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Blog do Paulo Ruch

  • “Violentamente belo em sua estética corporal, ‘Tom na Fazenda’, com Armando Babaioff, Kelzy Ecard, Gustavo Vaz e Camila Nhary, revela ao público as fartas complexidade e contradição que envolvem as emoções humanas, passando, com sua riqueza dramatúrgica, por temas como intolerância, preconceito, homoafetividade e choque cultural.”

    agosto 10th, 2017

    Gustavo-Vaz-Armando-Babaioff-e-Kelzy-Ecard_Tom-na-Fazenda_Crédito-José-Limongi
    Foto: José Limongi

    Enquanto o público entra no teatro, os atores Kelzy Ecard e Gustavo Vaz, já imbuídos em seus personagens, a mãe Agatha e o filho Francis, vão de um lado ao outro da ribalta organizando o cenário. Kelzy e Gustavo reposicionam baldes pretos e sacos de areia, e os enfileiram ao fundo. Há terra e poeira suspensa no ar. Suas roupas rústicas estão manchadas com a lama dos pastos. Um enorme plástico preto é estendido sobre o tablado. Há um paralelo entre este trabalho dos intérpretes à vista dos espectadores, iniciando uma familiarização destes com o universo da peça, com a lida diária dos moradores da fazenda onde se desenrolará a ação. O espetáculo “Tom na Fazenda” (“Tom à la Ferme”, no original), uma das montagens mais incensadas e elogiadas do momento no Rio de Janeiro, com indicações aos principais prêmios da temporada, tem a sua dramaturgia assinada pelo laureado autor canadense Michel Marc Bouchard, sendo esta a primeira montagem de sua obra em solo brasileiro (a peça fora traduzida e encenada em diversos países, e sua estreia ocorreu em Montreal, Canadá, em 2011). O ator e produtor Armando Babaioff, que interpreta o próprio Tom, além de ter feito uma primorosa tradução, tomou conhecimento da história de Michel Marc através da adaptação cinematográfica de Xavier Dolan, a produção homônima franco-canadense lançada em 2013, protagonizada por Xavier. O entrecho realmente se inicia com a chegada do jovem designer gráfico de uma agência de publicidade, Tom, à fazenda dos familiares de seu namorado morto em um trágico acidente de moto, para participar dos atos cerimoniosos de seu funeral. Tom é um rapaz extremamente sofisticado e vaidoso, adepto de perfumes e roupas de grifes, que terá de enfrentar o mundo exponencialmente avesso ao qual está acostumado a frequentar. Ao chegar à fazenda, o primeiro de muitos choques. Seu namorado havia omitido de sua família o relacionamento homoafetivo que mantinha com ele. Passa, a partir daí, a se apresentar como apenas um amigo que fora prestar as suas últimas homenagens. Agatha, a mãe, recebe-o a princípio com grande entusiasmo, nutrindo pelo visitante uma crescente admiração e encantamento pelo seu jeito de ser. Face às circunstâncias, Tom, imerso em desorientações particulares, envereda-se por um caminho regado a mentiras convenientes, como a existência de uma amiga em comum, Helen/Sarah (Camila Nhary), que ocuparia a posição da namorada do moço falecido. As tensões começam a surgir com a entrada em cena do irmão de seu namorado, Francis. Francis é um homem rude, tosco, bruto, ameaçador e violento. O rapaz alto, branco e robusto se aproxima de Tom, reafirmando as suas características que o tornam uma pessoa com caráter temível. Num caminho sem volta, Tom, passivo diante da alternância de opressão daquela família, por vezes velada, por vezes assumida, passa a executar as obrigações cotidianas do isolado clã, como se vestir para a lida no campo, ordenhar vacas e fazer o parto de um bezerro. Essas “conquistas” o enchem de orgulho, e no caso do parto, de êxtase. Existe no núcleo familiar uma infelicidade nata não revelada, causada não somente pela morte de um de seus membros. O relacionamento entre Francis e Agatha parece alicerçado em aparências impositivas. Não são percebidos amor tampouco afeto entre a matriarca e seu filho. Aos poucos, confuso, afastando-se cada vez mais de seu habitat, com a lama e a sujeira da terra lhe deixando marcas simbólicas em suas vestes, o publicitário vai se distanciando de sua identidade original, cedendo ao cerco de seus involuntários anfitriões. A inevitável aproximação entre Tom e Francis adquire proporções imprevisíveis e incontornáveis. A repulsa do segundo pelo primeiro é dimensionada pela selvageria e truculência que o definem. Por trás da ojeriza do camponês pelo rapaz da cidade se esconde uma incontrolável atração física, que vai se evidenciando das mais diferentes formas. Seu comportamento se enquadra com congruência à conceituação de homofobia. Francis não vê possibilidades de aceitação da diferença, a despeito de seus fortes desejos por esta mesma diferença. A descoberta de suas vontades íntimas o impelem a agredir de modo assustador, verbal e fisicamente, o alvo de seus desejos carnais. Francis e Tom se digladiam como os cães ferozes caçadores de coelhos da fazenda. O balé brutal de seus corpos másculos, enlameados, encardidos e sujos possui uma coreografia truculenta de braços que se socam e se esfregam, pernas que se debatem e se cruzam, urros de ódio, dor e estranho prazer, e rostos de ódio, dor e estranho prazer. As constantes brigas físicas de Francis e Tom são o que de mais próximo podem chegar de um “ato sexual e erógeno”. Porém, não só de cenas de pugilato explícito vivem os dois. Uma dança do casal ao som de uma canção latina com seus torsos juntos em movimentos compassados recrudesce a intimidade mútua. Essa relação conflituosa alimentada por desejos proibidos atinge limites perigosos, chegando a ultrapassá-los, o que se confirma pela barbárie da tortura perpetrada por Francis, com vieses sádicos e fetichistas, em Tom (em uma das cenas mais fortes e impactantes já vistas no teatro, o personagem de Armando Babaioff é suspenso de cabeça para baixo preso somente por cabos em suas pernas; surpreendem a coragem do intérprete, que ainda assim tem que dizer o seu texto, e a pujança física de Gustavo Vaz, responsável pela suspensão e manutenção de Armando, como a sua colocação gradativa no piso do palco). A chegada da suposta namorada do rapaz morto, Helen, na verdade Sarah, à fazenda proporciona uma série de desencontros de informações, solidificando sobremaneira a mentira defendida, provocando na até então crente Agatha amplas desconfianças. A esta altura, sabedor da condição de Tom com relação ao seu irmão, Francis, a fim de preservar a sua mãe da verdade incômoda, obriga o publicitário a sustentar a invenção com Helen, que se atrapalha com o seu inglês combinado. Estas passagens da peça possuem doses de comicidade pelo próprio contexto da situação. Os conflitos se acentuam progressivamente, sem que ninguém seja poupado. Segredos familiares e registros íntimos epistolares são desvendados, elevando a tensão a um patamar máximo. As vidas destes quatro personagens estão entrelaçadas a tal ponto que não há mais lugar para fugir. O fantasma da tragédia ronda aquele grupo em permanente ebulição, até que esta história que começou com uma mentira oportuna ruma para um desfecho verdadeiro e surpreendente. A dramaturgia de Michel Marc Bouchard consiste em um olhar aguçado sobre as relações humanas, levando-se em conta algumas especificidades que são em sua natureza universais. Michel não se ateve a um único conflito. Ao contrário, partiu de um desses, o principal (a presença do namorado no funeral de seu amado, sem que os seus familiares soubessem de sua existência e da orientação sexual do parente), para abordar, com a mesma propriedade, os demais, relativos a outros temas, como a homofobia (um assunto urgente e atual, com índices de sua prática cada vez mais crescentes e preocupantes), a intolerância, os relacionamentos familiares, os choques culturais (econômicos, sociais e de costumes), e até mesmo o consumismo elitista. Todos esses elementos foram alinhavados pelo dramaturgo com sobeja coerência e apelo ficcional, amparados em diálogos inteligentes, humor fino, emoção em distintos níveis e personagens consistentes. O diretor Rodrigo Portella (com quem Armando trabalhou em sua última peça, “O Que Você Mentir Eu Acredito”, em 2013) criou um espetáculo com arrebatador impacto visual, sob vários aspectos. Sua direção, pode-se afirmar, baseia-se em um importantíssimo trinômio: ator, palavra e corpo. Não há em sua montagem uma estética limpa, asséptica, e sim, o seu oposto. Seus atores chafurdam na lama, suas faces são cobertas por terra, suas roupas são manchadas, encardidas durante o processo de desenvolvimento da narrativa. Seus cabelos, em certo ponto, já estão esbranquiçados pela poeira presente e suspensa no ar daquela fazenda onde tudo acontece. Rodrigo, com inteligência cênica e elogiável noção do espaço de que dispunha, colocou os seus intérpretes em lutas/jogos corporais impressionantemente hiper-realistas. A lama, associada à violência dos homens que usam seus corpos como armas, transformou-se em um quadro cênico de extrema beleza. O encenador manteve sempre o seu elenco na ribalta. Mesmo que uma dupla estivesse em contracena, os outros se recolhiam, imóveis, nos cantos do palco. Extraiu de seus talentosos artistas o máximo de suas potencialidades dramáticas. Pincelou com irônico e fugaz humor alguns trechos da montagem. Alternou momentos de silêncio e absoluta tensão. A sexualidade e todos os seus desejos são sugeridos por meio de atalhos nada óbvios, podendo se mostrar, com a mesma força, na briga selvagem dos homens brutos, ou na paz sensual de uma dança ao acaso. Além de apostar no suspense e na imprevisibilidade dos fatos. O elenco se sobressai por sua notória coesão e absorção emocional das gamas infindas de conflitos pessoais e interpessoais por que passam. Armando Babaioff compôs com admiráveis delicadeza e sensibilidade o publicitário fragilizado pela morte de seu companheiro. Soube desenhar o perfil de seu papel com as características de sofisticação urbana que lhe são naturais. Com precisa capacidade, impinge a Tom as suas gradativas transformações emotivas. Passeia com desenvoltura pelo choque sofrido pelas diferenças e pelo imprevisto, e nos transmite com potência única suas reações de agressividade e passividade, além do desespero e da agonia. Gustavo Vaz nos impressiona de modo soberbo ao elaborar minuciosamente os traços definidores da personalidade de Francis, o homofóbico irmão do falecido. Com uma cuidadosa e suave modificação no acento de sua voz, com o intuito de nos direcionar ao ambiente rural, Gustavo não teme em construir com perturbadora veracidade a truculência, a estupidez, a rudeza e a ignorância preconceituosa daquele homem isolado do mundo moderno. Sua postura ora cruel e bárbara e a incerteza de seus passos seguintes nos atemorizam. Entretanto, em determinados instantes, oferta-nos uma graça bruta e uma linha tênue de sensibilidade de seu personagem que nos são inesperados. Kelzy Ecard tem a missão de percorrer, e o faz com a exuberância e a dignidade de sempre, as seguidas etapas de ações e reações emotivas de sua personagem, a matriarca Agatha. Kelzy, com o seu conhecido domínio interpretativo, ostenta-nos as variações de comportamento da mulher enlutada, da mulher efusiva com as chegadas dos supostos amigo e namorada do filho e da mulher magoada e ferida com os sentimentos de rejeição de seu outro descendente. Vimos desde uma Agatha hospitaleira e gentil até uma Agatha acometida pela indignação provocada pelos enredos inventados. Por sinal, tanto Gustavo quanto Kelzy encarnam com bastante verossimilhança e credibilidade os habitantes de uma localidade afastada, simples e com costumes peculiares, no caso, a fazenda. Camila Nhary, como Helen/Sarah, a potencial namorada do rapaz morto, desenvolveu o seu papel seguindo duas linhas de interpretação, que resultaram em grande acerto. Camila nos exibe distinta vocação para o tom cômico ao se fazer passar pela namorada que mistura o inglês e o português. Este momento do espetáculo garante ao público sensações de leveza face a um painel de ascendente tensão. A atriz, da mesma maneira, convence-nos com irretorquível veracidade o empenho, somado a um nível de assombro, de Helen/Sarah, perante a transformação comportamental de seu amigo Tom, e sua incapacidade de enxergar a realidade adversa que o cerca, de convencê-lo a voltar para a casa. A cenografia de Aurora dos Campos é crua, árida, seca e literalmente terrosa. Utilizando-se de baldes pretos (com mais de uma função), sacos de areia, tamboretes e um plástico preto sobre o piso do palco, Aurora evocou com êxito, logrando considerável impacto, a desolação daquele lugar inóspito o qual se torna o epicentro de toda a ação. A iluminação coube a Tomás Ribas. Tomás se vale com suprema percepção de vasta cartela de possibilidades com o propósito de realçar, atingindo-se tanto a beleza quanto a coerência, cada cena da montagem. A iluminação branda em tons de sépia ou levemente amarelada é prevalente. Uma luz quente tradicional dependurada no meio do tablado exerce relevante função cromática. Com pouco mais de uma dezena de refletores, vislumbramos um belo conjunto visual com focos individualizados, geometrias de luz, planos com maior intensidade luminosa e blecautes nos cantos da ribalta. O vermelho é usado em profusão em um específico momento da peça. Os figurinos de Bruno Perlatto transitaram com significativa fluência pela sofisticação e requinte dos trajes grifados de Tom ao chegar à fazenda, como calça justa e blazer com chemise, e sapatos refinados, todos pretos, à rusticidade, simplicidade e objetividade das vestimentas de Agatha, que usa uma sobreposição de casacos escuros, saia, meias grossas e sandálias (por vezes, galochas). Francis é visto com uma camisa clara listrada de botões, suspensórios, calças jeans e botas. E Helen/Sarah veste roupas de contexto fashion extremamente coloridas, como uma capa amarela sobre um vestido com aspecto de seda/cetim rosa, calçando botas de cano longo negras, além de acessórios extravagantes (as cores despertam a atenção de Agatha para o fato de que não está de luto). Durante a encenação, Tom passa a se trajar de acordo com os costumes locais, próprios para a lida. Marcello H. nos apresentou uma concepção sonora com elevada, rica e potente pesquisa de viabilidades de sons que nos remetem a universos estranhos, instigantes e em algumas ocasiões perturbadores e incômodos, como um ruído agudo intermitente que destaca o clima opressor e o suspense da peça. Porém, ao mesmo tempo, o conceituado músico nos embala com deliciosas canções ao ritmo da cumbia (estilo de música tradicional da Colômbia e Panamá), como a irresistível e dançante “Loca”, da banda chilena Chico Trojillo. A preparação corporal de Lu Brites é devastadoramente impactante e bela. Violenta, carnal, sexual e poética. As lutas de Tom e Francis, como caça e presa se alternando em suas posições, exalando seus humores e suores, misturados à lama e terra, com seus corpos escorregadios que se grudam e se soltam, são legítimos quadros cênicos de força erótica e sensual, sem resvalar em vulgaridades. E o modo como os personagens lidam com as atividades rotineiras de uma fazenda são de uma legitimidade elogiável. “Tom na Fazenda” nos traz a dramaturgia inédita de um autor, Michel Marc Bouchard, nascido em outro país, mas que fala para o mundo. Em nenhuma passagem da peça, há a referência onde a história se passa (em sua tradução), simplesmente porque ela é universal. Ao assistirmos a este espetáculo fazemos uma viagem pelos sentimentos que nos norteiam, o amor e os desejos, pelos fantasmas que nos assombram, como o preconceito, a intolerância e a resistência às diferenças. “Tom na Fazenda” é uma peça que fala sobretudo sobre a aceitação do amor. Não importa qual seja a sua origem. Não importa qual seja o seu rumo. “Tom na fazenda” fala sobre verdades e mentiras. Sobre as dores de uma e de outra. Todos nós somos um pouco Tom. Todos nós já visitamos a nossa fazenda.

