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Blog do Paulo Ruch

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    fevereiro 7th, 2017

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Luan Buettgen, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week.
    Luan nasceu em Blumenau, Santa Catarina.
    Pertenceu às agências Mega Model Brasil (São Paulo) e Staff (Curitiba).
    Foi fotografado por Vitor Augusto para um ensaio com o também modelo Rene Ainati, o qual foi publicado no site “Brazil Male Models”.
    Fotografou também para Karla Gironda (ensaio “Kit et Holly”), Ronald Luv, Junior Becker e Didio.
    Fez um editorial para a revista “Estilo”.
    Ao lado da modelo Iolanda Viola, fez a campanha do “Dia dos Namorados” para o Shopping Mueller, em Curitiba (fotografados por Luana Caetano).
    Desfilou para a Cavalera, na SPFW.
    Em 2014, na Casa de Criadores, foi visto no desfile de Arnaldo Ventura.
    No Fashion Rio Primavera Verão 2014/2015, mostrou a coleção das marcas R.Groove e Coca-Cola Jeans.
    Esteve presente na Convenção de Modelos Dilson Stein.
    Participou do programa apresentado por Renata Kuerten, tendo como colegas os irmãos modelos Tadeu e Daniel Lenhardt, “Chega Mais”, exibido na Rede TV!.
    Atualmente, Luan Buettgen mora na Cidade do México, no México.

    Agradecimento: TNG

  • “Na aguardada minissérie de Maria Camargo, baseada na celebrada obra de Milton Hatoum, ‘Dois Irmãos’, tivemos um primeiro capítulo no qual se viram a força e o empenho de um jovem elenco estreante, além dos rostos que imprimem qualidade à qualquer produção, com a chancela de Luiz Fernando Carvalho, para nos contar uma trágica e passional história familiar em que teremos Cauã Reymond vivendo os gêmeos movidos a ódio Omar e Yaqub”.

    janeiro 10th, 2017

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    Foto: Divulgação/TV Globo

    “A casa foi vendida com todas as lembranças/todos os móveis/todos os pesadelos/todos os pecados cometidos ou em vias de cometer/a casa foi vendida em seu bater de portas/com seu vento encanado/sua vista do mundo…”. Com o poema de Carlos Drummond de Andrade, “Liquidação”, sendo datilografado, e narrado pelo personagem Nael (Irandhir Santos), fomos levados ao futuro de “Dois Irmãos”, a prestigiada e premiada obra homônima de Milton Hatoum, vencedor do Prêmio Jabuti de 2011, agora em formato de minissérie de Maria Camargo, com direção artística de Luiz Fernando Carvalho. Vimos Zana (Eliane Giardini) em prantos sobre a cama, despedindo-se de sua casa, mas levando consigo todas as dolorosas lembranças que corroeram a sua vida. A trama, gravada em Manaus, em locações como as praias do Rio Negro, compreendida entre as décadas de 20 e 80, narra a trágica e sofrida relação de ódio entre dois irmãos gêmeos, filhos de imigrantes libaneses, Omar e Yaqub (Lorenzo e Enrico Rocha, na infância; Matheus Abreu, na adolescência, e Cauã Reymond na fase adulta). Em uma de suas primeiras cenas, percebemos a preferência explícita da matriarca Zana (Juliana Paes, linda num papel totalmente diferente aos quais estamos acostumados a vê-la) pelo menino Omar, diante do olhar desolado de seu marido Halim (Antonio Calloni, sempre uma acertada escalação). Singrando as águas do Rio Negro, o excelente Antonio Fagundes vive Halim já avançado em idade, recordando o seu passado, e nos afirmando que “depois, tem certas coisas que a gente não deve contar para ninguém”. Zana e Halim possuem uma outra filha, Rânia (Letícia Almeida). Os pais estão ansiosos à espera de Yaqub (Matheus Abreu, que se assemelha a Cauã Reymond), que vem do Líbano, cuja guerra chegou ao fim. Enquanto os jubilosos pais levam o introspectivo Yaqub para a casa, imagens do cotidiano de Manaus (incluindo as de arquivo) mostram as mudanças da cidade durante os cinco anos em que o moço ficou fora. A única coisa que não mudou foi a constante chuva que se abate sobre a capital (“Só em Manaus, chove assim”, segundo Halim). A chuva faz com que Halim reavive a sua memória, recorde-se como foi a sua chegada à cidade, como um simples mascate (nesta fase, é interpretado pelo ator e cantor Bruno Anacleto, extremamente carismático, tendo se saído muito bem em sua atuação). No restaurante de Galib (Mounir Maasri, também responsável pela crível prosódia do elenco), encanta-se por sua filha, Zana (a doce, bonita e graciosa Gabriella Mustafá), que não lhe dá a mínima (ou apenas finge). Halim teria que vencer a sua própria timidez e o preconceito por ser muçulmano para conquistar a sua adorada. Em uma das melhores cenas da minissérie, com notável interpretação de Bruno Anacleto, Salim recita em público, no restaurante de Galib, um inflamado poema em árabe, dedicado ao seu amor, traduzido pelo seu amigo na rua sob a chuva, Abbas (Munir Kanaan). Após o festivo casamento, o pai viaja para o Líbano, e falece. Zana, por um tempo, cultiva o seu luto. Mas Nael não nos deixa esquecer de que “os mortos um dia acabam morrendo de verdade”. Tudo começa a mudar quando Zana manifesta o seu desejo de ter filhos, três filhos, o que contraria Halim. O casal resolve abrir uma loja, e oferece os móveis do antigo restaurante para um orfanato, representado pela rígida e inescrupulosa freira vivida pela ótima Viviane Pasmanter, que lhe entrega a indígena Domingas (Sandra Paramirim) para lhe servir como criada. Segundo a corruptível irmã, Domingas “tem bons dentes”. Domingas na verdade simboliza a catequização cristã imposta aos índios desde priscas eras. Uma “escravização” do povo indígena em pleno século XX. Aparece em cena, como refresco cômico, o excêntrico casal formado por Estelita (Maria Fernanda Cândido, divertida) e Abelardo (Emilio Orciollo Netto, com uma boa composição), vizinhos de Halim e Zana. A pequena Domingas sacia a sua curiosidade com uma certa obsessão ao observar a troca de carícias entre o jovem par. Zana engravida. Na noite do parto, chove e venta. Primeiro, nasce Yaqub. Após, com dificuldades, Omar, o Caçula, com problemas nos pulmões. Um vaso quebra, como se fosse um prenúncio. A partir daí, não se sabe se pelo seu nascimento arriscado, Zana passa a se dedicar de modo exagerado a apenas um filho. Uma espécie de Sofia que escolheu por vontade própria um único para cuidar. Inicia-se o desmoronamento familiar, e a crônica de um drama anunciado. Halim parecia estar com a razão ao não querer ter filhos. E a rivalidade dos gêmeos já era por ele pressentida. É Carnaval, e toda a família comparece a uma festa onde está Estelita. Ambos os gêmeos (Lorenzo e Enrico Rocha) se interessam pela mesma menina, Lívia (Monique Bourscheid). No instante em que Yaqub fora deixar a sua irmã em casa, Omar conquista a garota fantasiada. Nos dias que se seguem, a tensão entre os meninos cresce. Lívia provoca os dois. Ao som de “Claire de Lune”, de Chopin, “O Garoto”, clássico de Chaplin, chega à cidade, o que deixa as crianças animadas. O filme será exibido na residência extravagante de Estelita, sempre preocupada com os seus macaquinhos. A cabeça de uma boneca sorridente que remexe os seus olhos, observada por Omar, parece anunciar o pior. Entre uma gargalhada de Estelita e uma gag de Chaplin, diante dos olhares trocados entre Lívia e Yaqub, a fúria de Omar só aumenta. Um beijo se consuma entre os dois. Nem a falta de luz o interrompe. Somente um caco de vidro usado por Omar para marcar para sempre no rosto de seu irmão o ódio sentido. A guerra fraterna está apenas em seu começo. A direção de Luiz Fernando Carvalho, como de costume, para quem acompanha seus trabalhos, esmerou-se em todos os detalhes, trazendo à tona com capricho, precisão e cuidado estético uma história dramática consagrada na literatura brasileira. Luiz Fernando é, como sabemos, um “diretor de atores”. Ele não só descobre novos talentos, e os lapida, como potencializa os recursos interpretativos de quem está há mais tempo no ofício. Percebemos que o diretor, cada vez mais delicado em sua visão do panorama narrativo, procurou realçar, com a sua câmera, os pequenos gestos, os movimentos fugidios, o quadro, o móvel, a rede, a escada, enfim, elementos que poderiam passar despercebidos, mas que em suas mãos ganham vida. Valorizaram-se sobremaneira a preparação e o close nos pratos típicos árabes, com a sua miríade de cores (inevitável não nos lembrarmos do longa-metragem dinamarquês “A Festa de Babette”, de Gabriel Axel, de 1987). A direção de Luiz Fernando é humanizada. Ele faz com que acreditemos naqueles personagens que se põem à nossa frente, com todas as suas emoções, sentimentos, dores e alegrias. O elenco deste primeiro capítulo se destacou com atuações potentes de Antonio Fagundes (seu Halim possui uma melancolia, uma nostalgia associada à ironia), Antonio Calloni (soberbo e intenso como Halim, também), Juliana Paes (uma legítima e passional matriarca, transbordando a sua beleza), Maria Fernanda Cândido (jovial, encarregou-se de imprimir leveza a Estelita) e Emilio Orciollo Netto (hábil na composição de Abelardo). O ator e cantor Bruno Anacleto, natural de Rondônia, foi uma excelente escolha. O rapaz nos cativou em todas as cenas. Torcemos pela sua vitória na conquista do amor de Zana. É um jovem artista que merece outras oportunidades na teledramaturgia. Também merecem os nossos elogios a atriz Gabriella Mustafá. Todos os intérpretes cumpriram com incontestável brilho a incumbência que lhes foi dada, defendendo com dignidade os seus papéis. A cenografia de Juliana Carneiro e Claudio Duque, e a produção de arte de Marco Cortez corresponderam com fidelidade máxima e inconteste encanto à época retratada (os anos 20, e os que se seguiram). Destaque para um avião da Panair do Brasil no hangar do aeroporto. O figurino de Thanara Schonardie seguiu o mesmo caminho de fidelização dos costumes das diferentes fases. A direção de fotografia ficou a cargo de Alexandre Fructuoso, que soube explorar com inteligência as camadas de luminosidade diversas. Há momentos vivazes, com luz natural, outros mais sombrios, num tom azulado, e outros que se aproximam da sépia. A música original de Tim Rescala é indescritivelmente sublime, com distintos acordes de inúmeros instrumentos. Suas melodias possuem o inefável poder de desenhar com emoção todos os quadros que emolduram determinada cena. Tim, a cada produção, supera-se. A abertura de Alexandre Romano, Eduardo Benguele e do pintor Carlos Araújo é deslumbrante, como há muito não se via. Acompanhada de uma imponente música, testemunhamos pinturas de rostos e corpos expressivos que parecem registrados em pedras de diferentes matizes. “Dois Irmãos” é uma minissérie que tem por desafio transportar para uma outra seara uma obra que já se estabeleceu com sucesso em outro veículo, no caso o editorial. Mas pelo que assistimos em seu primeiro capítulo, esta nova atração da Rede Globo detém todas as ferramentas para se tornar mais uma produção inesquecível da emissora. O telespectador deseja ver, acompanhar, espiar esta jornada dolorosa e emocionante de uma família, marcada por amor, ódio, paixão e ciúme. Queremos ver até que ponto vai a ira entre os irmãos Omar e Yaqub. Se não há algo que possa reverter este laço despedaçado entre eles desde a tenra infância. Se a chuva de Manaus continuará. Quando o pranto de Zana cessará. Se não existe entre esses dois irmãos um resquício sequer de sentimento que não seja tão somente o ódio. Difícil dizer. Nem Zana sabe. Nem os dois irmãos sabem.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2015/ 2016 – Parque Cândido Portinari

