“Amor à Vida”, de Walcyr Carrasco, novela das 21h da Rede Globo, apresenta-nos desde o início de sua trama uma extensa galeria de personagens ambíguos e ambivalentes, retos, éticos e morais e vilões convictos, alguns destes em busca da redenção de si mesmos. Um painel racional, embora provindo de ficção, do retrato do ser humano e suas diferenciações. Leila, o papel defendido com irrepreensíveis dignidade e talento, e doses equânimes de iniquidade e humor negro e politicamente incorreto pela paranaense de Maringá Fernanda Machado, é um tipo frequentador da história que merece cuidadosa abordagem. Algumas perguntas se fazem a seu respeito: por que ela é assim?; por que age de forma tão vil?; por que é fria e insensível ao extremo?; por que rejeita a família?; e por que sente tamanhos ódio e desprezo pela irmã com necessidades especiais? No entanto, a bonita morena de lisos cabelos sobre a qual continuaremos a falar interpretada por Fernanda, que estreou na televisão no folhetim das 19h da mesma emissora, “Começar de Novo”, de Antonio Calmon e Elizabeth Jhin, é capaz sim de nutrir certo tipo de sentimento pelo vulnerável, frágil, dúbio e manipulável escritor Thales (Ricardo Tozzi), que vive mergulhado em crises com sua própria consciência. Se é apenas atração física, paixão, obsessão ou até amor, nunca saberemos. O casal, que troca abruptos e resfolegantes afagos e beijos no “moquifo” do escriba defronte ao Minhocão de São Paulo, no qual há em seu interior pôsteres de “Citizen Kane” e “Le Quatre Cents Coups”, dedicou o seu tempo ocioso na maquinação de planos que fariam Machiavel “reescrever” “O Príncipe” a fim de obter vantagens financeiras sem demandar esforço mútuo. Se no mundo capitalista, na montagem de um negócio, uns entram com o capital e outros com o trabalho, em “Amor à Vida” Leila “entrou” com as ideias e Thales, o escritor de um livro só, “entrou” com a sedução. A primeira vítima foi a ruiva Nicole (Marina Ruy Barbosa), pobre menina rica que “vendia” ingenuidade e romantismo, e que parecia ter saído de um filme de James Ivory, moradora de mansão “perdida” no século XIX. Educada e doce, Nicole possuía imensurável fortuna. Uma “presa” fácil para os golpistas. Infelizmente, a jovem sofria de uma enfermidade que não lhe deixaria viver muito tempo. Cuidada com zelo pela governanta Dirce (Angela Rebello), circunspecta e formal funcionária, chamada pela filha de Neide (Sandra Corveloni) de “urubu sem asa”, a moça se deixou levar pelo charme do “intelectual”, aceitando com ele se casar (o objetivo, óbvio, do rapaz, era herdar o dinheiro deixado). Thales se dizia estar apaixonado pela futura esposa, mas “dividia o lençol” com a amante e cúmplice. Que amor é esse? Que escritor é esse tão calculista e desprovido de sensibilidade? Tudo denotava estar dando certo para o “literato” que degustava chá de hortelã no calor da metrópole e para a sua parceira, até que no dia do casório, Nicole descobre a dura verdade na frente do padre. Ela morre “vestida de noiva” “rodriguianamente”. Com a morte daquela que seria sua cônjuge, Thales, que não sabemos de onde vem, se tem pai, mãe, irmãos ou é filho de César (Antonio Fagundes), vivencia seus dias de Haley Joey Osment, e passa a querer dizer: “Eu vejo gente morta”. O malogrado vestido de noiva foi propositalmente colocado no corrimão da escada, e a Leila de Fernanda Machado, que personificou a ludibriada Joana de “Paraíso Tropical”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares (ganhou o prêmio “Melhores do Ano Atriz Coadjuvante 2007”), assustada, sofre grave queda, que a leva a longo período de recuperação, o que a deixou mais revoltada e ferina em suas ofensas. Os dinheiros disponíveis foram gastos em caros tratamentos, e o par começou a ter dificuldades para se sustentar, pois o inventário não estava concluído. Enquanto isso, Leila maltrata sua irmã autista (um termo que estigmatiza essas pessoas que requerem tanto amor) Linda (Bruna Linzmeyer), como chamar a sua atenção quanto à urina que fez na cama e destruir a sua árvore de Natal feita com carinho pelo adorável advogado Rafael (Rainer Cadete), que em breve será objeto das armações da irmã de Daniel (Rodrigo Andrade). Ele será denunciado tanto por Neide quanto por sua filha por “sedução de incapaz”. Não me espanta que Linda seja tratada desta maneira, visto que seja fato comum em não poucos grupos familiares. Durante a estagnação do processo de inventário (no Brasil a Justiça é célere?), surge a ruiva (!) Natasha (Sophia Abrahão), herdeira de parte do legado do pai de Nicole, fruto do relacionamento deste com Dirce. Dirce também tem as suas fraquezas. Natasha contesta sua cota na partilha dos bens, para desagrado da dupla, que volta a admirar da janela do “moquifo” o “silencioso” e “despoluído” Minhocão. Nem Cidadão Kane e “Os Incompreendidos” salvam a penúria deles. Um novo ardil é pensado, e Thales, o escrevinhador que estima blusas xadrezes, seduz a nova ruiva, objetivando o seu patrimônio. A ambiguidade que o acompanha é evidenciada mais uma vez. Natasha se apaixona, todavia a mãe está alerta. A saída encontrada pela ardilosa personagem de Fernanda, que já deu vida a duas vilãs em produções de Walcyr Carrasco que no seu término acabaram se redimindo (“Alma Gêmea” e “Caras & Bocas”), será dar cabo da namorada de Rogério (Daniel Rocha). A mansão “do século XIX” será incendiada. Natasha se salvará, e Leila não escapará das chamas. Fernanda coleciona na TV participações especiais em seriados, minissérie (“Queridos Amigos”, de Maria Adelaide Amaral) e outra novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, “Insensato Coração”, na qual fora a ambiciosa Luciana, que morrera num sinistro. Atuou como apresentadora do “Superbonita”, do GNT. Nos cinemas, foi focada pelas lentes de Paulo Sérgio de Almeida (“Inesquecível”), José Padilha (“Tropa de Elite”), Marco Antônio Ferraz e Anderson Corrêa (“Flordelis – Basta uma Palavra para Mudar”), Tadeu Jungle (“Amanhã Nunca Mais”) e Michel Thikomiroff (“Confia em Mim”), além de um curta-metragem. Tem para si o privilégio de encenar um dos mais prestigiados dramaturgos modernos norte-americanos, Sam Shepard, em “Mente Mentira”, ao lado de Malvino Salvador. Fernanda Machado fez exponencial diferença na produção das 21h ao assumir papel difícil, condenável, complexo e polêmico em sua natureza. Fernanda é uma bela, jovem e talentosa atriz a quem devemos respeitar. Leila “aprontou”. Fernanda “aprontou” também com sua qualidade de atriz. Para terminar, só um aviso às ruivas: se agora encontrarem Leila na calçada, sejam cautelosas, atravessem a rua.
