O autor Walcyr Carrasco tem se empenhado no combate ao preconceito, nas mais variadas esferas, em sua novela, exibida às 21h na Rede Globo, “Amor à Vida”. Homossexualismo, adoção de uma criança crescida e afrodescendente por um casal gay masculino bem-sucedido economicamente, “bullying” contra mulheres acima do peso, amor e sexo na outrora chamada “terceira idade” (também denominada “a melhor idade”) e o autismo (transtorno cujos sintomas são a deficiência intelectual e dificuldades de linguagem e comportamento, segundo estudiosos). No Brasil, há cerca de 1,1 milhão de autistas, o que corresponde em média a 1% da população. Na Região Sudeste, são quase 500 mil. Há déficit de instituições especializadas no tratamento desta “condição especial” estimado em 40 mil. Há pouco mais de uma semana, foi revelado pela comunidade científica que quanto mais cedo o distúrbio for diagnosticado (antes dos 3 anos de idade seria o ideal; hoje, costuma-se fazê-lo por volta dos 5), as chances de diminuição dos sintomas chegariam próximo aos 80%. Uma excelente notícia para pais, amigos e familiares que convivem com esta realidade. E a personagem Linda, interpretada com delicadeza e verdade pela catarinense de apenas 21 anos, Bruna Linzmeyer, que começou a carreira bastante cedo como modelo, tem comovido assaz o público. A beleza arrebatadora de Bruna, associada ao seu talento, olhos azuis entorpecentes, voz doce e maviosa, corpo e rosto de menina contribuem sobremaneira para que prestemos maior atenção na situação “diferente” da moça. A atriz, que estreou na televisão no seriado de Luiz Fernando Carvalho, “Afinal, O Que Querem as Mulheres?” (foi indicada ao Prêmio Contigo! de “Melhor Revelação da TV”), emendando com o folhetim de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, “Insensato Coração”, como Leila, angaria a seu favor uma direção sensível capitaneada por Mauro Mendonça Filho, um afinado elenco do seu núcleo, o caprichado texto de Walcyr, é claro, e uma belíssima canção, ” The Perfect Life”, de Moby e Wayne Coyne a embalar seus momentos. Porém, a história de Linda ganhou contornos mais emocionantes com a chegada do personagem do brasiliense Rainer Cadete, como o sério e dedicado advogado Dr. Rafael. Rainer exibe atuação firme, convincente, cativante e carregada de sensibilidade. Formado pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), no Rio de Janeiro, o ator detém larga experiência teatral (peças como “Os Campeões” de Lygia Fagundes Telles e “Doroteia”, de Nelson Rodrigues, e o musical infantil “Zé Vagão da Roda Fina e sua Mãe Leopoldina”, de Silvia Orthof, constam de seu currículo) e um sem número de participações em distintas emissoras, como TV Futura (“Escola Prevenia”), Multishow (“De Cabelo em Pé”) e Rede Globo (“Caras & Bocas” – indicação ao Prêmio Contigo! como Ator Revelação; “Cama de Gato” e “Os Caras de Pau”). Está em cartaz com o filme de Halder Gomes, “Cine Holliúdy” (além disso, neste ano, esteve por trás do projeto, realizado no Distrito Federal, “Centenário de Vinicius de Morais”, em que foram convidadas Maria Gadú e Ellen Oléria). Voltando então a “Amor à Vida”, se Linda possui ao seu redor a mãe com superproteção deletéria, Neide (Sandra Corveloni), os pai Amadeu e irmão Daniel (Genézio de Barros e Rodrigo Andrade, respectivamente) com suas preocupação, paciência e solidariedade, a maldade deliberada e inacreditável da irmã Leila (Fernanda Machado), passou a se ver num repente agraciada com a presença constante do amor honesto sem discriminações do causídico de sorriso carismático, que veste elegantes terno e gravata, Rafael. As mãos de um e de outro parecem se conhecer há tempos. Suas palmas se juntam numa só. Seus dedos puros se cruzam, entrelaçam-se. Toques suaves em faces mútuas. Uma descoberta atrás da outra. Linda sente os pelos da barba semicerrada do rapaz e não se incomoda. Os dois comem pétalas de rosa vermelha. O sabor da flor. Uma gigante bola azul os une ainda mais. O “pilates” do amor imaculado. Olhos que se “enfrentam”, e um carinho sem medidas é trocado. Poucas palavras são ditas, contudo muito se diz. As tintas servem para dar cor ao “P&B” de vidas nossas. Rostos harmoniosos viram telas de pintura. Rosa “tatuada” no papel. Balas coloridas adoçam as existências. Um besouro, uma joaninha “torcem” por eles. A ideia de Walcyr Carrasco de aproximar a dupla foi brilhante e empática, demovendo qualquer possibilidade de reprovação de outrem. Um mérito para os intérpretes. Finalizando com Bruna, a artista repetiu a parceria com Michel Melamed, iniciada com “Afinal, O Que Querem as Mulheres?”, em dois espetáculos da autoria daquele, “Seewatchlook” e “Adeus à Carne”. Foi uma das “brasileiras” no episódio “A Vidente de Diamantina”, além da Anabela do “remake” de “Gabriela”, do mesmo Walcyr. Bruna Linzmeyer e Rainer Cadete impingem razão e sensibilidade a “Amor à Vida”. Sim, razão, por que não? A razão de transformar a visão, por vezes deturpada dos telespectadores do que seja o autismo, iniciando um processo sadio de reavaliação. Os autistas devem ser amados e compreendidos incondicionalmente. Dr. Rafael já sabe. E alguns outros. Vamos tentar? Linda gosta…
Categoria: Cinema
-
Não foram raros os momentos teledramatúrgicos em que a vingança como recurso de identificação e desenvolvimento de uma personagem foi ricamente explorada por um autor de novelas. Exemplos não nos faltam: a Márcia de Malu Mader em “O Dono do Mundo”, a Flora de Patrícia Pillar em “A Favorita” e a Norma de Gloria Pires em “Insensato Coração”. A vingativa da vez é interpretada com primor pela fluminense Vanessa Giácomo, naquela que pode ser considerada como uma de suas melhores atuações. Vanessa, uma atriz “rodriguiana” (sim, fez o monólogo “Valsa N° 6”, de Nelson Rodrigues no teatro) que começou a trabalhar cedo, não preterindo o balé dos seus estudos, “comprou” a espinhosa missão de dar credibilidade a uma jovem de passado obscuro que possui como meta destruir de modo pleno a família Khoury da trama das 21h da Rede Globo, escrita por Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”. E o alvo principal é o médico César (Antonio Fagundes). O que se sabe até então é que Aline Noronha é sobrinha de Mariah (Lúcia Veríssimo), suposta mãe de Paloma (Paolla Oliveira), que sofreu grave revés cometido pelo outrora presidente do Hospital San Magno. Giácomo, que coleciona muitos “remakes” na carreira, como “Sinhá Moça”, “Paraíso” e “Gabriela”, tendo