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Blog do Paulo Ruch

  • “Gloria Perez, como autora, e Carol Duarte, como atriz, ao interpretar Ivana, em “A Força do Querer”, novela das 21h da Rede Globo, levam com delicadeza e sensibilidade para o grande público um dos temas mais atuais e discutidos da sociedade no que tange à identidade do indivíduo, a transgeneridade”.

    maio 15th, 2017

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    Foto: Divulgação/TV Globo

    Não é a primeira vez que a teledramaturga Gloria Perez aborda as questões de gênero em suas novelas. Em “Explode Coração”, de 1995, na mesma Rede Globo, o personagem do ator Floriano Peixoto se chamava Sarita, era considerado um travesti, e se apresentava na noite em shows característicos. A maneira natural com que o assunto fora tratado, e a forma digna com que o papel fora defendido por Floriano não proporcionaram a rejeição do público. A figura de um travesti levando a vida como artista, não se entregando à prostituição, como a maioria faz por falta de oportunidades no mercado de trabalho e pela oposição familiar, no horário nobre de uma emissora de grande alcance no Brasil já poderia ser interpretado como um importante avanço. Mais de duas décadas se passaram, algumas coisas mudaram e outras se mantiveram. As discussões sobre as identidades de gênero entraram na pauta de relevantes debates, sendo o tema retratado em filmes, peças teatrais e produções televisivas. Podemos pegar um exemplo da época do folhetim. No longa-metragem de Stephan Elliott, “Priscilla, A Rainha do Deserto”, lançado um ano antes, o respeitado ator britânico Terence Stamp personificou um travesti que trazia consigo tanto a graça quanto a sensibilidade. Recentemente, uma das atrizes brasileiras mais belas e femininas, Carolina Ferraz, a despeito, segundo a própria, de não ter sido incentivada a fazê-lo, interpretou um travesti no filme “A Glória e a Graça”, de Flávio Ramos Tambellini. No teatro, o projeto da dramaturga Marcia Zanelatto, “Ocupação Rio Diversidade”, faz sucesso desde 2016, mantendo-se em cartaz até hoje. O ator Luis Lobianco transpôs para os palcos, com a montagem “Gisberta”, a trágica história de um transexual brasileiro que foi cruelmente assassinado em Portugal. O autor Aguinaldo Silva ofereceu ao ator Ailton Graça, acostumado a papéis viris, a chance de vivenciar com brilho o travesti Xana Summer, na novela “Império”. Gloria Perez, sempre preocupada com as questões sociais e de comportamento, abriu mais uma porta para os transgêneros ao entregar uma personagem a Thammy Miranda em seu penúltimo folhetim, “Salve Jorge”. Os dados negativos nesses 20 anos apontam que o Brasil é o país no mundo que mais mata travestis e transexuais. Criou-se o termo “transfobia”. E a legislação brasileira ainda é bastante permissiva e omissa com os crimes motivados pela homofobia em nosso território. Quando foi anunciada a próxima novela de Gloria Perez, soubemos que haveria uma personagem com dificuldades de identidade de gênero. A curiosidade sobre como este assunto, que demanda sutilezas em seu trato e amplo entendimento, seria abordado gerou expectativas. Contrariando alguns segmentos que defendiam a escalação de uma atriz trans, Gloria preferiu que fosse convidada uma intérprete cisgênero, ou seja, uma mulher que se identificasse com o seu gênero. Gloria Perez foi mais além ao ofertar o papel a uma atriz desconhecida que tinha somente experiências no teatro. Passamos a conhecer Carol Duarte, estudante da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP (Universidade de São Paulo). Já nos primeiros capítulos de “A Força do Querer”, percebemos que a intérprete de Ivana, filha da socialite fútil e preconceituosa Joyce (Maria Fernanda Cândido) e do ponderado e generoso advogado Eugênio (Dan Stulbach) teria tudo para honrar a enorme responsabilidade que lhe fora dada pela teledramaturga e pela emissora. Carol Duarte, extremamente bem dirigida pela equipe comandada pelo diretor artístico Rogério Gomes, que conta com a direção geral de Pedro Vasconcelos, criou com impressionante grau de veracidade, legitimidade e emoção uma personagem fascinante e encantadora pela riqueza de seus múltiplos detalhes, imiscuídos na complexidade de sua personalidade. Ivana é uma moça de classe alta que se realiza jogando vôlei na praia, e seu sonho é se tornar profissional neste esporte. Tem como sua melhor amiga a prima Simone, vivida por Juliana Paiva. Além de se dar muito bem com o pai, possui uma boa relação com a governanta da casa, Zu (Cláudia Mello). Para entendermos melhor Ivana é preciso que voltemos à sua infância. Sua mãe Joyce, uma referência de beleza, resolve transformar a sua filha na “menina mais estilosa do Brasil”. Ivana, às vezes com a mesma roupa de sua mãe, estampava as capas das principais revistas de moda. Porém, a menina cresceu, e trocou as roupas femininas e fashion que lhe foram impostas pelas camisas largas de seu irmão Ruy (Fiuk). Ivana não manifesta quaisquer sinais de vaidade. Não se maquia, não solta o cabelo, não usa salto alto. Sua postura é curvada, e seu andar é desengonçado (prova do ótimo trabalho de corpo de Carol). Até a sua maneira de falar, por instantes, é um pouco masculinizada. Tudo isso vai de encontro ao que Joyce imaginou para a sua filha, o que, obviamente, gera um conflito entre ambas. Já se sentindo incompreendida pelos que a cercam, após conversas frustradas com o seu pai, com a sua prima e com a governanta, os problemas que a atormentam só se avolumam, e sua relação com a autoestima, tendo o espelho como reflexo literal disso, piora. A jogadora de vôlei conhece na praia um rapaz, colega de esporte, Cláudio (Gabriel Stauffer). Mesmo se distanciando do padrão de beleza das moças modernas da Zona Sul do Rio de Janeiro (Carol Duarte é uma mulher bonita, com um sorriso cativante e cabelos exuberantes), conquista as atenções do jovem, que é retribuído. A partir deste momento, a aproximação dos dois faz com que a “ex-menina mais estilosa do Brasil” comece a se defrontar abertamente com a sua sexualidade. Ivana possui dificuldades não só em aceitar elementos femininos em sua vida, mas também em dar e receber afetos de um homem. Ela não entende as lisonjas de cavalheiro de Cláudio, como puxar a cadeira de um restaurante, ou ajudá-la a escolher um prato. Sente atração por ele, no entanto vê impeditivos, que lhe são desconhecidos, para a concretização de seus desejos. Rejeita os toques físicos do moço. Um final de semana numa pousada em Angra acabou de vez com as esperanças de que houvesse um relacionamento mais íntimo entre o par. Dúvidas quanto à sua orientação sexual surgem com incontida força. Trava uma batalha silenciosa com o espelho. Ela se olha, e não se vê refletida. O corpo que habita não lhe é confortável. Os seus seios lhe são indesejáveis. Ela os soca. Uma faixa os oprime. A prima Simone resolve marcar uma consulta com uma psicóloga. Ivana está disposta a se ajudar, e recorre aos seus auxílios. Entretanto, acaba mais confusa. Tentando ir em busca de sua feminilidade, afasta-a ainda mais. A lingerie sensual em seu belo corpo lhe soa despropositada e esquisita. Ivana começa a entrar em um processo de depressão, como se estivesse gritando o seu último pedido de socorro. A autora Gloria Perez faz um coerente paralelo entre a situação mal resolvida de Ivana quanto à sua identidade e o comportamento de Nonato, o motorista do empresário Eurico (Humberto Martins). Nonato, interpretado pelo ator cearense Silvero Pereira (Silvero, que também é dramaturgo, destacou-se no teatro com o monólogo “BR-Trans”, que narrava histórias baseadas em fatos reais de travestis, transexuais e transformistas de diferentes estados brasileiros), apesar de ser um travesti que se apresenta em shows, em nenhuma passagem sente repulsa pelo seu corpo, muito pelo contrário, aceita-o pacificamente, querendo tão somente explorar a sua porção feminina. Algumas questões são levantadas nesta fase da novela “A Força do Querer”. Em que momento Ivana irá se dar conta de sua condição de transgênero? Qual será o ponto de partida? Será que a personagem aceitará facilmente a sua transformação? Irá até as últimas consequências para se aproximar o máximo possível do gênero masculino? Quem a apoiará? Será que haverá a redenção de sua mãe, que diz amá-la incondicionalmente? Como serão as reações de seu pai, irmão, prima, e de sua amiga, a governanta? Qual será o papel da psicóloga neste processo? Ela mudará o seu nome social? A autora promoverá um encontro entre Nonato e Ivana a fim de que o primeiro possa auxiliá-la? E o seu tio Eurico, que não esconde seu caráter preconceituoso e homofóbico? São bastantes perguntas que se fazem. Ivana será um homem, transgênero, que sente atração por outro homem. Ivana será então homossexual (homem trans gay). E Cláudio? Como o rapaz da Zona Sul carioca encarará a nova realidade de sua antiga ou presente paixão? Muitos desafios são impostos. Para a autora Gloria Perez, para a atriz Carol Duarte e para os telespectadores. Como estes reagirão, os principais “juízes” de uma novela? “A Força do Querer” é uma única e preciosa oportunidade que se tem, utilizando-se o alto poder de comunicação da televisão, inclusive o das telenovelas, de se discutir esta questão real em nossa coletividade, perante a qual são se pode vendar os olhos. Será um indiscutível progresso para a luta dos transgêneros na sociedade civil pelos seus direitos se houver uma receptividade positiva aos desdobramentos da vida da personagem Ivana. Já temos o talento e a sensibilidade de Carol Duarte. Já temos a habilidade, a percepção e a delicadeza de Gloria Perez para lidar com temas áridos. Resta-nos torcer pela tolerância do público, demonstrando que sabe conviver com a diferença. Resta-nos ter a esperança de que o telespectador respeite a força do querer de Ivana, a “ex-menina mais estilosa do Brasil”.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    maio 7th, 2017

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    Foto: Paulo Ruch

    A modelo Lana Forneck na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, durante a temporada Verão 2015/2016, no Parque Cândido Portinari.
    Nascida em Harmonia, Rio Grande do Sul, Lana hoje é contratada pela Ford Models Brasil (outra agência à qual pertencera foi a Marilyn Agency NY).
    Sua paixão em ser fotografada foi percebida na infância, sendo incentivada pelos seus pais a participar de concursos de modelos e a se inscrever em agências especializadas.
    Tudo começou a mudar para a jovem quando ficou em segundo lugar em um concurso realizado na cidade gaúcha de Gramado que teve a participação de dez mil candidatas (a ótima colocação, com apenas 14 anos de idade, rendeu-lhe a contratação para importantes trabalhos).
    Sua carreira ascendeu rapidamente, e já contratada pela Ford Models desfilou na New York Fashion Week.
    As portas para Milão e Paris se abriram, o que a fez circular pelas passarelas italianas e na Fashion Week Paris.
    Chegou um momento em que a profissional era contratada por diversas agências espalhadas pelo mundo, como a Premium Models (Paris), a Fashion Model Management (Milão), a Established Models (Londres), a Francina Models (Barcelona) e a MUGA Model Management (Hamburgo).
    Em 2014, na São Paulo Fashion Week, Lana vestiu as coleções de Adriana Degreas, Patricia Mota e Têca por Helô Rocha.
    Na apresentação do desfile de Primavera Verão 2016 de Matthew Miller, em Londres, Lana Forneck trajou as apostas do estilista, com toques masculinos, para as mulheres (vale ressaltar que esta semana de moda é voltada para os looks masculinos).
    Mais um de seus trabalhos relevantes foi desfilar para a Ralph & Russo Haute Couture Outono/Inverno 2015/2016.
    Recentemente, a modelo também mostrou toda a sua beleza e desenvoltura nos desfiles de oito marcas na Portugal Fashion Outono/Inverno 2017/2018.
    Além disso, Lana Forneck foi clicada para a “Streets Magazine”, de Londres, por Annie Bundfuss.