Categoria: Teatro
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Foto: Divulgação do espetáculo “Talvez”O título acima não fora por mim pensado casualmente. Álamo Facó tem feito sucesso, agradando tanto à crítica especializada quanto ao público, em todos os projetos artísticos para os quais fora escalado. Porém, todo esse êxito não viera à toa, num repente. É produto de muito estudo, prática que vem desde a pré-adolescência no O Tablado, experimentações diversas com nomes do mais alto relevo, como Maria Clara Machado, Amir Haddad, Domingos de Oliveira, Juliana Carneiro da Cunha e Hamilton Vaz Pereira. Uma prova desse sucesso pôde por nós ser apreciada na terça-feira no último episódio de “A Mulher Invisível”, seriado da Rede Globo inspirado no filme de Cláudio Torres. Álamo só fez corroborar, como o já fizera na temporada anterior e na atual, o talento que possui na pele de Wilson, o funcionário da agência de publicidade de Clarisse (Débora Falabella), que é o melhor amigo e confidente de Pedro (Selton Mello). As cenas que protagonizara demonstrando as crises de identidade de Wilson foram divertidíssimas. Já no teatro, após ter dividido a ribalta com Marco Nanini (com quem já trabalhara em “A Grande Família”), no espetáculo “Pterodátilos”, de Nicky Silver, dirigido por Felipe Hirsch, o ator está em cartaz no Rio de Janeiro com o monólogo “Talvez”, escrito por ele mesmo, cuja direção coube a César Augusto. No palco, Álamo Facó interpreta Dário, um homem com sentimentos que transitam pelo campo do amor beirando o da loucura. A trama se passa toda dentro de uma casa, na qual o indivíduo decide permanecer até que Rita, a mulher por quem se apaixonou, retorne de viagem. Enquanto isso, ambos comunicam-se exclusivamente por um notebook. Uma curiosidade: a plateia conhece Rita apenas por meio de vídeos, e claro, pelas mensagens que ela envia. Esta peça tange à contemporaneidade, apesar de ter sido escrita há sete anos, com apresentações desde 2008. Aliás, foi em uma destas que Marco Nanini convidou Álamo para integrar “Pterodátilos”. No cinema, o intérprete está no aclamado “O Palhaço”, de Selton Mello, ao lado do próprio Selton, Paulo José e Cadu Fávero. Seu papel é João Lorota. Todavia, a carreira nas telas é extensa. Dentre os longas-metragens dos quais participara, estão “Qualquer Gato Vira-Lata”, de Tomás Portella, “Tropa de Elite”, de José Padilha, “O Maior Amor do Mundo”, de Cacá Diegues, “Apenas o Fim”, de Matheus Souza, “Mateus, o Balconista”, de Cavi Borges e Pedro Monteiro, “Não Se Pode Viver Sem Amor”, de Jorge Durán e “Carioca”, de Julio Secchin. Retornemos ao teatro. Dirigira, por exemplo, “Tribos e Farras”. E como ator, dentre tantas produções, “Capitães da Areia”, de Jorge Amado, “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse e “Entre Quatro Paredes”, de Jean-Paul Sartre. Ingressou na Companhia dos Atores, e por um tempo viajou com o projeto Auto-Peças. Agora, ainda no que concerne à sua formação, esteve na Inglaterra, onde na Hanley Castle School estudou Interpretação, Dança e Literatura Inglesa. Encenou “On The Edge”, de Hazel Hickling. Cursou Cinema, especializando-se em Roteiro. E na Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO), Interpretação. Ganhou o Prêmio Sustain de Melhor Ator. Quanto ao próximo ano, Álamo está cheio de ideias, sejam a de encenar peças seja a de levar adiante o sonho de ver “Talvez” adaptado para o cinema. Como sabemos que Álamo Facó é um ator que atua com sucesso em todas as frentes…
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Foto: Divulgação do espetáculoPara você o que é o amor? Poetas, compositores, escritores, cineastas, estudiosos e cientistas já tentaram explicá-lo. Porém, o fato é que em definitivo nunca se chegou a uma resposta concreta. Com suas ramificações, oscilações e níveis de intensidade múltiplos, o amor brada por sua permanência entre nós, que pugnamos por incluí-lo em cotidianos próprios, rasteiros e vazios. Assim como estes, o amor também pode ser rasteiro e vazio, se não soubermos vivenciá-lo com generosidade e aceitação do diferente. E o que talvez mais dificulte a sua prática efetiva seja a necessidade da cumplicidade nem sempre correspondida do outro. O “outro”, de quem tanto precisamos, afasta-se invariavelmente da essência que preservamos para nos identificarmos como seres individuais. E aquela fica na espera vã de ser completa. Independente de gêneros e orientações sexuais, o ato de amar, que deveria ser espontâneo, natural, nato, peça indissociável da pessoa humana tornou-se de maneira inequívoca algo complicado, propulsor de conflitos e desencadeador da desalentadora revelação do gigantismo das desigualdades que nos separam. O impasse descrito não é prerrogativa absoluta da contemporaneidade. Desde priscas eras, a voz que exclamava acerca dos obstáculos que subvertiam os princípios amorosos ideais já se fazia ouvir por entre montanhas imaginárias. E se falamos em amor, a óbvia consequência é discorrer sobre o que atrelado a ele está: o sexo. O sexo prazeroso em seu cerne pode ser desgostoso se não acompanhar com coerência o sentimento que o antecede. O dramaturgo Raul Franco com posicionamento audaz arrisca-se a abordar, e obtém êxito, complexo tema, enriquecendo-o com sua visão particular. O famigerado amor que se posiciona na superficialidade dos diálogos ocos que testemunhamos no dia a dia provindos de mentes tão ocas quanto que idolatram sociedade perdida e desqualificada em seus valores. Raul, em “Crônicas do Amor Mal Amado” (uma coprodução da Biarte e Agentejunto, com produção executiva de Yuri Sardenberg) conduz com habilidade, emoção, conhecimento de causa e abertura para o humor a transposição não fácil do que pensa em linhas narrativas que formam amálgama convincente. E a tarefa inglória que, se bem feita, atinge a glória, solicitaria colaboração conjunta e em consonância de acordos de profissionais que bem assimilassem a proposta de bravas pretensões do autor. Uma direção firme, sem amarras, liberta de preconceitos, associada ao que se compreende por ser sensível e com obrigatório olhar técnico na formatação de espetáculo cênico se faria urgente para que se lograsse sucesso esperado. Bia Oliveira, com as assistências de direção de Linda Lumière e Luca Pougy, cumpre com garbo missão digna e nobre de traçar amplo, esclarecedor, informativo e divertido painel que destrincha, discute, debate e por que não ironiza com elegância os “fragmentos de um discurso amoroso”, com a sua licença Barthes. Na encenação o que se vê são acontecimentos, esquetes representativos das situações interpessoais que mais nos afligem e a abordagem sem inútil pudor de questões que assumem importância vital para a perenidade de um relacionamento. Apegando-se ao cômico, utiliza-se da parábola bíblica de Adão e Eva com fins de demonstração de que a relação homem/mulher já sofria influências complicadoras para proveitoso entendimento entre o masculino e o feminino. A efemeridade dos romances, casos, namoros, casamentos ou quaisquer tipos de união não são preteridos, e notamos o quão triste é esta ausência de aliança anímica e doída é a constatação de que somente o toque, a sensação tátil sobre matéria física com objetivos únicos de fugazes êxtases são supervalorizados. Mitos são desmistificados. O machismo continua vigente. O romantismo é “démodé”. De que adiantaram sutiãs queimados em via pública se a não contestada independência das mulheres ocasionou o afastamento dos homens? Por que de modo progressivo nos deparamos com homens procurando afeto em homens e mulheres carinho em outras? O que há de errado para que as “Leis da Natureza” sejam transgredidas? Deduzo que existe busca desesperada com aceleração máxima de mínima afetividade, nem que para isso nos seja forçoso desmoronar preconceitos incrustados em cabeças na infância por “educadores” e “religiosos” hipócritas. Deixemos de lado irrelevâncias como tamanhos de órgão masculino e quantidade ou não existência de orgasmos femininos. Por que procuram tanto este tal “Ponto” com letra de alfabeto? Balelas e mais balelas para teses esdrúxulas de Mestrado. Quem são os cabotinos sexólogos para nos dizer o que é certo ou errado? O que vale é o amor, seja de que forma for. O que vale é se sentir bem ao lado de semelhante em cama macia. Acordar e lhe dar “Bom dia!”