Ao chegarmos ao teatro, já nos deparamos com o bom gosto do cenário de Flavio Graff à mostra. Pilhas de livros de diferentes formas espalhadas por todos os lados, uma mesa central comprida e salpicada de cores, que dá equilíbrio ao ambiente, cadeiras pintadas com vermelho forte, e após o início da encenação, gérberas em vasos. Gérberas que estarão na berlinda em determinadas ocasiões. Há também três grandes painéis no “background”, e diminutas luzes dependuradas. Tudo colabora para a harmonia do espaço cênico. Mérito de Flavio Graff. Quando, enfim, inicia-se a dramatização, ouve-se música discreta, adequada, e autoral de Marcelo Neves, que possui como objetivo complementar movimentação primeira. O texto pertence à dramaturga e atriz francesa Yasmina Reza, cuja uma de suas melhores obras, além desta sobre a qual escrevo, é “Arte”, que já fora inclusive montada no Brasil com êxito. A tradução que torna o texto muito próximo a nós coube a Eloisa Ribeiro. O mesmo caminha demasiado bem sob alternância entre a comédia e o drama, sem nunca perder o contexto reflexivo. A história é centrada em dois casais: Verônica (Deborah Evelyn) e Michel (Orã Figueiredo), e Alan (Paulo Betti) e Annette (Julia Lemmertz), que se encontram com o intuito de resolver civilizadamente pendenga perpetrada pelos filhos de ambos. Na verdade, este encontro serve de mote para que se configure uma espécie de acerto de contas, explícito por meio de ofensas generalizadas, desabafos, confissões, e ditos espirituosos acerca dos relacionamentos conjugais e personalidades de cada um. Yasmina Reza demonstra assim sua irrefutável habilidade em construir diálogos. A direção de Emílio de Mello explora a plenitude da potencialidade dramatúrgica que tem em mãos, valorizando sobremaneira as tão importantes pausas. Os figurinos de Marília Carneiro são coerentes e elegantes. A iluminação de Renato Machado contribui com precisão e leveza (utilizando-se das luzes dependuradas com intensidade branda citadas no começo, e luz geral). O elenco é um dos trunfos, sem dúvida. Há intimidade visível dos quatro intérpretes com o sagrado espaço da ribalta. Deborah Evelyn, Julia Lemmertz, Orã Figueiredo e Paulo Betti percorrem variada gama de emoções, que vão do riso ao que lhe isto é oposto, em que se notam eficiência e magnitude que justificam os aplausos de pé ao término da atração. Para concluir, “Deus da Carnificina” é programa cultural que não nos deixa indiferentes, mas sim atentos a aspectos relevantes do comportamento humano, e satisfeitos com o profissionalismo e denodo empregados na realização de montagem teatral, a despeito de ser adaptação, com nossa lavra. O que nos orgulha.
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No início da trama de “Insensato Coração”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, Kléber, personagem de Cassio Gabus Mendes, que demonstra uma vez mais ser um ator a quem devemos respeito, e que há muito tempo presenteia-nos com bons papéis e interpretações, mostrou logo ao que veio. Um jornalista separado, pai de filha adolescente, Olívia (Polliana Aleixo), impregnado de preconceitos da cabeça aos pés, ciumento e possessivo com relação a Daysi (Isabela Garcia), a ex-mulher, além de desrespeitoso e irascível no trato com Álvaro (Ricardo Rathsam), o editor do jornal onde trabalha. Na profissão, relutava o quanto fosse possível a dar notícias em primeira mão na versão on-line. Possuía o pensamento tacanho de que o “furo” perderia o seu impacto. Impacto este que inevitavelmente já não existiria se se esperasse o dia seguinte. Sua vida começou então a degringolar. As rédeas passam a escapar-lhe ao controle. Dívidas provocadas pelo vício no jogo provocam o não pagamento da pensão alimentícia da filha. As brigas com Daysi, o irmão Gabino (Guilherme Piva), e o editor só pioram. E os preconceitos também. Kléber assim não nos causava qualquer simpatia, mesmo sendo um profissional que buscasse as verdade e justiça. Até que em certa ocasião, chega ao local do trabalho bêbado. E dispara ofensas contra o superior. Demissão sumária. Reata de forma clandestina com a ex-mulher. Voltam o ciúme e o sentimento de posse, que motivam a perda de oportunidades de emprego daquela. Atinge o cume de roubar dinheiro de trabalhadora. A digna Haidê (Rosi Campos). É desmascarado e humilhado em praça pública. A filha por testemunha. Sem emprego, sem mulher, sem bússola e sem honra, está perto do escuro do fundo do poço. As portas para o sustento lhe foram fechadas a cadeado. E as chaves jogadas fora. Kléber está queimado. Porém, ao que parece liberto do jogo, em meio a tantos preconceitos, um foi dissipado. Dissipado por estar preso. Preso aos ideais de se fazer valer o que é justo em sociedade. Com a ajuda da filha que nunca lhe negou ajuda, cria um blog. Sim, um blog. Ele que sempre difamou o mundo virtual. Com o intuito de melhorar a imagem do país em que vive, o personagem Kléber assume outro personagem: Kléber Damasceno, o defensor dos blogs e oprimidos.