    dezembro 29th, 2016

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Alexandre Kunz na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, em sua edição Verão 2016.
    Alexandre nasceu em Braço do Norte, no sul de Santa Catarina.
    Iniciou sua carreira de modelo em uma agência de Florianópolis, no mesmo estado.
    Atualmente, pertence ao cast da agência Mega Models (São Paulo).
    O modelo já desfilou, pelas semanas de moda brasileiras (SPFW e o extinto Fashion Rio), para grifes como TNG, Cavalera, Osklen (fechou o seu desfile) e R.Groove.
    Em uma semana de moda realizada em Curitiba, Paraná, foi o recordista de participações.
    Também desfilou na Casa de Criadores.
    Participou de campanhas publicitárias para grandes marcas, como Coca-Cola e Honda.
    Foi clicado pelos fotógrafos Kacio Lira (ensaio “Spirit of London”, ao lado do também modelo Sullivan Hoffman), Rafa Borges (coleção Igor Dadona Inverno 2014) e Pan Alves (campanha para a marca Kosmic).
    Nesta edição da São Paulo Fashion Week, Alexandre Kunz desfilou para a Cavalera.

    Agradecimento: TNG

  • São Paulo Fashion Week Verão 2015/2016 – Parque Cândido Portinari

    novembro 29th, 2016

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    Foto: Paulo Ruch

    O modelo da Mega Model Brasil (BH) Pedro Figueiredo, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, no Parque Cândido Portinari.
    Pedro, no Fashion Rio Verão 2014/2015, desfilou para a R. Groove, e na edição da São Paulo Fashion Week (SPFW), em sua temporada Outono/Inverno 2015, em novembro de 2014, circulou pelas passarelas tanto da TNG quanto da Ellus.
    Fez campanha para as marcas Good Habits e Nephew Clothing.
    Vestiu as coleções da Ellus Jeans Deluxe, de Lucas Magalhães e de Sônia Pinto, no Minas Trend (Expominas).
    Fotografou para Henrique Gualtieri, Filipe Galgani (vestiu Leo Coelho), Remulo Brandão, Fábio Magalhães, Higor Bastos e Cristiano Madureira (L’Officiel Hommes Brasil).
    Realizou ensaios para as revistas Bardot Magazine, Mais Vip e Salt, e para a grife DTA Jeans.
    No IX Proação Fashion Day, no Minas Centro, que reúne moda e solidariedade, Pedro representou a Forum.
    Na Casa Bernardi, em Belo Horizonte, o modelo foi visto trajando peças da TRIBECA, e no Pátio Savassi, em Belo Horizonte, mostrou as tendências de Ana Luiza Ballesteros.
    Participou do catálogo da Parthenon Jeans, e da Convenção Hering.
    Nesta edição da SPFW, Pedro Figueiredo desfilou para a Ellus e Cavalera.
    Marcou a sua presença nos desfiles de Alexandre Herchcovitch e Rogério Lima no Minas Trend Outono Inverno 2015.

    Agradecimento: TNG

  • “Em ‘Processo de Conscerto do Desejo’, com atuação que toca a perfeição de Matheus Nachtergaele, dor e beleza se misturam às lindas poesias escritas pela mãe de seu intérprete, Maria Cecília Nachtergaele, num espetáculo que serve como instrumento urgente para a libertação pessoal de um artista, e seu acerto de contas com a própria vida”.