  • “A nova série da Rede Globo, ‘Sob Pressão’, baseada no filme homônimo de Andrucha Waddington, com Julio Andrade e Marjorie Estiano, é um retrato visceral, realista e impactante da deplorável e desumana situação da saúde pública do Brasil.”

    julho 27th, 2017

    mauricio-fidalgo
    Foto: Mauricio Fidalgo/Gshow

    Há duas produções de cunho médico/hospitalar, ambas da Rede Globo, que logo me vêm à mente ao escrever sobre o primeiro episódio da série de Jorge Furtado, responsável por sua redação final, “Sob Pressão”, que estreou na noite de anteontem na Rede Globo: “Obrigado, Doutor”, de 1981, escrita por Walther Negrão, Walter George Durst, Roberto Freire, Moacyr Scliar, Ferreira Gullar e Ivan Ângelo, protagonizada por Francisco Cuoco e Nicette Bruno (na trama, o médico Rodrigo Junqueira, Francisco Cuoco, assumia uma clínica do interior do país, sem quaisquer recursos técnicos e equipamentos, tendo que se desdobrar para que não ficassem desassistidos os moradores da pobre região); e “Mulher”, série de Álvaro Ramos, Euclydes Marinho e Doc Comparato, exibida nos anos de 1998 e 1999, em que as médicas Marta, Eva Wilma, e Cristina, Patrícia Pillar, profissionais de gerações diferentes, dentro da clínica especializada no atendimento às mulheres na qual trabalham, veem-se diante de diversos dilemas éticos e da urgência de se salvar as vidas das pacientes que chegam em suas mãos. Evidente que as circunstâncias que envolvem o sistema público, e muitas vezes particular, de saúde no Brasil, de décadas passadas para cá, mudaram substancialmente, e para pior. “Sob Pressão”, inicialmente em formato de longa-metragem (e exibido na semana passada na própria Rede Globo), foi levado às telas de cinema em novembro de 2016, sob a direção de Andrucha Waddington. O filme foi inspirado no livro de Márcio Maranhão (em depoimento a Karla Monteiro) “Sob Pressão – A Rotina de Guerra de um Médico Brasileiro”. A série atual surgiu a partir de uma ideia original da diretora Mini Kerti, que coassina a direção com o mesmo Andrucha Waddington, cuja criação ficou a cargo de Luiz Noronha, Claudio Torres e Renato Fagundes. Sendo uma coprodução da Rede Globo com a Conspiração Filmes, “Sob Pressão” terá os seus episódios engendrados (incluído o primeiro) por uma equipe constituída por Lucas Paraizo, Antonio Prata e Márcio Alemão, além de Jorge Furtado. O primeiro episódio nos apresenta o cirurgião Evandro (Julio Andrade), que está defronte ao maior desafio médico de sua vida: operar a sua mulher Madalena (Natália Lage), que acaba de sofrer um grave acidente automobilístico. Evandro, por ser seu marido, devido a razões éticas, não pode operá-la. O diretor do hospital Samuel (Stepan Nercessian) deixa isso bem claro. Não há aparelho de ultrassonografia. O clínico geral Décio (Bruno Garcia) não está presente. Evandro, contrariando todas as normas de conduta médica de um hospital, decide operá-la. Seus hercúleos esforços em salvá-la, que lhe pede desculpas, são impactantes. Suas mãos firmes, porém já exausto e nos estertores do desespero, uma sobre a outra, sobre o peito da amada, executando movimentos bruscos de ressuscitação, são em vão. A mão desfalecida de sua esposa com o anel de casamento sem brilho indica o seu fim. Um ano se passa. No meio do caos estabelecido no hospital de subúrbio, Evandro passeia pelos corredores abarrotados de enfermos e feridos jogados em seus cantos. Há todos os tipos de pacientes misturados, sem qualquer critério ou seleção de gravidade. Há o que se feriu na perna, e que, através de um suborno, sugere o atendimento prioritário (Rodrigo Ferrarini). Há a senhora, Dona Dercy, Ângela Rabello, hipocondríaca, que apenas vai ao hospital falar de suas potenciais dores. Há o que deveria estar em uma instituição psiquiátrica (Jack Berraquero). E o S. Rivaldo (Emiliano Queiroz), que mesmo tendo que caminhar, não o faz, pois poderá perder a sua maca. Evandro, que nunca consegue comer, encontra a vendedora de sanduíches em uma das alas do centro hospitalar, Dona Noêmia, Ângela Leal. Surge uma emergência. Uma grávida de sete meses atropelada. Motivo do atropelamento: atravessou a rua mexendo em seu celular, com os fones nos ouvidos. Mais uma vez, o dilema ético entra em questão. Deveria a gestante ser levada para uma maternidade, mas não há tempo nem oxigênio. Salva-se a mãe ou o filho? Evandro quer salvar os dois. Face a esta situação urgente e delicadíssima, o cirurgião apela ao consumo de opiáceos, que lhe garantirão a “segurança” e o “equilíbrio” necessários para a cirurgia. O pai da criança, Vinícius de Oliveira, seu ex-marido, desconhece a gravidez. A mãe da grávida, Dona Rita, é interpretada por Mary Sheila. Evandro se dá muito bem com a cirurgiã vascular, Dra. Carolina, vivida por Marjorie Estiano. O ateísmo do primeiro e a religiosidade da segunda são um contraponto interessante na relação dos dois, que possuem em comum tragédias pessoais. A convivência entre eles e as experiências compartilhadas possivelmente os levarão para um caso amoroso, que servirá como elemento de respiro para uma série onde a palavra-chave “tensão” norteia o conjunto de acontecimentos. A operação se inicia. Não há “ultrassom”. Não há drenos para adultos. Só infantis. Percebe-se uma animosidade entre Evandro e o seu colega, o neurocirurgião Rafael (Tatsu Carvalho), talvez por diferenças hierárquicas. Qual é a saída para o cirurgião? Um pedaço de mangueira de jardim. No meio do arriscado procedimento, uma troca de olhares inevitável entre Evandro e Carolina. Os autores da série não preteriram o humor, e isto é bem-vindo, haja vista a carga dramática intensa que o tema da série carrega. Para alguns, pode soar até “politicamente incorreto”, mas não devemos nos esquecer de que se trata de ficção, e de que nos círculos hospitalares a brincadeira entre os médicos e equipe é fato corriqueiro. Evandro novamente não consegue se alimentar. Ocorre a segunda emergência do dia. Um rapaz, Bredi Pite (Dhonata Augusto), leva o seu irmão de 7 ou 8 anos, que está engasgado com uma bala, para ser socorrido. Dra. Carolina se encarrega de seu caso. Existe entre o personagem de Julio Andrade e o de Stepan Nercessian divergências quanto à política de atendimento do hospital. Evandro é humanista, e Samuel, prático. Tanto um quanto o outro tem as suas razões. Assuntos como o valor de uma vida perante as demais são colocados em xeque no debate dos médicos. A grávida Elaine (Priscilla Patrocínio) corre risco de morte. Faltam luz, bateria no equipamento, sangue e noradrenalina. Não há incubadora, tampouco UTI neonatal. O cantor e compositor Monarco, célebre sambista, personifica o paciente Antenor do Cavaco. Em estado terminal, prefere cantar e tomar uma cachaça ao sofrimento do tratamento (o cantor, inclusive, interpreta uma de suas músicas, “Deus, Dai-me Força e Coragem”). Num papo entre o fumante Evandro e a médica que tem fé Carolina, o cético cirurgião afirma que acima de nós só há… nuvens. Na conversa, descobre-se que o menino salvo com a bala presa em sua garganta é irmão de um “vapor”, traficante de drogas. Engolira na verdade um pequeno pacote com entorpecentes. Carolina corre para socorrê-lo. Não há colonoscópio, não há transiluminação por fibra ótica. Recorre-se à lanterna do celular novo do anestesista Amir (Orã Figueiredo). O menino é salvo. Evandro é um personagem polêmico, adepto de práticas condenáveis, como dopar um paciente corruptor em nome de uma boa causa (comprar noradrenalinas), ou ser capaz de dar o último gole de cachaça para S. Antenor, sabendo que isso anteciparia a sua morte. Quem vai saber? A grávida Elaine é operada. A incubadora de seu bebê Evandro (em homenagem ao cirurgião; Evandro quer dizer “homem bom”) é uma caixa de papelão. S. Antenor morre. Sem o gole de cachaça que o faria feliz. Evandro, há quatorze anos no hospital, marca com um canivete em um portal de madeira do vestiário quantas pessoas já morreram. Nunca parou para contar. Depois de tanta adrenalina, o casal Evandro e Carolina se beija, mas ele é fiel à sua esposa morta. Evandro e Carolina vão para as suas casas. Carolina ao se despir, deixa à mostra cicatrizes na região de sua cintura, revelando algo obscuro em seu passado.  Evandro vasculha o armário de sua mulher, retira um de seus vestidos, e o coloca na cama, deitando-se ao seu lado. Os fantasmas do passado separam Evandro e Carolina. O elenco fixo da série é excelente, contando ainda com Pablo Sanábio, como o residente Charles, Heloisa Jorge, como a enfermeira Jaqueline, e Talita Castro como a técnica de enfermagem Kelly. Os atores do primeiro episódio, em participações mais do que especiais, também mostraram o seu reconhecido valor. Julio Andrade nos passa toda a angústia e ansiedade de um médico determinado a salvar vidas, custe o que custar. Marjorie Estiano construiu uma profissional com a mesma determinação, porém com uma dose maior de equilíbrio e bom humor. Bruno Garcia, Orã Figueiredo e Tatsu Carvalho conferem aos seus personagens um tom de sobriedade bastante convincente com a proposta de seus perfis. Orã nos oferece em alguns momentos sua já conhecida verve cômica. Stepan Nercessian, com grande mérito, dosa o seu diretor com a severidade que o cargo impõe, além de uma certa leveza involuntariamente irônica, própria do ator. A direção de Andrucha Waddington e Mini Kerti é claramente influenciada por uma linguagem cinematográfica, pois ambos, como sabem, iniciaram suas bem-sucedidas carreiras no cinema. Muitos ângulos, tomadas e posicionamentos de câmera são experimentados. A condução das cenas segue um ritmo avassaladoramente frenético e emocionante. As cenas de cirurgia, que necessitaram de orientações profissionais, como a de Márcio Maranhão, o autor do livro, são de um realismo inacreditável. Estes takes são bastante fortes, não são para qualquer telespectador, mas foram realizados com visíveis cuidado e apuro. Os diretores de fotografia Fernando Young e Luca Cerri lograram traduzir com fidelidade máxima a luz ambiente fria hospitalar, utilizando-se outrossim com propriedade da luz natural nas locações externas. A direção de arte de Rafael Targat e os figurinos de Marcelo Pies são extremamente realistas e coerentes. A montagem alucinada e inteligente, com notória qualidade de execução, creditada a Sergio Mekler, é digna de fartos elogios. E a instigante, meticulosa e calculada trilha sonora de Antônio Pinto demarca com emoção e precisão cada cena na qual se exige a sua presença. Num país como o Brasil, em que a Saúde sempre fora colocada em um degrau inferior na escala das prerrogativas governamentais, seja nas esferas federal, estadual ou municipal. Numa nação onde se adulteram remédios para doenças graves em esquemas criminosos. Num país em que recursos da pasta da Saúde são desviados para fins espúrios. Num país no qual as emergências são fechadas, pacientes morrem nas filas de espera dos hospitais, médicos se recusam a atender às pessoas, inclusive crianças, e planos de saúde cobram valores extorsivos de seus conveniados com o aval do Estado, tornando-se um serviço para as elites, a série “Sob Pressão”, que exibe um grupo de médicos abnegados e heróis em busca do cumprimento de suas promessas de salvar vidas é no mínimo necessária e obrigatória para o telespectador brasileiro. Uma obra para ser vista, analisada, pensada e refletida, sem pressão. Ao contrário de nosso país, no qual a maior parte da população dorme e acorda sob uma implacável e constante pressão… de sobrevivência.

  • ” ‘Fauna’, de Romina Paula, tendo em seu elenco nomes como Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard, serve, dentre tantos atributos, como prova do estabelecimento da vocação natural de Erika Mader como diretora de uma nova geração da cena teatral, mostrando-nos um espetáculo tenso, instigante e visualmente belo. “