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Foto: Estevam Avellar/TV GloboÍcaro (Mateus Solano), um cientista em busca da mulher perdida. Cria Naomi (Flávia Alessandra), uma androide à imagem e semelhança de quem sempre amou. Naomi toca lindamente piano, e desperta o adormecido em Leandro (Caio Blat). Nem todos sabem de que não é humana. Surge então uma outra Naomi que o é. O mistério está estabelecido. Os sentimentos divididos. E como os mesmos serão cuidados somente Walcyr Carrasco, o autor da novela das 19h, decidirá. Enquanto isso, o público acompanha o desempenho desta atriz formada em Direito, e que chegara até a montar escritório, que por força da sinopse, vê-se obrigada a exibir habilidade ora em mostrar ora em ocultar sentimentos. E o início na profissão? Como se dera? Flávia, assim como Adriana Esteves e Gabriela Duarte, estreara na Rede Globo no folhetim de Walther Negrão e Antonio Calmon, “Top Model”, após ter participado de concurso no “Domingão do Faustão”. Depois de pequenas atuações em algumas produções da emissora, um papel de real destaque lhe é oferecido por Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares em “A Indomada”. Fora Dorothy. Esta obra serviu como elemento desencadeante do processo de afirmação da carreira de Flávia. Volta a trabalhar assim com Ricardo Linhares em “Meu Bem Querer”, desta vez como vilã. Não demorou muito para que a intérprete ganhasse status de protagonista em “Porto dos Milagres”. Status este repetido em “O Beijo do Vampiro”, em que retoma parceria com Antonio Calmon. Sucesso arrebatador estava por vir. E aconteceu pelas mãos de Walcyr Carrasco. Seu prestígio só fez aumentar com “Alma Gêmea”. Posterior a “Pé na Jaca”, mais um êxito: a Alzira de “Duas Caras”, de Aguinaldo Silva. Alzira, como exímia dançarina de “pole dance”, causou interesse nacional por esta prática. A seguir, ao lado de Malvino Salvador, estrela “Caras & Bocas”. No cinema, integra o elenco de “De Pernas Pro Ar”. Por suas interpretações na televisão, fora agraciada com vários prêmios concedidos pela Revista Contigo!. Agora, como Naomi em “Morde & Assopra”, difícil não se lembrar das replicantes de Daryl Hannah e Sean Young no clássico da ficção-científica de 1982 dirigido por Ridley Scott, “Blade Runner – O Caçador de Androides”. Naomi, humana, ou não humana, com ou sem o lindo som que tira das teclas de um piano, é mulher capaz de mexer com os sentimentos masculinos que se exacerbam ou não.