    Agradecimento: TNG

  • “Muito bem acompanhado por sete atores que cantam e tocam instrumentos musicais, Alexandre Nero, no belo e reflexivo espetáculo ‘O Grande Sucesso’, põe em pauta várias questões atinentes ao ofício do ator, como o fracasso e o sucesso, e por extensão, ao ser humano, abordando temas que lhes são inatos, como o sentido da vida (ou a sua falta) e o porquê da morte (se é que o temos). “

    abril 25th, 2017

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    Foto: Priscila Prade

    Falar de sucesso não é uma tarefa fácil. Muito menos de fracasso. No entanto, estes dois fatos, amplamente significativos em sua condição, inerentes à própria vivência humana, jamais podem ser preteridos de uma reflexão mais aprofundada. Questioná-los, debatê-los, e se possível, chegar a uma conclusão já seria um… sucesso. Seria uma tentativa. Aliás, como se diz na peça escrita e dirigida por Diego Fortes (Prêmio Shell de Melhor Autor), só se atinge o sucesso se tentarmos. Da mesma maneira que somente atingimos o fracasso se tentarmos o mesmo sucesso. E para discorrer sobre estes opostos que norteiam muitas vezes o fato de uma pessoa ser feliz ou não, o dramaturgo e diretor buscou indivíduos que lhe são bem próximos: os atores. “O Grande Sucesso”, um espetáculo lindamente musicado, visualmente arrebatador, compreende a sua história, atemporal e sem localização definida, com personagens sem nome (com a exceção de um único), na coxia de um teatro, ocupada por uma trupe de atores coadjuvantes, secundários, ou quiçá figurantes, de uma montagem, um musical experimental baseado em “Édipo Rei”, de Sófocles (poderia ser “Hamlet”, tanto faz…), encenada há dez anos, onde somente um artista tem destaque, na qual, segundo os mesmos participantes, as maiores loucuras e licenças dramatúrgicas foram inseridas em seu contexto, não se importando com o entendimento da plateia. Com a duração de intermináveis quatro horas, a montagem fictícia provoca nestes artistas tão diferentes entre si, mas unidos na mesma angústia, melancolia e “sofrimento de espera” para entrar em cena, uma sensação potencialmente “beckttiana”. Alexandre Nero interpreta um desse atores, e logo em sua primeira cena com Marco Bravo, ao realizarem aquecimentos físicos e relembrarem passos coreográficos antes do início da encenação, são colocados diante do assunto morte, devido a uma determinada circunstância pessoal de um deles, e o colóquio entre ambos introduz o tom de humor que irá perpassar boa parte da peça. O personagem de Alexandre coloca em xeque a existência de um Deus, em decorrência de acontecimentos não compreensíveis que testemunhamos em nossas vidas. Todavia, revela contradição ao narrar um sonho com um Deus mulher, que lhe diz que “não há sentido da vida”. Ela apenas começa, acontecem algumas coisas e acaba. A dramaturgia ousadíssima de Diego Fortes, sem quaisquer receios de julgamentos por transgredir “convenções teatrais”, utiliza-se de algumas inspirações para costurar a sua narrativa, como a commedia dell’arte (por vezes, parece-nos que estamos assistindo a personagens saídos do clássico filme de Ettore Scola, “A Viagem do Capitão Tornado”, lançado em 1990), o nonsense e a metalinguagem. Assumidamente crítico (em algumas passagens, autorreferente), a obra se encarrega de pôr em discussão a infalibilidade do ator. O ator que sempre busca o sucesso. O ator que não pode errar. O ator, escravo de marcações e textos decorados. Esses profissionais são representativos de nós mesmos, sociedade, reféns de nossa obsessão pelo acerto absoluto naquilo que fazemos. Os fracassos sempre se colocam perante nós como algo imprevisto, porque afinal somos infalíveis. Os artistas de “O Grande Sucesso” são os invisíveis do palco, ou sombras do ator principal, habitantes em sua espera infinita do “lugar de fora”, do limbo, que preferem feijão com arroz a lagostas ou ostras. Percebe-se em certo instante um caráter pessimista e niilista, ou visto sob outro olhar, realista no papel de Alexandre, ao nos afirmar que os homens, assim como em eras pré-históricas, continuam a ser atacados por animais selvagens, só que os animais, dessa vez, somos nós, os homens (sem querer ofender). Temos vários tipos humanos, exponencialmente bem definidos e defendidos com brilho pelos atores/cantores/músicos Carol Panesi, Edith de Camargo, Eliezer Vander Brock, Fabio Cardoso, Fernanda Fuchs, o já citado Marco Bravo, e Rafael Camargo (há ainda a participação de Fernando Trauer e Thomas Marcondes). Diego Fortes, como diretor, soube explorar com sobeja sensibilidade as potencialidades artísticas de cada um, sejam elas interpretativas ou musicais. Em sua condução do espetáculo, vemos a chancela do lirismo estético, visual e musical. Suas intenções de que a música cumprisse um papel colaborativo das situações, pensamentos individuais ou que representassem a consciência coletiva foram executadas com galhardia. A despeito da oratória reflexiva e filosófica de sua dramaturgia, o humor e o histrionismo não foram dispensados, como dito acima, muito pelo contrário, ganharam protagonismo em bastantes cenas, notadamente aceitas pelo público. A direção objetivou também a interação maximamente direta com os espectadores (com cenas inclusive na plateia), e outra em escala um pouco menor. Privilegia-se a ação contínua do elenco (enquanto um ator fala, ou dialoga com outro, há um ou mais personagens exercendo uma atividade; os intérpretes se movimentam em grupo, ou separadamente, em direções variadas). Fez valer a importância das pausas, dos silêncios. Adotou com deliberação uma linguagem dinâmica e ágil para que a mensagem de sua narrativa ganhasse corpo cênico. Quanto às atuações, Alexandre Nero, o qual estamos acostumados a ver em performances marcantes na TV, percorre um caminho cheio de bifurcações ricas em possibilidades interpretativas, enfrentando e se saindo magnificamente bem a cada porta de entendimento de seu complexo personagem que se abre. Alexandre é um ator, pode-se dizer, ousado, destemido, indefinível, pois múltiplas são as variações e transformações por que passa, mínimas que sejam, que o fazem alcançar um nível elevado de desempenho. A peculiaridade deste, razão pela qual se justifica a admiração explícita do grande público, está nos detalhes. Alexandre pode ser blasé, indiferente, ativo, intenso, robusto, frágil, utilizando-se apenas de sua voz (uma pequena oscilação, que seja), um meio sorriso (ou escancarado), e seu potente olhar, que atende a todas as exigências de emoção que lhe são feitas. Tendo uma carreira paralela de cantor, o artista mostra a excelência vocal nas músicas que interpreta, e uma louvável intimidade com mais de um instrumento. Alexandre Nero, como mencionado no título, está acompanhado por sete atores, sete artistas inegavelmente versáteis e talentosos nas muitas atribuições e encargos que lhes são ofertados pela montagem, sejam no campo da atuação, nas áreas do canto ou no encantador e fascinante universo dos instrumentos musicais. Carol Panesi nos provou soberbamente a sua destreza ao tocar o seu violino, tirando sons inefáveis de tão belos. Edith de Camargo encanta os espectadores com a sua doce e charmosa francesa que adora tirar “fotos de família”. O seu bordão “Un, Deux, Trois…” seguido de uma onomatopeia, antes de registrar os momentos da trupe, são irresistíveis. Interpreta com imensa emotividade a canção “Je nóse pas rêver”, composta por ela mesma. Eliezer Vander Brock constrói o seu engraçadíssimo homem-bala com notória inventividade. Fabio Cardoso esbanja a sua irretocável maestria nos teclados, com a adoção de uma postura sóbria, séria e compenetrada. Fernanda Fuchs exibe elogiável expressividade corporal ao dar vida à atriz que crê que a mensagem do ator se baseia em uma interpretação exagerada. Uma de suas cenas que podemos destacar é aquela em que procura se encontrar com o ator principal da peça, surpreendendo-se com o final deste episódio. Marco Bravo aposta com inegável êxito em sua adorável espontaneidade, percebida tanto nas cenas que divide com Alexandre Nero, quanto nas compartilhadas com os outros intérpretes, como Eliezer Vander Brock e Rafael Camargo. Já Rafael Camargo impinge ao seu ator desenhado com meticulosa, suave e propositada afetação a dose certa de comicidade. Rafael possui uma cena de plateia em que expõe toda a sua qualidade vocal. A direção musical de Gilson Fukushima exerce função primordial na peça, não somente pelo seu brilhantismo, virtuosismo e sensibilidade, mas pela sua representação como elemento-chave na composição das ações cênicas. Gilson soube como ninguém orquestrar o conjunto de múltiplas informações sonoras compreendidas no enredo, urdindo com uniformidade a importância das onze composições musicais (algumas escritas pelo elenco, outras pelo próprio Gilson, Diego Fortes, e demais compositores), com o maravilhoso e enternecedor manuseio de diversos instrumentos ao vivo pelos seus intérpretes. A Carmen Jorge coube a tarefa de dirigir os movimentos e criar as coreografias. O trabalho de Carmen com os atores é realçado pela precisão e geometria dos gestos, pela cadência e compasso dos andares dos atores em determinadas cenas, pela leveza e romantismo de algumas danças, pela consciência de coletividade traduzida pelos corpos em constante movimentação. A diretora se debruçou em extrair dos artistas a linguagem corporal que melhor se aproximasse da identidade visual e comportamental de cada personagem integrante do jogo cênico. O design de luz de Nadja Naira é reconhecidamente deslumbrante e inspirado. Há poesia e lirismo na escolha das texturas, formas e intensidades luminosas escolhidas. Nadja teve ampla percepção em harmonizar o quadro da narrativa com os focos adequados sobre os atores, os planos abertos à serviço da vivacidade da ação, os pontos luminosos advindos de luminárias do cenário, e o uso de um forte refletor no canto direito da ribalta. Merecem elogios outrossim a linda luminosidade simbolizadora do pôr do sol, e a fileira de lâmpadas rentes ao chão no fundo do palco em seu fulgurante apagar e acender. A cenografia extasiante de Marco Lima se esmerou em preencher o espaço representante da coxia com o maior número de elementos possíveis que nos reportassem para esse ambiente mágico teatral. Marco oferece ao público um espaço cenográfico riquíssimo, cheio de informações visuais, com bastantes cores, todas elas confluentes para um único ponto, garantindo a coerência de seus intentos e sua consonância com a dramaturgia. As peças decorativas são antigas, de um passado que desconhecemos, encaixadas uniformemente num grande “tabuleiro” onírico. Há um baú de madeira envelhecida, cordas, baldes de latão espalhados, regador, um manequim, tamborete e cadeiras, penteadeira sobre a qual se encontram objetos diversificados, araras com roupas penduradas (uma das coxias reais do teatro fica à mostra), quadros, retratos, abajur e luminárias. No fundo da ribalta há uma enorme parede de tijolos com encanamentos hidráulicos à vista, além de uma pia. Os figurinos de Karen Brusttolin, vencedora do Prêmio Shell, atinge um patamar de elevada qualidade, causando-nos inevitável alumbramento. Sua obra é criativa, elegante, colorida, engraçada, inspirada, eloquente e lúdica. A figurinista mesclou estilos distintos, apropriando-se de tecidos, acessórios e complementos variados. Vasculhando e se apoderando de uma vasta paleta de colorações, Karen conseguiu somar à alma dos personagens o que lhes faltava para torná-los mais reconhecíveis em sua genuína identidade. Nossos olhos acompanham atentamente e com desmedido deleite ao primoroso desfile de vestidos, ternos, jaquetas, blusas, chapéus, adereços, malhas, plumas, botas, sapatos e fantasias de encantadores e engraçados bichos de pelúcia. O visagismo, sem dúvida, levando-se em conta todo o contexto da peça, assumiu um posto de irrevogável relevância. Sabendo disso, a dupla Wilson Eliodorio e Junior Mesquita se empenhou na realização de um trabalho precioso, delicado, poético, a fim de que os integrantes da história narrada nos passassem uma mensagem que fosse além da caracterização simplificada. O que se vê em cada ator é uma suprema valorização de sua persona, seja nos olhos sombreados dos intérpretes, nas suas sobrancelhas desenhadas, no cabelo azulado de Alexandre Nero, nos coques arrumados com zelo, ou nas pinturas dos lábios dos artistas. “O Grande Sucesso” é um espetáculo musical inebriante, interpretado e dirigido com visível paixão, que se propõe, e o faz com indiscutível propriedade, a discutir questões que nos acompanham desde que nascemos. Sucesso, fracasso, vida, morte… Os porta-vozes desse grande debate são eles, os artistas. Grandes desde que nascem. Grandes por não deixarem que a sua Arte feneça. O sucesso desses grandes homens pode até morrer um dia, mas a grandeza de seus feitos e missões, essa jamais perecerá. Esse é de fato o grande sucesso.