    julho 19th, 2017

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    Foto: Bruno Mello

    A ideia de se levar aos palcos nacionais a dramaturgia de uma autora latino-americana, a também atriz e diretora teatral argentina Romina Paula, já é por si só valorosa, pois nos permite conhecer um novo olhar cênico, diferente dos quais estamos acostumados a ver. E um novo olhar cênico vizinho, bem próximo de nós (há uma outra peça escrita por um dramaturgo argentino em cartaz no Rio de Janeiro, “Entonces Bailemos”, de Martín Flores Cárdenas). Muito bem traduzida aqui no Brasil por Hugo Mader, “Fauna” exerce um fascínio imediato sobre o público por sua abordagem aprofundada das relações humanas, de nossas próprias crises de identidade, de nossas fraquezas e supostas forças, das falsas aparências do indivíduo, da homoafetividade descoberta mesmo que tardiamente, e da frágil, invisível e temerária fronteira existente entre o real e o fictício em nossas vidas. Além disso, a montagem tem ao seu favor um elenco sólido e poderoso, consciente de seus personagens, e da história que está nos contando. A trama se concentra na busca de dois profissionais do cinema, o cineasta José Luís (Eduardo Moscovis) e a atriz Julia (Erika Mader), em transformar em filme os episódios que marcaram a mitificação de Fauna, uma misteriosa amazona. Para isso, o diretor e a intérprete, que mantêm um romance conturbado às escondidas, rumam para a terra onde viveu a intrigante e encantadora mulher que lhes serve de inspiração. Os conflitos de Luís e Julia não se restringem ao campo afetivo, estendendo-se às sua visões pessoais sobre o trabalho que realizarão. O primeiro sinal que temos acerca do embate entre o que é realidade e ficção se percebe quanto ao gênero no qual irá se inserir o filme em questão. Para José Luís, uma ficção. Para Julia, um retrato fiel de sua personagem, aproximando-se do documentário. Ao chegarem ao local, encontram um dos filhos de Fauna, Maria Luísa, interpretada por Kelzy Ecard. Luísa ostenta um comportamento pouco receptivo ao casal, enfrentando-o repetidas vezes com ares de malícia e sarcasmo, escorada em sua cultura literária e teatral (declama, assim como Julia no começo da peça, o poema de Rilke “Experiência da Morte”; refere-se a “A Vida é Sonho”, de Calderón de La Barca, e a Shakespeare). Enfileira uma série de versões sobre a trajetória de sua mãe, como os dois amores de sua vida, sendo um deles o seu pai. O primeiro, um velho senhor, que a introduziu ao “Círculo dos Poetas”, e depois a desprezou (Fauna travestia-se de homem, transformando-se em Fauno, pois não se permitia a entrada de mulheres no recinto). Surge em cena o seu irmão Santos (Erom Cordeiro), um rapaz selvagem, tosco, bruto e enigmático. Seus silêncios são perturbadores. Suas versões sobre a mãe Fauna se confrontam em alguns momentos com as de Luísa (o moço defende o fato de que sua mãe escrevia contos, ao passo que Maria afirma que a mesma lhes deixou diários). Carrega uma enorme culpa por não ter salvado de um ataque feroz de abelhas duas éguas que serviam a ele e ao seu amigo Pato. Santos nos deixa óbvio que prefere os animais aos homens. As filmagens são iniciadas, com a sua colaboração fundamental. À medida que o tempo passa, e as cenas são ensaiadas, observa-se um clima de tensão crescente no universo ao qual estão presos. Todos estão irremediavelmente ligados um ao outro, sem escapatórias. Suas verdades mais íntimas eclodem. Sentimentos escondidos se descortinam. As histórias de cada um se confundem. As opiniões divergem. Os duelos interpessoais se tornam constantes. Razão e delírio dividem o mesmo espaço. Esses indivíduos reunidos por uma causa comum descobrem que não sabem tanto de si mesmos. Tudo é revolvido, e aquilo em que se acreditava já não lhes provoca tanta fé. A fantasia (ou suposta fantasia) se revela um agente desagregador, seja por meio da realização do filme, seja pelas histórias narradas pelos irmãos, absorvidos por suas lembranças obsessivas de Fauna. A idolatria de Julia e dos filhos por este ser mítico ou “real” potencializou as guerras e pequenas tragédias individuais do distinto grupo. A dramaturgia de Romina Paula nos interessa por traçar com grande mérito o paralelo que há entre o que é real e o que é ficcional, o que é verdade e o que é ilusão, utilizando-se com bastante propriedade de um mito clássico como Fauna, para criar a sua atmosfera narrativa. Sua destreza como autora se evidencia ainda mais ao lançar mão da metalinguagem (atores interpretando personagens que interpretam outros personagens em um filme) como ferramenta de desenvolvimento de seu entrecho. Romina também é bastante feliz ao tratar de temas universais, com demasiada delicadeza e coerência, como a homoafetividade, tanto entre homens quanto entre mulheres. A despeito da densidade de sua trama, fica-nos claro que houve a intenção de pincelar com doses sutis de humor certas passagens de sua obra. Em “Fauna”, Romina Paula se debruça em pesquisar as complexidades comportamentais inerentes às pessoas, com todas as suas incertezas e ambiguidades, além de expor o enfrentamento inevitável que há onde existem diferenças, diferenças de visão, de pensamento, de formas de se enxergar a realidade e de se lidar com a vida e com as próprias vulnerabilidades, além das culturais. A direção de Erika Mader, que está em sua terceira empreitada (as primeiras foram “Sóbrios”, de Adam Rapp, e “Os Insones” (espetáculo adaptado do romance homônimo de Tony Bellotto) e Marcelo Grabowsky (diretor assistente da peça “Amor em Dois Atos”, de Pascal Rambert) prima pela movimentação quase permanente dos atores pela ribalta, realizada com estrita meticulosidade. Os vários espaços do tablado são explorados pelos seus intérpretes (com direito a uma cena de plateia), o que confere à encenação uma bem-vinda carga dinâmica. Os embates entre os personagens, verdadeiros “pugilatos orais”, formam inúmeras espécies de marcação, inclusive triangulares. Erika e Marcelo procuraram envolver a peça com um clima de absoluto mistério, valorizado pela presença intermitente de um fog. Os próprios atores ficaram responsáveis pelo deslocamento dos objetos cenográficos. Em muitas ocasiões, alguns deles fazem as vezes de espectadores da cena do outro. Os encenadores souberam com maestria extrair de seu ótimo elenco suas amplas potencialidades artísticas, e a dicotomia realidade/ficção é representada e traduzida com enorme eficiência pela dupla (Marcelo, claro, encarregou-se da direção da atriz Erika Mader). Há uma cena em particular que nos chama a atenção pelo seu impacto visual e interpretativo: José Luís e Santos, enquanto debatem, seguram sacos de plástico pretos, e vão, aos poucos, jogando feno pelo palco, espalhando-o e o chutando a fim de que todo o perímetro seja preenchido. As cenas de ensaio do filme nos causam curiosidade e admiração, principalmente para aqueles que se interessam pelo ofício do ator, e seus bastidores. Acredito que essas mesmas cenas tenham tido um sabor especial para o elenco. Este se sobressai com a sua potência natural interpretativa, sendo que cada um de seus atores acolhe com generosidade as características precípuas de seus personagens. Eduardo Moscovis se destaca ao construir, com sua modulada voz e porte de fidalgo, um José Luís a princípio ponderado, centrado, que aos poucos vai deixando escapar as suas evidências de fragilidade e dúvidas. Se no começo o cineasta se encontra bastante convicto de seus propósitos e objetivos, ao final o vemos vítima das circunstâncias que o fizeram se redescobrir quanto à sua identidade e desejos naquele lugar inóspito. Eduardo Moscovis trilha com brilho e segurança por todos esses atalhos emocionais. Erika Mader, segura em suas intenções e pretensões, da mesma forma, tem que atravessar uma estrada de distintas emoções até alcançar a linha de chegada de sua atriz Julia, após ter se deparado com diversas situações modificadoras de suas posições, pensamentos e potenciais certezas. Julia se apresenta para nós no início da peça com caráter determinado e incisivo, e em sua reta derradeira já a observamos com a ciência de suas mudanças pessoais e íntimas, que se refletem consequentemente nas atitudes tomadas. Erom Cordeiro, com impressionante maturidade, realiza a composição de Santos com todas as minúcias que o tornam um sujeito arredio, indestrinçável, sensual em sua selvageria natural e brutalidade nata. Santos gradativamente nos prova que, por trás da carcaça de dureza que o protege, esconde-se um homem com sensibilidade e vontades não lapidadas, que vão se mostrando à medida em que as contingências o obrigam a fazê-lo. Bruto e cercado por aura de enigmas, o personagem de Erom garante momentos de riso nas passagens dos ensaios do longa-metragem. Kelzy Ecard, como Maria Luísa, extravasa toda a sua pujança como artista ao conferir à sua personagem as camadas emotivas necessárias, com as doses certas de malícia e sarcasmo, atinentes à personalidade da filha de Fauna. Kelzy se utiliza com soberana destreza de sua voz com variadas entonações, e de sua eminente expressividade corporal. A atriz, assim como todos os integrantes desta história, percorre um caminho pleno em vias e possibilidades interpretativas, a fim de certificar a modificação pessoal de seu papel, exibindo em etapas detalhes de seu perfil até então desconhecidos. Renato Machado, tarimbado diretor de iluminação, produziu um trabalho irretocável. Em grande parte da obra, o que se vê é um plano suave com tons de sépia. Com quatro refletores suspensos ao fundo, dois em cada lateral, e dois, separados, um à esquerda e o outro à direita, mais à frente, Renato teve em suas mãos um extenso leque de escolhas estéticas. Há feixes enviesados, entrecruzados e frontais. Como alguns dos elementos do cenário são seis refletores de tripé, típicos de set de filmagens, a iluminação ganha mais pontos favoráveis com a utilização esperta, na melhor das acepções, destes recursos. Mais uma vez são os atores que os manuseiam, direcionando-os para os seus colegas (valorizando os seus rostos), que podem estar atuando na peça em si, ou para o filme em sua fase de ensaios. O belo e rústico cenário de Fernando Mello da Costa cumpre exemplarmente a sua função de reproduzir o local onde se “isolam” do mundo os filhos de Fauna. Por mais simples que nos pareça, a ideia dos fenos espalhados por toda a geometria do palco nos causa relevante impacto visual (no começo do espetáculo, um pequeno espaço aberto ao centro é mantido, porém, com o desenvolvimento da ação, o mesmo é preenchido). A fim de contextualizar o cenário, Fernando aposta na madeira de tamboretes e banqueta, além de um balde (os refletores de set de filmagens já foram citados). Os coerentes e bonitos figurinos são de responsabilidade de Antônio Guedes. O texto de Romina Paula lhe oferece a chance de se embrenhar em um universo rico de interpretações e representações, no que diz respeito a estampas, tecidos e acessórios. Antônio traduziu com a mesma competência o viés urbano de José Luís e Julia, e o ambiente campestre dos irmãos Santos e Maria Luísa. Pelos trajes usados, sem que haja menção de seus personagens, supomos que se trata de um lugar com temperaturas frias. José Luís usa um pulôver cinza e uma calça levemente arroxeada, e botas (depois o vemos com capote e um casaco preto). Julia traja um colete e uma blusa sobre um legging (após, aparece com um casaco, além das vestes masculinas de Fauno – terno, chapéu etc.). Maria Luísa se apresenta com um poncho sobre uma blusa fluida (como os demais, calça botas, e sua calça se assemelha a um couro). Santos ostenta o torso nu, vestindo-se apenas com um colete de vaqueiro com peles (suas calças e botas também acompanham estas peculiaridades campesinas). Enfim, um trabalho enriquecido pela pesquisa e pelo bom gosto. A direção de movimento coube a Toni Rodrigues. Toni se sintonizou perfeitamente com a direção cênica de Erika Mader e Marcelo Grabowski, e o resultado almejado foi cumprido com reconhecido êxito. As posturas e deslocamentos executados por Eduardo, Erika, Erom e Kelzy na montagem se adequam com exatidão ao desenho de seus papéis e ao vários ritmos que foram impostos àquela. A direção musical é de Marcello H., profissional do ramo cada vez mais requisitado para imprimir a sua marca nas produções teatrais. Marcello, muito acertadamente, optou por sonoridades, ruídos e afins que nos causam estranheza, apreensão e uma sensação de desconforto ao assistirmos à evolução tensional dos envolvidos na trama. Marcello criou, pode-se dizer, uma trilha eminentemente sensorial. O visagismo de Neandro Ferreira se baseia na naturalidade dos tipos retratados. José Luís possui cabelos curtos e barba cerrada, e Julia se mostra com seus cabelos castanhos claros soltos, com um mínimo de maquiagem, representando aqueles que vêm de fora, da cidade. Já a Maria Luísa de Kelzy Ecard exibe suas melenas negras onduladas, também soltas, porém mais curtas, mas com maiores desprendimento e despojamento, com o seu rosto ao natural. E Santos se apresenta com seus cabelos escuros volumosos e com certo desalinho, além de uma espessa barba. Neandro demarca com congruência a distância entre estes dois mundos opostos obrigados a uma convivência forçada. “Fauna”, com Eduardo Moscovis, Erika Mader, Erom Cordeiro e Kelzy Ecard é um espetáculo que se destaca no panorama teatral por sua diferenciação. Uma peça que se distingue pela abordagem de vários temas, muitos deles universais, como as relações humanas e seus conflitos, as crises de identidade, a ideia de morte em nossas vidas e a homoafetividade, através de uma história que busca confrontar a realidade e a ficção se utilizando de um mito clássico. Considerando-se todos esses elementos, já podemos dizer que “Fauna” assegura, corrobora e nos prova a sua incontestável importância no campo artístico. E isso não é ficção. Isso é real. Bem real.

     

  • ” Em ‘Os Dias Eram Assim’, Renato Góes, em seu primeiro papel como protagonista de uma obra completa, surpreende o público mais uma vez ao viver o médico Renato Reis, ‘o último e incompreendido herói romântico das Diretas Já!’ “

    julho 6th, 2017

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    Foto: Raphael Dias/Gshow