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Foto: Divulgação/TV Globo
Aqueles que apreciam histórias contadas tanto no cinema quanto na TV já presenciaram incontáveis vezes o relacionamento de um casal cujo “combustível” são discussões frequentes, provocações, ofensas, insinuações maliciosas, deboches e cinismos de ambos os lados. E que ao final, descobre-se que o que havia entre o par era sim, ainda que de forma escondida, um afeto, paixão, ou até mesmo, amor. Quanto à televisão, citarei dois exemplos que refrescarão nossas memórias. Primeiro, o seriado da ABC (no Brasil, foi exibido pela Rede Globo) que fez enorme sucesso nos anos 80, “A Gata e o Rato”. Um Bruce Willis em vias de tornar-se astro que vivia às turras com Cybill Shepherd. Tudo temperado com boas doses de humor inteligente. Já no campo das novelas, posso mencionar a divertida “A Gata Comeu”, de Ivani Ribeiro, que ocupou o horário das 18h da mesma Rede Globo em 1985. As brigas entremeadas por beijos, abraços, e um tapa aqui, outro acolá cujos protagonistas eram Jô Penteado (Christiane Torloni) e Fábio Coutinho (Nuno Leal Maia) despertaram as curiosidade e interesse do público. Aliás, Ivani Ribeiro fora uma de nossas grandes mestras da teledramaturgia indubitavelmente. Já no cinema, que tal algo não tão distante? Então, vamos de “Mr. & Mrs. Smith”, longa-metragem dirigido por Doug Liman em 2005. Um filme comercial, tendo no elenco duas estrelas de Hollywood, Brad Pitt e Angelina Jolie. Quem lhe assistiu, sabe que é representativo do que estou a lhes falar. Pode-se dizer que o tipo de situação explorada é puro clichê. Sim, concordo. Mas funciona, e em não poucas ocasiões diverte, e nos impele a até torcer pela união do casal. Na verdade, tudo isto discorro para melhor assimilarmos o que está acontecendo com Carol (Camila Pitanga) e Raul (Antônio Fagundes) no folhetim de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, “Insensato Coração”. Desde que o pai de Pedro (Eriberto Leão) “entrou pela janela” (segundo as próprias palavras de Carolina Miranda) na empresa de Vitória (Nathália Timberg), que foi quem o indicou, que o que não faltam são faíscas quando há entre eles um encontro. Raul Brandão teve condescendência com a moça a princípio, ainda que lhe fosse antipática. No entanto, face a sucessivos “foras”, frases acerbas e colocações ferinas, rebelou-se. E passou a trocar farpas quase que diárias com a sua superior hierárquica. Chegou a pedir demissão quando soube de que modo fora admitido. Demissão negada. Todavia, ocorre imprevisto. E a bela morena tem que ausentar-se. O homem maduro de cabelos encanecidos que agrada às telespectadoras apresenta a grupo italiano projeto de marketing importante pertencente à bela morena. Esta ao ser comunicada, furiosa fica. Em reunião, Raul é elogiado pela dona do conglomerado de shoppings na frente de Carolina, que fica um tanto quanto enciumada. Neste momento, o elogiado afirma que os méritos devem-se à excelência do projeto. Parece que houve pacificação. Parece. Por sinal, lembram-se da primeira vez que se encontraram? Camila Pitanga provável orientada pelos diretores, baseados no que os autores escreveram, portou-se de maneira como se tivesse ficado impressionada. Coloquialmente falando, “deu bandeira”. Haverá romance. Então, prova-se que não somente simpatia é quase amor, mas antipatia também. Será?

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O espetáculo indicado ao Prêmio Shell de Teatro 2009 (Melhor Texto) traça divertido, mas sem abrir mão da seriedade com que o tema deve ser abordado, painel do relacionamento entre um homem e uma mulher. A união de ambos, e as boas e más consequências daí surgidas. Questiona-se quase todo o tempo se vale ou não a pena casar-se. E o nascimento de um filho? Melhora ou desgasta a relação do casal? O matrimônio deve ser necessariamente um rito de passagem a ser cumprido por nós? Ou a liberdade (e com ela possível solidão) seria mais vantajosa? Como lidar com as difíceis personalidades de cada um durante o processo de inevitável convivência? Até onde terminam os limites de um, e começam os do outro? Perguntas, perguntas… Estas, e tantas mais, são feitas na boa peça de Lícia Manzo que faz o espectador rir, identificar-se, concordar, talvez discordar de uma ou outra questão, e refletir. Se tudo isto já é causado em quem assiste à encenação, sinal de dever cumprido. A dupla de atores Marcelo Valle e Alexandra Richter está em perfeita sintonia, sabendo aproveitar os momentos que demandam as suas aptidões ora voltadas para a comédia, ora voltadas para o drama. Ernesto Piccolo, diretor prolífico e conhecedor do que agrada ao público, impingiu leveza, toques hábeis e sensibilidade à atração teatral. A cenografia de Clívia Cohen é pautada na funcionalidade: caixas e baús espalhados, e assemelhado que serve de cama ao centro. Há ainda projeção de imagens que exibem instantes da vida deles, o que colabora para o entendimento do que é dito. Todos os objetos têm importância na trama. A iluminação de Maneco Quinderé perfaz trilha eficiente, dando sustentação a etapas do desenvolvimento do enredo. A trilha sonora de Rodrigo Penna aposta na diversidade (de Elvis Presley a George Michael). E o ecletismo quando bem dosado cumpre missão enriquecedora. A direção de movimento coube a Marcia Rubin, e tanto Marcelo quanto Alexandra usam seus corpos com graça e verdade. Os figurinos de Cao Albuquerque seguem a linha da coerência, tendo que se desdobrar para realçar as mudanças de ciclo e comportamento dos personagens, que se mostram em três. Lena (vestido clássico algo “bordeaux”) “transfere-se” para Mammy (já se vê indumentária típica de dona de casa sob o citado vestido), e Maria Helena (profissional capacitada cuja maneira de se apresentar acompanha a atual posição). E o mesmo ocorre com Edu (a princípio, estilo casual), que nos evidencia suas fases “Duca” e “Carlos Eduardo”. Sendo assim, temos em nossos palcos o retrato do que vivemos, do que experimentamos, do que arriscamos. E que ótimo, representado nos talento e competência de dois artistas bastante queridos: Marcelo Valle e Alexandra Richter.