  • “Com cenas de tensão extremamente bem realizadas pela sua equipe de direção, liderada por Carlos Araújo, dramaturgia afiadíssima de Angela Chaves e Alessandra Poggi e um elenco com atores de irretorquível qualidade, estreou na Rede Globo a supersérie ‘Os Dias Eram Assim’, que serviu não somente para resgatar o obscurantismo dos anos de chumbo da ditadura militar, mas para provar também que, em meio às turbulências políticas e sociais, é possível o surgimento de um verdadeiro amor.

    abril 18th, 2017

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    Foto: Raphael Dias/Gshow

    Os anos de chumbo já foram retratados na televisão, na própria Rede Globo, em 1992, na excelente minissérie de Gilberto Braga, “Anos Rebeldes”. Desde aquela época, muitos fatos políticos relevantes decorreram em nosso país. Hoje, o Brasil assiste estupefato ao desmantelamento de toda uma estrutura política e governamental. Soa no mínimo oportuna e pertinente a exibição da nova supersérie da emissora, escrita em conjunto por Angela Chaves e Alessandra Poggi (com a colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres), “Os Dias Eram Assim”, com a direção artística e geral de Carlos Araújo, direção geral de Gustavo Fernandez (e direção de Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França), que tem como pano de fundo parte do período histórico marcado pela truculência de uma ditadura militar até ao emblemático movimento popular e político das Diretas Já, nos anos 80. Em seu ótimo primeiro capítulo, no qual já pudemos conhecer importantes figuras da trama, fomos conduzidos para o ano de 1970, em pleno jogo da final da Copa do Mundo, em que se enfrentaram Brasil e Itália. O país está em festa, na expectativa de se sagrar campeão. No entanto, antes do jogo, testemunhamos as relações promíscuas entre o severo e perigoso empresário Arnaldo Sampaio, vivido por Antonio Calloni (Antonio brilhou ao ostentar em suas cenas o grau de complexidade deste personagem, sob várias óticas), e a cúpula militar governante. Autoritário e sem escrúpulos, Arnaldo, dono da Construtora Amianto, é casado com Kiki (Natália do Vale; sempre compensador conferir o talento desta atriz), uma mulher conservadora, moralista e submissa ao marido. A filha, a bela Alice (Sophie Charlotte, exibindo longos apliques, fez jus à qualidade de estrela de sua geração), possui uma personalidade libertária e transgressora. Está prestes a ficar noiva do ambicioso Vitor Dumonte (Daniel de Oliveira; Daniel, em seus recentes trabalhos, tem defendido bons papéis, como na minissérie “Nada Será Como Antes”). Vitor trabalha para Arnaldo, revelando uma conduta bastante subserviente. Sua mãe Cora, Susana Vieira, é uma pessoa dura, preconceituosa e objetiva (Susana deixou impressa sua forte postura cênica). Na festa promovida para selar o acordo comercial do empresário, acompanhar o jogo da seleção brasileira e anunciar o noivado de Vitor e Alice, com a presença luxuosa do mordomo composto por Ricardo Blat, a potencial noiva surge, para a fúria silenciosa de seus pais, sensualmente trajada com peças de influência hippie. Os lados opostos, sobretudo no que tange à moral e ao comportamento, geradores de sequenciais conflitos num mesmo núcleo familiar, evidenciam-se. Fomos deslocados para o universo de uma outra família da história, em que vive o sensível, porém firme, médico Renato Reis, personificado por uma das recentes revelações da TV, Renato Góes. O público, que se encantou de modo unânime com sua intensa e emocionante interpretação de Santo em “Velho Chico”, terá a chance de conhecer uma faceta completamente diferente de Renato. Deixando a rusticidade de seu personagem anterior, o ator nascido em Recife ganha ares de herói romântico, o que não deixa de ser um enorme desafio. Com os cabelos curtos, lisos e sem barba, o intérprete dignificou a responsabilidade que lhe conferiram ao lhe oferecerem um dos protagonistas da obra. Sua atuação contida, segura e meticulosa em algumas cenas, utilizando-se sobremaneira da linguagem de seu olhar, promete conquistar mais uma vez a torcida dos telespectadores. Renato é irmão do jovem militante político Gustavo, papel que coube a outra bem-vinda revelação da nova geração de atores, Gabriel Leone. Gabriel já possuía passagens na televisão, mas foi somente em “Verdades Secretas” que o talento deste jovem artista começou de fato a ser percebido, consolidando-se em definitivo na novela “Velho Chico”. O viés politizado de seu último personagem, sob outro contexto, é claro, foi mantido, mas agora Gabriel vivencia uma experiência interpretativa substancialmente distinta (no primeiro capítulo, Gabriel Leone, experiente ator de musicais, a despeito de sua juventude, presenteou o público com sua doce e afinada voz, cantarolando, e dedilhando o seu violão, o clássico de Chico Buarque, “Deus lhe Pague”). Gustavo, além de ser irmão de Renato, é irmão de Maria (Carla Salle). Todos são filhos de Vera, Cássia Kis, dedicada mãe que já demonstrou elevada preocupação com o rapaz inconformado com o “status quo”, namorado de Cátia (Barbara Reis), filha de Josias (Bukassa Kabengele), o contador da construtora, e de Natália (Mariana Lima), uma professora. Esta família inter-racial provavelmente será vítima de discriminação por parte da ala conservadora do enredo (basta nos lembrarmos do comentário com inclinação racista de Cora). Voltando a Cássia Kis, esta intérprete com longa carreira, recheada de tipos inesquecíveis na teledramaturgia, invariavelmente constrói suas personagens com uma carga emotiva que é a sua marca pessoal. Gustavo é amigo de Túlio (Caio Blat), representante de um setor mais radical da oposição ao regime totalitário. A cena em que Túlio, indignado com a faixa afixada na frente da empresa de Arnaldo com a exortação “Brasil, ame-o ou deixe-o”, decidiu lançar uma bomba caseira na área interna do prédio, foi muito bem dirigida, com mérito também para os efeitos especiais de Federico Farfan. Patrulhinhas e guardas chegam à região, e iniciam uma caçada aos militantes, onde se nota uma avolumada agilidade da direção em conduzir cenas de contínua ação. Gravadas em ruas estreitas do Centro do Rio de Janeiro, foram um dos pontos altos da supersérie (a direção de Carlos Araújo verdadeiramente nos surpreendeu, não só pelo uso inventivo de sua câmera, utilizando-se de ângulos diferenciados e closes diretos, além daqueles em que os rostos dos atores vão sendo alcançados aos poucos). Gustavo consegue escapar, mas Túlio não, sendo alvejado por um covarde tiro pelas costas em uma de suas pernas. Isto serve para nos mostrar o bárbaro e desumano processo de tortura da ditadura militar, observado impavidamente por Arnaldo, a que os opositores, muitos deles estudantes, eram cruelmente submetidos. Arnaldo, colérico com o fato de sua empresa ter sido atingida por uma bomba, conclama o delegado Amaral (Marco Ricca transmitindo com legitimidade a rudeza e subordinação de seu personagem), para quem “o pau canta, a boca abre”, a achar de qualquer jeito o segundo homem que participou do ataque, no caso, Gustavo. Retornemos à casa de Alice. Em seu quarto, desnuda-se para o seu futuro noivo, que se recusa a ceder aos seus apelos, classificando-a de vulgar. Vitor revela um comportamento moralista e eivado de machismo. A moça que gosta de ler “O Pasquim” e admira a atriz Leila Diniz é repreendida por sua mãe, na frente de sua pequenina irmã Nanda (Letícia Braga; depois, na fase adulta, será interpretada por Julia Dalavia). Alice resolve fugir pela janela, com o intuito de ir à casa da amiga Cátia, descendo pelos andaimes de uma obra em seu edifício. Renato, parado em seu Fusca branco, vê pela primeira vez aquela que balançará o seu coração pelos próximos capítulos. Com a vitória do Brasil, tricampeão mundial, papéis picados colorem as ruas da cidade. Gustavo refugia-se em um bar. Encontra-se com Cátia e Alice. Logo depois, chega Renato, e reconhece a indômita menina dos andaimes. O interesse do médico profissional pela fotógrafa amadora com sua máquina analógica Nikon só aumenta. Por sinal, só para não nos esquecermos, há uma excelente cena com Renato Góes no hospital em que trabalha, no qual, após comemorar um gol, tem que atender a uma paciente na emergência. Trata-se de Monique (Letícia Spiller), que está à espera de seu terceiro filho com Toni (Marcos Palmeira), simplesmente irmão de Arnaldo. O bebê nasce, e Monique sofre de atonia uterina pós-parto, o que a deixa à beira da morte, sendo salva por Renato. Arnaldo chega ao hospital, e exige a remoção de Monique, deparando-se com a resistência do médico (nesta hora, temos um elogiável embate entre Antonio Calloni e Renato Góes). Toni prefere que sua esposa permaneça na casa de saúde. Em agradecimento a Renato, o casal oferece a criança, uma menina chamada Esperança, para o doutor batizá-la. Marcos Palmeira e Letícia Spiller valorizam qualquer produção de que participam. Ainda na cena do bar, inicia-se nas ruas próximas uma batalha entre soldados e guardas e o povo. Os papéis picados deixam de cair para darem lugar a flagrantes de covardia explícita. Os diretores, a fim de realçar estes momentos de tensão da trama, usaram um recurso fílmico em que as imagens parecem borradas, numa velocidade mais lenta (recurso também usado na fuga de Gustavo e Túlio). Cenas de arquivo são misturadas às de ficção. Acuados, com medo, Renato e Alice nunca estiveram tão juntos. Sozinhos em um lugar inóspito, com seus azulejos quebrados, ao som de “Nossa Canção”, interpretada por Roberto Carlos, resta-lhes um ardente beijo, nascendo o grande romance de “Os Dias Eram Assim”. Ainda participarão da supersérie Maria Casadevall (Rimena), o ator chileno Alfredo Castro (Hernando), Felipe Simas (Caíque), Cyria Coentro (Laura), Maurício Destri (Leon), Nando Rodrigues (Hugo) e Julio Machado (Marcos), e tantos outros. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Flavio Mac, cuja música “Os Dias Eram Assim” fora composta por Ivan Lins e Vitor Martins, e cantada belamente pelos atores Sophie Charlotte, Gabriel Leone, Daniel de Oliveira, Renato Góes e Maria Casadevall, enfileira uma série de imagens do período focado (tanques nas ruas, manifestações de protestos de estudantes, jogadores da seleção brasileira comemorando o título…), misturadas a recortes de documentos oficiais ou não, estes escritos a mão. Percebam que a cor vermelha se contrapõe ao p&b, como signo representativo do sangue derramado nas torturas, nas execuções e nos embates diretos entre governo e oposição. A cenografia de Alexandre Gomes e Flavio Rangel se destacou pela fiel reprodução dos apartamentos sofisticado e simples, respectivamente, das famílias Sampaio e Reis (além dos interiores da construtora). O figurino coube à tarimbada Marília Carneiro e Renaldo Machado, que se debruçaram na pesquisa histórica para realçar os perfis típicos de cada personagem, seja nas peças coloridas hippies de Alice, nas roupas despojadas de Gustavo, no jaleco de médico de Renato, e nos ternos com gravata borboleta do empresário Arnaldo. A direção de fotografia ficou a cargo do prestigiado Walter Carvalho, que se valeu de acertados filtros para oferecer o máximo de credibilidade à atração. A produção de arte de Moa Batsow é incrível, atendo-se a todos os detalhes, sejam eles na decoração do quarto de Alice, ou no desfile dos memoráveis Fuscas e demais veículos, que nos fazem viajar na memória e na salutar nostalgia. A gerência musical ficou por conta de Marcel Klemm, que tem em mãos um rico material a ser explorado oriundo daqueles períodos. Tivemos na estreia “Deus lhe Pague”, cantada por Elis Regina, “A Lua Girou”, de Milton Nascimento, e “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados. Haverá ainda músicas de Os Mutantes, Vanusa, Gal Costa, outras dos Secos & Molhados, Chico Buarque, Novos Baianos, Walter Franco, Toni Tornado e Raul Seixas. Representando os Anos 80, Fábio Jr. e Marina Lima. Com esta supersérie de Angela Chaves e Alessandra Poggi, “Os Dias Eram Assim”, teremos a oportunidade de revisitar um passado obscuro do nosso Brasil, em que grassava a intolerância, o autoritarismo, a ignorância, o cerceamento da liberdade de expressão, o derramamento de sangue, o medo, a covardia, a luta armada e a divisão no país. No entanto, também teremos a oportunidade de relembrar a riqueza da cultura e da contracultura daquela época, com suas poderosas manifestações artísticas, várias delas nascidas como um grito de resistência. Da mesma forma, testemunharemos o limiar dos sopros dos ventos da democracia, por meio dos movimentos populares. E no meio desse torvelinho de acontecimentos, o amor de Renato por Alice. O amor de Alice por Renato nesses dias… Dias de luta, dias de glória, dias de guerra e dias de paz. Os dias eram assim, acreditem, para Renato e Alice. De lá para cá, muita coisa mudou. Mas alguns dias ainda são… assim.