    novembro 3rd, 2016

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    Foto: Leo Aversa

    O teatro tem para o seu artista muitas funções. Dentre tantas, uma delas é usá-lo como meio possível e infalível de se expressar de uma forma que atinja o seu público com uma história pessoal relevante que, para ele, precise ser compartilhada, e ao sê-la, sirva como expurgo de suas dores e ressentimentos, sejam pretéritos ou presentes, e manifestação aberta de seus amores e aspirações. “Processo de Conscerto do Desejo” é isso. O desejo de Matheus Nachtergaele de revelar e dividir com os seus espectadores, não na TV ou no cinema, mas no maior veículo vivo que existe, o palco de um teatro, o seu drama originado pela ausência de sua mãe, a poetisa Maria Cecília Nachtergaele, que no emblemático ano de 1968, tirou a sua vida, deixando-o órfão com apenas três meses de idade. As únicas herança e lembrança que recebeu de Maria Cecília foram suas poesias, intactas, prontas, belas, puras, doídas e contemplativas em sua natureza. Matheus, que sempre conviveu com esta acachapante solidão, tinha, não se sabe ao certo quando tomou ciência disso desde sua descoberta como ator, uma dramaturgia em suas mãos. Poderosa, forte, sensível e absolutamente redentora. O intérprete, num ato admirável de coragem, concebeu-a, transformando-a com a sua direção e atuação em um dos espetáculos mais comoventes e honestos já vistos. Alguns podem se perguntar o porquê da significância de seu título. Por que “Processo de Conscerto do Desejo”? Segundo ele mesmo disse: “Quero consertar meu desejo em poesia, num concerto”. Uma resposta definitiva. Mal a plateia se formava no Teatro da UFF, em Niterói, no Rio de Janeiro, que apresentou o projeto “Solos em Cena”, com 16 monólogos encenados, Matheus, encerrando com garbo a iniciativa do espaço cultural, já estava em cena, cantando suavemente e num tom baixo uma delicada canção. Esta peça, por sua singularidade, não necessita de um começo tradicional. Na verdade, ela começou a partir do momento em que Nachtergaele se deu conta de sua viabilidade cênica. Vestindo uma malha preta sedutora colada ao seu corpo, e sobre ela um vestido de mesma cor, com fenda, decote e transparência e pequenas flores com prevalência do vermelho situadas atrás (há simbolismos neste traje híbrido, com o feminino de Cecília e o masculino de Matheus, carregando o luto esperado), o ator exerce a sua nobre missão de transmitir aos que desconheciam a sua experiência individual, e aos que já sabiam também, mas a conheceriam sob um novo contexto. As poesias de Maria Cecília Nachtergaele, que o próprio protagonista não sabe se foram feitas para ele ou não, volto a lhe dizer, são ao mesmo tempo tristes (fala-se bastante da solidão e todas as suas implicações), emotivas, contemplativas (referem-se não poucas vezes à noite, suas estrelas) e lúdicas (como a do menino e sua pipa colorida no ar). Uma delas narra a história de uma dançarina espanhola que nos revela a trajetória trágica de um toureiro conterrâneo. O intérprete, primeiramente, impressiona-nos com sua belíssima voz, afinada, aveludada e canora (esplêndida e soberba preparação de Célio Rentroya). As canções que entoa são aquelas preferidas de sua mãe, uma defendida lindamente no idioma italiano. Cantigas populares infantis são cantadas de maneira estilizada. Como as músicas eram uma das paixões de Maria Cecília nada mais justo que as mesmas estivessem presentes em cena. Matheus também pôde mostrar ao seu público, extasiado do início ao fim com a sua performance, os seus dotes como dançarino, ostentando uma invejável dominação de sua expressividade corporal (exuberante, minimalista e irretocável trabalho de corpo de Natasha Mesquita). Alguns bons exemplos são aqueles nos quais o ator personifica a dançarina já mencionada e quando, com as suas próprias mãos, simula uma lépida mariposa. O ator, que se alterna entre pensamentos dele mesmo e as poesias de sua progenitora, possui a chance de se exercitar plenamente como artista. Seja declamando os escritos poéticos, seja interpretando (defende a própria mãe o acalentando no colo, utilizando-se de reiterações típicas do “Diário do Bebê), seja cantando ou interagindo de maneira muito bem aceita por sua plateia, numa espécie de congraçamento raro visto no teatro, tendo como recurso para a sua realização a convocação de todos para uma dança coletiva catártica. Não houve quem recusasse ao irresistível convite de um Matheus Nachtergaele em estado de graça para com ele dividir o seu mágico momento. O concerto do título do espetáculo se traduz na presença de grandes músicos, o violonista Luã Belik e o violinista Henrique Rohrmann, que acompanham com elegância e refinamento as principais passagens da montagem. Ainda no que tange à completude de Matheus Nachtergaele em sua atuação, o ator, que tem em sua face uma maquiagem escurecida carregada abaixo de seus olhos (poderíamos interpretar como as vistas inchadas de prantos derramados), orquestra um deslumbrante trabalho de pintura de seu próprio corpo. Como se a tinta amarela da qual se utiliza para se pintar e manchar a sua roupa não se configurasse apenas como um meio de impacto estetizante, mas sim como um acessório representativo da metamorfose de um ator para a sua realidade espacial cênica, para o seu universo íntimo e particular. A máscara amarela em seu rosto pode ser a nova identidade de que necessita para seguir em frente com as suas vivências transmutadas em Arte. Matheus Nachtergaele se incumbiu de dirigir a ele mesmo. De fato, seu espetáculo solo é tão pessoal que nos parece sensato e plausível que o intérprete saiba mais do que ninguém sobre o que deseja que seja testemunhado no palco, ou no caso desta peça, também fora dele. Nachtergaele não se ateve a amplas pretensões estéticas, bastando para ele a simbolização digna de seus sentimentos e emoções por meio das poesias de sua mãe, acompanhadas da sonoridade etérea e envolvente dos instrumentos de seus excelentes músicos. O ator fundamentou primordialmente a sua encenação (uma mescla de performance, atuação, declamação, dança, canto, concerto) no binômio texto/música. O resultado não poderia ter sido mais bem-sucedido, pois Nachtergaele é um artista extremamente popular, querido, carismático e detentor de um talento múltiplo. A iluminação de Orlando Schaider, em sua maioria, busca um tom não naturalista (pode-se afirmar que há uma textura que se aproxima do amarelado), de certo modo onírico, não se eximindo, entretanto, da adoção de recursos indispensáveis, num contexto tradicional, para o desenho visual de uma cena. Em certa ocasião, Orlando ilumina toda a ribalta com um vermelho forte, ofuscante. Já em outras, direciona seus objetivos para os focos e sombreados (há instantes em que só vislumbramos o rosto ou o corpo de Matheus). Usou outrossim o plano geral, incluindo a plateia, os blecautes, os refletores que apontam frontalmente os espectadores, e outros tantos laterais com visível intensidade potente. Orlando Schaider colabora com maestria para o embelezamento de todo o panorama cênico. O cenário se resume a uma cadeira de madeira estilo Luis XV com recosto de vime propositalmente perfurado, situada no lado esquerdo do palco, com a qual o artista interage. Acrescenta-se um imenso laminado posto no fundo do tablado que ora reflete a imagem do ator ora deixa transparecer a figura imponente do violinista. O seu impacto imagético sobre nós, espectadores, é irrefutável. “Processo de Conscerto do Desejo”, uma realização da Pássaro da Noite Produções, com direção de produção de Miriam Juvino, é um espetáculo teatral, pode-se dizer, talvez, inclassificável. Não se classifica tão somente o transbordamento legítimo de um ator dentro de sua mais genuína emoção. Como também nos é difícil e árido classificar o seu grau de desejo em simplesmente “realizar”. Para que conseguisse tal feito, Matheus Nachtergaele elaborou um processo. Mas não um processo qualquer. Deveria ser um processo com um concerto de músicos. Porém, não parou por aí. Matheus Nachtergaele tinha por objetivos e intentos “consertar” esse desejo. Com os músicos. Nasceu, neste exato instante, “Processo de Conscerto do Desejo”, com três protagonistas. Mas não era apenas Matheus Nachtergaele em cena? Não, não era. Matheus divide a cena com brilho eterno com dois grandes parceiros de vida: sua mãe Maria Cecília Nachtergaele… e suas poesias.

  • “Em seu primeiro monólogo, ‘O Filho Eterno’, adaptado do grande sucesso literário de Cristóvão Tezza, Charles Fricks, da Cia Atores de Laura, em atuação impressionantemente intensa e humanizada, mostra-nos o quanto o homem comum pode ser dualista em suas ideias, contraditório em suas paixões, e de modo inapelável, mas não eterno, resistente ao diferente, simbolizado na figura de seu filho especial.”

