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Blog do Paulo Ruch

  • “Comemorando 45 anos de carreira, Edwin Luisi, ao lado dos jovens atores André Rosa e Raphael Sander, resgata nos palcos, com o delicado e belo espetáculo ‘Alair’, o legado poético e trágico de um dos maiores representantes da iconografia homoerótica mundial, Alair Gomes”.

    junho 8th, 2017

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    Foto: Elisa Mendes  

    Em tempos soturnos em que prevalecem em vários setores da sociedade pensamentos organizados de homofobia no Brasil, a decisão de se levar aos palcos cariocas uma parte da fascinante trajetória do engenheiro, filósofo, crítico de arte e fotógrafo Alair Gomes constitui por si só um ato de bravura de seus idealizadores. Nascido em Valença, Rio de Janeiro, em 1921, e assassinado por estrangulamento por um rapaz que frequentava o seu apartamento no coração de sua idolatrada Ipanema em 1992, Alair, Edwin Luisi, tornou-se, no futuro, a partir de suas fotos tiradas da janela dos fundos de sua casa no sexto andar de um prédio na Rua Prudente de Morais com vista para a linda praia de seu bairro, ou nela mesma, um dos expoentes da arte homoerótica contemporânea no mundo. O dramaturgo Gustavo Pinheiro se valeu do diário-guia escrito pelo próprio fotógrafo em suas muitas viagens pela Europa, “A new sentimental journey”, de 1983, para alinhavar o arco dramatúrgico de sua narrativa. “Alair” se passa em seu apartamento no qual o artista recebia alguns desses rapazes que fotografava seminus nas areias da Praia de Ipanema nos anos 70 e 80, praticando atividades físicas ou simplesmente em suas posições naturais. A peça aposta em uma conversa direta entre Alair Gomes e o público, como se ele estivesse contando, confidenciando, revelando as suas histórias, acompanhadas de suas percepções, visões e convicções, marcadas por suas experiências únicas em Paris, Roma, Florença e Londres, em que testemunhamos as suas aguçadas e elevadas observação e conclusão do conceito de beleza e estética materializadas na figura do corpo humano masculino. Paralelo a isso, acompanhamos a relação do fotógrafo com embates culturais, comportamentais, intelectuais e íntimos com dois belos rapazes, interpretados por André Rosa e Raphael Sander. André personifica um típico garoto de praia da Zona Sul do Rio de Janeiro das décadas citadas, praticante de surfe, adepto dos trajes despojados da cultura da cidade, e com o falar inerente aos jovens da época. Mantém com Alair um relacionamento no qual percebemos traços de conflito, haja vista que, ao mesmo tempo em que se permite fotografar pelas lentes de seu interlocutor, não admite a condição de se aproximar de uma camada da sexualidade que de certa forma o atemoriza, mas também o atrai. O personagem de André Rosa trava uma luta interna com a sua vaidade nata. Como diz proximamente Alair em uma passagem da peça, os rapazes sabem que estão sendo fotografados, e se aprazem ao serem desejados por seus corpos torneados. O comportamento do moço possui, por vezes, um tom agressivo, inquisidor. No entanto, essa postura se desmonta ao contemplar as suas fotos. Por sinal, contemplar é o verbo que norteou a vida do profissional Alair Gomes. Uma das cenas mais arrebatadoras da montagem se dá quando Raphael Sander descreve com impressionantes minúcias e detalhes (representando a voz de Alair, Raphael entoou um texto dificílimo) as anatomias perfeitas do Davi de Michelangelo. O rapaz defendido por André, a pedido do fotógrafo, posa, desnudo, no alto, como se fosse em um pedestal, como a famosa e universal escultura. Poucas vezes, a nudez no teatro foi tratada com tanta beleza, cuidado e delicadeza. Uma cena essencialmente artística que, certamente, deixou os espectadores alumbrados com a sua pujança estética. Alair trata os rapazes com quem lida como se fossem meninos, e para ele talvez o fossem. Isso é notado nas nuances de humor da encenação, quando lhes oferece repetidamente um “Toddynho” ou “Danoninho”. Por ser um homem incrivelmente culto, sua erudição colide com o desconhecimento cultural dos jovens que o rodeiam. Já Raphael Sander dá vida a um rapaz contido, com ares de circunspecção. O jovem militar nos indica ser um companheiro de Alair. Todavia, o homem jovem demonstra dificuldades em permitir que se torne pública a sua relação mais íntima com o fotógrafo. Sua juventude se confronta, em algumas ocasiões, com a maturidade de seu amante. Vislumbramos na personalidade deste tão jovem militar sentimentos internos também conflitantes, mais uma vez desencadeados pela complexa questão da sexualidade. Tanto no caso do surfista quanto no caso do militar, a virilidade e as identificações do masculino são bastante evidenciadas, ao contrário de Alair, que ostenta uma suave e discreta feminilidade. Em suas andanças pelo continente europeu, Alair Gomes admira os diferentes tipos de beleza do homem e os aspectos notáveis da arquitetura de cartões postais do Velho Mundo. A beleza do homem pode ser descoberta num hippie, pode ser revelada por um rapaz dentro de uma livraria, como pode ser comprovada nos remadores vestidos de Florença. Causava-lhe indignação o fato de homens esportistas e musculosos, habitantes do berço do Renascimento, estarem com os seus corpos cobertos. Nada escapava aos olhos perscrutadores de Alair. As obras de arte, como “A Criação de Adão”, na Capela Sistina, de Michelangelo, ou a própria representação do Cristo morto na cruz foram objeto de suas profundas observações. A dramaturgia de Gustavo Pinheiro se destaca em vários sentidos. Ele procura contar a trajetória deste artista incompreendido por muitos à época, e que hoje, após a sua morte, teve a sua obra, a sua expressão artística mundialmente reconhecida e valorizada, de um modo que tange o poético, o lírico, o sensível, o reflexivo, sem, em nenhum momento, deixar de reunir todos os elementos complementares e constituintes de uma narrativa dramatúrgica consolidada, consistente e atrativa. Seu texto é direto, enxuto, sem delongas. Gustavo se apega somente aquilo que lhe soa necessário nos revelar. Lançando mão do fascínio que o seu personagem real exerce sobre o nosso imaginário, Gustavo focou, como já fora dito, na confidência das histórias de Alair Gomes, que envolvem tanto as suas viagens pelo mundo quanto as suas experimentações como fotógrafo e suas relações, nem sempre fáceis, com os seus modelos fotografados, os rapazes da Praia de Ipanema. Gustavo Pinheiro, autor do sucesso “A Tropa”, consegue atingir com grandes méritos o seu objetivo final. Não se deixou cair na perigosa armadilha de se utilizar do tema que abrange intrinsecamente sensualidade, erotismo e nudez para forçar o apelo natural que o assunto carrega em si. O dramaturgo imprimiu o máximo de singeleza, adotando uma conduta de reverência, e por que não dizer, de homenagem a um artista considerado maldito por alguns. Sua arte e sua vida estão no texto de Gustavo Pinheiro de uma forma exemplar, completa, com diálogos precisos e diretos, aliados aos pensamentos existencialistas, por vezes melancólicos, de um homem que, na verdade, tinha como única e real companheira a sua arte, sustentada pela sua veneração da nudez clássica masculina. A direção de Cesar Augusto prima pela sua assumida delicadeza em retratar o universo deste personagem tão atraente em seus aspectos de personalidade como foi Alair Gomes. Cesar optou pelo mínimo possível de elementos de cena, privilegiando os atores, a linguagem de seus corpos e o impacto das imagens projetadas. Edwin Luisi alterna as suas posições por todo o perímetro do palco, assim como os outros dois intérpretes. As entradas e saídas dos personagens de André e Raphael dinamizam a ação. Os embates entre Alair e os rapazes são feitos inúmeras vezes “tête-à-tête”. Cesar nos proporcionou com a sua direção uma inegável beleza estética ao reproduzir as célebres fotos dos rapazes praianos, conduzindo André Rosa e Raphael Sander na formação fiel e plástica dessas imagens com seus trabalhados corpos. O grande painel que serve como anteparo para a projeção das imagens (fotos de Alair, pontos turísticos que visitou…) também serve para que os atores se coloquem atrás do mesmo, realizando algumas ações físicas, causando um efeito deslumbrante de sombras. São os próprios atores, André Rosa e Raphael Sander, quem exercem a função de contrarregragem, deslocando para as marcas indicadas o telão, a bancada e a cadeira que compõem o cenário. O espetáculo não se estende em desnecessidades, ostentando um caráter objetivo e conciso em suas legítimas intenções. Edwin Luisi, comemorando os seus 45 anos de carreira, com belos trabalhos na TV e no teatro, reconhecido como um de nossos melhores e mais respeitados intérpretes, traz para si este enorme desafio de representar, ao seu modo, o grande artista controverso que foi Alair Gomes. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que somente a presença do ator no palco já provoca na plateia o sentimento de que iremos testemunhar uma memorável atuação. E com Alair, não foi diferente. Edwin captou com sua sabedoria nata e sólida experiência as filigranas que definiriam os principais contornos do perfil do personagem protagonista. Alair é construído por Edwin com bastante sensibilidade e entendimento de seu papel. Não percebemos que o ator quisesse fazer uma transcrição fiel da persona de Alair Gomes, mas sim a sua visão particular, com a ajuda da direção, é claro, do que simbolizou este “menestrel das imagens”. Edwin Luisi compôs o seu personagem com demasiada delicadeza (esta é, sem dúvida, como puderam perceber, a palavra que define o espetáculo). Ele nos passa a naturalidade e a espontaneidade no momento em que as histórias do retratado nos são contadas. A despeito de haver uma discreta melancolia em seu comportamento, não se deixou escapar, por parte do ator, uma bem-vinda dose de ironia à sua conduta, precipuamente no que se refere aos rapazes com quem se relacionava. André Rosa, um cativante ator de teatro, com várias peças em seu currículo, soube, como o rapaz carioca praticante de surfe alvo dos registros de Alair Gomes, identificá-lo com bastante convicção acerca dos aspectos que demarcam as suas ações e reações no trato com o seu interlocutor. Face às diversas circunstâncias, com inegável acerto, André colocou em seu personagem as camadas emocionais que lhe foram solicitadas. Como já lhes disse, ele ora nos apresenta uma conduta inquisidora, levemente agressiva, ora se mostra um rapaz confuso com os desdobramentos advindos do fato de se deixar fotografar seminu por Alair, o que denota o seu preconceito com uma sexualidade que lhe parece incorreta. Ora parece apenas um menino vaidoso ao ver as suas fotos. Seu trabalho de corpo é espetacular, e não nos custa lembrar de sua cena impactante, em seu sentido estético e artístico, ao reproduzir a imagem de Davi, de Michelangelo. Raphael Sander, após exatos dois anos de sua estreia na televisão, dando prosseguimento à carreira neste veículo, pisa nos palcos pela primeira vez nos confirmando sua capacidade de nos provar, com distinta segurança, as intenções mais destacadas de seu personagem. Coube a Raphael defender o jovem militar amante de Alair Gomes. Diferentemente do personagem de André, o papel de Raphael lhe exigiu um grau de sobriedade e comedimento (o que foi cumprido com ampla compreensão), porém com as variações comportamentais atinentes às contingências por que passa. É preciso que se ressalte que Raphael possui uma boa presença cênica, voz articulada e expressividade corporal elogiável. Ele ostenta com a devida verdade a afetividade, demonstrada de modo sutil, pelo artista das fotos. A sensualidade jovem do personagem é sugerida de maneira não ostensiva. Evidencia-nos com clareza a angústia existencial do moço em não desejar a revelação de sua vida paralela com um homem mais maduro para a sociedade. Num repente, deixa que percebamos que é tão somente um rapaz que gosta de uma partida de basquete como tantos outros. Tanto ele quanto André Rosa foram ótimas e acertadas escolhas para fazerem a contracena com Edwin Luisi. O cenário de Mariana Villas-Bôas se baseia em uma economicidade e objetividade que se adequam à encenação. De fato, não haveria necessidade de uma exuberância de elementos cênicos a fim de que os mesmos traduzissem o universo de Alair. Formado por objetos simples, como uma bancada e uma cadeira, além de um grande painel corrediço forrado com tela translúcida, a cenografia cumpre a sua missão de funcionalidade com inegável êxito. O figurino de Ticiana Passos também respeita com dignidade os propósitos de identificação do perfil dos personagens, obedecendo as épocas sugeridas. Para Edwin Luisi, Ticiana optou pela casualidade de seus trajes, em tons neutros. O ator veste uma camisa social de cor clara, uma calça sem ajustes, mais larga, e tênis. O rapaz surfista vivido por André Rosa se apresenta com moletom e bermudas pretos (o intérprete está descalço). Merecem destaque as peças militares usadas por Raphael Sander em seu papel. Todos os paramentos estão presentes. A boina, o pulôver e calça verdes, e os coturnos. Em outro instante, o rapaz veste uma jaqueta de couro preta. Raphael e André desfilam, em determinadas cenas, apenas com calças jeans (seus torsos estão nus, e os pés descalços). A iluminação de Tomás Ribas é deslumbrante, proporcionando-nos vários e únicos momentos de distinta beleza. Tomás se valeu ao máximo de todos os recursos que lhe pareceram condizentes com a atmosfera particular do mundo de Alair. Dois grandes spots (nas partes superiores, tanto à esquerda quanto à direita) exercem função primordial para demarcar as cenas. Os planos se alternam entre os abertos (a luz, no entanto, não é estourada), e aqueles com certo abrandamento de sua intensidade. Tomás se dedicou visivelmente a registrar o valor que as sombras possuem em sua natureza. Essas mesmas sombras são vistas, como disse, a partir dos corpos dos atores que se posicionam, e se movimentam atrás do painel. Os focos assumem reconhecida importância na obra. Só para citar uma das boas utilizações deste recurso técnico, citemos a passagem em que Edwin/Alair recostado sobre o anteparo (a bancada virada) mergulha em algumas de suas reflexões. Em resumo, um trabalho com inquestionável envergadura qualitativa. Coube a Luísa Pitta a sensacional direção de movimento. Luísa executou um indiscutível e louvável “tour de force” no que diz respeito à realização de um elaboradíssimo trabalho de plasticidade dos corpos dos intérpretes. Realmente, arrebata-nos ver ao vivo a reprodução fidedigna, o que não é nada fácil, dos registros fotográficos feitos por Alair Gomes, muitos deles notórios, com os seus personagens reais. André Rosa e Raphael Sander fazem uma bela parceria ao colocarem em prática esta transposição para a realidade do que até então era visto nas impressões fotográficas da obra de Alair espalhadas pelo mundo. O que vemos são uma espécie de “frames” reais destas icônicas fotografias. A postura contida de Edwin Luisi também requer a nossa observação atenciosa. Rodrigo Marçal se encarregou de criar uma trilha sonora que se encaixasse com coerência à ambiência narrativa da peça, com seus fatos e personagens. E logrou vitória ao fazê-lo. Rodrigo, em ocasiões pontuais, insere primorosamente sons incidentais instigantes, e em outros lança mão da envolvente voz de Caetano Veloso com a canção “Mora na Filosofia”, uma composição de Monsueto e Arnaldo Passos. Marcio Mello caprichou no visagismo dos atores. Edwin Luisi exibe cabelos e barbas alinhados. André Rosa adota cabelos ondulados longos, com algumas mechas com tonalidades claras aliadas ao seu castanho, características típicas de um rapaz praticante de surfe das décadas de 70 e 80 (sua barba foi mantida escura, e bem aparada). Raphael Sander se mostra com a sua face imberbe (o que define ainda mais a juventude do militar que representa), e suas melenas estão lisas, em tom escuro, apresentando uma leve desconstrução, o que lhe cai muito bem. Com relação ao videografismo de Renato Krueger, podemos afirmar, com todas as convicções, que o mesmo exerce um papel de extrema relevância no espetáculo em pauta, pois resgata com apurados critérios as imagens eternizadas por Alair, inserindo-nos na profundidade de suas visão e ótica do semelhante masculino. As fotos de Alair Gomes, do Acervo da Fundação Biblioteca Nacional/Brasil, em projeção, não apenas reproduzem a sua obra real, mas colaboram com vitalidade para a nossa interpretação de sua arte. Também são interessantes as imagens dos locais e pontos turísticos que foram visitados pelo fotógrafo, como o Coliseu de Roma. “Alair” é um espetáculo que se confirma como obrigatório de se assistir por uma série de razões. Citemos uma delas. Aproveitando o fato de terem passados 25 anos do assassinato brutal e covarde de Alair Gomes por um de seus supostos amantes, a peça protagonizada por Edwin Luisi vem à baila nos palcos nacionais numa hora mais do que oportuna. Cada vez mais somos assombrados constantemente por estatísticas que indicam a truculência cometida dia após dia contra os homossexuais no Brasil. A classe política venda seus olhos para essa calamidade social. A intolerância à diversidade sexual é estimulada de modo público e escancarado por segmentos políticos (governantes e suas políticas de governo, políticos representantes de diversas esferas com seus inacreditáveis projetos etc), e pasmem, até setores religiosos possuem a sua parcela de culpa na disseminação da discriminação sexual. O caso é grave não somente em nosso país, mas em diversas nações no mundo. Há fortes movimentos que se empenham em transformar esta triste realidade. Mas os mesmos não podem ficar isolados em suas reivindicações em bastantes casos sequer ouvidas. Os crimes não podem se resumir a números frios noticiados em páginas de jornais. A mudança passa pela educação. A educação em casa e nas escolas, porquanto a maior amiga da intolerância é a ignorância. As Artes, com seu poder de comunicação e esclarecimento, têm feito a sua parte. Seja na TV, seja nos cinemas, e até mesmo em campanhas publicitárias de marcas populares. Neste exato momento, um dos representantes que lutam para dirimir esta mazela, ao retratar com absoluta dignidade, elevada bravura e inconteste nobreza, é “Alair”, uma peça teatral que retrata a vida e a obra de um homem, sim, um homem com a sua câmera fotográfica na mão que queria tão somente a sua liberdade. A sua liberdade de ser quem ele era. A sua liberdade de expressar os seus desejos, exercendo o inalienável direito de trabalhar com a sua arte. Pagou um preço alto por isso. “Alair” nos reporta a essas reflexões. Todos, eu digo todos, principalmente os intolerantes, deveriam assistir a “Alair”.