  • “Livremente inspirado no derradeiro livro de Charles Bukowski, ‘Pulp’, Sacha Bali, reafirmando o seu inegável valor como dramaturgo e diretor, retorna ao romancista com o seu novo espetáculo, o musical ‘Uísque com Água’, trazendo uma galeria de tipos marcantes e inesquecíveis dentro de uma história tragicômica envolvente, num excelente trabalho de composição dos atores Nelson Freitas, Rosanna Viegas, Samuel Toledo, Carolina Chalita e Thogun Teixeira.”

    abril 17th, 2017

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    Foto: Dodô Giovanetti

    O teatro, para a sua própria sobrevivência artística, necessita de renovação. Não só renovação, mas ousadia. E o que não faltam ao novo espetáculo do dramaturgo e diretor Sacha Bali, o musical “Uísque com Água”, livremente inspirado na última obra do americano Charles Bukowski, “Pulp” (1994) são essas características: o caráter renovador e ousado. Sacha, também um conhecido e ótimo ator, além de produtor, em 2007, apresentou ao público a sua pioneira experiência nos palcos com o autor considerado maldito, “Pão com Mortadela” (baseado em “Misto Quente”, 1982), com direção de João Fonseca, um sucesso retumbante, com elogios de lado a lado, que fez com que a peça percorresse várias cidades do país. Quase dez anos se passaram, e o escritor inspirador para o jovem dramaturgo volta para a ribalta com a força absoluta da ironia, do cinismo e das reflexões existencialistas que definiram a venerada obra “bukowskiana”. Sacha se utilizou de inúmeras referências para construir a sua atual montagem. Não abriu mão do estilo único das “pulp fictions” (revistas lançadas no início do século passado, divididas em capítulos, que privilegiavam histórias rápidas, inseridas em vários gêneros, como a aventura, o romance policial e a ficção científica, dentre outros). Os célebres filmes noir americanos com suas narrativas detetivescas e personagens arquetípicos também serviram como nítida influência. Percebe-se na composição de alguns tipos da trama a forma interpretativa adotada pelo Expressionismo Alemão na área cinematográfica. As animações neste segmento audiovisual também ofereceram alguns elementos, e me arrisco a dizer, até mesmo a fantasia e o realismo mágico dos desenhos animados foram influenciadores. As HQs, com seus diálogos diretos, sua dinâmica, seu tempo e estética são visíveis na encenação. A peça musical narra a inusitada história de um detetive particular, Nick Belane (Nelson Freitas), dono de um decadente escritório em Los Angeles, não se sabendo ao certo em que período se passa, que vê o seu modorrento cotidiano ser sacudido pelas inesperadas visitas de misteriosos clientes e suas excêntricas propostas de investigação. Nick tem uma personalidade depressiva, e afoga as suas mágoas, que são muitas, no álcool, principalmente no uísque com água, consumido não somente em seu local de trabalho, mas no curioso bar “O Cão Sedento”. Mesmo vivendo em condições precárias, o detetive que acharia melhor ter sido bombeiro, como o seu colega de escola, não perde o seu fino humor, que se imiscui à sua melancolia inata. Viciado em corridas de cavalo, solitário, Delane, que cobra U$6,00 por hora de trabalho, é procurado por John Barton, um jovem estranho, com língua presa e locomoção comprometida, interpretado por Samuel Toledo. O tal rapaz estranho lhe faz uma peculiar proposta: encontrar um pardal vermelho. Aceito o serviço, Nick sai em busca desse animal improvável. Atolado em dívidas, cobradas de modo inclemente pelo bookmaker Tony (Thogun Teixeira), o detetive, no decorrer desta amalucada empreitada, depara-se com diversas figuras nebulosas e suspeitas, como uma temível senhora que se apresenta como Dona Morte (Rosanna Viegas). Dona Morte deseja que Nick ache a qualquer custo “o maior escritor da França”, Céline (Samuel Toledo). Não sabemos o porquê de seu desejo. Em suas andanças, sempre pontuadas pelos seus pensamentos de reflexão sobre a vida, e consequentemente sobre a morte, em seu bar preferido, “O Cão Sedento”, é atendido por uma tresloucada bartender (Rosanna Viegas). Rosanna também interpreta uma sensual dançarina. O barman de “O Cão Sedento” é personificado por Thogun Teixeira, e é neste estabelecimento em que encontra o suposto escritor francês, um sujeito com sotaque característico e olhos arregalados. Surge no enredo a bela e voluptuosa Jeanie (Carolina Chalita), uma espécie de Jessica Rabbit. Jeanie é casada com Groves (Thogun Teixeira), dono de uma funerária, e o manipula com os requintes de uma dominatrix. Por onde passa, Jeanie deixa os homens enlouquecidos, e algumas de suas vítimas são o próprio Delane e o suposto escritor francês. Em meio a esta sinopse tão mirabolante quanto sedutora na qual há suspense, comédia, drama, violência estilizada e referências tão explícitas quanto divertidas ao universo da sci-fi, como a potencial aparição de alienígenas, e à estética do gangsterismo, há um recurso cênico que oferta um charme extra e especial ao espetáculo: a presença de uma banda ao vivo, comandada pelos músicos Samuel Toledo, Pedro Coelho e André Coelho. A direção de Sacha Bali caracteriza-se exemplarmente pelo capricho e cuidado com os quais se esmerou para transformar todo o conjunto cênico em algo belo, dinâmico, coeso e integrado. As músicas, sejam elas instrumentais, quanto as cantadas pelos atores músicos se unem na constituição de uma admirável harmonia teatral. Sacha também procurou, com inegável acerto, fidelizar-se a todas as referências as quais já citei, que lhe serviram como base para a construção de sua elogiável dramaturgia. Com sua vasta experiência como ator, e formação em muitas áreas ligadas à Arte, Sacha Bali se preocupou, e isto salta aos olhos em sua peça musical, com o que chamamos de “direção de ator”. Percebemos claramente que cada intérprete teve para si o seu momento de busca da composição exata e precisa de seu ou seus personagens com a ajuda precípua, fundamental e generosa de seu encenador. O espetáculo de Sacha é elegante, e nos faz querer vê-lo novamente, o que em se tratando de teatro ou qualquer outro meio de expressão cultural é um enorme mérito. O elenco é extremamente bem escalado, com um time de atores bastante distintos entre si, no que tange às suas formações, experiências e tipos de interpretação, mas todos, sem exceção, detentores de indiscutível talento. Para quem estava acostumado com o ator Nelson Freitas sempre associado à comédia, o que faz muito bem por sinal, irá se surpreender com a sua impressionante atuação como o detetive particular decadente e alcoólatra Nick Belane. Nelson possui um magnetismo pessoal, além de sua absoluta absorção da alma de seu personagem, levando-nos a acompanhá-lo e a torcer por sua vitória ou algo próximo disso, em meio a tantas intempéries episódicas por que passa. O intérprete nos transmite a totalidade de sentimentos natos ao seu papel, definidores de sua personalidade. Sua melancolia, seu pessimismo perante a vida, seu humor cáustico redentor, seu apreço pelas mulheres e pela bebida estão todos condensados na atuação inteira, plena, emocionada de Nelson Freitas, que margeia em proporções similares e equilibradas os gêneros drama e comédia. Rosanna Viegas, que já trabalhou com Sacha Bali outras vezes, como nas peças “Pão Com Mortadela” e “Cachorro Quente”, mais uma vez mostra em cena toda a sua capacidade interpretativa e versatilidade ao dar vida, respeitando as pertinentes distinções, a três tipos que perpassam a narrativa. Rosanna detém uma força natural própria só em estar no palco. Basta emitir uma frase ou fazer um leve movimento de dança, que percebemos desde já estarmos diante de uma atriz de incontestável qualidade. Sua bartender é tresloucada, patética, embriagada e risível. Dona Morte traz em seu entorno a ambiência de mistério necessária para a justificação de sua função na história. E a dançarina que personifica nos transmite a sensualidade plena, acompanhada por um certo ar de desdém, que a valoriza como elemento de um universo proposto. Samuel Toledo é um adorável jovem ator, com muitos recursos interpretativos, a quem já havia assistido em um outro espetáculo, “Elefante”. Samuel teve a incumbência de construir com diferenciações bem desenhadas alguns personagens do entrecho. O primeiro, John Barton, é um sujeito extremamente suspeito e esquisito, que procura Nick Belane a fim de que resolva um caso um tanto quanto bizarro. Samuel quis fazer algo que tornasse este indivíduo mais enigmático do que naturalmente é. E logrou seus intentos com nítido êxito. Seu andar é claudicante e sua fala é presa. Como Céline, “o maior escritor da França”, compõe uma figura soturna e cheia de mistérios, realçando os seus olhares e discursando num tom temeroso e ameaçador. Em outras passagens, o intérprete incorpora um tipo endoidecido com personalidade ansiosa e aflita, usando a voz com entoação distorcida (Samuel se desdobra com máxima eficiência em suas variações comportamentais). Carolina Chalita defende com potente sedução e volúpia o papel de Jeanie. Sua entrada em cena é inegavelmente espetacular. No decorrer da peça, Carolina, diante das reviravoltas de sua personagem, imprime com honorável entendimento as demais nuances à sua interpretação. Revela-nos a firmeza indispensável, o viés temível de seu caráter, sem perder em nenhum momento a sua aura tentadora de “femme fatale”. A atriz se utiliza da técnica apurada de sua voz e respectivas variantes para conferir elevada credibilidade ao que lhe foi proposto pelo texto na construção de Jeanie. Thogun Teixeira passeia com notável desenvoltura por todas as veredas interpretativas exigidas pelos diferenciados papéis que lhe couberam. Como o bookmaker Tony, é truculento e implacável. Como Groves, o proprietário da funerária, ostenta, em contraposição à sua forte compleição física, a fragilidade, vulnerabilidade e submissão próprias do companheiro de Jeanie, ofertando-nos apropriado e certeiro tom de comédia. E como o barman de “O Cão Sedento”, mantém a fiel postura deste profissional que se torna testemunha ocular de importantes fatos do enredo. Valendo-se de sua impressionante voz grave, Thogun cumpre com valiosa dignidade as funções que lhe foram impostas na ação. Uns dos pontos de “Uísque com Água” que merecem a nossa reverência e respeito é a riquíssima trilha sonora de Pedro Gracindo. Contando com músicos excelentes, que se posicionam à esquerda da ribalta, e atores incrivelmente bem preparados em suas vozes para o canto, Pedro criou uma fascinante trilha sonora, que se impõe, por sua importância, como elemento indissociável para o encantamento exercido no público. São acordes sofisticados que remetem ao melhor do rock e do blues, assumindo a nobre missão de emoldurar e valorizar diversos quadros cênicos. Faz-se necessário prestar atenção nas letras da canção, inteligentes e coerentes com a situação e o estado dos personagens. Há momentos solo e em coro (emocionante), além de uma canção interpretada em inglês por Nelson Freitas. O cenário de Diogo Monteiro e Dodô Giovanetti se encarrega de nos transportar com legitimidade para o intrigante universo retratado. Sentimo-nos parte integrante daquele ambiente imbuído de múltiplas referências. Percebe-se um clima underground e decadente na pequena sala onde Nick trabalha, com sua mesa de madeira (com uma luminária, uma garrafa de uísque e um copo sobre ela, dentre outros elementos), uma cadeira verde estofada e outra maior marrom com textura de couro, uma bancada com uma pequena televisão, uma geladeira antiga e uma outra luminária pendurada. Por mais que não se diga a época da narrativa, deduzimos que haja uma inspiração, com total liberdade poética, nos filmes noir norte-americanos (evidente que a presença da televisão é autorizada por esta licença artística). O bar “O Cão Sedento” possui uma atmosfera “bas-fond”, com o seu particular balcão, uma fileira de garrafas sem rótulos no alto, uma mesa com um abajur repleto de lâmpadas (seu efeito é muito bonito), uma placa em vermelho pendurada indicando o seu nome e luminárias metálicas verdes suspensas. A mansão de Jeanie é representada por um sofá estampado, tendo atrás de si uma janela envolta por estampas assemelhadas, além de um abajur. Na porta de entrada, um lustre. O figurino de Marcelo Martins também é merecedor de todas as loas. Marcelo apostou tanto na elegância dos costumes masculinos e femininos quanto na coerência dos trajes, amplamente de acordo com os perfis dos personagens, a suposta época em que transcorre a história, e a sua localidade (Los Angeles, nos Estados Unidos). O profissional não economizou nos ternos, calças com pregas, longos com brilhos, trench coat, chapéus, capote, camisas listrada e xadrez, suspensório, boina, luvas, estola e xale, além de sapatos sociais e escarpins. A iluminação de Roberto Macedo é primorosa. A sua luz exerceu um papel fundamental para o embelezamento da encenação, colaborando com suprema generosidade na ambientação adequada da narrativa. Aliando-se a um tênue fog, o iluminador presenteou o espectador com belos focos e sombreados, luzes quentes brandas (em tons amarelados), meias-luzes, um refletor com forte luz branca na lateral do palco, além do aproveitamento harmonioso das cores vermelha, azul e rosa. Podemos destacar ainda o efeito das garrafas penduradas no bar, refletindo uma tonalidade rósea. “Uísque com Água” traduz-se como um espetáculo musical que se destaca pela sua ousadia dramatúrgica, pelo resgate do legado da obra de um escritor tão incompreendido quanto venerado, como Bukowski, pela sua aposta em um elenco heterogêneo e talentoso, por trazer à baila uma outra faceta do ator Nelson Freitas, pela reafirmação do amor de Sacha Bali por este intelectual e pelo teatro, pela sua consolidação como dramaturgo e diretor, pela excelência de suas composições musicais, e por não temer em apostar neste delicioso gênero de uma forma totalmente diferente. Em certa passagem da peça, o inesquecível e único Nick Delane atribui proximamente ao seu drink preferido, uísque com água, qualidades redentoras, capazes de preencher o vazio de sua vida, saciando a sua sede de existência. Sacha Bali de certa forma faz o mesmo. Sacia a nossa sede voraz em cultivar o bom teatro, redimindo-nos, nem que seja apenas pelo tempo de “Uísque com Água”, de qualquer sensação de vazio metafórica. Sirvam-se. Fiquem à vontade. Há uísque com água para todos. Mas o primeiro copo é de Charles Bukowski.