    outubro 23rd, 2016

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    Foto: Isabela Kassow

    Quatro anos depois, em 2011, do escritor catarinense Cristóvão Tezza ter lançado o seu premiadíssimo livro autobiográfico “O Filho Eterno”, a prestigiada Cia Atores de Laura, liderada por Daniel Herz, no Rio de Janeiro, decide adaptá-lo, pelas mãos de Bruno Lara Resende, para os palcos, tendo como protagonista do monólogo homônimo um de seus membros, Charles Fricks. O espetáculo, que até hoje é montado com sucesso pelos inúmeros lugares por onde se apresenta, levou o intérprete a conquistar os Prêmios Shell e APTR de Melhor Ator. Há quase duas semanas encenada no Teatro da UFF, em Niterói, cidade fluminense, dentro do projeto “Solos em Cena”, que reúne dezesseis encenações do gênero, Charles pôde novamente emocionar o seu público. “O Filho Eterno” narra a história de um escritor de apenas 28 anos, com dificuldades de ser reconhecido no mercado editorial, defensor de conceitos sobre solidão e ideias bastante particulares e pessoais, casado, que se vê à primeira vista entusiasmado com a notícia de que será pai, e que após o diagnóstico de que seu filho é portador da Síndrome de Down, desespera-se e se entrega às visões mais terríficas de sua atual situação. A peça, que se passa em 1980, detalha o passo a passo da agonia deste pai em meio à absoluta ausência de informações precisas e prognósticos otimistas a respeito desta alteração genética, a Trissomia 21 (um cromossomo 21 a mais no código genético humano, que se somou aos outros dois), chamada à época errônea e cruelmente de mongolismo. Só mais tarde, com os avanços dos estudos médicos e científicos, a introdução de métodos coletivos de adaptação, reabilitação, motivação, incentivo e aplicação de práticas multidisciplinares, a doença tão assustadora para os seus pais passou a ser chamada de Síndrome de Down (descrita pelo médico inglês John Langdon Down em 1866, e só em 1959 o também médico, o francês Jêrome Lejeune, descobriu que sua origem era genética). O escritor, que até o momento tinha uma existência enraizada na sua libertadora solidão (a despeito de ser casado), alimentada por doses constantes de uísque, depara-se de uma hora para a outra com diversos fantasmas que o assombrarão, e por consequência lhe usurparão a venerada liberdade. O filho, Felipe, nome forte que permite diversas entonações, eterno em sua “anormalidade”, fez com que se defrontasse com sentimentos que até então lhe eram estranhos e inexistentes, como o preconceito, a culpa e principalmente a vergonha. Acometido de uma fúria “raivosa”, o pai, que sobrevive graças a aulas de redação e a revisões de teses de mestrado, por ironias de seu destino, divertiu-se ao corrigir os potenciais erros gramaticais de uma delas, que dissertava exatamente sobre a doença que agora fazia parte de seu cotidiano. O devastador inconformismo do literato o fez relatar com assombrosa insensibilidade as anomalias características de seu recém-nascido. Não somos poupados em nenhum instante da perturbadora ignorância e preconceito deste indivíduo que se achava superior aos seus pares devido à sua vocação natural para as letras, e a partir dela construir os seus romances, sempre com a marca de seu “esclarecimento. Seus traumas vigentes também se devem ao aterrador formalismo dos médicos assoberbados em seus jalecos brancos e assépticos, eivados de sadismo desconcertante, ao darem aos familiares “as piores notícias de suas vidas”. Como enfrentar os amigos a partir de agora? O que dizer a eles? Responder-lhes que o seu filho é “mongol”? Esta e tantas outras questões aflitivas por vezes o encaminhavam para um escapismo supostamente salvador, escrevendo de modo compulsivo e aleatório suas histórias inacabadas. O homem que se aprazia com os sons e a morfologia das palavras, agora testemunhava o seu rebento com traços diferentes na face, altura menor, com dificuldades de locomoção, isolado em um mundo próprio, balbuciar ininteligíveis simulacros de vocábulos. Creches rejeitam a permanência do menino Felipe, alegando ao seu progenitor que simplesmente ele não se “adapta” ao local. A exclusão pela sociedade de seu filho acaba sendo a sua exclusão pessoal. Uma sociedade que invariavelmente não se importa em excluir o não igual. Uma sociedade onde não há lugar para a diferença. O escritor clama pela “normalidade”, que se afugentou de sua vivência. A chegada de uma filha “perfeita” aplaca de alguma maneira esta sensação de se estar “à margem da vida e de todos”. O filho cresce, os anos passam, e as pequenas e rotineiras situações diárias exercem a função de “normalizar” o que antes era impensável. O seu velho Fusca amarelo lhe serve para gargalhar diante do inesperado progresso do filho em meio a uma adversidade do trânsito. Diminutas e crescentes mudanças, imperceptíveis apenas para quem não as quer ver, ocorrem dia após dia. Partidas de futebol se transformam em grandes eventos de confraternização entre o pai e o filho, antes longamente distantes um do outro. O modo efusivo e a inteligência e compreensão de mundo de seu filho evidenciados defronte a um prosaico jogo de futebol provocaram no escritor desacreditado da vida e de um Deus do Velho Testamento uma evolutiva alteração em sua percepção distorcida e implacável da realidade que envolvia o seu filho e a si mesmo. O problema não estava na doença de quem gerara, o problema não estava no cromossomo 21 excedente, o problema era ele. O sorriso puro, cheio de afetividade de seu filho, capaz de remover as posições mais empedernidas e duras perante o mundo no qual vivemos, fez surgir no pai “castigado” um ser humano avivado, obrigado a se reavaliar, obrigado a rever as suas noções arbitrárias de espaço e tempo, a modificar a forma como idealizava a relação ideal de um pai e seu filho, e a relativizar o conceito discriminatório do que seja normal. A dramaturgia, uma adaptação de Bruno Lara Resende, carrega em si inegáveis méritos, que vão desde a maneira com que fora estruturada formalmente até o modo certo encontrado para se atingir o público, sem que se deixasse cair na tentadora armadilha da pieguice e dos clichês melodramáticos, elementos que poderiam ser utilizados se levarmos em conta a delicadeza e o apelo do tema em pauta. Bruno foi bastante honesto ao transpor para o teatro a incensada obra de Tezza. Esta honestidade é identificada na abordagem franca e sem rodeios dos conflitos, incômodos em sua natureza, envolvendo o pai e a sua rejeição ao filho diferente. Não deve ter sido nada fácil para o dramaturgo/adaptador “criar” uma nova história para aquela que já nos foi contada com demasiado êxito pelo autor de “O Filho Eterno”. Mexer em algo “pronto” é arriscado, perigoso, um ato de coragem. O valor de Lara Resende em seu feito se torna ainda mais realçado se partirmos do princípio de que se trata de uma experiência real, dolorosa e íntima revelada pelo escritor, fator que exigiria cuidado, cautela e prudência máximas em sua adaptação, sem deixar de lado as doses de emoção pertinentes, e o fio de razão necessário. O texto caminha, sempre com equilíbrio, pelo viés da narração feita pelo próprio intérprete, e pela legítima vivência dos fatos pelo personagem com os outros integrantes do enredo. A direção de Daniel Herz para o primeiro monólogo não só de sua companhia mas de seu protagonista Charles Fricks se revela, desde o começo da encenação, determinada e resoluta em seus objetivos cênicos, não hesitante quanto aos rumos interpretativos sugeridos para o seu ator, e reconhecidamente sensível, perspicaz e inteligente. A inteligência de Daniel se traduz em conduzir Charles por uma linha de interpretação que não causasse nos espectadores uma repulsa àquele homem/pai imbuído dos mais desprezíveis preconceitos e ignorância. Mas acontece algo que se assemelha a uma espécie de compreensão coletiva por parte de quem assiste ao desespero avassaladoramente humano daquele indivíduo agora fraco em suas certezas. A pusilanimidade daquele pai em nenhum momento nos causa empatia, mas também não chegamos à pretensão de julgá-lo até que se findem os acontecimentos. Daniel Herz se alterna na priorização dos silêncios e pausas do pai, indispensáveis para o entendimento de sua dor individual, e na dinâmica de cena, percebida pelos movimentos abruptos ou não do personagem pelo espaço da ribalta, indicativos de instantes de euforia, ansiedade e intranquilidade. Todo este denodo do encenador resultou em um espetáculo fluido, ágil, porém respeitoso ao seu tempo particular e único. Charles Fricks, ao defender a figura do pai, chamou para si uma grande e desafiadora responsabilidade. O pai por ele representado não simboliza tão somente a figura ancestral do progenitor, mas a de um homem, no sentido amplo do termo, em toda a sua dimensão humana, com o seu respectivo papel dentro de uma sociedade contemporânea. A Charles coube organizar, e após difundir por meio de sua notável e intensa atuação as muitas camadas psicológicas, comportamentais, emocionais e existenciais do escritor arrebatado pelo imprevisível, perturbado pelo inevitável confronto com o desvio da “rota da normalidade”. Seu personagem possui inquestionável complexidade, evidenciada em não poucos aspectos, percebida por nós à medida que os acontecimentos da narrativa se desdobram. Fricks percorre com força dramática e intenções interpretativas bem definidas o longo e penoso caminho do pai até alcançar os últimos degraus que o levam à redenção pessoal. Aurélio de Simoni nos fornece uma bela e elegante iluminação, ficando-nos claro de que os seus objetivos primeiros não eram o de realçar ou sublinhar as dores, angústias e ansiedades daquele pai, e para isso o prestigiado profissional da luz optou por tons mais alegres e claros. A luz aberta que perpassa boa parte do espetáculo em nenhum momento nos transmite a ideia de sofrimento, ao contrário, a sua leveza serve como contraponto ao peso sofrido pelo protagonista. Isto também não quer dizer que Aurélio não se eximiu de usar focos mais intimistas, principalmente iluminando somente a face do ator, e se utilizando de blecautes e um jogo lateral de luzes que advieram de refletores postos sobre o chão, fora do palco, causando um potente efeito. Vemos na interpretação de Charles Fricks, associado a ela, um pujante componente que a diferencia em seu conjunto: o movimento. Quem ficou a cargo da direção de movimento da montagem fora Marcia Rubim. Marcia explorou todos os limites corporais e de movimentação no palco possíveis e viáveis ao ponto de traduzirem com exatidão toda a gama de camadas emocionais por que passa inevitavelmente o personagem. Suas aflições e angústias são decodificadas em gestos e posturas, assim como a sua culpa, sua redescoberta de valores, efusividade e redenção pessoal. O figurino coube a Marcelo Pies, que vestiu Charles Fricks com inegáveis garbo e sobriedade. O pai traja um conjunto em tons terrosos que engloba terno, calça e mocassins, tendo como contraponto um colete com xadrezes. Uma neutralidade condizente com o perfil de um homem comum da sociedade, adequada à contextualização da profissão que exerce. A trilha sonora original de Lucas Marcier marca com precisão, apostando admirável e acertadamente nos acordes instrumentais, de forma instigante e progressiva, no sentindo de acompanhar com coerência, sem quaisquer resvalos para o pieguismo ou apelo fácil dramático, as fases diversificadas pelas quais transita o personagem pai, respeitando assim todas as suas mudanças, comportamentos e reações face às contingências adversas, e obedecendo com reverência às situações redentoras e de libertação. O cenário de Aurora de Campos segue a linha segundo a qual quanto menos recursos cênicos desnecessários e excedentes no campo teatral forem utilizados melhor e mais bem-sucedida será a aproximação do espectador com a narrativa contada. Para se colocar no palco, não sendo mais do que suficiente, e Aurora sabe bem disso, os elementos úteis que sirvam de apoio visual para se desenhar com esmero e eficiência os dramas compartilhados pelo pai e seu “filho eterno”, a cenógrafa recorre a um belo e amplo painel azul no fundo da ribalta que simboliza com fidelidade o céu a que tanto se refere o personagem na berlinda. As cadeiras, tão simples quanto múltiplas em suas funções práticas, fazem jus ao seu valor como objeto cênico, cumprindo sua missão com significância. “O Filho Eterno” não à toa é um espetáculo que até hoje emociona, faz-nos refletir, pensar, questionar e reavaliar nossos, por vezes, tão errados valores. A montagem, com sua transparente pujança dramatúrgica e nível elevado das verdades interpretativas de seu ator, é um avassalador manifesto, sem imposições, e sim por suas situações esmiuçadas, contra um de nossos mais ruinosos vícios: o preconceito. O preconceito, seja ele qual for. O preconceito, este sentimento tão arcaico e maculado de ignorância, como a própria morfologia de sua palavra nos indica, atravessa a história do homem, e se mantém sólido e inexpugnável em grande parcela da humanidade. Neste caso, trata-se do preconceito inicial de um pai que não aceita o fato de seu filho esperado ser portador da Síndrome de Down. Um preconceito pontual num mar gigante de outros tantos preconceitos, ricos em suas ramificações e extensões. Mas “O Filho Eterno” possui uma outra função importantíssima, que é a de nos fazer despertar para uma emoção que não raro se mantém quieta, silenciosa e latente, mas que, no entanto, ao ser descoberta, revelada e transmitida ao próximo tem a capacidade irremovível de transformação social, e melhora, sem exageros, do mundo. A ela se dá o nome de afetividade. Somente ela é capaz de vencer oponentes poderosos como o preconceito. Não bastam o conhecimento e a vontade de mudança de valores e posições individuais. É preciso que se descubra em si próprio a nossa afetividade. Que todos nós, assim como aquele pai que conhecemos, façamos da afetividade a nossa “Filha Eterna”.