  • “Aproveitando com brilho e dignidade uma das melhores chances de sua carreira, Emílio Dantas se sobressai em ‘A Força do Querer’, novela das 21h da Rede Globo, como Rubinho, um jovem chefe de família acima de qualquer suspeita com irrefreável vocação para o crime”.

    junho 3rd, 2017

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    Foto: Gshow

    Ele é bonito, jovem, simpático, educado e comunicativo. É casado com uma bela mulher, Bibi (Juliana Paes), que o ama intensamente, e pai de um filho, Dedé (João Bravo), que o admira. Rubens Feitosa, ou Rubinho (Emílio Dantas), como é mais conhecido, é um aplicado estudante de Química, mas não concluiu a faculdade. Fala vários idiomas, o que deixa os seus pares impressionados. Realiza com habilidade uma série de consertos domésticos para os seus vizinhos, conquistando-os irremediavelmente. Conseguiu uma boa casa para morar com sua família, quando até então dormia com a sua esposa no chão frio e insalubre de um espaço que servia de depósito para um bar, na companhia de ratos. Seu filho ficava com a avó Aurora (Elizangela). Empregou-se como maître de um sofisticado restaurante (um pedido de Caio, Rodrigo Lombardi, a Dantas, Edson Celulari, seu proprietário). Tudo parecia estar dando certo para Rubinho. Porém, não lhe era o suficiente. Ele queria mais. Muito mais. Começou a dar telefonemas suspeitos. Passou a não frequentar as aulas de seu curso acadêmico. As desculpas e mentiras contadas como justificativas de suas seguidas ausências no trabalho e em casa recrudesceram. Não satisfeito em pagar o módico aluguel de sua residência, decidiu comprá-la com um vultoso sinal. Sempre com um sorriso aberto e cativante no rosto, o rapaz de forte presença cria expectativas em Bibi com promessas megalômanas, para a desconfiança de sua sogra. Sempre que pode oferece regalos à sua esposa. Comunica aos seus familiares que agora está fazendo corretagem entre os abastados clientes do restaurante, desagradando Caio, o ex-namorado de Bibi que decidiu ajudá-los para “se sentir por cima”, depois de ter sido traído pela moça (com Rubinho) que adora pagodes e uma cerveja gelada, quando estavam prestes a se casar. Vangloria-se de que a vida de todos irá mudar, de que irá “entrar numa grana preta”. Bibi, talvez por amá-lo tanto, não consegue enxergar que algo errado está acontecendo. Suas cismas são com possíveis traições conjugais. Nada que um vistoso vestido novo a faça esquecer de suas efêmeras dúvidas. A ostentação de Rubinho ganha proporções cada vez maiores. Resolve, após um episódio traumático narrado a seguir, viajar com a sua parceira para uma pousada portentosa em Angra, no Rio de Janeiro. Ele acha que o dinheiro é a solução para tudo, e este pensamento alimenta a sua desmedida ambição. Para Bibi, com seu incontido romantismo, o que vale é o amor. O exibicionismo material do marido chama a atenção de sua vizinha Heleninha (Totia Meireles). O menino Yuri (Drico Alves), seu filho, considerado um alienado por ser adepto de “cosplays”, esbanja esperteza, e percebe a conduta duvidosa do rapaz de barbas ruivas bem cuidadas. Yuri o flagra entrando apressado em um carro de cor escura, quando havia dito para a sua mulher que tinha pegado um táxi. Como um bom adolescente dos dias atuais, registrou o fato em fotos. O menino que se inspira em personagens de animes japoneses para se vestir, ainda tem o que revelar. As conversas do maître com estranhos se tornam mais claras para o público. Rubinho é um traficante de drogas, e está se preparando para participar de uma ousada entrega de entorpecentes no Rio de Janeiro, envolvendo uma quadrilha altamente perigosa e organizada. Sua função seria acompanhar o comboio ao lado de um outro traficante, também com boa aparência. Bibi, vítima de sua acentuada ingenuidade, crê que o seu esposo foi fechar um rentável negócio de corretagem. Imprudentemente, o “aprendiz de traficante” faz uma ligação telefônica para ela, sem sequer imaginar que estava sendo interceptada pela polícia comandada pela durona oficial Jeiza (Paolla Oliveira). Em uma cena reconhecidamente bem conduzida pela equipe de diretores de “A Força do Querer”, de Gloria Perez, liderada pelo diretor de núcleo Rogério Gomes, com a direção geral de Pedro Vasconcelos, tendo como uma das locações a Ponte Rio-Niterói, a tropa militar capitaneada pela Major Jeiza já está a postos para desbaratar a organização. A operação policial provoca um imenso engarrafamento de veículos, dentre os quais se encontra o de Rubens com o seu comparsa. Antes disso, há uma observação interessante do maître com propensões para o crime. Ele já pensa em crescer na hierarquia da quadrilha. No momento em que os traficantes são desmascarados, Emílio Dantas exibe impressionante e convincente tensão de seu personagem, comprovando-nos de que compreendeu com inteligência interpretativa o perfil imaginado pela autora. Ali, naquele instante, testemunhamos o patente medo do criminoso amador na iminência de ser pego. Uma troca de tiros entre policiais e bandidos é deflagrada, nada que não nos pareça familiar no Estado do Rio de Janeiro, principalmente com civis inocentes na rota dos disparos. Desesperado, Rubinho sai do carro, e adentra num ônibus lotado de passageiros parado logo atrás. Jeiza vê o exato momento em que Rubinho se comunica com o seu cúmplice, minutos antes. A policial praticante de MMA detém o rapaz, e o leva à delegacia. Lá, estarrece-nos a ímpar capacidade de Rubinho em levar as suas mentiras às últimas consequências. Nesta hora em que mente, demonstra ser um qualificado profissional do crime. Consegue arranjar um álibi, o que acaba convencendo o delegado de plantão de sua inocência. Mas não Jeiza. Realmente, a sua boa estampa, a sua lábia afiada, o fato de possuir um emprego fixo em um lugar prestigiado facilitaram com que a sua versão fosse aceita pela autoridade. Além do mais, Jeiza não tinha provas, mas apenas uma “impressão” de que o rapaz estava envolvido no crime. A oficial não se conforma, e promete a si mesma que irá provar a participação do depoente. Rubinho volta para a sua casa com uma indignada Bibi. Em outra cena bastante interessante da novela das 21h da Rede Globo, que tem se destacado pelos ótimos núcleos, e pela abordagem de assuntos pontuados pela sua relevância, a policial vai com o seu namorado machista, o divertido Zeca (Marco Pigossi) a um restaurante. E, claro, trata-se do local de trabalho do alvo de investigação da filha de Cândida (Gisele Fróes), a desembaraçada moradora de Portugal Pequeno, em Niterói, no Rio de Janeiro. O clima latente de enfrentamento entre Jeiza e Rubinho foi um ponto alto dos recentes capítulos da trama. Enganou-se o telespectador ao pensar que Rubinho interrompesse as suas práticas delituosas, pelo menos após o susto que tomara. Rubens voltou mais voraz do que nunca. Os telefonemas fora de hora retornaram. O jovem aparece na porta de casa com um moderno e caro carro, possivelmente o mesmo conduzido pelo seu comparsa na noite em que Yuri os flagrou. O menino novamente registra com fotos, e as guarda. Bibi, mais uma vez, acredita na prosperidade quase mágica de seu marido. E com ela, as desconfianças dos demais também se acentuam. Nos capítulos de ontem e anteontem, Jeiza se dedica a ouvir com cautela e paciência a mensagem de áudio interceptada por sua equipe. Ela ouve. Ouve. Aquela voz lhe soa conhecida. Num competente trabalho de junção de imagens da direção, a moça se recorda de seu reencontro com o maître, e a sua dúvida se dissipa, dizendo proximamente: “É o maître…”. E após: “Bingo!”. Rubinho está organizando uma badalada festa de aniversário para sua esposa na gafieira frequentada por parte dos personagens, com direito à apresentação de um cantor popular. O capítulo de ontem nos mostrou a decisão de Jeiza de prendê-lo no instante da celebração, fato que, com certeza, garantirá ótimas cenas de conflito na exibição da novela hoje à noite. A partir da prisão de Rubinho, iniciar-se-á a história baseada em fatos reais de Fabiana Escobar, a “Bibi Perigosa”, que se tornou a “Baronesa do Pó”. Atualmente, Fabiana, que foi casada com um traficante de drogas de uma comunidade carioca, exerce a profissão de escritora. Com isso, a novela de Gloria Perez terá novas engrenagens dramatúrgicas que movimentarão substancialmente a ação de seu folhetim, elevando o interesse do público. A razão desse texto também é o de ressaltar o admirável trabalho de interpretação do ator Emílio Dantas. Emílio soube com extrema destreza e apuro construir o seu papel de modo que nos envolvêssemos com a sua trama, despertando-nos sentimentos distintos com relação à sua postura. Emílio, um carioca que veio de uma carreira musical em bandas, e um estrondoso sucesso ao personificar no teatro o cantor e compositor Cazuza em “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, O Musical”, tendo recebido inúmeros prêmios, tornou-se indiscutivelmente uma das inegáveis surpresas de “A Força do Querer”. Apesar de, a princípio, a carreira de ator não ter estado em seus planos, espetáculos sob a direção de Oswaldo Montenegro (“Aldeia dos Ventos” e “Eu Não Moro, Comemoro”), fizeram com que Emílio mudasse, que bom, de opinião. Sua colaboração com Oswaldo Montenegro prosseguiu na área cinematográfica, com o longa “Léo e Bia”. Com Caio Sóh, filmou “Teus Olhos Meus”. Há outros filmes em seu currículo, como “Linda de Morrer”, de Cris D’Amato, “Em Nome da Lei”, de Sergio Rezende, e “Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood”, de João Daniel Tikhomiroff. Em setembro, estará na próxima produção de Vicente Amorim, o thriller de terror “Motorrad”. Nos palcos, o intérprete ainda participou de um outro musical de imensa repercussão: “Rock in Rio – O Musical”. Na televisão, defendeu personagens em telenovelas da Rede Record (“Sansão e Dalila”, “Máscaras” e “Dona Xepa”), até ser contratado pela Rede Globo para dar vida ao vilão Pedro de Lucca nas duas fases de “Além do Tempo”, novela de Elizabeth Jhin (Emílio foi considerado uma revelação). Mas sua grande chance, sem dúvida, de mostrar o seu talento para milhões de brasileiros tem sido em “A Força do Querer”, uma telenovela do horário nobre da Rede Globo que vem recebendo excelente aceitação do público e crítica. Emílio Dantas soube agarrá-la, e fez de Rubinho um sucesso. Hoje, Emílio Dantas é um ator com o seu mérito e brilho fortalecidos. Justamente, porque houve o seu querer em convencer com dignidade um personagem que não quis vencer. Mas Emílio Dantas, com seu sorriso cativante e olhos que o acompanham, soube fazer de sua oportunidade uma vitória unânime.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    maio 29th, 2017

