Dois únicos personagens. Dois policiais. Denny (Malvino Salvador) e Joey (Augusto Zacchi). Uma duradoura e forte amizade os une. Até que o imprevisto, o inesperado acontece. E o que antes parecia sólido, irremovível se mostra tíbio, frouxo, sujeito a questionamentos e reavaliações. Até que ponto se pode confiar em uma amizade? Qual é o seu nível de lealdade e segurança? Como se defrontar com a dor lancinante causada por uma traição? Para responder a essas perguntas e tantas outras que nos amofinam, o autor, roteirista e produtor americano Keith Huff (escreve para séries consagradas, como “House of Cards” e “Mad Men”) levou aos palcos da Broadway em 2007 “A Steady Rain”, com bastante êxito, recebendo elogios generosos da crítica especializada. Huff se utiliza da dupla de “representantes da lei” para desenhar de modo abrangente uma narrativa dramática na qual se percebe com nitidez um panorama escalonado das diferenciações dos comportamentos, sentimentos e emoções humanas. Na tradução feita com elevada propriedade por Daniele Ávila Small, “Chuva Constante” (título adotado no Brasil) nos apresenta Denny e Joey por intermédio de seus pensamentos, convicções e elucubrações sob a forma de monólogos ou diálogos acalorados. Não há, nem se vê razão para isso, uma determinação específica de local tampouco tempo em que se passa a história. Porém, somos direcionados para uma potencial realidade que nos lembra a estadunidense (tal impressão em nenhum momento nos distancia do entrecho). Imaginamos uma metrópole com suas arraigadas mazelas e uma cultura contaminada pelos consumismo, preconceito, xenofobia e barbárie. A felicidade plena está na realização pessoal de constituir uma família típica, com esposa (Connie), filhos (Steve e Noel) e animal doméstico? Denny acredita que essas conquistas e os bens móveis que possui, como uma televisão com dezenas de polegadas, garantem o seu sucesso. Ao contrário de seu parceiro Joey, que é solitário, acaba de se livrar do alcoolismo, e reside em um desprezível quarto qualquer. É possível que haja motivos para um amigo sentir inveja do outro? Desde já, vimos que Denny é impulsivo, transgressor, violento, irônico e emotivo. Joey, no entanto, busca se aproximar mais do juízo, da racionalidade e do comedimento. Quem está certo? Quem é o melhor? Não se sabe. Para Denny não existem códigos de ética e conduta a serem obedecidos. A hierarquização de sua categoria profissional e a nefanda burocracia dos órgãos públicos são testemunhados na figura de um capitão de polícia. O racismo é discutido com olhares distintos. O sistema de cotas é justo, necessário? A alvura de sua pele e a de seu companheiro impede a sonhada promoção (um racismo “às avessas”). Nos logradouros, a convivência de diversas etnias e seus idiomas e dialetos ininteligíveis só reafirma o abismo infindo que se abriu na comunicação e socialização dos indivíduos da era moderna. No submundo frequentado por cafetões, prostitutas e “serial killer”, pode-se esbarrar com um portorriquenho ou com um infante desnudo e choroso de origem vietnamita. Uma “Torre de Babel” do século XXI com todas as máculas e obstáculos que lhe são próprios. O texto de Keith decide privilegiar o enfoque na relação de amizade, e demonstrar o quanto esta é passível de adulterações e distorções, provocadas invariavelmente pelas fraquezas natas ao homem. Nos dias de hoje, não poucas vezes, uma instituição fadada ao fracasso. Um de seus agentes poderá ser a traição e o rastro que deixa. O ato de trair obriga a remodelação de toda a conjuntura de relacionamentos até então sedimentados. Na peça, supõe-se que uma experiência sexual assume, dependendo de seu contexto, um viés religioso. A solidariedade e sua beleza incorre no risco de ser recebida com ingratidão e o golpe traiçoeiro. Os estilhaços de um vidro de janela alvejado por um projétil de uma Magnum 44 não só derramam sangue dos inocentes mas alteram a estrutura conjunta familiar estável. O pai da vítima Steve, Denny, muda substancialmente seus propósitos de vida e suas emoções são reorganizadas. Na existência, tudo nos parece falível. Constata-se que a vida está distante de ser algo seguro, protegido por nossas veleidades. É sim um objeto etéreo, quebradiço, pronto a se dissipar com qualquer desvio de rumo. A culpa definirá a amplitude da dor que sentiremos no futuro, e a sua nulidade demarcará de fato quem somos na essência. A dramaturgia crua, realista e intensa de Keith Huff obteve uma direção precisa, eloquente e fluida de Paulo de Moraes. Paulo (prestigiado encenador reconhecido no Brasil e no exterior, laureado com importantes prêmios tanto pela Armazém Companhia de Teatro quanto por projetos independentes) atentou com afinco e denodo para o trabalho interpretativo de seu elenco, sem, todavia, preterir os demais aspectos cênicos tão relevantes quanto. Paulo de Moraes envereda por um caminho pautado pela temática policial, que nos reporta aos filmes de gênero numa escala evolutiva de suspense, apreensão, reviravoltas e surpresas. Os atores se “enfrentam” num tenso e pulsante diálogo, com acusações mútuas, defesas ferrenhas de suas posições e opiniões, e confissões individuais desconcertantes. O cenário (duas cadeiras de madeira com estofamento de couro, um telão para projeção de imagens e múltiplos refletores de pé espalhados por ambas as laterais), que também coube ao diretor, serve-lhe como fundamental ferramenta para a dinâmica da ação. Os intérpretes usam os citados móveis de formas variadas, e posicionamentos diversificados. A nossa identificação com o universo retratado é imediata e eficaz. O recurso de se filmar ao vivo as cenas da montagem é uma criativa e eficiente solução para incrementar o nosso entendimento da obra (precipuamente o ator Augusto Zacchi e o gestual de suas mãos). As imagens projetadas dos irmãos Rico e Renato Vilarouca são expressivas, bonitas e impactantes (João Gabriel Monteiro é o videomaker). A preparação corporal de Patrícia Selonk objetiva o alcance pelos intérpretes de uma linha postural condizente com a oscilação de seus humores, e o retorno por parte daqueles é visível e bem-sucedido. A iluminação de Maneco Quinderé é insinuante, atrativa, não linear, com uma ampla paleta de opções no que concerne a texturas e densidades. A encenação é valorizada por luzes pontuais/focos, planos abertos numa medida equilibrada, gradações e os feixes que provêm dos refletores nas laterais do palco, aumentando a ambiência “noir”. A direção musical de Ricco Viana se alimenta de trilhas incidentais instigantes e persuasivas, culminando na potência de um rock’n’roll. Os figurinos de Malu Kelvingrove são coerentes e alinhados. Malvino traja calça jeans, camisa social branca com listras verticais cinzas, uma gravata grafite, uma jaqueta também acinzentada e como acessórios cinto e sapato marrons. Augusto veste camisa branca com colete, calça, cinto e sapatos, além de um coldre. Otto Jr. faz a voz do cafetão Lorenzo. Quanto às atuações, Malvino Salvador, um ator que iniciou a sua carreira nos palcos, defendeu papéis marcantes na televisão e experimentou com êxito o cinema, cuja última atuação no tablado fora numa peça de Sam Shepard, também dirigida por Paulo de Moraes, “Mente Mentira”, arrebata os espectadores com a sua verdade interpretativa, a sua visceralidade emocional e a sua fina ironia. Malvino carrega uma explosão de sentimentos numa carga dramática crescente compatível com o desenvolvimento de seu papel, Denny. Com sua forte presença em cena, evidencia as totais compreensão e absorção da alma do complexo policial a quem dá vida. Um ator que merece ser visto e revisto na ribalta. Augusto Zacchi, um artista com relevante e significativa experiência no teatro, constrói Joey com resolução, pujança e ciência da psicologia de seu personagem que vive numa permanente altercação com o seu colega de ofício. Augusto nos transmite uma segurança no que faz, seja no uso do corpo ou voz, indispensável para a credibilidade de sua atuação inserida no quadro dramatúrgico apresentado. O ator passeia com desenvoltura pelas várias camadas emotivas de seu papel. Malvino e Augusto encontraram as sintonia e frequência perfeitas para que pudéssemos crer na veracidade da existência de uma longa amizade que sobreviveu ou não aos reveses e dissonâncias comuns a qualquer parceria. “Chuva Constante” (uma produção de Cinthya Graber, Luis Erlanger e Malvino Salvador), com Malvino Salvador e Augusto Zacchi, é uma aposta muito mais do que válida para se integrar no cenário teatral brasileiro. A dramaturgia de Keith Huff é obrigatória por suas coragem e honestidade no trato de assuntos que, independentes de espaço e tempo definidos, fazem parte da cadeia universal dos relacionamentos do homem, com suas numerosas nuances. Muitas seriam as interpretações ou impressões quanto ao fato de a chuva não deixar de cair no desenrolar da sinopse. Pode ser a constância do imprevisto e do inesperado em nossas vidas. Como pode ser a constância com que o teatro nos transforma e nos leva a uma sadia reflexão, que vai além do simples entretenimento. “Chuva Constante” não em poucos momentos permite que um feixe de luz solar derribe a predominância de um clima chuvoso. A chuva do lado de fora ou na peça pode até cessar, mas a qualidade deste espetáculo dirigido por Paulo de Moraes, e estrelado por Malvino Salvador e Augusto Zacchi, esta será sempre constante.