estreado na TV já como protagonista na segunda versão de “Cabocla”, como Zuca, disputando o papel com várias candidatas, e que lhe rendeu importantes prêmios, decidiu se utilizar das natas e inquestionáveis beleza e sedução para pôr em prática o plano maquiavélico de sua Aline atual. Com jeito dulcíssimo, a artista que integrou o elenco de outras obras de Walcyr, como “Caras & Bocas” e “Morde & Assopra”, “anestesia” o público com os ardis e artimanhas engendrados. Verdade que a ex-secretária (uma figura onipresente nas produções televisivas brasileiras abordada sob diferentes prismas) não enganou de imediato a todos. Félix (Mateus Solano), Pilar (Susana Vieira) e Lutero (Ary Fontoura) sempre desconfiaram dos decotes mal-intencionados à mostra. Bernarda (Nathalia Timberg) fora conquistada à base de cupcakes. A moça que não “perdoa nem corretores de imóveis” (acredita-se que alicia Bruno, Malvino Salvador, com deliberado intuito de atingir Paloma), é hoje mãe de Júnior, suposto filho de Cesar (provável que em breve seja desmascarada quanto à questão do rebento não ser descendente do marido). Aline, “uma secretária de futuro” incerto que nos ensinou a “como eliminar seu chefe” despertou-nos para a sua desmedida ausência de escrúpulos e desrespeito com os semelhantes, lançando contra estes “petardos” como “bicha” ou algo similar, “velho ou velha” e “acabada”. É notório que também foi aviltada, ao ser chamada de “vadia” e “piranha”. Os objetivos de desforra da meiga e maliciosa mulher que gosta de comprar imóveis e colocá-los no próprio nome a fim de garantir a segurança de seu bebê dará a Vanessa posteriormente bastante possibilidades para demonstrar o talento que lhe é sobejo. A mesma Vanessa que recebeu de Gloria Perez a chance de vivenciar a esposa do seringueiro Chico Mendes na minissérie “Amazônia, De Galvez a Chico Mendes”, Ilzamar Mendes. A intérprete ademais “embrenhou-se” na temática espírita de Elizabeth Jhin em “Escrito nas Estrelas”, e na seara popular e carnavalesca de Aguinaldo Silva, em “Duas Caras”. Nos cinemas, “peregrinou” por universos inspirados em fatos reais (“Jean Charles”), rurais (“O Menino da Porteira”), fictícios (“Novela das 8”), e neste ano frequentara os “sets” de “Solidões”. Vanessa Giácomo, que acumula a função de ativista dos Direitos Humanos, deixa marca indelével no folhetim de Walcyr Carrasco como a bela e fatal Aline. Temos por lição o convencimento de que é correto quando se diz que “a vingança é um prato que se come frio”. E talvez seja até pior quando o prato em questão é um cupcake, e ainda por cima preparado por Aline Noronha.
-
Há alguns personagens em “Amor à Vida”, novela das 21h da Rede Globo, de Walcyr Carrasco, cujos perfis são contextualizados no drama e na comédia, como são os casos de Márcia (Elizabeth Savalla) e Valdirene (Tatá Werneck). Carlito, o personagem do campineiro formado em Artes Cênicas pela Faculdade Paulista de Artes, Anderson Di Rizzi, não foge a esta sedutora regra. Não foram poucas as vezes em que nos deixamos comover pela sensibilidade à flor da pele do “DJ’s”, evidenciada nas profusas lágrimas que brotaram de seus vívidos olhos sem vergonha da condenação machista alheia, e nos divertimos também com o seu peculiar jeito de ser. Chamado de “Palhaço” por “Valdirene’s”, o que a princípio poderia soar como pejorativo, tornou-se um epíteto carinhoso quando o ouvimos vindo da jovem não tão mais “piradinha” assim. O rapaz romântico que em noite bonita no terraço com a sua amada usa meio queijo para representar a lua, veste-se de modo estiloso e brilhante, ostentando seus bíceps “inflados” sempre que pode para a vizinhança e para os frequentadores dançantes de suas festas. Carlos José dos Santos Araújo “abraça” convictamente o gerúndio no linguajar, e vibra de maneira alucinada com autênticas coreografias defronte as “pick-ups”. Vê-se objeto de pilhérias, chistes e gracejos impiedosos, sejam eles proferidos pela avó de sua rebenta, Mary Jane, a “palhacinha”, sejam eles ditos pelo próprio pai, o “empresário”, o “dono do estabelecimento” Denizard (Fulvio Stefanini), que não se inibe em defini-lo como “corno” e “burro”. O filho de Ordália (Eliane Giardini) é uma “montanha de músculos” frágil como flor de caule fino, e ingênuo como uma criação dos Irmãos Grimm. Porém, ingenuidade que desperta ao notar direito legítimo ser ameaçado, quando lépido registrou a sua filha, antevendo uma infração à lei. Afinal, como ele mesmo diz: “Eu quero ‘estar vendo’ a minha ‘palhacinha’.” O intérprete passou a conquistar os afeto e simpatia do público justo pelas mãos de Walcyr Carrasco, autor que lhe deu a primeira grande oportunidade na teledramaturgia, oferecendo-lhe o engraçado Sargento Xavier de “Morde & Assopra”. A seguir, emendou com o “remake” de “Gabriela”, na faixa das 23h, personificando o professor Josué. Consolida-se em definitivo a bem-sucedida parceria com Walcyr. No tocante a “Amor à Vida”, Anderson buscou consciente ou inconscientemente inspiração em tipos clássicos como o “chapliniano” Carlitos (o que explica a escolha do nome do seu personagem), e quem sabe talvez no adorável arquétipo imortalizado por Renato Aragão nas superproduções cinematográficas que arrastavam multidões de variadas gerações para as salas escuras nas décadas de 70 e 80, em sua maioria dirigidas por J.B.Tanko. Carlito, sem sombra de dúvida, provoca a nossa torcida empedernida, pois se diferencia na trama em meio a tantas “personas” movidas a ódio, ambição, vingança, ciúme, imoralidade e amoralidade, perfídia e dilacerantes preconceitos. Anderson, desde já, deve se orgulhar do legado deixado no folhetim. O ator, que participou da microssérie “Dercy de Verdade”, açambarca em seu currículo nos palcos dramaturgos de respeitabilidade universal como Sófocles (“Antígona”), Frank Wedekind (“O Despertar da Primavera”) e Shakespeare (“Júlio César”), além de exibir sua face com sorriso cativante na comédia “O Concurso”, longa-metragem de Pedro Vasconcelos. Anderson Di Rizzi, que antes do sucesso obtido na emissora carioca, atuou em campanhas publicitárias e produções latinas, merece carreira longa. Provara-nos de que é capaz de transitar com excelência por gêneros distintos, colocando-se num patamar de versatilidade desejada. Carlito é um adorável “clown”. Um formidável “bufão” no “picadeiro” da ficção. Valdirene, para ele, é uma “delícia”. E para os telespectadores a atuação de Anderson Di Rizzi é “deliciosa”.