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Allan Lima, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, durante a temporada Verão 2015/2016.
    Allan é agenciado pela Elite Model Management Milano e pela Ford Models Brasil.
    Nasceu em Ouro Fino, Minas Gerais.
    O jovem pensava em ser jogador de futebol, mas em 2013 a segunda colocação em um concurso de modelos, na categoria “New Faces”, promovido pela Ford Models e por uma loja de departamentos mudou o rumo de suas aspirações.
    Passou uma temporada na capital da moda Milão, onde pôde estrelar editais e participar de desfiles.
    Nesta temporada da SFFW, circulou pelas passarelas da TNG.
    Na mesma semana de moda, também foi escalado para os casts de Colcci e Coca-Cola Jeans.
    Fez um editorial, com fotos de Karine Basilio, para a “Glamour Brasil” chamado “Amor Livre”, e outros para o Village Mall, West Coast/João Pimenta (Inverno/2016) e SUIXD.
    Em outubro de 2015, em matéria publicada no site FFW, Allan foi apontado como um modelo “para se ficar de olho”.
    Em Ravello, na Itália, foi modelo de uma campanha da marca de joias Luca Barra Gioielli.
    Na São Paulo Fashion Week Verão 2017, vestiu peças da grife A La Garçonne.
    Também desfilou para Ricardo Almeida.
    Recentemente, Allan Lima participou de uma campanha publicitária, com vídeos e fotos, para a marca de roupas Handbook etc… Coleção Inverno 2017.

    Agradecimento: TNG

  • “Lilia Cabral, uma das mais populares e talentosas atrizes do país, na novela das 21h da Rede Globo, ‘A Força do Querer’, dá vida a uma bem-sucedida mulher que se vê vítima de um drama pessoal progressivo que pode levá-la para um abismo sem fim: a compulsão pelos jogos.”

    maio 23rd, 2017

    silvana
    Foto: TV Globo

    Dentre tantos assuntos tratados em sua novela, Gloria Perez tem despertado a nossa atenção para um problema de saúde pública que acomete uma parcela de nossa população: a compulsão pelo jogo. E para representá-lo, a autora escalou uma de nossas atrizes mais talentosas e populares, Lilia Cabral. Não se sabe ao certo quantos jogadores patológicos existem atualmente no Brasil, o que muito se deve à clandestinidade de certas práticas proibidas no país. A também chamada ludomania já é reconhecida como uma doença por especialistas na área, semelhante ao alcoolismo, tabagismo, e ao consumo de drogas. Segundo informações colhidas na área de Coordenação do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO – AMJO), do Hospital das Clínicas de São Paulo, “o jogo compulsivo estimula as mesmas áreas cerebrais (do jogador), sendo o seu comportamento bem semelhante ao do viciado em drogas. Um comportamento compulsivo impulsivo, cuja única diferença que há é o não consumo de uma substância. Mas existe um comportamento que se repete várias vezes na prática de uma atividade”. Felizmente, há tratamentos disponíveis para esse distúrbio psíquico e comportamental, como, inclusive, os “Jogadores Anônimos”. No caso da personagem interpretada por Lilia Cabral, a bem-sucedida arquiteta Silvana, temos uma mulher bonita, madura, casada com um rico empresário (Eurico, Humberto Martins) e mãe de uma filha, Simone (Juliana Paiva). Silvana assume uma dupla postura. Por um lado, é extremamente racional, generosa e sociável (empenha-se com denodo para que Irene, Débora Falabella, sua colega de profissão, não prejudique o casamento de seu cunhado Eugênio, Dan Stulbach). Participa de eventos sociais exibindo elegância, simpatia, bom humor, desenvoltura e naturalidade. E por outro, mostra-se alguém totalmente vítima de sua compulsão pelos jogos, capaz de cometer as maiores insanidades para acobertar o seu vício e mantê-lo. Os principais conflitos, como era de se esperar, ocorrem dentro de sua própria casa, com o marido e a filha. Umas das evidências mais significativas deste distúrbio é a não aceitação do problema pelo jogador compulsivo, além da reiteração de mentiras. Eurico crê que Silvana se livrou desta compulsão, uma ideia alimentada pelas constantes invenções da esposa. Um dos atos mais graves cometidos pela arquiteta envolveu a sua amiga Joyce, Maria Fernanda Cândido. A fim de encobrir uma avolumada perda financeira, R$50.000,00 em um único dia em poucas rodadas de jogos, a mãe de Simone pegou emprestada uma bolsa de grife da concunhada com o intuito de explicar ao irascível marido o porquê do montante sacado em sua conta bancária (a suposta compra da bolsa). Desculpas esdrúxulas se sucedem. Depois de recuperar parte da quantia (R$15.000,00) no jogo, claro, cada vez mais se perdendo em ardis, convence o marido a lhe comprar um carro novo num consórcio, o que acaba não dando muito certo (aproveitar-se-ia de suas prestações). Outra característica que percebemos na personagem de Lilia (que visitou o grupo “Jogadores Anônimos” para se preparar para o papel) é uma acentuada alienação. Silvana não se dá conta da gravidade de sua situação. Diversas vezes ri e se vangloria de suas “vitórias”. Sai do estado de desespero e agonia para o de contentamento assim que atinge os seus objetivos com bastante assiduidade. Sua empregada doméstica Dita (Karla Karenina) lhe serve como confidente de seus desvios. Não lhe resta o que fazer senão preservar a patroa, ajudando-a no mascaramento de sua conduta reprovável, a despeito de sua real preocupação. Ao notar que as suas apostas estão lhe causando visíveis prejuízos conjugais, Silvana, que foi chantageada pela perigosa Irene, decide saciar sua compulsão em games na internet. Mas sempre valendo dinheiro. Sua filha descobre, e bloqueia os sites. Para a jogadora, centenas de reais não são nada, são “merrecas”. Simone se impõe perante a mãe, e lhe aconselha a procurar auxílio psicológico. Jamais passa pela sua cabeça de que esteja doente. A elegante mulher ainda não atentou para o fato de que está se dirigindo para o fundo do poço. Seu trabalho como arquiteta, até então valorizado, começa a ser afetado. Silvana não atende às ligações dos clientes, não entrega projetos, não comparece às reuniões. Quando Eurico descobrir a verdade escondida por sua esposa, o casamento poderá ruir. A falência financeira da apostadora é uma questão de tempo. Em uma cena recente, Silvana furta uma quantia de dinheiro de seu marido. Acha que não fará falta. Vendo que os funcionários, o motorista Nonato (Silvero Pereira) e a secretária da empresa Biga (Mariana Xavier) foram considerados suspeitos, salva-os… contando uma mentira. Dos pequenos delitos nascem os grandes. Empenhou suas joias. Pediu dinheiro emprestado a Caio, Rodrigo Lombardi, mentindo sobre a razão de lhe pedir (disse que seria para o conserto do seu carro; Caio, sabedor de seu vício, tão logo descobriu). Silvana, pouco a pouco, perde-se em um emaranhado de erros, em que noções de valores de ética e moral são ignorados. No tocante a outro elemento que distingue a personalidade de um jogador patológico, e que facilmente é reconhecido em Silvana, é o tipo de conduta que a leva a jogar sempre mais: se numa mesa de pôquer perde, joga de novo para recuperar o que perdeu; se ganha, julga estar com sorte, e que esta lhe proporcionará mais ganhos. É um círculo literalmente vicioso e temerário. Há entre os jogadores um código tácito de respeito às “regras do jogo”. Não há leniência para o jogador que perde. Se perdeu, não importa o valor, tem que pagar. Não sabemos até que ponto pode ir uma cobrança. Silvana mesma foi cobrada na porta de casa por não ter respeitado estas “leis”. O último de seus excessos cometidos foi o furto de um relógio valioso do pai de Eurico. Age realmente como uma viciada em drogas. A novela “A Força do Querer” nos mostra que a compulsão por jogos é democrática. Ela pode atingir uma mulher culta e educada, com nível superior, bem casada e sofisticada. A escolha de Lilia Cabral para dar vida a esta mulher cheia de angústias, aflições e ansiedades infiltradas em uma rotina aparentemente normal aos olhos dos outros foi acertadíssima. Lilia, uma de nossas mais prestigiadas atrizes, com um currículo respeitável na televisão (“Vale Tudo”, “Tieta”, “A Favorita”, “Viver a Vida”, “Fina Estampa” e “Império”), no teatro (“Solteira, Casada, Viúva, Divorciada”, “Divã” e “Maria do Caritó”) e cinema (“Divã”) possui uma admirável qualidade de fazer com que o público conduza a sua atenção para os contornos interpretativos que desenha para o seu papel. Ela pode ser tanto uma secretária fofoqueira e uma carola, quanto uma esposa maltratada pelo marido, uma mãe que se sacrifica pela filha, uma mulher do povo, ou alguém com poder, força e sofisticação, não importa, Lilia Cabral consegue abrilhantar cada um desses tipos tão distantes um do outro. A atriz, que ostenta belíssimos sorriso e olhos, cativa-nos com as suas emoção, verdade e presença cênica. Não nos parece que se utilize de técnicas. A sua ferramenta de atuação é a sua legítima vocação para orná-la com o máximo de nuances que lhe conferem indiscutível credibilidade e empatia. O seu trânsito com incrível desembaraço pelo drama e comédia é um de seus inquestionáveis méritos como artista. Costumo dizer que há certas atrizes que nos emocionam, e Lilia Cabral é uma delas. A abordagem deste tema por Gloria Perez em “A Força do Querer”, valendo-se de uma atriz do porte de Lilia Cabral, é demasiado válida. Que sirva de alerta para os telespectadores acerca dos riscos que são intrínsecos às compulsões, que são muitos. Que sirva de incentivo para aqueles que padecem deste transtorno em pedir socorro médico. Que convença que o jogo só justifica a sua existência quando o seu alvo é a diversão. Que as apostas de Silvana, assim que reconhecer o seu complexo drama, não sejam mais em uma mesa de pôquer, e sim na reconquista das suas perdidas felicidade e paz. Basta que Silvana tenha força. Basta que ela queira. Basta que interrompa este “jogo da vida” perigoso que criara para si mesma. Apostas encerradas.