Categoria: Teatro
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Ao som de um tango, Reynaldo Gianecchini é chamado por Jô Soares. O ator trajava bonito casaco de couro preto que se sobrepunha a uma camisa em tons claros. Calça escura e tênis moderno completavam o visual. A conversa se inicia com a abordagem de sua ascendência. Por parte de pai, italiana. Por parte de mãe, espanhola e alemã. Após, o assunto ruma para a peça que Reynaldo está fazendo, ao lado de Erik Marmo e Maria Manoella, sob a direção de Elias Andreato, “Cruel”, de August Strindberg. Dissera que a vontade de montar o texto surgiu de uma “ação entre amigos”, “de ser feliz na coxia”, “de fazer um processo que fosse de grande aprendizagem para eles”. A ideia lançada foi a de que o espetáculo fosse apresentado em dias alternativos (e assim ocorre, pois está em cartaz na FAAP, SP, às segundas e terças), a fim de que o elenco pudesse tocar outros projetos. Jô pergunta sobre as crueldades que dão título à encenação. E Reynaldo Gianecchini afirma que o seu personagem é o mais cruel, sendo vingativo e desejoso de destruir aqueles que o prejudicaram. A violência não é física, e sim, interna. Materializa-se nas palavras. O que na sua opinião, torna o trabalho mais difícil. Destaca a contribuição da preparadora corporal Vivian Buckup, porquanto a contenção de gestos com concentração nos olhar e verbo se configura como uma proposta cênica. Informa-nos que o diretor Elias lhes pediu que mostrassem a violência de cada um. Fala-se agora de Fred, seu último papel na TV, da novela “Passione”, de Silvio de Abreu. O artista revela que tanto ele quanto sua colega Mariana Ximenes, apesar das maldades que perpetravam, contavam com a torcida de uma fatia específica do público pela regeneração de ambos (provavelmente por terem feito papéis bondosos na carreira). A estreia do ator nos palcos aconteceu com “Cacilda!”, de José Celso Martinez Corrêa. A seguir, “Boca de Ouro”, de Nelson Rodrigues, dirigido também por José Celso. Fotos são exibidas no telão contando a sua trajetória na ribalta, com imagens da citada produção “Boca de Ouro”; “Peça Sobre o Bebê”, de Edward Albee, com Fúlvio Stefanini, cujo diretor fora Aderbal Freire-Filho; “Doce Deleite” (direção de Marília Pêra, com Camila Morgado); e “O Príncipe de Copacabana”, de Gerald Thomas. Cenas de “O Primo Basílio”, filme baseado na obra homônima de Eça de Queiroz, realizado por Daniel Filho, no qual contracenou com Débora Falabella, são exibidas da mesma forma no telão. Reynaldo cita ainda “Entre Lençóis”, de Gustavo Nieto Roa, em que atuou junto com Paola Oliveira. E asseverou que sempre estivera ladeado por atrizes bonitas. E a entrevista termina com a certeza de que além de bom ator, Reynaldo Gianecchini é bom de papo. Sem contar que dera seu famoso sorriso ao final.
Obs: A entrevista do ator Reynaldo Gianecchini ao “Programa do Jô”, na Rede Globo, foi exibida em julho de 2011, e à época o intérprete estava encenando, ao lado de Erik Marmo e Maria Manoella, a peça escrita por August Strindberg “Cruel” (a direção coube a Elias Andreato, e a temporada alternativa ocorreu no Teatro FAAP, em São Paulo).
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Pensem em dois artistas pródigos em carisma. Os dois são essencialmente atores. No entanto, cada um tomou um rumo distinto em suas carreiras. Ela, Deborah Secco, acompanhamo-la desde a tenra idade, passando pelas adolescência e fase adulta, em diferentes segmentos audiovisuais, como o cinema, a TV e o teatro. Testemunhamos o seu crescente progresso interpretativo até alcançar a reconhecida e prestigiada maturidade artística. Ele, Marcos Mion, um ator com largo potencial mas que, por seus forte poder de comunicação, desenvoltura nata e capacidade ímpar de improvisação, acabou trilhando um caminho diverso não menos meritório, a apresentação com enorme êxito de programas de televisão. Agora, imaginem um texto deliciosamente alegre, romântico, informativo, referencial e charmoso escrito em parceria por Rosane Svartman, Lulu Silva Telles e Ricardo Perroni (o mesmo já fora levado aos palcos com outros elencos, inclusive Deborah, em 2010 e 2011, dividiu a cena com Erom Cordeiro). E, para completar, somem a este promissor conjunto um diretor experiente, com ampla ciência da salutar relação que deve haver entre o teatro e seu público e que seja um profissional convicto de suas opções cênicas: Ernesto Piccolo. Assim nasceu “Mais Uma Vez Amor”. A trama é centralizada em um casal, Lia e Rodrigo, que se conheceram quando adolescentes na época em que eram estudantes, com seus típicos e tradicionais uniformes em branco e azul, no ano de 1970, um período no qual o Brasil vivia um temerário sentimento de ufanismo, sob a égide dos desmandos militaristas de uma ditadura. As inseguranças, fragilidades e anseios de autoafirmação dos jovens, a descoberta da sexualidade, a perda da virgindade e consequências que a cingem e a massacrante pressão exercida sobre “a primeira vez” são discutidos com propriedade. Vê-se desde logo uma propensão de Lia para a adoção de uma postura mais libertária, ao contrário de Rodrigo, que se evidencia levemente conservador. Em 1976, o longa-metragem de Bruno Barreto “Dona Flor e seus Dois Maridos” faz grande sucesso, e os conflitos previstos do casal ganham contornos com maior visibilidade. Os sonhos de Lia de se libertar individualmente se elevam, indo de encontro com o pensamento médio coletivo. Rodrigo se engaja no “Projeto Rondon”, vai para a Amazônia, e chega a uma definitiva e surpreendente conclusão, ou seja, a de que lá tudo é verde. O amor entre ambos existe, é fato, todavia há sempre o fantasma de uma terceira pessoa para desestabilizar o relacionamento. Somos transportados para o ano de 1978, em que Lia satisfaz seus desejos mais íntimos de liberdade. Ela quer ler todos os livros, escutar todas as músicas, ir a todos os lugares, “alimentar-se da cultura do mundo”. Está em Londres, “a cidade onde tudo acontece”. A moça com rescaldos do “Movimento Hippie” e da “Liberdade Sexual” vivencia um desbunde comportamental, com direito à experimentação das drogas, lisérgicas ou não. Contudo, uma avassaladora saudade da terra natal, uma espécie de banzo a abala. Enquanto isso, Rodrigo torna reais seus planos “pequenos burgueses”. Após 1981, chegamos a 1984, e vemos e ouvimos nas ruas pessoas reunidas em multidões e seus brados clamando pelo retorno da democracia que nos fora usurpada pelas armas e pelo direito legítimo de escolhermos de forma direta por meio do voto o nosso Presidente da República, no movimento conhecido como “Diretas Já”. Rodrigo por ora está casado, exerce a função de bancário e o resultado natural desta conjuntura é ter filhos. Os desencontros e contrastes entre Lia e Rodrigo recrudescem, a despeito do persistente amor que os une. Um amor que por vezes é velado e em outras ocasiões se escancara em um quarto de motel com luzes de néon. As mudanças ocorrem não só nas personalidades dos personagens, mas de modo negativo nos costumes. Se antes podíamos namorar nas salas escuras de cinema com Dona Flor nas telas, o que vieram a seguir foram os filmes pornográficos e o seu “sexo profissional” (o filme em cartaz se chama, sujeito à gama de interpretações, “Bububu no Bobobó”; esta situação atesta o limiar da falência dos clássicos cinemas de rua; a direção de Ernesto Piccolo se aproveita deste episódio para criar uma divertida e inventiva cena de plateia). No presente, muitos desses espaços são ocupados por grupos religiosos. Ainda no que concerne aos movimentos, Lia invariavelmente foi a participativa, e Rodrigo, o apolítico. Em 1986, somos assaltados pelos planos econômicos “milagrosos” com o intuito de se combalir a hiperinflação. Não foram poucos aqueles que fecharam portas de supermercados e impediram o barulho das máquinas de marcar preços. Lia foi um deles. Em 1989, é alçada ao Poder uma equipe que promete mudar o Brasil. Sua política econômica cruel acaba com os sonhos de toda (ou quase toda) uma nação. Inclusive o de Rodrigo, que almejava comprar uma casa própria. Algum tempo depois, a juventude colore o seu rosto com tintas de indignação, no movimento “Caras Pintadas”, e há uma renovação política. Em 1994, o Brasil é “tetra”. Já em 2010, o casal se reencontra e suas diferenças se avolumaram. O elo que os liga, entretanto, parece-nos inquebrantável, mesmo com o passar das décadas. O “pequeno burguês” Rodrigo nem é tão pequeno nem é tão burguês. Ele repensa a sua vida, não mais acredita na fidelidade matrimonial e avalia a possibilidade de ter tomado outras decisões no passado. Como ir com Lia para Bora Bora, por exemplo, que atualmente é massagista e tem uma filha que “é a cara dele”. Os anos se sucedem e afirmações otimistas sobre os vindouros são ditas, amparadas no humor. A velhice chega para todos nós, e se tivermos sorte, o amor do outro a acompanha. Todo este atraente e interessante conteúdo narrativo contextualizado na comédia romântica, com as “idas e vindas”, encontros e desencontros de um casal empático na própria natureza, fora apresentado ao público