-
Elizabeth Savalla é uma atriz de muitas personagens marcantes na TV, sem no entanto preterir o cinema tampouco o teatro. No ar, às 21h, pela Rede Globo, numa novela de Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, a intérprete que estudou na Escola de Artes Dramáticas de São Paulo, é a ex-chacrete Márcia do Espírito Santo, ou Tetê Parachoque ou Paralama, seu outrora nome artístico, uma mulher sofrida, trabalhadora, mãe solteira, porém assaz divertida. Não é a primeira vez que Elizabeth atua com brilho ao defender um tipo popular. A taxista Lili de “O Astro”, de Janete Clair, em 1977, com seus cabelos curtos encaracolados foi de certa forma uma transgressão aos ditames sexistas da época. A despeito da Revolução Feminista da década de 70 e dos sutiãs queimados em asfalto público sob os olhares atônitos dos conservadores, colocar uma moça simples, no auge da juventude, conduzindo um táxi (profissão dominada por homens até hoje) em pleno regime de exceção fora ousadia da teledramaturga, e uma prova de confiança da emissora em Janete. E se estamos falando em simplicidade nos é obrigatório mencionar o oposto: a recente Minerva de “Morde & Assopra” (também de Walcyr, o autor com quem mais trabalhou, sempre com êxito). Savalla, que esbanja beleza desde os tempos da rebelde Malvina de “Gabriela” (1975), de Walter George Durst, produção baseada no romance de Jorge Amado, “Gabriela, Cravo e Canela”, agora como a progenitora de Valdirene (Tatá Werneck), “inteligência pura”, faz-nos invariavelmente rir e nos comove com suas sequenciais agruras. A vendedora de “hot dogs” mais querida da 25 de Março não dispensa exuberantes flores de plástico coloridas presas às madeixas que combinam com as roupas que usa (em geral blusas largas com um ombro à mostra e calças “fuseau”), e de modo heroico logra tirar graça da própria tragédia particular. Se um dia foi famosa com seus rebolados e caras e bocas amparada pelo “Velho Guerreiro”, no presente o anonimato “cumprimenta” o desamparo. Falta-lhe comida no prato. Sobram-lhe salsichas. Uma “mortandela” dada por caridade é um ágape. Atílio/Gentil (Luis Melo), o “administrador financeiro sem-teto” seria ou será o bote salva-vidas de que necessita para não se “afogar”. Deposita na descendente (como várias mães o fazem) a realização de seus sonhos. Os telespectadores podem avaliar Márcia como ambiciosa, interesseira. Não, ela é apenas uma sobrevivente, agindo em “estado de necessidade”, buscando atalhos, caminhos alternativos, que dirimam a miséria pessoal que a assombra, sem quaisquer apegos a falsos moralismos. A vizinhança da “dona da van” a trata cruelmente e a humilha sem dó nem piedade, chamando-a de “periguetona”, e Valdirene de “periguete”, além de brega pela atual sogra de sua filha, Eudóxia, vivida por Ângela Rabello (breguice são “pecadores atacando pedras em pecadores”). Deve-se ter o mínimo de respeito à cidadã que cuidou sozinha de rebenta, praticou o “strip-tease” para alimentar menina faminta (talvez até tenha se prostituído, e daí?; o que mais se vê no Brasil são modos outros de “prostituição”), nunca furtou ou roubou (sim, não paga impostos, é verdade; os poderosos pagam?), é obrigada a fugir do “RAPA” em meio a potes de ketchup, mostarda e maionese e o que de mais edificante cometeu: foi parteira em banheiro fétido de boteco insalubre cheirando a cachaça, “dando à luz” Paulinha (Klara Castanho). A avó da “palhacinha” Mary Jane lembra-me uma Cabíria de Fellini nas “Noites de Márcia”, que somente procura dignidade e afeto perdidos. Uma Giuletta Masina no horário nobre. Elizabeth Savalla estreou na TV Cultura em episódio de teleteatro dirigido por Antunes Filho, “A Casa Fechada”, de Roberto Gomes. Sua permanência no veículo de massas se consolidou após a bem-sucedida Malvina já citada, e que lhe rendeu merecidos prêmios. Importantes folhetins sobrevieram: “O Grito”, “Estúpido Cupido” (irmã Angélica), “O Astro” (dito acima), “Pai Herói” (a lindíssima bailarina Carina), “Plumas e Paetês” (Marcela, que se vê obrigada a trocar de identidade em virtude das circunstâncias em trama de Cassiano Gabus Mendes), “O Homem Proibido” (a “rodriguiana” Sônia), “Pão, Pão, Beijo, Beijo” (uma irmã que disputa com outra irmã, Maria Cláudia, o amor de mesmo homem, Cláudio Marzo), “Quatro por Quatro” (uma das quatro mulheres que se voltam contra o sexo oposto em história de Carlos Lombardi), “Chocolate com Pimenta” (a excentricidade foi o norte da Jezebel que personificara), e demais folhetins, seriados e minisséries (“Meu Marido” e “Sex Appeal”). Nunca se afastou dos palcos, associando-se inclusive a Camilo Áttila na fundação de uma produtora, a ESCA (Elizabeth Savalla & Camilo Áttila), que originou espetáculos como “Ações Ordinárias”, de Jerry Sterner, “Mimi, Uma Adorável Doidivanas”, de Camilo Áttila, “É…”, de Millôr Fernandes e para comemorar os seus 30 anos de carreira o monólogo “Frizileia – Uma Esposa à Beira de um Ataque de Nervos”, também de Camilo Áttila, em 2004. Antes, encenou “Pigmaleoa”, de Millôr Fernandes e “Lua Nua”, de Leilah Assumpção. Exerceu um cargo social como Coordenadora de Eventos Teatrais para a Zona Oeste do Rio de Janeiro. Sua relevância como artista fez com que o Festival Nacional de Teatro de Juiz de Fora, Minas Gerais, desse o seu nome a um troféu. No cinema, junto a Reginaldo Faria, novamente no período da ditadura militar, colaborou com o diretor Roberto Farias na exploração de tema árido e doído munido de torturas e paus de arara, em “Pra Frente Brasil”. Tivemos e temos Elizabeth Savalla em nossas vidas enriquecendo a cultura nacional. Não foram horas, dias, e sim, anos. Como Márcia de “Amor à Vida”, já se passaram meses. Minutos multiplicados em meses. Antigamente era “um minuto de comercial”. Hoje é um pouco mais. É justo então que exijamos muitos minutos para Elizabeth Savalla.