  • “Gloria Perez, como autora, e Carol Duarte, como atriz, ao interpretar Ivana, em “A Força do Querer”, novela das 21h da Rede Globo, levam com delicadeza e sensibilidade para o grande público um dos temas mais atuais e discutidos da sociedade no que tange à identidade do indivíduo, a transgeneridade”.

    maio 15th, 2017

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    Foto: Divulgação/TV Globo

    Não é a primeira vez que a teledramaturga Gloria Perez aborda as questões de gênero em suas novelas. Em “Explode Coração”, de 1995, na mesma Rede Globo, o personagem do ator Floriano Peixoto se chamava Sarita, era considerado um travesti, e se apresentava na noite em shows característicos. A maneira natural com que o assunto fora tratado, e a forma digna com que o papel fora defendido por Floriano não proporcionaram a rejeição do público. A figura de um travesti levando a vida como artista, não se entregando à prostituição, como a maioria faz por falta de oportunidades no mercado de trabalho e pela oposição familiar, no horário nobre de uma emissora de grande alcance no Brasil já poderia ser interpretado como um importante avanço. Mais de duas décadas se passaram, algumas coisas mudaram e outras se mantiveram. As discussões sobre as identidades de gênero entraram na pauta de relevantes debates, sendo o tema retratado em filmes, peças teatrais e produções televisivas. Podemos pegar um exemplo da época do folhetim. No longa-metragem de Stephan Elliott, “Priscilla, A Rainha do Deserto”, lançado um ano antes, o respeitado ator britânico Terence Stamp personificou um travesti que trazia consigo tanto a graça quanto a sensibilidade. Recentemente, uma das atrizes brasileiras mais belas e femininas, Carolina Ferraz, a despeito, segundo a própria, de não ter sido incentivada a fazê-lo, interpretou um travesti no filme “A Glória e a Graça”, de Flávio Ramos Tambellini. No teatro, o projeto da dramaturga Marcia Zanelatto, “Ocupação Rio Diversidade”, faz sucesso desde 2016, mantendo-se em cartaz até hoje. O ator Luis Lobianco transpôs para os palcos, com a montagem “Gisberta”, a trágica história de um transexual brasileiro que foi cruelmente assassinado em Portugal. O autor Aguinaldo Silva ofereceu ao ator Ailton Graça, acostumado a papéis viris, a chance de vivenciar com brilho o travesti Xana Summer, na novela “Império”. Gloria Perez, sempre preocupada com as questões sociais e de comportamento, abriu mais uma porta para os transgêneros ao entregar uma personagem a Thammy Miranda em seu penúltimo folhetim, “Salve Jorge”. Os dados negativos nesses 20 anos apontam que o Brasil é o país no mundo que mais mata travestis e transexuais. Criou-se o termo “transfobia”. E a legislação brasileira ainda é bastante permissiva e omissa com os crimes motivados pela homofobia em nosso território. Quando foi anunciada a próxima novela de Gloria Perez, soubemos que haveria uma personagem com dificuldades de identidade de gênero. A curiosidade sobre como este assunto, que demanda sutilezas em seu trato e amplo entendimento, seria abordado gerou expectativas. Contrariando alguns segmentos que defendiam a escalação de uma atriz trans, Gloria preferiu que fosse convidada uma intérprete cisgênero, ou seja, uma mulher que se identificasse com o seu gênero. Gloria Perez foi mais além ao ofertar o papel a uma atriz desconhecida que tinha somente experiências no teatro. Passamos a conhecer Carol Duarte, estudante da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP (Universidade de São Paulo). Já nos primeiros capítulos de “A Força do Querer”, percebemos que a intérprete de Ivana, filha da socialite fútil e preconceituosa Joyce (Maria Fernanda Cândido) e do ponderado e generoso advogado Eugênio (Dan Stulbach) teria tudo para honrar a enorme responsabilidade que lhe fora dada pela teledramaturga e pela emissora. Carol Duarte, extremamente bem dirigida pela equipe comandada pelo diretor artístico Rogério Gomes, que conta com a direção geral de Pedro Vasconcelos, criou com impressionante grau de veracidade, legitimidade e emoção uma personagem fascinante e encantadora pela riqueza de seus múltiplos detalhes, imiscuídos na complexidade de sua personalidade. Ivana é uma moça de classe alta que se realiza jogando vôlei na praia, e seu sonho é se tornar profissional neste esporte. Tem como sua melhor amiga a prima Simone, vivida por Juliana Paiva. Além de se dar muito bem com o pai, possui uma boa relação com a governanta da casa, Zu (Cláudia Mello). Para entendermos melhor Ivana é preciso que voltemos à sua infância. Sua mãe Joyce, uma referência de beleza, resolve transformar a sua filha na “menina mais estilosa do Brasil”. Ivana, às vezes com a mesma roupa de sua mãe, estampava as capas das principais revistas de moda. Porém, a menina cresceu, e trocou as roupas femininas e fashion que lhe foram impostas pelas camisas largas de seu irmão Ruy (Fiuk). Ivana não manifesta quaisquer sinais de vaidade. Não se maquia, não solta o cabelo, não usa salto alto. Sua postura é curvada, e seu andar é desengonçado (prova do ótimo trabalho de corpo de Carol). Até a sua maneira de falar, por instantes, é um pouco masculinizada. Tudo isso vai de encontro ao que Joyce imaginou para a sua filha, o que, obviamente, gera um conflito entre ambas. Já se sentindo incompreendida pelos que a cercam, após conversas frustradas com o seu pai, com a sua prima e com a governanta, os problemas que a atormentam só se avolumam, e sua relação com a autoestima, tendo o espelho como reflexo literal disso, piora. A jogadora de vôlei conhece na praia um rapaz, colega de esporte, Cláudio (Gabriel Stauffer). Mesmo se distanciando do padrão de beleza das moças modernas da Zona Sul do Rio de Janeiro (Carol Duarte é uma mulher bonita, com um sorriso cativante e cabelos exuberantes), conquista as atenções do jovem, que é retribuído. A partir deste momento, a aproximação dos dois faz com que a “ex-menina mais estilosa do Brasil” comece a se defrontar abertamente com a sua sexualidade. Ivana possui dificuldades não só em aceitar elementos femininos em sua vida, mas também em dar e receber afetos de um homem. Ela não entende as lisonjas de cavalheiro de Cláudio, como puxar a cadeira de um restaurante, ou ajudá-la a escolher um prato. Sente atração por ele, no entanto vê impeditivos, que lhe são desconhecidos, para a concretização de seus desejos. Rejeita os toques físicos do moço. Um final de semana numa pousada em Angra acabou de vez com as esperanças de que houvesse um relacionamento mais íntimo entre o par. Dúvidas quanto à sua orientação sexual surgem com incontida força. Trava uma batalha silenciosa com o espelho. Ela se olha, e não se vê refletida. O corpo que habita não lhe é confortável. Os seus seios lhe são indesejáveis. Ela os soca. Uma faixa os oprime. A prima Simone resolve marcar uma consulta com uma psicóloga. Ivana está disposta a se ajudar, e recorre aos seus auxílios. Entretanto, acaba mais confusa. Tentando ir em busca de sua feminilidade, afasta-a ainda mais. A lingerie sensual em seu belo corpo lhe soa despropositada e esquisita. Ivana começa a entrar em um processo de depressão, como se estivesse gritando o seu último pedido de socorro. A autora Gloria Perez faz um coerente paralelo entre a situação mal resolvida de Ivana quanto à sua identidade e o comportamento de Nonato, o motorista do empresário Eurico (Humberto Martins). Nonato, interpretado pelo ator cearense Silvero Pereira (Silvero, que também é dramaturgo, destacou-se no teatro com o monólogo “BR-Trans”, que narrava histórias baseadas em fatos reais de travestis, transexuais e transformistas de diferentes estados brasileiros), apesar de ser um travesti que se apresenta em shows, em nenhuma passagem sente repulsa pelo seu corpo, muito pelo contrário, aceita-o pacificamente, querendo tão somente explorar a sua porção feminina. Algumas questões são levantadas nesta fase da novela “A Força do Querer”. Em que momento Ivana irá se dar conta de sua condição de transgênero? Qual será o ponto de partida? Será que a personagem aceitará facilmente a sua transformação? Irá até as últimas consequências para se aproximar o máximo possível do gênero masculino? Quem a apoiará? Será que haverá a redenção de sua mãe, que diz amá-la incondicionalmente? Como serão as reações de seu pai, irmão, prima, e de sua amiga, a governanta? Qual será o papel da psicóloga neste processo? Ela mudará o seu nome social? A autora promoverá um encontro entre Nonato e Ivana a fim de que o primeiro possa auxiliá-la? E o seu tio Eurico, que não esconde seu caráter preconceituoso e homofóbico? São bastantes perguntas que se fazem. Ivana será um homem, transgênero, que sente atração por outro homem. Ivana será então homossexual (homem trans gay). E Cláudio? Como o rapaz da Zona Sul carioca encarará a nova realidade de sua antiga ou presente paixão? Muitos desafios são impostos. Para a autora Gloria Perez, para a atriz Carol Duarte e para os telespectadores. Como estes reagirão, os principais “juízes” de uma novela? “A Força do Querer” é uma única e preciosa oportunidade que se tem, utilizando-se o alto poder de comunicação da televisão, inclusive o das telenovelas, de se discutir esta questão real em nossa coletividade, perante a qual são se pode vendar os olhos. Será um indiscutível progresso para a luta dos transgêneros na sociedade civil pelos seus direitos se houver uma receptividade positiva aos desdobramentos da vida da personagem Ivana. Já temos o talento e a sensibilidade de Carol Duarte. Já temos a habilidade, a percepção e a delicadeza de Gloria Perez para lidar com temas áridos. Resta-nos torcer pela tolerância do público, demonstrando que sabe conviver com a diferença. Resta-nos ter a esperança de que o telespectador respeite a força do querer de Ivana, a “ex-menina mais estilosa do Brasil”.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    maio 7th, 2017

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    Foto: Paulo Ruch

    A modelo Lana Forneck na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, durante a temporada Verão 2015/2016, no Parque Cândido Portinari.
    Nascida em Harmonia, Rio Grande do Sul, Lana hoje é contratada pela Ford Models Brasil (outra agência à qual pertencera foi a Marilyn Agency NY).
    Sua paixão em ser fotografada foi percebida na infância, sendo incentivada pelos seus pais a participar de concursos de modelos e a se inscrever em agências especializadas.
    Tudo começou a mudar para a jovem quando ficou em segundo lugar em um concurso realizado na cidade gaúcha de Gramado que teve a participação de dez mil candidatas (a ótima colocação, com apenas 14 anos de idade, rendeu-lhe a contratação para importantes trabalhos).
    Sua carreira ascendeu rapidamente, e já contratada pela Ford Models desfilou na New York Fashion Week.
    As portas para Milão e Paris se abriram, o que a fez circular pelas passarelas italianas e na Fashion Week Paris.
    Chegou um momento em que a profissional era contratada por diversas agências espalhadas pelo mundo, como a Premium Models (Paris), a Fashion Model Management (Milão), a Established Models (Londres), a Francina Models (Barcelona) e a MUGA Model Management (Hamburgo).
    Em 2014, na São Paulo Fashion Week, Lana vestiu as coleções de Adriana Degreas, Patricia Mota e Têca por Helô Rocha.
    Na apresentação do desfile de Primavera Verão 2016 de Matthew Miller, em Londres, Lana Forneck trajou as apostas do estilista, com toques masculinos, para as mulheres (vale ressaltar que esta semana de moda é voltada para os looks masculinos).
    Mais um de seus trabalhos relevantes foi desfilar para a Ralph & Russo Haute Couture Outono/Inverno 2015/2016.
    Recentemente, a modelo também mostrou toda a sua beleza e desenvoltura nos desfiles de oito marcas na Portugal Fashion Outono/Inverno 2017/2018.
    Além disso, Lana Forneck foi clicada para a “Streets Magazine”, de Londres, por Annie Bundfuss.