. Não se deixem importunar por roncos ou hálitos não perfumados ao amanhecer. Não estamos em sonho. Estamos em vida. Somos falíveis e algumas vezes incríveis. Deixemos os príncipes e princesas encantados para os Irmãos Grimm e Walt Disney. Saiamos do “castelo”, e vamos para o logradouro, pois é lá que está a vida. Já os encontros virtuais ao se tornarem reais fazem com que caiam inexoravelmente máscaras usadas com cálculo e premeditação. O mundo virtual é “belo”, uma fantasia traiçoeira que vicia, que distancia mais que aproxima, e que pode originar antissociabilidade irreversível. Os atores Camila Hage, Felipe Roque e Luca Pougy desprendem-se cenicamente, sem grilhões nem tampouco laços que os reprimam, nas suas interpretações. Estas são verdadeiras, legítimas, honestas, emocionantes e usando vocábulo simples mas rico em significância, bonitas. Ao nos defrontarmos com a juventude contagiante de Camila, Felipe e Luca nos imbuímos de que há esperança na renovação artística, na preservação da vontade autêntica de lindos moços e moça no intuito pétreo de escancarar sua expressão da Arte. A direção de movimento de Igor Pontes oferece dinâmica irrepreensível à montagem, evidenciada nos variados personagens defendidos pelo elenco. A trilha de Bia Oliveira cumpre eficiente e adequado papel na configuração lógica do todo, com preciosa participação da cantora e compositora Bárbara Dias (e sua dulcíssima e afinada voz) que escreveu exclusivamente para o espetáculo lindas canções. O cenário da Biarte e Agentejunto procura e atinge aproximação profícua, prática, congruente e em conformidade com o “script”. Sofá cama com almofadas pretas e vermelhas, duas pequenas mesas (uma preta e outra branca), com formosos abajures a encimá-las, cabideiros, dois imponentes painéis brancos dependurados ao fundo, cadeira sofisticada com estofamento branco e luminária moderna a ladeá-lo sobre tablado constroem panorama cenográfico aconchegante e atraente. A iluminação de Frederico Eça adota notável capricho visual, aproveitando infinitas possibilidades do poder de beleza das cores, como azul e verde, e o fascínio irresistível que o manuseio correto e emotivo da força das luzes em distintos bruxuleios, sombreados, focos e planos abertos possuem. Os figurinos de Bárbara Brigido são com louvor compatíveis com as intenções dramatúrgicas. Usam-se jeans, tênis, casacos, blazer, colete, blusa xadrez, sapatos sociais, boina, écharpe, óculos com armações diversas, sunga e vestido estampados, tubo preto com brilho nas costas, escarpins, t-shirt, short, roupa íntima masculina e robe. Um vasto e criativo apanhado das tendências de vestuário à disposição. “Crônicas do Amor Mal Amado” ocupa honorário espaço na cena teatral carioca o qual não podemos ignorar ao intentar, como já fora dito, esclarecimento sobre sensação inefável que ora pode nos atrair ora pode nos repelir: o amor. O amor, suponho, continuará não resolvido, porquanto é possível que seja um pouco mais entendido. Vinicius no começo é citado com seu “Soneto de Fidelidade”: “Que não seja imortal, posto que é chama Mas que seja infinito enquanto dure.”. É função nossa, creio, barrarmos quaisquer brisas de vento mal-intencionadas que queiram apagar esta chama. Coloquemos palmas de mãos ao seu redor, protegendo-a, pois raro é o amor. Por isso nos é tão caro.
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No agora distante ano de 1987, o cineasta britânico Adrian Lyne (que se sobressaíra na direção de comerciais e nos incontestáveis sucessos de público “Flashdance” e “9 e 1/2 Semanas de Amor”, porém vistos com má vontade pelos exigentes críticos da área fílmica), aventurou-se com êxito no arrepiante thriller “Atração Fatal”, que questionava a prática do adultério e suas funestas consequências. Em resumo, o advogado Dan Gallaguer (Michael Douglas), casado e pai de uma filha pequena, aproveitando-se da viagem de dedicada e bonita mulher, Beth Gallaguer (Anne Archer), envolve-se sexualmente de modo fugaz com a executiva Alex Forrest (Glenn Close). O que não estava nos planos iniciais de Dan era de que Alex fosse se apaixonar por ele próximo à psicopatia. Seu intento, diante da recusa do causídico em prosseguir no romance, é o de destruir, utilizando-se de todos os meios cruéis e aterradores, para pôr fim ao seu matrimônio. O “Fatal” do título faz jus ao desfecho do longa-metragem. O que percebemos em “Amor à Vida”, novela das 21h da Rede Globo, escrita por Walcyr Carrasco, com relação à Dra. Glauce (Leona Cavalli), uma respeitável e competente obstetra e ginecologista do Hospital San Magno, núcleo central da trama, não é algo tão similar à personagem de Glenn Close, tendo sido “pintada com tintas” um tanto mais brandas, mas o tema “atração fatal” está presente. Apaixonara-se tresloucadamente pelo por ora bem-sucedido corretor de imóveis Bruno (Malvino Salvador). Apaixonara-se pelo homem errado (ninguém está livre disso). O pioneiro erro a fez cometer sequência de muitos outros num nível de gravidade assustador. Uma de suas mais condenáveis faltas está para ser revelada em breve na história: a sua efetiva culpa na morte de Luana (Gabriela Duarte) e respectivo nascituro durante o parto que comandara. Luana era mulher de Bruno. O que se deu é que “por amor”, sabendo dos problemas congênitos cardiológicos da parturiente descobertos no pré-natal, a doutora negligenciou ao não convocar o cardiologista de plantão para assistir a cirurgia. Uma crônica de umas mortes anunciadas. Orientamo-nos assim pelo artigo 18 do Código Penal que prescreve: “Diz-se o crime: (Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984) II – culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia. (Incluído pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984)”. No entanto, houve o dolo (intenção de matar). O que poderia ter sido evitado, ocorreu: o falecimento de Luana e do bebê. E para recrudescer ainda mais a dramaticidade da situação, o desesperado Bruno encontra a recém-nascida Paulinha (Klara Castanho), filha roubada de Paloma (Paolla Oliveira) pelo irmão Félix (Mateus Solano), e jogada em caçamba de lixo malcheirosa. Num acordo perigoso e ilegal, Bruno, sua mãe, a técnica de Enfermagem Ordália (Eliane Giardini), a enfermeira Perséfone (Fabiana Karla), e lógico, Dra. Glauce, simularam o nascimento de uma menina (um segundo filho de Luana) na casa de saúde. Prontuários e registros foram falsificados. Se o fato caísse em mesa de delegado policial, todos seriam indiciados por formação de quadrilha (Artigo 288 do Código Penal), falsificação de documento particular (Artigo 298 do Código Penal) e falsidade ideológica (Artigo 299 do Código Penal), e não informação ao Juizado da Infância e da Juventude do abandono da criança. Com certeza, o inquérito policial seria encaminhado ao Ministério Público, haveria denúncia, e o Juiz provável a acataria. Entretanto, como se trata de ficção, e nós, telespectadores, somos não poucas vezes levados pela emoção e não pela razão, ficamos do lado do homem sofrido que salvou a vida de uma pobre inocente, deu-lhe educação e carinho, enfim, cumpriu papel de pai. Não desejamos por mais contraditório que possa parecer punição para Bruno, Ordália e Perséfone. Verdade é que as duas últimas mais a obstetra perderiam o direito de exercer seu ofício perante o CRM (Conselho Regional de Medicina), após concluídas investigações disciplinares e administrativas. Bruno não mais teria a guarda de Paulinha. Nós queremos isso? Não. Nada me soa inverossímil, pois o absurdo está em nossas existências, estampado todos os dias nas manchetes de jornal. Além do mais, conhecemos escândalos nos sistemas público e privado de saúde no Brasil. Excetuamos poucas instituições e médicos sérios. Glauce, cuja intérprete já enfrentou Nelson Rodrigues na adolescência com “Valsa N° 6”, influenciada por ter testemunhado damas do teatro como Tônia Carrero, Fernanda Montenegro e Marília Pêra, não hesitou em escamotear prontuários médicos descritivos de praxe. Todavia, a charmosa e sedutora moça com cabelos loiros impecavelmente escovados foi autora de homicídio culposo (a colega Elenice, defendida por Nathália Rodrigues, em luta corporal, acaba sofrendo traumatismo depois de queda em chão frio, branco e asséptico do hospital não tão ético). No tocante à artista Leona Cavalli, não vislumbramos desperdício de seu talento em nenhuma das cenas das quais fez parte, e que merecem citação as melhores: as trocas de farpas com Paloma; o instante máximo no qual aliciou Bruno exibindo nus seios; bravo enfrentamento associado à chantagem defronte ao corpo diretivo do San Magno, no que concerne ao procedimento falho com Luana; o desmascaramento do pai preconceituoso de Félix quanto à legítima paternidade de Jonathan (Thalles Cabral), pois fora ela quem conseguira o prontuário (sempre ele) a pedido do rapaz; e os colóquios maliciosos, provocativos e divertidos entre o vendedor de “hot dogs” e a médica, que culminaram em troca de carícias insuspeitas. O que se sabe até então é que as investigações comandadas por Dr. Lutero (Ary Fontoura), Paloma e a Chefe de Enfermagem Joana (Bel Kutner) levarão Glauce Sá Benites a não suportar tão fortes acusações, e a saída encontrada será dar cabo da própria vida. Será o fim dos prontuários escondidos. É necessário dizer que Leona, quanto à sua profissão, possui notória familiaridade com o cinema, ouvindo vez por outra o som de “Ação!” gritado por cineastas como Cláudio Assis (“Amarelo Manga”, que a lançou nacionalmente); Paulo Betti e Clóvis Bueno (“Cafundó”); Tata Amaral (“Um Céu de Estrelas”, “Através da Janela” e “Antônia”), Hector Babenco (“Carandiru”), Jayme Monjardim (“Olga”), Roberto Moreira (“Contra Todos”), Sérgio Bianchi (“Os Inquilinos – Os Incomodados que Se Mudem” e “Quanto Vale Ou É por Quilo?”) e Tizuca Yamasaki (“Aparecida – O Milagre”). Fez curtas-metragens, também. Leona Cavalli soube com sua voz suave, maviosa e pausada e postura elegante dar contornos especiais e críveis, e por isso mesmo inolvidáveis, à vilã Glauce. Com trajetória tão rica na tela grande, a televisão não poderia preteri-la. Integrou um sem número de folhetins, minisséries e seriados. Dentre as telenovelas, destacamos “Belíssima”, de Silvio de Abreu; “Da Cor do Pecado”, de João Emanuel Carneiro; “Começar de Novo”, de Antonio Calmon e Elizabeth Jhin; “Duas Caras”, de Aguinaldo Silva; “A Vida da Gente”, de Lícia Manzo; “Negócio da China”, de Miguel Falabella e aquela que pode ser considerada como uma de suas melhores performances, a Zarolha do “remake” de Walcyr Carrasco para a obra original de Walter George Durst que se baseou no romance de Jorge Amado, “Gabriela”. Não por coincidência o mesmo autor que lhe deu o ótimo papel da produção recente das 21h. Na seara das minisséries, citemos “Amazônia, De Galvez a Chico Mendes”, de Gloria Perez, e “Dalva e Herivelto – Uma Canção de Amor”, de Maria Adelaide Amaral. Com a aproximação do fim de “Amor à Vida”, Leona Cavalli, que está em cartaz com a peça “E Aí, Comeu?”, de Marcelo Rubens Paiva, como a Dra. Glauce, sai pela porta principal com o dever cumprido. E desejamos que retorne em breve e com mérito pela mesmíssima porta. A atriz, no enredo de Walcyr Carrasco, preencheu e assinou um “prontuário de excelente desempenho”, e este, Leona, não precisa ser escondido.
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Num espaçoso loft, sentado em cadeira giratória, sorvendo goles rápidos de café quente em caneca, e fumando cigarro após outro, o diretor/dramaturgo (ou como ele mesmo se autodefine, adaptador) Thomas (Pierre Baitelli), com evidente postura frenética, incisiva e eivada de pessimismo discorre em soltas palavras ao telefone acerca da infinda dificuldade de se encontrar a atriz adequada para personificar o papel de peça que irá montar. A peça em pauta é baseada num romance alemão escrito em 1870 por Leopold Von Sacher-Masoch, “Venus in Fur” (o termo hoje conhecido como sadomasoquismo adveio do sobrenome do romancista levando-se em conta sua pioneira menção sobre o tema tabu). Leopold fora auxiliado pela escritora Fanny Pistor. Municiado de opiniões implacáveis, Thomas defenestra as intérpretes atuais no tocante ao comportamento, faltas de preparo para o ofício e carência de cultura e vocabulário nos seus mínimos patamares. Uma geração “tipo assim”. Bate à porta, e logo irrompe resfolegante bonita candidata (Bárbara Paz, indicada ao Prêmio Shell de Melhor Atriz) à personagem Vanda (por sinal, o mesmo nome da artista). A pretendente se atabalhoa com gigante bolsa, e a ansiedade a persegue com covardia. Mostra-se a todo o tempo tenaz no convencimento de sua capacidade de vivenciar a mulher do século XIX. O adaptador não capitula. É duro, questionador, reticente e frio. O inevitável emerge, e se inicia processo conflituoso e desconcertante, tenso e “nervoso” entre ambos de maneira que se atinja acordo comum e final à respeito da escalação. Se antes o rapaz que idolatra o visom “entranhado” em sua mente por visitas cruéis de tia no passado trajada com a pele, e que lhe proporcionava “estranhos prazeres” ao vergastá-lo com vara de marmelo, ocupa privilegiada posição de dominador, a seguir a jovem com arrebatadores olhos verdes que falam por si mesmos, e que lhe fora entregar livro perdido de Goethe, “Fausto”, achado em bosque pouco longínquo, e que continha marcador com pintura da Vênus de Ticiano, além de rascunho de poema redigido de próprio punho por Thomas, com surpreendente potencial de atuação, memorização das falas inacreditável (carregava consigo inclusive todo o “script” da peça, o que aumenta o mistério de quem seja de fato), entendimento vasto do perfil de Vanda e que, volta e meia, sugeria ideias criativas nunca dantes pensadas pelo irritadiço encenador, inverte com mérito o jogo, assumindo a função de dominadora da vez. As leituras de texto se sucedem, e a figura da metalinguagem adquire preponderante posto, numa mistura eficaz de ficção e realidade, em “Vênus em Visom” (um sucesso na Broadway e na Off-Broadway que rendeu o Tony de 2012 a Nina Arianda, que contracenou com Hugh Dancy; Roman Polanski adaptou para as telas, e obtivera a indicação para a Palma de Ouro do Festival de Cannes de 2013), de David Ives, dirigida por Hector Babenco, e traduzida por Daniele Ávila Small. Hector, respeitadíssimo cineasta, tem nos provado em suas incursões nos palcos de que faz jus a similar adjetivo superlativo, valendo-se sem desperdícios do instigante e provocador texto de Ives e do irretorquível talento dos protagonistas, para “costurar” espetáculo envolvente, charmoso, inebriante, sensual/erótico e provido de inteligência em sua completude. Babenco “saboreia” cada diálogo e respectiva entrelinha que possui em mãos, e faz com que tanto Bárbara quanto Pierre façam o mesmo, utilizando-se os dois de um trabalho irrepreensível de corpo (a plasticidade deste em suas formas é explorada com primor e congruência) e voz (timbres distintos para o real e o fictício). As emissões vocais são pujantes, suaves, sedutoras, precisas, titubeantes, indecisas, irônicas e vorazes, correspondendo a cada cena pedinte. Percebem-se, e aceitamos de bom grado, vestígios cinematográficos em alguns momentos da montagem, seja nos trovões e relâmpagos que entrecortam e delineiam pontos-chaves da história seja na adoção próxima que nos remete a uma interpretação inspirada no Expressionismo Alemão durante os ensaios (fugindo com lógica do Naturalismo, o que facilita a nossa compreensão), cumprindo-se limites, é claro, e que não resulta em instante algum em artificialismos dispensáveis. Muito pelo contrário. Um acerto pontual. Há ainda mudança ousada de personagem pelos atores, fato comprobatório da versatilidade destes e da engenhosidade do diretor. Hector Babenco, Bárbara Paz e Pierre Baitelli nos “assombram” com devastadoras aptidões de transpor com alta qualidade para o tablado a não fácil, e por esta razão fascinante, dramaturgia de David Ives. O cenário de Bia Junqueira é suserano em sua factibilidade e realismo. Belo é vocábulo que se adequa ao que vemos na simulação do loft tipicamente americano em seus contextos funcionais e práticos. Vislumbram-se vigas de aparência férrea transversais de lado a lado, imponente janela/claraboia que se debruça sem riscos sobre a mesa de Thomas, com os acessórios de escritório, atinentes a que se tem direito, cadeiras, outra mesa ao fundo que serve para majestática performance de Bárbara “à la Marlene Dietrich”, cano de sustentação hidráulico (o simbolismo fálico fica a critério de cada um, ou “como melhor lhe aprouver”), e um providencial e atuante divã com textura crua. As paredes exibem miríades de tijolos, e há porta de ferro que clama sua presença. O negro e o cinza formam aliança. Os figurinos de Antônio Medeiros são valorizados por producente escolha de peças que condizem amiúde com a proposta comportamental dos tipos inseridos no enredo. Ora se notam blazer, camisa social branca, suspensórios “bordeaux”, calça, tênis, fraque, óculos com armação “vintage” e casaco “antique” em Pierre ora se notam “trench coat”, “corselet” de couro com metais e correntes, scarpins com salto agulha, vestido de seda rosa claro que nos transporta à final de século distante, visom, xale rendado e uma eloquente bota de cano longo preta fetichista em Bárbara. Já a iluminação de Paulo César Medeiros (indicada ao Prêmio Shell de Melhor Iluminação) faz opção elogiosa por conjunto de refletores que se revezam em múltiplas intensidades, dando a exata ambiência da ação. As luzes são magnânimas e insinuantes nos sombreados, focos oblíquos e centrais, supervalorização dos atores em meio à escuridão total em passagens intimistas. Há também a impessoalidade de três apropriadas luzes frias. “Vênus em Visom”, que proclama que “as pessoas são fáceis de se explicar, mas difíceis de se decifrar” se distingue e se destaca por vários aspectos: a abordagem da sinopse e consequente contextualização competentíssimas de Hector Babenco; a correspondência honrosa e disciplinada do elenco; a sutileza de tratamento de assuntos áridos mas que, no entanto, causam ilimitada curiosidade no indivíduo e a percepção técnica dos profissionais envolvidos na espetacular produção (de Cinthia Graber). Se “Vênus em Visom” abrange precipuamente a dominação do homem pela mulher/mulher pelo homem, nós, espectadores, somos vítimas potenciais de modo concomitante dos sexos masculino e feminino, porquanto Pierre Baitelli e Bárbara Paz nos “dominam” do introito ao epílogo. Aproximando-se do término, contudo, somos “alforriados” por um Pierre “São Sebastião” e uma Bárbara “Poderosa Afrodite”. E brindados com som rascante de Lou Reed. Afirmo e reafirmo o que dissera sem ambivalências nem tampouco ambiguidades.