-
É princípio básico na constituição teledramatúrgica de uma novela que se possua dois núcleos, o cômico e o dramático. O primeiro tem por intento “suavizar” o enredo em meio às situações que tangenciam o drama. Nas produções das 19h precipuamente o humor ocupa posição de destaque na maioria das vezes. O que já não decorre de modo costumeiro nas obras da faixa do horário nobre (há exceções como “Rainha da Sucata” e “Roque Santeiro”). No caso de “Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, atual folhetim das 21h da Rede Globo, há sim os dois núcleos supracitados, por sinal muito bem inseridos, entretanto o que se vê é um amálgama forte entre ambos, ou seja, onde há comédia há tragédia. As nossas vidas são tragicômicas, e não seria diferente em uma história contada por Walcyr. Valdirene, personagem da carioca, a publicitária formada pela PUC/RJ, Tatá Werneck, é um exemplo ímpar disso. Nossa imediata impressão, haja vista o seu passado de inegável êxito como comediante, é a de que o seu papel trilharia somente o caminho do engraçado, do divertido, ou até mesmo de um suposto ridículo. Enganamo-nos. O autor foi esperto, capcioso ao “construir” Valdirene. E a escolha de Tatá não poderia ter sido mais adequada. A atriz sabe que lhe cabe a missão de provocar o riso, mas sua função também é nos causar sentimento de compaixão ao testemunharmos seus reveses. É fato que nos é jocoso, passível de gargalhadas o jeito desengonçado com que a filha de Márcia (Elizabeth Savalla) se movimenta, com suas pernas arqueadas sob a pressão de calças “fuseau” e sapatos que parecem ser de número inferior ao que necessita; a gula desmedida acima de qualquer razoável compreensão (a cena das ostras foi antológica); o Português particular, em que fora criada uma “coesão textual” que só é inteligível para ela, com uma saraivada de vocábulos frutos de raciocínio munido de múltiplas informações e opiniões inusitadas; suas tentativas sempre frustradas em “fisgar” um marido rico, “milho” (milionário): já foram suas “vítimas” os atletas Neymar, Gustavo Borges, Vitor Belfort, Alexandre Pato, e os cantores Gusttavo Lima e Xand Avião dos Aviões do Forró (!). A jovem passou então a preterir a condição de famoso e se ater “apenas” à condição financeira dos “eleitos”. Sofreu sequência de humilhações, sendo abandonada em motéis sozinha, sendo confundida como prostituta, “usada e abusada”. Não estou aqui querendo dizer que Valdirene seja um baluarte dos “bons costumes” de uma mulher (se assim falasse soaria até como machismo ou chauvinismo), mas ao meu ver a vendedora de “hot dogs” age em nome de seu “estado de necessidade”. Talvez, e bastante provável, que se espelhe na mãe, e não deseja repetir os feitos de sua progenitora, que em época de gravidez, desprovida de recursos, viu-se obrigada a ostentar posturas atentatórias à sua vontade, como a prática de “strip-tease”. A sua fragilidade não está somente no olhar e compleição física. Está em seu interior. Valdirene sofre por dentro. Sofre por ela e pela mãe. Sofre de forma intermitente “bullying” dos vizinhos. Tem aspecto suportável ser chamada de “periguete” o tempo inteiro, e ainda por cima de “burra” pela própria mãe ex-chacrete, a “mãezoca”? Os seus coração e austoestima estão covardemente dilacerados, e desta forma permanecem a cada instante que ouve os impropérios. Não, Valdirene não é “difícil, dificílima”. Somos “difíceis, dificílimos” ou fingimos que o somos? É fácil estender a mão à hipocrisia, e jogar os “pecadores” na fogueira. Talita Werneck com sua beleza adolescente, olhos amendoados, que indicam “pedir ajuda”, lábios delicados que esboçam sorriso ora doce ora malicioso (mordiscando inclusive o lábio inferior nos atos de sedução), cabelos de menina com “inteligência pura” que somente quem a ama de verdade, o “palhaço” Carlito (Anderson di Rizzi), legitimamente faz “Valdirenes” verter lágrimas em rosto delgado. O “DJs” é capaz de abrir os seus olhos para a felicidade sem que haja conta bancária entre eles. Nem Ignácio (Carlos Machado) a amava, só queria alguém que aceitasse a sua esterilidade. A personagem, valorizada pela canção de Gabriel Valim, “Piradinha”, garante um dos melhores momentos da atração que nos promete “amor à vida”. Werneck, que graduou-se em Artes Cênicas na UNIRIO (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) apaixonou-se pelo teatro desde cedo, e começou a mostrar o seu talento na série “Os Buchas” (Multishow). Após ter pisado no tablado de um palco com “Improvável”, despertou a atenção, e lhe sobreveio convite para integrar o grupo DEZImprovisa. O trampolim para que o Brasil tomasse ciência de seu nato potencial artístico finalmente apareceu: a MTV. Tudo se iniciou com “Quinta Categoria”. Ao lado de uma nova geração de atores atrelados à comicidade como Marcelo Adnet, Dani Calabresa, Bento Ribeiro, Rafael Queiroga e outros, esbaldou-se no “Comédia MTV” (que mais tarde veio a se tornar “ao vivo”). Pronto. Público e crítica se renderam a ela, e como prova do que lhes falo internautas do site UOL a consideraram “a humorista mais engraçada do Brasil”. Quem há de duvidar da voz do povo? Como talento puxa outro, firmou dupla com Fabio Porchat em dois longas “Teste de Elenco” e “Podia Ser Pior” (com Fernando Caruso e Gregório Duvivier). Ambos dirigidos por Ian SBF (responsável pelo fenômeno do YouTube “Porta dos Fundos”). Com Ingrid Guimarães, experimentou o “sabor” de um “blockbuster” “De Pernas Pro Ar 2”, de Roberto Santucci. Ainda na MTV, acumulou o ofício de apresentadora do “Trolalá”. No verão, “esquentou” os telespectadores com “Tá Quente”. Arriscou-se no já estabelecido mundo digital como importante mídia (em associação com uma cervejaria) na websérie “Imagina a Festa, Imagina o Carnaval”. Há um projeto engatilhado para estrear em outubro próximo e ser exibido no Multishow, chamado “Sem Análise”, no qual fará vários tipos. E na mesma emissora paga, contracenou com Mônica Martelli em “Dilemas de Irene”. Com relação a Valdirene, há curiosidade: a moça que gosta de “palhacinhos de enfeite” pôde ser assistida na websérie “Brigas de Família”, no episódio “Mãe Quer Ficar Rica”, na TV Rio. Recebeu três prêmios por sua participação em “Avacalhados” (grupo de humor de improvisação), e angaria um sem número de indicações por demais trabalhos. Se há um substantivo que possa definir este texto, Tatá Werneck, Valdirene e a carreira da intérprete é a pureza. Escrevi este texto com pureza. Tatá Werneck é “interpretação pura”. Valdirene não é “periguete” e sim alguém em busca de um amor puro. E a carreira de Tatá é pura no sentido de que não há inverdades nos sucesso e ascensão. Torçamos para que Walcyr Carrasco se apiede de Valdirene e lhe dê uma “felicidade pura”.