pelos autores com desenhos sensíveis, agudeza de espírito e emoção. O diretor Ernesto Piccolo se utiliza de um prodigioso material para lhe impingir acertados dinamismo e leveza. Esta agilidade é provada em cena não só pela fluidez do texto, mas fisicamente também, com a movimentação constante dos atores e o aproveitamento profícuo da cenografia, inteligente e prática, que inclui dois biombos divididos em quatro partes, transparentes, dobráveis, que se transformam de acordo com a ambiência sugerida (percebem-se outrossim uma armação vazada e corrediça que serve como cama, uma outra diminuta, penteadeiras e três gigantes panos dependurados que são usados para a projeção de imagens marcantes que nos remetem à fase história retratada com seus símbolos e signos, ou alusões poéticas, como uma chuva em Londres). Ernesto aposta no patente e inquestionável entrosamento entre Deborah Secco e Marcos Mion, o que faz com que torçamos inabalavelmente pela felicidade de seus personagens. As músicas, selecionadas com apuro, posicionam-nos na História. Ouvimos Novos Baianos, Chico Buarque, Gal Costa… Caetano, e sua maviosa voz, reina soberano na maior parte da encenação. O diretor explora ao máximo de seus atores as notórias potencialidades interpretativas e de comunicabilidade com os espectadores. É obrigatório que se destaque a bela plasticidade de corpos quando se simula o amor do casal. Deborah Secco está irradiante em cena, exibindo com generosidade todo o seu já conhecido talento, vivacidade e aptidões cômicas e dramáticas. Marcos Mion é absoluto nas suas extroversão e naturalidade no palco, esbanjando, é claro, a graça que lhe é habitual. Marcos, sempre que puder, deveria conciliar suas atividades como apresentador e ator (o seu berço). Os dois exibem incrível perfeição na forma física (seus corpos são mostrados dentro de um contexto). Tanto Deborah quanto Marcos devem dar prosseguimento às suas experiências teatrais. Suas popularidades e sucesso alcançados na TV e demais áreas são justificados. O carisma que detêm transcende o senso comum. A iluminação é bonita e coerente com o propósito da peça. São percebidos gradações (quase “fade outs”), focos pontuais, sejam eles frontais ou laterais, sombras, meias-luzes e plano aberto (num tom suave, jamais “estourado”). Em determinados instantes, notam-se texturas luminosas azuis, lilases e alaranjadas. Os figurinos são tão ecléticos quanto elegantes, que se distribuem em vestidos estampados, com relevos, fluidos, “de noiva”, camisas sociais, polo e regata, terno e gravata, jaqueta estilo militar, calças jeans e social, “underwear” (roupas íntimas em geral), e calçados como sandálias, botas de cano longo, coturnos, tamancos, tênis e mocassins. Com produção de Deborah Secco e Léo Fuchs, “Mais Uma Vez Amor” é um espetáculo, uma comédia romântica, que se vale de um bem estruturado texto para abordar o amor e a sua resistência à implacabilidade da passagem do tempo, com ênfase na História recente e na mudança das pessoas e costumes da sociedade. Aprende-se que o amor nunca é demais. Que sempre há lugar para um “mais uma vez”. Mais uma vez… amor. Mais uma vez… Deborah Secco e Marcos Mion.
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As palavras “sexo”, “drogas” e “rock’n’roll” sempre foram associadas umas às outras como se constituíssem uma tríade “sagrada”. Como se juntas representassem um protesto desabrido contra todo e qualquer tipo de conservadorismo e ortodoxia, um grito de libertação das convenções sociais e uma reafirmação de cada uma delas no que tange à sua força transformadora sobre os indivíduos. O sexo é um consolidado tabu, que sofre avaliações sob distintos prismas, sejam eles progressistas ou reacionários. A prática sexual e suas amplas possibilidades são tão julgadas que são levadas inevitavelmente a um “aprisionamento” a estigmas, pudores, condenações e regras que preconizam o que é normal ou não. As drogas se integraram ao mundo de modo implacável, avassalador e definitivo. O homem teve e tem ao seu dispor, em variados períodos históricos, vasta gama de entorpecentes. Discute-se em independentes esferas do Poder e da sociedade civil a viabilidade de sua descriminalização. O consenso é longínquo. Se em épocas passadas, as drogas simbolizavam sinal de “status” e “glamour”, hoje pululam campanhas de conscientização acerca de seus males e prejuízos à saúde, no entanto há também os seus defensores ferrenhos, que apregoam o seu direito de consumi-las por meio de manifestações coletivas ou mesmo artísticas. O “rock’n’roll”, gênero musical surgido com potência na década de 50 nos Estados Unidos, influenciado precipuamente pelos blues, jazz e country (existem outros entendimentos no que se refere à sua criação), mostrou-se pujante e consistente instrumento de denúncias ou insatisfações individuais ou em grupos ao atravessar décadas. Atualmente, a sua solidez denunciatória revelou um visível abalo tanto política quanto artisticamente. Esta trinca polêmica e controversa serviu de inspiração para o dramaturgo americano Eric Bogosian escrever “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” nos anos 90, que se tornou um enorme sucesso no circuito Off-Broadway, sendo montado em muitos países e ganhado o Obie Awards de Nova York. Como o ator, dramaturgo e roteirista Bruno Mazzeo cultivava o desejo de retornar aos palcos, mas com uma dramaturgia que não fosse de sua lavra, para, segundo ele, “sair do seu lugar comum de interpretar seus próprios textos e fazer assim um exercício como ator”, o prestigiado e prolífico diretor Victor Garcia Peralta lhe apresentou a obra de Bogosian, que logo o conquistou. O enredo escrito pelo autor, e traduzido aqui no Brasil por Maria Clara Mattos de modo sagaz e com uma certa liberdade para adaptá-lo melhor às nossas realidades, possui um humor crítico, feroz, iconoclasta, cru e ácido. Ou como Victor o definira: “uma comédia cruel”. As características deste mesmo humor estão presentes em níveis diferenciados nos seis personagens vividos por Mazzeo. Trajando apenas funcionais e básicos t-shirt preta, calça jeans e tênis (figurinos de Bruno Mazzeo), o artista, em seu primeiro monólogo, e nos minutos iniciais do espetáculo defende um morador de rua, “ex-dependente químico”, fragilizado emocionalmente, com patentes sequelas de seu vício “abandonado”, que assume para si um papel de vítima da desoladora situação na qual se encontra. Necessitando de dinheiro para custear o seu tratamento, pois o serviço público de saúde sucateado se descuida de suas obrigações, suplica aos seus pares para que contribuam, dentro de seus limites, para salvá-lo. Nota-se elipticamente uma alusão à falta de hábito do ser humano em prestar a caridade, em auxiliar o próximo. O “ex-dependente” lança sobre nós uma corresponsabilidade acerca de sua miséria pessoal. De forma ou outra, calamo-nos e nada fazemos para tirá-lo de sua desgraça. Não somos caridosos e sim assumidamente egoístas e individualistas. Não perderemos tempo com um desvalido “cheirador”. Que ele fique só. Ele e seu pó. Após, somos defrontados com um hiperativo líder de uma banda de rock com seus indefectíveis óculos escuros sendo entrevistado por um famoso apresentador de TV, um “rockstar”. Também adicto, em seu colóquio com o entrevistador, ostenta personalidade ególatra, exagerada autoconfiança e seus desvarios e cognição comprometida pelo abuso das drogas. Para o roqueiro, cuja fama lhe fez mal, a droga é um catalisador, uma peça fundamental para a potencialização da sua inspiração. Narra com jactância e fanfarronice os excessos cometidos por seu grupo musical durante as turnês. O artista de rock é o signo de uma perigosa e temerária cultura que acredita equivocadamente na união indissociável entre a música e as drogas. Uma cultura “assassina” que ceifou muitos talentos. A despeito disso, mantém-se firme, em não poucas ocasiões, no “mainstream”. Há ainda a figura do endinheirado pomposo que “chafurda na própria lama de alienação consumista”, um arquétipo cada vez mais presente na elite econômica brasileira. Seus valores são distorcidos, a sua ética é claudicante e os seus anseios descabidos, afrontosos e incompatíveis com a realidade social vigente. Fumando compulsivamente um charuto cubano, o abonado homem se vê em meio a conceitos de competitividade absurdos e tortos. Seu comportamento evidencia aspectos autodestrutivos, porquanto o percebemos em um progressivo e dilacerante círculo vicioso em que a concorrência com seus semelhantes na prodigalidade, no perdularismo e na ostentação assume proporções inqualificáveis. As marcas e grifes internacionais asseguram o seu “status”. A sua sobrevivência como ser social depende da falsa noção de superioridade perante os outros de acordo com os bens que possui. Não se dá conta de que está agrilhoado a um constante descontentamento íntimo que o direcionará irreversivelmente para um abismo moral. A seguir, testemunhamos um jovem prestes a se casar em sua tresloucada despedida de solteiro, bebendo a cada palavra que profere, acompanhado de seus amigos e uma obrigatória garota de programa. O