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Niko (Thiago Fragoso) é um profissional bem-sucedido, bonito, sensível e homossexual assumido. Mantinha uma união estável e feliz com Eron (Marcello Antony), um profissional bem-sucedido, bonito, sensível e homossexual mal resolvido. Desejavam constituir família. Recorreram à técnica da reprodução assistida a fim de que tivessem um filho. Todavia, as “barrigas solidárias” que a eles se apresentaram não os satisfizeram. “Solidárias” é tão somente um adjetivo plural simpático que deram para um procedimento que, em não poucos casos, envolve dinheiro alto. A até então amiga Amarylis (Danielle Winits), uma dermatologista do Hospital San Magno, que oferece aos seus pacientes hidradantes perfeitos para peles ressecadas, disponibiliza o seu ventre para gestar rebento do casal. Não exigiu nada. Porém, a todo o instante demonstrou veleidade de ser mãe, o que, de certo modo, já colocaria a situação pós-parto sob risco, no que tange a aspectos afetivos. Niko e Eron decidem de comum acordo doar cada um cota de material reprodutivo, com a condição de que nunca soubessem quem seria o pai biológico da criança. Amarylis sempre cultivou intenções escusas, haja vista que se ressentia intermitente pelo fato de não usufruir da maternidade. Aproveitou-se das ingenuidade e carência paternal de companheiros gays em casamento estruturado para saciar desejo íntimo. As tentativas de fertilização se mostraram infrutíferas. A médica, cujos cílios são “acusados” de postiços pelo mais novo vendedor de hot dogs da 25 de Março Félix (Mateus Solano), dá derradeiro golpe. Seduz o inseguro advogado, e o faz cometer adultério. A gravidez se consuma. Eis que surge “Império da Mentira”. Amarylis é o tipo de pessoa que entra nas vidas alheias com único propósito de destruí-las em causa própria. O que se sabe até então é que provável Fabrício, o bebê que nascera, não é filho legítimo da dupla de doutores, e sim fruto de bem realizada inseminação. A personagem de Danielle Winits assume com potente evidência o posto de vilã do núcleo. A loira (que revelou sua porção homofóbica) não poupou esforços para derribar, devastar relacionamento homoafetivo inacreditavelmente aceito pelo público (digo isso porque alguns pares românticos do sexo feminino foram banidos de enredos de folhetins por rejeição dos telespectadores). O que não se pode deixar de falar, dentro deste contexto, é que Niko e Eron, preocupados em não poder ter filhos como queriam, entraram com um pedido de adoção de um menino afrodescendente e crescido, Jaiminho (Kayky Gonzaga). Jaiminho, é duro afirmar, encontraria sérias dificuldades em ser adotado, pois percentagem considerável de potenciais pais se esquece de que vive num país com 50,7% de negros e pardos declarados (dados da Secretaria da Igualdade Racial e IBGE de 2013), e se julga habitante de nação europeia, dando prevalência a crianças brancas com olhos azuis para chamarem de suas. Não que estas não mereçam e devam ser também adotadas, simplesmente percebe-se distorção cultural e discriminatória. O carioca Thiago Fragoso, um jovem com larga experiência que iniciou sua trajetória nos palcos ainda infante no musical “Os Sinos da Candelária”, e que em momento algum deixara de se aperfeiçoar como artista, buscando lições de bons representantes do teatro como Amir Haddad, Juliana Carneiro da Cunha e Luis Melo, e feito inúmeros cursos de aprimoramento, inclusive no exterior, o que o levou a adquirir relevantes e indispensáveis aprendizados de interpretação, movimentos de corpo e colocação de voz, além da dança e canto, como o Niko de “Amor à Vida”, novela de Walcyr Carrasco exibida às 21h pela Rede Globo, um personagem “acima da lei”, amealha merecido destaque tomando-se por base as intensidade, honestidade e emoção com que vem burilando o seu papel. O ator, que contribuiu para que duas produções em que fora protagonista (“O Astro”, remake de Alcides Nogueira e Geraldo Carneiro da obra original de Janete Clair e “Lado a Lado”, de João Ximenes Braga e Claudia Lage) obtivessem o “Emmy Internacional de Melhor Novela”, ganhou a oportunidade do autor atual de ostentar distinta faceta do chef chamado de “carneirinho” pelo principal antagonista da trama, Félix, e que possivelmente poderá se redimir graças aos carinho, compreensão e atenção de que tanto necessita oferecidos por aquele. Com as maldades calculadas de Amarylis e a passividade de Eron, Niko vem revelando enormes forças na personalidade, determinação e percepção aguçada, e por fim, uma virilidade que talvez não se veja em muitos “homens”. Ardis como a super avaliação do imóvel cuja parte comprou, a traição em si e a perda da guarda provisória de Jaiminho o tornaram oponente não fácil de lutar. Assim, Thiago, que estreou nos cinemas em “A Partilha”, de Miguel Falabella e dublou filmes, como a animação “Ratatouille” e “A Origem dos Guardiões”, e surgiu na TV na série “Confissões de Adolescente”, emendando com “Malhação”, confirma a sua excelência como intérprete. Fragoso possui incontáveis participações nos veículos audiovisuais e teatro. Telenovelas como “Laços de Família”, “Perdidos de Amor”, “O Clone” (surpreendeu a todos como o dependente químico Nando, a ponto de receber o Prêmio Austregésilo de Athayde), “Agora É Que São Elas” (em que viveu um vilão), “Senhora do Destino” e “Araguaia”. Foi o Príncipe Rabicó do “Sítio do Pica-Pau Amarelo”. Brilhou na minissérie “A Casa das Sete Mulheres” e emocionou como Pery Ribeiro em “Dalva e Herivelto, Uma Canção de Amor”. Envolveu-se nos dilemas e conflitos espíritas de Marcos na segunda versão de “O Profeta”, de Duca Rachid e Thelma Guedes, que se inspiraram em Ivani Ribeiro. No seriado “Sexo Frágil”, dentre tantos dos quais participou, somando-se a humorísticos e especial, travestiu-se e se assemelhou a uma diva hollywoodiana. Jamais preteriu a ribalta, e reverenciou nomes como Shakespeare (“Romeu e Julieta”), Nelson Rodrigues (“Beijo no Asfalto”), Frank Wedekind (“O Despertar da Primavera”), Tom Stoppard (“Rock N’ Roll”), Sam Shepard (“Mente Mentira) e Jandira Martini e Marcos Caruso (“Sua Excelência, O Candidato”). Câmeras cinematográficas o focaram em “Xuxa e os Duendes – No Caminho das Fadas”, “Um Show de Verão”, “Trair e Coçar É Só Começar”, “Irma Vap – O Retorno”, “Caixa Dois” e “Ouro Negro – A Saga do Petróleo Brasileiro”. E no segmento da música, gravou um clipe com nova versão de faixa da trilha sonora de “High School Musical 2”. Thiago Fragoso, ao personificar Niko em “Amor à Vida”, não somente dá um importante passo em sua história, mas colabora de forma excelsa para que se dirima com sucesso, no todo ou em parte, alguns nefandos preconceitos que se arraigaram em conscientes coletivos. Se Niko é um chef de restaurante, e quer apenas ser um chefe de família, Thiago Fragoso é, sem dúvida, “chefe da sua interpretação”.