-
Sempre que o nome Maria Maya surge em ocasional conversa, inevitavelmente associamos a atriz carioca de belos sorriso e cabelos às suas personagens românticas na televisão, por vezes até rebelde, ou outra com determinado desvio de conduta, porém nada se compara ao papel que lhe foi presenteado por Walcyr Carrasco para a trama das 21h da Rede Globo, “Amor à Vida”. A boliviana Alejandra ocupa lugar de destaque na vasta galeria de tipos condenáveis do folhetim que não têm amor à vida. De algum modo, estou sendo até injusto com a irmã de Valentin (Marcelo Schmidt), pois à sua maneira sente um “amor estranho amor” pelo aventureiro Ninho (Juliano Cazarré), e muito, mas muito amor pelo dinheiro fácil. A moça dotada de melenas da cor da graúna e que se acoberta com ponchos multicoloridos mostrou-nos no introito da história que pareceria apenas ser uma jovem apegada aos costumes milenares peruanos, e que detinha um misticismo, uma aptidão sensitiva ou mediúnica que a fez levar Paloma (Paolla Oliveira) a um xamã, que previu uma “sombra” no caminho da ainda não pediatra ao gerar criança, mas que venceria os obstáculos que lhe sobreviriam. O que desconhecíamos era que Alejandra seria um desses obstáculos antevistos. Seu perfil assim começou a ser claramente definido ao tomarmos ciência de seu envolvimento com o tráfico internacional de substâncias ilícitas. E este mesmo “negócio” levou o seu amado até então com “dreads” a ver o Sol da Bolívia sob diferente prisma. Houve um interregno estratégico nas aparições de Maria no enredo, uma intérprete que venceu o “peso” de pertencer à família de competentíssimos profissionais. O curioso, entretanto, é que nunca se cobrou dela de forma pública acerca do fato, haja vista que Maya sempre respondeu a possíveis elucubrações com o seu talento e acertadas escolhas de trabalho, chegando inclusive a se afastar do veículo televisivo, uma mídia que ultrapassa os limites racionais da exposição. Há pouco tempo, na novela de Walcyr, Alejandra assustou o Brasil com os altos graus de frieza e crueldade ao mancomunar-se com “o destruidor de skates que odeia ratinhas” Félix (Mateus Solano), com o espúrio intuito de sequestrar Paulinha (Klara Castanho), a menina com dois pais e uma mãe. Sem contar as infindáveis situações que tentou aliciar o rapaz de barba espessa que “promete as estrelas” a quem ama a transgredir a lei, a fim de que “se desse bem”. Alejandra Reys Moreno “rasgou” o Estatuto da Criança e do Adolescente e jogou o Código Penal no primeiro “bueiro” que avistou ao cometer sequência de delitos capazes de fazer qualquer criminalista experiente franzir a testa: sequestro, cárcere privado, maus tratos, formação de quadrilha, tortura, falsidade ideológica, homicídio doloso, tentativa de homicídio e denunciação caluniosa. Ela foi o “bicho papão” de Paloma, de Bruno (Malvino Salvador), da família de ambos, de Paulinha, de Ciça (Neusa Maria Faro) e de nós, o público. “O bicho papão do horário nobre”. Após o malogrado sequestro, engendrou vingança sórdida (há vingança que não o seja?) ao “plantar” drogas na bolsa andina da filha de César (Antonio Fagundes). Hoje a doutora é “paciente” das barbaridades cometidas numa cela de prisão brasileira. E uma “clínica” psiquiátrica com métodos “tradicionais” (uma vergonha a ser banida do país) a aguarda. Tudo planejado (exceto a internação) entre uma baforada e outra de cigarro. Maria Maya certificou-nos uma vez mais sobre suas inquestionáveis potencialidades dramáticas já mostradas em outros folhetins, peças e filmes. A estreia na TV ocorreu em obra de Antonio Calmon, “Cara e Coroa”, contudo passou a ser reconhecida nacionalmente quando personificou a sonhadora e ingênua Kelly Bola de “Salsa e Merengue”, escrita por Miguel Falabella e Maria Carmem Barbosa. Depois de incursões em minisséries como “Hilda Furacão” e “A Muralha” e o seriado “Brava Gente”, retorna às telenovelas numa produção de época das 18h, “Chocolate com Pimenta”. Exibiu sensualidade e molejo como a sambista Regininha de “Senhora do Destino”. Sua voz serviu de instrumento para os inspirados diálogos de João Emanuel Carneiro em “Cobras & Lagartos”. E com Gloria Perez, foi hábil a ponto de nos comover, como Inês, com a sua rebeldia associada à solidariedade e equilíbrio com relação ao irmão esquizofrênico Tarso (Bruno Gagliasso), quando os seus pais não sabiam lidar com a questão, em “Caminho das Índias”. “Esbarrou” novamente com Falabella em “Aquele Beijo”. Em meio a tudo isso, em nenhum momento, desligou-se do teatro, sempre buscando textos que escapassem do lugar comum e tangenciassem o polêmico, o tabu: “Play”, baseado no “cult” de Steven Soderbergh “Sexo, Mentiras e Videotape”; “A Loba de Ray-Ban”; “Não Existem Níveis Seguros Para Consumo Destas Substâncias”, de Daniela Pereira de Carvalho; e por último, “Obituário Ideal”, tendo sido dirigida por Ivan Sugahara em dois deles (“Play” e “Obituário Ideal”). O cinema não ficou de fora, ao ser vista na “sequel” de “Se Eu Fosse Você” e no longa adaptado do sucesso dos palcos de Bosco Brasil “Tempos de Paz”. Com a atual Alejandra, Maria Maya assinou termo de compromisso de qualidade artística com os telespectadores. Com a sua touca e seu inseparável poncho o fato é que provável os incas, Cusco, Machu Picchu, Bolívia, São Paulo e o Rio de Janeiro nunca esperavam a “visita” de uma “santa” como Alejandra. Tampouco nós.