que nos constrange é sabermos que o rapaz e sua generalizada idiotia é compartilhada por significativa parcela de nossa juventude. Suas vidas são precárias, pobres e indigentes. O consumo desenfreado das drogas e do álcool somado a uma educação deficitária no núcleo familiar os tornaram imbecis, infantilizados, com altíssimo grau de estouvamento em seus perfis. Apalermados na essência, ostentam diminuta ou quase nenhuma inteligência. Exibem posturas corporais que beiram ao ridículo e entonações vocais esdrúxulas. “Morou?” é uma palavra de ordem. “Leke” é um pronome de tratamento. O vocabulário é raso, limitado, pleno em reiterações e gírias. Para os jovens contemporâneos “tudo é muito, mas muito maneiro”. Vão à igreja e depois “entornam na cerveja”. Veem graça no fato de alguém vomitar, nos vídeos pornográficos bizarros, em um incêndio acidental e numa possível “overdose”. Frases sem nexo ditas por outrem são consideradas sensacionais. Fatos banais, brincadeiras tolas e confrontos físicos com “pitboys” sem motivação justificada ganham vultosa relevância. Um retrato triste de uma geração perdida, sem sonhos, sem futuro e garantias de evolução. Em outro personagem, um empresário de artistas obscuros porém “fabricantes de dinheiro”, com sua ganância desmedida e apreço pelo lucro puro e simples, vislumbramos a face mais vadia do capitalismo. A ausência de emoção e sensibilidade o transformou em um sujeito irascível, estressado, arrogante e autoritário. A deficiência emocional permite que mantenha sem culpas mais de um relacionamento potencialmente afetivo. E, por último, um artista desacreditado, incrédulo, desiludido que, padecendo de uma paranoia coerente com a implacabilidade vigilante moderna à qual somos consuetudinariamente submetidos, crê em “teorias da conspiração” engendradas pelas grandes corporações. O “Sistema”. Um “Sistema” que nos “devora”, “antropofágico”. Defende que o contrariemos como saída mais eficaz para salvarmos nossas ideias e identidade. As máquinas se conectam, são solidárias entre si, uma “quadrilha autômata”, e os alvos preferenciais somos nós. Insistem em desvendar nossos gostos e predileções com o único e exclusivo propósito de vender. Ao ligarmos a TV, somos “assaltados” com anúncios e propagandas em série. Sofremos uma “lavagem cerebral publicitária” contínua. Para existirmos temos que comprar um determinado micro-ondas. Cuidado com o supercomputador que estão construindo sem que saibamos! Lembram-se do “kubrickiano” HAL 9000? A nossa individualidade foi usurpada por interesses escusos com objetivos rentáveis. A nossa sagrada privacidade “escoou pelo ralo”, confirmando as afirmações premonitórias de George Orwell e seu “1984”. Vivemos uma era apocalíptica onde a computação é tirana, controla tudo e todos. Os artistas precavidos devem esconder as suas Artes nas mentes para que não sejam roubadas pelo “Sistema”. A direção sempre vitoriosa de Victor Garcia Peralta (com a assistência de direção de Guilherme Siman) privilegia intencionalmente o trabalho de ator de Bruno, auxiliando-o na busca nada fácil da identificação dos seis personagens exibidos, com suas diferenciações bem marcadas e delimitadas, logrando incontestável êxito. Victor, já parceiro de Bruno Mazzeo nos palcos (o primeiro como diretor e o segundo como autor), conhece com exatidão as amplas aptidões dramáticas e cômicas do artista, e as eleva ao seu grau máximo. O diretor, além disso, atingiu uma velocidade narrativa saudável, com a passagem de um quadro para o outro intermediado por belas projeções com contextos psicodélicos e pictóricos (vídeos de Rico e Renato Vilarouca) sobre cinco painéis verticais corrediços com ripas brancas maiores e pretas menores, que se posicionam em diversos locais da ribalta, valorizando o desenho cênico; o cenário que aposta na praticidade é de Dina Levy; usa-se também uma moderna cadeira giratória). Não há resquícios de estagnação no que diz respeito à ocupação do palco, com Bruno se movimentando todo o tempo, e aproveitando ambos os lados daquele, os seus centro e proscênio. Bruno Mazzeo (um dos vencedores da láurea de “Melhor Ator” na 3ª edição do “Prêmio FITA de Teatro”, na Festa Internacional de Teatro de Angra de 2013) nos proporciona a nítida sensação de que as interpretação e composição de cada “character” lhe causam imensurável prazer. Ele expõe com pujança irrefreável uma maturidade artística que justifica a conferência de sua atuação. Ainda lhe cabe, com disposição física impressionante, aliar a acrimônia do texto de Bogosian com a sua verdade como ator. O artista brinca com seus corpo e voz com detalhismo e versatilidade. A iluminação de Dani Sanchez em cumplicidade com a direção, foca-se sobremaneira na figura de Mazzeo, não abjurando os planos abertos. Uma luz com propósitos e intenções largamente pensados e calculados. A trilha sonora de Plínio Profeta é um precioso regalo para os amantes do rock, encaixando-se com perfeição no universo da peça. As músicas selecionadas, todas legítimos clássicos, como “(I Can’t Get No) Satisfaction”, dos Rolling Stones, corroboram a total e absoluta compreensão acerca da dramaturgia encenada. “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” não só satisfez a Bruno Mazzeo ao dar vida a personagens que não vieram de sua privilegiada mente, mas provocou em nós, espectadores, um movimento com frequências variadas, que nos tirou de incômoda e desconfortável inércia. “Sexo, Drogas & Rock’n’Roll” é um espetáculo viciante. O único vício que realmente vale a pena, pois nos deixa mais vivos do que antes.
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Pensemos no celebrado e importantíssimo movimento teatral “besteirol”, cujo ápice decorrera na década de 80, em específico no Rio de Janeiro. Toda a irreverência e o descompromisso com as convenções até então estabelecidas somados a uma intensa vontade de “se transformar” o teatro sedimentaram no panorama cultural da época mudanças definitivas que se refletem até os dias atuais. Sob outro contexto, nos anos 70, o revolucionário grupo “Asdrúbal Trouxe o Trombone” semeou com sua saudável anarquia e ruptura das amarras vigentes, num momento de forte e temerosa patrulha política, o terreno para uma nova forma de se construir ou desconstruir uma narrativa dramatúrgica e levá-la aos palcos. Creio que, consciente ou inconscientemente influenciado por estas correntes, aproveitando-se de sua avassaladora comicidade em aliança com oportuna crítica social, Luis Miranda, o autor de “7 Conto – A Comédia”, criou com notável inspiração, riqueza de detalhes e precisa e poderosa comunicação entre ator e público o que se confere na encenação apresentada na ribalta. São sete personagens interpretados pelo próprio Luis, representativos de um determinado setor da sociedade civil contemporânea, com matizes denunciatórios imbuídos de desvairado humor. Com direção habilíssima, engenhosa e com superlativo grau de compreensão da proposta do dramaturgo, Ingrid Guimarães, insigne referência da comédia de qualidade, conduz a peça de maneira que a leva a um ponto relevante de plenitude cênica. Há a preponderância de intenções que realcem com preciosismo cada tipo composto com meticulosidade pelo ator. São criações incrivelmente distintas entre si, que servem tanto para gargalharmos, rirmos, refletirmos, mudarmos ou não nossos conceitos, preconceitos, pensamentos e ideias. Logo no início de “7 Conto – A Comédia”, somos surpresos, vagando trôpego pelo espaço da plateia, por Queixada, um “guardador de carros”, o “flanelinha figuraça”, que ostenta com orgulho o seu colete encardido de guarda de trânsito, tendo no interior de sua esfarrapada bermuda jeans com a braguilha aberta uma garrafa de pinga ou algo que se assemelhe, e empunhando um cone para “organizar” o caótico trânsito das ruas. Impressiona-nos com suas tiradas supostamente filosóficas, com direito a resvalos no Português. Exercendo uma função já “institucionalizada”, Queixada nos deixa observações hilariantes, acertadas e sem resquícios de estigmatização sobre os homossexuais. Com seu ventre estufado, bêbado, o homem de voz embargada assevera que os gays (adeptos do hedonismo, bem-sucedidos em sua maioria), apreciam frequentar locais badalados das praias com seus sungões e óculos escuros (que guardam outros objetivos), ostentar seus corpos musculosos e que os mesmos têm um jeito “gostoso” de falar e seduzir, uma retórica mansa para conquistar outrem. Queixada simboliza não só o caos no trânsito, mas a desordem imperante no perímetro urbano no qual trabalha, com a anuência do Poder Público. Já com Caroline, uma atriz infantil negra, deparamo-nos com o momento mais emocionante do espetáculo. E isto ocorre em vista do tratamento dado ao tema racismo. Um fato real, seriíssimo, que parece não ter fim. A ingênua menina com suas tranças “loiras” e vestido volumoso vermelho ornado com bolinhas brancas e laçarotes, mangas bufantes e segurando uma Minnie como fiel companheira (irá interpretar a Chapeuzinho Vermelho), ressente-se de que não há papéis para crianças da sua cor, e de que na escola, nas encenações