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A despeito de já ter participado da minissérie “Lara Com Z”, de Aguinaldo Silva, e que foi ao ar pela Rede Globo em abril de 2011, podemos considerar “Amor à Vida”, novela das 21h da mesma emissora, escrita por Walcyr Carrasco, como a legítima e popular estreia de Maria Casadevall na televisão, em que interpreta com enormes empatia e elegância a funcionária administrativa do Hospital San Magno, Patrícia. Engana-se quem imagina que Maria começou a se familiarizar com as câmeras por agora. Já na adolescência, fez sua primeira campanha publicitária, fato que a despertou para a possibilidade de seguir a carreira artística. Mais adiante, não pensou duas vezes, e procurou o diretor Fernando Leal, que lhe passou os ensinamentos precípuos de atuação tanto na TV quanto no cinema. Casadevall não parou por aí. Recorreu a cursos ministrados na Escola de Atores Wolf Maya. E em momento algum “fugiu dos ruídos de seus passos nos palcos”, dizendo os textos de Bernard-Marie Koltès (“Roberto Zucco”, a última peça do autor), Ivam Cabral e Rodolfo García Vazquez (“Hipóteses para o Amor e a Verdade”), além da criação coletiva “A Nossa Gata Preta e Branca”. Os dois últimos espetáculos foram encenados pela renomada Cia. Os Satyros. No que concerne ao folhetim de Walcyr, se antes Patrícia, com seu corte Chanel com franjas bem cortadas, atendia aos ditames convencionais da sociedade ao se casar com o investidor que aposta em ações erradas, Guto (Márcio Garcia), e que vê sua lua de mel transformada em “lua de fel” ao se perceber traída por loira “turbinada”, no presente a fiel e conselheira amiga de Pê/Perséfone (Fabiana Karla) adota postura “avant-garde”, moderna, independente, descompromissada e desprovida de vãs preocupações com o que a coletividade irá deduzir ao seu respeito. Houve mudança consistente na vida pessoal ao conhecer o endocrinologista Dr. Michel (Caio Castro), um atraente mancebo que aprecia Laurentino Gomes e seu best-seller “1889”. A princípio, fica-nos árido definir que tipo de relação é mantida pela dupla: pode ser irrefreável paixão; uma espécie de “body heat”, sem William Hurt e Kathleen Turner; ou quem sabe um “fragmentos de um discurso amoroso” posto em prática com muitas faíscas. Não existia consideração de ambas as partes acerca de local apropriado para toques suaves ou abruptos de lábios úmidos e consumação de desejos proibitivos para os puritanos a postos. Se para Alain Delon, o “sol já foi testemunha”, a sala de repouso dos médicos, a sala do próprio Michel, provadores de lojas e elevadores cujos únicos botões cabíveis eram o “stop” também ocuparam esta função “voyeur”. A química entre Maria Casadevall e Caio Castro superou todas as expectativas, e o público “embarcou” junto. Porém, como nada é perfeito para um par romântico de novela, obedecendo às regras da teledramaturgia e não às exceções, surgiram imponentes obstáculos. Michel é casado com a dedicada e respeitável advogada Dra. Silvia (Carol Castro). E Guto, o “ex” com a autoestima sempre elevada e que não dispensa de seu vocabulário o vocativo “Gata”, está de volta, aboletando-se na casa de Pat. Um improvável quarteto se forma. Vale lembrar que a jovem que decora seu apartamento com pôster de “Jules et Jim”, de Truffaut, mostrou-se sensível e solidária com a companheira de seu amado, que se viu na iminência de ter símbolo vital para o ser feminino sofrer adulteração devido à enfermidade. Patrícia é nobre ser humano. Abre mão de Michel. Após a recuperação da causídica (um relevante serviço social prestado pelo autor Walcyr Carrasco), o jogo muda. E peças de tabuleiro são trocadas literalmente. O médico que estima fazer visitas surpresas com buquê de flores defronte à região “objeto de estudo de Freud” não logra conter seus impulsos, tampouco quem procura, Patrícia. A “fila anda”, e o “homem da Bolsa” se envolve com a “mulher dos Códigos”. Perséfone e Daniel (Rodrigo Andrade) se tornam álibis involuntários para os “encontros às escuras” que se sucedem. Desculpas, mentiras e invencionices se incorporam aos colóquios dos quatro. Tardes e noites “apimentadas” no mesmo motel (!) são rotina em esquema de revezamento de “suíte master luxo” e champanhe francês para os casais em questão. Parece-me que Walcyr quis dar tom de “comédia de erros” à situação. Provável que o “flagra” geral que se espera tangenciará os drama e humor. Verdade é que Maria Casadevall se firma como atriz com potencial explícito para se manter no veículo, levando-se em conta a maneira carismática com que vem conduzindo o seu papel, irrepreensível domínio de cena, voz e acento sedutores, incontestes beleza e simpatia, e propensão adequada de absorver com coerência e entendimento o papel que lhe foi ofertado. Patrícia ou Pat continuará bela, descolada, antenada e inteligente. Agora, se quisermos encontrá-la na Liberdade comprando quimonos ou jogando sinuca, não tem jeito, é só dar uma passadinha por lá.