    Agradecimento: TNG

  • “Muito bem acompanhado por sete atores que cantam e tocam instrumentos musicais, Alexandre Nero, no belo e reflexivo espetáculo ‘O Grande Sucesso’, põe em pauta várias questões atinentes ao ofício do ator, como o fracasso e o sucesso, e por extensão, ao ser humano, abordando temas que lhes são inatos, como o sentido da vida (ou a sua falta) e o porquê da morte (se é que o temos). “

    abril 25th, 2017

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    Foto: Priscila Prade

    Falar de sucesso não é uma tarefa fácil. Muito menos de fracasso. No entanto, estes dois fatos, amplamente significativos em sua condição, inerentes à própria vivência humana, jamais podem ser preteridos de uma reflexão mais aprofundada. Questioná-los, debatê-los, e se possível, chegar a uma conclusão já seria um… sucesso. Seria uma tentativa. Aliás, como se diz na peça escrita e dirigida por Diego Fortes (Prêmio Shell de Melhor Autor), só se atinge o sucesso se tentarmos. Da mesma maneira que somente atingimos o fracasso se tentarmos o mesmo sucesso. E para discorrer sobre estes opostos que norteiam muitas vezes o fato de uma pessoa ser feliz ou não, o dramaturgo e diretor buscou indivíduos que lhe são bem próximos: os atores. “O Grande Sucesso”, um espetáculo lindamente musicado, visualmente arrebatador, compreende a sua história, atemporal e sem localização definida, com personagens sem nome (com a exceção de um único), na coxia de um teatro, ocupada por uma trupe de atores coadjuvantes, secundários, ou quiçá figurantes, de uma montagem, um musical experimental baseado em “Édipo Rei”, de Sófocles (poderia ser “Hamlet”, tanto faz…), encenada há dez anos, onde somente um artista tem destaque, na qual, segundo os mesmos participantes, as maiores loucuras e licenças dramatúrgicas foram inseridas em seu contexto, não se importando com o entendimento da plateia. Com a duração de intermináveis quatro horas, a montagem fictícia provoca nestes artistas tão diferentes entre si, mas unidos na mesma angústia, melancolia e “sofrimento de espera” para entrar em cena, uma sensação potencialmente “beckttiana”. Alexandre Nero interpreta um desse atores, e logo em sua primeira cena com Marco Bravo, ao realizarem aquecimentos físicos e relembrarem passos coreográficos antes do início da encenação, são colocados diante do assunto morte, devido a uma determinada circunstância pessoal de um deles, e o colóquio entre ambos introduz o tom de humor que irá perpassar boa parte da peça. O personagem de Alexandre coloca em xeque a existência de um Deus, em decorrência de acontecimentos não compreensíveis que testemunhamos em nossas vidas. Todavia, revela contradição ao narrar um sonho com um Deus mulher, que lhe diz que “não há sentido da vida”. Ela apenas começa, acontecem algumas coisas e acaba. A dramaturgia ousadíssima de Diego Fortes, sem quaisquer receios de julgamentos por transgredir “convenções teatrais”, utiliza-se de algumas inspirações para costurar a sua narrativa, como a commedia dell’arte (por vezes, parece-nos que estamos assistindo a personagens saídos do clássico filme de Ettore Scola, “A Viagem do Capitão Tornado”, lançado em 1990), o nonsense e a metalinguagem. Assumidamente crítico (em algumas passagens, autorreferente), a obra se encarrega de pôr em discussão a infalibilidade do ator. O ator que sempre busca o sucesso. O ator que não pode errar. O ator, escravo de marcações e textos decorados. Esses profissionais são representativos de nós mesmos, sociedade, reféns de nossa obsessão pelo acerto absoluto naquilo que fazemos. Os fracassos sempre se colocam perante nós como algo imprevisto, porque afinal somos infalíveis. Os artistas de “O Grande Sucesso” são os invisíveis do palco, ou sombras do ator principal, habitantes em sua espera infinita do “lugar de fora”, do limbo, que preferem feijão com arroz a lagostas ou ostras. Percebe-se em certo instante um caráter pessimista e niilista, ou visto sob outro olhar, realista no papel de Alexandre, ao nos afirmar que os homens, assim como em eras pré-históricas, continuam a ser atacados por animais selvagens, só que os animais, dessa vez, somos nós, os homens (sem querer ofender). Temos vários tipos humanos, exponencialmente bem definidos e defendidos com brilho pelos atores/cantores/músicos Carol Panesi, Edith de Camargo, Eliezer Vander Brock, Fabio Cardoso, Fernanda Fuchs, o já citado Marco Bravo, e Rafael Camargo (há ainda a participação de Fernando Trauer e Thomas Marcondes). Diego Fortes, como diretor, soube explorar com sobeja sensibilidade as potencialidades artísticas de cada um, sejam elas interpretativas ou musicais. Em sua condução do espetáculo, vemos a chancela do lirismo estético, visual e musical. Suas intenções de que a música cumprisse um papel colaborativo das situações, pensamentos individuais ou que representassem a consciência coletiva foram executadas com galhardia. A despeito da oratória reflexiva e filosófica de sua dramaturgia, o humor e o histrionismo não foram dispensados, como dito acima, muito pelo contrário, ganharam protagonismo em bastantes cenas, notadamente aceitas pelo público. A direção objetivou também a interação maximamente direta com os espectadores (com cenas inclusive na plateia), e outra em escala um pouco menor. Privilegia-se a ação contínua do elenco (enquanto um ator fala, ou dialoga com outro, há um ou mais personagens exercendo uma atividade; os intérpretes se movimentam em grupo, ou separadamente, em direções variadas). Fez valer a importância das pausas, dos silêncios. Adotou com deliberação uma linguagem dinâmica e ágil para que a mensagem de sua narrativa ganhasse corpo cênico. Quanto às atuações, Alexandre Nero, o qual estamos acostumados a ver em performances marcantes na TV, percorre um caminho cheio de bifurcações ricas em possibilidades interpretativas, enfrentando e se saindo magnificamente bem a cada porta de entendimento de seu complexo personagem que se abre. Alexandre é um ator, pode-se dizer, ousado, destemido, indefinível, pois múltiplas são as variações e transformações por que passa, mínimas que sejam, que o fazem alcançar um nível elevado de desempenho. A peculiaridade deste, razão pela qual se justifica a admiração explícita do grande público, está nos detalhes. Alexandre pode ser blasé, indiferente, ativo, intenso, robusto, frágil, utilizando-se apenas de sua voz (uma pequena oscilação, que seja), um meio sorriso (ou escancarado), e seu potente olhar, que atende a todas as exigências de emoção que lhe são feitas. Tendo uma carreira paralela de cantor, o artista mostra a excelência vocal nas músicas que interpreta, e uma louvável intimidade com mais de um instrumento. Alexandre Nero, como mencionado no título, está acompanhado por sete atores, sete artistas inegavelmente versáteis e talentosos nas muitas atribuições e encargos que lhes são ofertados pela montagem, sejam no campo da atuação, nas áreas do canto ou no encantador e fascinante universo dos instrumentos musicais. Carol Panesi nos provou soberbamente a sua destreza ao tocar o seu violino, tirando sons inefáveis de tão belos. Edith de Camargo encanta os espectadores com a sua doce e charmosa francesa que adora tirar “fotos de família”. O seu bordão “Un, Deux, Trois…” seguido de uma onomatopeia, antes de registrar os momentos da trupe, são irresistíveis. Interpreta com imensa emotividade a canção “Je nóse pas rêver”, composta por ela mesma. Eliezer Vander Brock constrói o seu engraçadíssimo homem-bala com notória inventividade. Fabio Cardoso esbanja a sua irretocável maestria nos teclados, com a adoção de uma postura sóbria, séria e compenetrada. Fernanda Fuchs exibe elogiável expressividade corporal ao dar vida à atriz que crê que a mensagem do ator se baseia em uma interpretação exagerada. Uma de suas cenas que podemos destacar é aquela em que procura se encontrar com o ator principal da peça, surpreendendo-se com o final deste episódio. Marco Bravo aposta com inegável êxito em sua adorável espontaneidade, percebida tanto nas cenas que divide com Alexandre Nero, quanto nas compartilhadas com os outros intérpretes, como Eliezer Vander Brock e Rafael Camargo. Já Rafael Camargo impinge ao seu ator desenhado com meticulosa, suave e propositada afetação a dose certa de comicidade. Rafael possui uma cena de plateia em que expõe toda a sua qualidade vocal. A direção musical de Gilson Fukushima exerce função primordial na peça, não somente pelo seu brilhantismo, virtuosismo e sensibilidade, mas pela sua representação como elemento-chave na composição das ações cênicas. Gilson soube como ninguém orquestrar o conjunto de múltiplas informações sonoras compreendidas no enredo, urdindo com uniformidade a importância das onze composições musicais (algumas escritas pelo elenco, outras pelo próprio Gilson, Diego Fortes, e demais compositores), com o maravilhoso e enternecedor manuseio de diversos instrumentos ao vivo pelos seus intérpretes. A Carmen Jorge coube a tarefa de dirigir os movimentos e criar as coreografias. O trabalho de Carmen com os atores é realçado pela precisão e geometria dos gestos, pela cadência e compasso dos andares dos atores em determinadas cenas, pela leveza e romantismo de algumas danças, pela consciência de coletividade traduzida pelos corpos em constante movimentação. A diretora se debruçou em extrair dos artistas a linguagem corporal que melhor se aproximasse da identidade visual e comportamental de cada personagem integrante do jogo cênico. O design de luz de Nadja Naira é reconhecidamente deslumbrante e inspirado. Há poesia e lirismo na escolha das texturas, formas e intensidades luminosas escolhidas. Nadja teve ampla percepção em harmonizar o quadro da narrativa com os focos adequados sobre os atores, os planos abertos à serviço da vivacidade da ação, os pontos luminosos advindos de luminárias do cenário, e o uso de um forte refletor no canto direito da ribalta. Merecem elogios outrossim a linda luminosidade simbolizadora do pôr do sol, e a fileira de lâmpadas rentes ao chão no fundo do palco em seu fulgurante apagar e acender. A cenografia extasiante de Marco Lima se esmerou em preencher o espaço representante da coxia com o maior número de elementos possíveis que nos reportassem para esse ambiente mágico teatral. Marco oferece ao público um espaço cenográfico riquíssimo, cheio de informações visuais, com bastantes cores, todas elas confluentes para um único ponto, garantindo a coerência de seus intentos e sua consonância com a dramaturgia. As peças decorativas são antigas, de um passado que desconhecemos, encaixadas uniformemente num grande “tabuleiro” onírico. Há um baú de madeira envelhecida, cordas, baldes de latão espalhados, regador, um manequim, tamborete e cadeiras, penteadeira sobre a qual se encontram objetos diversificados, araras com roupas penduradas (uma das coxias reais do teatro fica à mostra), quadros, retratos, abajur e luminárias. No fundo da ribalta há uma enorme parede de tijolos com encanamentos hidráulicos à vista, além de uma pia. Os figurinos de Karen Brusttolin, vencedora do Prêmio Shell, atinge um patamar de elevada qualidade, causando-nos inevitável alumbramento. Sua obra é criativa, elegante, colorida, engraçada, inspirada, eloquente e lúdica. A figurinista mesclou estilos distintos, apropriando-se de tecidos, acessórios e complementos variados. Vasculhando e se apoderando de uma vasta paleta de colorações, Karen conseguiu somar à alma dos personagens o que lhes faltava para torná-los mais reconhecíveis em sua genuína identidade. Nossos olhos acompanham atentamente e com desmedido deleite ao primoroso desfile de vestidos, ternos, jaquetas, blusas, chapéus, adereços, malhas, plumas, botas, sapatos e fantasias de encantadores e engraçados bichos de pelúcia. O visagismo, sem dúvida, levando-se em conta todo o contexto da peça, assumiu um posto de irrevogável relevância. Sabendo disso, a dupla Wilson Eliodorio e Junior Mesquita se empenhou na realização de um trabalho precioso, delicado, poético, a fim de que os integrantes da história narrada nos passassem uma mensagem que fosse além da caracterização simplificada. O que se vê em cada ator é uma suprema valorização de sua persona, seja nos olhos sombreados dos intérpretes, nas suas sobrancelhas desenhadas, no cabelo azulado de Alexandre Nero, nos coques arrumados com zelo, ou nas pinturas dos lábios dos artistas. “O Grande Sucesso” é um espetáculo musical inebriante, interpretado e dirigido com visível paixão, que se propõe, e o faz com indiscutível propriedade, a discutir questões que nos acompanham desde que nascemos. Sucesso, fracasso, vida, morte… Os porta-vozes desse grande debate são eles, os artistas. Grandes desde que nascem. Grandes por não deixarem que a sua Arte feneça. O sucesso desses grandes homens pode até morrer um dia, mas a grandeza de seus feitos e missões, essa jamais perecerá. Esse é de fato o grande sucesso.