teatrais, invariavelmente as personagens que lhe eram ofertadas não se configuravam como principais, sendo estas pertencentes às brancas. A cútis alva determinava as escolhas. Se por um acaso defendesse um “character” direcionado para aquelas de pele clara, sofria com ofensas, piadas, chistes e gracejos (hoje, o chamado “bullying”). Luis, com juízo, toca em um assunto tabu que insiste em existir num país miscigenado, com origens africanas, indígenas e europeias, mas que, todavia, em seus estádios de futebol, ouvem-se os nefastos gritos de “macaco” bradados por uma “torcedora” branca para um atleta negro. Infelizmente, esta posição segregacionista se estende às Artes. Nem mesmo a televisão, por mais que se esforce em debelar este vício, mostra alguma resistência, talvez por pressão do gosto dos telespectadores e interesses econômicos. Os galãs e as mocinhas serão quase sempre brancos, basta ligar a TV (com exceções, é claro). E quando o contrário acontece, vira notícia. Sobram aos negros os signos do folclore nacional, figuras históricas… As empregadas domésticas são negras, pardas ou mulatas, basta ligar a TV. Com o rareamento das novelas de época, o trabalho para os negros escasseia, pois não há escravos para serem interpretados. Caroline chega a fazer comovente prece a um ilustre criador de histórias infantis para que invente uma personagem negra para ela. O dramaturgo é extremamente corajoso e bravo ao não deixar de fazer uma crítica ácida, acre e mordaz, vez por outra, à nossa cada vez mais degradante, corrompida e falida política brasileira, com todas as suas maracutaias, escândalos, desvios de dinheiro público e impunidade generalizada (os espectadores não poucas vezes aplaudem o ator em cena aberta como sinal de que são cúmplices na indignação). Uma anomalia “cultural” que grassa na televisão do Brasil, os programas sensacionalistas que exploram descaradamente as miséria e desgraça humanas ganham visibilidade, só que às avessas, quando Luis Miranda personifica um “pastor” de religião qualquer, o apresentador do “Brasil Elite” Detona, que vocifera, simula emoção, interage com os telespectadores e a produção como se fosse um amigo íntimo, realiza performances e “mise-en-scènes”, a fim de lograr o maior número possível de simpatizantes. Detona se comporta com insatisfação face aos absurdos vigentes e faz propaganda aberta de produtos de luxo. A enorme graça está justamente na questão do “pastor” defender não os necessitados, mas sim a elite, a alta burguesia, com seus valores tortos, distantes da ética e da moral, afundada em seu consumismo aterrador, ciente de que nunca será punida por seus atos condenáveis e desrespeito para com o próximo. Os jovens deste segmento social são educados por seus pais como se ainda fossem crianças, e em bastantes casos com a conivência de nossa Justiça. Seu “esporte” favorito pode ser um “racha” que pode levar um inocente à morte. Uma brincadeira bem divertida para eles pode ser queimar um índio dormindo num banco de um ponto de ônibus pensando que fosse um morador de rua. De repente, assaltar, roubar sem que se precise pode ser uma “boa”. Os pais, com certeza, contratarão um esperto advogado que os tirará da cadeia. Afinal, são “crianças” e têm um “Estatuto” para protegê-las. Somos cidadãos espalhados pelos quatro cantos de uma nação devastada por pobreza que vive ao lado de riqueza, amparados por “bolsas” e mais “bolsas” assistencialistas e eleitoreiras, numa economia capenga e magra com índices maquiados, que se um dia para Stefan Zweig fomos “o país do futuro”, hoje não somos do “presente” tampouco do “passado”. Sem preterir o humor, a tirania do apresentador chega ao cume, lembrando os abomináveis governantes da Segunda Guerra Mundial, seus discursos odientos, os efeitos do Holocausto e o terrorismo da atualidade, numa cena impactante. Uma outra variação cultural e consequentes contradições é debatida: os cantores de “funk ostentação”. MC Dollar, com sua capa de couro, calças pantalonas justas, óculos escuros, cordões de ouro, chapéu com aba larga e muito brilho (remete aos tempos da “blaxploitation”), canta “raps” que em cujas letras há uma apologia ao mundo glamoroso das grifes internacionais, com refrãos empolgantes para um séquito de fãs sem condições para este tipo de consumo. Uma outra distorção cultural levantada por Luis Miranda referencia ao fato de que, no presente, toda e qualquer pessoa, qualificada ou não, pode apresentar um programa de televisão. Dona Editi, uma líder comunitária e vereadora, sem paciência com os filhos, que traja um vestido estampado com frutas e legumes e ostenta a sua “derriére” com engraçado enchimento, usa grampos, faz piada com seus cabelos, comanda uma atração dentro de sua casa e seus varais, em que dá conselhos para as suas telespectadoras e dicas de culinária praticáveis. Editi não esconde a sua crítica aos programas do gênero nos quais os apresentadores indicam receitas com ingredientes incompatíveis com a realidade econômica do país. O apego ao estrangeirismo e o desprezo pelo Brasil e seus habitantes e diferentes raças são simbolizados pela socialite Sheilla, completamente insana em sua paixão por Paris, suas frases ininteligíveis ditas em Francês, e sua tendência para a evolutiva embriaguez causada por taças e mais taças de champanhe. Com exuberantes casaco de pele, tailleur com brocados e saia “animal print” em tons prata e dourado, chapéu, joias e óculos, Sheilla cita hotéis estrelados, alta gastronomia e demais luxos, com a paranoia de que tudo o que é bom deve ser “geneticamente modificado”. Sheilla não se inibe em assumir seus largos preconceitos com os desassistidos e os desprovidos de beleza. E, por último, o autor não se esquece dos idosos e suas dificuldades em lidar com a tecnologia, no caso os caixas eletrônicos dos bancos, além da intolerância da sociedade para com os mais velhos. Esta exclusão é vista na personagem Dona Arminda, uma senhora simples com seu xale de crochê que se vê desesperada diante da implacabilidade de um caixa eletrônico e suas exigências de senhas, nomes e letras, e a impaciência de seus pares com as suas limitações. Tudo para retirar um extrato de sua vergonhosa aposentadoria que usa para sobreviver, jamais para viver. Quanto à atuação de Luis Miranda, Ingrid Guimarães, sabedora do rico conteúdo textual e do excelente intérprete à sua disposição no palco, recorre a todas às suas potencialidades para que cada personagem obtenha vida própria e identidade, e nos satisfaça gloriosamente. Luis Miranda, ao defender os sete papéis por ele criados, confirma-se no quadro artístico brasileiro como um ótimo ator com inacreditável capacidade para compor tipos e suas mais diversificadas personalidades, entonações vocais e posturas corporais, com oscilações de expressividade no patamar máximo. Os personagens não são caricaturas, e sim veículos para a propagação, por meio do humor, de uma ideia ou pensamento significativo. O cenário de Nello Marrese contribui com eficiência, funcionalidade e capricho para o conjunto cênico. Há cerquinhas de madeira com flores (para Caroline), mesa grande com os já citados varais e peças de roupa, toalhas e bandeiras penduradas para Dona Editi, mesa e cadeira moderna para Sheilla, além de adereços. Mas a sensação são as imagens projetadas em um painel (vídeos de Rene Porto) que não somente embelezam o espetáculo mas lhe dão coerência e inserem o espectador na história. Os vídeos mostram um clipe com garotas potencialmente sensuais, Chapeuzinho Vermelho (papel de Caroline) passeando por um idílico jardim e Sheilla flanando pelas ruas e “boulevards” parisienses. Os figurinos de Helena Soares e Roberto Laplane são inspirados, criativos e exuberantes, colaborando fidedignamente para a identificação dos personagens. O “pastor” Detona, por exemplo, traja um terno risca de giz vermelho e uma gravata roxa. A iluminação transita por vários caminhos e possibilidades. Como Luis se posiciona amiúde no proscênio, há um foco central sobre ele. A cena de MC Dollar corresponde a um legítimo show, com o espocar de luzes coloridas e o globo espelhado de praxe. Percebemos outrossim a presença do verde, do amarelo, do azul e do rosa. As coreografias são creditadas a Luis Miranda, que é bailarino profissional, e aquelas são evidenciadas com primor na apresentação do “rapper”, com movimentos compassados, ritmados e empolgantes. A direção musical compreende eficazmente a proposta da narrativa, executando trilhas e canções originais que primam pela adequação. “7 Conto – A Comédia” se estabelece como uma obra que, por meio de uma comicidade acurada e de nível absoluto, faz-se necessária e obrigatória pelo uso da inteligência crítica ao abordar assuntos áridos de um país que se pretende organizado, com todas as discrepâncias, injustiças e desigualdades do coletivo social. Luis Miranda prometeu e cumpriu com os seus sete personagens nos contar histórias que nos façam rir, refletir e reavaliar entendimentos. Luis, assim, contou-nos uma boa história. Na verdade, Luis Miranda nos contou uma boa história em sete contos… a comédia.
