banal que seja, com o intuito de se adquirir a falsa sensação de fama, poder, prestígio, popularidade e aceitação de outrem, não se eximindo da ostentação por vezes insultuosa, se esta for necessária. Nas redes sociais todos são felizes, sorriem, celebram, a vida se impõe perfeita, o que gera olhares de ambos os lados não amigáveis, escorados em sensações negativas que afloram com intensidade significativa, estimulando uma desagregação, e não a sociabilidade que, “a priori”, a rede “social” se destina. A encenação aborda ainda as insanidades dos que se submetem às dietas restritivas e impositivas para se alcançar o corpo ideal, e a efemeridade com que alimentos são alçados ao posto de benéficos, e que em breve futuro já são tidos como vilões do bem-estar e saúde (o glúten se transformou no grande algoz da vez). E para finalizar, os contos de fada, que são frequentemente alicerçados nos conceitos de beleza e ausência desta. Nestes contos infantis, o belo é exaltado invariavelmente e a sua não posse pode gerar ações de vingança entre os personagens, e todo o desenvolvimento de suas histórias poderá se fundamentar apenas nesta “injusta” equação. João Fonseca, o diretor, encena habilmente o texto de Neil LaBute seguindo de modo fidedigno os aspectos que mais caracterizam a sua obra dramatúrgica: a ironia, a mordacidade, o tom denunciativo sobre o que julga preconceituoso e excludente, e a leveza e inteligência com que trata os assuntos de que dispõe. O uso de um tema maior, a ditadura do belo e a vaidade excessiva, é inserido com destreza e oportunidade num contexto de relações afetivas de dois casais (este quadro de situação proporciona a João Fonseca um leque amplo de possibilidades para se levantar as discussões que LaBute propôs). João se aproveita com excelência da vitalidade cênica, do carisma indiscutível, e dos talento diferenciado e juventude literal dos intérpretes para engendrar um jogo ágil de interligações entre os protagonistas do enredo, com as respectivas oscilações de emoção condizentes com cada conflito suscitado. A direção logrou o ótimo resultado de se levar ao público um espetáculo que é tanto um entretenimento quanto um debate sério e arrazoado acerca de circunstâncias que dizem respeito a cada um de nós. O elenco, formado por Ingrid Guimarães, Erom Cordeiro, Aline Fanju e Gustavo Machado, consubstancia-se em uma série de interpretações sólidas e harmoniosas entre si que contribuem sobejamente para a efetivação de uma grata empatia com a plateia. Com preparação vocal de Rose Gonçalves, todos os atores transitam com desenvoltura pelas searas cômica e dramática com que a narrativa de Neil LaBute tão notoriamente agrupa. Ingrid Guimarães se sobressai com brilho ao compor Steph no limiar do descontrole emocional face às vicissitudes por que passa. Há que se asseverar que a popular intérprete detém absoluto domínio sobre a graça, causando imediato envolvimento dos espectadores. Deduz-se que a personagem da atriz, a despeito de seus dilemas, enfrenta-os de modo chistoso, atingindo um equilíbrio bem-vindo que não torna o seu “character” apenas associado ao drama pessoal. Erom Cordeiro nos apresenta como Leo uma potente franqueza interpretativa ao desenhar com largo entendimento psicológico o perfil do sujeito que revela traços de personalidade fanfarrona, machista, com uma visão bastante particular dos relacionamentos afetivos associada a uma autoconfiança acima dos limites aceitáveis (no entanto, como mencionado, o papel exala um charme especial, o que muito se deve, claro, a Erom Cordeiro). Se fosse um ator menos experiente e talentoso, poderia facilmente cair na obviedade do arquétipo. Aline Fanju, a quem coube a personagem Clara, criou com acurada percepção a agente de segurança cheia de nuances e contradições. Sua composição interpretativa reúne camadas não necessariamente igualitárias de malícia, poder de sedução, doçura, autoestima elevada, vaidade, certo grau de ingenuidade diante de fato imprevisto, além de deturpada compreensão dos problemas factuais de sua vivência. Clara simboliza o tipo de mulher presente em nossa sociedade maculada por valores desviados que sustenta a sua identidade