    Nos corredores frios e brancos do hospital onde trabalha, o ainda residente Renato Reis, primeiro protagonista do ator nascido em Recife Renato Góes, após o estrondoso sucesso que mudou os rumos de sua carreira, ao interpretar o justo e apaixonado Santo dos Anjos em “Velho Chico”, está ansioso com a bola em campo no jogo decisivo da Copa do Mundo no distante ano de 1970. O grito de seu gol pelo escrete de seu país nos remete a um Renato feliz, muito antes das dores de amores por que irá passar. Já nas ruas festivas de um Rio sob chuva de papéis verdes e amarelos caindo de um céu de onde se tudo vê, o rapaz de rosto liso e cabelos ondulados negros se encontra com seu irmão violeiro Gustavo, Gabriel Leone, que cantarola como anjo “Deus lhe Pague” na intimidade de seu quarto rebelde. Gustavo está ao lado de Cátia, Barbara Reis, sua namorada, moça sonhadora que deseja tão somente escrever notícias. O moço alto que com seu jaleco branco salva vidas numa época em que se tiram vidas vê à sua frente Alice, Sophie Charlotte, a bela de franja ruiva saída de um filme francês. Os olhos negros de Renato se unem aos olhos de mel de Alice. Os tempos no Brasil dos homens de farda são de guerra. Liberdade não existe, censura persiste. Coturnos marcham em direção à juventude em júbilo. Agressão de irmão a outro irmão da mesma nação. A bomba estoura, dispara o tiro, o fogo acende. Escondido em galpão abandonado, com azulejo e vidro quebrado, o beijo iniciado. Lábios de Alice e Renato. O amor nascente e recente é celebrado nas ondas do mar e debaixo de gotas de chuva. Troca de anéis improvisados, nem por isso menos apaixonados. Iniciais de nomes marcadas como selo do amor que se supõe eterno. Paralelo ao idílio, o real. Gustavo e Túlio, Caio Blat, inconformistas e inconformados, protestam com tintas em muros do capitalismo. Para Túlio, tintas não bastam face às torturas dos porões. Uma bomba é lançada na sede da construtora de Arnaldo, Antonio Calloni, o pai rico e malvado de Alice. Túlio, o moço que enfrenta o poder, é preso, torturado, não julgado e morto. Gustavo, o outro moço que enfrenta o poder, tem medo. Só lhe resta a fuga. Amaral, o delegado sem lei de Marco Ricca, sai em seu encalço. O Chile, a terra do vinho no sul das Américas, ainda vivendo tempos democráticos de Allende, é o refúgio perfeito. Renato, que em seu hospital confrontou o empresário que usava gravatas borboleta, para salvar as vidas de Monique, Letícia Spiller, a cunhada de seu rival, e seu bebê, passa a ser um de seus alvos, mais um subversivo em sua lista de subversivos. O tirano pai não aceita o romance de sua filha com a subversão. No momento da louca escapada num estacionamento cinzento, sob as súplicas embargadas de Alice, Renato foge para as terras chilenas no lugar de seu irmão, agora sem o violão. Nas plagas do Chile, no exílio involuntário, com mente confusa e perturbada, saudoso de sua amada e família, o médico se sente só. Solidão que se finda pela sedução de uma bela aquecida de poncho, Rimena, Maria Casadevall. Enquanto isso, Gustavo sente o peso da tortura ensandecida do delegado amoral, com sua pele nua e branca ofendida por jatos de água fria. Vera, Cassia Kis, a mãe manipuladora do clã dos Reis, a fim de proteger o corpo frágil de seu rebento preso em cárcere, negocia a suposta morte do filho Renato com os seus algozes, Arnaldo e Amaral. Alice, sem precisar de espelho, vê que será mãe do filho de seu amado morto. A carta de amor de Renato para Alice e o anel de presente envelhecem na gaveta do armário sem culpa. Renato e Rimena unem-se em matrimônio. Valentim é o seu fruto. Alice se casa com o seu antigo namorado, o ambicioso Vitor, Daniel de Oliveira, o herdeiro dos negócios de seu sogro, um homem com paixão doentia pela esposa, que ao ser contrariado seus olhos ficam mais azuis, afoga-se em álcool, sexo pago e o que mais lhe aparecer na frente. Alice, mergulhada em angústia e insegurança bergmanianas, precisava de um pai para o seu filho Lucas, o Lucas de Renato, agora em sua triste memória. Nove anos se passam. 1979, o ano da Anistia. Ao som da voz transcendente de Elis, os exilados políticos põem os seus pés calçados e cansados na porta de entrada da Pátria Mãe Gentil. Dentre eles, Renato, Rimena e Valentim. Na banca de jornais do aeroporto, por obra da ficção, de Deus ou do destino, o pai, Renato, presenteia seu filho, Lucas, com um álbum de futebol. Não foi dessa vez que reencontrou Alice, uma fotógrafa consagrada. O rapaz procura se encontrar com a jovem dos retratos, sem êxito. Todos na casa dos Reis, sem sinal de nobreza, compartilham da mesma omissão. O tempo não para. Nem a mentira. Nem a dor de Renato. Nem a sua incompreensão por Alice nunca ter lhe respondido, e ainda ter se casado. A atmosfera do segredo é opressora. Chegamos ao redentor período do Movimento pelas Diretas Já!, em 1984. Na Cinelândia, no coração do centro do Rio de Janeiro, Renato Reis sorri com aquele mesmo sorriso de 1970, quando o seu Brasil goleou a Itália. Renato Reis sorri, e canta Vandré, para não dizer que ele não falou de flores. Um milhão de pessoas que clamam pelo seu direito de votar, bradam: “Diretas Já! Diretas Já!”. No meio deste um milhão, Alice e sua máquina fotográfica. Registra rostos na multidão. Até que o seu olhar atento mira o que jamais podia imaginar. Mira o seu amor, cheio de vida. A moça que guardou a foto de seu enamorado desde o primeiro encontro, desfalece. O médico sem fronteiras para amar busca a verdade. Descobre ter sido enganado por todos que o cercam, justamente aqueles que ama. Rimena também se calou. Tanto o seu casamento quanto o de Alice e Vitor, um dos responsáveis pela espúria armação, caminha para uma ruína sem volta. Sob fortes ameaças de lado a lado, Renato, agora com o grisalho dos anos em pequenas mechas de seu cabelo, enfrenta o colérico oponente Vitor, cada vez mais perdido em seu destrutivo ciúme. A foto de Lucas emoldurada em seu escritório lhe chama a atenção. Lucas, nascido em 1971, pode ser o legado de seu amor interrompido. Depois de um encontro dentro de seu carro, e depois de um beijo após quatorze longos anos de espera, o irmão de Gustavo e Maria, Carla Salle, decide procurar sua Alice em seu estúdio fotográfico. No meio de rebatedores e fotos espalhadas num caos estético, Renato lhe diz: “Alice, eu fecho os olhos e só vejo você. O que eu faço com isso?”. O casal, após algumas palavras ditas e outras talvez não ditas, está à flor da pele. Num jogo mágico de luzes, sombras e música de Caetano, num jogo mágico de corpos que se redescobrem num sublime prazer e êxtase, colados em suores de mãos, braços e pernas inquietos, com suas bocas entreabertas e lábios sem destino, Renato e Alice enfim resgatam o gozo usurpado. Renato Góes, com esse personagem em “Os Dias Eram Assim”, supersérie da Rede Globo escrita por Angela Chaves e Alessandra Poggi, estabelece-se de vez como um dos melhores atores de sua geração. A despeito do intérprete possuir inúmeros trabalhos significativos na TV, no teatro e no cinema, pode-se dizer com certeza que se trata de uma das maiores revelações dos últimos anos para o grande público, que se iniciou com o seu impressionante desempenho como o Santo do folhetim de Benedito Ruy Barbosa, Edmara Barbosa e Bruno Barbosa Luperi. Após essa marcante atuação, as expectativas em cima do próximo papel que o artista representaria aumentaram, naturalmente. E com isso, a pressão de vários segmentos, como crítica, imprensa, e os próprios telespectadores. A emissora na qual trabalha apostou alto em escalá-lo para um complexo personagem protagonista de uma produção teledramatúrgica com fundo histórico polêmico, e acertou plenamente. Renato é um ator dotado de um carisma especialíssimo que demandaria uma análise mais apurada. A soma de talento, beleza, juventude e carisma sempre, ou quase sempre, é vitoriosa, mas Renato Góes tem algo a mais. Sua interpretação calcada em uma naturalidade inacreditável nos reporta aos ensinamentos da famosa escola de Nova York “Actors Studio”, que se baseia nos estudos do teatrólogo russo Constantin Stanislavski e seu “Sistema”. A escola novaiorquina, por conseguinte, desenvolveu, capitaneada por, entre outros, Elia Kazan e Lee Strasberg, a sua própria maneira de lidar com o material emotivo e psicológico dos atores, que passou a se chamar de “O Método”. Quero dizer com isso que Renato não se prende a esquematismos de composição de personagem. É um artista que mergulha fundo na alma de seus papéis, extraindo de si mesmo emoções múltiplas, o que resulta em uma atuação que atinge camadas díspares de plateia. Seu olhar não nos parece estudado ou calculado, apenas seguindo as suas intuições mais íntimas. Sua voz suave e agradável, que guarda para a nossa alegria as suas origens nordestinas, pode a qualquer momento, se assim lhe for exigido, explodir num brado de alta potência dramática. Seu sorriso de menino em corpo de homem também pode ser caracterizado como um de seus fortes atrativos. Todas essas qualidades já lhe garantiram oportunidades em filmes como “Pequeno Dicionário Amoroso 2”, “Por Trás do Céu” (ganhou o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Cine-PE em 2016, como Micuim) e “Anjos da Lapa”, em que personifica o cantor e compositor Marcelo D2, e nos palcos, como nos espetáculos “Cachorro Quente” (onde explorou seus dotes para a comédia) e “Fazendo História”. Os admiradores do ator, que adora tirar lindas fotos em suas andanças, já têm o que comemorar. Renato está escalado para viver um príncipe em uma trama das 19h escrita por Daniel Adjafre, “E Deus Salve o Rei”. Renato Góes é assim. Simples e sensível. Generoso com seus personagens. Generoso com sua própria história e a dos autores. Um ator que respeita o seu tempo e a sua raiz. Um artista que contracena com a mesma intensidade não se importando se o ator é um veterano consagrado, um jovem iniciante ou mesmo uma criança. Renato Góes é um ator adulto com sorriso, alma e emoção de criança. Renato Góes é verdadeiro. Por isso faz sucesso. Seus dias têm sido assim… Deus salve o Renato.

  • “Em ‘E O Vento Vai Levando Tudo Embora…’, com Gabriel Chadan, Josie Pessôa e Juliano Laham, a dramaturga e diretora Regiana Antonini dá sequência a outro de seus grandes sucessos, ‘Aonde Está Você Agora?’, para falar ao seu público sobre os reais valores e sentidos, além de seus possíveis limites de fidelidade, de um dos maiores e mais importantes elos de ligação entre os homens: a amizade.”

    julho 4th, 2017

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    Foto: Nana Moraes

    Em 1995, quando a dramaturga Regiana Antonini estreou o espetáculo “Aonde Está Você Agora?”, este texto já falava a respeito da importância do laço afetivo da amizade em nossas vidas. Quais eram os seus possíveis limites. O que poderia colocar à prova este elo essencial na convivência humana. Dois jovens, de origens e camadas sociais diferentes, viam a sua relação de amigos ser posta em xeque a partir de uma viagem ao exterior que o mais abastado faria, com o consequente afastamento de ambos. Em 2016, Regiana, uma de nossas mais prolíficas e talentosas autoras, também atriz, roteirista e diretora, especialista em escrever sobre pessoas, seus relacionamentos e sentimentos, resolve levar aos palcos uma continuação desta montagem, “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…”. Em seu elenco, os ótimos Vitor Thiré, Daniel Blanco e Josie Pessôa, com a direção da própria dramaturga. No ano presente, a peça que tem como inspiração uma das mais belas canções do lendário grupo Legião Urbana, “Vento no Litoral”, é remontada com novos atores, os também excelentes Gabriel Chadan e Juliano Laham (Josie Pessôa continuou com sua personagem Beatriz/Bia). A trama gira em torno de dois jovens amigos, adolescentes, Pedro (Gabriel Chadan) e Gabriel (Juliano Laham), que nutrem um pelo outro um afeto inacreditavelmente puro e legítimo, raro de se ver hoje em dia, num período em que laços indispensáveis como a amizade acabam se esgarçando pela vaidade, pela competitividade, e pelo individualismo do homem, além da ausência de tempo para o convívio pessoal, e até mesmo pelo advento das tecnologias contemporâneas de socialização, que nos afastam mais do que nos aproximam. Há uma gritante diferença entre eles, num oceano de afinidades, que é o nível social e econômico. Porém, o que sentem mutuamente é tão forte que este abismo contingencial não os separa. Pedro é o menos favorecido neste campo, e possui vocação natural para as Artes Visuais, como o grafite. E Gabriel, por conseguinte, é o rapaz rico. Com predileção pela música, tendo como ídolo Lou Reed, adora compor, e pretende lançar um disco. No meio do caminho desta adorável história de amizade há uma pedra. Uma viagem. Gabriel fará uma longa viagem a Nova York para estudar. Será que agora as distâncias espacial e temporal farão com que a amizade de ambos seja chamuscada? Pedro e Gabriel mantêm uma ligação de amistosidade baseada nos típicos códigos juvenis de relacionamento, como um gesto recíproco com as mãos, em sinal de que estão de acordo com determinado assunto, ou atingiram certa vitória. Suas personalidades distintas não interferem na ampla e positiva frequência que existe entre os dois. Os chistes e motejos de um lado a outro são comuns e salutares, servindo como recurso de fortalecimento da evidente intimidade nos jovens. Pedro pode ser avaliado como um rapaz mais simples, pouco sutil no falar (seu tom de voz é mais alto), sem meias-palavras, com movimentações de corpo expansivas, demasiadamente autêntico, um pouco tosco até, mas nem por isso menos sensível e humano. E Gabriel ostenta um caráter mais comedido, potencialmente equilibrado, sendo cauteloso em suas argumentações. Gabriel tem uma tendência para o místico e o esotérico, e não abre mão de seu “Livro da Sorte”, que lhe serve, com os seus signos, como ferramenta de esclarecimento do que está por vir, ou como definidor de uma pontual situação. Já Pedro é cético quanto a isso, todavia, à certa altura, capitula, cede aos mistérios deste pequeno livro, que também, de algum modo, agrega-os. Os dois moços têm uma estreita ligação com a natureza e os seus elementos. Associam episódios que lhes são relevantes a uma noite de lua em sua fase cheia ou quarto minguante, por exemplo. Escrevem frases como traduções de seus pensamentos particulares nas areias de uma praia. Em meio a uma ou outra inofensiva piada comum entre homens trocada, vem à baila o assunto que realmente os estremece: o iminente afastamento deles. O que os assusta de fato é se a leal amizade que construíram sobreviverá aos reveses inevitáveis da passagem do tempo. Decidem fazer um pacto. Iriam se encontrar dez anos depois em uma data acertada na mesma praia onde tantas vezes se divertiram e conversaram. O acordo vai mais além, proposto por Pedro, em tom de desafio. Gabriel seria capaz de preterir um grande e verdadeiro amor em nome de sua amizade? Face ao amigo, que padece de um romance malsucedido, Gabriel lhe garante a fidelidade. Uma década se passou, e mudanças substanciais aconteceram. O desencontro à beira do mar como haviam combinado, o crime que entrou na vida de um deles, o que aparentemente evidenciou ainda mais a distância social dos amigos, e o surgimento de uma linda mulher, Beatriz/Bia (Josie Pessôa), que colocará em risco, abalando os seus mais sólidos alicerces, os laços de amizade costurados por anos. A dramaturgia de Regiana Antonini reúne, com ampla sensibilidade, humanidade, lirismo e honestidade, as características que, em inúmeras peças que escreveu, percebemos como seu norte, a sua orientação de pensamento e criação, a sua meta primeira, que é a de abordar, com incrível capacidade de ficção, temas que são os fundamentos de nossa existência, como o amor, a amizade, a união, a lealdade, o comportamento do indivíduo, suas ações, relações e consequentes reações. Mas antes de tudo, Regiana, seja falando de casais, de duas amigas maduras, de ex-namorados, ou de recém-casados com um pequeno filho e suas adversidades, imprime invariavelmente uma farta dose de amor naquilo que faz, tocando de pronto o espectador, pois diz o que queremos ouvir, e nos faz sentir o que almejamos sentir. Suas peças são empáticas, e “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” representa tudo o que eu asseverei antes com notória propriedade e coerência. A autora discorre sem sentimentalismos tampouco pieguices (atalhos fáceis), sobre o grau máximo a que uma amizade pode chegar, sobre a preciosidade de um abraço apertado entre dois amigos, sobre a tênue fronteira entre o desejo e a traição, sobre a relação homem/mulher e seus valores, sobre a ética existente nos acordos entre as pessoas, e sobretudo, sobre a lealdade em seu sentido mais literal. A escolha de “Vento no Litoral”, arrebatadora canção do grupo brasiliense Legião Urbana composta em 1991, e que nos comove até hoje, como inspiração e referência para o seu texto, foi um supremo achado, haja vista que a partir de suas inspiradas letras se pôde construir um panorama narrativo no qual se inserem com perfeição as situações vividas por dois jovens rapazes descobrindo o mundo através de sua união e amizade, e a interveniência de uma terceira pessoa, no caso uma mulher, com todos os seus conflitos, dúvidas e embates existenciais. Como diretora, Regiana Antonini se imbuiu de uma merecedora “autoridade” para materializar cenicamente aquilo que tão bem escreveu. Quem mais teria legitimidade para pôr em prática com tanta fidedignidade a delicada e comovente história que imaginou para os seus personagens Pedro, Gabriel e Bia? Regiana procurou enfatizar esta forte ligação dos dois amigos com uma direção precisa e sensível de Gabriel Chadan e Juliano Laham. Não há quem possa dizer que não há entre eles uma grande e sólida amizade, baseada no respeito e no amor fraterno. Soube, com elevado conhecimento, utilizando-se de lindas projeções audiovisuais, e tendo o rico auxílio da trilha sonora, demarcar as passagens de tempo que acompanham os jovens. Equilibrou com aguçada percepção os momentos conflituosos, os instantes de descontração e brincadeiras mútuas, as cenas de encontros e desencontros, os embates e as tomadas de decisão. Gabriel Chadan é um ator com reconhecida personalidade. A sua intensidade ao defender um papel é sempre progressiva. Gabriel possui inegavelmente um jeito particular de atuar que nos é irresistível. Sua espontaneidade, naturalidade e franqueza interpretativa saltam aos olhos. Tem aptidões não só para nos fazer rir como para nos tocar. Como Pedro, não foi diferente. Colocou em seu personagem a sinceridade de suas emoções, que são muitas. Pedro é desenhado pelo intérprete com traços e contornos que se justificam, sejam eles de revolta ou de afetuosidade. Juliano Laham, assim como Gabriel, revela-nos um brilho especial sobre a ribalta. Juliano, dotado de enorme carisma, trilha com acerto por todos os caminhos e vias interpretativos exigidos. Fica-nos clara a sua vivacidade e sua observação cuidadosa das camadas emotivas de seu personagem. Gabriel Chadan e Juliano Laham estão, pode-se dizer, bonitos no palco. Não somente do ponto de vista estético/físico, mas no que se refere ao fulgor genuíno e pessoal nitidamente percebido por nós. Na noite em que assisti a “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” a atriz Josie Pessôa, do elenco fixo da peça, havia sido substituída pela atriz Mariana Ferreira. Porém, posso lhes garantir que na primeira vez em que vi o espetáculo, há exato um ano, e em cujo elenco estavam Vitor Thiré e Daniel Blanco (ótimos, por sinal), Josie teve uma atuação admirável, mostrando em todas as cenas de que fez parte, como Beatriz/Bia, uma força natural, uma luz irradiante, uma postura firme, uma voz bem colocada e sem hesitações, sempre convicta dos propósitos de seu papel, além de ser, indubitavelmente, uma atriz muito bonita. A elegante iluminação (e operação de luz) ficou a cargo de Cláudio Martani. Cláudio valorizou a encenação com um plano aberto suave, além de dar um enfoque especial em determinadas passagens nas quais os atores se dirigem para a plateia, como se fossem pequenos monólogos. Sua luz se harmonizou completamente com os elementos do cenário. Merece elogio a projeção feita na parede do teatro simbolizando a Lua em fases diferentes, e o uso, em outras situações, das cores. Diego Timbó se responsabilizou pela preparação vocal e musical dos atores. Seu reconhecido empenho é percebido na eficiente maneira como o elenco projeta e imposta a sua voz. A cenografia de Ruslan Alastair (Truque Produções) nos embevece com seus tecidos de papel branco construídos em formas triangular e retangular. São dois deles, os triangulares, um maior, e outro menor, posicionados à esquerda do palco (há uma cena surpreendente e impactante envolvendo este recurso cênico e Gabriel Chadan). Os tecidos de papel retangulares postos lado a lado, e de cima a baixo, no fundo da ribalta exercem função primordial e complementar do entrecho narrativo, pois são neles que as imagens de vídeo são projetadas. Essas encantadoras imagens assinadas por Gelder Martins, também editor, evocam acontecimentos que se interligam com a história, como desenhos feitos nas areias da praia, o sol no horizonte do mar e o encontro amoroso de um casal (produção da Dialética Filmes). A trilha sonora nos conquista de imediato, lógico, pela própria canção que inspirou o espetáculo, “Vento no Litoral”. Todas as vezes em que esta inesquecível e belíssima canção é tocada, em cenas estratégicas, tornamo-nos reféns de seu virtuosismo. Somos ainda presenteados com outra música marcante, “Vai” (2006), na voz de uma de nossas melhores cantoras e compositoras, Ana Carolina. “E O Vento Vai Levando Tudo Embora”, conclui-se, mantém um relacionamento reverente com o universo musical. Os figurinos de Cal Carpenter são diversificados, e se casam com primor ao perfil dos personagens. Com o passar dos anos, esses costumes se modificam, e Cal respeitou plenamente esta questão. Enquanto os rapazes usam bermudas esportivas, regatas, t-shirts, moletom, jeans, casaco de couro preto, Beatriz traja lindas roupas de influência hippie, que vão das saias ao crochê, incluindo uma bolsa típica. Thiago Medeiros realizou um louvável trabalho de visagismo, realçando a beleza do elenco, sem abdicar do “physique” natural dos personagens. “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” nos deixa uma série de mensagens e lições, estas em sua melhor acepção. Saímos do teatro com uma leveza de alma e espírito, certos de quais são alguns dos valores indispensáveis em nossas frágeis vidas. Certos de que uma amizade verdadeira entre duas pessoas pode atingir um grau de sublimidade jamais imaginado. Certos de que o amor é essencial em nossas existências, inclusive o amor entre amigos, puro e leal. “E O Vento Vai Levando Tudo Embora…” nos confirma a riqueza e unicidade de se ter um amigo. Conversar, brincar e até mesmo brigar com esse amigo, para depois abraçá-lo intensamente. Amá-lo. Como diz a letra de “Vento no Litoral”, achemos o nosso cavalo-marinho, deixemos que a onda nos acerte… E o resto? O resto é com o vento. Ele leva embora.