  • “Com um elenco poderoso em cena, Gloria Perez, logo no primeiro capítulo de ‘A Força do Querer’, a nova novela das 21h da Rede Globo, deixou impressa a sua marca infalível de basear os conflitos de sua trama em questões controversas, atuais e discutíveis, propulsoras de inegável interesse por parte do público”.

    abril 4th, 2017

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    Foto: Estevam Avellar/TV Globo

    Ao vermos uma novela de Gloria Perez infalivelmente identificamos a sua marca. E não foi diferente ao assistirmos ao primeiro capítulo de “A Força do Querer”, o novo folhetim das 21h da Rede Globo, exibido ontem à noite. Com direção artística de Rogério Gomes e direção geral de Pedro Vasconcelos, a trama nos apresentou a gênese dos principais conflitos que a nortearão pelos próximos meses. Contando com um elenco estelar, formado em grande parte por atores que costumam ser protagonistas em outras produções do gênero, raro de se testemunhar, “A Força do Querer” não fugirá da abordagem de assuntos polêmicos, alguns extremamente atuais, como os que dizem respeito aos transgêneros e sua aceitação pelas família e sociedade, compulsão pelo jogo, busca da beleza perfeita, sereismo, e os potenciais poder e glamour associados ao tráfico de drogas. Além disso, teremos uma policial, Jeiza, com aspirações de ser uma lutadora de MMA, livremente inspirada em Ronda Rousey (papel que caberá a Paolla Oliveira). Ademais, Gloria não se furtará de inserir em sua obra elementos clássicos das telenovelas, como a disputa de dois homens que se conheceram na infância por uma mesma mulher. Suas primeiras cenas ocorreram no Pará com o personagem de Eugênio (Dan Stulbach, um bem-vindo retorno à teledramaturgia da emissora, após um período de experiências como apresentador em outros canais), sócio de uma empresa que comercializa alimentos, ao lado de seu filho Ruy (João Gabriel Bolshaw; Fiuk o representará na fase jovem), marcando a sua ida ao Acre a fim de negociar com um fornecedor local. A região é inóspita, e só se chega de barco. O tempo está ruim. A embarcação tomba, e o menino desaparece em águas turvas. Dan se saiu muito bem ao revelar o desespero do pai. Na verdade, Eugênio estava cumprindo a sua última missão como diretor da empresa, já que pensa em “começar do zero”, realizando o sonho de sua vida, montar o seu próprio escritório de advocacia, o que contrariará seus familiares. Quem assumirá o seu lugar é Caio (Rodrigo Lombardi, um intérprete associado a outras novelas de Gloria, como “Caminho das Índias” e “Salve Jorge”). Caio é um homem honesto, porém bastante ambicioso no que tange ao aspecto profissional, o que atrapalha o seu relacionamento com a passional Bibi (Juliana Paes; uma reedição do casal, como podem lembrar, de “Caminho das Índias”). As cobranças de Bibi são tão intensas que levam ao rompimento do compromisso. O que Caio não esperava é que estava sendo traído por ela com o garçom Rubinho (Emílio Dantas, o ator que se sobressaiu nos palcos ao encarnar o cantor e compositor Cazuza; uma boa escalação, já que se trata de um rosto novo no horário nobre). Rubinho introduzirá Bibi no mundo do crime, no qual a moça assumirá um posto que lhe conferirá irrestrito poder, assumindo a identidade de Bibi Poderosa. Caio, desiludido, desiste da nomeação na empresa, e viaja para os Estados Unidos, onde estudou. Um dos principais sócios desta mesma empresa se chama Eurico, austero e rígido nos negócios. Eurico, irmão de Eugênio, é defendido por Humberto Martins, um artista que sempre imprime dignidade aos seus papéis (também integrou o elenco de algumas novelas da autora, como “Barriga de Aluguel”, na pele de um caminhoneiro). O empresário é casado com a sofisticada e reconhecida arquiteta Silvana (a ótima Lilia Cabral, representando com a elegância de costume). Só que Silvana lhe traz um enorme problema: o seu vício em mesas de pôquer. Esta falha compromete, óbvio, a estabilidade do casamento e a sua situação financeira. Neste mesmo núcleo, temos a bela Maria Fernanda Cândido (brilhou em suas primeiras cenas), cuja personagem Joyce, casada com Eugênio, é uma mulher fútil e exageradamente vaidosa, que direciona essas características para a sua filha pequena Ivana (na outra fase, será personificada pela estreante Caroline Duarte). A criação desta personagem é uma crítica oportuna às mães que se utilizam de seus filhos para se promoverem, e até mesmo ganharem dinheiro, ainda mais em tempos de redes sociais. São mães que não conseguiram almejar os seus sonhos, transferindo-os para os seus filhos, mesmo que muitos não os queiram. O que Joyce não imaginava é que Ivana ao crescer não possuiria quaisquer resquícios de vaidade feminina, aproximando-se cada vez mais do mundo transgênero. Este tema promete aquecer a história, promovendo opiniões contrárias ou favoráveis, tanto dos personagens quanto dos telespectadores. Todos estes episódios relatados se passam no Rio de Janeiro. Voltemos ao rio em que Ruy caíra em viagem com o pai. Já não há esperanças quanto à sua sobrevivência, até que um outro garoto, natural da região, Zeca, filho de Abel (Tonico Pereira), vivido por Xande Valois (personagem de Marco Pigossi na etapa seguinte), tenta salvá-lo, mas também acaba caindo nas correntezas do rio. Desacordados na sua margem, os meninos são encontrados por um índio ashaninka (Benki Piyãko), que lhes dá um chá curativo alucinógeno. Os meninos que veem a Lua se misturar ao rio, ouvem a seguinte profecia do indígena: “Vocês tenham medo do que vier das águas. O rio que juntou vocês vai separar de novo”. O índio lhes ofereceu como proteção um colar, metade para cada um. O tempo passou. Bibi, agora cabeleireira, está casada com Rubinho, desempregado, o que causa um desconforto em sua mãe Aurora (Elizangela). Durante o noivado de Ruy (Fiuk; outra renovação no horário das 21h, é prazeroso ver este jovem ator ostentando maturidade) e Cibele (Bruna Linzmeyer), com a presença de toda a família, incluindo o amigo Dantas (Edson Celulari), pai da noiva, Eugênio anuncia o seu novo sucessor na empresa: Ruy, o seu filho, para o assombro geral. Deslocamo-nos para Parazinho, a fictícia cidade do Pará. Zeca agora tem como intérprete Marco Pigossi (depois de “A Regra do Jogo”, em que deu vida a um policial, Marco tem a possibilidade de defender um tipo bem oposto àquele, haja vista que Zeca é um sujeito simples, rústico, trabalhador – reparem em seu bem construído sotaque, um caminhoneiro apaixonado por Ritinha, Isis Valverde, a fogosa, brejeira e sensual moça que acredita ser filha de um boto, adepta do sereismo, prática das mulheres que se trajam de sereias, tentam ao máximo se assemelhar a elas, sendo que muitas ganham a vida com isso, como é o caso de Ritinha, que faz apresentações públicas como o ser mitológico). O romance dos dois é desaprovado por Abel, que se desabafa com sua irmã Nazaré (Luci Pereira). Zeca está à procura de Ritinha. Ruy está com o seu pai na localidade para se encontrar com um fornecedor. Ritinha, a “sereia”, surge fulgurante de dentro das águas vermelhas do rio de Parazinho, tendo ao seu lado lépidos botos. Os dois rapazes, atônitos, admiram-na. A profecia do índio começa a se concretizar. Começou desta forma a nova novela de Gloria Perez, enriquecida por uma bonita direção de fotografia de Sérgio Tortori, em tons de azul para a noite, verdes em outra passagem, e naturais nas áreas urbanas, valorizando o colorido do mercado de alimentos. A abertura de Alexandre Romano e Cristiano Calvet é embalada pela canção de Caetano Veloso, “O Quereres”, em que há a fusão de imagens de pessoas e paisagens e situações do cotidiano, realçadas por distintas cores. “A Força do Querer” se compromete a seguir o que dita o seu título. Os seus personagens se moverão pelos seus desejos, seus quereres, que não virão facilmente. As suas metas só serão atingidas se forem empreendidas as suas forças, claro. No entanto, onde há mais de uma força, aquelas que intentam o mesmo objetivo, haverá pelejas. Assim como haverá a força individual, tão difícil por ser solitária, por ser contra a maioria do pensamento. A novela de Gloria Perez se baseia nisso. E é nesta conflagração de conflitos que desencadeiam debates, discussões e reflexões que se encontra a tal marca da teledramaturga. Para se assistir às suas novelas, é necessário que se tenha força, força para se aceitar a diferença, para se aceitar o novo, para se enfrentar o tabu. Olhos para se descobrir a tolerância que há dentro de nós, mesmo que a desconheçamos. Basta que para isso, despertemos a nossa força do querer.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    março 17th, 2017