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Divulgação/TV Globo
Duas mulheres, Sueli e Fátima (Andrea Beltrão e Fernanda Torres, respectivamente), vendedoras de típica loja de vestidos de noivas em Copacabana com seu comércio diversificado, que não conseguem se casar, ou manter o matrimônio. O argumento já é interessante (a redação final é de Cláudio Paiva), e de algum modo, engraçado por si só. O aspecto paradoxal da situação colabora sem dúvida para a construção de diálogos próprios de comédia. A vida sentimental de ambas é atribulada. Atribulada seria eufemismo. Vai de mal a pior, mesmo. Sueli, em tempo não muito distante, casou-se com Jurandir (um cômico Érico Brás). Ele retorna. E lhe telefona a cobrar (!). Fora preso por roubar o enxoval do casamento. Quer o divórcio. Sueli diz “não” retumbante. Já Fátima mantém relacionamento como amante com Armane (Wladimir Brichta, bastante à vontade). O trabalho dele também é de vendedor. Fátima defende-se afirmando que o rapaz pode ser casado fora de Copacabana, mas que neste bairro, ele é dela. Há bastante idas e vindas, provocações, brigas e reconciliações entre o casal. O dono do estabelecimento no qual as personagens das protagonistas laboram é interpretado pelo sempre bom Otávio Muller (Djalma), que é amasiado de Flavinha (Fernanda de Freitas, em convincente atuação), funcionária que se aproveita da privilegiada posição de caráter afetivo que ocupa para usar de autoridade com as colegas de ofício. Entretanto, não deseja que as mesmas sejam demitidas, pois tudo sobrará para ela. Flavinha é meio encostada. Há ainda a figura de S. Chalita (Flávio Migliaccio em presença que para nós é bem-vinda), proprietário de bar, que no início intenciona seduzir Sueli, e após a recusa desta, parte para cima de Fátima. Ela, já no desespero, chega a topar uma possível união. O texto de Cláudio Paiva nos é mostrado como se fosse um “bate-bola” com humor delicioso. Há impressionante “liga” entre as atrizes principais. Uma manda. A outra rebate. Não há descanso (no melhor sentido, é claro) para o telespectador. Tanto Andrea quanto Fernanda já haviam mostrado entrosamento no especial “Programa Piloto”. Se fossem escaladas intérpretes que não se entendessem em cena, a produção perderia largamente o apelo. A trilha sonora dá charme ao seriado, realçando-o com cancioneiro peculiar e adequado à proposta leve e jocosa da atração. A caracterização e figurinos a cargo de Luciene de Moraes e Antônio Medeiros são coerentes, destacando-se os usados por Andrea e Fernanda. E a cenografia de Luciane Nicolino merece menção elogiosa. Face aos que lhe informei, deduzimos que a direção coube a quem entende do riscado: Mauricio Farias (direção-geral). Sendo assim, ninguém pode reclamar que não há o que se fazer nas terças-feiras à noite ( agora com Fábio Assunção, Kiko Mascarenhas em outro papel, e Orã Figueiredo).