  • “Hugo Bonemer e Betto Marque, cercados por um inspirado elenco, interpretam um casal de militares apaixonados em meio às adversidades da Segunda Guerra Mundial, no espetáculo ‘Yank! – O Musical’, dos irmãos David e Joseph Zellnik, que se une a outros em cartaz na gloriosa luta pela aceitação da diferença, consolidando-se como um aliado do combate artístico ao vício do preconceito”.

    junho 23rd, 2017

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    Foto: Bernardo Santos

    Nunca se viu no cenário nacional tantos espetáculos teatrais sendo encenados ao mesmo tempo, ou com períodos de temporada próximos, que se empenham, por intermédio de suas dramaturgias, em retratar outras formas de relacionamento afetivo, pregando, sem doutrinações, a aceitação pelo outro da diferença, e servindo como poderosa arma de dissolução das mazelas deixadas nos rastros dos preconceitos da sociedade civil. Faltava apenas um musical para tocar neste assunto. E “Yank! – O Musical” veio com força para cumprir esta missão. O texto pertence aos irmãos norte-americanos David Zellnik e Joseph Zellnik, e sua primeira apresentação ocorreu no circuito Off-Broadway em 2010. Recebeu sete indicações ao Drama Desk Awards, indicações como “Melhor Musical” no Outer Critics Circle Awards e Lucille Lortel Awards, sendo traduzido e adaptado no Brasil com suas respectivas versões por Menelick de Carvalho, também diretor cênico, e Vitor Louzada. Esta é a primeira vez que o texto dos irmãos Zellnik é representado em uma língua não inglesa. A história se inicia com Hugo Bonemer nos relatando que foi encontrado em um sebo um diário de um correspondente de guerra americano, Stu (Hugo Bonemer), no qual havia suas impressões de suas experiências na Segunda Guerra Mundial, eternizadas no formato de confissões, reflexões, revelações ou simplesmente registros. Mas o que mais chamou a atenção neste velho diário foram as lembranças de um tórrido amor que viveu intensamente com o seu colega de pelotão, o sedutor Mitch (Betto Marque), desde a época do treinamento nos Estados Unidos, passando pelo conflito em si, culminando com o seu término. Passamos então a acompanhar o dia a dia do pelotão 89 em sua fase preliminar de treinamento, por volta de 1943. Nele, há todos os tipos de indivíduos, como o durão e severo Tennessee (Conrado Helt), o exagerado e divertido Professor (Leandro Melo), Artie, o correspondente da revista “Yank” (Leandro Terra), o Sargento que cita Scarlett O’Hara (Bruno Ganem), o austero Cohen (Robson Lima), Rotelli (Chris Penna), Czechowski (Dennis Pinheiro), e Swing (Alain Catein). Stu é um dos mais jovens. Extremamente sensível, mergulha-se em embates pessoais quanto à sua natureza sexual. Possui enormes dificuldades de se entrosar com o grupo, que repetidas vezes zomba ou faz pilhérias de seu jeito “diferente”. O convívio entre os rapazes floresce o clima de intimidade entre eles, o que lhes permite a troca de provocações machistas e gracejos com tons pornográficos. Stu começa a se sentir mais útil e valorizado quando recebe um convite de Artie para ser correspondente do jornal “Yank” (como todas as publicações de guerra, somente as “boas notícias” podiam ser reportadas, jamais os seus horrores). A postura frágil de Stu desperta o interesse do galã do pelotão, Mitch. Mitch, a princípio, reluta em aceitar os seus desejos pelo correspondente. Stu está cada vez mais certo de seu amor pelo companheiro de tropa. O relacionamento de ambos suscitará distintas reações, que vão da hostilidade de alguns, ao posicionamento zombeteiro de outros, até a naturalidade de terceiros. A partir do fato em que os soldados concluem a sua etapa de treinamentos, e vão para os locais de confronto direto, as condutas e os perfis de alguns deles mudam. Ir para o front se estabelece como condição de status para os combatentes. As lutas interpessoais e as diferenciações hierárquicas se acentuam. No mesmo ambiente onde há mortes de amigos e inimigos japoneses, há espaço para a diversão dos shows de belas e voluptuosas mulheres (Fernanda Gabriela) e sessões inofensivas de cinema. O amor de Stu e Mitch tem que sobreviver a todos os tipos de intempéries, como distanciamentos, e principalmente o escancarado preconceito de seus superiores. A descoberta da homossexualidade de um militar por aqueles lhe dava duas únicas alternativas: a prisão ou a ida para a frente de batalha. Vale dizer que em recente entrevista ao programa “Sem Censura”, da TV Brasil, o ator Hugo Bonemer nos contou um fato histórico. Segundo ele, os movimentos gays americanos começaram a se organizar efetivamente a partir do retorno de ex-combatentes homossexuais do front à sua terra natal, em específico a cidade californiana de São Francisco, onde, no bairro Castro, estes mesmos homossexuais eram perseguidos por policiais – esta abordagem violenta se tornou mais dificultosa, pois se tratavam agora de militares gays. A dramaturgia de David e Joseph Zellnik se firma pelas suas intenções em nos revelar por meio de um retrato cênico bem acabado não só o cotidiano próprio de um conjunto de rapazes dentro de um contexto extraordinário, mas também por nos convencer de que o amor entre iguais, ainda que em um ambiente exponencialmente opressor como o militar, inclusive em tempos de guerra, detém uma capacidade inquebrantável de superação, independente de seus ferrenhos opositores. As charmosas e delicadas canções (libreto e letras de David Zellnik; músicas de Joseph Zellnik) são inseridas no desenho narrativo de modo oportuno, coerente e preciso, ou seja, cumprem o seu relevante papel de realçar sonora e melodicamente os fatos pontuais e o tema central do espetáculo teatral. Suas mensagens são bastante claras. A peça se proclama como um libelo artístico contra as intolerâncias humanas, o preconceito enraizado do indivíduo, as imposições sociais que não se justificam, e de certa maneira contra as insanidades atinentes aos atos beligerantes. Os autores se preocuparam em suavizar o clima pesado de um universo conflituoso de proporções mundiais com doses escalonadas de humor e ironia, que funcionam com inegável êxito. Ao abordarem a homoafetividade sem panfletagens, os dramaturgos não só enaltecem o amor e suas infinitas possibilidades de realização, mas também o estado de paz presente na alma do homem quando este sentimento se completa. Há mesmo que subliminarmente uma mensagem pacifista no cerne do texto, ao evidenciar as incongruências e descabimentos natos às ideias e práticas bélicas. Menelick de Carvalho, o diretor, transpôs com primor e notada eficiência a rica atmosfera em que vive o pelotão, com seus dilemas, idiossincrasias, relações interpessoais, visões sobre a guerra e referências individuais. Menelick, com muita habilidade e precisão, nas duas horas de espetáculo, com direito a entreato, deu atenções especiais às cenas de grupo, extremamente dinâmicas, às passagens com momentos mais íntimos e românticos de Stu e Mitch (estas ações mereceram um tratamento delicadíssimo, com bonito resultado), e aos instantes de tensão envolvendo dois ou mais personagens. Os ótimos números musicais foram enquadrados com cálculo e argúcia pelo encenador nos espaços propícios da peça, atingindo um admirável equilíbrio. Em suas mãos, todo o elenco teve a sua chance de brilhar. Não é fácil dirigir um musical, levando-se em conta os múltiplos elementos que o caracterizam, porém Menelick de Carvalho exerceu pleno domínio sobre aqueles, provando-nos seu conhecimento vasto sobre o gênero. A direção musical e os arranjos originais são de responsabilidade de Jules Vandystadt. O desenho de som, que acompanha com elevada propriedade a obra de Jules, é de André Breda. A contribuição do diretor musical e arranjador para a concretização desta montagem foi fundamental. Percebe-se sua extensa sensibilidade para adequar as suas composições/arranjos ao desenvolvimento da ação narrativa, e na condução competentíssima das várias canções que permeiam o espetáculo. Os atores possuem notório preparo vocal, e o diretor, ciente do precioso material que tinha em mãos, aproveitou-o em seu nível máximo. Um dos pontos nobres da encenação, sem dúvida, é a presença de uma orquestra prodigiosamente virtuosa em seus atributos. São músicos de irretorquível profissionalismo, merecedores de intermitentes aplausos. Na regência e no piano, Ciro Magnani; no violoncelo, Thaís Ferreira; na bateria, Léo Bandeira; no baixo, Matias Correa, e nos sopros, Marcos Passos. As coreografias de Clara da Costa são espetaculares. Ela se utiliza com proficiência das habilidades físicas dos rapazes, produzindo criativos movimentos que em diversas passagens nos lembram exercícios militares. São marchas, saltos, e demais movimentações agrupadas ou não que se casam perfeitamente com as canções selecionadas. Há uma mescla inteligente de força bruta e leveza plástica. Os números de sapateado, que tiveram a direção de Gabriel Demartine, são deliciosamente apreciáveis. O desenho de luz foi assinado por Daniela Sanchez. Daniela se esmerou em buscar as informações visuais luminosas que melhor traduzissem o mundo no qual transcorre a história daqueles soldados, e obteve com a sua obstinação um bonito e harmonioso quadro cênico. Não houve economias em planos abertos realistas e focos intimistas, alguns com cores (como nas cenas entre Stu e Mitch, e nas apresentações dos shows das mulheres personificadas por Fernanda Gabriela). Um trabalho inspirado com acentuada dignidade. Os figurinos de Samuel Abrantes nos levam irremediavelmente, o que indica o seu total e absoluto acerto, não só ao tempo em que se passa a ação, mas também ao território específico em que vivem e convivem aqueles soldados agrupados em um pelotão. As fardas/uniformes dos jovens são em tons crus, em aliança com seus indefectíveis coturnos. Peças muito comuns entre os militares são as regatas brancas, também representadas. Ainda são vistos um jaquetão de um superior militar e seu quepe, as roupas casuais e esportivas, incluindo um boné, usadas por Hugo Bonemer em especial ocasião, além dos belos e exuberantes vestidos com ou sem brilhos trajados por Fernanda Gabriela em seus shows, que em muito nos lembram as pin-ups bastante admiradas à época. A concepção cenográfica é de Menelick de Carvalho, com cenografia e adereços de Victor Aragão. O cenário se propõe a retratar com poucos elementos as particularidades do local central do desenvolvimento narrativo, principalmente o quarto e demais instalações, enfim, o alojamento onde estão lotados os militares personagens da trama. Tudo foi pensado de forma não só a buscar estas referências mas também em se atingir um patamar de funcionalidade o qual servisse plenamente à montagem. Menelick e Victor alcançaram os seus objetivos. A primeira imagem que temos é de um escrito, como se fosse um letreiro, todo em vermelho, na parede negra ao fundo do palco, com a palavra que não só intitula a revista da tropa mas o nome do espetáculo: “Yank”. Uma plataforma é usada como tablado para os shows, um beliche metalizado corrediço é levado de um ponto a outro com demasiada eficiência, e uma banqueta de origem semelhante possui distintas utilidades, além de cadeiras. O elenco formado por onze atores, com notáveis experiências em musicais, destaca-se sobremaneira em suas missões ao oferecer ao público não só excelentes números de dança e canto, mas também ao desenhar com extrema compreensão interpretativa e observação acurada, açambarcando uma paleta consideravelmente ampla de emoções, os diferenciados perfis dos personagens. Hugo Bonemer, que passou a ser respeitado neste gênero a partir do musical “Hair”, vindo a fazer outros, como “Rock in Rio – O Musical” (o sucesso lhe valeu a abertura no Rock in Rio Lisboa), e o mais recente, “Ordinary Days – Um Musical Off-Broadway”, entrega-se profundamente ao seu papel, o correspondente de guerra Stu. Hugo tem ao seu dispor, com este protagonista, uma gama enorme de viabilidades de exploração dos sentimentos e comportamentos deste homem sensível, vulnerável, confuso e apaixonado. O ator, com brilho, utiliza-se das tintas mais apropriadas para nos transmitir todas estas faces de seu personagem. Nota-se que sua capacidade vocal está cada vez mais apurada, atingindo as notas que lhe são exigidas. Costumo dizer que Hugo Bonemer teve a sua voz “moldada nos céus”, devido à sua linda afinação, doçura e emotividade. Betto Marque (que já participou do musical “Mulheres À Beira de Um Ataque de Nervos”), como o viril e durão militar Mitch, desenvolve com visível elegância a complexa ambiguidade de seu papel. Betto consegue encaixar as doses exatas de sensibilidade ao homem até então heterossexual que se vê envolvido afetivamente por uma pessoa do mesmo sexo. O contraste entre a fortaleza física do jovem, suas supostas convicções de orientação sexual e sua delicadeza emocional ao concretizar os seus desejos íntimos com Stu demandaram do ator um extenso entendimento de interpretação no sentido de realizar uma composição de seu papel que fosse atraente para os olhos dos espectadores. Sua voz é arrebatadoramente pujante e envolvente, certeira nas variações dos tons solicitados. A gravidade de suas entoações vocais nos soam prazerosas, agradáveis e encantadoras. O casal formado por Stu e Mitch nos convence e nos comove por sua absoluta verdade e destemor face aos naturais e inevitáveis obstáculos. Leandro Terra, como um dos jornalistas de “Yank”, oferece-nos pinceladas irônicas únicas, o que imprime à encenação uma bem-vinda leveza. Fernanda Gabriela, repetindo a parceria com Hugo Bonemer depois de “Ordinary Days…” resplandece a cada aparição nos shows apresentados ao pelotão. Fernanda, dotada de uma voz lindíssima, entorpecedora, criou para cada uma dessas cantoras uma personalidade própria. O que há em comum entre elas é um evidente ar de sedução e sensualidade, o que nos leva a crer que Fernanda se inspirou coerentemente nas divas da canção dos anos 40. Conrado Helt, de “Hair” e “Cinderella”, como Tennessee, mostrou-nos com apuro elementos bem definidos da rudeza e aspereza de seu militar, inconformado com a relação homoafetiva de seus colegas. Completam o talentoso time de “Yank! – O Musical” Chris Penna (de “Chacrinha, O Musical” e “Beatles Num Céu de Diamantes”), Leandro Melo (participou de “Elis, A Musical”), Dennis Pinheiro (foi visto em “S’imbora, O Musical – A História de Wilson Simonal”), Bruno Ganem (“Andança, Beth Carvalho – O Musical”), Robson Lima (“O Mambembe, Um Musical Brasileiro”), e Alain Catein (exibiu suas habilidades em “Godspell”). Enfim, testemunhamos um elenco uniformemente comprometido com a encenação, cumprindo com galhardia todos os pré-requisitos para se fazer um bom musical. “Yank! – O Musical” se enquadra com grandes méritos em um momento bastante delicado de nossa era, no qual se discute abertamente, mesmo que seja em meio a petardos retrógrados, conservadores e obscurantistas, sobre a aceitação pela sociedade de outras possibilidades de relação afetiva e amorosa que não seja aquela ditada como a correta, a normal, a tradicional e adequada às convenções obedecidas pela coletividade. Com uma história sensível, com toques de humor, ainda que seja ambientada em tempos de horror, como a Segunda Guerra Mundial, “Yank! – O Musical”, composto por uma equipe sabedora de suas funções, oferta-nos com suas inspiradas dramaturgia e música, suas coreografias e seus atores um pequeno retrato simbolizador da infatigável peleja daqueles que combatem a escuridão da ignorância e do nefando preconceito. Não há forma de “protesto” e “denúncia” mais sutil e admirável do que aquela feita por meio do poder positivamente manipulador da música, esta etérea e inefável manifestação artística que se origina na mais pura e honesta vontade humana. E “Yank! – O Musical” faz isso muito bem. Nem é preciso comprar a revista homônima. É melhor ver ao vivo.