  • “Com cenas de tensão extremamente bem realizadas pela sua equipe de direção, liderada por Carlos Araújo, dramaturgia afiadíssima de Angela Chaves e Alessandra Poggi e um elenco com atores de irretorquível qualidade, estreou na Rede Globo a supersérie ‘Os Dias Eram Assim’, que serviu não somente para resgatar o obscurantismo dos anos de chumbo da ditadura militar, mas para provar também que, em meio às turbulências políticas e sociais, é possível o surgimento de um verdadeiro amor.

    abril 18th, 2017

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    Foto: Raphael Dias/Gshow

    Os anos de chumbo já foram retratados na televisão, na própria Rede Globo, em 1992, na excelente minissérie de Gilberto Braga, “Anos Rebeldes”. Desde aquela época, muitos fatos políticos relevantes decorreram em nosso país. Hoje, o Brasil assiste estupefato ao desmantelamento de toda uma estrutura política e governamental. Soa no mínimo oportuna e pertinente a exibição da nova supersérie da emissora, escrita em conjunto por Angela Chaves e Alessandra Poggi (com a colaboração de Guilherme Vasconcelos e Mariana Torres), “Os Dias Eram Assim”, com a direção artística e geral de Carlos Araújo, direção geral de Gustavo Fernandez (e direção de Walter Carvalho, Isabella Teixeira e Cadu França), que tem como pano de fundo parte do período histórico marcado pela truculência de uma ditadura militar até ao emblemático movimento popular e político das Diretas Já, nos anos 80. Em seu ótimo primeiro capítulo, no qual já pudemos conhecer importantes figuras da trama, fomos conduzidos para o ano de 1970, em pleno jogo da final da Copa do Mundo, em que se enfrentaram Brasil e Itália. O país está em festa, na expectativa de se sagrar campeão. No entanto, antes do jogo, testemunhamos as relações promíscuas entre o severo e perigoso empresário Arnaldo Sampaio, vivido por Antonio Calloni (Antonio brilhou ao ostentar em suas cenas o grau de complexidade deste personagem, sob várias óticas), e a cúpula militar governante. Autoritário e sem escrúpulos, Arnaldo, dono da Construtora Amianto, é casado com Kiki (Natália do Vale; sempre compensador conferir o talento desta atriz), uma mulher conservadora, moralista e submissa ao marido. A filha, a bela Alice (Sophie Charlotte, exibindo longos apliques, fez jus à qualidade de estrela de sua geração), possui uma personalidade libertária e transgressora. Está prestes a ficar noiva do ambicioso Vitor Dumonte (Daniel de Oliveira; Daniel, em seus recentes trabalhos, tem defendido bons papéis, como na minissérie “Nada Será Como Antes”). Vitor trabalha para Arnaldo, revelando uma conduta bastante subserviente. Sua mãe Cora, Susana Vieira, é uma pessoa dura, preconceituosa e objetiva (Susana deixou impressa sua forte postura cênica). Na festa promovida para selar o acordo comercial do empresário, acompanhar o jogo da seleção brasileira e anunciar o noivado de Vitor e Alice, com a presença luxuosa do mordomo composto por Ricardo Blat, a potencial noiva surge, para a fúria silenciosa de seus pais, sensualmente trajada com peças de influência hippie. Os lados opostos, sobretudo no que tange à moral e ao comportamento, geradores de sequenciais conflitos num mesmo núcleo familiar, evidenciam-se. Fomos deslocados para o universo de uma outra família da história, em que vive o sensível, porém firme, médico Renato Reis, personificado por uma das recentes revelações da TV, Renato Góes. O público, que se encantou de modo unânime com sua intensa e emocionante interpretação de Santo em “Velho Chico”, terá a chance de conhecer uma faceta completamente diferente de Renato. Deixando a rusticidade de seu personagem anterior, o ator nascido em Recife ganha ares de herói romântico, o que não deixa de ser um enorme desafio. Com os cabelos curtos, lisos e sem barba, o intérprete dignificou a responsabilidade que lhe conferiram ao lhe oferecerem um dos protagonistas da obra. Sua atuação contida, segura e meticulosa em algumas cenas, utilizando-se sobremaneira da linguagem de seu olhar, promete conquistar mais uma vez a torcida dos telespectadores. Renato é irmão do jovem militante político Gustavo, papel que coube a outra bem-vinda revelação da nova geração de atores, Gabriel Leone. Gabriel já possuía passagens na televisão, mas foi somente em “Verdades Secretas” que o talento deste jovem artista começou de fato a ser percebido, consolidando-se em definitivo na novela “Velho Chico”. O viés politizado de seu último personagem, sob outro contexto, é claro, foi mantido, mas agora Gabriel vivencia uma experiência interpretativa substancialmente distinta (no primeiro capítulo, Gabriel Leone, experiente ator de musicais, a despeito de sua juventude, presenteou o público com sua doce e afinada voz, cantarolando, e dedilhando o seu violão, o clássico de Chico Buarque, “Deus lhe Pague”). Gustavo, além de ser irmão de Renato, é irmão de Maria (Carla Salle). Todos são filhos de Vera, Cássia Kis, dedicada mãe que já demonstrou elevada preocupação com o rapaz inconformado com o “status quo”, namorado de Cátia (Barbara Reis), filha de Josias (Bukassa Kabengele), o contador da construtora, e de Natália (Mariana Lima), uma professora. Esta família inter-racial provavelmente será vítima de discriminação por parte da ala conservadora do enredo (basta nos lembrarmos do comentário com inclinação racista de Cora). Voltando a Cássia Kis, esta intérprete com longa carreira, recheada de tipos inesquecíveis na teledramaturgia, invariavelmente constrói suas personagens com uma carga emotiva que é a sua marca pessoal. Gustavo é amigo de Túlio (Caio Blat), representante de um setor mais radical da oposição ao regime totalitário. A cena em que Túlio, indignado com a faixa afixada na frente da empresa de Arnaldo com a exortação “Brasil, ame-o ou deixe-o”, decidiu lançar uma bomba caseira na área interna do prédio, foi muito bem dirigida, com mérito também para os efeitos especiais de Federico Farfan. Patrulhinhas e guardas chegam à região, e iniciam uma caçada aos militantes, onde se nota uma avolumada agilidade da direção em conduzir cenas de contínua ação. Gravadas em ruas estreitas do Centro do Rio de Janeiro, foram um dos pontos altos da supersérie (a direção de Carlos Araújo verdadeiramente nos surpreendeu, não só pelo uso inventivo de sua câmera, utilizando-se de ângulos diferenciados e closes diretos, além daqueles em que os rostos dos atores vão sendo alcançados aos poucos). Gustavo consegue escapar, mas Túlio não, sendo alvejado por um covarde tiro pelas costas em uma de suas pernas. Isto serve para nos mostrar o bárbaro e desumano processo de tortura da ditadura militar, observado impavidamente por Arnaldo, a que os opositores, muitos deles estudantes, eram cruelmente submetidos. Arnaldo, colérico com o fato de sua empresa ter sido atingida por uma bomba, conclama o delegado Amaral (Marco Ricca transmitindo com legitimidade a rudeza e subordinação de seu personagem), para quem “o pau canta, a boca abre”, a achar de qualquer jeito o segundo homem que participou do ataque, no caso, Gustavo. Retornemos à casa de Alice. Em seu quarto, desnuda-se para o seu futuro noivo, que se recusa a ceder aos seus apelos, classificando-a de vulgar. Vitor revela um comportamento moralista e eivado de machismo. A moça que gosta de ler “O Pasquim” e admira a atriz Leila Diniz é repreendida por sua mãe, na frente de sua pequenina irmã Nanda (Letícia Braga; depois, na fase adulta, será interpretada por Julia Dalavia). Alice resolve fugir pela janela, com o intuito de ir à casa da amiga Cátia, descendo pelos andaimes de uma obra em seu edifício. Renato, parado em seu Fusca branco, vê pela primeira vez aquela que balançará o seu coração pelos próximos capítulos. Com a vitória do Brasil, tricampeão mundial, papéis picados colorem as ruas da cidade. Gustavo refugia-se em um bar. Encontra-se com Cátia e Alice. Logo depois, chega Renato, e reconhece a indômita menina dos andaimes. O interesse do médico profissional pela fotógrafa amadora com sua máquina analógica Nikon só aumenta. Por sinal, só para não nos esquecermos, há uma excelente cena com Renato Góes no hospital em que trabalha, no qual, após comemorar um gol, tem que atender a uma paciente na emergência. Trata-se de Monique (Letícia Spiller), que está à espera de seu terceiro filho com Toni (Marcos Palmeira), simplesmente irmão de Arnaldo. O bebê nasce, e Monique sofre de atonia uterina pós-parto, o que a deixa à beira da morte, sendo salva por Renato. Arnaldo chega ao hospital, e exige a remoção de Monique, deparando-se com a resistência do médico (nesta hora, temos um elogiável embate entre Antonio Calloni e Renato Góes). Toni prefere que sua esposa permaneça na casa de saúde. Em agradecimento a Renato, o casal oferece a criança, uma menina chamada Esperança, para o doutor batizá-la. Marcos Palmeira e Letícia Spiller valorizam qualquer produção de que participam. Ainda na cena do bar, inicia-se nas ruas próximas uma batalha entre soldados e guardas e o povo. Os papéis picados deixam de cair para darem lugar a flagrantes de covardia explícita. Os diretores, a fim de realçar estes momentos de tensão da trama, usaram um recurso fílmico em que as imagens parecem borradas, numa velocidade mais lenta (recurso também usado na fuga de Gustavo e Túlio). Cenas de arquivo são misturadas às de ficção. Acuados, com medo, Renato e Alice nunca estiveram tão juntos. Sozinhos em um lugar inóspito, com seus azulejos quebrados, ao som de “Nossa Canção”, interpretada por Roberto Carlos, resta-lhes um ardente beijo, nascendo o grande romance de “Os Dias Eram Assim”. Ainda participarão da supersérie Maria Casadevall (Rimena), o ator chileno Alfredo Castro (Hernando), Felipe Simas (Caíque), Cyria Coentro (Laura), Maurício Destri (Leon), Nando Rodrigues (Hugo) e Julio Machado (Marcos), e tantos outros. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguelê e Flavio Mac, cuja música “Os Dias Eram Assim” fora composta por Ivan Lins e Vitor Martins, e cantada belamente pelos atores Sophie Charlotte, Gabriel Leone, Daniel de Oliveira, Renato Góes e Maria Casadevall, enfileira uma série de imagens do período focado (tanques nas ruas, manifestações de protestos de estudantes, jogadores da seleção brasileira comemorando o título…), misturadas a recortes de documentos oficiais ou não, estes escritos a mão. Percebam que a cor vermelha se contrapõe ao p&b, como signo representativo do sangue derramado nas torturas, nas execuções e nos embates diretos entre governo e oposição. A cenografia de Alexandre Gomes e Flavio Rangel se destacou pela fiel reprodução dos apartamentos sofisticado e simples, respectivamente, das famílias Sampaio e Reis (além dos interiores da construtora). O figurino coube à tarimbada Marília Carneiro e Renaldo Machado, que se debruçaram na pesquisa histórica para realçar os perfis típicos de cada personagem, seja nas peças coloridas hippies de Alice, nas roupas despojadas de Gustavo, no jaleco de médico de Renato, e nos ternos com gravata borboleta do empresário Arnaldo. A direção de fotografia ficou a cargo do prestigiado Walter Carvalho, que se valeu de acertados filtros para oferecer o máximo de credibilidade à atração. A produção de arte de Moa Batsow é incrível, atendo-se a todos os detalhes, sejam eles na decoração do quarto de Alice, ou no desfile dos memoráveis Fuscas e demais veículos, que nos fazem viajar na memória e na salutar nostalgia. A gerência musical ficou por conta de Marcel Klemm, que tem em mãos um rico material a ser explorado oriundo daqueles períodos. Tivemos na estreia “Deus lhe Pague”, cantada por Elis Regina, “A Lua Girou”, de Milton Nascimento, e “Sangue Latino”, dos Secos & Molhados. Haverá ainda músicas de Os Mutantes, Vanusa, Gal Costa, outras dos Secos & Molhados, Chico Buarque, Novos Baianos, Walter Franco, Toni Tornado e Raul Seixas. Representando os Anos 80, Fábio Jr. e Marina Lima. Com esta supersérie de Angela Chaves e Alessandra Poggi, “Os Dias Eram Assim”, teremos a oportunidade de revisitar um passado obscuro do nosso Brasil, em que grassava a intolerância, o autoritarismo, a ignorância, o cerceamento da liberdade de expressão, o derramamento de sangue, o medo, a covardia, a luta armada e a divisão no país. No entanto, também teremos a oportunidade de relembrar a riqueza da cultura e da contracultura daquela época, com suas poderosas manifestações artísticas, várias delas nascidas como um grito de resistência. Da mesma forma, testemunharemos o limiar dos sopros dos ventos da democracia, por meio dos movimentos populares. E no meio desse torvelinho de acontecimentos, o amor de Renato por Alice. O amor de Alice por Renato nesses dias… Dias de luta, dias de glória, dias de guerra e dias de paz. Os dias eram assim, acreditem, para Renato e Alice. De lá para cá, muita coisa mudou. Mas alguns dias ainda são… assim.