Essencialmente, rir. -

Foto: editorial de moda da EverlastRafa é playboy? Se levarmos em conta que o filho de Cortez (Herson Capri) é abonado, frequenta os melhores lugares, e fica com as garotas mais bonitas, podemos pensar desta forma. Entretanto, Rafa não é só isso. Rafa é estudioso, preocupa-se com o futuro. Foi capaz de pedir transferência de Economia para Direito, e ao não isto conseguir, decidiu prestar vestibular novamente. Além disso, o rapaz respeita os pais. Sim, cometeu um erro. Colocou em sua própria casa menina que não conhecia, que acabou o traindo. Isto acontece nas melhores famílias. Conheceu Cecília (Giovanna Lancellotti). Ela foi dura. Não lhe deu mole. Cecília é assim. Possui uma visão bairrista do que é ser carioca. O tempo lhe dirá a verdade. A moça de Floripa desde que chegou de Londres tem se mostrado rígida em seus princípios. Em dado encontro com Rafa, duvidou de sua capacidade intelectual. Não “rolou”. Rafa simplesmente completou uma citação que ela fizera de Clarice Lispector. Pediu assim seu telefone. Não fora dado de pronto. Porém, a voz poderosa da consciência disse para que ela lhe desse. E deste modo o fez. Falemos, então, um pouco de Jonatas Faro, que vive no momento o advogado Conrado em “Cheias de Charme. Jonatas começou sua carreira criança ainda. Tudo iniciou-se em “Chiquititas”, no SBT. Após, fizera parte do folhetim de Antonio Calmon, “Um Anjo Caiu do Céu”. Seu papel era Kiko. Retornou ao SBT, e fez parte de “Marisol”. Passara temporada nos Estados Unidos, e lançara-se como modelo. Na volta ao Brasil, torna-se bastante conhecido pelo Peralta de “Malhação”. Demonstrou ao público saber dançar no “A Dança dos Famosos” no “Domingão do Faustão”. E por saber dançar e cantar, fora selecionado para estrelar o musical de Miguel Falabella, “Hairspray”. Este já fora levado às telas por duas vezes: a primeira em 1988 (direção de John Waters), e a segunda, em 2007 (direção de Adam Shankman). Sua incursão no cinema decorreu no ano passado, com “Aparecida – O Milagre”, de Tizuca Yamasaki. E para concluir, voltemos a “Insensato Coração”, de Gilberto Braga e Ricardo Linhares. Cecília pareceu não ser tão intolerante com Rafael. Melhor assim. Cecília conseguirá enxergar em Rafa um rapaz que tem, dentre tantas qualidades, não apenas completar um texto de Clarice Lispector. Mas inserir um texto de Clarice Lispector na própria vida.
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Nívea Maria e Gabriel Braga Nunes em uma cena de tensão de “Insensato Coração”/Foto: Estevam Avellar Ela, como Carmem, ao entrar na novela de Gilberto Braga e Ricardo Linhares, começou devagarzinho. Uma bonita e simpática senhora de bem com a vida. Quer dizer, procurava estar de bem com a vida, pois havia passado por vicissitudes que a deixaram só no mundo. Refez-se, e seguia em frente. Dava as suas caminhadas pelo calçadão de Copacabana, tomava água de coco, conversava com a amiga Sueli (Louise Cardoso). E para aplacar a solitude, recorria a rapazes profissionais. Era mulher por assim dizer “desencanada” neste campo. Tudo virou ao conhecer Léo (Gabriel Braga Nunes). É aquela velha história. Temos um cotidiano traçado, e surge um alguém que modifica este cotidiano traçado. Para o bem, ou para o mal. Carmem, como Norma (Glória Pires), seres femininos com baixa autoestima, são alvos fáceis para seres masculinos como Léo. Ao contrário do que fez com Norma, o golpe a ser aplicado na personagem de Nívea demandaria mais tempo, e confiança dela. Mesmo porque aquele seria de proporções maiores. Então, foram várias noites de amor falsas, declarações de amor falsas, sorrisos falsos, e tudo o que de melhor se encaixar naquilo que entendemos por falsidade. A hora da falcatrua dá-se. O cúmplice Tonico/Marcondes a postos (Luca de Castro, experiente ator e diretor pai de Carol Castro). Só que quem também está a postos é Sueli. Sueli que entra em contato com o advogado do Grupo Drumond Nelson (Edson Fieschi, competente intérprete que estreou em “Vale Tudo”). O rapaz desvenda a armadilha. Sueli avisa à amiga. Esta entra em estado