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Foto: Karina Tavares/Revista ISTOÉ GenteEram meados de 1990. Abro o jornal. E vejo uma foto. Nela estava um jovem ator. Jovem ator de impressionantes olhos azuis. Com um violão debaixo do braço. Sim, Fabio também é músico. Já teve banda, e toca outros instrumentos. Fabio Assunção era uma das promessas da Rede Globo para a novela de Cassiano Gabus Mendes que iria estrear no horário nobre: “Meu Bem, Meu Mal”. A promessa deixou de ser promessa para se tornar realidade. E hoje Fabio é considerado um dos mais relevantes e talentosos intérpretes que possuímos. A despeito de sua juventude, a trajetória profissional é tão extensa quanto preciosa. Após a estreia bem-sucedida na TV, muitos e importantes papéis ficaram marcados em nossas lembranças. Foi Felipe no mundo criativo engendrado por Antonio Calmon em “Vamp”. Experimenta a vilania na faixa das 18h, em “Sonho Meu”, de Marcílio Moraes. Inicia gloriosa parceria com Gilberto Braga em “Pátria Minha”, como Rodrigo Laport. Com cabelos e barba crescidos, “encontra” Benedito Ruy Barbosa em “O Rei do Gado” (a cena na qual fica perdido em uma selva por dias é memorável). É disputado por Gabriela Duarte e Vivianne Pasmanter no folhetim do “Menestrel do Leblon” Manoel Carlos, “Por Amor”. Repete a dose com Gilberto Braga em uma minissérie cheia de ação e suspense, “Labirinto”. Veste roupa de época na caprichada “Força de um Desejo”, do mesmo Gilberto. Recebe convite irrecusável para integrar uma obra de Eça de Queiroz, “Os Maias”, adaptada por Maria Adelaide Amaral, e dirigida por Luiz Fernando Carvalho. E honra o convite com garbo. Depois de passar por “Coração de Estudante”, de Emanuel Jacobina, em que fora o professor de Biologia Edu, torna-se ainda mais célebre por seu notável desempenho em “Celebridade”, de Gilberto Braga, como Renato Mendes, editor da revista “Fama” (Fabio ganhara distintos prêmios). Contribuiu com excelência para a minissérie de Benedito Ruy Barbosa, “Mad Maria”. Seriados, demais novelas, e minissérie pontuam sua história. Volta em grande estilo em meio às gêmeas de Alessandra Negrini na ótima trama de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, “Paraíso Tropical”, como Daniel. Surpreende o Brasil com sua incrível personificação de Herivelto Martins em “Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor”, de Maria Adelaide Amaral. Participações especiais sobrevieram. Esteve em um episódio de “As Brasileiras”, de Daniel Filho, e hoje faz parte do elenco fixo de “Tapas & Beijos”, como Jorge. No cinema, filmes como “Duas Vezes com Helena”, de Mauro Farias; o Bellini dos enredos detetivescos de Tony Bellotto, com direito à láurea em Los Angeles; a comédia “Sexo, Amor & Traição”, de Jorge Fernando; “Primo Basílio”, de Daniel Filho (reencontro com Eça de Queiroz); o belíssimo “Do Começo ao Fim”, de Aluizio Abranches; e no longa de Paulo Caldas, “O País do Desejo”. No teatro, a plateia ouviu de sua voz textos de Plínio Marcos, Nelson Rodrigues, Sam Shepard e Edward Albee. Isto sem contar “A Paixão de Cristo”. Fabio alcançou sucesso de público e crítica com a peça “Adultérios”, de Woody Allen (tradução de Rachel Ripani), e direção de Alexandre Reinecke. Interpretou Fred, um típico sem-teto, com aguçada inteligência, que ao se deparar com um afamado roteirista de cinema (Norival Rizzo) à beira do rio Hudson, em Nova York, enquanto aguarda a amante (Carol Mariottini) para dar fim ao relacionamento, reclama para si a autoria de recente roteiro de um filme de enorme êxito creditado ao homem que encontrara. O espetáculo se desenrola com intensos e divertidos diálogos. Como podemos ver, ouve-se o dedilhar das cordas do violão do nobre Fabio Assunção, seja no teatro, no cinema, ou na televisão.
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Foto: Divulgação do espetáculoEm pleno Dia dos Namorados, Fernanda (Maria Clara Gueiros) e José Carlos/Zeca (Ricardo Tozzi) se veem, de uma hora para outra, numa situação inusitada que os leva inevitavelmente a reavaliar o seu casamento que está próximo de completar um ano. A maçaneta da porta do banheiro do casal onde se encontram, preparando-se para a “noite especial”, em um acidente, desprende-se, impedindo-os de sair. Com ampla leveza dramatúrgica, com enfoque num salutar e cativante humor (texto de Bruno Mazzeo e Cláudio Torres Gonzaga), direção ágil e arguta de Cláudio Torres e uma dupla de atores, Maria Clara Gueiros e Ricardo Tozzi, incrivelmente entrosada e “dona da cena”, “Enfim, Nós” nos direciona para uma oportuna compreensão, amparada numa extensa graça, do que o enfrentamento forçado de dois indivíduos que decidiram se unir no campo afetivo ocasiona em suas próprias idiossincrasias, temperamentos, veleidades e personalidades até então estabelecidos “in solidum”. A história de um homem e de uma mulher, com os seus “antes, durante e depois”, serve para que um enxergue o outro como na verdade são. Assimilem com mais clareza as diferenças de ambos. Que haja uma confrontação individual e recíproca. Que questões “escondidas” ou “invisíveis” sejam afinal discutidas. O fato de se estar de modo imprevisto enclausurado em um pouco espaçoso cômodo e todas as suas especificidades, com as subsequentes evolução e gradação dos humores pessoais, com direito a larga gama de intempéries, soluções estapafúrdias com o intento de dirimi-las, faz com que Fernanda e Zeca coloquem em pauta as contingências natas de uma vida a dois, suas incompatibilidades veladas ou não, fraquezas e convicções. Ponham em xeque a “sagrada” instituição do casamento. Percebam as vicissitudes que surgem com uma convivência acordada. Bruno Mazzeo e Cláudio Torres Gonzaga, experientes e consagrados na dramaturgia (além de transitarem com louvor na seara dos roteiros), buscaram com o espetáculo destrinchar, esmiuçar, elucubrar, e por que não satirizar temas que nos são recorrentes no cotidiano. Fala-se da obsessão feminina pelas suas estética e aparência física e das outras mulheres, e pelos tratamentos “milagrosos” de beleza (como a “deformação” tanto visual quanto de valores com o uso indiscriminado do silicone). Discorre-se sobre a demanda do ser feminino por um relacionamento sexual que não seja padronizado, obrigatório, estagnado em insustentável inércia. A sua castradora pudicícia para assumir e aceitar a fisiologia humana. A resistência ao apreço banal que os homens em geral nutrem pelas partidas de futebol, principalmente quando se trata de uma final de campeonato. Suas amizades em potencial pouco abonadoras e fantasias pelas diferentes expressões da nudez de uma mulher. Seu natural condicionamento para a desorganização doméstica e tendência para parca higiene. No entanto, é bom que se frise que em todos esses questionamentos sobre os homens não há críticas tampouco avaliações sexistas por parte dos dramaturgos, e sim o que se faz são apenas piadas ou troças acerca de hábitos que os definem. Perscruta-se até que ponto intercorrências, imprevisíveis ou não, como a gravidez e o desemprego, podem influenciar uma união. Mostra o quanto somos passíveis de alterações de humor, e como reagimos a um estado de pressão, no caso o confinamento. Abordam-se as discussões e altercações de um marido e uma esposa, e o quanto de intensidade pode haver nelas dependendo das entonações que são dadas às palavras. Um “deixa pra lá” pode fazer toda a diferença. Num momento de alto estresse, há um desentendimento contínuo com as reais intenções sendo incontinenti mal interpretadas. Discorre-se ainda sobre o congênito machismo simbolizado pela procura infatigável do homem por um desempenho sexual “perfeito”. Uma insana busca por sua virilidade e reconhecimento alheio desta. A íntima dificuldade que se tem em romantizar um matrimônio. Com “Enfim, Nós”, os autores costuram uma deliciosa narrativa, uma comédia romântica que em alguns aspectos lembra a “de erros”, não abjurando de uma suave dramaticidade, que confere à peça elementos realísticos e factuais. No que diz respeito ao elenco, Maria Clara Gueiros compõe Fernanda com notável apuro interpretativo, vivenciando com extrema facilidade as oscilações emocionais de sua personagem. Maria não se inibe em tirar da comédia tudo o que de proveitoso pode oferecer ao público. Ricardo Tozzi, como o professor Zeca, exibe com bem-vinda prodigalidade a sua disposição como ator para escalonar todas as ferramentas de que dispõe para criar fiel, crível e saborosamente as linhas mais evidentes de seu papel. Maria Clara e Ricardo demonstram admirável expressividade corporal e dominação da voz e demais variações. De forma natural, convencem-nos de que de fato representam um casal como tantos que conhecemos que brigam, reconciliam-se, ofendem-se, elogiam-se, gritam, sussurram, silenciam e se amam. A direção de Cláudio Torres Gonzaga, sabedora das peças disponíveis, contorna com equanimidade o quadro narrativo com parcelas de humor, drama e romance. Os atores se movimentam por todo o espaço cênico. Pausam, correm, deitam-se com dinamismo invariável. O cenário de Edward Monteiro é charmoso e bonito, ostentando a típica atmosfera de um banheiro. Seu desenho contém elementos contemporâneos, antigos e infantis (no bom sentido). Há uma banheira “vintage” que serve como box com chuveiro, cuja cortina é adornada com patinhos amarelos, além de duas estantes com prateleiras sobre as quais estão toalhas coloridas e frascos de perfumes e loções, um móvel com treliças e seus pequenos vasos com flores, uma pia, espelho, uma armação com transparências que referenciam a azulejos, uma janela basculante, cestos, banco, a famigerada porta branca, quatro longos painéis anteriores azuis, e lógico, um vaso sanitário. A iluminação de Luiz Paulo Nenén aposta na quase uniformidade aprazível do plano geral, o que é um mérito, pois credita uma veracidade aos acontecimentos. Todavia, há focos em tons azulados e lilases conferindo um clima de aconchego. Nas passagens de uma cena para a outra, como se fosse um entreato, notamos a prevalência de um imperioso azul. Um conjunto de fatores que presta relevante serviço para o embelezamento da produção. Os figurinos de Liah Siqueira são elegantes, práticos e coerentes com os tipos definidos por Maria Clara e Ricardo. Fernanda usa um tubinho fluido e confortável com estampa psicodélica e calça escarpins em tons crus que lhe caem muito bem. Já José Carlos veste short de pijama, uma calça folgada de algodão de cor grafite e uma camisa social branca com listras. A trilha sonora de Mú Carvalho molda a encenação com acertada economia. Somos presenteados com a irresistível e agradável “Don’t Worry Be Happy”, de Bobby McFerrin. Heloisa Périssé, Luciano Huck e a Leandro Hassum contribuem com suas vozes em “off”. “Enfim, Nós” merece ser visto por inúmeras razões, que se justificam não somente por um texto atual, inteligente e sensível, uma direção dinâmica, expedita e em consonância com a proposta cênica, e uma atuação impecável de artistas que nos conquistam de pronto, como Maria Clara Gueiros e Ricardo Tozzi, mas por nos provar que mesmo nas situações mais adversas, em que temos que encarar o outro que está ao nosso lado, bem de perto, é possível descobrir, redescobrir, inventar e reinventar o amor. Enfim. “Enfim, Nós” e o… AMOR.