  • “Iniciando sua primeira fase com um time de jovens talentos, Maria Adelaide Amaral e Vincent Villari, em sua estreia no horário nobre com ‘A Lei do Amor’, oferece-nos uma trama bem próxima do conceito natural de uma telenovela, com direito a heróis e moças românticos, grandes e pequenos vilões, injustiças, vinganças, e é claro, muito amor e todas as suas leis.”

    outubro 5th, 2016

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    Foto: Ramon Vasconcelos/Gshow

    Estrear no horário nobre de uma emissora de TV não é nada fácil. Estrear neste mesmo horário com uma telenovela em uma emissora reconhecida nacional e internacionalmente por este gênero se torna uma tarefa ainda mais difícil. Maria Adelaide Amaral é uma escritora, dramaturga e teledramaturga prestigiada por público e crítica, com obras como a antológica minissérie “Os Maias” e o remake de “Anjo Mau”, dentre tantas outras produções de similar valor. Iniciou uma bem-sucedida parceria com o autor Vincent Villari em 2013, na Rede Globo, com “Sangue Bom”, na faixa das 19h. E esta profícua colaboração se repete agora com “A Lei do Amor”, um enorme desafio para ambos, levando-se em consideração o fato de que estão sucedendo um sucesso como “Velho Chico”. A nova novela em questão será dividida em duas fases, tendo a direção artística de Denise Saraceni e a direção geral de Denise e Natália Grimberg. A história começa em 1995 na fictícia cidade São Dimas, uma bucólica e campestre região do interior de São Paulo na qual o principal polo de trabalho é a Tecelagem Leitão, comandada com mãos de ferro pelo empresário Fausto (Tarcísio Meira, uma presença sempre bem-vinda na TV brasileira), também dono de uma fábrica de tintas. Casado com Magnólia ou Mág, uma mulher manipuladora e perigosa vivida por Vera Holtz, ostentando a sua familiar potência interpretativa, o patriarca possui pretensões políticas bastante conservadoras e reacionárias. Pai de Pedro (Chay Suede, um dos jovens atores mais queridos de sua geração, desde “Rebelde” até chegar a ser protagonista de “Império”), um rapaz forte, decidido, justo, cheio de ideias próprias, que “bate de frente” com sua madrasta Mág. O arquiteto foi criado pela babá, hoje copeira, Zuza (a cativante Ana Rosa), a quem considera a sua segunda mãe, pois Stela, sua verdadeira progenitora, falecera cedo. Pedro é meio-irmão do rebelde, aproveitador e maldoso Hércules (João Vitor Silva em acertada escalação após o seu impressionante desempenho como Bruno em “Verdades Secretas”), que por sua vez é casado com a doce porém infeliz Carmem (Bianca Salgueiro). Ela tivera um filho precocemente com ele, e se viu obrigada a se casar para não perder a guarda da criança, temerosa do poder econômico do clã. O folhetim também marca o retorno de Sophia Abrahão ao horário das 21h após “Amor à Vida”, na mesma emissora. Sophia defende a outra meia-irmã de Pedro, Vitória, uma moça alegre, de boa índole e romântica. Vitória se apaixona por Augusto (Hugo Bonemer, excelente ator de teatro, principalmente de musicais, que volta à televisão em um papel de destaque para a alegria de seus fãs). Augusto, filho de um fiscal do trabalho já falecido, crê que o seu pai fora morto por saber que Fausto mantinha um caso extraconjugal com Mág enquanto sua esposa Stela era viva. Deduz-se que Mág agirá com intensidade para interromper o namoro dos dois que mal começara. Maurício Destri está quase irreconhecível com uma barba espessa, e seu personagem se chama Ciro, o amigo misterioso, calado e sisudo de Hércules. Frequentador da mansão dos Leitão, faz as provas escolares de seu colega sem qualquer resistência. Logo em suas primeiras cenas, com bonitas imagens captadas do alto, vimos Isabelle Drummond, como Helô, em seu barco rústico praticando a pesca nas águas da represa de São Dimas para a sobrevivência de seus familiares, um pai alcoólatra, Jorge (Daniel Ribeiro) e uma mãe adoentada, Cândida (Denise Fraga; prazeroso ver esta atriz que se sobressaiu em bastantes trabalhos de comédia, voltar às novelas personificando uma mulher triste e castigada pela vida). De repente, seu barco é ameaçado por rapazes inconsequentes, Hércules e Ciro, que com a velocidade de seus jet skis derrubam a sua embarcação. Por sorte, Helô é salva por Pedro, que estava por perto com o seu veleiro. Começa aí uma grande paixão que transcenderá as fases da novela, mas que, como num bom folhetim, terá que superar muitos obstáculos, inclusive uma armação urdida por Mág para separá-los. Helô e Pedro, que serão interpretados no futuro por Claudia Abreu (curiosamente chamada Helô, e com um corte de cabelo semelhante, na minissérie “Anos Rebeldes”, que lhe deu projeção nacional) e Reynaldo Gianecchini na outra fase, entendem-se cada vez mais, da mesma maneira que Vitória e Augusto, o que desperta o enorme e temível ciúme de Ciro. O clima tenso do primeiro capítulo do entrecho ficou por conta de Jorge que, não conformado de ter sido demitido por faltar sucessivas vezes ao emprego, decide defrontar o casal Leitão, piorando a sua situação. A aproximação de sua desgraça se efetiva quando ganha de presente em uma quermesse uma arma de brinquedo, que o faz tentar assaltar o caixa da tecelagem onde trabalhava, tomando uma funcionária como refém. Jorge é preso em uma cela comum, para o desespero de sua filha. O generoso arquiteto Pedro até tentou ajudá-lo, providenciando um habeas corpus. Helô suplica a Mág o seu perdão, sem sucesso. Ocorre um motim, e Jorge é morto. Enquanto isso, acontece um luxuoso jantar na casa dos donos da empresa para homenagear um político corrupto, César Venturini (Otávio Augusto). O clímax para o próximo capítulo se efetuou quando Helô impulsivamente invadiu a mansão dos Leitão e ameaçou Fausto de ter assassinado o seu pai. E assim começou a nova novela das 21h da Rede Globo, uma produção sempre aguardada pelos telespectadores. A trama pensada por Maria Adelaide e Vincent Villari engloba os elementos básicos que sempre caracterizaram o folhetim clássico, como descrito brevemente no título deste texto. Heróis e mocinhas românticos, grandes e pequenos vilões, a luta do bem contra o mal, dos fortes contra os mais fracos etc. As direções artística e geral de Denise Saraceni e geral de Natália Grimberg optaram por uma linguagem mais convencional, tradicionalista, sem maiores e desnecessários malabarismos estéticos. Houve uma alternância entre as cenas românticas (bonitos e ternos momentos de Chay Suede e Isabelle Drummond em um rio com takes filmados do alto, e Hugo Bonemer e Sophia Abrahão em uma colorida e iluminada quermesse), e os instantes de tensão e apreensão que permearam o desenrolar do enredo, envolvendo as leves altercações entre Pedro e Mág, as provocações de Hércules e o cume, protagonizado pelo ator Daniel Ribeiro e os intérpretes diretamente envolvidos com o seu drama, como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Denise Fraga, Chay Suede e Isabelle Drummond. O que percebemos também neste primeiro capítulo foi o ótimo aproveitamento de um time de jovens atores, alguns com inegável experiência, que deram um frescor à novela, independente de seus personagens tenderem para o bem ou para o mal. Foi agradável conferir Chay Suede com Isabelle Drummond, Hugo Bonemer com Sophia Abrahão, Maurício Destri, João Vitor Silva e Bianca Salgueiro. E, claro, juntaram-se a eles nomes de respeito da classe artística, como Tarcísio Meira, Vera Holtz, Denise Fraga e Ana Rosa. Ainda com relação a este início de “A Lei do Amor”, que mostra em sua abertura a voz de Ney Matogrosso cantando “Trenzinho do Caipira” (criação de Alexandre Romano, Christiano Calvet e Roberto Stein), podemos destacar a direção de fotografia de Roberto Amadeo e Jean Benoit Crepon, que valorizaram em muitos momentos a luz natural de belas paisagens, e a produção de arte de Guga Feijó e Flavia Cristófaro, que souberam ser fiéis na reprodução de um cenário coletivo que reportasse à segunda metade da década de 90. Aguardemos a segunda fase, que trará um cast digno de atenção, com Regina Duarte, José Mayer, Claudia Raia, Thiago Lacerda e tantos outros, além de marcar a volta de Renato Góes e Grazi Massafera ao vídeo, após seus retumbantes êxitos como o Santo de “Velho Chico” e a Larissa de “Verdades Secretas”, respectivamente. “A Lei do Amor” tem potencial para despertar o interesse do público das 21h por falar sobre algo que nos é intrínseco, regente de nossas vidas, complexo, fugaz ou longo, prazeroso ou doído: o amor. Resta-nos saber se saberemos respeitar as suas leis ou não. “A Lei do Amor” fará a sua parte.