-
Combinemos num único cadinho vilania, homossexualismo, senso de humor afiado, ganância, frieza e carência afetiva. Agora faz-se necessário que se busque um ator ideal que abrace todos esses elementos “traiçoeiros” despudoradamente, transforme-os num personagem protagonista de uma novela das 21h da Rede Globo, e ainda assim consiga ser carismático. Não importa quem teve a ideia de escalar Mateus Solano. Se foi o autor Walcyr Carrasco. Se foi o diretor geral Mauro Mendonça Filho ou se foi o diretor de núcleo Wolf Maya. O que de fato nos interessa é que a escolha foi certeira. Difícil também é acreditar que o brasiliense com mais de 30 peças de teatro no currículo, que deu vida ao compositor Ronaldo Bôscoli em “Maysa – Quando Fala o Coração”, à vítima da ditadura militar Stuart Angel no programa “Linha Direta Justiça”, aos irmãos gêmeos Jorge e Miguel de “Viver a Vida” e ao Mundinho Falcão do “remake” de “Gabriela” não fizesse jus à incumbência que lhe foi oferecida. Mateus, um bonito intérprete e com porte fidalgo, logrou a proeza de fazer com que o público, dentro dos seus limites possíveis, simpatizasse com um dândi capaz de abandonar a sobrinha recém-nascida a quem alcunhou de “ratinha” numa caçamba de lixo. O ex-diretor administrativo do Hospital San Magno não é afeito a representações religiosas a ponto de usá-las como referências para criar os seus bordões em momentos de indignação: “Será que eu salguei a Santa Ceia?”; “Pelas contas do rosário…”; “Será que eu fiz confete dos pergaminhos do Mar Morto?”; e “Será que eu fiz um skate com as tábuas dos 10 Mandamentos?”. Ademais, não hesita em debochar do próximo com epítetos pejorativos ou deselegantes, como quando se referia à sua ex-secretária Simone (Vera Zimmermann) como “cadela”, ou a Valentin (Marcelo Schmidt) como “apache”, funcionário da lanchonete da casa de saúde, “velho gagá” no caso do Dr. Lutero (Ary Fontoura), ou sempre associar o advogado Dr. Rafael (Rainer Cadete) a uma criança ou adolescente. De outra forma, dirige-se com suposto carinho à mãe Pilar (Susana Vieira) chamando-a de “mamy poderosa” e ao pai César (Antonio Fagundes) de “papi soberano”, culminando com o “meu doce” dedicado a quem mais odeia, a irmã Paloma (Paolla Oliveira). Não podemos nos esquecer de Anjinho (Lucas Malvacini), o seu amante. Félix coleciona diversificada galeria de absurdos cometidos em “Amor à Vida”: trata o “filho” Jonathan (Thalles Cabral) com desprezo e violência (já trancou o rebento no armário e destruiu o seu skate, além de obrigá-lo a ser médico e não arquiteto); traiu Edith (Bárbara Paz) com outro homem; superfaturou os contratos dos fornecedores do hospital; deu um golpe financeiro em Amarilys (Danielle Winits); destruiu as carreiras de Lutero e Atílio (Luis Mello), e vida pessoal deste, levando-o à prisão, à base de chantagens; despediu uma técnica de enfermagem, Inaiá (Raquel Villar), logo depois readmitida, após ela ter se relacionado com o seu “objeto de desejo” Dr. Jacques (Julio Rocha); aliou-se à pérfida Dra. Glauce (Leona Cavalli) a fim de fraudar o exame de DNA que comprovaria a maternidade legítima de Paloma no tocante a Paulinha (Klara Castanho); e recentemente engendrou com Ninho (Juliano Cazarré) e Alejandra (Maria Maya) o sequestro da sobrinha e da enfermeira Ciça (Neusa Maria Faro). No decorrer dos capítulos, houve uma breve tentativa de humanização do personagem, que se dera quando a sua homossexualidade fora “revelada” perante a família inteira durante um jantar pela furiosa mulher traída. O alto rapaz que usa ternos, sapatos e gravatas de grife e adora sushis e sashimis, mantendo os cabelos negros sempre muito bem penteados pode até ter sensibilizado os telespectadores por alguns instantes, porém a sua insistência em prosseguir nas iniquidades para alcançar o que deseja “pulverizou” a “compaixão” daqueles. A opção de Mateus (autor e diretores) por um comportamento afetado (uma opção arriscadíssima) e divertido pode ter causado a princípio uma estranheza no público telespectador, no entanto com o desenrolar da história nos acostumamos com os gestos espalhafatosos, suas “mãos nervosas”, seu leve pentear da sobrancelha com o dedo mindinho, seu andar semelhante a um “pavão”, e voz bela e grave entoada com frequente ironia. Mateus Solano, sem quaisquer sombras de dúvida, compreendeu a árdua tarefa de vivenciar este papel, e de modo algum a sua atuação recrudesceu a discriminação, homofobia e preconceito brasileiros. O que já é um ganho para a novela e o ator. Mateus antes de brilhar como o compositor da bossa nova em “Maysa – Quando Fala o Coração”, já havia participado de outros folhetins, seriados e minisséries, como “Um Só Coração” e “JK”. Iniciou sua bem-sucedida parceria com Walcyr Carrasco em “Morde & Assopra”, como Ícaro (seguindo com “Gabriela”). Formado em Artes Cênicas pela Universidade São Judas Tadeu, estudado na escola “O Tablado”, o primo de Juliana Carneiro da Cunha, por intermédio desta, que é membro permanente, estagiou na consagrada companhia francesa de Ariane Mnouchkine “Théâtre du Soleil”. Há incursão na web com a série “Mateus, o Balconista”. Já nas salas escuras de projeção, pudemos conferir todo o seu potencial em longas-metragens como “Linha de Passe”, “Vida de Balconista” e “Novela das 8”. Em 2013, juntam-se à sua filmografia “Confia em Mim” e “O Menino do Espelho”. Como os gêmeos de “Viver a Vida”, de Manoel Carlos”, recebeu várias láureas, e indicações por outros trabalhos. Casado com a atriz, dramaturga e produtora Paula Braun (que fez grande sucesso no filme de Heitor Dhalia, “O Cheiro do Ralo” e está em “Amor à Vida” como a Dra. Rebeca), Mateus encerrou recentemente a temporada de “Do Tamanho do Mundo”, de autoria da própria Paula com direção de Jefferson Miranda no Rio de Janeiro. Ainda na ribalta, dividiu a cena com Wagner Moura em “Hamlet” e encenou “2 pra Viagem” e “O Perfeito Cozinheiro das Almas deste Mundo”. Chegamos à conclusão de que Mateus Solano consagra-se como o engenhoso, vil e engraçado Félix do horário nobre. Entretanto, quantos skates o filho de César ainda quebrará e quantas crianças recém-nascidas jogará em caçambas malcheirosas de lixo? Quem sabe no dia em que parar de “salgar a Santa Ceia”.