feminina tendo como esteio somente a sua bonita aparência física (algo cada vez mais corriqueiro no meio social). Gustavo Machado obtém resultado com glória ao defender com imbatível convicção o companheiro de Steph. Sendo partícipe direto das discordâncias do par outrora romântico, Gustavo decidiu impingir ao comportamento de Greg características que o aproximam do homem comum ocidental, que alternadamente se vê acometido por reações ora passivas, ora impulsivas. Devemos realçar todavia o seu olhar crítico defronte aos acontecimentos que o envolvem, e que merecem sim uma avaliação personalizada. Gustavo Machado é um artista que se destaca no palco por sua postura intuitiva, espontânea, o que proporciona junto a nós uma fé em sua interpretação. A cenografia de Fernando Mello da Costa mescla elementos atuais com o vintage, adaptando-se com funcionalidade e elegância visual à proposta da peça. Fernando optou por três ambientes que representam um cômodo de uma casa (onde moravam Steph e Greg), a sala no local de trabalho em que os vigilantes se reuniam, e um bar para encontros. No primeiro, há um sofá/cadeira, em cujo lado estão um pequeno móvel vertical onde há um delicado abajur e um pufe. A sala de funcionários é servida por uma mesa e três cadeiras de design apropriado. O ponto mais impactante de todo o panorama cenográfico é justamente um enorme painel com um relógio circular central que ocupa todo o espaço anterior do palco, de cima a baixo, no qual se vislumbra uma infinidade de fotos (insinua-se que sejam capas de revistas), como forma objetiva de demonstração da publicização da vaidade e beleza preponderantes (não nos esqueçamos da adoção criativa e coerente dos quatro vidros quadrangulares usados como espelhos). A iluminação de Daniela Sanchez assume tons prevalentes naturais, como se pretendesse dar uma ideia de universo cotidiano em que habitam os personagens. Mas Daniela também se utiliza das sombras, focos e meias-luzes (os focos valorizam os atores quando estes se dirigem ao proscênio, e proferem o seu texto no formato de monólogo; os sombreados podem ser vistos no momento em que os intérpretes ficam por detrás dos “espelhos” praticando atividades várias correspondentes ao exercício da vaidade). Os figurinos de Antônio Medeiros são adequados, eficientes e de bom gosto (algumas peças possuem evidente refinamento, como o conjunto assimétrico de saia e blusa usado por Ingrid Guimarães numa cena noturna – a palavra “assimétrico” rende uma leve brincadeira, que na verdade faz uma crítica aos cada vez mais fugazes e inusitados nomes ditados pela moda para nomear os costumes). Os mesmos correspondem claramente ao perfil de cada personagem e à situação na qual se encontra, como os uniformes de vigilante. A produção musical ficou a cargo de Ricardo Leão, mostrando-se agradável, divertida e criteriosa. As canções selecionadas nos são familiares, causando-nos uma empatia direta. São sucessos muito bem alocados no entrecho dramatúrgico. Ouvimos Peter Bjorn and John (“Young Folks”), “Por Enquanto” (eternizada na rouca voz de Cássia Eller), “Flores em Você” (Ira!), Britney Spears e Queen (“I Want To Break Free”). “Razões Para Ser Bonita” não é apenas uma comédia ácida inteligente e engraçada, um entretenimento cênico bem estruturado, mas um relevante instrumento artístico denunciativo contra valores individuais ou coletivos que se fundam nos preconceito e discriminação surgidos de uma dominância da beleza “perfeita” como vetor de aceitação do indivíduo por seus pares na sociedade. Não se faz uma defesa fácil daquilo que não é propriamente belo, e sim, como disse, um alerta acerca de que não devemos nos deixar levar por esta absurda e irreal ditadura (como todas as ditaduras, afinal), propalada em considerável parcela pelos meios de comunicação, mídia, campanhas publicitárias etc. A peça se traduz como uma poderosa arma contra a exclusão, o que lhe traz bastante valor. “Razões Para Ser Bonita”, com Ingrid Guimarães, Erom Cordeiro, Aline Fanju e Gustavo Machado cumpre com beleza a sua missão como espetáculo teatral. Há, portanto, muitas razões para ser… um privilegiado espectador desta obra de Neil LaBute.