  • “Inspirados deliberadamente nas produções cinematográficas americanas dos anos 40 e 50, com forte apelo musical e valorização dos diálogos, Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão se propõem a contar com as suas assinaturas próprias a história do maior veículo de massa do Brasil, a TV, na nova série da Rede Globo, “Nada Será Como Antes”.

    setembro 28th, 2016

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    Foto: Estevam Avellar/Gshow

    Saulo (Murilo Benício), um visionário vendedor de rádios, passeia de carro pelas estradas do interior de São Paulo ao lado de seu melhor amigo, Aristides (Bruno Garcia). O ano é 1946, e o rádio toca. Por debaixo das longas linhas de transmissão, ouve-se a doce voz da rádio atriz Verônica Maia (Débora Falabella). Saulo se embevece, e vai ao seu encontro na Rádio Difusora Entre Rios. Ao chegar lá, depara-se com uma recepcionista (Débora Falabella), e após um breve desentendimento, escuta da moça a seguinte frase: – O senhor é muito mal-educado. Ele então reconhece a dona da linda voz que ouvira no carro. Com ideias arrojadas e ambiciosas, Saulo procura convencer Verônica a irem para o Rio de Janeiro tentar a sorte. O primeiro beijo de ambos é embalado por “Fly Me To The Moon”, música cantada por Iza. Dez anos depois, no mágico e fascinante Rio de Janeiro desta época, em um prestigiado night club (vem-nos à lembrança a ambiência de um dos mais elegantes e nostálgicos filmes de Woody Allen, “A Era do Rádio”, de 1987), somos seduzidos por uma bela e voluptuosa dançarina interpretada por Bruna Marquezine, Beatriz. Saulo agora é o proprietário da Rádio Guanabara, e Verônica, então sua esposa, a principal atriz da emissora. Fabrício Boliveira é Péricles, seu colega de elenco na radionovela “Cyrano de Bergerac”. Daniel de Oliveira é o rico, playboy e mulherengo Otaviano, para quem “sexo pago não é traição”. Saulo, decidido e envolvente, tenta convencer o rapaz que não gosta de trabalhar a investir em seu mais novo projeto: a televisão. Saulo é uma clara referência a Assis Chateaubriand, o maior responsável pela introdução e popularização da TV no Brasil com os seus Diários Associados. Saulo e Verônica formam um casal perfeito, pleno em felicidade e realizações, mas lhes falta algo importante: um filho. O casamento começa a dar sinais de desmoronamento quando por cerca de três anos tentativas de se ter um filho são infrutíferas. Na verdade, o problema é a infertilidade de Saulo. Desiludido e frágil, é provocado no night club pela lasciva e cobiçosa Beatriz (Bruna Marquezine impressiona na interpretação da canção “The Man I Love”, eternizada por Billie Holiday), que num jogo de quiromancia, busca adivinhar o motivo de seu abatimento. Beatriz, no entanto, preocupa-se com a sua mãe, Odete (Cassia Kiss), uma ingênua empregada doméstica que pensa que a sua filha está no teatro personificando uma “mocinha francesa”. Por covardia e vaidade masculinas, o mentor da Rádio Guanabara resolve friamente mentir para a sua mulher, dizendo que não a ama mais, e que quer se separar. Verônica, ao interpretar Roxane, de “Cyrano de Bergerac, na encenação radiofônica, face à morte de seu admirador (Cyrano), derrama as lágrimas de sua real dor pessoal, o que foi percebido por Péricles. Usando Beatriz, a atriz, como “isca”, Saulo finalmente logra convencer Otaviano a investir a sua fortuna na fundação de uma estação de TV. Numa emblemática e recorrente cena de separação, em que o casal divide os livros e discos, Murilo e Débora emocionam com “Só Louco”, de Dorival Caymmi, ao fundo. Diante de um incrédulo Aristides, que afirma que a televisão irá acabar com o cinema, o rádio e o teatro, Saulo lhe mostra o seu portentoso estúdio de TV, o qual, para ele, profeticamente, “se tornará a praça onde se discutirá a vida do país.” Chega o dia da inauguração da TV Guanabara. Coristas se movimentam de um lado para o outro. Verônica fará a apresentação da efeméride. Ainda sentida com a separação, Verônica, na última hora, desiste de se apresentar. “5, 4, 3, 2, 1… No ar”. Saulo, citando Dom Quixote, apresenta a primeira transmissão ao vivo da TV brasileira. O primeiro episódio da série “Nada Será Como Antes”, que será exibida todas as terças-feiras, em 12 partes, já ganha o telespectador por abordar, misturando o factual com o ficcional, os primórdios da televisão do Brasil, seus bastidores regados a romances, intrigas e polêmicas, revelando-nos à sua maneira como este veículo até então desacreditado se tornou uma das paixões nacionais, e um dos principais conglomerados do setor audiovisual em nossa nação. Guel Arraes, Jorge Furtado e João Falcão, o segundo com notória experiência no cinema, o terceiro no teatro, e todos indiscutivelmente com insigne legado na televisão, somaram seus ímpares talentos, e por meio de precisos e interessantes diálogos, sempre oportunos e necessários em seu contexto, contando com a primorosa direção artística de José Luiz Villamarim, e com as eficientíssimas direção de Isabella Mesquita e direção geral de Luisa Lima, construíram um primeiro episódio que nos causou uma ótima impressão, com vontade inarredável de se esperar por sua continuação. A ideia de se adotar o formato de série semanal é, de fato, um considerável risco, cabendo aos autores e à direção de se encarregarem de nos oferecer invariavelmente irresistíveis desfechos. A direção da produção se apoderou de um estilo que em muito nos lembra filmes que nos são caros na memória afetiva provenientes da indústria de cinema dos Estados Unidos, e isto não é um demérito, sendo tão somente uma inspiração, uma referência. Imprimiu-se um tom naturalista à interpretação dos atores, uma objetividade dos diálogos, mas também as pausas pertinentes para os momentos de maior emoção e dramaticidade, não se esquecendo, é óbvio, da postura melodramática das performances nas rádios e seus gêneros. Usaram-se todos os tipos de angulações de câmeras, como planos fechados, planos e contraplanos, planos americanos, e muita movimentação, com a leve tremulação das suas imagens, com o acompanhamento dos personagens circulando por diferentes cenários. O elenco, pelo que vimos em seu pioneiro episódio, é um total acerto. O reencontro de Débora Falabella e Murilo Benício, após o sucesso de “Avenida Brasil”, formando pela primeira vez um casal na teledramaturgia, rendeu elogiosos resultados, comprovando a química existente entre eles. Murilo compôs Saulo de forma que crêssemos em seu caráter visionário e empreendedor, alternando passagens em que se evidencia mais sóbrio, em outras mais emocional e sensível, e nas demais resoluto e inabalável em suas deliberações. Já Débora Falabella desenhou com excelência o perfil de Verônica com os traços de uma jovem romântica e por vezes fragilizada tanto na sua condição de artista quanto na de mulher. Pode ser que haja uma reviravolta em sua personagem, o que com toda a certeza será bem desenvolvida pela atriz. Daniel de Oliveira se saiu perfeitamente convincente, como de costume, ao defender o doidivanas Otaviano. Daniel, com sua experiência, reconhece de longe as características natas dos papéis que habitualmente costumam lhe oferecer. Bruna Marquezine ostentou evidente processo de amadurecimento e evolução interpretativa ao viver uma jovem com sensualidade e formosura à flor da pele, além de nos provar que sua disciplina como intérprete se confirmou outrossim nas cenas, como dito, em que cantara. Bruno Garcia, cujo papel esconde uma homossexualidade, impingiu nítida credibilidade ao amigo prático e objetivo de Saulo (suas cenas seguintes com o também homossexual Rodolfo, de Alejandro Claveaux, poderão causar alguma polêmica; o fato de atores galãs, principalmente no cinema americano das décadas de 40 e 50, esconderem sua verdadeira orientação sexual para preservarem as suas carreiras era bastante comum). Cassia Kiss em sua rápida aparição como a mãe de Beatriz já indicou que a sua participação será valorosa. Fabrício Boliveira dignificou o seu papel, cabendo a ele uma oportuna denúncia na indústria da TV, ou seja, a questão de atores negros serem relegados a personagens de menos significância. Péricles é um bem-sucedido ator de radionovelas, e com o advento da televisão se tornará um mero figurante. Aguardemos ainda as atuações de Osmar Prado, Jesuíta Barbosa, Daniel Boaventura (que já apareceu no primeiro episódio fugazmente) e Letícia Colin (cujas cenas com Bruna Marquezine prometem incomodar os mais conservadores). Os figurinos de Cao Albuquerque correspondem com exatidão às décadas de 40 e 50, denotando o seu trabalho minucioso e caprichado. A direção de fotografia de Walter Carvalho buscou um tom, uma intensidade que se estabelecesse entre o atual e o pretérito, ofertando-nos um grau de nostalgia, sem que no entanto nos afastássemos da história narrada. Vimos tonalidades e filtros suaves, brandos, por vezes quase diáfanos, mas em nenhum instante se configurou a contextualização da presença de sua luz com a realidade. A produção de arte de Nena Alvarenga é um primor, respeitando todo e qualquer detalhe que nos reporte àquelas eras. Desde pequenos objetos de mobília, passando pelos automóveis e câmeras pioneiras da televisão. A produção musical de Eduardo Queiroz e a direção musical de Marcel Klemm falam por si só, devido à alta meticulosidade e bom gosto na seleção das canções, nacionais e internacionais, que perpassam a trama, além da trilha incidental. A abertura de Alexandre Romano e Flavio Mac é curta, bonita e potente, começando com a incrível versão de Cássia Eller para “Try a Little Tenderness”, de Otis Redding. Alexandre e Flavio, com demasiadas proficiência e inspiração, recortaram cenas do cotidiano dos principais personagens (algumas marcantes) e as pincelaram com tintas de cor forte imiscuídas ao preto e branco, proporcionando-nos um excelente produto final, com visualidade irretorquivelmente eloquente. “Nada Será Como Antes” é uma série que instiga o telespectador brasileiro (o que não a impede de ser universal) por não só contar a história do pioneirismo de nossa televisão, fato que por ele mesmo já nos desperta interesse, mas, por meio da figura da metalinguagem, transformar com requintes tanto em sua dramaturgia quanto em sua produção os acontecimentos inerentes a este mundo fantástico que a todos encanta em uma espécie de biografia do veículo e pessoas que direta ou indiretamente estiveram ligadas a ele. Tudo em forma de entretenimento, amparado em cuidadosa pesquisa histórica de Julia Schnoor. Parafraseando Saulo Ribeiro na noite de inauguração de sua TV Guanabara: “Está no ar, no seu lar, e no coração de todos vocês, ‘Nada Será Como Antes’! “.