-
Ao assistir tardiamente à interpretação de Igor Cotrim como o travesti Madona no filme de Marcelo Laffitte, “Elvis & Madona”, ao lado de Simone Spoladore como Elvis, apercebi-me de que pouquíssimas vezes testemunhei atuação tão sutil e humanizada de homem que se traveste. Sem qualquer demérito a Cotrim, muito pelo contrário, algo similar às antológicas personificações de Dustin Hoffman em “Tootsie”, de Sydney Pollack, Terence Stamp em “Priscilla, A Rainha do Deserto”, de Stephan Elliot e Robin Williams em “Uma Babá Quase Perfeita”, de Chris Columbus. O paulista Igor, que além de intérprete é dramaturgo e poeta (já lançou o livro “Ali como Lá!”; e junto com Pedro Poeta faz shows frequentes com a banda Beep-Polares, nos quais poesia e rock’n roll se dão as mãos), vivencia no longa de Laffitte Madona, como já foi dito um travesti com sensibilidade única que nutre como maior sonho montar grande espetáculo. Nas eventualidades da existência encontra a “motogirl” Elvis, a lésbica personagem defendida com brilho por Simone (assim como Igor). Na primeira entrega de pizza a Madona (a tal pizza de palmito gigante que serve de inspiração para o título deste texto), visível empatia mútua ocorre. A seguir, a direção segura de Marcelo aliada ao seu inventivo roteiro, o na minha opinião não improvável casal da trama se envolve em problemas e intempéries que não escapam ao cotidiano de um par “normal”. É imperativo que não se omita que o mercado exibidor brasileiro não rendeu o devido crédito à filme premiadíssimo em festivais de cinema mundo afora. No tocante à seleção de profissionais para o “cast” há peculiaridade: Igor Cotrim disputou a chance de ser Madona com travestis reais. O rapaz formado pela EAD (Escola de Artes Dramáticas da USP) iniciou sua carreira na atração infanto-juvenil “Sandy & Junior”, na Rede Globo, em que fora o “bad boy” Boca no decorrer das quatro temporadas. O papel lhe serviu para que solidificasse seu poder de interpretação perante o cenário nacional. Vieram-lhe oportunidades como incursões em novela de Manoel Carlos, “Mulheres Apaixonadas” e “Chamas da Vida”, da Rede Record, cuja autoria coube a Cristianne Fridman. Curiosamente, “Sandy & Junior” não foi isolada experiência com o público em fase de adolescência. A Rede Bandeirantes o convidou para integrar o elenco de “Floribella”. Já no teatro, bastaram três relevantes peças para que o palco lhe devotasse respeito: “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago; “O Casamento”, de Nelson Rodrigues; e “A Cozinha”, de Arnold Wesker. Possui ainda porção filantrópica ao ter criado ONG, a “Voluntários da Pátria”, destinada a inserir poesia nas escolas com o intento de causar benéfica provocação nos alunos a fim de que construam apreço pessoal por rico gênero da Literatura. No momento, Igor empresta seu valor a dadivosa missão: ser repórter da “Revista do Cinema Brasileiro” na TV Brasil, acompanhando Natália Lage (não sendo o primeiro passo neste campo, haja vista que exercera ofício semelhante no Discovery Channel, em que cobrira o Fórum Mundial de Cultura em Barcelona, Espanha). Costumo em pensamento lhe atribuir o carinhoso aposto “o rei dos trocadilhos”, motivado pelo que escreve em sua página oficial no Facebook, seja na forma de poemas seja em frases de lavra própria. Acredito que se a “Revista do Cinema Brasileiro” tomar por decisão abordagem sobre “Elvis & Madona” se fariam necessárias no mínimo três edições, dada a significância da obra. Teríamos que pedir várias pizzas de palmito gigante a Elvis.
-
Comparo Adriano Garib a um lutador, não ao lutador de Mickey Rourke em “O Lutador” nem tampouco ao de Christian Bale em “O Vencedor”. Adriano ao aceitar gigantesco desafio de personificar Russo, o chefe de segurança da quadrilha internacional de tráfico humano na novela de Gloria Perez na Rede Globo, “Salve Jorge”, tomou para si arriscada incumbência de ser um dos porta-vozes do núcleo mais polêmico da trama. Comparo-o portanto a um lutador, visto que entrara em ringue devidamente preparado (levando-se em conta a prolífica e bem-sucedida carreira que possui) pronto para pôr luvas e jogar-se em embate sem temores ou pudores contra os potencialmente inexpugnáveis rivais: público e crítica. Adriano construiu com habilidade e tato o seu império da vilania. Seus objetivos e os da autora foram alcançados em certeiro alvo. O artista usou goiva para esculpir papel de intricadíssimo delineamento, passível de ser mal compreendido e sujeito a inevitáveis clichês e estereótipos. Porém, o ator paulista de Gália que também é compositor (tendo participado como vocalista da banda Karadrás) e jornalista formado pela UEL (Universidade Estadual de Londrina; foi repórter da TV Tropical, que corresponde hoje a CNT Londrina) não deixou-se cair em armadilhas. Soube desviar-se de cada ardil, bote, emboscada que um personagem como Russo poderia proporcionar-lhe. Russo é verdade entrou para a galeria fechada dos grandes vilões da TV. Todavia, o subordinado de Lívia Marini (Claudia Raia) deixou escapulir que não é de todo blindado. Esta outra porção foi-nos mostrada ao sentir desejo por Lohana (Thammy Miranda) e dedicar profundo afeto pelo gato Yuri. O intérprete que iniciou sua escalada rumo ao sucesso em Bauru, SP, e que integrou o elenco de importantes longas-metragens como “Meu Nome Não É Johnny”, “Tropa de Elite 2” e “Novela das 8” utilizou-se de seus recursos corporais e emocionais a fim de que acreditássemos nas maldades perpetradas sem miragens de perdão do membro do grupo criminoso. A voz pausada com meticulosa separação das palavras, o poder do alto som da voz quando repreendia as traficadas, os olhares semicerrados, os lábios apertados, os meios sorrisos… Um conjunto proveitoso de ferramentas adequadamente manuseadas. A TV nunca foi estranha a Adriano Garib. Novelas, minisséries, seriados e especial agarram-se ao seu currículo. Dentre os folhetins, “Salsa e Merengue” (sua estreia), “A Lua Me Disse” (repete a parceria com Miguel Falabella), “O Profeta” (reprisado no “Vale a Pena Ver de Novo”), duas temporadas de “Malhação”, “Duas Caras”, “Paraíso Tropical”, “Pé na Jaca”, “Caminho das Índias”, “Caras & Bocas”, “Passione”, “Cama de Gato”, “Insensato Coração”, e na Rede Record “Vidas em Jogo”. Seriados como “Brava Gente” e “Casos e Acasos”. Minisséries como “Chiquinha Gonzaga”, “A Casa das Sete Mulheres”, “JK” e “Maysa – Quando Fala o Coração”. E o especial “O Natal do Menino Imperador”. O artista deu seus primeiros passos na década de 80. Uniu-se aos pares de ofício e montou peças com o Grupo Delta de Teatro. Ademais, dividiu experiências com o renomado diretor teatral Paulo de Moraes e sua Armazém Companhia de Teatro. Shakespeare esteve em sua vida em espetáculos como “Antônio e Cleóprata”, “A Tempestade” e “Rei Lear”. Quanto a “Péricles – Príncipe de Tiro” sua autoria é atribuída em parte ao bardo inglês. Houve espaço para Nelson Rodrigues ao encenar “Toda Nudez Será Castigada”. Não esqueci-me de “O Mundo dos Esquecidos”. A novela “Salve Jorge” hoje chega ao fim. Contudo nos confins de nossos inconscientes permanecerá sem “fade out” a imagem de uma grande interpretação resultado do talento sem inibição de Adriano Garib. Afinal, Adriano é ator que não se inibe.