  • “Comemorando 45 anos de carreira, Edwin Luisi, ao lado dos jovens atores André Rosa e Raphael Sander, resgata nos palcos, com o delicado e belo espetáculo ‘Alair’, o legado poético e trágico de um dos maiores representantes da iconografia homoerótica mundial, Alair Gomes”.

    junho 8th, 2017

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    Foto: Elisa Mendes  

    Em tempos soturnos em que prevalecem em vários setores da sociedade pensamentos organizados de homofobia no Brasil, a decisão de se levar aos palcos cariocas uma parte da fascinante trajetória do engenheiro, filósofo, crítico de arte e fotógrafo Alair Gomes constitui por si só um ato de bravura de seus idealizadores. Nascido em Valença, Rio de Janeiro, em 1921, e assassinado por estrangulamento por um rapaz que frequentava o seu apartamento no coração de sua idolatrada Ipanema em 1992, Alair, Edwin Luisi, tornou-se, no futuro, a partir de suas fotos tiradas da janela dos fundos de sua casa no sexto andar de um prédio na Rua Prudente de Morais com vista para a linda praia de seu bairro, ou nela mesma, um dos expoentes da arte homoerótica contemporânea no mundo. O dramaturgo Gustavo Pinheiro se valeu do diário-guia escrito pelo próprio fotógrafo em suas muitas viagens pela Europa, “A new sentimental journey”, de 1983, para alinhavar o arco dramatúrgico de sua narrativa. “Alair” se passa em seu apartamento no qual o artista recebia alguns desses rapazes que fotografava seminus nas areias da Praia de Ipanema nos anos 70 e 80, praticando atividades físicas ou simplesmente em suas posições naturais. A peça aposta em uma conversa direta entre Alair Gomes e o público, como se ele estivesse contando, confidenciando, revelando as suas histórias, acompanhadas de suas percepções, visões e convicções, marcadas por suas experiências únicas em Paris, Roma, Florença e Londres, em que testemunhamos as suas aguçadas e elevadas observação e conclusão do conceito de beleza e estética materializadas na figura do corpo humano masculino. Paralelo a isso, acompanhamos a relação do fotógrafo com embates culturais, comportamentais, intelectuais e íntimos com dois belos rapazes, interpretados por André Rosa e Raphael Sander. André personifica um típico garoto de praia da Zona Sul do Rio de Janeiro das décadas citadas, praticante de surfe, adepto dos trajes despojados da cultura da cidade, e com o falar inerente aos jovens da época. Mantém com Alair um relacionamento no qual percebemos traços de conflito, haja vista que, ao mesmo tempo em que se permite fotografar pelas lentes de seu interlocutor, não admite a condição de se aproximar de uma camada da sexualidade que de certa forma o atemoriza, mas também o atrai. O personagem de André Rosa trava uma luta interna com a sua vaidade nata. Como diz proximamente Alair em uma passagem da peça, os rapazes sabem que estão sendo fotografados, e se aprazem ao serem desejados por seus corpos torneados. O comportamento do moço possui, por vezes, um tom agressivo, inquisidor. No entanto, essa postura se desmonta ao contemplar as suas fotos. Por sinal, contemplar é o verbo que norteou a vida do profissional Alair Gomes. Uma das cenas mais arrebatadoras da montagem se dá quando Raphael Sander descreve com impressionantes minúcias e detalhes (representando a voz de Alair, Raphael entoou um texto dificílimo) as anatomias perfeitas do Davi de Michelangelo. O rapaz defendido por André, a pedido do fotógrafo, posa, desnudo, no alto, como se fosse em um pedestal, como a famosa e universal escultura. Poucas vezes, a nudez no teatro foi tratada com tanta beleza, cuidado e delicadeza. Uma cena essencialmente artística que, certamente, deixou os espectadores alumbrados com a sua pujança estética. Alair trata os rapazes com quem lida como se fossem meninos, e para ele talvez o fossem. Isso é notado nas nuances de humor da encenação, quando lhes oferece repetidamente um “Toddynho” ou “Danoninho”. Por ser um homem incrivelmente culto, sua erudição colide com o desconhecimento cultural dos jovens que o rodeiam. Já Raphael Sander dá vida a um rapaz contido, com ares de circunspecção. O jovem militar nos indica ser um companheiro de Alair. Todavia, o homem jovem demonstra dificuldades em permitir que se torne pública a sua relação mais íntima com o fotógrafo. Sua juventude se confronta, em algumas ocasiões, com a maturidade de seu amante. Vislumbramos na personalidade deste tão jovem militar sentimentos internos também conflitantes, mais uma vez desencadeados pela complexa questão da sexualidade. Tanto no caso do surfista quanto no caso do militar, a virilidade e as identificações do masculino são bastante evidenciadas, ao contrário de Alair, que ostenta uma suave e discreta feminilidade. Em suas andanças pelo continente europeu, Alair Gomes admira os diferentes tipos de beleza do homem e os aspectos notáveis da arquitetura de cartões postais do Velho Mundo. A beleza do homem pode ser descoberta num hippie, pode ser revelada por um rapaz dentro de uma livraria, como pode ser comprovada nos remadores vestidos de Florença. Causava-lhe indignação o fato de homens esportistas e musculosos, habitantes do berço do Renascimento, estarem com os seus corpos cobertos. Nada escapava aos olhos perscrutadores de Alair. As obras de arte, como “A Criação de Adão”, na Capela Sistina, de Michelangelo, ou a própria representação do Cristo morto na cruz foram objeto de suas profundas observações. A dramaturgia de Gustavo Pinheiro se destaca em vários sentidos. Ele procura contar a trajetória deste artista incompreendido por muitos à época, e que hoje, após a sua morte, teve a sua obra, a sua expressão artística mundialmente reconhecida e valorizada, de um modo que tange o poético, o lírico, o sensível, o reflexivo, sem, em nenhum momento, deixar de reunir todos os elementos complementares e constituintes de uma narrativa dramatúrgica consolidada, consistente e atrativa. Seu texto é direto, enxuto, sem delongas. Gustavo se apega somente aquilo que lhe soa necessário nos revelar. Lançando mão do fascínio que o seu personagem real exerce sobre o nosso imaginário, Gustavo focou, como já fora dito, na confidência das histórias de Alair Gomes, que envolvem tanto as suas viagens pelo mundo quanto as suas experimentações como fotógrafo e suas relações, nem sempre fáceis, com os seus modelos fotografados, os rapazes da Praia de Ipanema. Gustavo Pinheiro, autor do sucesso “A Tropa”, consegue atingir com grandes méritos o seu objetivo final. Não se deixou cair na perigosa armadilha de se utilizar do tema que abrange intrinsecamente sensualidade, erotismo e nudez para forçar o apelo natural que o assunto carrega em si. O dramaturgo imprimiu o máximo de singeleza, adotando uma conduta de reverência, e por que não dizer, de homenagem a um artista considerado maldito por alguns. Sua arte e sua vida estão no texto de Gustavo Pinheiro de uma forma exemplar, completa, com diálogos precisos e diretos, aliados aos pensamentos existencialistas, por vezes melancólicos, de um homem que, na verdade, tinha como única e real companheira a sua arte, sustentada pela sua veneração da nudez clássica masculina. A direção de Cesar Augusto prima pela sua assumida delicadeza em retratar o universo deste personagem tão atraente em seus aspectos de personalidade como foi Alair Gomes. Cesar optou pelo mínimo possível de elementos de cena, privilegiando os atores, a linguagem de seus corpos e o impacto das imagens projetadas. Edwin Luisi alterna as suas posições por todo o perímetro do palco, assim como os outros dois intérpretes. As entradas e saídas dos personagens de André e Raphael dinamizam a ação. Os embates entre Alair e os rapazes são feitos inúmeras vezes “tête-à-tête”. Cesar nos proporcionou com a sua direção uma inegável beleza estética ao reproduzir as célebres fotos dos rapazes praianos, conduzindo André Rosa e Raphael Sander na formação fiel e plástica dessas imagens com seus trabalhados corpos. O grande painel que serve como anteparo para a projeção das imagens (fotos de Alair, pontos turísticos que visitou…) também serve para que os atores se coloquem atrás do mesmo, realizando algumas ações físicas, causando um efeito deslumbrante de sombras. São os próprios atores, André Rosa e Raphael Sander, quem exercem a função de contrarregragem, deslocando para as marcas indicadas o telão, a bancada e a cadeira que compõem o cenário. O espetáculo não se estende em desnecessidades, ostentando um caráter objetivo e conciso em suas legítimas intenções. Edwin Luisi, comemorando os seus 45 anos de carreira, com belos trabalhos na TV e no teatro, reconhecido como um de nossos melhores e mais respeitados intérpretes, traz para si este enorme desafio de representar, ao seu modo, o grande artista controverso que foi Alair Gomes. Em primeiro lugar, cabe ressaltar que somente a presença do ator no palco já provoca na plateia o sentimento de que iremos testemunhar uma memorável atuação. E com Alair, não foi diferente. Edwin captou com sua sabedoria nata e sólida experiência as filigranas que definiriam os principais contornos do perfil do personagem protagonista. Alair é construído por Edwin com bastante sensibilidade e entendimento de seu papel. Não percebemos que o ator quisesse fazer uma transcrição fiel da persona de Alair Gomes, mas sim a sua visão particular, com a ajuda da direção, é claro, do que simbolizou este “menestrel das imagens”. Edwin Luisi compôs o seu personagem com demasiada delicadeza (esta é, sem dúvida, como puderam perceber, a palavra que define o espetáculo). Ele nos passa a naturalidade e a espontaneidade no momento em que as histórias do retratado nos são contadas. A despeito de haver uma discreta melancolia em seu comportamento, não se deixou escapar, por parte do ator, uma bem-vinda dose de ironia à sua conduta, precipuamente no que se refere aos rapazes com quem se relacionava. André Rosa, um cativante ator de teatro, com várias peças em seu currículo, soube, como o rapaz carioca praticante de surfe alvo dos registros de Alair Gomes, identificá-lo com bastante convicção acerca dos aspectos que demarcam as suas ações e reações no trato com o seu interlocutor. Face às diversas circunstâncias, com inegável acerto, André colocou em seu personagem as camadas emocionais que lhe foram solicitadas. Como já lhes disse, ele ora nos apresenta uma conduta inquisidora, levemente agressiva, ora se mostra um rapaz confuso com os desdobramentos advindos do fato de se deixar fotografar seminu por Alair, o que denota o seu preconceito com uma sexualidade que lhe parece incorreta. Ora parece apenas um menino vaidoso ao ver as suas fotos. Seu trabalho de corpo é espetacular, e não nos custa lembrar de sua cena impactante, em seu sentido estético e artístico, ao reproduzir a imagem de Davi, de Michelangelo. Raphael Sander, após exatos dois anos de sua estreia na televisão, dando prosseguimento à carreira neste veículo, pisa nos palcos pela primeira vez nos confirmando sua capacidade de nos provar, com distinta segurança, as intenções mais destacadas de seu personagem. Coube a Raphael defender o jovem militar amante de Alair Gomes. Diferentemente do personagem de André, o papel de Raphael lhe exigiu um grau de sobriedade e comedimento (o que foi cumprido com ampla compreensão), porém com as variações comportamentais atinentes às contingências por que passa. É preciso que se ressalte que Raphael possui uma boa presença cênica, voz articulada e expressividade corporal elogiável. Ele ostenta com a devida verdade a afetividade, demonstrada de modo sutil, pelo artista das fotos. A sensualidade jovem do personagem é sugerida de maneira não ostensiva. Evidencia-nos com clareza a angústia existencial do moço em não desejar a revelação de sua vida paralela com um homem mais maduro para a sociedade. Num repente, deixa que percebamos que é tão somente um rapaz que gosta de uma partida de basquete como tantos outros. Tanto ele quanto André Rosa foram ótimas e acertadas escolhas para fazerem a contracena com Edwin Luisi. O cenário de Mariana Villas-Bôas se baseia em uma economicidade e objetividade que se adequam à encenação. De fato, não haveria necessidade de uma exuberância de elementos cênicos a fim de que os mesmos traduzissem o universo de Alair. Formado por objetos simples, como uma bancada e uma cadeira, além de um grande painel corrediço forrado com tela translúcida, a cenografia cumpre a sua missão de funcionalidade com inegável êxito. O figurino de Ticiana Passos também respeita com dignidade os propósitos de identificação do perfil dos personagens, obedecendo as épocas sugeridas. Para Edwin Luisi, Ticiana optou pela casualidade de seus trajes, em tons neutros. O ator veste uma camisa social de cor clara, uma calça sem ajustes, mais larga, e tênis. O rapaz surfista vivido por André Rosa se apresenta com moletom e bermudas pretos (o intérprete está descalço). Merecem destaque as peças militares usadas por Raphael Sander em seu papel. Todos os paramentos estão presentes. A boina, o pulôver e calça verdes, e os coturnos. Em outro instante, o rapaz veste uma jaqueta de couro preta. Raphael e André desfilam, em determinadas cenas, apenas com calças jeans (seus torsos estão nus, e os pés descalços). A iluminação de Tomás Ribas é deslumbrante, proporcionando-nos vários e únicos momentos de distinta beleza. Tomás se valeu ao máximo de todos os recursos que lhe pareceram condizentes com a atmosfera particular do mundo de Alair. Dois grandes spots (nas partes superiores, tanto à esquerda quanto à direita) exercem função primordial para demarcar as cenas. Os planos se alternam entre os abertos (a luz, no entanto, não é estourada), e aqueles com certo abrandamento de sua intensidade. Tomás se dedicou visivelmente a registrar o valor que as sombras possuem em sua natureza. Essas mesmas sombras são vistas, como disse, a partir dos corpos dos atores que se posicionam, e se movimentam atrás do painel. Os focos assumem reconhecida importância na obra. Só para citar uma das boas utilizações deste recurso técnico, citemos a passagem em que Edwin/Alair recostado sobre o anteparo (a bancada virada) mergulha em algumas de suas reflexões. Em resumo, um trabalho com inquestionável envergadura qualitativa. Coube a Luísa Pitta a sensacional direção de movimento. Luísa executou um indiscutível e louvável “tour de force” no que diz respeito à realização de um elaboradíssimo trabalho de plasticidade dos corpos dos intérpretes. Realmente, arrebata-nos ver ao vivo a reprodução fidedigna, o que não é nada fácil, dos registros fotográficos feitos por Alair Gomes, muitos deles notórios, com os seus personagens reais. André Rosa e Raphael Sander fazem uma bela parceria ao colocarem em prática esta transposição para a realidade do que até então era visto nas impressões fotográficas da obra de Alair espalhadas pelo mundo. O que vemos são uma espécie de “frames” reais destas icônicas fotografias. A postura contida de Edwin Luisi também requer a nossa observação atenciosa. Rodrigo Marçal se encarregou de criar uma trilha sonora que se encaixasse com coerência à ambiência narrativa da peça, com seus fatos e personagens. E logrou vitória ao fazê-lo. Rodrigo, em ocasiões pontuais, insere primorosamente sons incidentais instigantes, e em outros lança mão da envolvente voz de Caetano Veloso com a canção “Mora na Filosofia”, uma composição de Monsueto e Arnaldo Passos. Marcio Mello caprichou no visagismo dos atores. Edwin Luisi exibe cabelos e barbas alinhados. André Rosa adota cabelos ondulados longos, com algumas mechas com tonalidades claras aliadas ao seu castanho, características típicas de um rapaz praticante de surfe das décadas de 70 e 80 (sua barba foi mantida escura, e bem aparada). Raphael Sander se mostra com a sua face imberbe (o que define ainda mais a juventude do militar que representa), e suas melenas estão lisas, em tom escuro, apresentando uma leve desconstrução, o que lhe cai muito bem. Com relação ao videografismo de Renato Krueger, podemos afirmar, com todas as convicções, que o mesmo exerce um papel de extrema relevância no espetáculo em pauta, pois resgata com apurados critérios as imagens eternizadas por Alair, inserindo-nos na profundidade de suas visão e ótica do semelhante masculino. As fotos de Alair Gomes, do Acervo da Fundação Biblioteca Nacional/Brasil, em projeção, não apenas reproduzem a sua obra real, mas colaboram com vitalidade para a nossa interpretação de sua arte. Também são interessantes as imagens dos locais e pontos turísticos que foram visitados pelo fotógrafo, como o Coliseu de Roma. “Alair” é um espetáculo que se confirma como obrigatório de se assistir por uma série de razões. Citemos uma delas. Aproveitando o fato de terem passados 25 anos do assassinato brutal e covarde de Alair Gomes por um de seus supostos amantes, a peça protagonizada por Edwin Luisi vem à baila nos palcos nacionais numa hora mais do que oportuna. Cada vez mais somos assombrados constantemente por estatísticas que indicam a truculência cometida dia após dia contra os homossexuais no Brasil. A classe política venda seus olhos para essa calamidade social. A intolerância à diversidade sexual é estimulada de modo público e escancarado por segmentos políticos (governantes e suas políticas de governo, políticos representantes de diversas esferas com seus inacreditáveis projetos etc), e pasmem, até setores religiosos possuem a sua parcela de culpa na disseminação da discriminação sexual. O caso é grave não somente em nosso país, mas em diversas nações no mundo. Há fortes movimentos que se empenham em transformar esta triste realidade. Mas os mesmos não podem ficar isolados em suas reivindicações em bastantes casos sequer ouvidas. Os crimes não podem se resumir a números frios noticiados em páginas de jornais. A mudança passa pela educação. A educação em casa e nas escolas, porquanto a maior amiga da intolerância é a ignorância. As Artes, com seu poder de comunicação e esclarecimento, têm feito a sua parte. Seja na TV, seja nos cinemas, e até mesmo em campanhas publicitárias de marcas populares. Neste exato momento, um dos representantes que lutam para dirimir esta mazela, ao retratar com absoluta dignidade, elevada bravura e inconteste nobreza, é “Alair”, uma peça teatral que retrata a vida e a obra de um homem, sim, um homem com a sua câmera fotográfica na mão que queria tão somente a sua liberdade. A sua liberdade de ser quem ele era. A sua liberdade de expressar os seus desejos, exercendo o inalienável direito de trabalhar com a sua arte. Pagou um preço alto por isso. “Alair” nos reporta a essas reflexões. Todos, eu digo todos, principalmente os intolerantes, deveriam assistir a “Alair”.