  • “Livremente inspirado no derradeiro livro de Charles Bukowski, ‘Pulp’, Sacha Bali, reafirmando o seu inegável valor como dramaturgo e diretor, retorna ao romancista com o seu novo espetáculo, o musical ‘Uísque com Água’, trazendo uma galeria de tipos marcantes e inesquecíveis dentro de uma história tragicômica envolvente, num excelente trabalho de composição dos atores Nelson Freitas, Rosanna Viegas, Samuel Toledo, Carolina Chalita e Thogun Teixeira.”

    abril 17th, 2017

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    Foto: Dodô Giovanetti

    O teatro, para a sua própria sobrevivência artística, necessita de renovação. Não só renovação, mas ousadia. E o que não faltam ao novo espetáculo do dramaturgo e diretor Sacha Bali, o musical “Uísque com Água”, livremente inspirado na última obra do americano Charles Bukowski, “Pulp” (1994) são essas características: o caráter renovador e ousado. Sacha, também um conhecido e ótimo ator, além de produtor, em 2007, apresentou ao público a sua pioneira experiência nos palcos com o autor considerado maldito, “Pão com Mortadela” (baseado em “Misto Quente”, 1982), com direção de João Fonseca, um sucesso retumbante, com elogios de lado a lado, que fez com que a peça percorresse várias cidades do país. Quase dez anos se passaram, e o escritor inspirador para o jovem dramaturgo volta para a ribalta com a força absoluta da ironia, do cinismo e das reflexões existencialistas que definiram a venerada obra “bukowskiana”. Sacha se utilizou de inúmeras referências para construir a sua atual montagem. Não abriu mão do estilo único das “pulp fictions” (revistas lançadas no início do século passado, divididas em capítulos, que privilegiavam histórias rápidas, inseridas em vários gêneros, como a aventura, o romance policial e a ficção científica, dentre outros). Os célebres filmes noir americanos com suas narrativas detetivescas e personagens arquetípicos também serviram como nítida influência. Percebe-se na composição de alguns tipos da trama a forma interpretativa adotada pelo Expressionismo Alemão na área cinematográfica. As animações neste segmento audiovisual também ofereceram alguns elementos, e me arrisco a dizer, até mesmo a fantasia e o realismo mágico dos desenhos animados foram influenciadores. As HQs, com seus diálogos diretos, sua dinâmica, seu tempo e estética são visíveis na encenação. A peça musical narra a inusitada história de um detetive particular, Nick Belane (Nelson Freitas), dono de um decadente escritório em Los Angeles, não se sabendo ao certo em que período se passa, que vê o seu modorrento cotidiano ser sacudido pelas inesperadas visitas de misteriosos clientes e suas excêntricas propostas de investigação. Nick tem uma personalidade depressiva, e afoga as suas mágoas, que são muitas, no álcool, principalmente no uísque com água, consumido não somente em seu local de trabalho, mas no curioso bar “O Cão Sedento”. Mesmo vivendo em condições precárias, o detetive que acharia melhor ter sido bombeiro, como o seu colega de escola, não perde o seu fino humor, que se imiscui à sua melancolia inata. Viciado em corridas de cavalo, solitário, Delane, que cobra U$6,00 por hora de trabalho, é procurado por John Barton, um jovem estranho, com língua presa e locomoção comprometida, interpretado por Samuel Toledo. O tal rapaz estranho lhe faz uma peculiar proposta: encontrar um pardal vermelho. Aceito o serviço, Nick sai em busca desse animal improvável. Atolado em dívidas, cobradas de modo inclemente pelo bookmaker Tony (Thogun Teixeira), o detetive, no decorrer desta amalucada empreitada, depara-se com diversas figuras nebulosas e suspeitas, como uma temível senhora que se apresenta como Dona Morte (Rosanna Viegas). Dona Morte deseja que Nick ache a qualquer custo “o maior escritor da França”, Céline (Samuel Toledo). Não sabemos o porquê de seu desejo. Em suas andanças, sempre pontuadas pelos seus pensamentos de reflexão sobre a vida, e consequentemente sobre a morte, em seu bar preferido, “O Cão Sedento”, é atendido por uma tresloucada bartender (Rosanna Viegas). Rosanna também interpreta uma sensual dançarina. O barman de “O Cão Sedento” é personificado por Thogun Teixeira, e é neste estabelecimento em que encontra o suposto escritor francês, um sujeito com sotaque característico e olhos arregalados. Surge no enredo a bela e voluptuosa Jeanie (Carolina Chalita), uma espécie de Jessica Rabbit. Jeanie é casada com Groves (Thogun Teixeira), dono de uma funerária, e o manipula com os requintes de uma dominatrix. Por onde passa, Jeanie deixa os homens enlouquecidos, e algumas de suas vítimas são o próprio Delane e o suposto escritor francês. Em meio a esta sinopse tão mirabolante quanto sedutora na qual há suspense, comédia, drama, violência estilizada e referências tão explícitas quanto divertidas ao universo da sci-fi, como a potencial aparição de alienígenas, e à estética do gangsterismo, há um recurso cênico que oferta um charme extra e especial ao espetáculo: a presença de uma banda ao vivo, comandada pelos músicos Samuel Toledo, Pedro Coelho e André Coelho. A direção de Sacha Bali caracteriza-se exemplarmente pelo capricho e cuidado com os quais se esmerou para transformar todo o conjunto cênico em algo belo, dinâmico, coeso e integrado. As músicas, sejam elas instrumentais, quanto as cantadas pelos atores músicos se unem na constituição de uma admirável harmonia teatral. Sacha também procurou, com inegável acerto, fidelizar-se a todas as referências as quais já citei, que lhe serviram como base para a construção de sua elogiável dramaturgia. Com sua vasta experiência como ator, e formação em muitas áreas ligadas à Arte, Sacha Bali se preocupou, e isto salta aos olhos em sua peça musical, com o que chamamos de “direção de ator”. Percebemos claramente que cada intérprete teve para si o seu momento de busca da composição exata e precisa de seu ou seus personagens com a ajuda precípua, fundamental e generosa de seu encenador. O espetáculo de Sacha é elegante, e nos faz querer vê-lo novamente, o que em se tratando de teatro ou qualquer outro meio de expressão cultural é um enorme mérito. O elenco é extremamente bem escalado, com um time de atores bastante distintos entre si, no que tange às suas formações, experiências e tipos de interpretação, mas todos, sem exceção, detentores de indiscutível talento. Para quem estava acostumado com o ator Nelson Freitas sempre associado à comédia, o que faz muito bem por sinal, irá se surpreender com a sua impressionante atuação como o detetive particular decadente e alcoólatra Nick Belane. Nelson possui um magnetismo pessoal, além de sua absoluta absorção da alma de seu personagem, levando-nos a acompanhá-lo e a torcer por sua vitória ou algo próximo disso, em meio a tantas intempéries episódicas por que passa. O intérprete nos transmite a totalidade de sentimentos natos ao seu papel, definidores de sua personalidade. Sua melancolia, seu pessimismo perante a vida, seu humor cáustico redentor, seu apreço pelas mulheres e pela bebida estão todos condensados na atuação inteira, plena, emocionada de Nelson Freitas, que margeia em proporções similares e equilibradas os gêneros drama e comédia. Rosanna Viegas, que já trabalhou com Sacha Bali outras vezes, como nas peças “Pão Com Mortadela” e “Cachorro Quente”, mais uma vez mostra em cena toda a sua capacidade interpretativa e versatilidade ao dar vida, respeitando as pertinentes distinções, a três tipos que perpassam a narrativa. Rosanna detém uma força natural própria só em estar no palco. Basta emitir uma frase ou fazer um leve movimento de dança, que percebemos desde já estarmos diante de uma atriz de incontestável qualidade. Sua bartender é tresloucada, patética, embriagada e risível. Dona Morte traz em seu entorno a ambiência de mistério necessária para a justificação de sua função na história. E a dançarina que personifica nos transmite a sensualidade plena, acompanhada por um certo ar de desdém, que a valoriza como elemento de um universo proposto. Samuel Toledo é um adorável jovem ator, com muitos recursos interpretativos, a quem já havia assistido em um outro espetáculo, “Elefante”. Samuel teve a incumbência de construir com diferenciações bem desenhadas alguns personagens do entrecho. O primeiro, John Barton, é um sujeito extremamente suspeito e esquisito, que procura Nick Belane a fim de que resolva um caso um tanto quanto bizarro. Samuel quis fazer algo que tornasse este indivíduo mais enigmático do que naturalmente é. E logrou seus intentos com nítido êxito. Seu andar é claudicante e sua fala é presa. Como Céline, “o maior escritor da França”, compõe uma figura soturna e cheia de mistérios, realçando os seus olhares e discursando num tom temeroso e ameaçador. Em outras passagens, o intérprete incorpora um tipo endoidecido com personalidade ansiosa e aflita, usando a voz com entoação distorcida (Samuel se desdobra com máxima eficiência em suas variações comportamentais). Carolina Chalita defende com potente sedução e volúpia o papel de Jeanie. Sua entrada em cena é inegavelmente espetacular. No decorrer da peça, Carolina, diante das reviravoltas de sua personagem, imprime com honorável entendimento as demais nuances à sua interpretação. Revela-nos a firmeza indispensável, o viés temível de seu caráter, sem perder em nenhum momento a sua aura tentadora de “femme fatale”. A atriz se utiliza da técnica apurada de sua voz e respectivas variantes para conferir elevada credibilidade ao que lhe foi proposto pelo texto na construção de Jeanie. Thogun Teixeira passeia com notável desenvoltura por todas as veredas interpretativas exigidas pelos diferenciados papéis que lhe couberam. Como o bookmaker Tony, é truculento e implacável. Como Groves, o proprietário da funerária, ostenta, em contraposição à sua forte compleição física, a fragilidade, vulnerabilidade e submissão próprias do companheiro de Jeanie, ofertando-nos apropriado e certeiro tom de comédia. E como o barman de “O Cão Sedento”, mantém a fiel postura deste profissional que se torna testemunha ocular de importantes fatos do enredo. Valendo-se de sua impressionante voz grave, Thogun cumpre com valiosa dignidade as funções que lhe foram impostas na ação. Uns dos pontos de “Uísque com Água” que merecem a nossa reverência e respeito é a riquíssima trilha sonora de Pedro Gracindo. Contando com músicos excelentes, que se posicionam à esquerda da ribalta, e atores incrivelmente bem preparados em suas vozes para o canto, Pedro criou uma fascinante trilha sonora, que se impõe, por sua importância, como elemento indissociável para o encantamento exercido no público. São acordes sofisticados que remetem ao melhor do rock e do blues, assumindo a nobre missão de emoldurar e valorizar diversos quadros cênicos. Faz-se necessário prestar atenção nas letras da canção, inteligentes e coerentes com a situação e o estado dos personagens. Há momentos solo e em coro (emocionante), além de uma canção interpretada em inglês por Nelson Freitas. O cenário de Diogo Monteiro e Dodô Giovanetti se encarrega de nos transportar com legitimidade para o intrigante universo retratado. Sentimo-nos parte integrante daquele ambiente imbuído de múltiplas referências. Percebe-se um clima underground e decadente na pequena sala onde Nick trabalha, com sua mesa de madeira (com uma luminária, uma garrafa de uísque e um copo sobre ela, dentre outros elementos), uma cadeira verde estofada e outra maior marrom com textura de couro, uma bancada com uma pequena televisão, uma geladeira antiga e uma outra luminária pendurada. Por mais que não se diga a época da narrativa, deduzimos que haja uma inspiração, com total liberdade poética, nos filmes noir norte-americanos (evidente que a presença da televisão é autorizada por esta licença artística). O bar “O Cão Sedento” possui uma atmosfera “bas-fond”, com o seu particular balcão, uma fileira de garrafas sem rótulos no alto, uma mesa com um abajur repleto de lâmpadas (seu efeito é muito bonito), uma placa em vermelho pendurada indicando o seu nome e luminárias metálicas verdes suspensas. A mansão de Jeanie é representada por um sofá estampado, tendo atrás de si uma janela envolta por estampas assemelhadas, além de um abajur. Na porta de entrada, um lustre. O figurino de Marcelo Martins também é merecedor de todas as loas. Marcelo apostou tanto na elegância dos costumes masculinos e femininos quanto na coerência dos trajes, amplamente de acordo com os perfis dos personagens, a suposta época em que transcorre a história, e a sua localidade (Los Angeles, nos Estados Unidos). O profissional não economizou nos ternos, calças com pregas, longos com brilhos, trench coat, chapéus, capote, camisas listrada e xadrez, suspensório, boina, luvas, estola e xale, além de sapatos sociais e escarpins. A iluminação de Roberto Macedo é primorosa. A sua luz exerceu um papel fundamental para o embelezamento da encenação, colaborando com suprema generosidade na ambientação adequada da narrativa. Aliando-se a um tênue fog, o iluminador presenteou o espectador com belos focos e sombreados, luzes quentes brandas (em tons amarelados), meias-luzes, um refletor com forte luz branca na lateral do palco, além do aproveitamento harmonioso das cores vermelha, azul e rosa. Podemos destacar ainda o efeito das garrafas penduradas no bar, refletindo uma tonalidade rósea. “Uísque com Água” traduz-se como um espetáculo musical que se destaca pela sua ousadia dramatúrgica, pelo resgate do legado da obra de um escritor tão incompreendido quanto venerado, como Bukowski, pela sua aposta em um elenco heterogêneo e talentoso, por trazer à baila uma outra faceta do ator Nelson Freitas, pela reafirmação do amor de Sacha Bali por este intelectual e pelo teatro, pela sua consolidação como dramaturgo e diretor, pela excelência de suas composições musicais, e por não temer em apostar neste delicioso gênero de uma forma totalmente diferente. Em certa passagem da peça, o inesquecível e único Nick Delane atribui proximamente ao seu drink preferido, uísque com água, qualidades redentoras, capazes de preencher o vazio de sua vida, saciando a sua sede de existência. Sacha Bali de certa forma faz o mesmo. Sacia a nossa sede voraz em cultivar o bom teatro, redimindo-nos, nem que seja apenas pelo tempo de “Uísque com Água”, de qualquer sensação de vazio metafórica. Sirvam-se. Fiquem à vontade. Há uísque com água para todos. Mas o primeiro copo é de Charles Bukowski.