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Foto: Divulgação TV Globo/Alex CarvalhoUma das personagens que desde o início da trama das 21h da Rede Globo, escrita por Walcyr Carrasco, “Amor à Vida”, tem despertado uma atenção especial do público pelas importantes questões nas quais está inserida (virgindade, ditadura da beleza, obesidade, dietas radicais sem orientação médica e “bullying”) é Perséfone, interpretada com doçura ímpar, emoção, talento e dosagens calculadas de humor e drama que os tornam equânimes, pela recifense que se iniciou na profissão artística na adolescência, Fabiana Karla. Um time seleto de atrizes é como Fabiana, que detém plena dominação sobre aqueles dois gêneros teledramatúrgicos, o que inevitavelmente a faz imprimir à enfermeira do Hospital San Magno credibilidade, provocando-nos comoção. Perséfone, cujo nome se origina na mitologia grega, e significa deusa das ervas, flores, frutos e perfumes, passou por “poucas e boas” até perder a virgindade com “dignidade”, como ela insistia que o fosse. Sua busca ensandecida de não mais ser virgem em uma noite de amor, causou-lhe série de infortúnios envolvendo um colega de trabalho sadomasoquista, o auxiliar de enfermagem Ivan (Adriano Toloza), um entregador de pizza afoito e explorador, assaltantes (dentre eles, o ator Paulo Lessa) que fizeram a “limpa” em seu “apê”, e um garoto de programa contratado pelos “amigos de plantão” Michel e Patrícia (Caio Castro e Maria Casadevall, respectivamente). Todavia, a “ajuda” acaba sendo um “tiro n’água”. Muitos não escaparam de seu aflito assédio: o psicólogo Dr. Renan (Álamo Facó), o funcionário da lanchonete do hospital Valentin (Marcelo Schmidt), o fisioterapeuta Daniel (Rodrigo Andrade) e o Dr. Vanderlei (Marcelo Argenta), especialista em reprodução assistida. E no meio de todo esse processo, sofreu e ainda sofre um dos mais cruéis “bullying” da atualidade, ou seja, o que se baseia na dubitável e perigosa ditadura da beleza. O seu sobrepeso (fato que não diminui de modo algum a graça, o charme e o poder de sedução de um ser feminino com face bonita) serviu de motivação para piadas e chistes desprovidos de quaisquer resquícios de graça. Inclusive um de seus costumeiros “algozes” foi um endocrinologista, o já citado Dr. Michel. Absurdo. Os apelidos e chacotas que lhe foram lançados só reafirmam o que já sabíamos de antemão: o homem se apraz em exibir sem vergonha sua porção má, que vem num “pacote de preconceitos”. Daniel, cansado das “peguetes”, começa a enxergar Perséfone com outros olhos. Ignora sua forma física, dando o real valor aos caráter e capacidade de amar. Decide então “engatar” um romance que acaba em casamento com a mulher que gosta de se referir aos rapazes formosos de “boy magia”. Entretanto, com a reprovação injustificada da família e companheiros de serviço, o irmão solidário de Linda (Bruna Linzmeyer) não se mostra solidário consigo mesmo nem tampouco com Perséfone. A tibieza de Daniel é evidenciada nas sucessivas cobranças de que sua cônjuge emagreça não por razões de saúde e sim para agradar à sociedade “perfeita”, e se adaptar aos seus padrões “carrascos” (sem trocadilhos). A meiga morena que emprestou seu apartamento para noitadas “calientes” da amiga confidente Patrícia, e que definiu sua lua de mel como “lua de pimenta”, devido ao prazer sexual nunca sentido, percebe-se triste e frustrada, e se entrega sem lógica a dietas estrambóticas. Seu belo sorriso está se fechando aos poucos, com os lábios ainda lambuzados das melancias que degustara. Uma Magali de Maurício de Sousa vestida de rosa claro. A autoestima “despenca”. A saúde cambaleia. Precisa ouvir urgente de outrem: – Perséfone, você é bonita. Com o gradativo afastamento e indiferença do marido que reabilita pacientes, mas não “reabilita” seus princípios, parece-nos que amor legítimo “surgiu no jaleco alvo” do Dr. Vanderlei, que também diz ser vítima de “bullying”, graças à sua avantajada estatura. Um exemplo é que o alcunham de “coqueirão”. Vanderlei oferece afeto, compreensão e clareza dos acontecimentos à mente aturdida e confusa da jovem. A Perséfone de Fabiana Karla, que estreou na TV como Célia, no folhetim de Manoel Carlos, “Mulheres Apaixonadas”, finalmente nos indica ter encontrado o seu verdadeiro “boy magia”. No que alude à trajetória da artista, possui bem-sucedida carreira tanto na televisão quanto no teatro e cinema. Além das participações nos seriados “A Grande Família” e “Linha Direta”, na emissora carioca, pertence ao elenco fixo do humorístico “Zorra Total” desde 2004, no qual destacamos Dilmaquinista e Luzicreide. O retorno aos folhetins veio de quem justo lhe deu Perséfone, Walcyr Carrasco. O autor a presenteou com a divertida Olga Bastos do “remake” de “Gabriela”. O cinema não lhe deu as costas, e Karla frequentou estúdios e locações de filmagem nos longas “Trair E Coçar É Só Começar”, de Moacyr Góes, “A Máquina”, de João Falcão, “Xuxa Gêmeas”, de Jorge Fernando, “O Palhaço”, de Selton Mello e “Casa da Mãe Joana 2”, de Hugo Carvana. Nos palcos, depois de infantis, conquistou a crítica com o espetáculo de Neil Labute, “Gorda”. Não deixou a música de lado, e colocou a voz numa das faixas de um álbum da dupla Kleiton e Kledir, e parodiou a cantora americana Katy Perry, como Adiposa Perry, no vídeo criado pelo grupo de humor Galo Frito, cuja canção foi o êxito comercial “California Gurls”. Com o final de “Amor à Vida” chegando, levantamos convictos bandeiras de torcida para que as magias se encontrem. A magia do “boy” e a magia da “girl”, e se forme um “casal magia”. E só para terminar, eu gostaria de lhe dizer algo, Perséfone: – Você é bonita.
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O autor Walcyr Carrasco tem se empenhado no combate ao preconceito, nas mais variadas esferas, em sua novela, exibida às 21h na Rede Globo, “Amor à Vida”. Homossexualismo, adoção de uma criança crescida e afrodescendente por um casal gay masculino bem-sucedido economicamente, “bullying” contra mulheres acima do peso, amor e sexo na outrora chamada “terceira idade” (também denominada “a melhor idade”) e o autismo (transtorno cujos sintomas são a deficiência intelectual e dificuldades de linguagem e comportamento, segundo estudiosos). No Brasil, há cerca de 1,1 milhão de autistas, o que corresponde em média a 1% da população. Na Região Sudeste, são quase 500 mil. Há déficit de instituições especializadas no tratamento desta “condição especial” estimado em 40 mil. Há pouco mais de uma semana, foi revelado pela comunidade científica que quanto mais cedo o distúrbio for diagnosticado (antes dos 3 anos de idade seria o ideal; hoje, costuma-se fazê-lo por volta dos 5), as chances de diminuição dos sintomas chegariam próximo aos 80%. Uma excelente notícia para pais, amigos e familiares que convivem com esta realidade. E a personagem Linda, interpretada com delicadeza e verdade pela catarinense de apenas 21 anos, Bruna Linzmeyer, que começou a carreira bastante cedo como modelo, tem comovido assaz o público. A beleza arrebatadora de Bruna, associada ao seu talento, olhos azuis entorpecentes, voz doce e maviosa, corpo e rosto de menina contribuem sobremaneira para que prestemos maior atenção na situação “diferente” da moça. A atriz, que estreou na televisão no seriado de Luiz Fernando Carvalho, “Afinal, O Que Querem as Mulheres?” (foi indicada ao Prêmio Contigo! de “Melhor Revelação da TV”), emendando com o folhetim de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, “Insensato Coração”, como Leila, angaria a seu favor uma direção sensível capitaneada por Mauro Mendonça Filho, um afinado elenco do seu núcleo, o caprichado texto de Walcyr, é claro, e uma belíssima canção, ” The Perfect Life”, de Moby e Wayne Coyne a embalar seus momentos. Porém, a história de Linda ganhou contornos mais emocionantes com a chegada do personagem do brasiliense Rainer Cadete, como o sério e dedicado advogado Dr. Rafael. Rainer exibe atuação firme, convincente, cativante e carregada de sensibilidade. Formado pela CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), no Rio de Janeiro, o ator detém larga experiência teatral (peças como “Os Campeões” de Lygia Fagundes Telles e “Doroteia”, de Nelson Rodrigues, e o musical infantil “Zé Vagão da Roda Fina e sua Mãe Leopoldina”, de Silvia Orthof, constam de seu currículo) e um sem número de participações em distintas emissoras, como TV Futura (“Escola Prevenia”), Multishow (“De Cabelo em Pé”) e Rede Globo (“Caras & Bocas” – indicação ao Prêmio Contigo! como Ator Revelação; “Cama de Gato” e “Os Caras de Pau”). Está em cartaz com o filme