-
Os cariocas aplaudem o pôr-do-sol em Ipanema. Mas será que palmas estas não homenageiam o Vidigal, lá pelas paragens da Niemeyer sob os olhares severos dos Dois Irmãos? Porque não há quem desminta que no Vidigal uma tal de Arte lá se fez senhora em boa hora. Há palco. Há Guti Fraga. Guti que reuniu gente do bem. Gente que quer ser artista. Sonhadores aprendizes da senhora. Mostraram ao Brasil e ao mundo que a comunidade pode dar arte. Surgiu o “Nós do Morro”. Roberta Rodrigues é “nós”. Thiago Martins é “nós”. Mary Sheila é “nós”. Jonathan Haagensen é “nós”. E seu irmão Phellipe, também. Marcelo Mello Jr. é “nós”. Douglas Silva é “nós” e Leandro Firmino é “nós”. “É nós, ‘mermão’”! Somos todos “nós do morro”. Nós do asfalto, nós do asfalto e do morro. Todo mundo tem um Vidigal dentro de si. Sim! Somos todos iguais. “Tamo junto!”. Os aprendizes em suas raízes se fizeram artistas. Roberta Rodrigues é um dos exemplos. A popularíssima Maria Vanúbia de “Salve Jorge”, novela de Gloria Perez, exibida pela Rede Globo que está em reta final é prova das dedicação, disciplina e força de vontade da atriz em mostrar o que Deus lhe deu na “Cidade de Deus”. E na “Cidade dos Homens”. Apaixonou-se pelo “admirável mundo novo”, não o de Aldous Huxley, mas o de Manoel Carlos, quando de sua estreia em folhetins (“Mulheres Apaixonadas”). Na produção atual, consagrou-se com memoráveis bordões de inspiração única: “Sou Maria Vanúbia, não sou bagunça não”, “Quem gosta de pescoço é gravata”, “Pi Pi Pi Pi Pi Pi Pi, olha o recalque chegando!”, afora as alcunhas “Delzuitzzz” e “Percoço”, dentre tantos outros bem-humorados. Em capítulo recente, Roberta teve preciosa chance de exibir densidade de alto teor dramático ao se ver vítima do tráfico humano. Só que se esqueceram de que Maria Vanúbia “não é bagunça não”, e por não ser “bagunça” deu “sacode” em Wanda (Totia Meirelles). Ela sempre quis ser internacional. Preocupe-se não, Maria. “Salve Jorge” será vendida para os cinco continentes. Seus biquínis sensuais e megahair da cor do sol farão sucesso no estrangeiro. A moça de viseira que bronzeia-se na laje não é somente o que falam dela. Se é esnobe, provocativa, já demonstrou ser sensível também. Por baixo de Maria Vanúbia existe Roberta Rodrigues. Roberta que canta e encanta no grupo musical Melanina Carioca, com os seus amigos do Vidigal. Olha o Vidigal criando arte de novo. Na primeira versão de “Cabocla”, Nelson Gonçalves entoava: “Cabocla, seu olhar está me dizendo…”. No remake, Roberta soube o que dizer. Da mesma forma que soube dizer aos “Filhos do Carnaval”, sucesso da HBO. A intérprete é legitimamente tropical. Não poderia então ficar de fora de “Paraíso Tropical”. Após bater papo com as “Três Irmãs”, saiu do Vidigal e deu um pulo em Copacabana, e não se iludiu com “A Iludida de Copacabana”, episódio de “As Cariocas”. “Copacabana não me engana”. O coração “vale tudo” de Gilberto Braga não é insensato. E o papel de Fabíola fora dado à profissional em “Insensato Coração”. A personagem Dirce é “de menor”. Porém, Roberta Rodrigues é “de maior”. E daí? Ambas são brasileiras. Conexão Vidigal-Amazonas na história “A De Menor do Amazonas”, de “As Brasileiras”. Se bom filho à casa torna, a filha tornou. E bastante filmes saborearam a sua presença, sejam longas-metragens, sejam curta e documentário. Entre eles, estão: “Garrincha – Estrela Solitária”, “Noel – Poeta da Vila”, “Mulheres do Brasil” e “5 X Favela: Agora por nós mesmos” (apresentado no Festival de Cannes; indicação de melhor atriz para Roberta concedida pelo Grande Prêmio Brasileiro de Cinema). Não se enrolou em “Desenrola”. Quis fazer brinde em “Vamos Fazer Um Brinde”, e 10 anos depois como ela mesma esteve em “Cidade de Deus – 10 Anos Depois”. Onde tudo começou. Entretanto para o público e Roberta não terminou. Há o que vier pela frente. Roberta Rodrigues foi aprendiz, hoje é querida atriz e não torce o nariz para os que ovacionam-na. Maria Vanúbia não é bagunça. Tampouco Roberta. Roberta é mulher e artista séria.