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Saulo Leitte na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
    Saulo é carioca, mas no momento reside em São Paulo.
    Sua agência é a L’equipe Agence (SP).
    Já fotografou para Claudio Carpi, Marcio Farias, Alexandre ADDS e Raffael Silva.
    Foi um dos participantes do reality show da MTV Brasil “Are You The One?”.
    Nesta temporada da SPFW, desfilou para Lino Villaventura.
    Participou de campanhas publicitárias na TV e em revistas.
    Desfilou para a TNG no Fashion Rio Primavera Verão 2015/2016.

    Agradecimento: TNG

  • “O espetáculo ‘Ocupação Rio Diversidade’, dividido em quatro peças curtas dirigidas por diferentes diretores, e assinado por autores como Marcia Zanelatto, Daniela Pereira de Carvalho, Joaquim Vicente e Jô Bilac, é um necessário e urgente manifesto cultural de altíssimo nível cênico, que busca a atenção da sociedade para uma pauta real e definitiva: a discussão elevada e séria sobre as questões de sexualidade e identidade de gênero no país. “

    fevereiro 17th, 2017

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    Fotos: Elisa Mendes

    Numa época em que vivemos um retrocesso não só em nosso país como no mundo, com o poder sendo gerido por alas cada vez mais conservadoras e reacionárias, o magnífico projeto “Ocupação Rio Diversidade”, com a idealização e direção geral de Marcia Zanelatto, serve como um instrumento cultural com forte poder de alcance para alimentar e solidificar a luta pela igualdade dos gêneros, pelo respeito a orientação sexual de cada indivíduo, pelo direito de cada ser humano definir a sua própria identidade, e pela manutenção do alerta quanto à nefanda homofobia, velada ou escancarada num Brasil múltiplo e diverso. “Ocupação Rio Diversidade”, que fez uma temporada no Castelinho do Flamengo, no Rio de Janeiro, em que as suas quatro peças se dividiam pelos espaços do centro cultural, voltou ao cartaz e repetiu o sucesso no Teatro Sesi Centro, na mesma cidade, porém dessa vez a montagem pôde reunir os seus monólogos, protagonizados por Larissa Bracher, Kelzy Ecard, Thadeu Matos e Gabriela Carneiro da Cunha, em um só palco. A peça, indicada ao Prêmio Shell na categoria Inovação 2016 e Prêmio APTR 2017 Categoria Especial, inicia-se com a apresentação do ator e drag queen Magenta Dawning (Bruno Henríquez) na frente do público. Magenta, que alterna a sua performance entre um tom de conversa direta com a plateia e momentos de atuação, faz elucubrações sobre a existência do homem, o modo como este se enxerga e é visto na sociedade, utilizando-se de um espelho como referência ao ato de se refletir, metafórica e realisticamente. Magenta, de modo descontraído, discorre acerca de temas diversos, alguns sob a égide da poesia. Sua presença marcante já nos insere no contexto da defesa da diversidade proposta, pois se mostra exuberantemente caracterizada, “produzida” para as suas participações. O ator também nos apresenta os monólogos que serão encenados. O primeiro deles, “Genderless – Um Corpo Fora da Lei”, é de autoria de Marcia Zanelatto (um texto embriagante e sedutor), e direção de Guilherme Leme Garcia, estrelado por Larissa Bracher. Larissa, trajada como homem, narra a impressionante história de Norrie May-Welby, a primeira pessoa no mundo a obter judicialmente o seu anseio de ser identificada como alguém sem sexo definido. Durante a sua infância, Norrie, nascida homem, sentia-se presa ao seu corpo. Sua alma, a princípio, parecia-lhe feminina, em sua totalidade. Rejeitava tudo o que remetesse ao universo dos homens. Nada de pelos grossos, gogó e Falcons. Queria saltos altos, bonecas. Após a cirurgia que lhe deu a condição de mulher, o inesperado. Norrie, da mesma forma, não se sentiu realizada como um ser feminino, até que começou a sua peleja para ser reconhecida pela Justiça da Austrália como alguém sem gênero, logrando a vitória sonhada. Num ambiente praticamente escuro, iluminado apenas pelo tablet seguro por Larissa (ideia bastante criativa), que também dá voz a Norrie, somos levados a experimentar um estado de contemplação absoluto. A atriz, cuja beleza transcende o aspecto masculino da calça preta, da camisa social branca e da gravata também preta, revela-nos uma interpretação admirável e imponente. Há algo em sua postura cênica que nos faz respeitá-la. Larissa consegue, por meio de variações de voz muito bem distintas, desenhar as mudanças de função de narradora e Norrie. Sua voz é excelente, extremamente articulada. Sua atuação se calcou em posições firmes, gestos largos e curtos. Em pé ou sentada em uma cadeira, com os pés descalços, transmite-nos o distanciamento pertinente à contadora de uma história e a emoção cobrada para dar vida a algumas passagens de Norrie. Seu rosto somente alumiado pela luz do tablet tem um efeito onde há mistério e encantamento. Guilherme Leme Garcia foca no intimismo e na precisão do ótimo monólogo. Preferiu de maneira acertada que a intérprete se mantivesse em praticamente um único ponto da ribalta. Esmerou-se na orientação da atuação de Larissa, valorizando tanto a história contada, com a sua personagem real, quanto o assunto abordado. O palco nu, negro, fez com que não nos dispersássemos, e só tivéssemos olhos para o momento especial de Larissa Bracher. O segundo monólogo é protagonizado pela venerável atriz Kelzy Ecard. Prestigiadíssima no teatro, Kelzy tem colecionado seguidamente peças importantes em sua carreira. Não poderíamos esperar dela uma performance que não fosse pulsante, enérgica e intensa, imersa em emoção, como estamos acostumados a vê-la no tablado. A sua peça se chama “Como Deixar de Ser”, de Daniela Pereira de Carvalho e direção de Renato Carrera. Kelzy personifica uma solitária e infeliz mulher, que está se mudando de sua casa. Sua única companhia é o gato de nome bíblico Abel. Ela o usa como o seu interlocutor em muitos casos. Separada, também carrega a dor da frustração do casamento. Sempre manteve uma relação difícil com sua mãe, Margarida. Seus maiores sofrimento e dor foram causados pelo grande e avassalador amor reprimido por uma colega de escola, Raquel. O tempo implacável passou, e ficaram lembranças apenas de seus desejos nunca satisfeitos pelo atraente corpo de sua amiga. O fato de ter se acomodado a uma paixão platônica, aceitado a imposição das instituições sociais como o casamento, e não ter se permitido a amar uma outra pessoa a fizeram ser tão amarga e sofrida. Kelzy defende esta pobre mulher sem o amor compartilhado com o destempero do sofrimento, a angústia desvelada pelo vazio existencial, e pela não aceitação, por meio de seus gritos e prantos, de que os seus dias não lhe presentearão com o corpo desejável de Raquel. Tendo em mãos a inspirada e potente dramaturgia de Daniela Pereira de Carvalho, Renato Carrera se encarregou de explorar sabidamente o potencial interpretativo de Kelzy Ecard, fazendo com que a atriz se movimentasse de lado a lado pelo palco, o que conferiu ao seu monólogo uma agilidade oportuna. Renato em nenhum instante deixou de imprimir a alta dramaticidade pedida pelo texto de Daniela, resultando em um pequeno espetáculo comovente. O terceiro monólogo recebeu o título de “A Noite em Claro”, e fora escrito por Joaquim Vicente. Tendo como protagonista Thadeu Matos, e sido dirigido por Cesar Augusto, a pungente e realista peça retrata a noite vivida por um garoto de programa homofóbico. Como muitos rapazes que decidem se lançar nesta atividade de favores sexuais remunerados, o michê interpretado por Thadeu não admite, por mais que sinta desejos e prazeres, o sexo com um outro homem. Agrava ainda mais o seu ódio incontido o fato de seu cliente ser velho e casado. Para o irado prostituto, que também possui um compromisso com uma mulher, assassinar o seu efêmero parceiro com repetidas facadas é um bem que se faz à sociedade. Segundo ele, ao matar mais um homossexual, chega-se perto da cura de um “câncer” social. Convencido disso, o seu périplo pelas ruas, durante a noite, nas quais deixa um indelével rastro de sangue, perpetua-se. Este texto de Joaquim Vicente é notadamente atual, e por isso mesmo chocante. São inúmeros os casos pelo país afora de homossexuais que são barbaramente mortos por garotos de programa, e que não são noticiados nas páginas de jornais. Vários desses casos são arquivados nas delegacias de polícia. Bastantes vezes, mata-se pela homofobia. Em outras, com o intuito de roubar os pertences da vítima. O que restam àqueles que buscam sexo pago com jovens acima de qualquer suspeita são a cautela e a prudência, sem quaisquer juízos de moral. Thadeu Matos personifica com veracidade rascante o seu personagem, imprimindo-lhe conotações em um grau superlativo de ira e loucura. O rapaz balbucia frenética e de forma cadenciada e alucinada vocábulos que remetem à pratica sexual homossexual. Faz movimentos bruscos e precisos no ar como se espancasse a vítima. A nudez apolínea de Thadeu Matos, e a mais genuína intimidade de seu corpo não nos constrange, muito pelo contrário. Vimos bem próxima a perfeição física a que se pode chegar a matéria do homem, mas também constatamos que essa mesma perfeição pode ser assassina, que o sexo e o desejo nela contidos podem ser traiçoeiros e fatais. Cesar Augusto percebeu o rico material que tinha em mãos, e não se intimidou ao pintar um quadro com tintas incômodas e cruéis de uma realidade que não se pode esconder. Extraiu de Thadeu o máximo de suas emoções, que foram traduzidas em camadas de cólera. A violência é sugerida no som da voz do ator, em seus movimentos corporais e nos objetos de cena, como facas fincadas em uma extensa bancada. A nudez, como observado, foi tratada com a naturalidade e a verdade merecidas. O vídeo ao vivo, projetado em uma tela, usado como depoimento do rapaz, causa o impacto esperado. E como monólogo de encerramento, “Flor Carnívora”, de Jô Bilac, com direção de Ivan Sugahara. À frente da peça, Gabriela Carneiro da Cunha, como a própria espécie vegetal que serve como