de Halder Gomes, “Cine Holliúdy” (além disso, neste ano, esteve por trás do projeto, realizado no Distrito Federal, “Centenário de Vinicius de Morais”, em que foram convidadas Maria Gadú e Ellen Oléria). Voltando então a “Amor à Vida”, se Linda possui ao seu redor a mãe com superproteção deletéria, Neide (Sandra Corveloni), os pai Amadeu e irmão Daniel (Genézio de Barros e Rodrigo Andrade, respectivamente) com suas preocupação, paciência e solidariedade, a maldade deliberada e inacreditável da irmã Leila (Fernanda Machado), passou a se ver num repente agraciada com a presença constante do amor honesto sem discriminações do causídico de sorriso carismático, que veste elegantes terno e gravata, Rafael. As mãos de um e de outro parecem se conhecer há tempos. Suas palmas se juntam numa só. Seus dedos puros se cruzam, entrelaçam-se. Toques suaves em faces mútuas. Uma descoberta atrás da outra. Linda sente os pelos da barba semicerrada do rapaz e não se incomoda. Os dois comem pétalas de rosa vermelha. O sabor da flor. Uma gigante bola azul os une ainda mais. O “pilates” do amor imaculado. Olhos que se “enfrentam”, e um carinho sem medidas é trocado. Poucas palavras são ditas, contudo muito se diz. As tintas servem para dar cor ao “P&B” de vidas nossas. Rostos harmoniosos viram telas de pintura. Rosa “tatuada” no papel. Balas coloridas adoçam as existências. Um besouro, uma joaninha “torcem” por eles. A ideia de Walcyr Carrasco de aproximar a dupla foi brilhante e empática, demovendo qualquer possibilidade de reprovação de outrem. Um mérito para os intérpretes. Finalizando com Bruna, a artista repetiu a parceria com Michel Melamed, iniciada com “Afinal, O Que Querem as Mulheres?”, em dois espetáculos da autoria daquele, “Seewatchlook” e “Adeus à Carne”. Foi uma das “brasileiras” no episódio “A Vidente de Diamantina”, além da Anabela do “remake” de “Gabriela”, do mesmo Walcyr. Bruna Linzmeyer e Rainer Cadete impingem razão e sensibilidade a “Amor à Vida”. Sim, razão, por que não? A razão de transformar a visão, por vezes deturpada dos telespectadores do que seja o autismo, iniciando um processo sadio de reavaliação. Os autistas devem ser amados e compreendidos incondicionalmente. Dr. Rafael já sabe. E alguns outros. Vamos tentar? Linda gosta…
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Foto: Divulgação do espetáculoNo Boulevard Montparnasse, havia um café. No meio do café, ao som de “Vouz qui Passez Sanz me Voir”, dois jovens turistas, vítimas do acaso e/ou destino, encontram-se, e acreditam ser cada um deles “o amor de suas vidas”. Ela (Françoise Forton), ex-professora de Francês “audiovisual”, brasileira, de passagem por onde as luzes jamais se apagam. Ele (Aloisio de Abreu), brasileiro, resolveu conhecer o país da Nouvelle Vague por meio de uma excursão, na qual, segundo Ela, o rapaz deveria optar por visitar apenas o Louvre, ou o Arco do Triunfo ou a Torre Eiffel. Ainda sobre o rapaz, este prefere degustar um Beaujolais pela manhã, ao contrário dela, que estima uma xícara de chá. Ambos possuem algo em comum: a paixão avassaladora e convicta pelos grandes cantores franceses, inclusive Jean Sablon. O moço decide então cortejá-la no idioma local, e é “desmascarado” não somente pela brasilidade e respectivo acento, mas por “traiçoeiro” maço de Hollywood. Numa troca constante de informações e referências sobre a cidade em que estudantes num maio de 68 fizeram valer suas potentes vozes, o par tenta se aproximar, porém o beijo tão esperado jamais se consuma. Polanski, e um de seus sucessos, “Lua de Fel”, com Emmanuelle Seigner, é lembrado pela mulher de bonitos cabelos ruivos. A citação do longa-metragem não é a forma mais adequada para se tentar iniciar um romance, pois aquele trata da dominação masculina pela feminina. Entre o rosário de conversas e monólogos, Françoise e Aloisio interpretam lindamente o que há de melhor no romantismo do cancioneiro francês do século XX, como Edith Piaf (“La vie en rose”), Charles Aznavour, Juliette Gréco, o já citado Jean Sablon, Charles Trenét (“La Mer”), Françoise Hardy e Silvie Vartan. Nossos ouvidos são afagados com “C’est Si Bon”, “Je ne regrette rien” e uma inspirada versão de “Garota de Ipanema”. Nos muitos minutos de colóquio fala-se que Paris potencialmente é “a cidade das despedidas”, fato comprovado por antológicos filmes, como “O Último Tango em Paris”, de Bertolucci, “O Último Metrô”, de Truffaut, e “A Última Vez Que Vi Paris”, de Richard Brooks. Ela, com sua “clutch”, e ele, com sua negra mochila, partem. Seus rumos são retomados no Brasil, terra também onde a música se faz soberana. Ele se torna jornalista de um site de fofocas, casa-se, e para sua estupefação, com uma companheira que chama Yves Montand de “chato”. A separação lhe fora inevitável. Ela viveu por quase duas décadas com o mesmo homem, teve filhos, e ao vê-los crescidos e encaminhados, e após a morte do marido que saboreou literalmente pela última vez um “boeuf bourguignon”, fenecendo com rosto enfiado no clássico prato da “haute cuisine”, retorna a Paris. Ele faz o mesmo. E reencontram-se no velho Café Paris 6, em Montparnasse. Algo mudou, como poucos fios de cabelo que se perderam e centímetros que “escapuliram”. O principal resistiu ao tempo: o amor. No sensível e bem-humorado texto do jornalista e dramaturgo Artur Xexéo, “Nós Sempre Teremos Paris” (inspiração na célebre frase da cena derradeira do marco cinematográfico de Michael Curtiz, lançado em 1942, “Casablanca”), com direção da experiente e respeitada Jacqueline Laurence, e produção de Eduardo Barata, percebe-se a demonstração sem pudores, às escâncaras, do compreensível fascínio do autor pelas melodias francesas, e o mesmo quis, realizando com plena satisfação, transformá-lo em linguagem cênica atraente. Não coincidentemente, creio, duas profissionais com ascendência (Françoise Forton) e nacionalidade, porém naturalizada brasileira (Jacqueline Laurence), francesas, foram com acerto convocadas para a obra, o que de certo modo confere uma familiaridade ao espetáculo. Jacqueline toma para si a mesma sensibilidade com que Artur escreveu o texto, e enfoca a direção com notório caráter objetivo na habilidade irrefutável dos atores de entoarem as belas canções (preparação vocal de Danillo Timm), com a direção musical de Marcelo Nogueira e a assistência de direção musical de Camila Dias. A diretora “extrai” o que de melhor os intérpretes podem nos oferecer, seja na clara aptidão para vivenciar momentos mais intimistas seja na facilidade com que lidam com o humor e com a bem-vinda interação com o público. Não foram raras as vezes em que a plateia cantou junto com os artistas, dando explícita resposta de que “embarcaram” na peça, ao ponto de, ao final, “exigirem” um bis, prontamente atendido. Françoise Forton e Aloisio de Abreu cumprem com elegância e convencem de modo espontâneo ao assumirem seus papéis, recebendo de imediato uma aceitação empática dos espectadores. A cenografia de Massimo Esposita não se exime de buscar o enxuto, o exato, o básico, sem contudo abjurar dos elementos que bem resumam a ambiência parisiense, na recriação de um típico café com duas pequenas mesas circulares, somadas a cadeiras de madeira, e uma placa superior com o nome do estabelecimento. Seríamos injustos se não mencionássemos a presença indispensável, e que dá relevância extra à produção, de músicos tocando ao vivo instrumentos como violão (Roberto de Brito) e piano e acordeom (Priscila Azevedo). Os figurinos de Valéria Stefani priorizam o charme e a sobriedade, fugindo do exagero ou extravagância. Françoise veste “trench coat” cru, um tubo preto, xale vermelho, acessórios e “scarpins”. Aloisio se apropria de terno de cor ocre, camisa clara, calça escura e sapatos. A iluminação de Adriana Ortiz procura alcançar, e atinge com êxito, um colorido que impinge vivacidade e alegria à encenação, fazendo jus ao aposto que Paris recebeu, “Cidade Luz”. O azul, o amarelo, o vermelho, o vermelho alaranjado, o rosa, o lilás e o indefectível branco “explanam” com eficiência a proposta sugerida por dramaturgo e diretora. “Nós Sempre Teremos Paris” reúne em um só tempo uma adorável nostalgia que se apega a um romantismo legítimo, um repertório selecionado com esmero e sabida coerência musical, jovialidade narrativa e entrega total com sobejo prazer da dupla de protagonistas. Amiúde se fala sobre os acontecimentos imprevisíveis e dos quais não se pode escapar da vida se utilizando da expressão “C’est la vie”. Como somos “irrésistiblement” atraídos por “Nós Sempre Teremos Paris”, só nos resta dizer: “C’est la théâtre!”.