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Foto de divulgação do espetáculo “Um Violinista no Telhado”.José Mayer foi ao “Programa do Jô”. Cabelos e barba bem vastos em decorrência do musical no qual atua, “Um Violinista no Telhado” (baseado nos contos judaicos de Sholom Aleichem); adaptação de Charles Möeller e Claudio Botelho do sucesso da Broadway, com canções de Jerry Bock e Sheldon Harnick, e coreografias de Jerome Robbins, e que já rendeu filme de Norman Jewison, com Topol, cujo título original é “Fiddler On The Roof”). Com jaquetão, colete e calça escuros, além de camisa social clara, José, com sua bonita voz grave, começa a responder às perguntas que lhe são feitas por Jô Soares. O ator fala que com o espetáculo citado “nunca tinha vivido uma unanimidade tão grande”. O apresentador cita então Zero Mostel, que interpretou na badalada região de teatros de Nova York o leiteiro Tevye, que reside na Rússia czarista na virada do século XIX para o XX com sua família (mulher e cinco filhas). Em seguida, o apresentador brinca com o artista, dizendo-lhe que o seu visual está “sensacional”. José Mayer não perde o senso de humor, e fala que poderia fazer um personagem bíblico, que a aparência sugere um ar “patriarcal”. José Mayer afirma que adora chacoalhar as madeixas, e comenta que estas do jeito que estão parecem ter “um pouco de talento”. Comenta sobre as exigências físicas de se participar de um musical, e compara o profissional deste gênero a um “atleta de ponta”. Agora, é questionado como se deu o convite para protagonizar “Um Violinista no Telhado”. José lembra de uma produção por ele montada, de Catulo da Paixão Cearense (“Um Boêmio no Céu”), em que cantava, que pode ter servido de “degrau” para ter chegado onde está, ou seja, dando vida a Tevye (além de outra peça dirigida por Aderbal Freire-Filho, sobre um Rio de Janeiro “caótico”). O entrevistador lhe indaga como se descobriu ator. É dito que numa aula de declamação. Dá-se o instante no qual fotos do musical são exibidas no telão (fotos de Tevye com familiares, judeus perseguidos na Rússia czarista, que sofriam os chamados “pogroms”). Soraya Ravenle aparece em uma delas, e é elogiada. Quanto ao elenco, são 42 atores/cantores. Quanto à duração, três horas. Voltando ao telão, cenas da novela em que José surge de roupão ao lado das atrizes Natália do Vale e Taís Araújo são veiculadas. Uma hora jocosa. Retornemos à encenação. Como há duas sessões aos sábados, o intérprete compara a primeira como se estivesse no “pé do Himalaia”. Partamos para a ocasião em que Jô Soares menciona o fato em que José Mayer recebeu um telegrama de Procópio Ferreira. Ele conta que fora assistir a um trabalho de Procópio nos palcos, “O Avarento”, de Molière. Antes, o entrevistado tinha produzido uma obra de Leilah Assumpção, “Fala Baixo Senão Eu Grito” (considerado o melhor espetáculo mineiro de 1973). Depois da desistência de um ator da peça, José, o produtor, substituiu-o. E na sua estreia, Procópio Ferreira foi conferir. Procópio gostou. Procópio enviou um telegrama a José. José o emoldurou, e o considera o seu “diploma”. No telegrama, o pai de Bibi Ferreira se refere a José Mayer como “o grande galã”. José não considera o termo “galã” pejorativo. Concordo com ele. E para finalizar, devido à caracterização adotada, o artista em pauta que iria personificar um homem da moda na próxima trama das 21h da Rede Globo, “Fina Estampa”, de Aguinaldo Silva, será um pescador trambiqueiro a partir do capítulo 40. Esperem. Estou ouvindo sons. Sons de violino. Ah, é José Mayer ensaiando para a peça que está para ser apresentada. Afinal, hoje é sábado. O “violinista” José Mayer.
Obs: A entrevista concedida pelo ator José Mayer a Jô Soares em seu programa exibido na Rede Globo, “Programa do Jô”, ocorreu no ano de 2011.
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” ‘ Conversando com Mamãe’, com Beatriz Segall e Herson Capri, ‘conversa’ muito bem com o público. ”
Assistir a uma peça tendo como protagonistas Beatriz Segall e Herson Capri interpretando mãe e filho respectivamente já seria um bom motivo para sair de casa. Ao me deparar então com esta realidade a vontade de conferir “Conversando com Mamãe” se tornou inevitável. Foi o que fiz. E não me arrependi. Aliás, pela reação da plateia, presumo que ninguém se arrependeu. O texto é do cineasta e roteirista argentino Santiago Carlos Oves. A versão teatral é de Jordi Galcerán, e a tradução de Pedro Freire. Trata-se da história de uma senhora de 82 anos (Beatriz Segall) que mora em um local simples, porém aconchegante, que num certo dia recebe a visita imprevista do filho Jaime (Herson Capri), já que este se comunica quase sempre com sua progenitora por telefone. O filho é casado, e possui filhos em idade universitária. A missão dele ao encontrá-la é convencê-la a vender o lugar onde mora (lugar este que lhe pertence, e à sua esposa Laura), já que se encontra desempregado, e por conseguinte, com dificuldades financeiras. A mãe, que apresenta contínuos lapsos de memória, resiste à ideia da venda. A partir daí, vemos uma sucessão de diálogos saborosos e divertidos, mas não tampouco verdadeiros, em que ambos destrincham a própria relação. Reminiscências do passado são revolvidas. Dúvidas são tiradas. Questões mal resolvidas são solucionadas. Até que num determinado momento, o espetáculo toma um rumo não aguardado, e o enredo se desenvolve sem perder o brilho atingido. A versão teatral de Jordi Galcerán é tocante, e Pedro Freire logra com sua tradução feliz identificação com o público, que ri nos períodos apropriados. E silencia naqueles que demandam silêncio. Quanto às atuações, tanto Beatriz Segall quanto Herson Capri, grandes atores que são, optam pela acertada naturalidade, o que faz com que mãe e filho sejam bastante críveis, com patente entrosamento. Os figurinos da consagrada Kalma Murtinho obedecem sobremaneira ao perfil dos personagens, com destaque para um vestido de noite azul celeste usado por Beatriz. A iluminação de Paulo Cesar Medeiros, um ás da área, alterna luz geral, alguns sombreados, e focos. Um efeito que simula chuva é criativo. Uma iluminação de correção elegante. O cenário do respeitado Marcos Flaksman cumpre com notável eficiência as diretrizes da trama montando um lar com todos os adereços adequados com a funcionalidade exigível. A trilha sonora original de Alexandre Elias nos oferece um complemento que enriquece o cotidiano e passagens especiais da mãe e de Jaime. A direção de Susana Garcia prima pela sensibilidade, e parece ter deixado os intérpretes bastante soltos, à vontade, o que resultou em ótimo rendimento para o todo. E assim termina esta comovente e delicada encenação, que me fez voltar para a casa que supracitei com a sensação prazerosa de ter testemunhado excelsos artistas em cena. E mais: um irresistível desejo de querer conversar com a minha mãe.