título. “Flor Carnívora” é um texto pleno em licenças poéticas, alegorias e humor. Talvez o fato de ser a última peça a ser apresentada se relacione com a sua leveza dramatúrgica face às anteriores. Num universo onírico e lúdico que nos lembra a floresta de “Sonho de Uma Noite de Verão”, de Shakespeare, irrompe de dentro de um vaso uma bela “flor carnívora” de corpo nu. A nudez quase diáfana, pura, de Gabriela, imiscui-se à harmonia verde de outras tantas plantas que compõem o seu habitat. A tal flor é uma representante engajada, politizada, convicta em suas opiniões sobre o hermafroditismo das plantas. Protesta em alto e bom som contra a monocultura da soja. Contra os transgênicos. Não se submete às imposições humanas de classificação e normatização da flora, diversa em sua própria natureza, sem trocadilhos. As plantas nasceram livres de gênero. O respeito à diversidade que queremos já pode ser encontrado nas florestas, mesmo com a intervenção do homem. Jô Bilac foi buscar na natureza o exemplo maior para a humanidade. Se ser diverso é natural, se não ter gênero também o é, por que não é possível que assim seja entre nós, humanos? Utilizando-se desta alegoria, Jô, volto a repetir, com bastante humor, oferta a sua mensagem. Gabriela Carneiro da Cunha embarca com integralidade na fantasia de sua personagem. Navega pelo cenário como uma fada, esbanjando as linhas suaves de sua nudez casta com arrebatadora espontaneidade. Gabriela nos lembra um “ser da natureza”, livre, libertador, transgressor. Um ser que falta à sociedade urbana. A atriz usa todos os seus recursos de voz e corpo para dar vida a este ser simbólico indócil. Sem pudores, reservas, transpondo limites visíveis ou invisíveis, lança-se na loucura do possível e na insanidade do impossível, seguindo a sua particular razão. Ivan Sugahara procurou seguir com fidelidade este caminho de ludicidade associada à transgressão, respeitando as reflexões narrativas de Bilac, criando, a partir delas, um monólogo que se segmenta entre o fantasioso, o alegórico e o absolutamente anárquico, surpreendente. Reserva aos espectadores um final redentor, sem regras, despudoramente engraçado. Um caos organizado, sonhado e realizado pela “Flor Carnívora”. O cenário de Daniel de Jesus é espetacular, no sentido literal do termo, em algumas peças como “Como Deixar de Ser” e “Flor Carnívora”. E conciso, cru, objetivo, direto e sugestivo, como em “Genderless – Um Corpo Fora da Lei” e “A Noite em Claro”. Em “Como Deixar de Ser”, Daniel cria um lar sendo deixado pela sofrida mulher cujo fundo é todo coberto com roupas, chapéus e demais acessórios. Este conjunto colorido e diversificado de peças de vestuário de uso cotidiano, e que provavelmente traduzem uma vida quase inteira da personagem, possui um impacto visual inebriante. Somam-se ainda a este painel abajures e malas antigos, além de uma arara cheia de outras roupas, e sapatos perfilados no chão. Em “Flor Carnívora”, o cenógrafo imaginou uma floresta reconhecidamente encantada, com suas várias espécies de plantas penduradas por fios, coloridas, com prevalência do verde e do laranja. Estas mesmas plantas suspensas se alternam em movimentos que as levam para cima e para baixo. Tendo o vaso da flor ao centro, observamos um belo e imaginativo retrato cênico. Em “Genderless – Um Corpo Fora da Lei”, apostou-se coerentemente na economicidade do quadro, em que Larissa Bracher, além de seu tablet, usa somente uma cadeira como instrumento auxiliar de sua atuação. E em “A Noite em Claro”, Daniel se valeu não só de uma impactante e sinistra bancada com inúmeras facas fincadas, como de uma tela, como já dito, na qual é projetada ao vivo o depoimento do garoto de programa. Em sua totalidade, um louvável trabalho de cenografia, com altíssimo nível, em que se misturam deslumbramento e funcionalidade. A iluminação feita em dupla por Daniela Sanchez e Tiago Mantovani também se destaca pelos seus incontáveis méritos. Nas cenas de plateia de Magenta Dawning a luz incide diretamente sobre a sua figura. A exuberância de Magenta e todas as cores e brilhos que integram seus figurinos e acessórios são realçados como deveriam, causando um feérico resultado. Em “Genderless – Um Corpo Fora da Lei” valorizou-se sobremaneira, com acerto absoluto, a presença da atriz Larissa Bracher. Isso se deu, como afirmado, com os feixes de luz irradiados pela tela de seu tablet. Enfim, a iluminação depende dos movimentos das mãos da intérprete. Ora seu rosto é iluminado, ora parte do seu corpo, ou sua plenitude. O efeito é moderno e extremamente inventivo. Já em “Como Deixar de Ser”, temos uma iluminação enternecedora, haja vista que todos os elementos do fundo do cenário, com sua multiplicidade de cores, são enriquecidos em suas imagens com a luz escolhida. Há refletores que os iluminam de cima para baixo, ocasionando o surgimento de sombras. Vê-se um tom amarelado que se encaixa com bastante propriedade no ambiente retratado. Em “A Noite em Claro”, os iluminadores tiveram que ser cuidadosos, pois a nudez explícita de Thadeu Matos pediria um tratamento delicado. E foi o que se viu. Cada luz, meia-luz, sombras foram pensados e bem calculados. O forte erotismo presente neste monólogo ganhou as texturas adequadas e condizentes com a proposta cênica. Uma luz delicada sobre um corpo perfeito dentro de uma história aterradora. E, por último, “Flor Carnívora”. A floresta onde se passa a ação é esplendorosamente iluminada, no sentido de nos fazer acreditar que estamos diante de um universo fabuloso, mítico, mágico e encantador. A nudez de Gabriela foi conduzida com sábia naturalidade, indicando a sua integração harmônica ao universo onírico da peça. Uma iluminação inspirada para encerrar com glória o conjunto de monólogos. Marcello H., um profissional responsável por elogiadas direções musicais, encarregou-se do design de som de “Genderless – Um Corpo Fora da Lei”, e se saiu bem como era esperado. Utilizou-se de um ritmo frenético e empolgante logo em seu início, que em muito nos lembra o lendário “mangue beat”. Difícil não nos empolgarmos com este introito musical. Ivan Sugahara se incumbiu de assinar a trilha sonora de “Flor Carnívora”, a peça que dirigiu. Junto a vários ruídos que nos reportam ao mundo da floresta, Ivan se empenhou em acrescentar a trilha que melhor se acomodasse naquele idílico espaço cheio de magia. O visagismo de Marcio Mello se sobressaiu sob vários aspectos. A maquiagem de Magenta Dawning é deslumbrante, alegre, festiva, valorizando os traços do rosto do ator que a representa, Bruno Henríquez. Larissa Bracher, com a face ao natural, e os cabelos presos, puxados para trás, apresenta uma belíssima androginia. Kelzy Ecard, da mesma forma, mostra-se com o rosto ao natural, e os cabelos soltos, ostentando viva lealdade à personagem que defende. Thadeu Matos manteve os seus cabelos negros com um certo desalinho, com franja caída em sua face. E Gabriela Carneiro da Cunha, de cabelos encaracolados, sem maquiagem pesada, usa cílios postiços avolumados. Os figurinos ficaram a cargo de Rui Cortez, e todos eles, sem exceção, caracterizam-se pela coerência e adequação. Larissa Bracher veste, como fora mencionado, uma camisa social branca com gravata preta, e calça também negra. Kelzy Ecard traja uma saia com tonalidade escura, blusa verde e um casaco marrom. Thadeu Matos veste um moletom, e depois uma calça social e um blazer aberto sobre o torso nu. E Gabriela Carneiro da Cunha, em determinado momento, é trajada com uma segunda pele, e tecidos translúcidos presos ao seu corpo (pequenos galhos também se prendem a ela). Parece-nos uma ninfa. “Ocupação Rio Diversidade”, que tem a direção de produção de Juliana Mattar, cumpre um papel de suma relevância, não só em contextos teatrais e culturais, mas sociais. Este espetáculo que nos faz refletir sobre várias questões contemporâneas, presentes em nossa sociedade, relativas à identidade de gênero e sexualidade não podem ficar ao largo de nossas atenções. Tem que ser postas na mesa. Colocadas em debates e discussões. Serem levadas para todas as esferas políticas de poder. Judiciais, também. Não se pode vendar os olhos para a vontade intrínseca de um indivíduo quanto ao seu estado de existência. Se alguém quer ser homem, que seja. Se alguém que ser mulher, que seja. Se alguém quer ser “trans”, que seja. Se alguém não quer ser uma coisa nem outra, respeitemos. A palavra-chave é respeito. Respeito ao próximo. Respeito ao amor. Respeito ao amor entre iguais. Respeito ao amor entre diferentes. Respeito a diversidade. Respeito ao Rio. Com diversidade. Tendo ao lado uma flor, carnívora ou não, como deixar de ser o que se quer ser, numa noite ou dia em claro, num corpo “dentro ou fora da lei”? A resposta está em… “Ocupação Rio Diversidade”.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    fevereiro 7th, 2017

    055
    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Luan Buettgen, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
    Luan nasceu em Blumenau, Santa Catarina.
    Pertenceu às agências Mega Model Brasil (São Paulo) e Staff (Curitiba).
    Foi fotografado por Vitor Augusto para um ensaio com o também modelo Rene Ainati, o qual foi publicado no site “Brazil Male Models”.
    Fotografou também para Karla Gironda (ensaio “Kit et Holly”), Ronald Luv, Junior Becker e Didio.
    Fez um editorial para a revista “Estilo”.
    Ao lado da modelo Iolanda Viola, fez a campanha do “Dia dos Namorados” para o Shopping Mueller, em Curitiba (fotografados por Luana Caetano).
    Desfilou para a Cavalera, na SPFW.
    Em 2014, na Casa de Criadores, foi visto no desfile de Arnaldo Ventura.
    No Fashion Rio Primavera Verão 2014/2015, mostrou a coleção das marcas R.Groove e Coca-Cola Jeans.
    Esteve presente na Convenção de Modelos Dilson Stein.
    Participou do programa apresentado por Renata Kuerten, tendo como colegas os irmãos modelos Tadeu e Daniel Lenhardt, “Chega Mais”, exibido na Rede TV!.
    Atualmente, Luan Buettgen mora na Cidade do México, no México.