  • “Eternamente Domingos”

    setembro 22nd, 2016

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    Foto: Inácio Moraes/Gshow

    Não fiquemos tão tristes com o rio. Não nos sintamos atraiçoados pelas águas correntes do Velho. Vilipendiado, humilhado, desviado de seu curso pela mão do homem vil. O mesmo homem vil omisso no alerta do perigo. O mesmo homem vil construtor de gigantes de pedra. O Velho e seus mistérios, os seus índios e rituais, não há quem os possa ignorar. O misticismo de aparentes águas plácidas há que se reverenciar. Ajoelhemo-nos diante da sacralidade do Chico. O Chico, o Velho, o Velho Chico homenageado e defendido em novela de TV. A história do Benedito, da Edmara e do Luperi, que esperou largo tempo para nos ser contada. Abençoada. Noite após noite, a partir do mês março das águas, o Brasil atual preocupado começa a olhar educado para a imensidão do rio grande que desenha em muitas linhas a sua rota infinita. A saga familiar dos dos Anjos e dos Sá Ribeiro passa a ser a nossa saga. Um personagem se chama Santo. Santo dos Anjos. O homem artista Renato Góes, o “Santo Forte de ‘Velho Chico’”, vindo lá de seu Recife, foi parar em Alagoas, Rio Grande do Norte e Bahia, e espalhou por essas plagas a sua luz e o seu brilho fulgurantes, dando início à jornada épica das batalhas gloriosas e inglórias dos clãs opostos. O ciclo de ouro de Renato se findou no conto, e o cetro santo foi entregue ao artista homem de circo, criança de picadeiro, com nome de dia da semana no plural e sobrenome que remete às montanhas: Domingos Montagner. Domingos, bufão adorável, que num programa de domingo, com dança pura e ingênua de balé, histriônica como deve ser, mas bela em seu querer, apareceu com graças. O homem de traços fortes e delicados, dessa vez na nação do encantado agreste misturada com a nobreza do cordel, oferece a sua verdade na pele do Capitão. O cidadão das Artes, de quem se ouvia a voz grave, vestiu a faixa de quem comanda o país, retumbando com o seu brado o talento que lhe foi enviado pelo desconhecido. Com seus olhos fixos, pintados com emoção, despertou-nos incondicional paixão. Domingos, viril e firme na postura, agora em trama de Gloria, mora em cavernas, e enlouquece as belas no longínquo torrão sob o céu dos balões. Salve Domingos. Em outra história, escrita com as tintas de Lícia, singrou mares em veleiro branco solitário. Tantas vidas, tantas sete vidas renascidas pelo amor maior do homem Montagner. Viveu um romance policial como um famoso personagem da literatura nacional. Segundo o próprio, “…um cara que observava as mulheres.” Um ator, cujos cabelos revoltos vimos encanecer em oito fugazes anos nas pequenas telas do nosso lar. O mesmo ator que em nenhum momento deixou para trás a sua raiz de brincalhão que fazia rir embaixo de lona. Rosto pintado, nariz de palhaço, honrou o circo, o riso e o respeitável público. La Mínima, La Mínima. Domingos, “O Mistero Buffo”. Montagner colocou o santo lenço de Renato, e no folhetim que está chegando ao fim, prosseguiu com a luta brava do jovem antecessor contra o poder inclemente do coronel opressor. Seu suor escorrido era o nosso suor escorrido. Sua peleja, também. Na vida real, uma família linda e amada. Na família da ficção, uma segunda família linda e amada. Ele era o “mano velho”, o “painho”, o “chefe”. A novela está no ar. Domingos continua lá. Parece que não se foi. E talvez não tenha ido. Sua alma e luz permanecem não só no rio que agora protege, mas no coração de todos nós. Domingos hoje é estrela, lua, sol, água, mata. Domingos são todos em um só elemento. Uno e vital. Reproduzo aqui o que seu parceiro de vida e personagem Renato Góes disse, em desabafo: “Agora eu sou eu e eu sou tu. Agora eu sou eu e tu. Eu vou com você pra sempre! Esse, de mim, nunca vai sair! Te amo!”. Que assim seja, Renato. Domingos é eterno. Amém.

  • “Com uma linguagem fortemente crua, pessoal e realista, Kleber Mendonça Filho, com o seu novo longa-metragem ‘Aquarius’, recoloca Sonia Braga no posto que sempre lhe foi de direito, o de uma de nossas musas do cinema nacional, além de fazer, como de praxe, uma feroz crítica social, comparando uma parcela da coletividade a ‘cupins de demolição’”.