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Foto: Divulgação do espetáculoNa ficção, em especial nos contos de fadas, o epílogo vem sempre acompanhado da otimista e utópica proposição: “E foram felizes para sempre…”. Na vida real, os fatos são inapelavelmente opostos ao que se apregoa nas histórias infantis. Parece haver, na verdade, um prazo de validade, uma data de vencimento para o estado de felicidade. Um relacionamento amoroso e todas as suas etapas não escapam a esta constatação, em muitos casos. No primeiro monólogo escrito por Heloisa Périssé (Heloisa possui vasta gama de obras dramatúrgicas, incluindo o sucesso “Cócegas”; seu livro “O Diário de Tati” teve ótima repercussão no mercado editorial), “E Foram Quase Felizes Para Sempre”, dirigido por Susana Garcia, sua personagem, a escritora Letícia Amado, representa o signo individual de uma mulher vítima das agruras subsequentes ao rompimento de uma relação afetiva. A peça começa com Letícia ansiosa e aflita em sua noite de autógrafos, e decepcionada com o convidado esperado que não comparecera ao evento. O livro a ser lançado se chama “Cantinho pra Dois”, com dicas para casais viverem momentos prazerosos e inesquecíveis ao redor do mundo nos melhores lugares, hotéis e resorts. No período de dedicação ao livro e às viagens, Letícia, sem que se desse conta, fora negligente com o romance. Seu companheiro, o “freelancer” Paulo Vitor, responsável pela capa da sua publicação, deixara de ser uma prioridade, e a união, lógico, desgastara-se progressivamente. Com a separação definitiva (e imprevistas recaídas de praxe), a literata enfrenta o drama de se ver num redemoinho de intempéries inevitáveis à condição de mulher sozinha. Heloisa Périssé costura a trama com irresistível leveza, potente carga de humor, drama na medida exata, emoção nas falas, sátiras sequenciais e referências múltiplas que resultam em uma encenação pujante na fruição de suas visíveis qualidades. Heloisa se manteve atualizada com os assuntos vigentes, e os incluiu no espetáculo. Com a sagacidade e a visão particular de observar o comportamento do ser humano em seu “habitat” de um jeito irônico, crítico, até mesmo “desconstrutivo” que lhe são natos, a dramaturga não poupa os espectadores, para o nosso deleite, de abordar situações que nos são bastante familiares, como o imediatismo ensandecido, desvairado, viciante e se pode dizer alienador em certas circunstâncias das redes sociais, a vulgarização e pauperização de determinados gêneros musicais (não há julgamentos tampouco preconceitos, servindo a menção como “ponte” para o riso), o estouvamento e boçalidade de membros do sexo masculino na conquista de uma mulher (não existe sexismo, e sim uma factual conclusão), a dificuldade desses mesmos homens em se comunicarem com o sexo oposto e seu lamentável desinteresse pela intelectualidade. O homem e sua crescente infantilização. Comenta-se sobre a “Era do Rivotril” (antidepressivo usado em larga escala pela população brasileira; uma pesquisa chegou a apontá-lo como o segundo medicamento mais consumido no Brasil) e os almoços de família que sempre descambam para uma imperiosa “lavagem de roupa suja”. Trata-se ainda do assolador medo do qual somos passíveis, sob os mais variados aspectos, num contexto jocoso. O medo das almas/espíritos, o medo dos filmes de terror, o medo da escuridão da madrugada (principalmente quando os números do relógio indicam que já são 01h37min) e sua correspondente solidão. Discorre-se com propriedade sobre as flagrantes diferenças entre homens e mulheres, que se no início podem ficar escamoteadas, na fase intermediária começam a se escancarar os direcionando para o doloroso processo de confrontação das incompatibilidades. Até o fato de um torcer para um time de futebol e o outro para o rival tem a sua significância, por mais prosaico que isso possa parecer como motivo de discórdia (evidente que Heloisa Périssé coloca tintas fortes de graça para realçar este tópico). Letícia possui emprego fixo, é prática, célere nos pensamentos, objetiva nos seus projetos de futuro. E Paulo Vitor é, segundo ela, “lento”, um “freela” que precisa de um tempo específico para dar um rumo à sua vida, despreocupado, desapegado aos bens materiais, por mais indispensáveis que sejam. Criador das capas do livro de Letícia, deseja ter filhos, ao contrário dela, ainda que não possua o mínimo respaldo financeiro para educá-los. Faz-se uma paródia aos terapeutas e suas explicações para todas as coisas. Elucubram e filosofam tanto que se perdem e se confundem com os próprios conceitos e teses. De acordo com Loreta, a terapeuta, o tipo de relacionamento de Letícia e Paulo Vitor é “neurótico”. Momentos de poesia de Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade enobrecem o texto. A autora brinca e questiona os perfis de alguns famosos personagens de contos de fadas. Por exemplo, a Bela Adormecida era sim uma princesa, tinha fadas madrinhas que a protegiam e dormiu cem anos, o que lhe proporcionou uma pele impecável. Já Branca de Neve e Cinderela saíram perdendo, tendo a primeira que “pegar na vassoura”, e a segunda, além disso, conviver com uma perversa madrasta que a perseguia. Toca no ponto do imaginário coletivo feminino que anseia o surgimento de um “príncipe encantado” em suas existências. Nas bem escritas linhas, deixa-nos claro de que o êxito profissional da mulher de modo ou outro contribui, por menor que seja, para o abalo de sua vida sentimental. Todo este material dramatúrgico criado por Heloisa necessitaria de uma direção que soubesse não só compreender e entender a sua proposta, mas absorver e pôr em prática nos palcos a sua linha matriz de ideias, acompanhando o ritmo pessoal e ágil da atriz. A escolha de Susana Garcia (notória em suas direções teatrais) foi acertadíssima. Conduziu com proficiência, perspicácia e prodigalidade os numerosos recursos interpretativos que Heloisa detém. A artista “passeia” à vontade pelas mais diversificadas veredas emocionais. O drama e a comédia estão contíguos, amalgamados em suas composições. Apodera-se de seus corpo e face como legítimas ferramentas de trabalho de uma inteligente intérprete. Sua expressividade é impactante. A versatilidade com que distribui o seu talento na construção dos muitos personagens é incrível: além de Letícia, o companheiro Paulo, a terapeuta tabagista Loreta, o pai bonachão Pires, a mãe sem “papas na língua”, a amiga masculinizada Celeste, o porteiro nordestino Valdemar, o cunhado “ideal” Isac e a garota de programa “acidental”. Sem contar os bizarros pretendentes que encontra na boate. Susana não pretere o elevado poder de comunicação e empatia de Heloisa Périssé como artista, e orienta a peça para uma trilha abertamente confessional e de franco diálogo com o público. Todo o espaço cênico é aproveitado. No minimalista e funcional cenário de Miguel Pinto Guimarães (duas cadeiras pretas laqueadas com estofamentos crus, que são dispostas em vários locais, e uma larga banqueta também preta que serve tanto como mesa quanto como sofá e assento), a atriz ostenta uma admirável vitalidade ao se movimentar, ir de lado a outro, sentar-se, levantar-se, correr, e dançar engraçadíssimas coreografias, que exigiram preparação corporal adequada e ampla flexibilidade. A iluminação de Maneco Quinderé é como de costume elegante, sendo outrossim poética e efusiva nas passagens oportunas. Percebe-se um saudável equilíbrio entre os focos gerais/abertos, duplos unicamente na atriz, seis refletores anteriores que se alternam em azul, verde, vermelho e rosa numa profusão de cores que se acendem e se apagam para simular o ambiente de uma “balada”. No fundo há um telão no qual todas essas luzes, inclusive o lilás, são projetadas, ocasionando um bonito efeito visual. O “visage” é suave, que realça a beleza e os olhos de Heloisa, com uma maquiagem precisa e cabelos presos. O belo já visto se aprimora com o luxo do figurino de Rita Murtinho, que aposta em um requintado e moderno macacão “fluid” de tons negros com decote em “V”, com mangas vazadas com pedrarias e uma deslumbrante fivela com detalhes artesanais. Como acessórios, delicados brincos e cordão com pingente, finalizando com escarpins pretos. A trilha musical de Alexandre Elias atende com eficiência, embalando logicamente o ciclo narrativo do espetáculo. O ápice decorre com a contagiante execução de “Tempos Modernos”, de Lulu Santos. “E Fomos Quase Felizes Para Sempre” cumpre a sua honrosa missão de colocar o gênero monólogo no lugar de destaque merecido quando realizado como obra bem estruturada, divertida dentro da sua contextualização e inteligente e liberal na concepção, e de corroborar a excelência de uma atriz chamada Heloisa Périssé. Se os casais não podem, em algumas ocasiões, serem felizes para sempre, e sim “quase”, nós, o público, fomos sim totalmente felizes. E esta felicidade, que durou cerca de uma hora e algumas dezenas de minutos se assemelhou ao “amor de Vinicius”, aquele “Que não seja imortal, posto que é chama. Mas que seja infinito enquanto dure”. A felicidade venceu.