    Agradecimento: TNG

  • “Na aguardada minissérie de Maria Camargo, baseada na celebrada obra de Milton Hatoum, ‘Dois Irmãos’, tivemos um primeiro capítulo no qual se viram a força e o empenho de um jovem elenco estreante, além dos rostos que imprimem qualidade à qualquer produção, com a chancela de Luiz Fernando Carvalho, para nos contar uma trágica e passional história familiar em que teremos Cauã Reymond vivendo os gêmeos movidos a ódio Omar e Yaqub”.

    janeiro 10th, 2017

    zana-e-halim
    Foto: Divulgação/TV Globo

    “A casa foi vendida com todas as lembranças/todos os móveis/todos os pesadelos/todos os pecados cometidos ou em vias de cometer/a casa foi vendida em seu bater de portas/com seu vento encanado/sua vista do mundo…”. Com o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Liquidação”, sendo datilografado, e narrado pelo personagem Nael (Irandhir Santos), fomos levados ao futuro de “Dois Irmãos”, a prestigiada e premiada obra homônima de Milton Hatoum, vencedor do Prêmio Jabuti de 2011, agora em formato de minissérie de Maria Camargo, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho. Vimos Zana (Eliane Giardini) em prantos sobre a cama, despedindo-se de sua casa, mas levando consigo todas as dolorosas lembranças que corroeram a sua vida. A trama, gravada em Manaus, em locações como as praias do Rio Negro, compreendida entre as décadas de 20 e 80, narra a trágica e sofrida relação de ódio entre dois irmãos gêmeos, filhos de imigrantes libaneses, Omar e Yaqub (Lorenzo e Enrico Rocha, na infância; Matheus Abreu, na adolescência, e Cauã Reymond na fase adulta). Em uma de suas primeiras cenas, percebemos a preferência explícita da matriarca Zana (Juliana Paes, linda num papel totalmente diferente aos quais estamos acostumados a vê-la) pelo menino Omar, diante do olhar desolado de seu marido Halim (Antonio Calloni, sempre uma acertada escalação). Singrando as águas do Rio Negro, o excelente Antonio Fagundes vive Halim já avançado em idade, recordando o seu passado, e nos afirmando que “depois, tem certas coisas que a gente não deve contar para ninguém”. Zana e Halim possuem uma outra filha, Rânia (Letícia Almeida). Os pais estão ansiosos à espera de Yaqub (Matheus Abreu, que se assemelha a Cauã Reymond), que vem do Líbano, cuja guerra chegou ao fim. Enquanto os jubilosos pais levam o introspectivo Yaqub para a casa, imagens do cotidiano de Manaus (incluindo as de arquivo) mostram as mudanças da cidade durante os cinco anos em que o moço ficou fora. A única coisa que não mudou foi a constante chuva que se abate sobre a capital (“Só em Manaus, chove assim”, segundo Halim). A chuva faz com que Halim reavive a sua memória, recorde-se como foi a sua chegada à cidade, como um simples mascate (nesta fase, é interpretado pelo ator e cantor Bruno Anacleto, extremamente carismático, tendo se saído muito bem em sua atuação). No restaurante de Galib (Mounir Maasri, também responsável pela crível prosódia do elenco), encanta-se por sua filha, Zana (a doce, bonita e graciosa Gabriella Mustafá), que não lhe dá a mínima (ou apenas finge). Halim teria que vencer a sua própria timidez e o preconceito por ser muçulmano para conquistar a sua adorada. Em uma das melhores cenas da minissérie, com notável interpretação de Bruno Anacleto, Salim recita em público, no restaurante de Galib, um inflamado poema em árabe, dedicado ao seu amor, traduzido pelo seu amigo na rua sob a chuva, Abbas (Munir Kanaan). Após o festivo casamento, o pai viaja para o Líbano, e falece. Zana, por um tempo, cultiva o seu luto. Mas Nael não nos deixa esquecer de que “os mortos um dia acabam morrendo de verdade”. Tudo começa a mudar quando Zana manifesta o seu desejo de ter filhos, três filhos, o que contraria Halim. O casal resolve abrir uma loja, e oferece os móveis do antigo restaurante para um orfanato, representado pela rígida e inescrupulosa freira vivida pela ótima Viviane Pasmanter, que lhe entrega a indígena Domingas (Sandra Paramirim) para lhe servir como criada. Segundo a corruptível irmã, Domingas “tem bons dentes”. Domingas na verdade simboliza a catequização cristã imposta aos índios desde priscas eras. Uma “escravização” do povo indígena em pleno século XX. Aparece em cena, como refresco cômico, o excêntrico casal formado por Estelita (Maria Fernanda Cândido, divertida) e Abelardo (Emilio Orciollo Netto, com uma boa composição), vizinhos de Halim e Zana. A pequena Domingas sacia a sua curiosidade com uma certa obsessão ao observar a troca de carícias entre o jovem par. Zana engravida. Na noite do parto, chove e venta. Primeiro, nasce Yaqub. Após, com dificuldades, Omar, o Caçula, com problemas nos pulmões. Um vaso quebra, como se fosse um prenúncio. A partir daí, não se sabe se pelo seu nascimento arriscado, Zana passa a se dedicar de modo exagerado a apenas um filho. Uma espécie de Sofia que escolheu por vontade própria um único para cuidar. Inicia-se o desmoronamento familiar, e a crônica de um drama anunciado. Halim parecia estar com a razão ao não querer ter filhos. E a rivalidade dos gêmeos já era por ele pressentida. É Carnaval, e toda a família comparece a uma festa onde está Estelita. Ambos os gêmeos (Lorenzo e Enrico Rocha) se interessam pela mesma menina, Lívia (Monique Bourscheid). No instante em que Yaqub fora deixar a sua irmã em casa, Omar conquista a garota fantasiada. Nos dias que se seguem, a tensão entre os meninos cresce. Lívia provoca os dois. Ao som de “Claire de Lune”, de Chopin, “O Garoto”, clássico de Chaplin, chega à cidade, o que deixa as crianças animadas. O filme será exibido na residência extravagante de Estelita, sempre preocupada com os seus macaquinhos. A cabeça de uma boneca sorridente que remexe os seus olhos, observada por Omar, parece anunciar o pior. Entre uma gargalhada de Estelita e uma gag de Chaplin, diante dos olhares trocados entre Lívia e Yaqub, a fúria de Omar só aumenta. Um beijo se consuma entre os dois. Nem a falta de luz o interrompe. Somente um caco de vidro usado por Omar para marcar para sempre no rosto de seu irmão o ódio sentido. A guerra fraterna está apenas em seu começo. A direção de Luiz Fernando Carvalho, como de costume, para quem acompanha seus trabalhos, esmerou-se em todos os detalhes, trazendo à tona com capricho, precisão e cuidado estético uma história dramática consagrada na literatura brasileira. Luiz Fernando é, como sabemos, um “diretor de atores”. Ele não só descobre novos talentos, e os lapida, como potencializa os recursos interpretativos de quem está há mais tempo no ofício. Percebemos que o diretor, cada vez mais delicado em sua visão do panorama narrativo, procurou realçar, com a sua câmera, os pequenos gestos, os movimentos fugidios, o quadro, o móvel, a rede, a escada, enfim, elementos que poderiam passar despercebidos, mas que em suas mãos ganham vida. Valorizaram-se sobremaneira a preparação e o close nos pratos típicos árabes, com a sua miríade de cores (inevitável não nos lembrarmos do longa-metragem dinamarquês “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel, de 1987). A direção de Luiz Fernando é humanizada. Ele faz com que acreditemos naqueles personagens que se põem à nossa frente, com todas as suas emoções, sentimentos, dores e alegrias. O elenco deste primeiro capítulo se destacou com atuações potentes de Antonio Fagundes (seu Halim possui uma melancolia, uma nostalgia associada à ironia), Antonio Calloni (soberbo e intenso como Halim, também), Juliana Paes (uma legítima e passional matriarca, transbordando a sua beleza), Maria Fernanda Cândido (jovial, encarregou-se de imprimir leveza a Estelita) e Emilio Orciollo Netto (hábil na composição de Abelardo). O ator e cantor Bruno Anacleto, natural de Rondônia, foi uma excelente escolha. O rapaz nos cativou em todas as cenas. Torcemos pela sua vitória na conquista do amor de Zana. É um jovem artista que merece outras oportunidades na teledramaturgia. Também merecem os nossos elogios a atriz Gabriella Mustafá. Todos os intérpretes cumpriram com incontestável brilho a incumbência que lhes foi dada, defendendo com dignidade os seus papéis. A cenografia de Juliana Carneiro e Claudio Duque, e a produção de arte de Marco Cortez corresponderam com fidelidade máxima e inconteste encanto à época retratada (os anos 20, e os que se seguiram). Destaque para um avião da Panair do Brasil no hangar do aeroporto. O figurino de Thanara Schonardie seguiu o mesmo caminho de fidelização dos costumes das diferentes fases. A direção de fotografia ficou a cargo de Alexandre Fructuoso, que soube explorar com inteligência as camadas de luminosidade diversas. Há momentos vivazes, com luz natural, outros mais sombrios, num tom azulado, e outros que se aproximam da sépia. A música original de Tim Rescala é indescritivelmente sublime, com distintos acordes de inúmeros instrumentos. Suas melodias possuem o inefável poder de desenhar com emoção todos os quadros que emolduram determinada cena. Tim, a cada produção, supera-se. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguele e do pintor Carlos Araújo é deslumbrante, como há muito não se via. Acompanhada de uma imponente música, testemunhamos pinturas de rostos e corpos expressivos que parecem registrados em pedras de diferentes matizes. “Dois Irmãos” é uma minissérie que tem por desafio transportar para uma outra seara uma obra que já se estabeleceu com sucesso em outro veículo, no caso o editorial. Mas pelo que assistimos em seu primeiro capítulo, esta nova atração da Rede Globo detém todas as ferramentas para se tornar mais uma produção inesquecível da emissora. O telespectador deseja ver, acompanhar, espiar esta jornada dolorosa e emocionante de uma família, marcada por amor, ódio, paixão e ciúme. Queremos ver até que ponto vai a ira entre os irmãos Omar e Yaqub. Se não há algo que possa reverter este laço despedaçado entre eles desde a tenra infância. Se a chuva de Manaus continuará. Quando o pranto de Zana cessará. Se não existe entre esses dois irmãos um resquício sequer de sentimento que não seja tão somente o ódio. Difícil dizer. Nem Zana sabe. Nem os dois irmãos sabem.

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