  • “Com um elenco poderoso em cena, Gloria Perez, logo no primeiro capítulo de ‘A Força do Querer’, a nova novela das 21h da Rede Globo, deixou impressa a sua marca infalível de basear os conflitos de sua trama em questões controversas, atuais e discutíveis, propulsoras de inegável interesse por parte do público”.

    abril 4th, 2017

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    Foto: Estevam Avellar/TV Globo

    Ao vermos uma novela de Gloria Perez infalivelmente identificamos a sua marca. E não foi diferente ao assistirmos ao primeiro capítulo de “A Força do Querer”, o novo folhetim das 21h da Rede Globo, exibido ontem à noite. Com direção artística de Rogério Gomes e direção geral de Pedro Vasconcelos, a trama nos apresentou a gênese dos principais conflitos que a nortearão pelos próximos meses. Contando com um elenco estelar, formado em grande parte por atores que costumam ser protagonistas em outras produções do gênero, raro de se testemunhar, “A Força do Querer” não fugirá da abordagem de assuntos polêmicos, alguns extremamente atuais, como os que dizem respeito aos transgêneros e sua aceitação pelas família e sociedade, compulsão pelo jogo, busca da beleza perfeita, sereismo, e os potenciais poder e glamour associados ao tráfico de drogas. Além disso, teremos uma policial, Jeiza, com aspirações de ser uma lutadora de MMA, livremente inspirada em Ronda Rousey (papel que caberá a Paolla Oliveira). Ademais, Gloria não se furtará de inserir em sua obra elementos clássicos das telenovelas, como a disputa de dois homens que se conheceram na infância por uma mesma mulher. Suas primeiras cenas ocorreram no Pará com o personagem de Eugênio (Dan Stulbach, um bem-vindo retorno à teledramaturgia da emissora, após um período de experiências como apresentador em outros canais), sócio de uma empresa que comercializa alimentos, ao lado de seu filho Ruy (João Gabriel Bolshaw; Fiuk o representará na fase jovem), marcando a sua ida ao Acre a fim de negociar com um fornecedor local. A região é inóspita, e só se chega de barco. O tempo está ruim. A embarcação tomba, e o menino desaparece em águas turvas. Dan se saiu muito bem ao revelar o desespero do pai. Na verdade, Eugênio estava cumprindo a sua última missão como diretor da empresa, já que pensa em “começar do zero”, realizando o sonho de sua vida, montar o seu próprio escritório de advocacia, o que contrariará seus familiares. Quem assumirá o seu lugar é Caio (Rodrigo Lombardi, um intérprete associado a outras novelas de Gloria, como “Caminho das Índias” e “Salve Jorge”). Caio é um homem honesto, porém bastante ambicioso no que tange ao aspecto profissional, o que atrapalha o seu relacionamento com a passional Bibi (Juliana Paes; uma reedição do casal, como podem lembrar, de “Caminho das Índias”). As cobranças de Bibi são tão intensas que levam ao rompimento do compromisso. O que Caio não esperava é que estava sendo traído por ela com o garçom Rubinho (Emílio Dantas, o ator que se sobressaiu nos palcos ao encarnar o cantor e compositor Cazuza; uma boa escalação, já que se trata de um rosto novo no horário nobre). Rubinho introduzirá Bibi no mundo do crime, no qual a moça assumirá um posto que lhe conferirá irrestrito poder, assumindo a identidade de Bibi Poderosa. Caio, desiludido, desiste da nomeação na empresa, e viaja para os Estados Unidos, onde estudou. Um dos principais sócios desta mesma empresa se chama Eurico, austero e rígido nos negócios. Eurico, irmão de Eugênio, é defendido por Humberto Martins, um artista que sempre imprime dignidade aos seus papéis (também integrou o elenco de algumas novelas da autora, como “Barriga de Aluguel”, na pele de um caminhoneiro). O empresário é casado com a sofisticada e reconhecida arquiteta Silvana (a ótima Lilia Cabral, representando com a elegância de costume). Só que Silvana lhe traz um enorme problema: o seu vício em mesas de pôquer. Esta falha compromete, óbvio, a estabilidade do casamento e a sua situação financeira. Neste mesmo núcleo, temos a bela Maria Fernanda Cândido (brilhou em suas primeiras cenas), cuja personagem Joyce, casada com Eugênio, é uma mulher fútil e exageradamente vaidosa, que direciona essas características para a sua filha pequena Ivana (na outra fase, será personificada pela estreante Caroline Duarte). A criação desta personagem é uma crítica oportuna às mães que se utilizam de seus filhos para se promoverem, e até mesmo ganharem dinheiro, ainda mais em tempos de redes sociais. São mães que não conseguiram almejar os seus sonhos, transferindo-os para os seus filhos, mesmo que muitos não os queiram. O que Joyce não imaginava é que Ivana ao crescer não possuiria quaisquer resquícios de vaidade feminina, aproximando-se cada vez mais do mundo transgênero. Este tema promete aquecer a história, promovendo opiniões contrárias ou favoráveis, tanto dos personagens quanto dos telespectadores. Todos estes episódios relatados se passam no Rio de Janeiro. Voltemos ao rio em que Ruy caíra em viagem com o pai. Já não há esperanças quanto à sua sobrevivência, até que um outro garoto, natural da região, Zeca, filho de Abel (Tonico Pereira), vivido por Xande Valois (personagem de Marco Pigossi na etapa seguinte), tenta salvá-lo, mas também acaba caindo nas correntezas do rio. Desacordados na sua margem, os meninos são encontrados por um índio ashaninka (Benki Piyãko), que lhes dá um chá curativo alucinógeno. Os meninos que veem a Lua se misturar ao rio, ouvem a seguinte profecia do indígena: “Vocês tenham medo do que vier das águas. O rio que juntou vocês vai separar de novo”. O índio lhes ofereceu como proteção um colar, metade para cada um. O tempo passou. Bibi, agora cabeleireira, está casada com Rubinho, desempregado, o que causa um desconforto em sua mãe Aurora (Elizangela). Durante o noivado de Ruy (Fiuk; outra renovação no horário das 21h, é prazeroso ver este jovem ator ostentando maturidade) e Cibele (Bruna Linzmeyer), com a presença de toda a família, incluindo o amigo Dantas (Edson Celulari), pai da noiva, Eugênio anuncia o seu novo sucessor na empresa: Ruy, o seu filho, para o assombro geral. Deslocamo-nos para Parazinho, a fictícia cidade do Pará. Zeca agora tem como intérprete Marco Pigossi (depois de “A Regra do Jogo”, em que deu vida a um policial, Marco tem a possibilidade de defender um tipo bem oposto àquele, haja vista que Zeca é um sujeito simples, rústico, trabalhador – reparem em seu bem construído sotaque, um caminhoneiro apaixonado por Ritinha, Isis Valverde, a fogosa, brejeira e sensual moça que acredita ser filha de um boto, adepta do sereismo, prática das mulheres que se trajam de sereias, tentam ao máximo se assemelhar a elas, sendo que muitas ganham a vida com isso, como é o caso de Ritinha, que faz apresentações públicas como o ser mitológico). O romance dos dois é desaprovado por Abel, que se desabafa com sua irmã Nazaré (Luci Pereira). Zeca está à procura de Ritinha. Ruy está com o seu pai na localidade para se encontrar com um fornecedor. Ritinha, a “sereia”, surge fulgurante de dentro das águas vermelhas do rio de Parazinho, tendo ao seu lado lépidos botos. Os dois rapazes, atônitos, admiram-na. A profecia do índio começa a se concretizar. Começou desta forma a nova novela de Gloria Perez, enriquecida por uma bonita direção de fotografia de Sérgio Tortori, em tons de azul para a noite, verdes em outra passagem, e naturais nas áreas urbanas, valorizando o colorido do mercado de alimentos. A abertura de Alexandre Romano e Cristiano Calvet é embalada pela canção de Caetano Veloso, “O Quereres”, em que há a fusão de imagens de pessoas e paisagens e situações do cotidiano, realçadas por distintas cores. “A Força do Querer” se compromete a seguir o que dita o seu título. Os seus personagens se moverão pelos seus desejos, seus quereres, que não virão facilmente. As suas metas só serão atingidas se forem empreendidas as suas forças, claro. No entanto, onde há mais de uma força, aquelas que intentam o mesmo objetivo, haverá pelejas. Assim como haverá a força individual, tão difícil por ser solitária, por ser contra a maioria do pensamento. A novela de Gloria Perez se baseia nisso. E é nesta conflagração de conflitos que desencadeiam debates, discussões e reflexões que se encontra a tal marca da teledramaturga. Para se assistir às suas novelas, é necessário que se tenha força, força para se aceitar a diferença, para se aceitar o novo, para se enfrentar o tabu. Olhos para se descobrir a tolerância que há dentro de nós, mesmo que a desconheçamos. Basta que para isso, despertemos a nossa força do querer.

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