  • “Aproveitando com brilho e dignidade uma das melhores chances de sua carreira, Emílio Dantas se sobressai em ‘A Força do Querer’, novela das 21h da Rede Globo, como Rubinho, um jovem chefe de família acima de qualquer suspeita com irrefreável vocação para o crime”.

    junho 3rd, 2017

    rubinho-2
    Foto: Gshow

    Ele é bonito, jovem, simpático, educado e comunicativo. É casado com uma bela mulher, Bibi (Juliana Paes), que o ama intensamente, e pai de um filho, Dedé (João Bravo), que o admira. Rubens Feitosa, ou Rubinho (Emílio Dantas), como é mais conhecido, é um aplicado estudante de Química, mas não concluiu a faculdade. Fala vários idiomas, o que deixa os seus pares impressionados. Realiza com habilidade uma série de consertos domésticos para os seus vizinhos, conquistando-os irremediavelmente. Conseguiu uma boa casa para morar com sua família, quando até então dormia com a sua esposa no chão frio e insalubre de um espaço que servia de depósito para um bar, na companhia de ratos. Seu filho ficava com a avó Aurora (Elizangela). Empregou-se como maître de um sofisticado restaurante (um pedido de Caio, Rodrigo Lombardi, a Dantas, Edson Celulari, seu proprietário). Tudo parecia estar dando certo para Rubinho. Porém, não lhe era o suficiente. Ele queria mais. Muito mais. Começou a dar telefonemas suspeitos. Passou a não frequentar as aulas de seu curso acadêmico. As desculpas e mentiras contadas como justificativas de suas seguidas ausências no trabalho e em casa recrudesceram. Não satisfeito em pagar o módico aluguel de sua residência, decidiu comprá-la com um vultoso sinal. Sempre com um sorriso aberto e cativante no rosto, o rapaz de forte presença cria expectativas em Bibi com promessas megalômanas, para a desconfiança de sua sogra. Sempre que pode oferece regalos à sua esposa. Comunica aos seus familiares que agora está fazendo corretagem entre os abastados clientes do restaurante, desagradando Caio, o ex-namorado de Bibi que decidiu ajudá-los para “se sentir por cima”, depois de ter sido traído pela moça (com Rubinho) que adora pagodes e uma cerveja gelada, quando estavam prestes a se casar. Vangloria-se de que a vida de todos irá mudar, de que irá “entrar numa grana preta”. Bibi, talvez por amá-lo tanto, não consegue enxergar que algo errado está acontecendo. Suas cismas são com possíveis traições conjugais. Nada que um vistoso vestido novo a faça esquecer de suas efêmeras dúvidas. A ostentação de Rubinho ganha proporções cada vez maiores. Resolve, após um episódio traumático narrado a seguir, viajar com a sua parceira para uma pousada portentosa em Angra, no Rio de Janeiro. Ele acha que o dinheiro é a solução para tudo, e este pensamento alimenta a sua desmedida ambição. Para Bibi, com seu incontido romantismo, o que vale é o amor. O exibicionismo material do marido chama a atenção de sua vizinha Heleninha (Totia Meireles). O menino Yuri (Drico Alves), seu filho, considerado um alienado por ser adepto de “cosplays”, esbanja esperteza, e percebe a conduta duvidosa do rapaz de barbas ruivas bem cuidadas. Yuri o flagra entrando apressado em um carro de cor escura, quando havia dito para a sua mulher que tinha pegado um táxi. Como um bom adolescente dos dias atuais, registrou o fato em fotos. O menino que se inspira em personagens de animes japoneses para se vestir, ainda tem o que revelar. As conversas do maître com estranhos se tornam mais claras para o público. Rubinho é um traficante de drogas, e está se preparando para participar de uma ousada entrega de entorpecentes no Rio de Janeiro, envolvendo uma quadrilha altamente perigosa e organizada. Sua função seria acompanhar o comboio ao lado de um outro traficante, também com boa aparência. Bibi, vítima de sua acentuada ingenuidade, crê que o seu esposo foi fechar um rentável negócio de corretagem. Imprudentemente, o “aprendiz de traficante” faz uma ligação telefônica para ela, sem sequer imaginar que estava sendo interceptada pela polícia comandada pela durona oficial Jeiza (Paolla Oliveira). Em uma cena reconhecidamente bem conduzida pela equipe de diretores de “A Força do Querer”, de Gloria Perez, liderada pelo diretor de núcleo Rogério Gomes, com a direção geral de Pedro Vasconcelos, tendo como uma das locações a Ponte Rio-Niterói, a tropa militar capitaneada pela Major Jeiza já está a postos para desbaratar a organização. A operação policial provoca um imenso engarrafamento de veículos, dentre os quais se encontra o de Rubens com o seu comparsa. Antes disso, há uma observação interessante do maître com propensões para o crime. Ele já pensa em crescer na hierarquia da quadrilha. No momento em que os traficantes são desmascarados, Emílio Dantas exibe impressionante e convincente tensão de seu personagem, comprovando-nos de que compreendeu com inteligência interpretativa o perfil imaginado pela autora. Ali, naquele instante, testemunhamos o patente medo do criminoso amador na iminência de ser pego. Uma troca de tiros entre policiais e bandidos é deflagrada, nada que não nos pareça familiar no Estado do Rio de Janeiro, principalmente com civis inocentes na rota dos disparos. Desesperado, Rubinho sai do carro, e adentra num ônibus lotado de passageiros parado logo atrás. Jeiza vê o exato momento em que Rubinho se comunica com o seu cúmplice, minutos antes. A policial praticante de MMA detém o rapaz, e o leva à delegacia. Lá, estarrece-nos a ímpar capacidade de Rubinho em levar as suas mentiras às últimas consequências. Nesta hora em que mente, demonstra ser um qualificado profissional do crime. Consegue arranjar um álibi, o que acaba convencendo o delegado de plantão de sua inocência. Mas não Jeiza. Realmente, a sua boa estampa, a sua lábia afiada, o fato de possuir um emprego fixo em um lugar prestigiado facilitaram com que a sua versão fosse aceita pela autoridade. Além do mais, Jeiza não tinha provas, mas apenas uma “impressão” de que o rapaz estava envolvido no crime. A oficial não se conforma, e promete a si mesma que irá provar a participação do depoente. Rubinho volta para a sua casa com uma indignada Bibi. Em outra cena bastante interessante da novela das 21h da Rede Globo, que tem se destacado pelos ótimos núcleos, e pela abordagem de assuntos pontuados pela sua relevância, a policial vai com o seu namorado machista, o divertido Zeca (Marco Pigossi) a um restaurante. E, claro, trata-se do local de trabalho do alvo de investigação da filha de Cândida (Gisele Fróes), a desembaraçada moradora de Portugal Pequeno, em Niterói, no Rio de Janeiro. O clima latente de enfrentamento entre Jeiza e Rubinho foi um ponto alto dos recentes capítulos da trama. Enganou-se o telespectador ao pensar que Rubinho interrompesse as suas práticas delituosas, pelo menos após o susto que tomara. Rubens voltou mais voraz do que nunca. Os telefonemas fora de hora retornaram. O jovem aparece na porta de casa com um moderno e caro carro, possivelmente o mesmo conduzido pelo seu comparsa na noite em que Yuri os flagrou. O menino novamente registra com fotos, e as guarda. Bibi, mais uma vez, acredita na prosperidade quase mágica de seu marido. E com ela, as desconfianças dos demais também se acentuam. Nos capítulos de ontem e anteontem, Jeiza se dedica a ouvir com cautela e paciência a mensagem de áudio interceptada por sua equipe. Ela ouve. Ouve. Aquela voz lhe soa conhecida. Num competente trabalho de junção de imagens da direção, a moça se recorda de seu reencontro com o maître, e a sua dúvida se dissipa, dizendo proximamente: “É o maître…”. E após: “Bingo!”. Rubinho está organizando uma badalada festa de aniversário para sua esposa na gafieira frequentada por parte dos personagens, com direito à apresentação de um cantor popular. O capítulo de ontem nos mostrou a decisão de Jeiza de prendê-lo no instante da celebração, fato que, com certeza, garantirá ótimas cenas de conflito na exibição da novela hoje à noite. A partir da prisão de Rubinho, iniciar-se-á a história baseada em fatos reais de Fabiana Escobar, a “Bibi Perigosa”, que se tornou a “Baronesa do Pó”. Atualmente, Fabiana, que foi casada com um traficante de drogas de uma comunidade carioca, exerce a profissão de escritora. Com isso, a novela de Gloria Perez terá novas engrenagens dramatúrgicas que movimentarão substancialmente a ação de seu folhetim, elevando o interesse do público. A razão desse texto também é o de ressaltar o admirável trabalho de interpretação do ator Emílio Dantas. Emílio soube com extrema destreza e apuro construir o seu papel de modo que nos envolvêssemos com a sua trama, despertando-nos sentimentos distintos com relação à sua postura. Emílio, um carioca que veio de uma carreira musical em bandas, e um estrondoso sucesso ao personificar no teatro o cantor e compositor Cazuza em “Cazuza – Pro Dia Nascer Feliz, O Musical”, tendo recebido inúmeros prêmios, tornou-se indiscutivelmente uma das inegáveis surpresas de “A Força do Querer”. Apesar de, a princípio, a carreira de ator não ter estado em seus planos, espetáculos sob a direção de Oswaldo Montenegro (“Aldeia dos Ventos” e “Eu Não Moro, Comemoro”), fizeram com que Emílio mudasse, que bom, de opinião. Sua colaboração com Oswaldo Montenegro prosseguiu na área cinematográfica, com o longa “Léo e Bia”. Com Caio Sóh, filmou “Teus Olhos Meus”. Há outros filmes em seu currículo, como “Linda de Morrer”, de Cris D’Amato, “Em Nome da Lei”, de Sergio Rezende, e “Os Saltimbancos Trapalhões – Rumo a Hollywood”, de João Daniel Tikhomiroff. Em setembro, estará na próxima produção de Vicente Amorim, o thriller de terror “Motorrad”. Nos palcos, o intérprete ainda participou de um outro musical de imensa repercussão: “Rock in Rio – O Musical”. Na televisão, defendeu personagens em telenovelas da Rede Record (“Sansão e Dalila”, “Máscaras” e “Dona Xepa”), até ser contratado pela Rede Globo para dar vida ao vilão Pedro de Lucca nas duas fases de “Além do Tempo”, novela de Elizabeth Jhin (Emílio foi considerado uma revelação). Mas sua grande chance, sem dúvida, de mostrar o seu talento para milhões de brasileiros tem sido em “A Força do Querer”, uma telenovela do horário nobre da Rede Globo que vem recebendo excelente aceitação do público e crítica. Emílio Dantas soube agarrá-la, e fez de Rubinho um sucesso. Hoje, Emílio Dantas é um ator com o seu mérito e brilho fortalecidos. Justamente, porque houve o seu querer em convencer com dignidade um personagem que não quis vencer. Mas Emílio Dantas, com seu sorriso cativante e olhos que o acompanham, soube fazer de sua oportunidade uma vitória unânime.

