“Não foi em Ipanema, foi no Leblon. Então, não havia a garota. Mas havia Tom Jobim, bem perto de mim.”

Publicado: 19/03/2013 em Cinema, Evento, TV

Antnio+Carlos+Jobim+tom+jobim
Foto: Divulgação

Uma rua chamada Adalberto Ferreira. Bairro: Leblon. Não chamava-se pecado. Então não era possível encontrar Marlon Brando tampouco Vivien Leigh. Mas era possível encontrar Antônio Carlos Jobim, Tom Jobim, o excelso maestro e compositor brasileiro, autor de grandes clássicos da bossa nova e da MPB. “Garota de Ipanema”, “Chega de Saudade”, “Águas de Março” e “Samba do Avião” são apenas algumas canções deste músico incensado pelo mundo, e gente ilustre como Frank Sinatra, Sammy Davis Jr. e Stan Getz. O local onde se dera o encontro mágico fora a Churrascaria Plataforma. Local este vizinho à antiga Sendas, e que correspondia na década de 80 ao que atualmente é a Rua Dias Ferreira, na mesma área, por seu comparecimento constante e invariável de artistas e profissionais da cultura nacional. À espera dos deliciosos e fumegantes pãezinhos de queijo que serviam de entrada, e pareciam vir direto das Minas Gerais, e que emulavam com as saborosas carnes, podia-se sentar ao lado de atores, atrizes, produtores musicais, autores de novelas… e Tom Jobim. Ao chegar num belo dia de domingo ao restaurante, em seu Puma vermelho conversível, iam embora José Wilker e Renée de Vielmond, na época casados. Acreditem. Não havia “paparazzo”. Se houvesse, não faltariam pautas para um mês inteiro para as revistas deste gênero. Entre uma mordida e outra de pão de queijo, vislumbrava-se o simpático jornalista e produtor musical Nelson Motta. Na porta do estabelecimento, podia-se esbarrar em um contemplativo José Lewgoy, venerável vilão das chanchadas, e que tinha acabado de fazer enorme sucesso no folhetim de Gilberto Braga, “Água Viva”. Noutra mesa, uma certa Regina Dourado. Que beleza de atriz, esbanjando tanto carisma ao seu redor. Noutra mesa, uma das musas daquela geração, Tássia Camargo. Percebi um sério e introspectivo Manoel Carlos. As seriedade e introspecção deveriam ser motivadas pela estreia no dia seguinte de um de seus maiores êxitos televisivos, “Sol de Verão”. Criança, falei: – Manoel, amanhã estreia sua novela, “né”? Sentados com placidez à espera do almoço, alguém que atendia pelo nome de Carlos Zara ao lado de sua então esposa Eva Wilma (naqueles anos o verbo “esperar” era respeitado). E um de nossos notórios atores junto ao seu filho Maurício Gonçalves, Milton Gonçalves de cabeça raspada (claro que tudo se deu em ocasiões diferentes) conversava conosco como se fôssemos amigos de infância. Abria seu sorriso com extrema generosidade. Este é Milton Gonçalves. Maurício do Valle, astro do Cinema Novo, irrompia com suas fortaleza e imponência nos vastos salões. Meus olhos não sossegavam à procura de pessoas que me despertassem a atenção e reconhecimento por algo que tenham feito de relevante por nossa cultura. Lá dentro não choviam as “águas de março”, nem vi a “garota de Ipanema” entrar no banheiro, ninguém lá aparecia vindo de um avião cantarolando um samba, e a saudade era deixada do lado de fora, na rua chamada Adalberto Ferreira. A Adalberto Ferreira do Leblon de Manoel Carlos. A Adalberto Ferreira vizinha a Sendas. Apesar de tudo isso, foi com avolumada surpresa que me vi diante daquele que com sua pena escreveu obras do nosso cancioneiro que nos falam fundo ao coração: cercado de amigos, em extensa mesa, defronte a uma tulipa suada de chope, chapéu panamá na cabeça, e entre os dedos o indefectível charuto, um bonachão e falante Tom Jobim. Eu e os que comigo estavam aproximamo-nos dele, e lhe dissemos algo. Tom foi de uma afetividade que raro se identifica nos gênios. Aquele domingo não fora um domingo qualquer. Fora um domingo com Tom Jobim. Nesta hora demos chance à fantasia, e sobre nós caíram as “águas de março”, a “garota de Ipanema” entrou sim no banheiro, ouvimos o forte ruído de um avião chegando ao Rio de Janeiro ao som de um samba, e já estávamos com saudade daquele encontro. Esquecemos o “chega”. Voltamos ao nosso pãozinho de queijo. Ainda fumegante como antes. Como era infante, não podia beber um chopinho como Tom Jobim. Mas se o pudesse, com certeza levantaria o copo também suado e convocaria os que lá estavam que brindassem pela presença do brilhante maestro. Impressão que se tem é que todos por alguns minutos fomos garotos e garotas de Ipanema. Ao retornarmos para casa, não chovia. Não sei se era março. Porém, imaginemos que era março, e que chovia sim. Afinal, estivemos com Tom Jobim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s