de choque. Polícia é acionada. Confusão. Léo e Carmem brigam pela bolsa com o dinheiro da discórdia. Ao ser aberta pela força da disputa, cédulas voam pelos ares, do mesmo modo que o plano de Leonardo. A querida Nívea sai de cena com dever cumprido. Dever que só uma ótima atriz como ela sabe cumprir. Nívea Maria (que fora Regina em “Aquele Beijo”) é artista nascida em São Paulo com carreira respeitável, com tantos papéis inesquecíveis, que podemos citar apenas alguns, sem que se desmereçam os demais. Vamos a eles: a Jerusa de “Gabriela” (1975), a Carolina de “A Moreninha” (1975), a Rosália de “Dona Xepa” (1977), as Maria Alves/Maria Dusá de “Maria, Maria” (1978), a Beatriz de “Anos Dourados” (1986), a Berenice de “Meu Bem Meu Mal” (1990), a Augusta de “A Justiceira” (1997), a Edna de “O Clone” (2001), a D. Maria Gonçalves de “A Casa das Sete Mulheres” (2003), a Mazé de “América” (2005), a Kochi de “Caminho das Índias” (2009), e a Margarida de “A Cura” (2010). Haveria bastante o que mencionar ainda. Concluo que, face a tudo isto, pensando em Nívea, poderia haver nos créditos de abertura de um folhetim o seguinte escrito: “Participação Especialíssima de…”
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Talvez nunca se tenha visto em uma novela um sequestro com tantas reviravoltas como as que se deram com o de Carminha (Adriana Esteves), em “Avenida Brasil”, de João Emanuel Carneiro, cujo desfecho ocorreu no capítulo de ontem. Quando tudo estava pronto para que se “estourasse” o cativeiro, e a mulher de Tufão (Murilo Benício) fosse finalmente libertada, após Zezé (Cacau Protásio) ter comunicado a todos onde a patroa se encontrava, Max (Marcello Novaes) vai até ao seu quarto telefonar para os bandidos, e lhes informar da decisão da família, e surpreende-se ao perceber que o celular não está funcionando. Na verdade, foi uma volta que Nina (Débora Falabella) lhe deu, a primeira, ao deixar o aparelho mergulhado por um tempo dentro de um copo de água. Noutro instante, o grupo formado por Leleco (Marcos Caruso), seu filho, o amigo policial aposentado Zenon (Mário Hermeto), orientados pela empregada doméstica, chegam ao local do cativeiro. Claro que Max também fora. Só que municiado para qualquer eventualidade. O rapaz ficou encarregado de levar o resgate. Logo quem. E esconde a sua parte com a da amante no fundo de uma caçamba. Nina, disfarçada, que havia o seguido, vê. Depois, o filho de Nilo (José de Abreu) dá um disparo como alerta para os criminosos ficarem cientes de que a casa está cercada. O clima fica tenso. Não se chega a um acordo. O personagem de Marcello Novaes se oferece para tentar uma negociação. Assentimento geral. Zenon decide invadir a área, e ao entrar com os companheiros, depara-se com Carmen Lucia amarrada, e Max ferido. Os meliantes estavam no alçapão. Um ardil. Contudo, quando Moreira (Rodrigo Rangel) e seus asseclas estavam fugindo, Zenon os repreende. E ao indagar a Carminha se eram os praticantes do delito, ouve que não. A segunda volta que Nina dá em Max acontece. Ela pega a dinheirama “malocada”, e a põe na mochila. Carminha é recebida em casa com comoção (Nina já está lá). Tufão faz até discurso, e cita um poeta: “O que importa é o que interessa. O resto, tanto faz.” Quando Max retorna ao esconderijo para buscar o dinheiro, nada encontra, e fica atônito. De volta à mansão, conta na sauna para a sua cúmplice o que decorrera, e escuta série implacável de impropérios. Algo do tipo: “Tu ‘é’ um nada! Ou: “Se não fosse eu onde que tu “tava” ainda? Limpando os ‘porco’ do Nilo!” As ofensas continuam a ponto de Carmen ser quase agredida. Os dois rompem. No tocante a Nina, não sabe o que fazer com a fortuna. Não quer guardá-la, e ao pedir a Lucinda (Vera Holtz) que o faça, a mãe de criação se recusa. O marido de Ivana (Letícia Isnard) sai de casa embriagado, e se envolve num acidente com o carro perto do lixão. A chef corre até lá, e ao ser perguntada pelo outro envolvido na colisão de quem se tratava, ela responde que era a mulher de Max. Surge aí uma nova aliança. São as voltas que a Nina dá.