    setembro 6th, 2016

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    Foto: Divulgação

    Desde “O Som Ao Redor” (2013), longa-metragem anterior do cineasta recifense Kleber Mendonça Filho, premiado nacional e internacionalmente, que tanto o público quanto a crítica especializada tem ficado atenta a este profissional do audiovisual que mostrou com a sua obra uma abordagem da sociedade e seus conflitos do cotidiano sublimemente particular, visivelmente pujante em suas imagens, com um roteiro marcado por notável elaboração. Se em “O Som Ao Redor”, Kleber traçava com bastante impacto a mudança de rotina dos moradores de uma pacata rua de Recife após a chegada de milicianos, em “Aquarius” ocorre também a mudança de rotina de uma pacata jornalista, Clara, vivida por Sonia Braga, que vê a sua tranquilidade ir embora quando uma construtora liderada pelo jovem engenheiro civil Diego (Humberto Carrão) decide comprar todos os apartamentos do antigo prédio onde mora sito em frente à bela Praia da Boa Viagem, para a construção de um novo e sofisticado projeto residencial, o “Aquarius”, nome que, na verdade, já era o do imóvel. Só que a bem-sucedida jornalista e escritora, amante da música em discos de vinil, como os de Maria Bethânia e Roberto Carlos, repele a gananciosa proposta da empreiteira, resistindo ao poder do dinheiro, ao lobby, às sabotagens, às ameaças veladas ou declaradas dos interessados na venda da propriedade e à pressão de sua própria família e dos seus até então vizinhos. Esta sinopse, que à princípio nos parece simples, ao contrário disso não possui nenhuma simplicidade. A sinopse (ótimo e extremamente bem costurado roteiro de Kleber Mendonça Filho) serve como estopim de uma série de altercações interpessoais nas quais se percebe assustadoramente até que ponto vai a ambição humana, e com ela uma intrínseca maldade, uma patente falta de caráter e ausência absoluta de ética, inclusive no que se refere à mocidade, porém exibe com equânime vigor a capacidade de luta de uma bela mulher madura que enfrenta tudo e todos na defesa dos seus direitos legítimos, uma espécie de “Uma Contra Todos” (parafraseando uma recente série de TV). Estes dois filmes de Kleber apresentam uma direção que foge ao padrão estabelecido por bastantes produções cinematográficas nacionais exibidas no circuito, não se enquadrando com exatidão num gênero específico. A sua obra mescla em um só conjunto altas doses de drama, aterrorizante clima de suspense e tensão, retrato e denúncias sociais com um estudo minucioso do comportamento do homem, com direito a alguns instantes de corriqueira comédia. Em suma, Kleber radiografa nossas próprias vidas. Sua câmera não é mirabolante e nem nos oferta ângulos espertos, inovadores tampouco revolucionários. Isto fica para os blockbusters norte-americanos, e para os congêneres brasileiros que tentam emulá-los. Suas lentes buscam o real, o cotidiano, o simples, o cru, os objetos que decoram uma casa, o close sem pretensões estilísticas, os relacionamentos comuns entre as pessoas e as suas consequências, as tomadas necessárias, e não com o propósito de se burlar o establishment estético ao qual nos habituamos a assistir em períodos atuais. Por estas mesmas razões, e por um hiperrealismo que nos assombra, é que provavelmente os longas de Kleber perturbam o espectador e a crítica, lançando um novo caminho para o cinema que se faz no Brasil. “Aquarius”, que foi cercado de polêmica desde que foi exibido como concorrente à Palma de Ouro em sessão de gala no Festival de Cannes (houve um protesto político por parte do elenco e diretor), e se estende até hoje pela reivindicação para que a classificação indicativa da produção baixe de 18 para 16 anos (o que foi conseguido no último dia 1º de setembro). O cineasta realiza com este filme uma eloquente homenagem à época dos anos 80, utilizando-se do recurso do flashback (claro, a fotografia, nesta etapa, evidencia uma textura que remete, pode-se afirmar, às polaroides). Já na atualidade, a meritosa direção de fotografia de Pedro Sotero e Fabricio Tadeu opta por tonalidades naturalistas. Há cenas emblemáticas na criação fílmica de Kleber, como a inicial, quando Clara, muito jovem, interpretada pela atriz Barbara Cohen (uma bonita artista que deve despertar o seu interesse) dentro de um carro “oitentista” com seus amigos numa praia deserta (vale asseverar que a direção de arte de Juliano Dornelles e Thales Junqueira reproduz com precisão detalhes desta icônica fase), ouvem num potente som um dos maiores clássicos da banda britânica Queen, “Another One Bites The Dust”. Em outra passagem, Queen também é escutado em outro de seus standards, “Fat Bottomed Girls”. O diretor também se valeu de sua obra para denunciar o triste preconceito vigente não só por parte dos homens, mas de um modo geral, contra as mulheres que se viram obrigadas a serem submetidas a uma mastectomia (esta cena nos revolta e nos comove). Em apenas uma frase revela o preconceito racial incrustado no Brasil (“sua pele mais morena”). O elenco de “Aquarius” é um dos pontos máximos do filme. Primeiro, porque traz de volta para as grandes telas de cinema aquela que foi e sempre será uma de nossas eternas musas do cinema nacional, Sonia Braga, recolocando-a em seu posto conquistado com performances memoráveis em “Dona Flor e Seus Dois Maridos” e “O Beijo da Mulher-Aranha”. Sonia, que também possui atuações antológicas na televisão, como nas novelas “Gabriela” e “Dancin’Days”, certamente com a Clara de “Aquarius” nos ostentou uma de suas mais consistentes, maduras, intensas e tocantes interpretações. Sonia construiu a sua Clara com impressionante estoicismo. As suas paixões são interiorizadas, exceto em suas expressões sexuais. Clara desvela um humor desconcertante face às adversidades por que passa. A sua bravura diante da soberba e inescrupulosidade dos detentores do poder econômico, representantes da especulação imobiliária, serve-nos de exemplo e referência. A mulher que tem em seu apartamento um pôster de “Barry Lyndon”, de Kubrick, e pilhas de vinis é personificada por Sonia Braga em um dos auges não só de sua beleza física madura, mas também interpretativa. Humberto Carrão, famoso e admirado ator de novelas, pertencente a uma promissora geração de artistas jovens, numa interpretação pontuada por sutilezas, convence-nos brilhantemente como o moço que estudou nas melhores escolas estrangeiras, formando-se em Business, como diz, o que o faz voltar ao Brasil cheio de “sangue nos olhos” para vencer na profissão, nem que para isso tenha que se utilizar dos meios mais escusos e corruptos. O espectador e os personagens ficam confusos ao se depararem com a sua beleza, simpatia e carisma, amparada por voz mansa, com a potência de sua vilania. O próprio diretor Kleber Mendonça Filho definiu o ator desta maneira em entrevista ao jornal O GLOBO: “Humberto tem cara de pessoa boa, menino brasileiro rico, mas que esconde uma falta de caráter formidável”. E continua: “E agora que eu conheço Humberto e lembro de Diego, dá para ver como Carrão é um ótimo ator. Ele e Diego não têm nada em comum”. Maeve Jinkinks, bela atriz brasiliense, com importante galeria de filmes em seu currículo, e que ficou bastante conhecida como a Domingas de “A Regra do Jogo”, na Rede Globo, interpreta a filha de Clara. Maeve é daquelas artistas que disseminam a sua adorável doçura por onde quer que passem, fotografando muito bem nas telas. Mas se engana quem pensa que esta doçura está presente em todas as suas performances. É preciso que vejam a atriz em longas-metragens como “Boi Neon” e “Amor, Plástico e Barulho”. Inclusive, a premiada Maeve está em seu segundo trabalho com Kleber, pois participou de “Um Som Ao Redor”. E o que dizer do premiadíssimo Irandhir Santos? Irandhir é, para mim, sem quaisquer sombras de dúvidas, um dos mais talentosos e versáteis atores surgidos nos últimos tempos no Brasil. Fez uma infinidade de bons e elogiados filmes, e já está construindo uma carreira de sucesso na TV (atualmente, destaca-se como Bento em “Velho Chico”, na TV Globo). Irandhir Santos (também repetindo a parceria com Kleber) vai do homem simples, chucro, ao indivíduo subserviente, até chegar ao charmoso guarda-vidas Roberval de “Aquarius”. O excelente ator cumpre com a nobreza de sempre a missão de dar vida a um dos poucos amigos de Clara que a ajudam. Temos ainda a presença do jovem ator pernambucano Allan Souza Lima, como Paulo, um sedutor garoto de programa que sacia ardentemente os urgentes desejos sexuais de Clara. Destaque na novela “A Regra do Jogo”, Allan mostrou que sabe fazer comédia. No filme em questão, o intérprete tem poucos momentos na tela, mas estes são o bastante para que Allan deixe transbordar toda a sua sensualidade viril de modo absolutamente natural. Outros atores que merecem as nossas merecidas considerações são Carla Ribas, Julia Bernat e Thaia Perez, dentro de um elenco muitíssimo bem escalado. “Aquarius”, que entrou na concorrida lista de filmes candidatos a lutarem por uma vaga na indicação brasileira para a disputa pelo Oscar de Filme Estrangeiro (tendo consideráveis chances de consegui-la, a despeito de novas polêmicas), é um filme que deve obrigatoriamente ser visto por aqueles que amam o cinema, que apreciam a diferença de sua linguagem, que são devotos de uma reflexão após uma obra cinematográfica, que não buscam somente o entretenimento, e que estão abertos a discussões relevantes sobre o ser humano, seu comportamento e relações, que são levantadas em cima de fatos do dia a dia, que consuetudinariamente acontecem bem ao nosso lado. Em determinado momento do longa de Kleber Mendonça Filho, a praga “cupins de demolição” tem a sua representação. A destrutividade ancestral do homem comum também nos é escancarada sem meios-termos. Uma das lições que aprendemos com esta excelente obra em cartaz nos cinemas é a de que se pode combater sem medo os “cupins de demolição”, espalhados por toda a parte, próximos ou distantes, sempre prontos e dedicados em nos aniquilar em sua totalidade. Mas sempre existirá uma Clara em seus caminhos. As “Claras” da vida nos parecem inofensivas, vulneráveis. Apenas nos parecem. Basta que se juntem a um só tempo um edifício antigo de Recife chamado “Aquarius” e uma das musas do nosso cinema nacional cujo nome é Sonia Braga, conduzidos pela batuta de um cineasta de nome Kleber, para que vocês, espectadores, não temam nenhuma praga. Seja ela social, humana ou literal. Esta é a mensagem de “Aquarius”. Nada mais a dizer.

     

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