  • São Paulo Fashion Week Verão 2016 – Parque Cândido Portinari

    maio 29th, 2017

    013
    Foto: Paulo Ruch

    O modelo Allan Lima, na edição comemorativa dos 20 anos da São Paulo Fashion Week, durante a temporada Verão 2015/2016.
    Allan é agenciado pela Elite Model Management Milano e pela Ford Models Brasil.
    Nasceu em Ouro Fino, Minas Gerais.
    O jovem pensava em ser jogador de futebol, mas em 2013 a segunda colocação em um concurso de modelos, na categoria “New Faces”, promovido pela Ford Models e por uma loja de departamentos mudou o rumo de suas aspirações.
    Passou uma temporada na capital da moda Milão, onde pôde estrelar editais e participar de desfiles.
    Nesta temporada da SFFW, circulou pelas passarelas da TNG.
    Na mesma semana de moda, também foi escalado para os casts de Colcci e Coca-Cola Jeans.
    Fez um editorial, com fotos de Karine Basilio, para a “Glamour Brasil” chamado “Amor Livre”, e outros para o Village Mall, West Coast/João Pimenta (Inverno/2016) e SUIXD.
    Em outubro de 2015, em matéria publicada no site FFW, Allan foi apontado como um modelo “para se ficar de olho”.
    Em Ravello, na Itália, foi modelo de uma campanha da marca de joias Luca Barra Gioielli.
    Na São Paulo Fashion Week Verão 2017, vestiu peças da grife A La Garçonne.
    Também desfilou para Ricardo Almeida.
    Recentemente, Allan Lima participou de uma campanha publicitária, com vídeos e fotos, para a marca de roupas Handbook etc… Coleção Inverno 2017.

    Agradecimento: TNG

  • “Lilia Cabral, uma das mais populares e talentosas atrizes do país, na novela das 21h da Rede Globo, ‘A Força do Querer’, dá vida a uma bem-sucedida mulher que se vê vítima de um drama pessoal progressivo que pode levá-la para um abismo sem fim: a compulsão pelos jogos.”

    maio 23rd, 2017

    silvana
    Foto: TV Globo

    Dentre tantos assuntos tratados em sua novela, Gloria Perez tem despertado a nossa atenção para um problema de saúde pública que acomete uma parcela de nossa população: a compulsão pelo jogo. E para representá-lo, a autora escalou uma de nossas atrizes mais talentosas e populares, Lilia Cabral. Não se sabe ao certo quantos jogadores patológicos existem atualmente no Brasil, o que muito se deve à clandestinidade de certas práticas proibidas no país. A também chamada ludomania já é reconhecida como uma doença por especialistas na área, semelhante ao alcoolismo, tabagismo, e ao consumo de drogas. Segundo informações colhidas na área de Coordenação do Programa Ambulatorial do Jogo Patológico (PRO – AMJO), do Hospital das Clínicas de São Paulo, “o jogo compulsivo estimula as mesmas áreas cerebrais (do jogador), sendo o seu comportamento bem semelhante ao do viciado em drogas. Um comportamento compulsivo impulsivo, cuja única diferença que há é o não consumo de uma substância. Mas existe um comportamento que se repete várias vezes na prática de uma atividade”. Felizmente, há tratamentos disponíveis para esse distúrbio psíquico e comportamental, como, inclusive, os “Jogadores Anônimos”. No caso da personagem interpretada por Lilia Cabral, a bem-sucedida arquiteta Silvana, temos uma mulher bonita, madura, casada com um rico empresário (Eurico, Humberto Martins) e mãe de uma filha, Simone (Juliana Paiva). Silvana assume uma dupla postura. Por um lado, é extremamente racional, generosa e sociável (empenha-se com denodo para que Irene, Débora Falabella, sua colega de profissão, não prejudique o casamento de seu cunhado Eugênio, Dan Stulbach). Participa de eventos sociais exibindo elegância, simpatia, bom humor, desenvoltura e naturalidade. E por outro, mostra-se alguém totalmente vítima de sua compulsão pelos jogos, capaz de cometer as maiores insanidades para acobertar o seu vício e mantê-lo. Os principais conflitos, como era de se esperar, ocorrem dentro de sua própria casa, com o marido e a filha. Umas das evidências mais significativas deste distúrbio é a não aceitação do problema pelo jogador compulsivo, além da reiteração de mentiras. Eurico crê que Silvana se livrou desta compulsão, uma ideia alimentada pelas constantes invenções da esposa. Um dos atos mais graves cometidos pela arquiteta envolveu a sua amiga Joyce, Maria Fernanda Cândido. A fim de encobrir uma avolumada perda financeira, R$50.000,00 em um único dia em poucas rodadas de jogos, a mãe de Simone pegou emprestada uma bolsa de grife da concunhada com o intuito de explicar ao irascível marido o porquê do montante sacado em sua conta bancária (a suposta compra da bolsa). Desculpas esdrúxulas se sucedem. Depois de recuperar parte da quantia (R$15.000,00) no jogo, claro, cada vez mais se perdendo em ardis, convence o marido a lhe comprar um carro novo num consórcio, o que acaba não dando muito certo (aproveitar-se-ia de suas prestações). Outra característica que percebemos na personagem de Lilia (que visitou o grupo “Jogadores Anônimos” para se preparar para o papel) é uma acentuada alienação. Silvana não se dá conta da gravidade de sua situação. Diversas vezes ri e se vangloria de suas “vitórias”. Sai do estado de desespero e agonia para o de contentamento assim que atinge os seus objetivos com bastante assiduidade. Sua empregada doméstica Dita (Karla Karenina) lhe serve como confidente de seus desvios. Não lhe resta o que fazer senão preservar a patroa, ajudando-a no mascaramento de sua conduta reprovável, a despeito de sua real preocupação. Ao notar que as suas apostas estão lhe causando visíveis prejuízos conjugais, Silvana, que foi chantageada pela perigosa Irene, decide saciar sua compulsão em games na internet. Mas sempre valendo dinheiro. Sua filha descobre, e bloqueia os sites. Para a jogadora, centenas de reais não são nada, são “merrecas”. Simone se impõe perante a mãe, e lhe aconselha a procurar auxílio psicológico. Jamais passa pela sua cabeça de que esteja doente. A elegante mulher ainda não atentou para o fato de que está se dirigindo para o fundo do poço. Seu trabalho como arquiteta, até então valorizado, começa a ser afetado. Silvana não atende às ligações dos clientes, não entrega projetos, não comparece às reuniões. Quando Eurico descobrir a verdade escondida por sua esposa, o casamento poderá ruir. A falência financeira da apostadora é uma questão de tempo. Em uma cena recente, Silvana furta uma quantia de dinheiro de seu marido. Acha que não fará falta. Vendo que os funcionários, o motorista Nonato (Silvero Pereira) e a secretária da empresa Biga (Mariana Xavier) foram considerados suspeitos, salva-os… contando uma mentira. Dos pequenos delitos nascem os grandes. Empenhou suas joias. Pediu dinheiro emprestado a Caio, Rodrigo Lombardi, mentindo sobre a razão de lhe pedir (disse que seria para o conserto do seu carro; Caio, sabedor de seu vício, tão logo descobriu). Silvana, pouco a pouco, perde-se em um emaranhado de erros, em que noções de valores de ética e moral são ignorados. No tocante a outro elemento que distingue a personalidade de um jogador patológico, e que facilmente é reconhecido em Silvana, é o tipo de conduta que a leva a jogar sempre mais: se numa mesa de pôquer perde, joga de novo para recuperar o que perdeu; se ganha, julga estar com sorte, e que esta lhe proporcionará mais ganhos. É um círculo literalmente vicioso e temerário. Há entre os jogadores um código tácito de respeito às “regras do jogo”. Não há leniência para o jogador que perde. Se perdeu, não importa o valor, tem que pagar. Não sabemos até que ponto pode ir uma cobrança. Silvana mesma foi cobrada na porta de casa por não ter respeitado estas “leis”. O último de seus excessos cometidos foi o furto de um relógio valioso do pai de Eurico. Age realmente como uma viciada em drogas. A novela “A Força do Querer” nos mostra que a compulsão por jogos é democrática. Ela pode atingir uma mulher culta e educada, com nível superior, bem casada e sofisticada. A escolha de Lilia Cabral para dar vida a esta mulher cheia de angústias, aflições e ansiedades infiltradas em uma rotina aparentemente normal aos olhos dos outros foi acertadíssima. Lilia, uma de nossas mais prestigiadas atrizes, com um currículo respeitável na televisão (“Vale Tudo”, “Tieta”, “A Favorita”, “Viver a Vida”, “Fina Estampa” e “Império”), no teatro (“Solteira, Casada, Viúva, Divorciada”, “Divã” e “Maria do Caritó”) e cinema (“Divã”) possui uma admirável qualidade de fazer com que o público conduza a sua atenção para os contornos interpretativos que desenha para o seu papel. Ela pode ser tanto uma secretária fofoqueira e uma carola, quanto uma esposa maltratada pelo marido, uma mãe que se sacrifica pela filha, uma mulher do povo, ou alguém com poder, força e sofisticação, não importa, Lilia Cabral consegue abrilhantar cada um desses tipos tão distantes um do outro. A atriz, que ostenta belíssimos sorriso e olhos, cativa-nos com as suas emoção, verdade e presença cênica. Não nos parece que se utilize de técnicas. A sua ferramenta de atuação é a sua legítima vocação para orná-la com o máximo de nuances que lhe conferem indiscutível credibilidade e empatia. O seu trânsito com incrível desembaraço pelo drama e comédia é um de seus inquestionáveis méritos como artista. Costumo dizer que há certas atrizes que nos emocionam, e Lilia Cabral é uma delas. A abordagem deste tema por Gloria Perez em “A Força do Querer”, valendo-se de uma atriz do porte de Lilia Cabral, é demasiado válida. Que sirva de alerta para os telespectadores acerca dos riscos que são intrínsecos às compulsões, que são muitos. Que sirva de incentivo para aqueles que padecem deste transtorno em pedir socorro médico. Que convença que o jogo só justifica a sua existência quando o seu alvo é a diversão. Que as apostas de Silvana, assim que reconhecer o seu complexo drama, não sejam mais em uma mesa de pôquer, e sim na reconquista das suas perdidas felicidade e paz. Basta que Silvana tenha força. Basta que ela queira. Basta que interrompa este “jogo da vida” perigoso que criara para si mesma. Apostas encerradas.

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