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Foto: Claudia Raia no espetáculo “Cabaret”/Ernesto Rodrigues/AEClaudia Raia é uma atriz de musicais. Ela está atualmente se apresentando em São Paulo com o espetáculo “Cabaret”, baseado na peça original de Joe Masteroff, que se inspirou em outra peça, “Eu Sou Uma Câmera”, de John Van Druten. E esta por sua vez foi inspirada no livro de Christopher Isherwood, “Adeus, Berlim”. As músicas originais de John Kander e Fred Ebb foram adaptadas por Miguel Falabella, além dos textos. A direção ficou a cargo de José Possi Neto. De início, assisti a Claudia na TV em sua estreia, no humorístico “Viva o Gordo”, no qual ao lado de Jô Soares e Eliezer Motta, protagonizou o quadro “Vamos malhar?”. Era bem divertido. Eu ficava de fato impressionado com a plenitude da esbelteza daquela mulher bastante jovem. Claudia, desde cedo, dedicara-se à dança. E a praticara como profissional nos Estados Unidos, tendo treinado balé, após ganhar bolsa de estudos em Nova York. Toda esta importante experiência a fez estrelar série de musicais no Brasil. Musicais de inegável repercussão, tendo estes contribuído sobremaneira para que se revitalizasse o gênero já não tão merecedor de atenção em terras nacionais. Exemplos de espetáculos que atendem a esta qualificação: “A Chorus Line”, “Não Fuja da Raia” e “Caia na Raia”. Fizera ainda o prestigiado “O Beijo da Mulher-Aranha”, sob a direção de Miguel Falabella. E falando em Miguel, dividira com ele “Batalha de Arroz Num Ringue Para Dois”. Afora, integrara sucessos inquestionáveis como “Splish Splash”, “Sweet Charity” (ao lado de Marcelo Médici), “Pernas pro Ar” e “5 X Comédia”. No cinema, emprestara a imagem à adaptação de Ruy Guerra para obra de Antonio Callado, “Kuarup” (o livro chama-se “Quarup”), “Boca de Ouro” (Nelson Rodrigues), dirigido por Walter Avancini, e “Os Normais 2 – A Noite Mais Maluca de Todas”, de José Alvarenga Jr., dentre outros. Já na televisão, tentemos traçar um panorama dos papéis que mais a marcaram. Depois de “Viva o Gordo”, formara trio com Yoná Magalhães e Ísis de Oliveira, em “Roque Santeiro”, de Dias Gomes e Aguinaldo Silva, como Ninon. Em “Sassaricando”, de Silvio de Abreu, caiu irremediavelmente nas graças do público como a Tancinha. É escalada para o revolucionário, em termos de novas visão e abordagem do humor, “TV Pirata”. Trabalha de novo com Silvio de Abreu (autor com quem voltaria a constituir parceria), em “Rainha da Sucata”, como a divertida e estabanada “bailarina da coxa grossa” Adriana Ross, cujo bordão era: – Geeente!; “Deus nos Acuda”, de Silvio de Abreu; “Torre de Babel”, do mesmo Silvio, em que era a sofisticada Ângela Vidal; “As Filhas da Mãe” (Silvio de Abreu lhe dera personagem polêmica); “Belíssima”, novela de Silvio na qual fora a fogosa Safira (ótima dupla com Reynaldo Gianecchini), “A Favorita”, de João Emanuel Carneiro (com esta produção arrojada no contexto de narrativa teledramatúrgica, a intérprete só fez ratificar suas potencialidades), e “Ti-ti-ti”, “remake” de Maria Adelaide Amaral, no qual chegou e “causou”. Agora, não sejamos injustos em não mencionar a boa minissérie adaptada de Nelson Rodrigues, “Engraçadinha – Seus Amores e Seus Pecados”. Claudia Raia, que fará o próximo folhetim das 20h de Gloria Perez, já recebeu diversos prêmios, cantou, dançou, atuou, mas tenho para mim que aqueles que a admiram desejam que ela continue a cantar, dançar, atuar e… receber prêmios. Além de ser a Claudia Raia de sempre, sem tirar nem pôr.



